sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Ainda sobre a auditoria de gestão

António Varela, subdiretor do Record, deu a sua opinião sobre a auditoria de gestão que o Sporting adjudicou recentemente.

"O presidente do Sporting apresenta duas razões principais para a realização da auditoria à gestão dos seis últimos presidentes do clube: 1 – o cumprimento de uma promessa eleitoral; 2 – trata-se de 'um ato de gestão fundamental'. É pouco para justificar o gasto de 319 mil euros, sabendo que esse valor poderia pagar os salários de alguns futebolistas de nome menos cintilante."

"Quanto à promessa eleitoral, grande parte dos adeptos do Sporting nem dela se recordarão, agora que a equipa vai formosa e segura na liderança da Liga (...) Quem está preocupado com o passado, quando o presente e o futuro são de grande confiança e, porventura, justificado otimismo?"

"O 'ato de gestão', esse levanta as maiores dúvidas. Em regra, as auditorias são encomendadas a priori, isto é, antes de se tomarem decisões estratégicas, como comprar uma empresa. A posteriori têm efeito reduzido, para além de uma reação de consequências sem impacto."


"Então, para que serve a auditoria se não para ajustar contas com o passado, em particular com os que o acusaram de populista, 'novo Jorge Gonçalves' ou mesmo 'Vale e Azevedo do Sporting'? Na prática, Carvalho tem a secreta esperança de encontrar 'gatos' nas contas que consiga imputar aos antecessores, em particular Godinho Lopes. E se isso acontecer, se as 'bruxas forem caçadas', o normal é que aconteçam processos judiciais e o clube possa ser ressarcido dos prejuízos. Só nesse caso o gasto dos 319 mil euros na auditoria terá sido de alguma utilidade."

A promessa eleitoral

Só o facto de se tratar de uma promessa eleitoral é motivo mais que suficiente para se levar por diante a auditoria de gestão. De promessas eleitorais não cumpridas estamos todos fartos. No entanto, a auditoria de gestão não foi uma promessa só de Bruno de Carvalho. É algo com que todos os candidatos estavam de acordo durante a campanha.

Os 319 mil euros

É indiscutivelmente muito dinheiro, mas quem conhece as tarifas praticadas pelas consultoras / auditoras sabe que não é um valor exorbitante para um projeto que durará mais de um ano e que terá certamente uma equipa dedicada a tempo inteiro.

E o argumento de que este dinheiro poderia ser canalizado para pagar salários de outros jogadores menos cintilantes é risível. Se formos por aí, também poderíamos dizer que se o Record não gastasse dinheiro em papel higiénico e toalhetes para a casa de banho, poderia contratar mais um estagiário para procurar ainda mais fotografias de mulheres semi-nuas para colocarem nas fotogalerias do seu site.

Memória curta?

Acho discutível a afirmação de António Varela sobre grande parte dos adeptos não se recordar dessa promessa eleitoral. Pelo menos para mim a necessidade de se fazer a auditoria de gestão esteve sempre presente. É que apesar de a carreira da equipa de futebol estar a exceder todas as expetativas, a forma como o Sporting foi gerido nos últimos anos abriu feridas profundas que demorarão a sarar por completo. Aliás, eu recuso-me a esquecer este passado recente tão doloroso.

A utilidade da auditoria

Vivemos num país em que a culpa morre quase sempre solteira. Seja por falta de vontade em desenterrar o passado, seja pelo mau funcionamento de todo o nosso sistema judicial, crimes como peculato ou fraude raramente têm os devidos castigos. Eu não quero que isso aconteça também com o Sporting.

É certo que pode ser muito complicado distinguir de forma clara decisões que são pura incompetência de decisões que são criminosas. A intenção por detrás de uma decisão é sempre muito difícil de analisar e, acima de tudo, de provar. No entanto, mesmo que não se consigam provar crimes que possam ter ocorrido, é importante que os antigos dirigentes que colocaram o Sporting no estado que todos conhecemos sejam responsabilizados publicamente. Não preciso que a auditoria de gestão faça grandes juízos de valor. Se apresentarem factos que exponham a má-fé ou incompetência de quem não colocou os interesses do clube em primeiro lugar, a auditoria terá valido os €319.000 que vai custar. Não é uma questão de vingança. É uma questão de transparência e justiça.

Auditoria encomendada

Em relação às "auditorias encomendadas" que António Varela refere, também tenho a opinião que existem sempre determinadas orientações do cliente que serão levadas em consideração pelos auditores. Os auditores têm uma obrigação de total rigor na sua análise, mas sabem também que precisam de agradar a quem lhes adjudica os contratos, a bem de oportunidades de negócio futuras.

Como tal, teremos que saber interpretar os resultados divulgados o melhor que pudermos.

Mas já agora que António Varela mencionou o assunto, seria interessante que os jornais tentassem analisar as contas dos clubes grandes de uma forma mais crítica. Despejar no papel as conclusões dos relatórios e contas não é suficiente. As contas que os clubes apresentam à CMVM devem ser questionadas, e não é o simples facto de serem auditadas que as coloca à prova de qualquer tipo de desconfiança. 

É que quem audita as contas quer, acima de tudo, continuar a fazer a auditoria dos anos seguintes. Se não puserem a assinatura num relatório que vá ao encontro das pretensões dos dirigentes dos clubes, por mais ou menos honestos que sejam, muito provavelmente serão afastados porque haverá na concorrência quem não tenha problemas de o fazer.

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