quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

O Tolo Enraivecido (Raging Fool)

Quando um colunista do Porto critica a prestação de jogadores do Porto, o normal seria que um sportinguista como eu se recostasse na cadeira e apreciasse a prosa com um sorriso nos lábios.

Mas não consigo ter esse sentimento quando Miguel Sousa Tavares escreve sobre Silvestre Varela.

É que não só a prosa é de fraca qualidade, como o desfile de demonstrações de ódio ao jogador portista é completamente repugnante. Na passada terça-feira, Miguel Sousa Tavares continuou a sua campanha contra o jogador portista escrevendo o seguinte no jornal A Bola:

2- Um leitor portista que comunga da minha estupefacção por ver o Silvestre Varela como titular indiscutível do FC Porto, sob o comando de Vítor Pereira e agora de Paulo Fonseca, deu-se ao trabalho de assentar, minuto a minuto, tudo o que Varela fez no jogo de quarta-feira, contra o Atlético de Madrid. O resultado foi, como eu sabia, um impressionante rol de bolas perdidas e passes falhados, cumulando num saldo final de quase absoluta inutilidade. E digo quase, porque, apesar de tudo, foi dos seus jogos mais conseguidos: cabeceou uma bola à trave e fez um cruzamento para Jackson atirar também uma bola ao poste. Isto, aos olhos de Paulo Fonseca e da critica, sempre tão generosa com Varela, é uma exibição de encher o olho. Sem surpresa alguma, portanto, lá estava ele como titular frente ao Rio Ave, aliás pela 100ª vez na Liga portuguesa. E, desta vez, fui eu que me muni de um bloco notas e de uma caneta para registar tudo, absolutamente tudo, o que Varela fizesse em mais uma grande exibição.

Antes, porém, deixem-me reproduzir o que aqui se escreveu sobre o desempenho de Varela contra o Rio Ave. Na crónica do jogo, Nuno Vieira escreveu que «o extremo foi o principal agitador do ataque, foi ele quem manteve a chama ofensiva da equipa». E, na apreciação individual, Rui Amorim deu-lhe uma nota 6 e escreveu: «entortou Lionn e serviu de bandeja o golo de Jackson, divertindo-se com mais umas quantas diabruras pelas alas». Agora, o que exactamente aconteceu:

- Aos 50 minutos, Varela fintou muito bem o defesa Lionn e cruzou para Jackson facturar em estilo.
 

- Aos 90+1, já como jogo decidido, passou pelo defesa em contra-ataque e cruzou para ninguém. E isto foi o total das diabruras que fez durante todo o jogo: um cruzamento bem feito que deu golo e outro mal feito. De resto, e em todo o jogo, não teve outro cruzamento, um livre ou um canto batidos, um remate à baliza, um passe a desmarcar na frente, um passe em profundidade, uma simples finta sobre um adversário;

- Recebeu e perdeu a bola 15 vezes (minutos 3,9,12,21,29,35, 38,55,61,64,65,75,78,84 e 88);

- Ganhou um canto, sofreu uma falta, fez um corte defensivo e foi batido duas vezes em velocidade;

- Recebeu a bola e passou curto para a frente uma vez, para o lado duas vezes e para trás 18 vezes (junto com as perdas de bola, a sua jogada mais comum).

Desafio os críticos e Paulo Fonseca a verem o vídeo do jogo e a desmentirem-me.

Como não vi o jogo, não sei se Varela jogou bem ou não. O que sei é que para a história ficará uma assistência para golo e uma vitória por 3-1. Mesmo que Varela tenha feito tudo o resto mal, não me parece que seja razoável este tipo de análise. Uma coisa é colocar em causa o rendimento de um jogador, outra é procurar ridicularizá-lo.

No passado, Miguel Sousa Tavares declarou que não voltará ao Dragão enquanto Varela for titular do Porto. Uma forma estranha de demonstrar o amor por um clube, mas cada um vive o futebol como bem entende.

Miguel Sousa Tavares tem o direito de não gostar do estilo de jogo de Varela, mas a forma como o persegue, semana após semana, jogue bem ou jogue mal, só faz lembrar um pugilista que continua a agredir de forma selvagem um opositor que jaz inanimado no chão sem a possibilidade de se defender.

Poderão dizer-me que Varela pode sempre responder dentro de campo. Não pode, responderei eu. Varela até pode fazer a melhor exibição da sua vida e resolver sozinho um jogo, que Miguel Sousa Tavares optará por escrever na terça-feira seguinte sobre as debilidades de Benfica e Sporting, sobre a subida forma da equipa do Porto sem referir nomes, sobre os belos dias da caça à perdiz, mas nunca, nunca será homem para dar a mão à palmatória.

Varela é um bom jogador, tanto quanto sei é um ótimo profissional, e não merece ser tratado desta forma num jornal de tiragem nacional.

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