sábado, 30 de novembro de 2013

Paulo Fonseca no olho do furacão

Manuel Queiroz, num espaço que tem no DN, fez uma crónica sobre a atual situação do Porto. Vou destacar as partes do texto que me parecem mais interessantes.

O FC Porto tentou Manuel Pellegrini (acabou por sair do Málaga para o Manchester City), pensou em Mano Menezes (havia uma fação forte a favor do brasileiro), falou com Marco Silva e decidiu-se por Paulo Fonseca para substituir Vítor Pereira no cargo de treinador.

Cinco meses depois, há assobios no Dragão. Por alguma razão que não se consegue explicar, havia uma defesa de betão que passou a sofrer golos quanto mais estúpidos melhor e um ataque que só mantém intensidade durante uma parte dos jogos - e geralmente menos de 45 minutos. E sobretudo perdeu dois jogos em casa para a Liga dos Campeões que tornam muito complicado chegar aos oitavos de final.

Paulo Fonseca está no olho do furacão, na minha opinião sobretudo porque não tem sabido gerir bem a equipa (substituições repetidas após os 80 minutos para tentar marcar um golo em catástrofe) e porque ficou sem Fucile e Izmailov para a Liga dos Campeões e nessa prova não inscreveu Kelvin e Carlos Eduardo (por causa do número de estrangeiros). E há, numa equipa que tenta jogar mais em contra-ataque, uma incongruência, que é ter emprestado Iturbe, que nesse tipo de jogo é dos mais fortes do plantel. 

As críticas que Manuel Queiroz espelham bem o sentimento da generalidade dos adeptos do Porto, que mostraram lenços brancos ao treinador no final do jogo com o Austria Viena, e despediram a equipa com uma enorme assobiadela.

Foto: abola.pt

Paulo Fonseca está de facto no olho do furacão, e a maior parte dos portistas parecem desejar que seja rapidamente arrastado pelo vento. Isto apesar de a equipa estar em primeiro lugar no campeonato e ter passado com distinção uma eliminatória complicada na Taça de Portugal.

Será que é justo o tratamento que os portistas estão a dar o seu treinador?

Já escrevi a minha opinião sobre o que é a cadeira de sonho para treinadores que chegam ao Porto com experiência reduzida. O que Pinto da Costa tem procurado, ao contratar profissionais com pouca experiência como Paulo Fonseca para dirigir a equipa de futebol, é alguém que seja competente no treino e que aceite sem contestação o plantel que lhe ponham à disposição. Capacidade de liderança não é necessária porque a "estrutura" se encarrega de pôr os jogadores na linha se for caso disso. 

A referência de Queiroz a Pellegrini e a Mano Menezes é um pouco estranha porque desde Carlos Alberto Silva o Porto não voltou a contratar um treinador estrangeiro de reputação mundial sem experiência de futebol português. Admito que possa ser verdade, mas não deixa de ser estranho.


A verdade é que Pinto da Costa acabou por apostar em Paulo Fonseca para a missão mais complicada que algum treinador no Porto teve desde 2004/05, quando o Porto ficou de repente sem Mourinho, Paulo Ferreira, Ricardo Carvalho, Carlos Alberto e Deco, e em que os que ficaram tinham uma enorme vontade de dar o salto para outros campeonatos. 

O Porto assinou com Paulo Fonseca a 10 de Junho. Nessa altura, já estavam contratados Reyes, Ricardo, Tiago Rodrigues e Carlos Eduardo. Até agora a sua utilização foi nula ou perto disso. Umas semanas depois de Fonseca entrar no clube o Porto contratou Herrera, Quintero e Ghilas para colmatar falhas óbvias do plantel, mas ninguém acredita que o treinador tenha tido um papel decisivo na escolha dos jogadores. De qualquer forma Herrera ainda não convenceu, Quintero promete ainda não está pronto para levar a equipa às costas, e Ghilas é o que se sabe.
 
O sucesso recente do Porto tem muito a ver com o facto de terem contado com jogadores como Hulk, Moutinho, Falcao e James. Jogadores de classe mundial que juntos podiam desfazer praticamente qualquer defesa que estivesse à sua frente. Só que esses jogadores foram saindo gradualmente, e a única contratação para os substituir que teve um rendimento imediato e à altura dos antecessores foi Jackson. Com o devido respeito, não se pode exigir a Licá, Varela, Ricardo, Ghilas, Carlos Eduardo ou Herrera que façam o mesmo que os jogadores que saíram a troco de dezenas de milhões de Euros.

É certo que no Porto a qualidade do treinador pode ser um fator secundário para o sucesso, mas não se pode dizer o mesmo da qualidade dos jogadores.

Quem devia estar no olho do furacão é a "estrutura" que escolheu Paulo Fonseca e que falhou na missão de lhe dar matéria-prima que permita manter a equipa dominadora que o Porto tem apresentado nos últimos 3 anos. Mas é estranho que sejam poucos os comentadores que, quando procuram responsáveis pela situação, se dêem ao trabalho de o fazer para além do treinador.

Quando Manuel Queiroz tenta justificar o fracasso na Liga dos Campeões pelo facto de Paulo Fonseca não contar com Fucile, Izmailov, Carlos Eduardo, Kelvin e Iturbe, só pode estar a brincar. Alguém acredita que fariam alguma diferença em relação aos que estão a jogar? A verdade é que com ou sem esses jogadores, o banco do Porto deixa muito a desejar. Se as opções fossem melhores, certamente que Paulo Fonseca optaria por fazer substituições mais cedo, em caso de necessidade.

Outra questão relevante é que sem extremos de qualidade indiscutível, o poder ofensivo do Porto recai demasiado sobre os laterais. Danilo e Alex Sandro são excelentes jogadores, mas são defesas. Para poderem causar desequilíbrios lá à frente, é evidente que aumentam as probabilidades de sobrarem desequilíbrios defensivos quando o adversário recupera a bola. E se os avançados adversários conseguem chegar com muito mais facilidade à área do Porto, é natural que os defesas cometam mais asneiras do que habituaram os seus adeptos no passado.

Paulo Fonseca tem obviamente que responder por algumas decisões discutíveis que tem tomado, mas na minha opinião os problemas do Porto devem-se essencialmente ao facto de ter um plantel desequilibrado e com défice de classe relativamente ao que nos habituou nos últimos anos.

Todos sabemos que os adeptos do Porto estarão eternamente gratos a Pinto da Costa e aos restantes dirigentes pelo que lhes deram a ganhar nas últimas décadas, mas isso não justifica que canalizem toda a insatisfação na direção de Paulo Fonseca, esquecendo-se ao mesmo tempo de pedir responsabilidades a quem realmente manda e toma as decisões que acabam por definir o sucesso ou insucesso de uma época. É que quando as coisas correm bem, é sempre a "estrutura" que fica com os louros.

P.S.: não estou com este texto a fazer comparações do plantel do Porto com o do Sporting ou o do Benfica; estou apenas a comparar o plantel do Porto 2013/14 com o das épocas anteriores.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

À atenção de Hugo Gilberto

Rui Patrício participou hoje numa ação de solidariedade promovida por uma ONG, em que fez de co-piloto numa prova de todo-o-terreno.

Não estava lá ninguém para perguntar ao guarda-redes do Sporting se ainda pensa muito nos erros que cometeu contra Israel e Benfica.

Onde estava Hugo Gilberto quando o país mais uma vez precisou das perguntas pertinentes que só ele se lembra de fazer?

Cristiano Ronaldo: talento de geração espontânea ou produto da formação?

Há umas semanas, quando Guilherme Aguiar e Rui Gomes da Silva menorizaram a importância da formação do Sporting na construção de Cristiano Ronaldo (e Nani, e Futre), fiquei com vontade de abordar o tema. Um jogador como Ronaldo deve o seu sucesso ao seu talento inato, ou à escola que o formou?


(vídeo: 1m15s)

Como é evidente, a opinião de Gomes da Silva e Guilherme Aguiar não pode ser levada muito a sério. Gomes da Silva já havia dito numa outra ocasião que Ronaldo apenas tinha efetuado 5 jogos pelo Sporting, o que objetivamente é falso. É certo que Ronaldo só fez uma época de sénior no Sporting, mas jogou por 31 vezes em partidas oficiais. Para além disso os dois comentadores estão ao serviço de outros clubes, e diriam exatamente o oposto caso se tratasse de um jogador da formação de Benfica ou Porto, mesmo que tivessem o mesmo tipo de percurso.

Uma outra opinião que defende que Ronaldo não deve nada à formação, é a de Luís Freitas Lobo. No programa Jogo Jogado de 18 de Novembro, Freitas Lobo fez a seguinte argumentação sobre o tema.


(áudio: 56s)

Já em 2003, antes de Liedson chegar ao Sporting, Freitas Lobo escreveu um artigo sobre o brasileiro, onde abordava a temática dos talentos de geração espontânea vs. produtos de formação, do qual vou retirar alguns excertos:

"Os grandes craques são de geração espontânea ou produtos de formação? Eis um debate antigo. Em tese, a formação sempre foi a grande referência. Uma teoria desmoronada quando pisamos terras brasileiras e, por todo o lado, se tropeça em craques como se fossem cogumelos. É o caso de Liedson, revelação do ataque do Corinthians."

"Até 1999, ou seja, até aos 22 anos, em vez de passar pelos escalões jovens, ele trabalhou como mecânico de automóvel, ajudante de pintor e repositor de supermercado, até que, um belo dia, alguém lhe deu uma bola para os pés e provou que os grandes craques não se fabricam, nem se procuram, simplesmente... encontram-se!"

Respeito a opinião de Freitas Lobo, por ser coerente e por não depender do clube em que um determinado jogador se formou, ao contrário de Gomes da Silva e Guilherme Aguiar. No entanto, não estou de acordo com esta visão.

Num planeta com 7.000.000.000 de almas certamente que existirão mais alguns com o mesmo nível de talento, mas que nunca conheceremos porque por um motivo ou por outro não souberam ou puderam desenvolvê-lo.

Liedson foi de facto um excelente jogador que os sportinguistas tiveram a felicidade de ver na sua equipa durante largos anos. A sua história de repositor de supermercado até lhe deu uma aura ainda mais fascinante, uma espécie de Cinderella Man dos tempos modernos. Mas também podemos pensar no que poderia ter sido Liedson se tivesse passado por uma formação competente desde os seus 12, 13 anos.

Será que gente conhecedora, habituada a lidar com jovens cheios de talento, não teriam tido a capacidade de orientar o jogador de forma a trabalhar o seu talento, os seus conhecimentos do jogo, a sua força psicológica e espírito competitivo?

Da mesmo forma que podemos perguntar o que seria de Cristiano Ronaldo se andasse a fazer a reposição dos supermercados Sá aos 19 anos. Uma coisa é certa: aos 18 não estaria no Manchester United. E certamente que hoje não seria o jogador que é.

E continuando ainda num exercício de suposição: imaginemos que Ronaldo não tinha entrado no Sporting aos 12 anos. Continuando no Nacional, seria bem possível que chamasse a atenção de clubes maiores passado pouco tempo. Vamos supor que Benfica ou Porto o iriam buscar com 14/15 anos. Será que a sua ascensão à equipa principal seria tão precoce como foi no Sporting? Dúvido. Não só não há cultura nesses clubes para fazer uma aposta consistente em jovens da formação na equipa principal, como, convenhamos, a qualidade do trabalho de Benfica e Porto nas camadas jovens é inferior.

Não é preciso ser-se um especialista em formação de futebolistas para se poder afirmar isto. Basta ver o aproveitamento das formações dos clubes grandes e a base da seleção portuguesa nos últimos 20 anos para chegar à conclusão que a formação do Sporting é superior à dos seus rivais.

É evidente que Cristiano Ronaldo é o monstro de jogador que conhecemos devido à combinação de um talento invulgar com uma capacidade de trabalho exemplar. Ronaldo tem uma força mental e um ego semelhante a outros desportistas de topo como LeBron James, Kobe Bryant, Michael Jordan, Usain Bolt, Muhammad Ali ou Floyd Mayweather. Atletas que sabem que são fenomenais e que vivem para ser os melhores, trabalhando o que for preciso para o conseguir.

No entanto, Ronaldo dificilmente conseguiria atingir este nível estratosférico se não fosse devidamente orientado e ensinado desde cedo. Não importa o muito talento com que se possa nascer, há sempre espaço para evolução. E quanto mais precoce for essa formação, quanto mais cedo os formadores conseguirem corrigir o que há para ser corrigido, ensinar o que há para ser ensinado, ajudando-o a conhecer-se, tendo em consideração as características físicas, técnicas, mentais do jovem jogador que têm à frente, as possibilidades que terá no futuro serão muito mais amplas.

Isto aplica-se para tudo na vida. A formação potencia o talento e a capacidade inata de um indivíduo. É claro que a formação não cria talento onde ele não existe. A formação cria competência na utilização e no aperfeiçoamento do talento com que a pessoa nasceu.

Mozart é um dos maiores génios de sempre da música. Aos 5 anos tocava para a realeza austríaca. Se o pai não fosse professor de música, será que a história teria sido a mesma?

No caso do Ronaldo, um conjunto de fatores aliou-se de forma a produzir um dos melhores futebolistas na história. Talento, força mental, formação jovem de topo (Sporting), continuação da sua formação no ambiente mais competitivo do mundo (Manchester United), contando sempre com pessoas que colocaram a evolução do jogador no topo das prioridades, tendo paciência e não queimando etapas na sua progressão.

Portanto, Ronaldo é um talento de geração espontânea ou um produto da formação? Na minha opinião, as duas. Tire-se uma delas e o jogador não seria o que é hoje.

Para terminar, deixo aqui umas declarações de Aurélio Pereira no programa Quinta da Bola, no passado dia 21. Se há alguém que sabe, é ele.

O Cristiano, depois de sair do Sporting, entrou no clube certo com o treinador certo. A formação que o Sporting lhe deu, que na minha opinião é a mais importante, ou seja, é o leite materno, é o desenvolvimento de todas as qualidades sem fazer asneiras, sem especialização precoce, ajustado ao seu físico, deixando o miúdo crescer, que infelizmente é aquilo que não se vê muitas vezes. E se nós olharmos para muitos craques brasileiros, carregados já de trabalho precoce, de vitaminas e não sei que mais, e quando chegam aqui à Europa têm uma carreira curta. O próprio Figo, e os jogadores que não são sujeitos a trabalhos forçados, têm uma longevidade totalmente diferente. O Figo fez uma carreira a um nível altamente elevado, sempre daquela bitola. Todos os jogadores da formação do Sporting mantêm níveis exibicionais exatamente porque a cultura não é fazer equipas, é fazer jogadores.
Quando o Boloni chamou o Ronaldo para fazer a pré-época, nós estávamos a disputar a fase final do campeonato nacional de juvenis, era para nós importante ganhar esse campeonato, estávamos em Junho. O que é que a formação do Sporting fez? OK, vais fazer a pré-época, não vais disputar os jogos que faltam do campeonato nacional, não te importes com isso. Foi com um programa específico para casa, descansar, para depois vir à pré-época perfeitamente seguro e tranquilo. Isto é que se chama formação. E o Sporting acabou por perder esse campeonato, mas ninguém se queixou. O Sporting não perdeu esse campeonato, o Sporting ganhou esse campeonato, porque ganhou um jogador.
E é nessa função, quando no ano passado perdemos o campeonato nacional de júniores, algumas pessoas podem ter ficado muito incomodadas, eu diria que nós ganhámos um campeonato nacional de júniores. E porquê? Porque tínhamos na primeira equipa o Bruma e o Eric. As pessoas têm que perder essa mentalidade de que é ganhando campeonatos que se trabalha bem. Não é assim.

O mau exemplo do jornalismo espanhol

Os ecos da vitória de Portugal sobre a Suécia correram mundo, e a exibição de Cristiano Ronaldo deverá ter sido tema de conversa nos cinco continentes.

Deu para ver imagens com comentários em búlgaro, em árabe, em espanhol, em português do Brasil, em inglês e muitos outros idiomas. Não houve jornal desportivo de referência que não guardasse os mais rasgados elogios a Ronaldo. Ressurgiram as críticas a Blatter. Uma multinacional foi criticada por anúncios publicitários que feriram algumas suscetibilidades.

É o folclore normal neste tipo de situações. No entanto, devo dizer que houve uma coisa que me incomodou a sério:



Este senhor é jornalista do As. É o editor chefe da secção de notícias do Real Madrid e, como é evidente pelo cachecol que enverga no vídeo, é um adepto fanático dessa equipa. É sabido que os jornais espanhóis como a Marca, o As ou o Mundo Deportivo, apoiam declaradamente uma equipa, pelo que este tipo de reação acaba por nem ser muito surpreendente.

O jornalismo desportivo em Portugal, e em particular os jornais, também não são um baluarte da isenção. A Bola sempre foi conotada ao Benfica, O Jogo ao Porto, e o Record, que no passado navegava por águas menos declaradas, teve uma correção de rumo desde que Manha passou a estar ao leme e encostou-se a Vieira e ao Benfica.

A popularidade do futebol espanhol é enorme em todo o mundo. Desde que os clubes espanhóis passaram a ter os nossos principais jogadores e treinadores, como Figo, Ronaldo ou Mourinho, que o campeonato do país vizinho passou a ser seguido com uma atenção quase reverencial por parte da nossa comunicação social.

Termos como "remontada" ou "tripleta" passaram a fazer parte do vocabulário futebolístico em Portugal. As discussões sobre Real e Barcelona, sobre Mourinho e Guardiola, sobre Ronaldo e Messi, apresentam um nível de paixão que quase rivaliza com as conversas à volta de Porto, Benfica e Sporting. Mudam-se horários de jogo da liga portuguesa para não colidir com os grandes jogos da liga espanhola.

Na época passada, cheguei a ouvir comentadores a defender que o papel do Sporting no futebol português é desnecessário, pois o campeonato espanhol provou que é possível ter um campeonato de topo apenas com duas equipas a lutar pelo título.
No mundo do futebol, a única coisa em que Espanha não está melhor que Portugal é precisamente no jornalismo desportivo. Os nossos jornais são péssimos, mas ainda não chegaram ao ponto de declararem o apoio explícito a uma equipa. Não que no fundo não o façam diariamente de forma evidente nas capas, nos comentários ou nas notícias que divulgam.

Mas tenho medo que, olhando para o exemplo espanhol, os nossos jornais sucumbam à tentação de declararem o apoio oficial a um clube. Não porque uma tomada de posição dessas fosse mudar para pior o que temos hoje, mas porque se isso acontecer será a travessia do Rubicão, a passagem pelo ponto de não retorno. Até lá, vou mantendo a esperança que os proprietários dos jornais ponham a mão na consciência e acabem por trocar os Serpas, os Manhas e os Ribeiros por diretores isentos que deixem os jornalistas serem jornalistas.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Cinco pontos a reter do discurso de Rui Santos

Comentários de Rui Santos à 10ª jornada no último domingo


Pontos a reter do comentário:
  • é preciso olhar para toda a época do Porto
  • o Porto começa a mostrar sinais preocupantes de alguma decadência a partir da 5ª jornada
  • "E na verdade, quer nas apresentações europeias, quer na Taça de Portugal, quer também no campeonato nacional o Porto acaba de perder 4 pontos nos últimos 2 jogos!"

Comentários de Rui Santos à 8ª jornada, umas semanas antes


Pontos a reter do comentário:
  • o Porto tem uma defesa super-adulta
  • com os 5 pontos de avanço que o Porto tem à 8ª jornada, pode-se dizer que está encontrado o campeão nacional porque o Porto não vai abrandar

Tecnicamente, Rui Santos não está errado -- o Porto ainda não perdeu 5 pontos para os rivais. Mas é curioso ver como o comentador consegue fazer discursos completamente contraditórios, sempre com um ar de quem está totalmente convicto daquilo que diz. 

Não sou uma pessoa muito dada a experiências radicais, mas confesso que gostava de poder ler pensamentos por uns dias só para seguir o raciocínio de Rui Santos enquanto está a preparar o que vai dizer no programa seguinte.

Balanço das arbitragens: 10ª jornada

Porto 1-1 Nacional (Carlos Xistra)
13' - Lucho cai na área do Nacional num lance dividido com Mexer, o árbitro não assinala nada - decisão correta, Mexer acerta apenas na bola
24' - Josué remata e a bola bate no braço de um defesa do Nacional - decisão correta, o defesa encolhe-se perante o remate que vai na sua direção, e tem o braço colado ao corpo, não aumentando a mancha que fez ao remate
=: não existiram erros críticos com influência no resultado
Benfica 1-0 Braga (Nuno Almeida)
52' - Garay cai na área do Braga embrulhado com Rúben Micael, o árbitro não assinala nada - decisão correta, Micael parece de facto agarrar Garay, mas o argentino também tem os braços à volta do bracarense, pelo que o penalty não se justificava
=: não existiram erros críticos com influência no resultado

Guimarães 0-1 Sporting (Paulo Baptista)
61' - Cédric derruba André André num contra-ataque, o árbitro optou por mostrar o cartão amarelo aoo defesa do Sporting - decisão correta, Capel seguia ao lado pelo que o jogador do Guimarães não estava isolado
87' - Golo de Slimani anulado por fora-de-jogo - decisão correta, o jogador estava adiantado no momento do remate de Carlos Mané
=: não existiram erros críticos com influência no resultado


Resumo da jornada






Acumulado da época



Classificação






Jogos com arbitragens com influência no resultado


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Momento "Mas o meu pai é mais grande do que o teu", por Eládio Paramés

No princípio do programa Contragolpe, após mostrarem as declarações de Leonardo Jardim no final do Guimarães - Sporting, tivemos o seguinte diálogo entre o moderador Sousa Martins e o comentador residente Eládio Paramés.

Sousa Martins: Ora cá está uma bela deixa para tema de conversa, as declarações de Leonardo Jardim, quando diz que o Sporting não é candidato ao título. Isto porque, diz o técnico do Sporting, o clube não tem estrutura. Percebes isto, Eládio?, boa noite.

Eládio Paramés: Boa noite. Percebo, é um discurso que parece que houve uma inflexão, que houve uma alteração relativamente ao último discurso de Leonardo Jardim. Gostei deste discurso, voltou àquela forma inicial, aquele discurso inicial do Sporting. Esta história da estrutura não me parece que seja nenhum recado, quer dizer, é a constatação de um facto.

Sousa Martins: Mas ó Eládio, o que é que falta à estrutura do Sporting? A questão é, não sendo o Sporting tão candidato como são Porto e Benfica, dado o investimento, dada a qualidade do plantel, dado aquilo que foi gasto em reforços, o Sporting não pode ter uma ponta de aspiração de chegar em primeiro lugar?

Eládio Paramés: Pode, pode ter, mas estamos no primeiro terço do campeonato, ainda há muitos jogos, ainda há muita coisa, vamos ver o que é que vai acontecer, mas dou-te um elemento, uma coisa curiosa: falou-se muito sempre na formação do Sporting, a grande formação do Sporting e a formação do Sporting e a formação do Sporting. Neste momento, por exemplo, nas seleções jovens há mais jogadores se calhar do Benfica do que do Sporting. Por exemplo, nos sub-21 é capaz de haver jogadores muito mais determinantes, oriundos da formação do Benfica, que do Sporting. E além disso, sabemos todos, os problemas que existem, as dificuldades financeiras, as dificuldades económicas do próprio Sporting, portanto quando ele fala na estrutura eu julgo que se refere a um mundo muito mais vasto, uma coisa interna que é conhecida, pelo menos em termos públicos, aquilo que tem vindo a público. Não me parece nenhum recado, não me parece nenhum recado como eventualmente pode surgir, ou na mente de alguns, mas não me parece um recado.


A argumentação de Paramés

Eládio Paramés teve, portanto, duas coisas a dizer em relação ao discurso de Leonardo Jardim. A primeira é que a referência à estrutura que LJ fez não é um recado para ninguém. A segunda é que, para Eládio Paramés, o principal exemplo que lhe ocorreu mencionar sobre a falta de estrutura do Sporting é a superioridade do Benfica em termos da formação.

Apanhando a embalagem da excelente vitória dos sub-21 em Israel, em que Portugal venceu por 4-3 em que 3 dos golos foram marcados por Ivan Cavaleiro, Bernardo Silva e André Gomes, e em que o outro foi marcado a partir de uma deliciosa jogada de Bernardo Silva, Eládio Paramés suporta o seu discurso argumentando que Leonardo Jardim não se considera candidato ao título porque a formação do Benfica é superior à do Sporting.

Bom, para além de ser uma argumentação sem pés nem cabeça, porque não tem nada a ver com o que Leonardo Jardim disse, dizer que "nos sub-21 é capaz de haver jogadores muito mais determinantes oriundos da formação do Benfica" é falar as coisas pela metade. Sim, é verdade que naquele jogo as figuras principais foram da formação do Benfica. Sim, a formação do Benfica forneceu José Sá (que foi dispensado para o Marítimo), Luís Martins (que foi dispensado para o Gil Vicente), André Gomes, Bernardo Silva e Ivan Cavaleiro.

Por acaso a formação do Sporting, naquele jogo, até tinha Ricardo Esgaio, Tiago Ilori, João Mário, Betinho e, se quiseremos ser preciosistas, Ricardo Pereira.

Eládio Paramés também se terá esquecido que Bruma e William Carvalho não jogaram pelos sub-21 porque estavam convocados para uns jogos de cariz lúdico contra uma determinada seleção escandinava. Por acaso William até foi utilizado num desses jogos.

Mais uma vez, temos um comentador a sentir-se na necessidade de se pôr nos bicos dos pés para declarar o fim da superioridade da formação do Sporting sobre as restantes equipas nacionais. Ainda por cima num contexto que não tinha qualquer ligação com a formação, o que demonstra que Paramés estava em pulgas para o fazer. Ou isso, ou estamos perante uma criança que à falta de argumentos para contrapor ao outro miúdo com quem está a discutir, vem com o clássico "Mas o meu pai é mais grande do que o teu" para terminar a conversa.


A postura de Paramés

Eládio Paramés tem uma postura curiosa no programa "Contragolpe". Quando fala do Benfica, fá-lo na terceira pessoa: "O Benfica isto, o Benfica aquilo.". Quando fala no Braga, fá-lo na primeira pessoa: "Nós isto, nós aquilo.". Eládio Paramés já foi diretor da SAD do Braga, pelo que se justifica o sentimento de posse que demonstra ao falar do clube minhoto.

No entanto, esta atitude do comentador não me parece justa para o Benfica, que se deverá sentir como um enteado nesta relação entre Eládio e os dois clubes da sua vida. É que Eládio foi o acessor de imprensa do Benfica durante a presidência de Vale e Azevedo.

Aliás, Eládio, ex-jornalista do jornal A Bola, parecia sentir-se tão à vontade no papel de acessor de imprensa do Benfica, que até nos proporcionou momentos dignos de Rui Cerqueira, como este em que agrediu o jornalista da RTP Noé Monteiro durante um estágio do Benfica em França.



Eládio deve ter ficado tão traumatizado por ter feito parte de pior presidência de um clube na história portuguesa, que agora renega publicamente o seu benfiquismo. Quer dizer, para ser mais rigoroso, apenas deixou de se assumir como benfiquista, que é uma coisa diferente. Típica de gente com consciência pesada.

607

607 foi o número de espetadores nas bancadas que assistiram ao Olhanense - Académica.

in maisfutebol.pt

Não vejo os dirigentes muito preocupados com as fracas assistências na principal competição nacional, mas de qualquer forma aqui ficam umas perguntas:

1. Como é possível que a Liga (que é como quem diz os clubes) aprove um regulamento que permite a marcação de jogos para a segunda-feira à noite?

2. Qual terá sido a audiência que a Sport TV conseguiu a mais por ter deslocado o jogo para este dia? Tendo 4 canais, não arranjavam um deles que o transmitisse no sábado ou no domingo?

3. Como é possível termos clubes na primeira divisão com este nível de assistências? O que diz sobre a sua sustentabilidade? Adeptos perto de zero significa interesse publicitário perto de zero e receitas perto de zero.

4. Eu sei que isto é uma utopia, mas já imaginaram um campeonato deste tipo:
  • 1ª fase com 12 clubes a 2 voltas (22 jornadas)
  • No final da 1ª fase, dividir os 12 clubes em 2 grupos, que continuam com os pontos conseguidos nas primeiras 22 jornadas.
  • O grupo do 1º ao 6º joga entre si a 2 voltas para determinar o campeão (10 jornadas).
  • O grupo do 7º ao 12º joga entre si a 2 voltas para determinar quem desce (10 jornadas).
Teríamos uma época com 32 jornadas (perfeitamente razoável), muito mais competitiva e com muito mais interesse para o público. De certeza que não teríamos jogos com apenas 607 almas na bancada.

Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és

Esta frase de Goethe é levada muito a sério por qualquer pessoa que concorra a um determinado cargo. 

Seja na política, na sociedade civil ou no panorama desportivo, os candidatos desdobram-se em contactos de forma a poderem contar com nomes ilustres na sua comissão de honra. O objetivo é transportar um pouco da credibilidade de quem faz parte desse grupo de notáveis para o próprio candidato.

António Salvador não é exceção. A sua comissão de honra é composta por cerca de 120 nomes, desde figuras mais desconhecidas até outros de reputação mundial, como por exemplo:
  • Joaquim Oliveira
  • Cristiano Ronaldo e Jorge Mendes (não é inocente o facto de eu os colocar numa única linha)
  • Hugo Viana, Mossoró, Artur Jorge e José Nuno Azevedo
  • Carlos Coutada (vice-presidente da FPF)
  • A maioria dos presidentes das juntas de freguesia do concelho de Braga
  • Marcelo Rebelo de Sousa
  • Miguel Macedo (ministro da administração interna)
  • Domingos Névoa
Sim, estou a falar de Domingos Névoa, empresário, dono da Bragaparques, condenado por corrupção ativa pelo Supremo Tribunal de Justiça.

in jn.pt

Estamos a falar do empresário que tentou subornar com €200.000 o advogado Ricardo Sá Fernandes, de forma que este convencesse o irmão, o vereador de Lisboa José Sá Fernandes, a defender o negócio de permuta de terrenos do Parque Mayer pela antiga Feira Popular, onde Domingos Névoa queria construir um centro comercial. Ricardo Sá Fernandes gravou a conversa e entregou a gravação às autoridades, e a partir daí começou o famoso processo Bragaparques.

Apesar de condenado, Domingos Névoa continua a renegar as escutas -- que parece ser uma característica que António Salvador aprecia nas suas amizades.

Gostaria de saber se Miguel Macedo e Marcelo Rebelo de Sousa tinham conhecimento, quando aceitaram integrar a comissão de honra de Salvador, que teriam a companhia de uma figura como Domingos Névoa. Diz-me com quem andas...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

O meu desejo para os jogos europeus de Porto e Benfica

O tempo em que sofria pelo sucesso de Benfica e Porto nas competições europeias já lá vai. 

Lembro-me, ainda menino, de ter torcido pela vitória do Porto contra o Bayern e de ter vibrado com o calcanhar de Madjer, não porque o meu sportinguismo fosse mais ténue na altura, mas porque via no sucesso do Porto também o sucesso do país.

Que ingénuo que era.

Não foi preciso passar muito tempo após 1987 para perceber que Pinto da Costa & amigos estão perfeitamente a borrifar-se para os interesses do país. Estamos a falar de gente que formulou o desejo de ver Lisboa a arder e que durante anos incendiou o país com uma estúpida guerra norte-sul para desviar as atenções das trafulhices que praticavam, como os famosos quinhentinhos, as viagens Cosmos, a oferta de fruta e café com leite, e tantos outros métodos vergonhosos de que todos fomos tendo conhecimento ao longo dos anos.

Enquanto esta malta por lá continuar, desejarei sempre que percam, seja no futebol, no andebol, no berlinde ou em processos criminais. Com uma exceção que mais à frente indicarei.

Em relação ao Benfica, a minha infância e adolescência foram sempre dominadas por um genuíno sentimento de ódio, causado pelo facto de ter tido quase sempre turmas em que a esmagadora maioria dos rapazes eram do Benfica, e em que eu era o único sportinguista ferrenho. Falamos de um período em que o Sporting teve um jejum prolongadíssimo e em que o Benfica ainda tinha um nível considerável de conquistas, tornando as discussões futebolísticas num inferno para um rapaz como eu.

Entretanto, fui amadurecendo e esse ódio foi-se dissipando. Hoje, posso dizer com sinceridade que não odeio o Benfica. Como é evidente, quero que o Benfica perca sempre nas competições nacionais, mas apenas por se tratar de um rival, e não por outro tipo de sentimentos menos puros.

Quando o Benfica joga nas competições europeias sinto uma certa indiferença. Só não é uma total indiferença por dois motivos que vou passar a expor.

O primeiro é que prefiro que não vão longe na Liga dos Campeões porque isso dá muito dinheiro, com o qual podem comprar mais um autocarro de sérvios ou argentinos, ou então que lhes permite resistir à venda de algum dos principais jogadores. O dinheiro facilita o fortalecimento da equipa e isso não é bom para o Sporting.

O segundo e principal motivo é que, quando o Benfica começa a cheirar a possibilidade de vir a ganhar alguma coisa, os benfiquistas ficam insuportáveis. É que não lhes basta festejar o sucesso pelo sucesso. O sucesso numa competição, para um benfiquista, não chega. Sentem imediatamente a necessidade de reivindicar um estatuto supostamente divino de serem o clube português que está acima de todos os outros, e com o qual só se podem equiparar os maiores colossos europeus.

A possibilidade real de sucesso desportivo está para o benfiquista assim como a água e a alimentação após a meia-noite estão para o mogwai: o número de benfiquistas multiplica-se de forma instantânea, e perdem a sua sanidade mental para além de qualquer razoabilidade.

À esquerda: um benfiquista após a derrota com o Guimarães em 2012/13; à direita: um benfiquista antes da derrota com o Porto em 2012/13


Tudo isto para dizer que desejo a Porto e Benfica os resultados suficientes para conseguirem apenas e só o 3º lugar na fase de grupos. Se forem parar à Liga Europa, significa que poderão contribuir com mais pontos para o ranking da UEFA, terão mais hipóteses de irem longe na competição e por isso sofrerão um desgaste físico muito superior, e ainda ganharão muito menos dinheiro. E há outra coisa: quem joga na Liga Europa tem menos dias de descanso para os jogos que se seguem para o campeonato, o que pode fazer toda a diferença.

Por isso saquem lá um empatezinho. Não é mau para vocês e eu até ficaria contente.

Os meus primeiros 45 minutos de Benfica TV

No passado sábado tive a oportunidade de assistir, pela primeira vez, a 45 minutos de um jogo na Benfica TV. Foi uma experiência nova para mim, pois não sou (nem creio que alguma vez virei a ser) um espetador assíduo do canal (planeio apenas assistir num café ao jogo que será transmitido na 18ª jornada).

É certo que só vi a segunda parte do Benfica - Braga, pelo que não é uma amostra muito significativa para poder avaliar devidamente o nível da transmissão de jogos do canal, mas vou fazer um comentário ao que vi, mesmo tendo consciência que poderei não estar a ser justo em alguns pontos. 

Mas a verdade é que mesmo que quisesse repetir a experiência para ter um melhor conhecimento de causa, não teria grandes oportunidades para o fazer -- até ao final do ano a Benfica TV transmitirá apenas mais um jogo do Benfica.

Tecnicamente a transmissão foi muito boa. Que me tenha apercebido, houve apenas uma falha: não mostraram a linha de fora-de-jogo num lance em que Markovic apareceu isolado em posição irregular, e em que só não marcou golo porque dominou mal a bola. O fiscal-de-linha devia ter assinalado fora-de-jogo, mas não o fez. Não sei se a linha de fora-de-jogo ficou por mostrar na repetição por ter sido um lance que favoreceu o Benfica, ou por falha técnica. O que é facto é que em todos os outros lances de fora-de-jogo (sempre bem ajuizados pelo árbitro) a linha foi colocada pela realização.

Do ponto de vista dos comentários (feitos por Hélder Conduto e Toni), não me surpreendeu o tom pró-Benfica dos mesmos. E acho isso algo perfeitamente natural -- comentários parciais nunca são desejáveis, mas seria difícil que isso não acontecesse num canal ligado a um clube, qualquer que ele seja.

O que não me pareceu tão natural foram os constantes elogios fáceis aos jogadores do Benfica, feitos principalmente por Hélder Conduto. Designar de "estrondosa" a exibição de Matic pareceu-me excessivo, apesar de ser indiscutível o papel decisivo que o médio teve no jogo. E existiram outros casos em que a adjetivação elogiosa empregue por Conduto ao Benfica e aos seus jogadores pareceu deslocada, em função do equilíbrio que o jogo teve. O mesmo se aplica a casos em que o comentador se absteve de fazer apontamentos negativos à equipa e a jogadores do Benfica em ocasiões em que se justificava.

É uma postura que menoriza o público que assiste à transmissão, e que sinto sempre que assisto a um jogo da seleção -- tenho sempre a sensação que me estão a tentar vender um peixe que não é tão fresco quanto dizem.

Se os comentários simpáticos fazem parte da estratégia editorial do canal, ou se são uma forma do comentador se proteger contra benfiquistas mais suscetíveis à crítica, não sei. O que sei é que para o jornalista Hélder Conduto não ficam nada bem.

Hélder Conduto foi um homem feliz com a exibição do Benfica
 
Gostei bem mais dos comentários de Toni, que sabe que pode dizer sem receios o que pensa -- se calhar porque em termos de benfiquismo é um homem que não tem nada a provar a ninguém.

Continuo a acreditar, tal como já escrevi no passado (aqui), que a Benfica TV é uma iniciativa muito corajosa e uma excelente ideia pelo que representa contra o poder de Joaquim Oliveira. Para ser uma aposta ganha, tem que ser algo que se mantenha no futuro, e poderá exigir que o clube assuma que é menos rentável do que se tivessem aceite a melhor proposta da Sport TV. 

É certo que a qualidade da transmissão e dos comentários são fatores que não terão grande influência no sucesso do canal (o que realmente interessa é a qualidade da equipa de futebol), mas por uma questão de postura e de exemplo, e para calar os inevitáveis detratores, seria desejável uma abordagem aos jogos o mais imparcial possível.

É que do ponto de vista ético há efetivamente dúvidas pertinentes, e a transmissão a que assisti não veio desmentir nenhuma delas.

P.S.: parece que no final do jogo de sábado a Benfica TV não conseguiu que Raul José comparecesse na flash interview. Não seria engraçado se desse direito a multa por parte da Liga?

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Trio d' Ataque Memória

O programa Trio d' Ataque dedicou a primeira parte ao Guimarães - Sporting, que tinha terminado pouco antes. 

Podemos dividir os 40 minutos em que se falou do Sporting em 3 fases distintas:


1. A análise ao jogo

Os paineleiros deram a sua opinião sobre o jogo. Gostaria de destacar duas frases de João Gobern.

Gobern (I)
"Eu acho que o Sporting hoje estava pressionado por dois lados: por um lado pela vitória do Benfica ontem, por outro lado pelo empate do FC Porto também ontem."

Ou seja, segundo Gobern o Sporting entra pressionado porque um adversário direto não perdeu pontos e entra pressionado porque um adversário direto perdeu pontos. Só falta dizer, em jornadas em que o Sporting jogue primeiro, que entra pressionado porque não sabe se os adversários diretos irão ou não perder pontos no dia seguinte...


Gobern (II)
"A verdade é que o Sporting, dos três grandes, este fim-de-semana em concreto, acho que foi aquele que menos mereceu ganhar o seu jogo. Na primeiro parte o Guimarães deu um verdadeiro banho de bola, não me lembro de o Sporting ter sido tão dominado esta época, nem sequer no Dragão, e depois há aquela coisa, há bolas que batem no poste e não entram <pausa>"

Se é verdade que o Guimarães foi melhor na primeira parte (apesar de ser um exagero a utilização do termo "verdadeiro banho de bola"), parece que se eclipsou da memória do paineleiro a igualmente pouco convincente exibição do Benfica contra o Braga. É que o Sporting pelo menos conseguiu dominar claramente a segunda parte, coisa que, segundo as crónicas, o Benfica nunca conseguiu durante todo o jogo. Aliás, enquanto debitava argumentos de validade duvidosa, caiu a ficha ao próprio Gobern (no momento em que coloquei <pausa> na citação acima) quando se lembrou que o seu clube levou com duas bolas nos ferros no jogo de sábado. Gobern lá admitiu atrapalhadamente a contradição imediatamente a seguir.


2. A estratégia comunicacional de Bruno de Carvalho

Os três paineleiros dedicaram largos minutos a disparar contra as declarações de Bruno de Carvalho e a forma como o presidente pode desestabilizar o balneário. Nada de novo para aquele programa. No entanto, Gobern, imparável, teve mais uma tirada que vos convido a assistir neste pequeno vídeo:

Gobern (III)


Para além de me parecer que "Diabo da Tasmânia" é algo insultuoso para o presidente de uma instituição como o Sporting (apesar de até nutrir alguma simpatia pela personagem dos Looney Tunes), creio que ainda são mais desapropriadas as gargalhadas que o paladino da 3ª idade dispensou à graça do colega de painel.

Jorge Gabriel que, mais uma vez, garantiu que continuará a criticar Bruno de Carvalho, tranquilizando os fãs de Jorge Gabriel que Jorge Gabriel continuará a ser sempre Jorge Gabriel. Quanto aos adeptos do Sporting, convida-os a saber viver com isso.

Gabriel (I)


Fica um pouco mal a um paineleiro dizer uma coisa destas aos adeptos do clube que defende no programa, mas como estamos a falar de Jorge Gabriel e do Trio d' Ataque, está tudo certo.


3. Trio d' Ataque Memória: comentando o Sporting 2012/13

Como o Sporting 2013/14 parece estar a causar alguma urticária nos paineleiros dos outros clubes, a conversa alargou-se durante vários minutos para o Sporting 2012/13.

Espero que tenha sido bastante terapêutico recordar os bons velhos tempos em que o Sporting andava pelas ruas da amargura. Porque do ponto de vista de interesse para os espetadores, valeu 0.

É angustiante comparar o Trio d' Ataque com Miguel Guedes, Rui Oliveira e Costa e Júlio Machado Vaz com aquilo que se vê agora. Miguel Guedes continua a defender bem o seu clube. Mas a qualidade dos paineleiros acaba aí. ROC é trapalhão em alguns argumentos que utiliza, mas consegue ser menos mau que Gabriel. E comparar a argumentação de Machado Vaz com a de Gobern é a mesma coisa que comparar Lennon / McCartney com Tony Carreira. 

O Trio d' Ataque anda num nível miserável, e na minha opinião é atualmente o pior dos programas deste formato.

D. Islam I, o Conquistador

Não deixa de ter a sua piada o facto de ter sido um "mouro" a assegurar a vitória dos forasteiros na Cidade Berço. Slimani marcou o seu 4º golo da época em 149 minutos de utilização, que dá uma notável média de 1 golo a cada 37 minutos, tendo sido o 3º golo decisivo (apesar de o golo marcado na Luz ter acabado por ser insuficiente para garantir a vitória) nos últimos 3 jogos.

Foto: Lusa


O que é facto é que o Sporting foi feliz no resultado que conseguiu. A primeira parte foi, mais uma vez, frouxa. Jogo muito desligado, com recurso frequente ao bombeamento de bolas para a frente que invariavelmente eram perdidas para o adversário. Apenas a partir do minuto 35 o Sporting conseguiu mandar no jogo e aproximar-se da baliza adversária, mas sem ter efetuado qualquer remate perigoso. O Guimarães foi a melhor equipa na primeira parte, teve um remate ao poste de Maazou, e outras oportunidades que passaram perto da baliza ou que obrigaram Patrício a defesas complicadas.

A segunda parte foi diferente. O Sporting entrou em campo com mais iniciativa e mandou no jogo sem, no entanto, ter alguma vez conseguido sufocar o adversário. Tirando uma oportunidade num remate cruzado de Carrillo, não me lembro de outras ocasiões de perigo até Leonardo Jardim ter decidido mudar a equipa.

Substituindo os desinspirados Carrillo, Capel e Martins por Mané, Salomão e Slimani, o Sporting passou a mandar no jogo e conseguiu chegar à vitória perto do minuto 90.

Dos jogos que o Sporting ganhou este ano, este foi o primeiro em que o adversário não merecia a derrota. No entanto a forma como o Sporting acabou por ganhar o jogo também diz muito da maturidade dos jogadores, da capacidade física da equipa, e de um plantel bem mais profundo do que se imaginava no princípio da época.

Destaques para Slimani, por motivos óbvios, mas também para Patrício (teve algum trabalho e esteve muito seguro), Cédric (quer a defender quer a descer pelo flanco), Maurício (muito bem a secar Maazou), Dier (o melhor jogo que fez esta época, com o bónus de ter feito o desvio ao primeiro poste no golo de Slimani), William apenas na segunda parte, e Montero, que não sabe jogar mal.

Do outro lado gostei do Abdoulaye. É um jogador muito útil para se emprestar a outro clube, com a garantia de que não joga contra o dono do passe e de que dará muitas dores de cabeça (e de costas) aos avançados adversários nos jogos em que está disponível. Brincadeiras à parte, gostei do jogo dele e não merecia o azar de ter feito uma assistência involuntária para o golo de Slimani.

Para terminar, devemos valorizar esta vitória, mesmo com uma exibição menos conseguida. O Guimarães tem uma boa equipa e gostaria de relembrar que:

1. Perdeu com o Benfica em Guimarães também por 1-0, num jogo em que tiveram menos dois dias de descanso que o adversário por causa das competições europeias, e sofreram o golo já depois de estarem reduzidos a 10
2. Perdeu com o Porto no Dragão também por 1-0, caindo apenas com o penalty inventado por Proença

O Sporting não teve nenhuma das sortes de que os rivais beneficiaram, e conseguiu o mesmo resultado. Nada mau.

P.S.: a arbitragem de Paulo Baptista foi boa, mas em nome de quê é que se assinala um fora-de-jogo a isto?

O brilho que aparece na imagem foi causado pelo flash da máquina, pelo que não serve de desculpa para o fiscal-de-linha


domingo, 24 de novembro de 2013

sábado, 23 de novembro de 2013

Uma nova fórmula vencedora

O Porto é um clube onde se trabalha bem em todos os aspetos que possam ter influência no sucesso da equipa.

Um desses aspetos é a contratação de jogadores, em que o Porto é um modelo para toda a Europa. O velho continente fica de boca aberta perante a capacidade dos portistas descobrirem jogadores desconhecidos, comprando mais ou menos barato e vendendo por dezenas de milhões passados uns anos.

in marca.com

Por exemplo, o Porto foi pioneiro no filão colombiano. Primeiro com Guarín em 2008, Falcao em 2009, James em 2010, Jackson em 2011 e Quintero em 2013, com o aproveitamento que se conhece.

Com 5 anos de atraso, o Sporting lá percebeu o bem que se trabalha no Porto e foi buscar Montero, com os resultados que temos testemunhado.

A fórmula colombiana do Porto seguiu-se a uma outra fórmula que foi explorada durante anos por Pinto da Costa e seus pares: o filão argentino.

O filão argentino teve o seu início na sequência da época desastrosa de 2004/05, que veio na ressaca das conquistas de Mourinho. Meia equipa campeã europeia foi vendida e o Benfica de Trapattoni acabou por ganhar o campeonato sem saber ler nem escrever.

Com as contratações bem sucedidas, no princípio de 2005/06, de Lucho González e Lisandro Lopez (o bom, não me refiro a defesas centrais que fizeram escala em Lisboa), o Porto retomou a hegemonia do futebol português que perdera brevemente no ano anterior.

A partir daí, a sagacidade dos dirigentes do Porto levou-os, nos anos que se seguiram, a concretizar uma série de outras contratações na Argentina. Ficará na história do Porto o legado deixado pelos ilustres argentinos que foram chegando ao clube, como Lucas Mareque (2006), Ernesto Farías (2007), Mariano González (2007), Mario Bolatti (2007), Nelson Benitez (2008), Tomás Costa (2008), Andrés Madrid (2008), Sebastien Prediger (2009), Fernando Belluschi (2009), Diego Valeri (2009), e que terminou com Otamendi (2010) e Iturbe (2011). Cerca de €30M foram gastos nestes 12 jogadores, com todo o proveito desportivo e financeiro que sabemos que o Porto daí retirou. Otamendi parece um pouco deslocado nesta lista, mas só custou €4M.

Mais recentemente, o departamento de futebol do Porto, sempre à frente dos outros, descobriu um novo filão. No mercado de inverno de 2011/12, o Porto recuperou Lucho González, que se veio a revelar uma peça fundamental para a conquista do campeonato desse ano.

A inteligência prática dos responsáveis do Porto gerou um novo paradigma: a contratação em Janeiro de jogadores experientes, com conhecimento do clube e/ou do campeonato português, a custo zero, pode dar um contributo decisivo para colmatar falhas no plantel, e sem desequilibrar as contas.

Daí que, no mercado de inverno de 2012/13, o Porto tenha tirado dois coelhos da cartola que deixaram o futebol português rendido à astucia dos dirigentes azuis e brancos. Liedson e Izmailov foram jogadas de mestre que tantos dividendos trouxeram ao Porto, e que simultaneamente tiveram o mérito de expor a péssima forma como se trabalha no Sporting.

Para já não passam de rumores insistentes, mas não espanta que se fale agora no regresso de Ricardo Quaresma ao Porto. O Harry Potter parece ser o extremo desejado para uma posição que nem Ricardo nem Licá nem Josué nem Varela nem Kelvin conseguem preencher. Isto apesar de Quaresma não jogar desde Maio, de ter sido operado ao joelho em Junho, e de ter tido a última época de sucesso em 2008. Quaresma promete ser o próximo número de magia da mais fantástica e infalível estrutura de futebol que a Europa já conheceu.

A confirmar-se, trabalha-se bem no Porto.

Querem ver que afinal vai mesmo haver um Messizinho no Seixal?

in abola.pt

Já vi capas de jornal com notícias utópicas a serem publicadas por menos que isto... :)

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Luís Filipe Vieira, o presidente e o milionário

Retirado de slbenfica.pt

"Chegou à presidência com a responsabilidade de devolver o Clube às suas glórias passadas, tendo-o conseguido com sucesso". É assim que o site do Benfica apresenta o seu líder ao mundo. 

Os seus poucos detratores argumentam, com alguma razão, que o presidente do Benfica faz uso de velhas táticas estalinistas para se perpetuar no poder: culto da personalidade, silenciamento e hostilização das oposições, e uma máquina de propaganda pronta a exaltar os seus feitos e a lançar suspeitas sobre qualquer movimento alternativo que se afigure no horizonte.

Vieira tem conseguido manter-se na liderança do Benfica de forma quase incontestada, pelo menos a avaliar pelas vitórias esmagadoras que conseguiu nas várias eleições em que participou, apesar de estes dez anos de presidência corresponderem ao período da história do clube em que menos títulos no futebol foram conquistados.

Não partilho da teoria que Vieira seja um agente infiltrado do Porto. Acredito que gosta do Benfica, e que vai tentando (sem grande esforço pessoal) combater o sistema que domina atualmente o futebol para que possa substitui-lo pelo seu próprio sistema. Mas também acredito que Vieira, acima de tudo, gosta de Vieira. E este post é sobre isso: procurar perceber o que Vieira deu ao Benfica e comparar com aquilo que o Benfica deu a Vieira.

Peço desde já desculpa pela excessiva dimensão do post, mas teve que ficar assim para conseguir transmitir a minha opinião sobre o presidente do Benfica de uma forma completa.


A ilusão da obra feita

É preciso admitir que Vieira tem obra feita ao longo da sua presidência. O novo estádio, o complexo de piscinas, o campo sintético, os pavilhões, o centro de estágios e o museu são obras que orgulharão todos os benfiquistas. 

E Vieira promete não ficar por aqui. Já se fala na compra do estádio do Estrela da Amadora e da ampliação do centro de estágios do Seixal. 

Apesar de não ser comum uma infra-estrutura como o centro de estágios atingir os limites da sua capacidade ao fim de apenas sete anos de existência, Vieira e a comunicação social que o apoia preferem pôr o enfoque no crescimento do clube, em vez da falta de planeamento e visão estratégica que foram evidentes neste caso.

De qualquer forma, é de cimento que estamos a falar. Não é preciso ser-se um iluminado da gestão para conseguir apresentar obra. Liderando um colosso como o Benfica, qualquer aprendiz de gestor conseguiria o financiamento necessário para arrasar o Colombo e construir uma pirâmide que envergonharia as que existem no Egito. É uma questão de taxas de juro. Se o banco recusar empréstimos a taxas de 5%, proponha-se 10% ao ano e no dia seguinte o dinheiro necessário está na conta.

Não é por acaso que os sócios do Benfica aprovaram um empréstimo obrigacionista de €80M. Desses €80M, €45M foram colocados em Abril a uma taxa de 7,25%, num prazo de 3 anos. Ou seja, significa que o Benfica, em 2016, terá que devolver esses €45M mais €10,5 milhões em juros.

Não é por acaso que o passivo consolidado do Benfica é superior a €400M. Pedir dinheiro emprestado e gastá-lo é fácil. O problema é pagá-lo depois a juros proibitivos. O tempo do dinheiro barato já passou.


Sucessos desportivos

Não me vou alongar muito neste aspeto, visto que não há no currículo de Vieira sucessos desportivos que dêem para preencher mais do que umas linhas. Dois campeonatos e uma taça em futebol em 10 anos é péssimo para um clube como o Benfica. 

Nas modalidades, o panorama é bem mais agradável para os benfiquistas, mas convenhamos que não é difícil para um clube com esta dimensão manter-se vitorioso quando os outros grandes seguem estratégias de desinvestimento significativo. Hajam 2 ou 3 milhões extra para se injetar nas modalidades, e é o suficiente para limpar a maior parte das competições nacionais que existam em disputa.


O fascínio do camarote presidencial

O futebol é uma paixão que liga o mais humilde dos cidadãos até ao mais poderoso homem de negócios. Qualquer benfiquista dos sete costados, seja um empresário, juíz ou político, deve ficar fascinado perante a perspetiva de poder assistir a jogos da Liga dos Campeões uns lugares ao lado de figuras históricas do clube como Eusébio ou Rui Costa.

No entanto é óbvio que, apesar de ser um sonho para muitos, estamos a falar de um dos locais de acesso mais exclusivo que existem em Portugal. Naquele camarote só entra quem LFV quiser.

Não me parece que Rui Costa esteja no Benfica apenas pelas suas reconhecidas capacidades de prospeção de talentos na Sérvia e Argentina. Tal como Eusébio que, sendo a grande figura que é na história do clube, não é um assalariado para andar a dar conselhos aos jogadores sobre como fazer remates à baliza. Acredito que os dois estão lá, para além de outras funções que possam ter, para aparecerem no camarote presidencial em dias de jogos. Chamem a isso presenças, chamarizes para o aperto de mão, ou o que quiserem.

E nem é preciso ir tão longe, acredito que 90% dos gestores de topo portugueses devem ficar com o coração aos pulos perante a perspetiva de ter um almoço com LFV para fazerem o aperto de mão sobre um negócio já alinhavado pelos respetivos acessores.

Também as dezenas de negócios de transferências de jogadores em que o Benfica se mete todos os anos parecem incluir alguns casos de duvidoso interesse para o clube. Temos um excelente exemplo na recente contratação de Luis Fariña, despachado umas semanas depois para o Dubai, sobre a qual já fiz um post (aqui).

Ao contrário de Vale e Azevedo, Vieira parece ter percebido que é muito mais rentável (e judicialmente seguro) utilizar o posto de presidente do Benfica (e as figuras históricas que vai mantendo por perto) para promover os seus negócios pessoais, do que estar a aproveitar-se de transferências de jogadores para meter ao bolso umas centenas de milhares de euros.

Não deve ser por acaso que a ascensão de Vieira à lista dos mais ricos do país coincide com os anos da presidência do Benfica.


O escudo da presidência

Foi ontem divulgada uma notícia (obrigado, Whiplash!) que fala sobre uma dívida incobrável de €17M de uma empresa de Vieira que o Estado terá que assumir.

in jornaldenegocios.pt

É uma pouca vergonha ver mais um caso em que uma personalidade conhecida de todos beneficia de milhões que depois terão que ser cobertos à custa das reformas e salários dos contribuintes. Infelizmente, é "apenas" mais um que se junta à legião de políticos e figuras públicas que se encheram à custa de um banco que nunca hesitou em dar uns milhões a ganhar aos amigos que lhe pudessem oferecer outros favores em troca.

No entanto, a notícia fala também de investigações ao presidente do Benfica e a um sócio seu por burla. Estas investigações já vêm pelo menos desde 2010, altura em que a casa de Vieira e a sede da sua empresa (Grupo Inland / Promovalor) foram alvo de buscas pela PJ.

Junte-se a isto mais esta notícia de 2006...

in dn.pt

... ou esta de 2003...

in publico.pt

...e ainda é possível encontrar mais algumas referências a investigações judiciais onde o nome de Vieira aparece no meio.

Como é evidente, qualquer cidadão é inocente até ser dado como culpado em tribunal, mas não é menos verdade que existe sabedoria no velho ditado popular que diz que "não há fumo sem fogo".

O que ninguém poderá negar é que o cargo de presidente do Benfica é o melhor escudo possível contra investigações e processos judiciais que Vieira possa ter contra si.

A melhor prova disto é Vale e Azevedo. Durante os anos em que foi presidente do Benfica existiram fortes suspeitas sobre burlas em que estaria envolvido, mas foi preciso esperar que saísse do clube para que pudesse sentir na pele algum tipo de consequência. Não foi preciso esperar mais que dois meses após a tomada de posse de Manuel Vilarinho, para que a PJ batesse à porta de Vale e Azevedo e o levasse para a prisão.

Se Vieira se sentir apertado por algum ramo da justiça, basta vir com o discurso da "conspiração contra o Benfica e contra o seu presidente" para ter o clamor indignado de milhões de portugueses. Perante isto, não haverá governante que não terá a tentação de fazer um telefonema ao procurador geral para dar prioridade a outros processos menos mediáticos, a par com uma promessa de reforço de verbas para essas outras investigações. Aliás, com Pinto da Costa passa-se exatamente a mesma coisa. Enquanto for presidente do Porto pode estar seguro que nada lhe acontecerá.


A perpetuação no poder

Lembram-se dos discursos de Vieira sobre estar a preparar Rui Costa para o suceder como presidente a curto/médio prazo? Tretas, como é evidente.

Vieira sabe que está sentado numa das cadeiras de maior poder em Portugal e não acredito que esteja a pensar em cedê-la a outra pessoa. Escrevo isto porque determinadas ações de Vieira têm apontado nesse sentido.

Em 2010, poucos dias antes de o Benfica se sagrar campeão nacional, numa AG com a presença de cerca de 100 sócios, foram aprovadas alterações muito discutíveis aos estatutos:
  • passou a ser obrigatório que um candidato à presidência do Benfica tenha um mínimo de 25 anos ininterruptos de sócio após os 18, ou seja, é impossível candidatar-se com menos de 43 anos -- Rui Costa, por exemplo, não podia candidatar-se às eleições passadas mesmo que quisesse, e Moniz e Veiga, na altura os maiores opositores de Vieira, também deixaram de ter hipótese de apresentar a sua lista
  • as Casas do Benfica (que foram renovadas num projeto que teve Vieira como patrono) passaram a ter direito a 50 votos e as filiais e delegações a 20 votos
  • alteração da duração de mandato de 3 para 4 anos
  • deixou de haver número limite de reeleições

Passou a ser mais difícil reunir-se os requisitos para se ser presidente do Benfica do que para se ser Presidente da República.

Para além disso, Vieira não hesitará em utilizar a sua máquina de propaganda sempre que for necessário. Como exemplo muito recente temos as reportagens que o Record fez sobre os 10 anos de presidência de LFV, que apresentaram níveis de bajulação que envergonhariam qualquer jornal que se preocupe com a sua reputação.

A Benfica TV, o jornal Benfica, a parceira com a Cofina, diretores de jornais amigos como Serpa e Manha, são meios que estão à distância de um telefonema. Seja para louvar a ação de Vieira, seja para denegrir a imagem de um potencial opositor.


Benfica: um meio para atingir o fim

Goste-se ou não de Vieira, creio que todos estaremos de acordo numa coisa: o sucesso pessoal de Vieira enquanto homem de negócios tem sido infinitamente superior ao sucesso desportivo do Benfica durante a sua presidência.

Vieira nunca se mostrou particularmente incomodado perante o domínio do Porto. É um homem que prefere olhar para a frente do que a perder tempo para perceber o que falhou na estratégia do Benfica. Daí aquelas frases emblemáticas como "daqui a uns anos vamos ter a espinha dorsal da seleção" ou "demito-me se não tivermos 300.000 sócios daqui a 2 anos" ou, mais recentemente, "vamos ganhar 3 campeonatos em 4" e "sonho chegar à final da Liga dos Campeões".

A estratégia é simples:
  • Atirar para o ar uns objetivos a roçar o irrealista;
  • Beneficiar do devido destaque nos órgãos de comunicação social sempre ávidos em vender notícias que agradam ao segmento da massa adepta mais crédula do Benfica;
  • Ao mesmo tempo vai apresentando as obras de cimento que enchem sempre o olho aos seus sócios e adeptos (funciona em qualquer clube);
  • Apresentar dezenas de contratações que demonstram que se formou o plantel mais forte dos últimos tempos;
  • Manipular números para salvar a face e aconchegar os espíritos benfiquistas (venda de Roberto ao fundo espanhol, jogos com pouco público que têm assistências oficiais de 30.000 pessoas, evolução muito duvidosa de assinantes da Benfica TV).

Haveria muito mais para dizer sobre promessas não cumpridas, desaparecimentos da ribalta quando os resultados não são bons e declarações atrás de declarações quando a equipa tem uma dinâmica de vitória, discursos contraditórios, apoio a figuras como Fernando Gomes para a presidência da FPF, a sua amizade com Pinto da Costa nos tempos do Alverca, os boatos sobre falsificação do número de sócio, mas isso daria material para vários posts -- e este já vai demasiado longo.

O que me parece evidente, e que queria partilhar convosco, é que na minha opinião o Benfica tem um presidente que se preocupa mais consigo do que com o clube que lidera. Felizmente não é problema meu, mas estranho que tão poucos benfiquistas se sintam incomodados. Num clube que se arroga ter 6.000.000 de adeptos e uma massa crítica incomparável em Portugal, como é possível que não apareçam alternativas credíveis que combatam um presidente que não vive para o clube? Quem souber que responda.