sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Sporting e os fundos

No meio do desastre que foi a gestão de Godinho Lopes, um dos piores erros foi a venda de percentagens de passes de jovens da academia a fundos e outras empresas. 

Salários principescos, má política de contratações, ausência de rumo desportivo, tudo isso com mais ou menos esforço pôde ser estancado ao fim de algum tempo, como a direção de Bruno de Carvalho demonstrou. Mas a forma abusiva como a direção de Godinho Lopes entregou a terceiros percentagens consideráveis de passes de jogadores da academia é algo que continuará a ter impacto ao fim de 3, 4, 5 anos. Aceito que se faça isso para jogadores contratados por valores consideráveis. É uma forma de comparticipar um custo elevado e reduzir o risco de uma aquisição. Mas para jovens da academia é inaceitável.

Em Portugal a valorização de jogadores é fundamental para ter contas saudáveis. Se os jogadores valorizados tiverem origem na academia, as potenciais mais-valias serão certamente mais interessantes do que para jogadores contratados a outros clubes. Com a política seguida pelas últimas direções, a valorização dos jogadores estava hipotecada à partida, pois apenas uma pequena percentagem dos direitos económicos dos jogadores ainda eram pertença da SAD. Ou seja, o Sporting, se tivesse tido uma performance desportiva minimamente interessante, estaria essencialmente a trabalhar para gerar lucros para terceiros.

É certo que a academia tem custos consideráveis, mas que sentido faz estar a vender percentagens de passes de jogadores que poderão vir a transformar-se em estrelas, a troco de quantias irrisórias apenas para satisfazer necessidades de tesouraria mais prementes?

Por exemplo, como é possível termos cedido à Holdimo esta quantidade de passes?

Bruma - 50 por cento
Ilori - 20 por cento
Cedric - 25 por cento
João Mário - 15 por cento
Marcelo Boeck - 15 por cento
Jeffrén - 20 por cento
André Martins - 25 por cento
Diego Capel - 15 por cento
Adrien Silva - 20 por cento
Esgaio - 25 por cento
Arias - 20 por cento
Schaars - 15 por cento
Elias - 20 por cento
Betinho - 45 por cento
+ 14 jogadores num total de 28 jogadores


Felizmente que, ao promover a entrada da Holdimo no capital da SAD, os passes acima referidos foram recuperados. Só nas vendas de Bruma e Ilori, as percentagens de passe que tinham sido cedidas à Holdimo acabaram por valer mais de €7M ao Sporting.

Para além da Holdimo, a direção de Godinho Lopes formou uma parceria com a ESAF (Espírito Santo Activos Financeiros) para criar o Sporting Portugal Fund. Ao formar-se o fundo, em agosto de 2011, foram estas as percentagens de passes entregues por Godinho Lopes e a respetiva valorização:


Mais tarde, em janeiro de 2012, houve outra transferência de passes de jovens da academia.


Destes nomes saltam à vista Wilson Eduardo, André Martins e William Carvalho. William tem andado nas bocas do mundo por supostamente existirem vários clubes de topo interessados na sua contratação. Não vou entrar aqui em números megalómanos porque isso é conversa de benfiquista encantado pela liderança de Vieira, mas certamente que 40% do passe de William valerá bem mais do que os €400.000 que o Sporting recebeu há dois anos. 

Surgiram também notícias de que o Sporting quer recuperar essas percentagens de passes de jogadores. Estive a ler o regulamento de gestão do Sporting Portugal Fund e não encontro qualquer referência a opções de recompra por parte do clube, o que significa que terá que passar sempre por uma negociação entre o clube e o próprio fundo.

O fundo é gerido por cinco elementos. Três são nomeados pela ESAF e os outros dois são pessoas ligadas ao mundo de futebol, que não podem ser nem agentes de jogadores nem funcionários do Sporting.

Não sendo nem de perto nem de longe um especialista nestes assuntos, tanto quanto percebi o fundo funciona com base numa tabela que avalia periodicamente os jogadores que fazem parte da sua carteira de passes. Se houver um clube que queira contratar um destes jogadores ao Sporting, e se o valor oferecido for igual ou superior ao valor de tabela do jogador, o Sporting é obrigado a vendê-lo. Se não vender, o Sporting tem que pagar ao Sporting Portugal Fund o valor a que teriam direito se a transferência se concretizasse.

Suponho que a negociação tenha como base o tal valor tabelado de William, e só por aí compreendo o que foi escrito nesta notícia:

in abola.pt

Se existisse uma claúsula de recompra na cedência dos passes dos jogadores, não haveria necessidade de se chegar a um entendimento com a ESAF. Pagava-se e pronto. O que me parece é que a tal tabela de avaliação dos jogadores deve ser atualizada periodicamente, nomeadamente no final de cada ano -- e terá sido esse adiamento da reavaliação do jogador que poderá estar a ser referida nesta notícia. Quero que fique claro que estou apenas a especular em função do que se sabe publicamente.

A verdade é que, atendendo a que a rendibilidade do Sporting Portugal Fund foi de -25% em 2012, vai ser preciso contar com muito boa vontade do BES para conseguir recuperar as percentagens de passes dos nossos jogadores por valores acessíveis. Se isso se confirmar, será sinal inequívoco que teremos no BES um parceiro na verdadeira aceção da palavra.

De qualquer forma, é muito positivo ver que a direção de Bruno de Carvalho está a trabalhar para inverter esta situação tão lesiva dos interesses do clube. Esperemos que também aqui consiga ter sucesso.

6 comentários :

  1. Excelente post toca na ferida. Foi o assunto que referimos aqui na semana passada relativamente às propostas de Bruno de Carvalho. O BES quer dinheiro e já percebeu que William Carvalho foi um negócio da China que vai compensar as perdas dos desvarios do Godinho.

    Ora neste momento os 40% são para esquecer e vão ficar nas mãoes do BES. De futuro acredito que estes negócios leoninos vão acabar e que a direcção de BdC vai contrariar estas negociatas.

    Grande abraço

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    1. Green Lantern, será uma grande surpresa que o Sporting consiga resgatar os 40% por valores simpáticos. Seria uma jogada de marketing interessante do BES se nos fizesse o jeitinho, mas depois lá apareceria o Vieira a indignar-se. :)

      Um abraço.

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  2. Mestre de Cerimónias,

    Um ponto que me parece importante. O Sporting Portugal Fund não é um fundo semelhante aos demais. É uma parceria com um dos credores do clube (poderia não o ser) criada em exclusivo para investir nos jogadores do clube,dividindo não apenas os lucros mas também os riscos nos investimentos. Se no caso de William Carvalho parece um desperdício para nós com Salomão, Owuso, Zezinho e Renato, p.ex. foi para eles quase com toda a certeza.

    Não gostando nada de actividades especulativas e tão opacas como os fundos sempre pensei que se os outros (FCP,SLB) usam como ferramenta em seu proveito não vejo como nós não possamos fazer o mesmo.

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    1. Leão de Alvalade, não tenho dúvidas que o fundo corre também um risco ao receber passes de jogadores ainda numa fase embrionária.

      Por exemplo, o €1,75M que gastaram pelos 50% do André Santos serão muito provavelmente um prejuízo considerável que terão que assumir.

      Lá está, percebo muito pouco deste mundo, mas tanto quanto me parece os proveitos do Sporting com o fundo acabam no momento em que colocam as percentagens de passes de jogadores, a troco de dinheiro imediato. A partir daí os lucros e os prejuízos serão repartidos pelos subscritores do fundo.

      Por outro lado, colocar passes como os de Rojo (neste caso na Doyen), Van Wolfswinkel, Elias ou Capel, parece-me fazer sentido e deve ser aproveitado. Mas creio que o clube deveria sempre ficar na posse da maioria do passe.

      Um abraço.

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  3. Os fundos estiveram para o Sporting como as PPP estiveram para o Estado...

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    1. Caro anónimo, há uma diferença: as PPP's têm lucros fabulosos e risco 0 (quando as auto-estradas não têm carros a passar o Estado tem que pagar uma indemnização). No caso dos fundos com que o Sporting trabalha, até agora tem sido mau negócio para todos -- o Sporting não tem conseguido valorizar jogadores. Um abraço.

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