terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Os exclusivos do Record

Após a famosa conferência de imprensa de Jorge Jesus na noite de dia 15 com a célebre declaração do "precisam de nascer dez vezes", o departamento de propaganda benfiquista teve que trabalhar a todo o vapor.

Digo "departamento de propaganda" e não "departamento de comunicação", porque um departamento de comunicação competente nunca deixaria um treinador com mais de quatro anos de casa continuar, semana após semana, a fazer declarações estapafúrdias que colocam tudo e todos em causa, menos, claro está, o próprio Jorge Jesus.

Mas temos que reconhecer que o departamento de propaganda do Benfica funciona bem. Não só obrigaram Bernardo Silva e Filipe Nascimento a retratarem-se publicamente de um desabafo genuíno que fizeram a partir das redes sociais (o que qualquer outro clube faria), mas também tiveram, no dia imediatamente a seguir, a oportunidade de apresentar uma narrativa alternativa em como a sua formação é a melhor do país, pela voz do próprio Jorge Jesus.

Só que em vez de utilizarem a Benfica TV, utilizaram o jornal Record, que já nos tem habituado a exclusivos sobre o clube encarnado desde que foi celebrada a parceria entre o grupo Cofina e o Benfica.

No dia 17, o jornal de João Querido Manha apresentou a seguinte capa:


Uma entrevista a Jorge Jesus. Entrevista?


Duvido que se possa chamar a isto uma entrevista. Parece-me mais um comunicado ou a uma declaração sem direito a perguntas dos jornalistas. 

Se fosse uma entrevista, esperaria que existisse algum tipo de contraditório à afirmação "O Ivan é aprova mais recente da nossa aposta na formação... Nos últimos dois anos apostámos no André Gomes, no André Almeida e no Ivan.". É que nem André Almeida é da formação, já que foi contratado com 21 anos, como André Gomes apenas fez o último ano de junior no Benfica. Jornalistas informados, como certamente serão Nuno Pombo e Vanda Cipriano, não deveriam ter chamado de imediato à atenção do entrevistado o erro do que tinha acabado de dizer?

Para além da entrevista, ainda tivemos mais duas peças muito interessantes e bem oportunas para a mensagem que se pretendia passar.


Como se não bastassem as palavras de Jesus, o Record reforça ainda a ideia da qualidade da formação do Benfica dando o destaque "Seixal prestes a dar frutos", a propósito de uma possível venda de André Gomes. Segundo o Record, a SAD está a estudar uma proposta de 12 milhões de euros, à qual Vieira respondeu a pedir 15 milhões. Lendo isto, não sei o que é mais ridículo:

a) Alguém oferecer €12M por André Gomes
b) A ser verdade a alínea a), Vieira recusar e fazer uma contra-proposta de €15M
c) O Record achar que não só é uma notícia credível, como ainda a declara como o primeiro sucesso da formação do Seixal

Para terminar, no canto inferior direito da mesma página, tivemos direito à informação de que o custo do centro de estágios do Seixal ronda os 4 milhões de euros, onde "trabalham diariamente 120 atletas que contam com todo o apoio técnico e médico". Fico mais descansado por saber que os miúdos não estão lá a aprender a jogar à bola sozinhos.

Nada disto é surpreendente. O Record transformou-se nos últimos meses num órgão de propaganda de Luís Filipe Vieira, graças às ligações que o grupo Cofina estabeleceu com o Benfica. O facto de o jornal ser dirigido por um benfiquista faccioso é, na minha opinião, uma consequência do acordo entre Cofina e Benfica e não o oposto. Ou seja, a Cofina terá chegado a acordo com o Benfica e uma das condições nessa parceria terá sido a colocação de um diretor alinhado com os ideais vieiristas.

João Querido Manha terá visto esta oportunidade como juntar o útil ao agradável, e é o agente condutor ideal para que Vieira possa divulgar, sempre que entender, as suas versões dos acontecimentos num órgão de comunicação social teoricamente isento. Pena é que com tudo isto o nome do jornal seja arrastado pela lama e, indiretamente com ele, a reputação de muitos jornalistas competentes que lá trabalham. Apesar de todas as críticas que tenho feito nos últimos meses ao Record, não tenho dúvidas que os há.

19 comentários :

  1. Caro Mestre,

    Conversa para encher chouriços = lampiões

    Já era hora dos sportinguistas não comprarem um único exemplar deste pseudo jornal desportivo, mais conhecido por ser o órgão de comunicação não-oficial dos lampiões.

    Tal como o Porto tem um canal televisivo pelo qual não paga um tostão, o Benfica tem um jornal.

    SL
    José

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. José, enquanto o Manha lá estiver também acho que os sportinguistas deviam evitar comprar o jornal, mas olhando para as alternativas o panorama não é melhor...

      Um abraço.

      Eliminar
  2. Façam como eu...acho este pasquim muito útil, me dá muito jeito para ler quando vou à casa de banho.... Mas também acho que tanta parcialidade devia ser punida e enfrentada. Para mim TODOS os jornalistas desta empresa deviam ver o seu acesso bem mais limitado.
    Ex: entradas no campo só depois do jogo já ter começado. Não ter possibilidade de colocar qualquer questão aos jogadores e técnicos das nossas equipas Proibição de entrada em Alcochete (a não ser em dias de jogos) etc. Até porque não sei se não poderão reportar dados importantes sobre os nossos métodos ....tipo guerra fria (espionagem). Uma pergunta:
    Alguem me diz porque nunca dá nas SPORTTVs um jogo que seja da nossa equipa B ??? Curioso .....

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Caro anónimo, não sei se essa forma de ação será a mais eficaz. Mas a fazer algo do género (espero que não) não nos deveríamos ficar só pelo Record.

      Em relação à ausência do Sporting B da SportTV, também já tinha reparado nisso. Por acaso neste fim-de-semana transmitiram o Trofense - Sporting B, mas creio que foi a primeira vez em meses. O Porto B é uma presença bem mais assídua.

      Precisamos urgentemente da Sporting TV.

      Um abraço.

      Eliminar
  3. Bom Dia

    Este Jornal e o da Travessa da Queimada já não os compro há muitos anos. Aliás, a Bola já há muito tempo que nem na Net e o Record desde que o Manha lá entrou e depois de algum tempo beneficio da duvida "desaparecu igualmente do meu computador.
    Corre na redes sociais (por exemplo na tasca do cherba" que devemos boicotar a entrada do Record nos nossos jogos e instalações.
    Penso que isso não faz efeito, armama-se em vitimas, veêm todas as entidades do sector e afins dar oipinião... enfim estamos dar mais importância e tempo de antena.
    O que devemos fazer é mexer-lhe onde lhes vai doer.
    Imaginem que de um dia para o outro as vendas caem 20 % (partindo do principio que os outros são 6 milhões ?????)
    As redes sociais têm um papel fundamental nesta luta.
    Nenhum Sportinguista compra este Jornal e vamos ver se eles mudam ou não.
    BD

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. BD, concordo. Também tenho duvidas que barrar-lhes a entrada no estádio seja uma ação que resulte em alguma coisa, por alguns motivos:
      - Barrar o acesso apenas a um ou outro órgão de comunicação social é algo discutível, e concordo que só o ajudam a armar-se em vítima
      - Leio coisas suficientemente más no CM, A Bola e O Jogo que seriam suficientes para lhes fazer o mesmo que ao Record (aquela capa de A Bola com 10 jogadores da seleção no dia do jogo com a Suécia, só ficando o Patrício de fora, é uma provocação das mais reles que já vi -- porque aponta ao indivíduo, e não ao clube)
      - Existem, em todos os jornais, jornalistas que são honestos e fazem o melhor trabalho possível; o problema são as linhas editoriais que os condicionam no seu trabalho; e esses jornalistas, que são os que acabam por estar presentes em ambientes mais hóstis (duvido que o Manha ponha os pés em Alvalade para cobrir uma conferência de imprensa), não merecem ser insultados ou maltratados

      Existem várias formas de ação para lutarmos contra o tratamento desigual da imprensa, mas a que certamente mais lhes custará é mesmo não comprarmos o jornal. E enquanto o Manha lá estiver, parece-me ser a melhor ação possível.

      Um abraço.

      Eliminar
  4. O mais engraçado é que este blog, produzido por um assumido Sportinguista, é menos tendencioso do que Bolas e Records, que se dizem isentos (e é de graça!) À Bola e Record peço que continuem neste caminho, pois, por um lado, não os leio, e, por outro, sempre vão dando material para o Mestre de Cerimónias me divertir e depois gozar com os lampiões que conheço! SL! JPT

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. JPT, fico contente por ler essas palavras. Não sou isento nem quero passar por tal, mas não tenho problemas em admitir quando o Sporting age mal ou quando os adversários fazem alguma coisa bem. E tento sempre tirar as lentes verdes quando olho para os lances de arbitragem. Se calhar nem sempre consigo, mas não é por falta de esforço da minha parte.

      É verdade, é importante para mim que os Manhas, os Serpas e os Delgados, os Ribeiros, os Gomes da Silva, os Goberns, os Aguiares, os Jesus e os Pintos da Costa continuem assim... senão teria que fechar as portas. :) Um abraço.

      Eliminar
  5. Já há muito que essa desculpa de jornal desportivo não entra em minha casa e nem sequer no histórico dos meus browsers. A minha curiosidade mórbida em ver a capa diária é satisfeita pelo site Banca de Jornais do Sapo.

    Curiosamente consigo tolerar A Bola e O Jogo (ainda que apenas através de visitas esporádicas ao seus sites), talvez porque esses jornais têm algum tipo de honestidade acerca das suas ideologias futebolísticas e, portanto, as suas motivações são mais transparentes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Luke, eu compreendo essa visão diferente em relação aos jornais A Bola e O Jogo. Para todos os efeitos, são bastante mais coerentes -- dali sempre soubemos o que esperar. O Record tem sido mais errático ao longo da sua história, já se aproximou mais do Sporting, agora está mais vermelho, vai variando em função do momento.

      Mas para todos os efeitos, quer A Bola e quer O Jogo têm linhas editoriais que são vergonhosas para um órgão de comunicação social que devia ser equidistante dos clubes. O facto de serem coerentes nesse encosto a um clube não os torna melhores que o Record, na minha opinião. Se calhar até são piores, porque já está entranhado definitivamente no seu ADN.

      Um abraço.

      Eliminar
    2. O seu ponto de vista é bastante válido caro Mestre de Cerimónias, no entanto sempre preferi lidar com um inimigo frontal do que um pessoas com interesses opacos e/ou mal intencionadas...

      Abraço!

      Eliminar
  6. E que dizer do que JQManha escreveu no sábado passado no Correio da Manhã sobre formação, em que diz com todas as letras, que um clube não alcançará resultados desportivos se apostar em jogadores portugueses.

    p

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu li isso. O Porto de Mourinho, Baía, Paulo Ferreira, Nuno Valente, Jorge Costa, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche e Postiga deve estar a rir-se a bandeiras despregadas.

      Um abraço.

      Eliminar
    2. É bem verdade o único vencedor de uma Liga dos Campeões em Portugal e curiosamente o último dependia em 70 a 80% de jogadores portugueses. Já para não falar na base da equipa campeã da Europa do Benfica nos anos sessenta.

      Mas divertidas são as voltas de Gomes da Silva para afastar Ronaldo do Sporting, co-adjuvado sempre pelo inenarravel Paulo Garcia. Muito divertido.

      E o que dizer da diferença de tratamento para com os jovens, Jasus diz que os jovens da formação têm de nascer 10 vezes para jogarem no lugar de um servio que nem ao mundial vai, já o nosso presidente quando lhe perguntam pelos Ronaldos da formação afirma peremtóriamente que há muitos.

      Aliás Ronaldo com o seu exemplo de profissionalismo dedicação e respeito pelo SCP fez mais do que qualquer venda milionária.

      SL

      Eliminar
    3. Sem dúvida, Green Lantern. Os benfiquistas não compreendem que seria impossível um treinador do Sporting dizer uma coisa dessas da formação. É uma questão de cultura formadora, que faz parte do ADN do Sporting e que simplesmente não existe no Benfica.

      O Ronaldo, em cada golo, em cada vitória, em cada troféu, transporta alguma desse prestígio para o Sporting, por muito que custe a gentalha dessa.

      Um abraço.

      Eliminar
  7. Ver estas notícias e todo este surrealismo acerca de vendas, formação, Seixal, etc, etc, leva-me aos tempos em que havia um jornal que era o "Insólito" que dava notícias sobre ovnis e galinhas com 3 cabeças, nascidas no Entroncamento. E, vendo bem, o insólito está nas notícias do Record e não no outro.
    Por outro lado, a fronteira para um jornal digno de um regime ditatorial está cada vez mais ténue. E isso já não tem tanta piada...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cantinho, às vezes parece mesmo esse tipo de jornal... :)

      Eliminar
  8. Mestre, ainda no Domingo no jogo Benfica-Maritimo, Jorge Jesus deu uma prova inequívoca que aposta fortemente na formação. Tinha 2 desses jogadores no banco. Cavaleiro entrou aos 89 m e André Martins aos 91m. Um abraço.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. F. Pais, creio que queria dizer o André Gomes em vez do André Martins, mas tem toda a razão. Com o jogo completamente controlado desde o final da primeira parte, podia ter aproveitado para dar minutos que se visse aos dois jogadores. Metê-los naquela altura parece ser para gozar com eles. Um abraço.

      Eliminar