domingo, 2 de março de 2014

A arte de saber contrariar o destino

Apesar da noite de mau tempo que tornava o conforto do sofá mais convidativo que uma viagem até ao estádio, cuja cobertura não era suficiente para evitar que as persistentes rajadas de vento arrastassem a chuva para cima de quem estava nas bancadas, foi uma moldura humana muito interessante que marcou presença no jogo de ontem com o Braga.

No entanto, o mau estado do tempo rapidamente deixou de ser o fator mais desagradável da noite, quando algumas das pessoas presentes decidiram não respeitar o minuto de silêncio em memória de Mário Coluna. Não compreendo este desrespeito perante uma figura que engrandeceu o futebol português, mesmo sabendo que o objetivo era provocar o clube que representou. Ao tomarem atitudes destas não só menorizam o Sporting, como estão a dar demasiada importância ao clube que era alvo da provocação.

O Sporting entrou bem no jogo, muito pressionante e conseguindo que a bola rondasse a baliza de Eduardo com bastante frequência, tendo uma oportunidade de golo flagrante quando Carrillo, depois de fazer gato-sapato de um defesa do Braga, coloca a bola nos pés de Slimani, que falharia o pontapé de forma inacreditável. Curiosamente, no minuto a seguir Carrillo tem uma abordagem mais apática a um lance e recebe os primeiros protestos vindos da bancada. Não se justificava esta falta de paciência perante o melhor jogador do Sporting até à altura, e que continua a ser quem melhor consegue desencantar lances de perigo no um contra um.

A integração de Gerson Magrão no onze não fez esquecer Adrien, mas foi melhor do que esperava. Magrão esforçou-se muito defensivamente, sendo dos primeiros a pressionar a saída de bola do adversário, mas ofensivamente parecia um corpo estranho. Creio que o rendimento ofensivo de Jefferson e Carrillo emperrou muito devido à falta de rotinas de Magrão, que não aproveitava as desmarcações e linhas de passe conseguidas pelos seus companheiros na esquerda, e que acabaria por conseguir os seus melhores momentos em situações em que optou por conduzir a bola individualmente no sentido da baliza adversária.

O Braga, a partir dos 15' conseguiu equilibrar o jogo e tentou explorar o contra-ataque, sem no entanto conseguir criar perigo, muito por culpa de um jogo fantástico de Rojo, que se revelou intransponível, e de mais uma exibição portentosa de William Carvalho, que recuperou inúmeras bolas.

Aos 22' Mané enfiou a bola na baliza, mas Artur Soares Dia já tinha apitado uma falta que mais ninguém viu.

Acabou por ser de forma muito injusta e cruel que o Braga inauguraria o marcador. Um remate de Rafa bate em Cédric, que fez com que a bola se desviasse na direção do poste, e na ressaca a bola bateu nos pés de Rui Patrício, que recuava na direção da baliza após uma saída incompleta, acabando por entrar na baliza. Depois do auto-golo de Maurício uma semana antes, mais uma vez a má sorte colocava o Sporting em desvantagem, sem que o adversário tivesse feito o suficiente para o merecer.

A primeira parte não acabaria sem que o Sporting dispusesse de mais uma grande oportunidade de golo na sequência de um canto, em que um remate de Slimani, primeiro, e de Maurício, logo a seguir, fossem desviados na linha de golo por um defesa do Braga.

No princípio da segunda parte o Sporting não conseguiu ser dominador nem criar grandes ocasiões de perigo. Leonardo Jardim decidiu mexer na equipa e tirou André Martins e Carrilo para fazer entrar Heldon e Capel, com Mané a deslocar-se para o centro. As alterações espevitaram mais a equipa, apesar de a bola continuar afastada da baliza do Braga. No entanto, foi precisamente através de uma investida de Mané a partir do centro que o Sporting obteve um penalty indiscutível que permitiu a Jefferson igualar a partida e exorcizar um jejum de golos que já durava desde a época passada.

O empate empolgou o público e a equipa, que poucos minutos depois conseguiria chegar à vitória com um remate fulminante de Slimani, que colocou o estádio em delírio. Apesar de algum excesso de voluntarismo que por vezes acaba por atrapalhar a equipa, o que é facto é que o argelino vai acumulando golos que são decisivos e justifica, no mínimo, que se considere a preparação de um modelo de jogo diferente de forma a permitir a sua integração no onze inicial.


Estava concretizada mais a 6ª reviravolta da época, após duas com o Arouca (de 0-1 para 5-1 na 1ª jornada e de 0-1 para 2-1 na 16ª), Marítimo (de 1-2 para 3-2), Penafiel (de 0-1 para 3-1) e Rio Ave (de 0-1 para 2-1). Se juntarmos as vitórias ao cair do pano em Guimarães e Braga, e a recuperação para a taça com o Benfica de 1-3 para 3-3, é mais que evidente que temos equipa com uma força de vontade tremenda para lutar contra todas as adversidades.

Até final, de registar uma tarja na curva a dizer "Tudo de volta à normalidade, nós a lutar pelo título e vocês pela manutenção" e uma grande defesa de Patrício a segurar a vitória.

Mais uma vez, o Sporting vence sem ter conseguido um jogo de grande nível, mas voltou a fazer o suficiente para merecer a vitória e continuar a intrometer-se numa luta que, vezes sem conta, os comentadores encartados declararam não ser a nossa. Também aqui o Sporting tem tido a arte de saber contrariar o destino.

4 comentários :

  1. Que vergonha no restelo. Há muito tempo que não via uma coisa assim. Não vejo mais jogos do benfas. Há excepção dos que vi com o Sporting este foi o primeiro e último.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Metralha, quando o Sporting joga mal mas mesmo assim só não ganha por causa da arbitragem (Rio Ave, Nacional e Académica) é porque não fez o suficiente. O Benfica mais uma vez não jogou uma beata, mas quando precisa tem a ajudazinha da praxe (Gil Vicente e Belenenses). Assim é fácil.

      Eliminar
  2. A festa seguiu no Restelo.
    Golos contra o Benfica não existem.
    Mais um desejo de Eusébio a concretizar-se.

    Siga.

    O Miguel Rosa, está melhor?

    ResponderEliminar