quinta-feira, 27 de março de 2014

A prioridade nº 1 para a próxima época

Sobre a renovação de contrato de Leonardo Jardim                                                                            
Estive a fazer um esforço de memória para me lembrar dos treinadores do Sporting de que mais gostei até hoje.

Existiram vários: Inácio e Boloni, por motivos óbvios; Robson, um senhor, que saiu demasiado cedo; Queiroz, que colocou o Sporting a jogar futebol como eu nunca vi em Alvalade, alicerçado em monstros como Figo, Balakov e Paulo Sousa; Peseiro, que colocou o Sporting a colocar um futebol muito atrativo, apesar de pouco consistente; Marinho Peres, uma figura carismática que protagonizou um arranque inesquecível em 90/91 e uma excelente campanha na Taça UEFA; ou Paulo Bento, que quando se tratava de defender o clube tinha que vestir não só o fato de treinador, mas também de diretor desportivo e presidente.

Mas de todos estes nomes, não há nenhum que me tenha convencido de forma tão inequívoca como Leonardo Jardim.

Em primeiro lugar, pela competência com que montou esta equipa que tanto nos tem orgulhado. Tendo à disposição um conjunto de jogadores desmoralizado que vinha da pior época da história do clube, e juntando-lhe jovens da academia e aquisições a preço de saldo, conseguiu criar uma máquina fiável que sabe sempre o que fazer em campo. Como Jardim gosta de dizer, uma equipa com uma identidade de jogo. 

Depois, o discurso. É um homem equilibrado, ponderado, humilde e respeitador, e acima de tudo coerente. Sabe a mensagem que quer passar e fá-lo de forma simples e clara, sem subterfúgios e sem se escusar a explicar as suas decisões, tratando jornalistas e adeptos como adultos. 

Lembro-me em particular das suas palavras no final do Arouca - Sporting. O jornalista perguntou-lhe por que motivo tirou William Carvalho, que até estava a jogar bem. Outros treinadores dariam uma resposta genérica do tipo "Eu tive uma fezada que se fizesse esta substituição as coisas iriam correr melhor", mas Leonardo Jardim explicou pormenorizadamente que tinha a ver com o facto de as características técnicas do jogador não se adequarem tão bem ao tipo de jogo que queria impôr.

A sintonia total que parece existir entre treinador e direção é outro ponto que só merece elogios. Não reclama pelos jogadores que não tem. Não se lamenta pela diferença de orçamentos em relação aos rivais. Não alimentou polémicas quando a comunicação social tentou explorar supostas diferenças de discurso entre si e o presidente. O clube tem uma estratégia realista e difícil de implementar, mas Leonardo Jardim soube integrar-se de forma irrepreensível, a ponto de ser difícil perceber onde começam e onde acabam as áreas de responsabilidade da equipa técnica e direção.

Finalmente, a gestão que faz da equipa: a forma gradual e segura como foi lançando Carlos Mané; a visão que teve ao descobrir em William Carvalho a solução para o equilíbrio da equipa que estava a construir; a maneira como conseguiu manter Slimani motivado e focado, mesmo tendo poucas oportunidades para jogar; o trabalho de evolução que transformou jogadores sub-apreciados como Cédric, Rojo ou Adrien em figuras da equipa e do campeonato.

Por tudo isto que referi e ainda mais, posso dizer que hoje admiro Leonardo Jardim como nunca admirei qualquer outro treinador do Sporting. A equipa é perfeita? Claro que não. Há espaço para evoluir e arestas a limar. Mas tenho a certeza que não existem muitos treinadores capazes de conseguir o mesmo que Leonardo Jardim em todas as áreas que referi.

As declarações que fez há pouco, na antevisão do Sporting - Guimarães, vêm na linha daquilo a que nos vem habituando:

in record.pt

A renovação de Leonardo Jardim é um tema importante? Claro que é. Na minha opinião é importantíssimo. Mas não hoje. Hoje o importante é todo o grupo estar focado no jogo de sábado.

No entanto, na minha opinião trata-se da prioridade nº 1 para 2014/15. É fundamental que no dia a seguir ao campeonato terminar que a direção lhe proponha um novo contrato, de duração superior e com condições melhoradas. Não vai ser aquilo que outros clubes lhe poderiam oferecer, mas é uma questão da mais elementar justiça que o Sporting faça o esforço financeiro possível dentro das suas capacidades. 

Leonardo Jardim diz que gosta de cá estar. Caro Leonardo, tenha a certeza que o sentimento é recíproco. Que fique connosco por muitos e bons anos.

8 comentários :

  1. Também gosto de o ter no Sporting. Pessoa equilibrada com um bom discurso e laivos de Ferusson. Pois tal como este último não se ouvem fanfarronises ou choros sobre ter um orçamento inferior aos rivais, entre outros e quando tem de elevar a voz sabe levar a água ao seu moinho com eficácia.

    Recordo-me da boca sobre as arbitragens, relativamente ao record de golos anulados. Bem metida e pertinente.

    Oxalá o Leonardo Jardim seja o verdadeiro Fergusson do Sporting pois ao contrário de Bento, o Leonardo percebe muito mais de futebol.

    SL

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    1. Exatamente, Green Lantern. É uma pessoa perfeitamente correta mas diz o que tem que dizer quando acha necessário.

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  2. Concordo completamente com o texto (com a excepção da inclusão de Peseiro na lista dos melhores - há traumas que duram uma vida inteira). Jardim é realmente um grande treinador e também já está no topo da minha lista de favoritos. O nosso treinador demostra uma grande capacidade de comunicação interna (evidente pela confiança demonstrada pelo jogadores em campo) e externamente (na forma como interage com a comunicação social). Esse discurso sereno parece confundir muita gente, habituada a meias palavras e sempre à procura da última polémica. A frase mais ouvida cá em casa a seguir aos jogos do Sporting é “Deixa-me ouvir o mister”. A evolução de jogadores como Cedric e Rojo é impressionante. Por fim, gosta do Sporting, e isso é agradável :) Espero que fique muitos anos por cá.

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    1. Marisa, eu também faço questão de ouvir Leonardo Jardim a seguir a todos os jogos, coisa que só fazia às vezes com os outros treinadores.

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  3. Falta aí um treinador, Meste de Cerimónais: Mirko Jozic. Com uma equipa cheia de limitações, fez o Sporting praticar um dos melhores futebois de que me lembro. E não fomos campeões porque não nos deixaram, mais uma vez.

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    1. João, há muitos sportinguistas que se lembram com saudades de Mirko Jozic. Curiosamente, a mim em particular não foi um treinador que me tenha marcado, mas admito que possa estar a ser injusto.

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  4. Concordo com texto,tirando so o ponto do queiroz,nunca o achei grande treinador,é bom na parte tactica,mas nao grande coisa como homem para os seus jogadores.
    Tambem concordo com o Joao Costa,o mirko jozic foi um bom treinador,tb destacava outro,nao por aquilo que ganhou mas por aquilo que fez esse treinador deixou uma equipa montada para inacio ganhar o primeiro campeonato depois de 18 anos,esse senhor era o materazzi,como disse nada ganhou,mas deixou uma equipa que defendia como ninguem e mentalmente muito poderosa.

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    1. Caro anónimo, foi com Queiroz que tive uma das duas maiores alegrias com o Sporting, e também a maior desilusão. A maior foi a conquista da Taça de Portugal contra o Marítimo, que pôs fim a um jejum de títulos que durou a maior parte da minha infância e adolescência (a outra maior alegria foi obviamente o título de 99/00). A maior desilusão foi, claro, o 3-6. Tínhamos uma equipa fenomenal, que merecia ter ganho mais do que ganhou.

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