quarta-feira, 9 de abril de 2014

O alargamento e a competitividade (parte 2)

Vimos ontem que a média de golos do campeonato português é a mais pequena quando comparada com as mais competitivas ligas europeias.

É evidente que esta estatística, isolada, não permite tirar conclusões definitivas sobre a competitividade e qualidade de um campeonato. Há parâmetros que simplesmente não são mensuráveis (como a qualidade técnica, tática e física dos jogadores e das equipas), mas existem outros indicadores que são medidos que podem ajudar a chegar a conclusões mais sustentadas, como o número de faltas cometidas por jogo, o tempo útil, o tempo que a bola passa no último terço do terreno, e a distância percorrida pelos jogadores. Infelizmente as estatísticas que são públicas limitam-se normalmente aos golos e disciplina, pelo que não tenho forma de fazer uma análise por esse prisma.

Mas creio estaremos todos de acordo que o golo é o principal momento do futebol, pelo que é legítimo que a qualidade de um campeonato também possa ser avaliada pela quantidade de vezes que a bola entra na baliza.

Usando esse indicador para analisar a liga portuguesa, é também importante ver qual o panorama do com e sem os grandes. É pacífico considerar que Benfica, Sporting, e Porto estão num patamar completamente à parte em relação à generalidade das outras equipas.

Foi por isso que me pareceu útil fazer um exercício de qual seria o panorama da liga portuguesa 2013/14 sem os clubes grandes não participassem. Se excluíssemos os jogos em que participaram Benfica, Sporting, e Porto nesta liga, a classificação estaria assim ordenada:

Nota: ao retirar os resultados dos grandes, cometi um erro à medida que ia modificando o goal average das equipas, e o nº golos marcados nesta tabela é superior em 1 ao nº golos sofridos (deviam ser iguais)

Olhando para esta tabela, podemos observar o seguinte:

Constatação #1: nos 135 jogos disputados sem grandes na liga até ao momento, foram marcados 305 golos, que dá uma média de 2,25 golos por jogo. A média atual total da liga é de 2,38 golos por jogo. Se isolarmos apenas jogos em que participam Benfica, Sporting, ou Porto, a média dispara para 2,79 golos por jogo. 

Constatação #2: no campeonato entre os pequenos, 6 das 13 equipas têm uma média inferior a 1 golo marcado por jogo, o que é um péssimo indicador.


Como é evidente, uma média é apenas isso, uma média. Por isso fiz uma análise tentando perceber qual o peso dos jogos com e sem grandes nos jogos com mais e menos golos.

Comecemos com os jogos que terminaram com 3 ou mais golos marcados. Os resultados são interessantes:


Constatação #3: 1 em cada 2 jogos dos grandes termina com mais de 3 ou mais golos. Apenas 2 em cada 5 jogos sem grandes acabam com 3 ou mais golos. Mesmo assim a diferença entre jogos com e sem grandes não é grande.

Façamos a mesma análise para jogos com 4 ou mais golos marcados:


Constatação #4: aqui a diferença já é mais visível. 1 em cada 3 jogos dos grandes termina com 4 ou mais golos, mas nos jogos sem grandes isso acontece apenas num 1 em cada 5. Aqui o fosso já é maior.

Fazendo agora uma análise pela negativa, ou seja, pelos jogos com menos golos, temos precisamente o inverso, como seria de calcular. Primeiro vamos ver os jogos com 1 golo ou menos:


Constatação #5: enquanto que 1 em cada 4 jogos dos grandes termina com 0 ou 1 golos, nos jogos sem grandes isso acontece 1 em cada 3.

Finalmente, vejamos os jogos que terminaram 0-0:


Constatação #6: 1 em cada 25 jogos dos grandes termina sem golos, e nos jogos sem grandes isso acontece 1 em cada 10.

Não é preciso ser-se um génio para adivinhar o que uma análise destas iria revelar, mas de qualquer forma pareceu-me útil para sabermos exatamente do que estamos a falar.

Agora que o campeonato vai ser alargado a mais duas equipas, isso significa que passaremos a ter, por época, mais 12 jogos com grandes e mais 54 jogos sem grandes. Ou seja, o previsível é que este alargamento vá puxar ainda mais para baixo a estatística dos golos marcados, que na pratica acaba por ser equivalente a menor interesse, menos espetáculo e estádios vazios.

Ao abrir o campeonato a mais dois clubes, a Liga aprovou um aumento da quantidade em detrimento da qualidade. É por isso revoltante ver Mário Figueiredo a tentar impingir ao país que o alargamento é uma medida boa.

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