sábado, 18 de novembro de 2017

Rui foi rei mais uma vez

A vitória de quinta frente ao Famalicão foi relativamente tranquila e não causou grandes sobressaltos ao coração sportinguista, mas devemos essa tranquilidade a mais uma enorme exibição de Rui Patrício. Assim se escreveu mais um capítulo de uma época em grande:



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fantasy journalism

As fantasy leagues (ou ligas virtuais) são um fenómeno cada vez mais popular entre os adeptos de vários desportos. O formato mais normal neste tipo de passatempos é bastante simples: cada pessoa dirige uma equipa e tem um orçamento para a formar, escolhendo um conjunto de jogadores que, ao longo da época, lhe irão dando pontos em função do seu rendimento nos jogos reais. O critério de escolha que cada pessoa segue costuma andar à volta das suas preferências pessoais (normalmente todos fazemos questão em incluir alguns jogadores da nossa equipa preferida) e da perceção dos pontos que cada jogador poderá dar ao longo da competição. Tudo isto, sempre dentro das limitações que os orçamentos impõem - nunca ninguém fica com todos os jogadores que escolheria caso não existisse qualquer restrição.

No jornalismo desportivo, e em particular no que diz respeito aos editoriais da nossa imprensa escrita, passa-se um fenómeno semelhante: quando escrevem, muitos diretores/subdiretores/adjuntos parecem limitados por determinados critérios à boa maneira das fantasy leagues, e não abordam todos os temas que deviam merecer a sua atenção - preferindo restringir-se a um sub-universo da realidade que coincide com os assuntos que não colocam em causa as suas crenças pessoais. Tudo aquilo que for demasiado delicado, é como se não existisse. É uma espécie de fantasy journalism à portuguesa.

Vem isto a propósito dos editoriais que Vítor Serpa e Nuno Farinha escreveram ontem n' A Bola e Record, no dia seguinte ao rebentamento do caso Piriquito:



Duas abordagens diferentes. Serpa foi direto ao tema do momento, mas, de forma relativamente habilidosa, dirigiu-o para onde mais lhe interessava: que os emails poderão não servir de prova; que os emails envolvem figuras menores e figuras mais representativas da administração; e que os responsáveis pelas ações condenáveis são gente pouco recomendável com quem a administração do Benfica não devia conviver nem deixar agir em seu nome.

Tudo isto é um enorme understatement. Primeiro, os emails poderão não servir de prova... mas também podem servir. Neste momento isso é irrelevante para a análise que deveria ser feita à atualidade. Segundo, o caso não envolve apenas figuras menores (suponho que se refira a Pedro Guerra) e figuras mais representativas da administração (suponho que se refira a Paulo Gonçalves): já mete administradores, como Domingos Soares Oliveira, e o próprio presidente Luís Filipe Vieira. Terceiro, a gente pouco recomendável a que Serpa alude é, quer queira, quer não, gente colocada pelas altas patentes do Benfica, de forma inteiramente consciente, para fazer precisamente o tipo de tarefas que os emails revelaram. Isso faz com que a administração e presidente sejam tão pouco recomendáveis como os indivíduos que contrataram para agir em seu nome.

Mas olhar para o editorial de Nuno Farinha é um exercício ainda mais fantasioso. Farinha não só ignora por completo a questão Piriquito e os emails que a levantaram, como tem a distinta lata de falar na redução da suspensão de Nuno Saraiva e do juiz que é adepto do Sporting e daqueles que usa cachecol e publica fotos no Facebook. No dia seguinte à demissão de um membro do Conselho Fiscal da FPF e do anúncio da federação de que vai entregar o caso à PJ, Nuno Farinha acordou repentinamente para o fenómeno do papel dos diretores de comunicação. Para piorar, usa como exemplo benfiquista um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância da Luz - repito, no dia em que rebentou o caso Piriquito e em que houve uma exigência de demissão do Benfica de um juiz que nada fez de errado, Farinha escolheu dar como exemplo um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância. Carlos Janela, ao ler tais argumentos, deve ter aproveitado para tirar notas para distribuir pela sua lista de contactos. Isto é o fantasy journalism elevado ao seu mais alto expoente.

A abordagem habilidosa de um e a abordagem descarada de outro têm, no entanto, uma coisa em comum: nenhum dos dois jornalistas aproveitou o seu espaço de opinião - que tanta vez é usado como local de critica cerrada ao Sporting e, em especial, a Bruno de Carvalho - para aquilo que, neste caso, seria o ponto essencial da análise ao que se passou no dia anterior: repudiar, de forma clara, as ações de Horácio Piriquito e do clube que dá guarida a Pedro Guerra. 

Para pessoas que se dizem tão preocupadas com o futebol português, é estranho que não o tenham feito. Infelizmente, já todos percebemos que as regras do fantasy journalism não são as mesmas que se usam no jornalismo sério.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Meça o tráfico de influências

Crónica de José Diogo Quintela na edição de hoje do Correio da Manhã:



Manobra de diversão


A resposta do Benfica às revelações da revista Sábado que levaram à demissão de Horácio Piriquito não tardou, mas revelou-se um tiro de pólvora seca:

Na sequência da redução do castigo a Nuno Saraiva, diretor de comunicação do Sporting, o Benfica pede a demissão de um dos juizes do Tribunal Arbitral Desporto (TAD), no caso José Manuel Gião de Rodrigues Falcato, disse fonte do clube da Luz ao nosso jornal. 

José Manuel Gião de Rodrigues Falcato integrou o colégio arbitral precisamente indicado por Nuno Saraiva (cada uma das partes indica um elemento, havendo ainda um terceiro juiz), mas as águias alegam ligação ao Sporting com base na página de Facebook de José Manuel Gião de Rodrigues Falcato. 

Numa publicação do dia 1 de outubro, dia do Sporting-FC Porto, o árbitro do TAD surge numa `selfie` no Estádio de Alvalade, numa fotografia, levando alguém a perguntar-lhe: «Já perdeste o cachecol do Sporting? Estás mais bonito sem ele», pode ler-se, ao que José Manuel Gião de Rodrigues Falcato responde: «Ahaha... sempre verde... com ou sem cachecol.» 

«Perante os factos, não resta outra alternativa senão demitir-se», disse ao nosso jornal a mesma fonte encarnada. 

Recorde-se que o TAD analisou o recurso interposto pelo diretor de comunicação do Sporting, Nuno Saraiva, após o castigo inicial de 45 dias imposto pela Federação portuguesa de futebol (FPF), e decidiu reduzir essa punição para nove dias.

Nuno Saraiva tinha recebido este castigo pelas suas declarações após o jogo com o Vitória de Setúbal, para a Taça da Liga, onde criticou o árbitro Rui Oliveira.

in abola.pt (LINK)


A argumentação benfiquista é ridícula: se o juiz do TAD é do Sporting e votou a favor da redução da pena de Nuno Saraiva, então deve demitir-se. É isto, e nada mais. Não há nenhum facto que demonstre que a decisão tenha sido errada, não há nenhum indício de favorecimento ilícito, não há conhecimento de nenhum pedido de favores, nem sequer demonstrações públicas de desrespeito por outros emblemas. Não há nada, que não seja a simples constatação de ser adepto do Sporting.

Se o critério fosse esse, não sobraria ninguém para ocupar este tipo de cargos: Fernando Gomes já foi administrador da SAD do Porto, Meirim é adepto benfiquista, e poderíamos seguir por aí fora. Seria uma razia total. Pior, ser-se adepto de outros clubes que não os três grandes não é suficiente para garantir isenção: há por aí adeptos do Barreirense e do Barcelona que são bem piores do que muitos benfiquistas...

Isto é apenas mais uma demonstração de que a comunicação benfiquista está completamente à deriva. Justiça seja feita: não é nada fácil defender-se o indefensável, pelo que a saída mais fácil acaba ser a criação de manobras de diversão para tentar desviar as atenções daquilo que é essencial. Infelizmente para Luís Bernardo e companhia, a carruagem começa a ganhar demasiada embalagem para ser travada com uns raminhos secos espalhados por cima dos carris.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Obviamente, demitiu-se

"Tenho que me demitir? O que passou se?"

Desfecho inevitável. Pena apenas patético o comunicado que Horácio Piriquito escreveu para anunciar a sua saída do Conselho Fiscal da FPF. Os mails revelados pela Sábado demonstram uma completa consciência da gravidade do que estava a fazer, pelo que é escusado vir com conversas daquelas.


Não estará na altura de chamar os bois pelos nomes?

É um exercício interessante ver como os programas de informação dos diferentes canais deram a notícia do envio de documentos internos da FPF por parte de Horácio Piriquito para Pedro Guerra. A esmagadora maioria das peças identificou Pedro Guerra como sendo "um comentador ligado/afeto ao Benfica, o que é um eufemismo gritante:



Um comentador ligado/afeto a um clube é algo que pode ser utilizado para descrever João Gobern, Manuel Serrão, José de Pina ou até Rui Gomes da Silva (agora que já não faz parte da direção do clube ou da SAD), mas é curto, muito curto, para designar alguém como Pedro Guerra. A maior parte dos adeptos benfiquistas tenta fazer passar que Pedro Guerra nada tem a ver com o Benfica, mas toda a gente sabe que isso não é verdade: Pedro Guerra trabalha para o Benfica a tempo inteiro, recebe um salário do Benfica, o seu local de trabalho é em instalações do Benfica, usa a conta de email que o Benfica lhe forneceu, para tratar de assuntos que interessam, direta ou indiretamente, ao Benfica.

Está na altura de se começar a chamar os bois pelos nomes: Pedro Guerra é um elemento da estrutura do Benfica, pelo que é assim que deve ser descrito. Aquilo que faz, no âmbito das funções (sejam elas quais forem e tenham elas o nome que tiverem) que exerce no Benfica, implica o Benfica. Aquilo que determinará se o Benfica será ou não punido desportivamente - se se chegar à conclusão que existe um delito cometido por Pedro Guerra - dependerá, sobretudo, do tipo de crime que estiver em causa.

P.S.: A SportTV+ conseguiu a maior proeza de todas, que foi dar a notícia sem referir em algum momento os nomes de Horácio Piriquito, de Pedro Guerra e do Benfica. Isto é que é informação rigorosa e completa...

Mais um menino querido (ou o Piriquito que dá mais do que a patinha)

Excerto do artigo da edição de hoje da revista Sábado: LINK
O comentador Pedro Guerra recebeu durante vários meses documentos internos da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) relacionados com auditorias trimestrais, os quais não eram de divulgação pública. O acesso de Guerra a tais documentos apenas foi possível com a colaboração de Horácio Piriquito, gestor e membro do Conselho Fiscal da FPF, que lhe foi passando várias dessas auditorias.
Confrontada com os documentos em si, a Federação Portuguesa de Futebol garantiu à SÁBADO que os mesmos "são internos, sem acesso público". Questionada ainda se algum membro dos órgãos sociais poderia fazer a sua divulgação, a Federação insistiu: "São documentos internos da FPF".
Num dos emails trocados, em Setembro de 2015, depois de ter recebido mais um relatório da auditoria interna, Pedro Guerra, começando por agradecer o envio do documento - "que guardarei religiosamente e de forma confidencial, claro!", escreveu - quis saber a opinião do membro do Conselho Fiscal quanto a "uns devedores manhosos" os quais iriam deixar a Federação Portuguesa de Futebol "pendurada". "Não achas", questionou Guerra. 
Na resposta, Horário Piriquito, explicou que "muitas vezes são as associações que estrangulam ou beneficiam os clubes, conforme os alinhamentos ‘clubísticos’". Daí, continuou Horácio Piriquito, "as corridas do SLB e do FCP ao domínio das associações". "Se uma associação é portista pode atrasar os pagamentos a um clube alinhado com o Benfica, e vice-versa", acrescentou. É claro, disse ainda Horácio Piriquito, que "estas coisas nunca se podem escrever, só dizer e com pouca gente a ouvir".

As partes a negrito são de minha responsabilidade.

Infelizmente, já nada disto surpreende. A serem verdadeiros estes dados, tudo indica que estaremos perante mais uma situação de tráfico de influências, desta feita envolvendo um membro em funções dos órgãos sociais da FPF.


Fernando Gomes não pode fazer de conta que nada se passa, e tem de afastar imediatamente Horácio Piriquito da FPF.

Já agora, seria bom que a PJ aproveitasse a dica de Horácio Piriquito para olhar para a bandalheira que é o jogo de poder nas associações de futebol.

EDIT 11h06 - Entretanto a FPF já reagiu em comunicado:

"Comunicado da Federação Portuguesa de Futebol

1. A FPF tomou conhecimento no início da semana da possibilidade de documentos internos de controlo de gestão da Federação Portuguesa de Futebol terem sido partilhados com pessoas exteriores à FPF;
2. Por em causa poder estar a violação de segredo, a FPF denunciou o referido facto à Polícia Judiciária, disponibilizando-se para os procedimentos entendidos por convenientes;
3. O conteúdo da revista «Sábado», publicado esta quarta-feira online, aponta no sentido de os documentos internos da FPF terem sido partilhados por um elemento eleito para o Conselho Fiscal, pelo que a Direcção da FPF decidiu remeter nesta data, o conteúdo do artigo publicado para o Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol, apresentar queixa à Procuradoria Geral da República, por se tratar de eventual crime desta dependente, e requerer a realização de uma Assembleia Geral Extraordinária para discussão e votação da proposta de destituição de titular de órgão social da FPF, por violação grave de deveres estatutários."


A 'atitude' de Mathieu

Jérémy Mathieu deu ontem uma interessante entrevista ao programa Porta 10A, na Sporting TV. O jogador francês falou de vários temas, como a integração e adaptação ao Sporting e a Portugal, bem como as suas metas para a ponta final da sua carreira.

As palavras de Mathieu são um espelho da imagem que tem deixado nestes quatro meses ao serviço do Sporting: é um atleta altamente profissional, ambicioso e que, ao contrário do que muitos temiam,  veio para o Sporting totalmente motivado para continuar a conquistar títulos. Mathieu já foi campeão europeu e mundial pelo Barcelona, mas tem sido fácil perceber, pela sua postura em campo, que não veio para o campeonato português para usufruir de uma espécie de pré-reforma.

É sintomático que Mathieu tenha destacado a atitude como fator mais importante para se vencer no futebol. Se a sua qualidade enquanto central tem sido uma evidente mais-valia para o clube, aquilo que, a meu ver, tem conquistado os adeptos é, precisamente, a mentalidade demonstrada: mantém-se imperturbável sob pressão e não hesita em dar o exemplo aos colegas quando é preciso ir para cima do adversário.

Fica aqui um pequeno resumo da entrevista, preparado pelo Sporting Grande Jornal:


Não foi preciso muito tempo para percebermos o tipo de jogador que Mathieu é. A única incógnita que permanece - e que nunca se dissipará devido ao seu historial clínico - é a questão física. Mas se Mathieu conseguir evitar lesões graves durante estes dois anos de contrato e se mantiver a bitola exibicional ao nível que tem estado, "arrisca-se", de caras, a ser dos melhores centrais que já tive o privilégio de ver jogar no Sporting.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 4: Nuno Gaioso na linha de sucessão?

Os posts anteriores sobre a entrevista de Vieira limitam-se a apontar algumas mentiras e incoerências do presidente do Benfica, que têm o condão de passar sempre ao lado das análises da nossa atenta comunicação social, mas nada disso é particularmente relevante ou novo - tal como não é particularmente novo ou relevante o manancial de potenciais pérolas que poderão vir a ser relembradas num futuro mais ou menos próximo.

Uma das questões realmente interessantes que a entrevista abordou é a da sucessão de Vieira.

Acredito que Vieira, caso não tenha nenhum problema grave de saúde, não terá qualquer intenção de abandonar o cargo a curto ou médio prazo. Com as delicadas questões de índole particular das dívidas à banca e com o lastro de problemas (passados ou potencialmente futuros) com a lei, deixar de ser presidente do Benfica seria abdicar de um dos melhores escudos que este país tem para oferecer. Vale e Azevedo que o diga.

No entanto, Vieira nunca teve grandes problemas em falar da sua sucessão, e percebe-se porquê: é uma forma relativamente eficaz de não parecer demasiado agarrado ao lugar.

O episódio mais memorável nesta matéria aconteceu há cerca de 10 anos, quando Vieira anunciou, com toda a pompa e circunstância, que iria preparar Rui Costa para ser o seu sucessor:



Não foi preciso esperar muito para perceber que este anúncio de intenções não passava de uma forma de se aproveitar da popularidade do ainda então jogador - convém lembrar que Vieira, na altura, estava longe de ter a mesma segurança no cargo que tem atualmente. Rui Costa nunca teve perfil para ser um presidente à imagem de Vieira.

Na entrevista da semana passada, o presidente do Benfica voltou a abordar o tema:


As palavras finais de Vieira no vídeo acima são curiosas. Basicamente está a dizer que quem se quiser candidatar ao Benfica terá de pensar duas vezes porque os profissionais que ele colocou são insubstituíveis. Ou os meus, ou o caos. O desejo de dar continuidade à dinastia vieirista é clara, o que até é compreensível: nunca se sabe os problemas que poderiam aparecer caso uma pessoa não alinhada lhe sucedesse na direção do clube.

No período que antecedeu as últimas eleições, a imprensa avançava com dois candidatos a nº 2 de Vieira: José Eduardo Moniz e Nuno Gaioso. Acredito que a pessoa que Vieira tem em mente seja o último, porque a ligação com Moniz sempre pareceu uma espécie de casamento de conveniência.

Vieira e Gaioso na assinatura do protocolo com o Millonarios
Já a ligação a Nuno Gaioso, que é bastante mais jovem que Moniz, parece apresentar um potencial bem superior.  Para além de aparecer cada vez mais junto ao presidente e de estar a ganhar protagonismo nas AG's, é uma pessoa que vem do mundo da política e tem ainda um bónus nada negligenciável: é sócio do filho de Vieira na empresa Capital Criativo. Melhor que isto, do ponto de vista do atual presidente, é impossível.

Hoje, com os estatutos totalmente armadilhados, só um cataclismo impedirá que Vieira continue a ser eleito caso se apresente a votos - independentemente da oposição que lhe faça frente. E mesmo no caso de não se recandidatar, isto também se aplicará ao candidato que tiver a sua benção. É, por isso, bastante provável que Nuno Gaioso seja o próximo presidente do Benfica. Mais do que o desejo dos sócios, será o desejo de Vieira a determiná-lo. A principal dúvida que fica é quando é que isso acontecerá.

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 3: Os consultores de arbitragem




segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Bryan Ruiz reintegrado

O Record noticiou há pouco que Bryan Ruiz foi reintegrado no grupo de trabalho liderado por Jorge Jesus. O costa-riquenho passa, portanto, a estar disponível para ser utilizado por Jorge Jesus assim que o treinador o entenda apto para competir. Esta reintegração é feita após ter-se alcançado um entendimento entre jogador, treinador e presidente.


Não sei ao certo o que se passou para Bryan Ruiz ter sido afastado da equipa, mas parece-me que esta é uma boa notícia. Bryan é um jogador caro que pode fazer uma posição para a qual o plantel não tem muitas soluções: Acuña está lesionado, Bruno César não tem dado aquilo de que a equipa precisa quando é colocado no flanco esquerdo, e Podence tem sido opção para outras posições.

O rendimento de Bryan Ruiz na época passada ficou bastante aquém do desejado, mas isso não só não foi exclusivo seu - houve muitos jogadores a jogar abaixo do esperado - como também pode ter sido prejudicado pelo desgaste acumulado ao longo de épocas consecutivas a disputar torneios internacionais no verão - mundiais, Gold Cup's, e por aí fora. Dentro do mau que foi este seu afastamento, pelo menos agora teremos um Bryan Ruiz fisicamente repousado. Utilizado com conta, peso e medida, penso que poderá ser uma mais-valia para a equipa. Uma boa notícia, portanto.


Dissecando a entrevista de Vieira, parte 2: "Devo ser a única pessoa que foi campeão e não deu nenhuma entrevista"


Vindo de um homem que é especialista em esconder-se nos momentos maus e em aparecer quando as coisas correm bem, esta afirmação só pode ser encarada com uma enorme gargalhada.

Segundo Vieira, o facto de não ter dado nenhuma entrevista é uma forma de demonstrar que a conquista da época passada foi devido ao coletivo. Más línguas poderiam dizer que não as deu para evitar perguntas incómodas sobre as revelações dos emails, que na altura andavam a sair em suaves prestações semanais - e nunca se sabe se não poderia ser desmentido logo na terça-feira seguinte. 

De qualquer forma, Vieira parece ter memória curta, porque há apenas dois anos foi protagonista de uma das mais escandalosas peças propagandistas que Portugal já teve ocasião de assistir nas últimas décadas: a mega-reportagem da SIC, dividida em três episódios, na sequência do título de 2014/15, que teve como grande protagonista... o presidente do Benfica.


As declarações de Vieira são de uma falsa humildade e só podem enganar os Serpas e os Delgados da vida, ou seja, aqueles que fazem questão de viverem enganados. E utilizando o argumento de Vieira, então em 2014/15 não terá havido mérito do coletivo... o que é uma tremenda injustiça para pessoas como Paulo Gonçalves, Nuno Cabral e Adão Mendes.

Dissecando a entrevista de Vieira, parte 1: "O Benfica nunca fez nenhuma antecipação de receitas"


A afirmação do presidente do Benfica em como o Benfica nunca fez antecipação de receitas é tão falsa como demagógica.

É falsa porque está provado que o Benfica, há não muito tempo, antecipou receitas. Refiro-me aos valores da transferência de Bernardo Silva para o Mónaco: o Benfica recorreu à sociedade financeira XXIII Capital para receber antecipadamente os valores que o Monaco tinha ficado de pagar em várias tranches.

O documento que prova que o Benfica antecipou o recebimento desses valores foi divulgado pelo Football Leaks em janeiro de 2016.




Na altura, o Benfica reagiu em comunicado dizendo que a antecipação de receitas de transferências de jogadores era "uma vulgar operação financeira à semelhança de outras já feitas por esta e muitas outras sociedades desportivas". Ou seja, o Benfica reconheceu, em comunicado, que já tinha feito outras antecipações de receitas de transferências de jogadores, desmentindo, portanto, aquilo que o presidente do Benfica disse a todos os sócios e adeptos na entrevista da semana passada.

Para piorar, Vieira também mentiu ao dizer que qualquer antecipação de receita que houvesse seria para o pagamento de dívida. A antecipação de receita que o documento revelado pelo Football Leaks refere-se a tranches referentes ao período compreendido entre julho de 2015 e julho de 2016. Nesse período, a dívida abatida pelo Benfica foi marginal, muito inferior ao valor oficial da transferência de Bernardo Silva para o Monaco. Isto significa que o valor antecipado não foi destinado ao abatimento de dívida.

É fácil percebe a razão que levou o presidente do Benfica a fazer esta afirmação: distinguir-se positivamente em relação aos rivais. Segundo o último R&C, o Benfica não tem qualquer dívida referente a factoring (o que quer dizer pouco, porque os vários R&C's trimestrais de 2014/15 omitiram a antecipação de receitas da transferência de Bernardo Silva), em oposição a Sporting e Porto, que reportaram nas suas contas a existência de receitas antecipadas.

A afirmação de Vieira na entrevista é, portanto, falsa. Mas mesmo que fosse verdadeira, não passaria de demagogia barata destinada a enganar os benfiquistas. A antecipação de receitas não é mais do que uma forma alternativa de endividamento. Qual é a diferença entre pedir uma antecipação de uma receita de 15,75 milhões referente a uma transferência em relação a contrair um empréstimo obrigacionista do mesmo valor? No fim do dia, vai dar ao mesmo: quem antecipa receitas, fica com o dinheiro disponível mais cedo e perde o direito de as receber quando a prestação vencer, pagando, como contrapartida, uma comissão à sociedade financeira a que recorreu; quem contrai um empréstimo obrigacionista (ou outro tipo de financiamento) fica com esse dinheiro disponível de imediato e terá um dia de o pagar com juros - recorrendo, obviamente, ao dinheiro de outras receitas que entretanto for obtendo. E, como se sabe, não há clube em Portugal que tenha contraído mais empréstimos obrigacionistas do que o Benfica.


domingo, 12 de novembro de 2017

Sábado em cheio nas modalidades

No andebol, o Sporting venceu de forma categórica o Besiktas por 34 - 27 e deu um passo fundamental para se manter na disputa pelo segundo lugar do grupo, que dá acesso à fase seguinte da Liga dos Campeões da EHF.


No próximo sábado, o Sporting desloca-se à Ucrânia para um jogo decisivo na luta pelo 2º lugar. Uma eventual vitória frente ao Motor colocar-nos-á em boa posição para conseguirmos a qualificação, pois os ucranianos ainda terão de defrontar o Montpellier na última jornada. O Sporting vai à Rússia na 9ª jornada defrontar o Chekhovskie Medvedi, e receberá o Metalurg no João Rocha na última jornada.


Em voleibol, vitória tranquila por 3-0 frente ao Leixões, que mantém o Sporting em segundo lugar na classificação, com a possibilidade de igualar o Benfica (que tem um jogo a mais) na liderança.


Mas o jogo mais emocionante da tarde estava reservado para a visita do Sporting ao Juventude de Viana, em hóquei. O Sporting liderou o marcador desde os primeiros segundos, mas a equipa da casa acabaria por empatar a 50 segundos do fim com uma decisão muito polémica de arbitragem: transformaram uma falta sobre Caio (que seria a 10ª falta do Juv. Viana) numa simulação (que foi a 10ª falta do Sporting). Felizmente ainda houve tempo, nos últimos segundos, para o Sporting fazer o 3-2 repor a justiça no marcador, com outra decisão polémica de arbitragem.


O Sporting segue com 4 vitórias em 4 jogos, a par de Benfica e Oliveirense. O Porto também segue apenas com vitórias, mas tem um jogo a menos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

A defesa de Miguel Lucas Pires

Miguel Lucas Pires, o juiz do TAD a quem o Benfica ofereceu cinco bilhetes através de Fernando Seara, invocou à revista Sábado o direito de resposta para contar a sua versão dos acontecimentos - que pode ser lida aqui: LINK.

A resposta é longa e está separada em vários pontos, mas gostaria de destacar a seguinte parte:
14. Acresce, ainda, que à data dos factos (Abril de 2017), não exercia funções de árbitro em nenhum processo em que fosse parte o Sport Lisboa e Benfica ou alguma das diversas empresas do seu universo empresarial, ou algum jogador, treinador, dirigente ou funcionário.
15. Desde a data dos factos e a até à presente data, não exerci funções de árbitro em nenhum processo em que fosse parte o Sport Lisboa e Benfica ou alguma das diversas empresas do seu universo empresarial, ou algum jogador, treinador, dirigente ou funcionário.

Isto não é verdade. Em junho de 2017, o TAD pronunciou-se sobre o processo que o Benfica colocou a Bruno de Carvalho. Miguel Lucas Pires foi o árbitro nomeado pelo Benfica nesse processo.


Mais uma cortesia descoberta, desta vez a um juiz do TAD

"Juiz" do Tribunal Arbitral do Desporto apanhado a pedir bilhetes ao Benfica

Miguel Lucas Pires confirmou ter solicitado através de Fernando Seara ingressos para um jogo no Estádio da Luz, mas garantiu não ter violado o Estatuto Deontológico dos árbitros do TAD.

Foi a 11 de Abril deste ano que o administrador da SAD do Benfica Domingos Soares Oliveira encaminhou por email um pedido: cinco bilhetes para o jogo Benfica-Marítimo da época passada. Os lugares, segundo o administrador, deveriam ser "jeitosos". Na resposta, Ana Zagalo, funcionária da direcção comercial, informou que "o melhor" disponível era no piso 1, bancada BTV ou no piso 1, sector 39, mais próximo da Tribuna Presidencial, mas menos central. O pedido em causa chegou ao administrador da SAD através de Fernando Seara e destinava-se a Miguel Lucas Pires, árbitro no Tribunal Arbitral do Desporto (TAD), indicado pelo Benfica em alguns processos que correram naquele tribunal, como, por exemplo, o caso dos vouchers.

O Estatuto Deontológico do TAD é claro: "Quer durante quer depois de concluída a arbitragem, nenhum árbitro deve aceitar oferta ou favor proveniente, directa ou indirectamente, de qualquer das partes, salvo se corresponder aos usos sociais aceitáveis no domínio da arbitragem". O código de conduta estabelece que um árbitro designado por uma das partes "não é seu representante ou mandatário, estando, em todas as circunstâncias, sujeito às obrigações deontológicas previstas neste Estatuto", isto é, imparcialidade e independência.

Em resposta à SÁBADO, depois de questionado se tal pedido não violaria o estatuto de árbitro, Miguel Lucas Pires confirmou ter solicitado ingressos através de Fernando Seara, sublinhando nunca ter solicitado bilhetes a "a qualquer dirigente, funcionário, treinador ou jogador do Benfica". "À data em que foram solicitados os convites em causa, o Prof. Fernando Seara, ao que julgo saber, não exercia qualquer cargo na estrutura directiva do Benfica", referiu ainda Miguel Lucas Pires, acrescentando ter "há décadas" uma relação de amizade com Fernando Seara, desde o tempo em que este foi secretário-geral adjunto do CDS, liderado pelo seu tio, Francisco Lucas Pires.

Leia mais na edição nº706 da SÁBADO a partir de quinta-feira nas bancas (LINK)

A revista Sábado revela na edição de hoje mais uma oferta de bilhetes do Benfica a uma figura com um cargo relevante no edifício do futebol português. Desta vez, Domingos Soares Oliveira deu indicações para serem oferecidos cinco lugares "jeitosos" a Miguel Lucas Pires, juiz do TAD que tem sido chamado a deliberar sobre processos que envolvem o Benfica ou os seus rivais.

Miguel Lucas Pires defende-se dizendo que nunca pediu bilhetes diretamente ao Benfica ou a seus funcionários, mas isso é uma pobre desculpa: usar um intermediário para obter um favor de um clube é, neste caso, tão grave como o pedir diretamente. Pediu os bilhetes a Seara, mas sabia que Seara tem acesso privilegiado às figuras mais importantes do Benfica. E Seara, ao fazer o pedido, fez questão de indicar ao Benfica quem seria o destinatário das borlas. Está à vista de todos que o cargo do beneficiário desta cortesia não é indiferente às atitudes tomadas pelos diferentes intervenientes. 

Se Miguel Lucas Pires queria ver um jogo do Benfica, tinha bom remédio: comprar bilhetes como qualquer outro cidadão. Preferiu ir pelo caminho mais fácil, mas isso não é conduta compatível com o cargo que ocupa. Num país a sério, Miguel Lucas Pires teria de ser afastado imediatamente do TAD.

P.S.: como começa a ficar complicado recordar todas as informações já reveladas, aqui fica uma lista das ofertas de bilhetes do Benfica a pessoas com cargos de responsabilidade no futebol português:
  • Convites duplos para o jogo Benfica - Juventus para vários elementos do Conselho de Disciplina que tinham ficado "cheios de moral" por terem livrado Jorge Jesus de um castigo: Manuel Saraiva, Vítor Carvalho, Domingos Cordeiro, Leonel Gonçalves, Jorge Amaral e João Guimas - a pedido de João Leal, responsável pelos registos e transferências da FPF;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para: Andreia Couto, dirigente da Liga;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para Emídio Fidalgo, responsável pela nomeação dos delegados da Liga e peça fundamental para ignorar os incidentes que envolveram Jorge Jesus em Guimarães;
  • Convite (incluindo viagem, estadia e bilhete) para a final da Liga Europa para Nuno Cabral, delegado da Liga e auto-proclamado candidato a menino querido do Benfica;
  • Cinco convites para o jogo Benfica - Nacional para Nuno Cabral, delegado da Liga e auto-proclamado candidato a menino querido do Benfica, dois dos quais seriam destinados a dois árbitros assistentes;
  • Convite duplo para o jogo Benfica - Nacional para Ferreira Nunes (a.k.a. Frankc Vargas), para o camarote presidencial;
  • Convite duplo para o jogo Benfica - Nacional (jogo do título de 2015/16) para Simões Dias, ex-delegado que "safou" Paulo Gonçalves e Nuno Gomes de um castigo maior;
  • Oferta de 50 bilhetes para o jogo Benfica - Marítimo a Luciano Gonçalves, presidente da APAF.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Bruno de Carvalho tem de se demitir

Depois de ter ouvido este pedaço da reportagem da CMTV sobre a denúncia feita por Paulo Pereira Cristóvão, Bruno de Carvalho deixa de ter margem para se manter como presidente do Sporting e só tem um caminho: a demissão.

Peço a vossa melhor atenção para este vídeo:








Graças a este magnífico pedaço de jornalismo, ficámos a saber que Tanaka não custou ao Sporting os 750.000 euros que foram anunciados na altura, mas sim 750 milhões! Isto é o caso mais flagrante de gestão danosa que existe na história do futebol mundial, porque com este dinheiro todo poderíamos ter contratado quase todo o melhor XI da FIFA...

Rua, Bruno!

P.S.: justiça seja feita à jornalista em causa: quando falou em 750 milhões, não especificou a moeda ou a unidade de conversão a que se referia. Até se pode dar o caso de ter razão, porque, na realidade, Tanaka custou 750 milhões... de décimos de cêntimo de euro ao Sporting.


Evolução dos proveitos e custos operacionais

Na semana passada, no post em que fiz uma análise às contas dos três grandes, fiz algumas considerações sobre o trabalho que tem sido realizado no Sporting ao nível da captação de receitas (podem ler neste LINK). Vou agora complementá-las com os habituais quadros que mostram a sua evolução ao longo das últimas épocas.

Começando pelas receitas, houve um crescimento generalizado nas várias fontes de receitas. O aumento mais acentuado deu-se ao nível das proveitos provenientes da participação nas competições europeias. Apesar de todas as rúbricas terem apresentado valores superiores em relação a 2015/16, algumas das quais em percentagens bastante apreciáveis, confesso-me desiludido com o valor dos patrocínios: esperava um salto superior com o patrocínio da NOS a tempo inteiro (na época anterior apenas existiu no 2º semestre). Na realidade, o Sporting apenas faturou mais 1,5 milhões a mais do que em 2014/15, última época com a Meo e a primeira com a Macron, o que não é propriamente motivo para festejos. O contrato com a Macron foi entretanto renovado, com efeitos a partir da época em curso, pelo que estou curioso para ver qual será a evolução registada no primeiro trimestre de 2017/18. As restantes rubricas deverão manter o mesmo ritmo de crescimento moderado.


Ao nível dos custos operacionais, os fornecimentos e serviços externos parecem perfeitamente controlados. Em relação aos custos com pessoal, a situação, como se sabe, é diferente: os gastos com salários na equipa de futebol têm sofrido aumentos consideráveis nas últimas duas épocas. Em 2017/18, suspeito que haverá um novo aumento dos custos com pessoal, ainda que num ritmo bastante inferior ao que se verificou em 2015/16 e 2016/17.


Os resultados operacionais foram, de longe, os melhores de sempre na história do Sporting. No entanto, deve haver consciência que estamos a correr alguns riscos com o nível atual de custos com o plantel e equipa técnica - cujo crescimento não tem sido, nem de perto nem de longe, acompanhado pelas receitas ordinárias. Em 2017/18, teremos de fazer uma grande venda (ou duas boas vendas), não deveremos para evitar prejuízos. 

Convém que se comece a olhar um pouco mais à frente, pois o que se passará na época de 2018/19 é uma grande incógnita: por um lado, entra em vigor o novo contrato televisivo com a NOS, o que levará a um aumento considerável dessas receitas; por outro, Portugal terá menos uma equipa na Liga dos Campeões (só uma se apura diretamente e outra irá à 3ª pré-eliminatória). Sem prémios da UEFA, sem marketpool da Liga dos Campeões, sem as bilheteiras das visitas dos tubarões e sem a montra para os jogadores, quem ficar de fora terá, certamente, que fazer ajustes significativos à sua estrutura de custos.


segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Rescaldo do jogo com o Braga

A arbitragem

Saí do estádio e cometi o erro de ligar o rádio para ouvir as entrevistas rápidas na RR. Enquanto jogadores e treinadores não chegavam ao local das entrevistas rápidas para fazerem as suas declarações, os cavalheiros de serviço na emissora católica nacional deram nota 1 a Xistra por, segundo a sua opinião, o árbitro ter beneficiado de forma clara o Sporting. Concordo com a nota mas, no cômputo geral, não se pode dizer que o Sporting tenha sido beneficiado de uma forma clara. 

O grande erro do jogo foi, obviamente, o golo anulado ao Braga. Com a existência de VAR, é inaceitável que aconteçam situações destas nos lances de dúvida de fora-de-jogo - o árbitro deve deixar sempre seguir mesmo que o fiscal-de-linha assinale a posição irregular, e depois reavalia-se pelas repetições se for golo. Pouco depois, há um penálti sobre Podence - de que não me apercebi no estádio -, mas que, recorrendo às imagens, o VAR também podia ter assinalado. Doumbia fez falta segundos antes do penálti sobre Alan Ruiz, mas este é um erro que, na minha opinião, é desculpável, porque existem n casos destes em todos os jogos que são assinalados (ou não) de forma errática. Depois ainda houve a questão disciplinar: Esgaio fez faltas para amarelo suficientes para não acabar o jogo, e André Pinto devia ter visto o segundo amarelo quando comete uma falta junto à grande área do Sporting, aos 93', quando o resultado estava em 1-2.

A arbitragem foi péssima, no geral o Braga tem mais razões de queixa - pelo que considero que o Sporting foi beneficiado -, mas não foi o roubo de igreja que andam para aí a querer vender. E está muito longe de anular os benefícios que outros têm tido desde que o campeonato começou.


A exibição

Os senhores da RR também disseram que o Braga fez uma exibição muito superior ao Sporting e que, como tal, o resultado acabou por ser muito injusto para os minhotos. 

Concordo que o Sporting fez um jogo pouco conseguido, mas é absurdo dizer-se que o Braga tenha feito melhor. Na primeira parte, Rui Patrício foi um mero espectador, e os únicos calafrios por que passou surgiram a partir de desatenções de jogadores nossos. Nos primeiros 75', o Braga teve uma única verdadeira oportunidade - a do golo anulado -, enquanto o Sporting teve várias: no início, Bruno Fernandes (após grande passe de Dost) surge na cara do guarda-redes e define mal; ainda durante a primeira parte, Matheus teve uma brilhante defesa a cabeceamento de Coates e outra boa parada de um livre de Bruno Fernandes; na segunda parte, Dost atira à malha lateral após cruzamento de Jonathan; e, poucos minutos depois, o holandês marcou o golo. Neste período, repito, o Braga teve uma ocasião para marcar. Com o resultado em 1-0, Abel finalmente arrisca, e só a partir dos 75' é que o Braga começa a ameaçar a baliza de Rui Patrício: Gelson tira de forma brilhante uma oportunidade de golo a Esgaio; Fransérgio escapa a André Pinto e faz um remate que sai próximo do poste; e depois surgiram os dois golos do Braga, com uma oportunidade perdida por Doumbia pelo meio.

Olhando exclusivamente para o futebol jogado, só quem não viu os primeiros 75' pode dizer que o Braga mereceu ganhar.


Jesus e as lesões

É uma pena que o Sporting tenha consentido este empate após ter tido uma prestação bastante satisfatória neste complicado ciclo de jogos que agora terminou. Ontem, Jesus foi forçado a fazer mais duas substituições devido a lesões. O melhor período do Braga coincide com uma fase em que o Sporting tinha de fora mais de meia-equipa habitualmente titular: Piccini, Coentrão, Mathieu, William, Acuña e Dost. Parece haver, efetivamente, um problema de gestão física dos jogadores do Sporting. A rotatividade (não me refiro a trocar quatro ou cinco jogadores de cada vez, mas sim em ir fazendo mudanças pontuais no onze para gerir fisica e psicologicamente o plantel) tem sido feita em função das lesões, quando, na realidade, devia ser feita de forma a prevenir lesões. 

Jesus tem de rever a estratégia que tem seguido. O próximo ciclo terá 9 jogos num espaço de 35 dias e poderá definir o futuro do Sporting em quatro competições. Está visto que não temos plantel para ir a todas, pelo que as prioridades deveriam estar bem definidas: campeonato e Taça de Portugal à frente de todas as outras.

domingo, 5 de novembro de 2017

Prometedor

Uma das boas exibições de terça-feira passada foi a de Stefan Ristovski. O lateral macedónio fez o seu primeiro jogo a sério como titular (já tinha jogado contra Marítimo, para a Taça da Liga, e Oleiros, para a Taça de Portugal) e teve um desempenho prometedor. Num jogo que assentava que nem uma luva às características de Piccini, Ristovski teve um excelente desempenho defensivo, anulando Mandzukic e dando muito trabalho ao "fresco" Douglas Costa. Não teve grandes oportunidades para subir pelo flanco, apesar de ter pedido a bola aos companheiros por diversas vezes - deu ideia que os colegas de equipa simplesmente não estão habituados a ter um lateral predisposto a fazê-lo.

Será uma das curiosidades do próximo jogo de logo: conseguirá Ristovski manter o nível exibicional contra o Braga?



sábado, 4 de novembro de 2017

A PJ foi à sede da FPF

A TVI noticiou ontem que a PJ se deslocou à FPF, por mais do que uma vez, para consultar documentos relacionados a investigação em curso sobre o caso dos emails. Segundo a notícia, a PJ está a olhar para o processo de nomeações, atribuição de notas a árbitros e relatórios de delegados, recuando até ao ano de 2011. Estas visitas realizaram-se antes de a PJ ter realizado buscas no Estádio da Luz e nas residências de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Pedro Guerra, Adão Mendes e Nuno Cabral.

Aqui fica a notícia para quem não teve oportunidade de ver.




sexta-feira, 3 de novembro de 2017

As contas dos três grandes

Finalmente, já se pode fazer uma comparação entre os relatórios anuais de Sporting, Benfica e Porto. Comecemos pelos proveitos operacionais:


À semelhança do que se tem verificado nas últimas épocas, o Sporting consegue ter números idênticos aos de Benfica e Porto naquilo que depende diretamente dos seus adeptos. Ao nível da vertente corporate, no entanto, continua distante dos seus rivais, apesar de se verificar uma certa aproximação em algumas dessas componentes.


Direitos TV: os valores que o Sporting recebe atualmente são superiores aos do Porto, graças à renegociação do contrato com a PPTV. Em 2017/18 os valores deverão manter-se, com a possibilidade de haver ligeiras variações em função daquilo que se receberá do marketpool da UEFA. O Benfica cumpriu o seu primeiro ano do novo contrato televisivo, conseguindo, com isso, um aumento significativo em relação à época anterior. Esta vantagem do Benfica manter-se-á em 2017/18, mas deverá ser anulada em 2018/19 com a entrada em vigor dos contratos de Sporting e Porto com a NOS e Meo, respetivamente.

Bilhetes de época: a qualificação direta para a Liga dos Campeões, depois de uma época de ausência, permitiu ao Sporting registar um aumento de 24% nas receitas com os bilhetes de época em 2016/17. Um aumento significativo que coloca o Sporting à frente dos rivais - e a uma grande distância do Porto.

Bilheteira: a fraca prestação desportiva do Sporting fez com que esta fonte de receitas estagnasse face a 2015/16. As excelentes casas com o Real Madrid e Dortmund acabaram por compensar, de certa forma, as receitas que se deixou de fazer nas competições internas, das quais nos deixámos afastar muito prematuramente. O Benfica foi, como se esperava, a equipa que mais dinheiro fez com a bilheteira, graças à excelente carreira nas competições nacionais e na Liga dos Campeões, que proporcionaram várias casas cheias. É previsível que em 2017/18 o panorama mude, se se confirmar a provável eliminação nas competições europeias e se se mantiver uma prestação abaixo das expectativas no campeonato.

Merchandising: o Benfica é a equipa que, de longe, mais dinheiro faz nesta categoria. Note-se, no entanto, que as receitas de merchandising pertencem ao clube, e não à SAD benfiquista. Apenas coloquei aqui os valores para haver um termo de comparação. O Sporting registou um aumento de 21% face a 2015/16, mas continua, na minha opinião, longe de explorar de forma perfeita o seu merchandising. A gama de produtos disponíveis continua reduzida - apesar de estar a melhorar - e as limitações físicas da loja verde também não ajudam.

Camarotes e Business Seats: apesar de ter mantido em 2016/17 o ritmo de crescimento das suas receitas corporate na ordem dos 15%, o Sporting continua a uma grande distância dos seus rivais. Continua a haver muito trabalho a fazer nesta área - não é compreensível que continue a haver tantos camarotes vazios em Alvalade.

Patrocínios e publicidade: as receitas do Sporting aumentaram 18% em relação a 2015/16 porque, ao contrário dessa época, houve patrocinador da camisola durante 2016/17 completo. Ainda assim, é um crescimento que, para mim, fica abaixo das expectativas. O fosso para o Benfica, que continua a ser o clube mais capaz de atrair patrocinadores, é muito significativo.

Prémios UEFA: a vantagem do Benfica e Porto para o Sporting é enorme, graças à boa campanha na fase de grupos de ambos os clubes e ao apuramento para os oitavos-de-final da Liga dos Campeões. O Sporting somou pouco mais do que o prémio de participação, pois ganhou apenas um jogo nos seis em que participou. Esta época, graças à vitória no playoff e perante a perspetiva de conseguir mais pontos e continuar a carreira na Liga Europa, é expectável que o Sporting tenha um nível de receitas bastante mais interessante.


Quanto aos custos operacionais, o Sporting voltou a aumentar os gastos com os salários da equipa de futebol, aproximando-se do Porto. Ainda assim, continuou a ser o clube que menos gastou, já que o Benfica também registou um aumento semelhante. O Sporting continua a ser, de longe, o clube que menos custos tem ao nível dos FSE's (contratação de serviços, deslocações e estadias, comissões, gastos com publicidade e propaganda, honorários, etc.).


Um dos pontos fulcrais passa pela realização de mais-valias na transferência de jogadores. Os números apresentados foram os seguintes:


Pela primeira vez em muitos anos, o Sporting conseguiu ter vendas superiores às do Porto, graças, sobretudo, às transferências de João Mário e Slimani realizadas no início de 2016/17. Nestas contas ainda não entra a venda de Adrien Silva para o Leicester. O Benfica conseguiu um conjunto de vendas excecional, em que encaixou não só valores consideráveis com algumas das figuras da equipa, mas também amealhou mais uns milhões significativos com vendas de percentagens de passes que não faziam parte do plantel e direitos sobre mais-valias de atletas vendidos em anos anteriores: Ederson, Lindelof, Gonçalo Guedes, Hélder Costa, Sidnei, André Gomes, Marçal e Nelson Oliveira. As vendas de Nelson Semedo e Mitroglou foram fechadas já em 2017/18. Muitos destes negócios foram realizados em mendilhões, pelo que devem ser tomadas as devidas reservas em relação ao dinheiro que efetivamente entrou nos cofres benfiquistas.

Uma coisa se mantém: todos os clubes teriam apresentado resultados negativos se não fossem as mais-valias realizadas com a transferência de jogadores. Infelizmente, o Sporting aproximou-se bastante dos maus vícios dos seus rivais, devido a um significativo aumento dos gastos salariais com o plantel que não foi acompanhado por um crescimento proporcional das receitas ordinárias.


Para concluir, observemos os números do endividamento bancário e obrigacionista:


Benfica e Sporting aproveitaram as vendas realizadas para reduzir o seu endividamento. De notar que o Sporting o reduziu em cerca de 5 milhões, mas a maior fatia dos reembolsos foi calendarizada para julho de 2017, ou seja, já fora do período deste relatório e contas. Será expectável, portanto, que o Sporting registe, no 1º trimestre de 2017/18, uma redução ainda mais significativa dos seus empréstimos bancários. O Benfica conseguiu, pela primeira vez, abater de forma acentuada o seu endividamento, em cerca de 30 milhões. Veremos se esta tendência será ou não para se manter. No Porto, devem estar a tocar todos os alarmes: neste período de quatro anos sem títulos, o endividamento da SAD mais que duplicou (de 91,8 para 191,9 milhões). Uma cavalgada preocupante que demorará tempo a ser corrigida: duvido que os cortes que o Porto realizou sejam suficientes para inverter este cenário já em 2017/18, pelo que o endividamento deverá continuar a subir.

Resumindo, as contas de Sporting e Benfica são positivas, mas estão demasiado dependentes da realização de mais-valias em vendas. O Sporting tem uma estrutura de custos bastante controlada, mas podia e devia controlar melhor os gastos com o plantel - há vários jogadores com salários elevados que não dão o retorno desportivo esperado - e tem de apostar mais fortemente em determinadas fontes de receitas que estão a ser subaproveitadas.

No caso do Benfica, parece-me difícil que esta conjugação de fatores - sucesso desportivo arrasador e valorização exponencial de ativos - se prolongue muito mais no tempo. Mesmo considerando que o Benfica é o clube com fontes de receitas mais diversificadas, continua a ter uma estrutura de custos pesadíssima para manter a máquina a funcionar, o que poderá constituir um risco enorme para as contas caso os resultados desportivos e a valorização de atletas comece a abrandar. Como se viu no caso do Porto, bastou um par de épocas más para a SAD entrar numa espiral de prejuízos difícil de inverter - sendo que, no caso do Benfica, o nível de dependência atual do dinheiro alheio é incomparavelmente superior ao que o Porto tinha quando acabou o seu ciclo de hegemonia.

O Porto continua metido numa espiral terrível. Continua a apresentar receitas ao nível do Sporting e custos ao nível do Benfica, o que se traduz em prejuízos consideráveis e difíceis de inverter. A SAD parece consciente para isso e a ausência de investimento na equipa de futebol neste defeso ajudará a abrandar o nível de perdas. No entanto, em contrapartida, os custos com salários continuam muito elevados, a estrutura não parece estar a sofrer grandes cortes, e ainda há a compra definitiva de Oliver por 20 milhões que está agendada para dezembro de 2017 - o que significa que o Porto continuará a estar demasiado dependente das vendas de jogadores para apresentar resultados positivos. O porta-aviões começou agora a mudar de direção, para já de forma algo lenta. A velocidade da inversão de rumo dependerá da rapidez e dimensão dos cortes ao nível da equipa de futebol e da estrutura.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Falemos do salário de Bruno de Carvalho

A propósito das horas de debate que as nossas televisões dedicaram ao salário de Bruno de Carvalho aquando da divulgação das contas do Sporting, agora que os relatórios e contas dos três grandes foram publicados, podemos finalmente fazer uma análise comparativa dos vencimentos dos administradores das SAD's de Sporting, Benfica e Porto.

Os dados apresentados não são surpreendentes:


Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, ganha menos do que qualquer administrador remunerado das SAD's de Benfica e Porto. Não é um salário baixo para os valores que se praticam em Portugal, é certo, mas parecem-me valores razoavelmente enquadrados para a responsabilidade que tem. De qualquer forma, seria interessante que as CMTV's e MaisTabacos da vida analisassem de forma igualmente zelosa os vencimentos dos administradores das outras SAD's.

Luís Filipe Vieira, como se sabe, tem dedicado os últimos 14 anos da sua vida. Esperemos que o seu altruismo não leva a que ele e a família passem fome. O facto de Rui Costa não ter tido direito a prémio num ano de excelentes resultados desportivos e financeiros também permite questões interessantes. Sabendo-se que está há quase 10 anos a ser preparado por Vieira para ser o próximo presidente (yeah, right), poucas dúvidas restarão que as suas funções são pouco mais que decorativas: servirá, sobretudo, para apertar a mão aos convidados de Vieira no camarote presidencial e para levar com a responsabilidade dos Taarabts e dos Djuricics...

Serpa, o escudeiro da santíssima trindade do futebol português

A parcialidade com que Vítor Serpa analisa os acontecimentos do futebol português não é novidade para ninguém. A linha editorial d' A Bola está muito bem definida de há bastantes anos para cá: infelizmente para o jornal, não assentam numa postura de isenção e equidistância. Os exemplos que este e outros blogues têm mostrado são mais que muitos. Pegando em exemplos recentes, basta ver a forma como A Bola ignorou o caso dos emails durante meses a fio. Se houvesse alguém que não consumisse notícias sobre futebol a partir de outras fontes, não faria ideia de que tal polémica tinha rebentado até ao dia em que a PJ finalmente bateu à porta do estádio do Benfica e da residência de alguns dos seus dirigentes, colaboradores a recibos verdes e meninos queridos.

Basicamente, A Bola limitou-se a seguir - de forma que não duvido ter sido concertada - a estratégia definida pelo Benfica para reagir aos emails: manterem-se em silêncio - estratégia, reconheça-se, mais sábia do que tentar defender o indefensável a todo o custo. Aliás, basta ver as trapalhadas em que se viu metido o único protagonista do Apito Abençoado que não se pôde remeter ao silêncio em virtude do seu biscate das segundas à noite: quando a crise rebentou, Pedro Guerra reagiu dizendo que não se lembrava de ter recebido tais emails; neste momento, não só se lembra dos emails, como até já reconheceu que até falou várias vezes ao telemóvel com Adão Mendes. Sentir de perto a respiração de inspetores da PJ deve fazer maravilhas à memória.

Numa altura em que é impossível ignorar o escândalo dos emails e as profundas implicações que isso tem para o que se passou nos últimos anos no futebol português, acho magnífico como é que nenhum dos pesos pesados do jornal A Bola ainda não encontrou tempo para se pronunciar de forma detalhada sobre todo este fenómeno. Uma atitude que não surpreende, face ao vergonhoso alinhamento que têm com o clube do atual regime, e que é indigno da profissão que exercem.

Igualmente indigna tem sido a postura do presidente da FPF, que parece viver numa realidade paralela. Fernando Gomes manteve-se calado que nem um rato perante os dois acontecimentos mais graves do futebol português nos últimos anos - o assassinato de Marco Ficini e o escândalo dos emails -, e tem preferido tentar, ao invés, colocar o centro da discussão no bate-boca dos dirigentes. Este posicionamento de Fernando Gomes é um escândalo, e é óbvio que só o Benfica pode ficar satisfeito com isso.

Daí que não surpreenda que Vítor Serpa tenha produzido mais um artigo inenarrável, desta vez a sair em defesa de Fernando Gomes e tentando colocar o Sporting e o Porto como os maus da fita do futebol português.


Ao mesmo tempo em que defende acerrimamente a agenda de Fernando Gomes, o diretor do jornal A Bola aproveita a oportunidade para fazer mais um ataque cerrado ao presidente do Sporting - que, como sabemos, é para Serpa o símbolo da geração rasca do dirigismo desportivo. 

É impossível, também, não reparar em dois pormenores no discurso serpiano:

  • a falta de huevos para fazer críticas diretas a Pinto da Costa - como se o presidente do Porto não tivesse nada a ver com o ataque que o Porto tem feito ao Benfica;
  • a patética tentativa de colar o escândalo dos emails a algumas figuras menores da arbitragem e uns quantos benfiquistas marginais, como se o círculo de poder de Vieira (Paulo Gonçalves, Domingos Soares Oliveira e o próprio presidente) não estivesse enfiado neste lamaçal até ao pescoço, e como se Ferreira Nunes e os presidente e presidente da AG da Liga não fossem personagens com cargos muito relevantes no edifício do futebol nacional.

Serpa não é mais do que um lacaio da tríade que controla o futebol português: está sempre pronto a defender o Benfica, como todos sabemos; não perde oportunidade para elogiar o presidente da FPF, por muito inundado de sonsice que esteja o seu discurso - como este texto bem demonstra; e também, se houver necessidade disso, terá postura idêntica com Jorge Mendes - há quem diga que Serpa fez um discurso emocionado, num briefing que a FPF organizou para os órgãos de comunicação social em vésperas da partida da seleção para o Euro 2016, em que apelou à contenção de notícias sobre os recém-descobertos problemas fiscais em que Mendes estava metido, como se de uma espécie de desígnio nacional se tratasse.

Benfica, FPF e Mendes são uma espécie de santíssima trindade do futebol português, que se protege mutuamente com todos os meios que tem ao seu dispor. A promiscuidade entre Benfica e Mendes é mais que evidente. O entendimento entre Mendes e a FPF é mais discreto, mas existe - ao que se diz, também a FPF fez pressão junto dos jornalistas para não darem relevo aos problemas que o empresário arranjou com a lei em Espanha. E também salta a vista a recusa da FPF em agir contra o Benfica em situações gritantes como o das claques ilegais, o caso dos emails ou dos vouchers, ou mesmo a impunidade a que assistimos nos relvados quando o Benfica está em campo.

Como se pode facilmente avaliar pelo texto acima, Serpa é apenas uma ferramenta ao serviço da única Santa Aliança do futebol português.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Um pequeno-grande passo

Longe vão os tempos em que ficava com um nervosismo quase incontrolável nas horas que antecediam jogos da Liga dos Campeões contra grandes clubes europeus. A conjugação das pesadas derrotas com o Bayern naqueles fatídicos oitavos-de-final e da prolongada ausência do Sporting da competição nos anos que se seguiram, ajudaram a cultivar um trauma profundo na psique coletiva sportinguista que marcava invariavelmente presença - e em força - neste tipo de jogos. Gradualmente, com a capacidade demonstrada pelo Sporting para defrontar os maiores emblemas europeus de olhos nos olhos nas últimas participações do Sporting na Liga dos Campeões, esse nervosismo pré-jogo foi baixando para níveis normais. Faltava, no entanto, materializar a qualidade exibicional e a atitude competitiva em algo mais que derrotas tangenciais.

Ontem foi o dia. Não vencemos, é certo, mas não há nada a apontar à exibição da equipa. Numa partida globalmente equilibrada e em que não abundaram oportunidades de golo em ambas as balizas, os jogadores do Sporting revelaram ambição e disposição para deixarem tudo em campo. Arrancaram para uma exibição de grande categoria na primeira parte, que valeu uma vantagem merecida no marcador. Na segunda a história foi diferente: a Juventus puxou dos galões de vice-campeã europeia e foi atrás do empate, mas a equipa demonstrou que, apesar das várias ausências por lesão, também sabe sofrer e manter-se coesa sob pressão.





Há empates que podem ser moralizadores, e este é um deles - qualquer análise que se faça ao jogo convém incluir o seguinte facto: o Sporting, sem três quartos da defesa habitualmente titular e sem o seu trinco titular, disputou até final a vitória contra o vice-campeão europeu, que se apresentou em Alvalade na máxima força. E, ao contrário do que tem acontecido nos confrontos com os tubarões europeus nas últimas duas épocas, desta vez... não perdemos. Pode não parecer muito, mas na realidade é um pequeno-grande passo que há muito merecíamos, e que acaba por ser uma consequência da crescente experiência e maturidade que a equipa foi conquistando no confronto com este tipo de adversários.

As segundas linhas a chegarem-se à frente - felizmente, os (legítimos) receios que os sportinguistas tinham à partida para este jogo - devido às ausências de peso anunciadas - revelaram-se infundados: todos os jogadores que entraram no onze, sem exceção, estiveram à altura das exigências. Começo por destacar a grande exibição de Ristovski que, defensivamente, realizou uma partida exemplar e fez esquecer Piccini. Ofensivamente, não foi o jogo mais propício para mostrar o que sabe fazer, mas não foi por falta de tentativa - na primeira parte pediu várias vezes a bola aos colegas, e nas poucas vezes em que esta lhe chegou aos pés, mostrou sempre ter (bom) critério na decisão e execução. Jonathan Silva não comprometeu - o que é uma evolução assinalável em relação às prestações mais recentes -, e saiu-se bem nas difíceis situações de 1x1 face a Cuadrado. André Pinto limpou quase tudo na sua área de ação. No único lance em que foi batido por Higuain, a Juventus marcou, mas era uma jogada muito difícil de anular. Bruno César esteve muito bem enquanto teve pilhas, mas infelizmente esgotaram-se cedo - a partir dos 30 minutos eram visíveis as dificuldades do brasileiro em se reposicionar defensivamente quando perdíamos a bola. Palhinha entrou para o seu lugar e fez aquilo que lhe foi pedido. Sinal de que o plantel do Sporting é mais profundo do que aquilo que se pensaria? É possível que sim, mas há que dar continuidade à sua utilização, através de uma rotação mais criteriosa que lhes dê condições para renderem e não se sentirem elementos estranhos em relação ao resto da equipa.

Os suspeitos do costume - voltámos a ter alguns vislumbres do grande Gelson, o extremo que, para além de ser incansável a ajudar defensivamente o seu lateral, tem capacidade para desequilibrar na frente. O slalom no lance do golo é uma delícia. Battaglia voltou a conseguir anular Dybala, enquanto Bruno Fernandes e Acuña voltaram a aliar uma enorme capacidade de trabalho à arte de construir jogo. Rui Patrício foi mais uma vez decisivo ao evitar um golo certo de Higuain.



Mais uma vez, não se segurou a vantagem até ao fim - tal como em Turim, o Sporting conseguiu estar em vantagem no marcador, mas não a conseguiu manter até final. No caso do jogo de ontem, o golo sofrido acaba por complicar bastante as contas para a qualificação para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Não que isso fosse uma obrigação, mas o facto de termos estado tão perto de conseguir a vantagem no confronto direto com a Juventus acaba por deixar um travo amargo num resultado que não pode deixar de ser considerado positivo.

Quebra física - Ristovski, Bruno César foram os primeiros a quebrar, o que acaba por ser natural, se considerarmos a escassa utilização que têm tido. Gelson Martins e Bas Dost acabaram o jogo de rastos. Acuña e Bruno Fernandes, em função do tipo de tarefas que lhes foi exigido e do tempo de competição acumulado nas pernas, também devem ter terminado em dificuldades. Se a Juventus tivesse mantido o ritmo após ter marcado, creio que teríamos passado uns minutos finais muito complicados.



Foi uma noite gira, com um excelente ambiente no estádio, e não farão mal nenhum ao clube os €500.000 que o empate valeu. Mas o mais importante, para mim, foi a transposição daquela barreira psicológica da derrota tangencial contra os tubarões europeus, e também a resposta dada pelos jogadores que habitualmente não são titulares. Há motivos para sentir satisfação com a exibição e o resultado de ontem, mas agora há que recuperar fisicamente e capitalizar o que de bom aconteceu para aquilo que verdadeiramente interessa: a receção ao Braga para o campeonato.