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terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Balanço do VAR

O International Board publicou ontem um documento em que são apresentadas algumas estatísticas relativas à utilização do VAR em jogos oficiais na época em curso.


Das estatísticas apresentadas, destacaria as seguintes:

  • Número médio de utilização ao VAR é inferior a cinco por jogo, em que a maioria se faz com o jogo a decorrer ou em momentos em que o jogo já está interrompido - ou seja, não há impacto na fluidez da partida;
  • É detetado um erro claro a cada três jogos, dentro das categorias de decisões que podem ser revistas;
  • O recurso ao VAR teve influência decisiva em 8% das partidas, e influência positiva em 24%;
  • O tempo médio de decisão nas situações em que o árbitro de campo não recorre ao ecrã (ou seja, a revisão é feita exclusivamente pelo VAR) é de 39 segundos; o tempo médio de decisão nas situações em que o árbitro de campo recorre ao ecrã é de 70 segundos;
  • O tempo gasto na revisão de decisões representa menos de 1% do total de um jogo - o que é insignificante quando comparado com o tempo que se perde na marcação de livres (9,5% do tempo total de jogo), lançamentos laterais (8%), pontapés de baliza (6%), cantos (4,5%) ou substituições (3,5%);
  • Um em cada vinte erros claros acabam por não ser corrigidos pelo VAR; o IFAB considera esta média encorajadora, mas que há margem para melhorar - seja com a experiência que entretanto se for acumulando, seja com formação específica.


O documento inclui também um esclarecimento importante sobre uma questão que tem sido falada nas últimas semanas: em que situações o árbitro de campo deve consultar as imagens:



O árbitro de campo pode delegar no VAR situações objetivas que permitem decisões factuais, como o fora-de-jogo, local de uma falta (dentro ou fora da área), ponto de contacto, bola a sair de campo antes de um golo ou penálti. Em tudo o que envolva alguma subjetividade, como a gravidade de uma falta, situações de dúvida de bola na mão ou mão na bola, ou interferência na jogada em situações de fora-de-jogo, deverá ser o próprio árbitro de campo a consultar as imagens e a tomar a decisão.

As conclusões preliminares do IFAB em relação à utilização do VAR são amplamente positivas, e vêm ao encontro das expetativas que tinham os defensores da ferramenta. Obviamente que nem tudo é perfeito - é preciso haver maior uniformidade no recurso ao VAR e nas tomadas de decisão, que parecem ainda depender demasiado de árbitro para árbitro, e, obviamente, a qualidade das tomadas de decisão está diretamente ligada à qualidade dos recursos humanos à disposição -, mas creio que, neste momento, serão poucos aqueles que continuam a ver o VAR como um bicho papão que vai destruir a fluidez do jogo e acabar com a essência do futebol.

Apesar de tudo o que ainda há para aperfeiçoar, parece-me indiscutível que os erros grosseiros diminuiram significativamente em relação à época passada, e, assumindo que existe boa fé em todos os envolvidos, certamente que ainda diminuirão mais com o passar do tempo.


Vale a pena recordar

Vale a pena recordar que, até há bem pouco tempo, eram inúmeras as vozes na comunicação social a oporem-se ferozmente à implementação do VAR. Vítor Serpa, por exemplo, antecipava o fim do futebol (LINK):
"é a vitória do futebol de televisão contra o futebol real"
"os pequenos clubes vão ficar totalmente desprotegidos e de tantos lances a acontecerem na sua grande área, pois preparem-se que vão nascer por aí penalties como cogumelos"
"será a vitória dos comentadores encartados, contra os adeptos apaixonados"

Vale a pena recordar que, quando a ferramenta dava os primeiros passos em competições oficiais, os jornalistas que fizeram tudo para a descredibilizar sem qualquer benefício da dúvida, como Manuel Fernandes Silva, Luís Mateus (LINK) ou Nuno Farinha (LINK):
"Aqui está o videoárbitro a explicar que a polémica, ou que as polémicas não vão desaparecer do futebol"
"condenado ao fracasso" 
"não resolverá nenhum dos problemas que sempre existiram na arbitragem" 
"o melhor é mesmo partir para outra"

Vale a pena recordar o contorcionismo que o mestre cartilheiro e porta-voz em assuntos de carvão do Benfica, Carlos Janela, protagonizou assim que se viu que o VAR era uma inevitabilidade (LINK).
"a introdução do video-árbitro adultera a genética do futebol e poderá feri-lo, ao ponto de o transformar numa modalidade menor" 
"A utilização do video-árbitro nesta edição do Mundial de Clubes no Japão mostrou à evidência a impossibilidade de introduzir o video-árbitro no futebol, porque pura e simplesmente não resolve nada, traz mais problemas, mais confusão, mais polémica e afeta de forma fatal o jogo de futebol tal como o conhecemos"

Algumas destas pessoas já mudaram de opinião - resta saber se de livre vontade ou em função da atualização da cartilha - mas ainda não vi ninguém assumir que talvez tenha havido um completo exagero nas suas posições iniciais sobre o tema. São os jornalistas (e analistas) que temos.

terça-feira, 16 de janeiro de 2018

VAR nas meias-finais da Taça de Portugal

A FPF anunciou hoje que haverá videoárbitro nos jogos das meias-finais da Taça de Portugal. Uma boa medida que peca apenas por tardia - creio que existiriam condições para que houvesse VAR já nos quartos-de-final e, até quem sabe, nos oitavos-de-final. De qualquer forma, é um passo em frente que se saúda e que espero que esteja definido à partida na próxima edição da competição.

Falta à Liga anunciar o mesmo para a final four da Taça da Liga, que se disputará daqui a duas semanas. Não faz qualquer sentido que se abdique de uma ferramenta tão importante nos jogos de decisão de uma competição, estando à disposição os meios logísticos e humanos necessários.




quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Passatempo lógico

Quadro retirado do programa Tempo Extra de ontem, para vos propor um passatempo lógico: conseguem identificar qual é o intruso nesta tabela? <3

(via @_Cesinando)

E a resposta certa é (como se fosse preciso ajuda)...

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Notas soltas sobre o Benfica - Sporting

1. Sentimento agridoce com o jogo de hoje: por um lado, voltámos a não conseguir segurar um resultado positivo; por outro, um empate na casa de um adversário direto nunca pode ser considerado negativo. Objetivamente falando, é pior resultado para o Benfica do que para o Sporting.

2. Obviamente que a exibição do Sporting deixou muito a desejar, principalmente na segunda parte. Se na primeira parte ainda se viu algum controlo das operações com alguma capacidade para segurar bola e aproveitar os espaços dados pelo Benfica, a segunda parte foi paupérrima. Na minha opinião, faltou-nos meio-campo. O Benfica teve uma imensa facilidade em aproveitar o espaço entre-linhas para se aproximar com perigo da baliza de Rui Patrício. Aqui, é necessário destacar pela negativa a exibição de William, sem velocidade, sem agressividade e incapaz de dar o que o Sporting precisava na saída para o ataque, fazendo a pior exibição de que me lembro nas últimas cinco épocas de leão ao peito. Valeu-nos a cabeça fria da nossa linha defensiva - que upgrade em relação à época passada - e o desacerto dos jogadores do Benfica na finalização.

3. Jesus tem razão quando diz que Rui Patrício não fez nenhuma defesa, mas não se pode esquecer que o Benfica dispôs de demasiadas oportunidades de remate com pouca ou nenhuma oposição que não soube direcionar devidamente. Só Jonas, que normalmente é mortífero com espaço à entrada da área, desperdiçou duas ou três. Mais a bola na barra, o corte de Piccini em cima da linha, e ainda outras situações de caos na área sempre bem resolvidas pela defesa. Num dia de menos sorte, poderíamos ter saído deste jogo com uma derrota clara.

4. Mas a verdade é que já vi este filme demasiadas tantas vezes: o Sporting a jogar melhor e acabando a empatar ou a perder. Desta vez foi ao contrário. Que seja sinal de uma maior estabilidade emocional da nossa equipa em relação a anos anteriores.

5. O VAR, dentro dos meios e indicações q tem, tomou as decisões que tinha de tomar. No golo de Gelson, sem acesso à linha nos seus monitores, não tinham forma de ter certezas no fora-de-jogo de Acuña para reverter a decisão do árbitro principal. 

6. Quanto aos penáltis reclamados pelo Benfica, todas as decisões de Hugo Miguel e do VAR foram boas. Convém relembrar o briefing que a FPF fez na época passada sobre as situações de bola não mão ou mão na bola.


- A bola na mão de Piccini cai no 4º caso. O jogador italiano tem o braço numa posição natural e não tem tempo de reagir a um remate à queima.

- O penálti que o Benfica reclama por mão de Coentrão na área cai no 5º caso: a bola bate primeiro na cabeça do lateral e ressalta para o braço. É irrelevante, nestes casos, que haja aumento de volumetria do braço (e escusam de comparar com o caso de Pizzi no dérbi do ano passado, aí há um segundo toque com o braço, que não resulta de ressalto e que lhe permite ajeitar a bola para iniciar o contra-ataque).

(via @_Cesinando)
- No penálti que o Benfica reclama por mão de William, é uma questão de verem com atenção as repetições: há um jogador do Benfica que lhe está a agarrar o braço que acaba por bater na bola. Quando muito é falta do Benfica.

Como tal, boas decisões de Hugo Miguel e do VAR Tiago Martins. Assinale-se, no entanto, mais uma sessão de pura hipocrisia de Rui Vitória ao "avisar" os árbitros sobre decisões futuras que venham a tomar em situações semelhantes. Para quem não gosta de falar de arbitragens, ontem não se poupou.

7. Convém relembrar, no entanto, o amarelo perdoado a Fejsa ao agarrar um jogador do Sporting e impedi-lo de iniciar um contra-ataque, seguido, pouco depois, de uma entrada de pitons na canela de Bruno Fernandes que deveria ter sido punida com vermelho direto. Rui Vitória foi inteligente, aproveitou a benesse e retirou o sérvio de campo...

domingo, 10 de dezembro de 2017

Os bispos abriram a defesa e as torres terminaram o trabalho

Mais uma deslocação de risco após uma desgastante jornada da Liga dos Campeões, mais uma boa resposta da equipa, que continua a demonstrar uma boa noção das prioridades. A primeira parte não foi famosa, no entanto: a velocidade de execução colocada na construção pareceu sempre demasiado lenta para um Boavista fechado e pressionante no seu meio-campo. O jogo seria desbloqueado com um golo marcado num momento importantíssimo, que lançou a equipa para uma exibição segura e para uma vitória indiscutível num terreno sempre complicado.




Um golo no melhor momento possível - o golo de Coentrão, marcado no final dos três minutos de descontos que o árbitro concedeu na primeira parte, dificilmente poderia ter surgido em melhor altura. Grande trabalho de Dost a soltar a bola para Podence, que depois soube ter paciência e habilidade para dançar à frente de Talocha enquanto dava tempo aos colegas para se posicionarem na área. Soltou o esférico para o segundo poste onde apareceu Coentrão - bons 90 minutos - a finalizar. Um golo que desbloqueou um jogo que estava a ser difícil e que foi um importante tónico para uma bem melhor segunda parte.

A agressividade na segunda parte - apesar de ter inaugurado o marcador no último suspiro do primeiro tempo, foi pelo que fez na segunda parte que o Sporting fez realmente por merecer, de forma incontestável, a conquista dos três pontos. A maior pressão sobre a saída de bola do Boavista e o adiantamento em bloco da equipa nos momentos de posse encostaram os axadrezados à sua área e inclinaram em definitivo o campo e valeram, por duas vezes e no espaço de poucos minutos, a obtenção da tranquilidade no marcador.


O jogo que começou a ser ganho em Barcelona - Jorge Jesus fez questão de referir que a vitória no Bessa começou a ser construída em Barcelona, já que, segundo o seu ponto de vista, os jogadores poupados na Liga dos Campeões foram os melhores na partida com o Boavista. Não sei até que ponto é que um facto foi consequência direta do outro, mas gosto da forma como as prioridades têm sido definidas: campeonato acima de todas as outras competições, sempre e até ao fim.

Todos a oxigenar o cabelo, sff - Dost, portador de cabelo naturalmente claro, marcou dois golos após dois desvios de cabeça do louro Mathieu, outro portador de cabelo naturalmente claro, fechando o marcador que tinha sido inaugurado por Coentrão, portador de cabelo artificialmente claro, após um trabalho magnífico de Podence, recente portador de cabelo ainda mais artificialmente claro. Se há lendas que atribuem força sobrehumana à dimensão do cabelo, por que não haver uma associada à sua tonalidade?

O apoio vindo das bancadas - incrível o apoio dado pelos muitos sportinguistas que quase encheram uma das bancadas do Bessa. Mereceram a referência que Jesus lhes fez no final, e um exemplo para o punhado de assobiadores que têm aparecido em Alvalade.



Facilitismos - Piccini, com a bola controlada, atrapalha-se sozinho e perde a noção de onde ela estava, permitindo um contra-ataque do Boavista que acabou por valeu um amarelo a Coates. Mathieu é um grande central, mas tem a particularidade de ter o hábito de registar exatamente uma paragem cerebral por partida. A de ontem, ocorrida na primeira parte, não teve consequências graves. Coates, infelizmente, não pode dizer o mesmo: tentou fintar um adversário em zona proibida, e perdeu a bola, que só pararia nas redes de Patrício e relançou a discussão do jogo durante um par de minutos. 

Erros de arbitragem - Penálti não assinalado por falta nas costas de Podence no final da primeira parte. Mateus parece estar em fora-de-jogo no momento do passe que lhe é feito para o golo do Boavista, mas nem fiscal-de-linha (fez bem em deixar seguir) nem VAR (com maiores responsabilidades) o assinalaram - ainda assim, era um lance de análise difícil e compreendo que tenham dado o benefício da dúvida ao avançado do Boavista. Perto do fim, Gelson é derrubado por Sparagna numa altura em que ficaria isolado perante o guarda-redes. O boavisteiro devia ter sido expulso, mas só viu o amarelo. Alguns mais compreensíveis, outros menos compreensíveis, mas todos em prejuízo do mesmo clube. Curiosamente, estes erros sucederam-se pouco depois da existência de vários erros num outro jogo, todos em benefício do mesmo clube, o do costume. Haverá quem encontre explicações individuais para cada um destes erros, negando-os ou desculpando-os, mas o que ninguém conseguirá contestar é a improbabilidade estatística daquilo que vai sucedendo semana após semana: seria natural que, uma vez ou outra, os que são beneficiados também fossem prejudicados...



Mais um campo complicado que foi ultrapassado, que vale uma liderança provisória que, infelizmente, não deverá durar muito. Duvido que os jogadores do V. Setúbal, com os graves problemas que o clube tem atualmente, consigam bater o pé ao Porto. De qualquer forma, o caminho é este: só se formos fazendo sempre a nossa obrigação é que poderemos aproveitar os deslizes, previsíveis ou inesperados, que os outros possam ter.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

As novas aventuras de Nuno Cabral, o menino bonito do Benfica

Francisco J. Marques revelou ontem, no Porto Canal, mais alguns emails enviados por Nuno Cabral, autoproclamado candidato a menino bonito do Benfica, a elementos do Estado-Maior da estrutura encarnada: Paulo Gonçalves e Pedro Guerra.

Sem mais demoras, aqui estão os vídeos:




I. Nuno Cabral envia a Paulo Gonçalves dados detalhados sobre os árbitros e observadores nomeados para jogos do Benfica


O mais curioso, para mim, é que de todos os nomes mencionados, só um é adepto do Sporting - curiosamente, o observador que é descrito como sendo "exigente e honesto". Os oito árbitros mencionados são todos do Benfica (5) ou do Porto (3). Nem um é do Sporting. Estatisticamente, seria de esperar que aparecessem pelo menos dois... mas não posso dizer que tenha ficado surpreendido com isto.


II. Nuno Cabral envia a Pedro Guerra um email a dizer que o árbitro Hélder Lamas não pode subir à 1ª categoria


Não faço ideia se Hélder Lamas é ou não um dos árbitros de 2ª categoria mais promissores, mas convém registar que Francisco J. Marques não é pessoa inteiramente desinteressada ao fazer essa afirmação. De qualquer forma, o que fica verdadeiramente comprovado com este email é que:

1. O Benfica está muito atento às promoções dos árbitros (e pode-se presumir que exerce o poder - muito ou pouco - que tem), com a evidente intenção de povoar a 1ª categoria de gente que esteja naturalmente mais predisposta a agir de forma simpática.

2. Nuno Cabral está convencido de que existem árbitros que são protegidos do Porto, ou seja, pode-se perceber que pensa que o Porto também exerce o mesmo tipo de influências que o Benfica.

3. O nome do Sporting não é referido nestas guerras.

Fica perfeitamente claro quais são os verdadeiros pontos de instabilidade do futebol português. Pena é que não exista ninguém nas estruturas do futebol ou na comunicação social que tenha coragem para o assumir.


III. Nuno Cabral envia a Paulo Gonçalves informações detalhadas sobre uma reunião de delegados da Liga


Relembro que, a esta data, Nuno Cabral ainda era delegado da Liga, estando, portanto, obrigado à isenção e a manter-se equidistante dos clubes. Tráfico de influências no mínimo, corrupção caso tenha havido determinados tipos de contrapartidas pelos serviços prestados (pelo menos bilhetinhos, viagens e hotéis já sabemos que existiram). Mais palavras para quê?


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A greve, take 2

A APAF voltou à carga e anunciou uma nova greve dos árbitros para a próxima jornada da Liga. Mas é uma greve muito especial: não é suposto abranger toda a classe, havendo apenas alguns árbitros que se declararão indisponíveis para apitar no próximo fim-de-semana. Nem seria de esperar outra coisa desta classe submissa, que no seu historial realizou apenas um boicote contra um único clube, o Sporting - por motivos ridículos quando comparados com outros episódios bem mais graves que vão acontecendo todos os anos -, pelo que nunca se atreveria a fazer uma greve a sério em fim-de-semana de Porto - Benfica.

Ontem, o Record revelou que, afinal, a única consequência da greve será...


... a inviabilização do VAR.

Portanto, podemos concluir que a classe dos árbitros não é apenas cobarde e submissa: é também muito pouco inteligente. O VAR, apesar das falhas registadas, tem sido aquilo que tem impedido o desempenho geral da arbitragem de ser um desastre completo - viu-se como foi na Taça. Os árbitros estarem a abdicar propositadamente dessa ferramenta para marcar uma posição é o maior tiro nos pés que poderiam dar. A não ser, claro, que o objetivo seja boicotar o VAR, por estar a expor de forma ainda mais evidente a falta de competência de certos árbitros e dificultar a vida aos que têm determinadas missões a cumprir...

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Benfica apresenta "O Novo Apito Dourado"

O Benfica estreou ontem um programa que, supostamente, serve de resposta às sessões semanais de tortura a que têm sido submetidos todas as terças-feiras no Porto Canal, desde que Francisco J. Marques passou a divulgar os famosos emails. O formato escolhido é semelhante ao do Universo Porto da Bancada, com um painel formado por quatro pessoas: Luís Costa Branco, o pivot; José Marinho, diretor-de-qualquer-coisa-na-comunicação-do-Benfica; António Rola, isento árbitro jubilado e especialista em recursos humanos; e António Bernardo, comentador da BTV.

Tive oportunidade de ver a parte do programa dedicada a este tema, e acho pertinente fazer alguns comentários em relação ao que vi, tanto no programa propriamente dito, como em relação às reações que se sucederam à sua emissão.


O conteúdo

Foram divulgados alguns nomes da estrutura portista que, segundo o programa, têm como missão movimentar-se nos bastidores do futebol português para conseguir obter determinados tipos de benefícios, utilizando vários métodos supostamente ilícitos. José Marinho deu alguns exemplos, como os Super Dragões serem utilizados como uma espécie de braço armado para intimidar os árbitros e respetivas famílias, a existência de ligações próximas entre um elemento da estrutura portista - António Perdigão, conselheiro para assuntos de arbitragem - e o motorista assignado pela AF Porto ao árbitro Rui Costa, ou a existência de telefonemas feitos por Pinto da Costa a um árbitro internacional para tentar acabar com a greve anunciada (e entretanto cancelada) há algumas semanas. Disse também ter em sua posse um email enviado por um alto dirigente da FPF a um alto dirigente do Porto, onde terá havido divulgação de informação confidencial. Recuperou ainda alguns episódios que já eram do conhecimento público, como as alegadas pressões de Luís Gonçalves sobre o árbitro Tiago Antunes.

Sabendo que o Porto atual continua a ter a mesma liderança que tinha nos anos 80, 90 e no Apito Dourado, não me custa absolutamente nada a acreditar que exista um fundo de verdade nas situações relatadas. O problema é que, não havendo provas, não havendo testemunhos, não havendo nada de concreto para suportar as suspeitas lançadas, tudo o que foi dito não passa de uma mão cheia de nada. Enquanto o Porto tem revelado situações claras de ilegalidade - de tráfico de influência e, potencialmente, de corrupção -, devidamente suportadas pelos emails, o Benfica estabeleceu apenas ligações que poderão ser consideradas suspeitas, mas sem concretizar a existência de qualquer ilegalidade. 

Se o Benfica tem mails e outras provas documentais em seu poder, convém que as mostre de imediato - caso contrário, não se augura grande futuro para esta iniciativa. Enquanto não houver nada de concreto para exibir, a única coisa que o Benfica conseguirá retirar deste programa é uma forma de tentar marcar a agenda mediática nos órgãos de comunicação social - com a prestimosa colaboração dos serviçais do costume (ver ponto seguinte) - e, em particular, dos programas de segunda-feira à noite. De qualquer forma, o principal objetivo do programa está longe de ser atingido.


Os serviçais

Não deixa de ser engraçado - apesar de não ser nada surpreendente - que o jornal A Bola, que durante semanas ignorou por completo as revelações feitas no Porto Canal sobre o polvo encarnado, não tenha perdido tempo a servir de caixa de ressonância sobre O Novo Apito Dourado. Às 18h30, ou seja, meia-hora depois do início do programa (que teve uma duração total de cerca de 90 minutos), o site do jornal já estava a reproduzir conteúdos revelados pelo Benfica:


Será de esperar uma postura inversa do jornal O Jogo. Não deverão ignorar por completo o programa da BTV, mas para já, no site, o destaque dado é mínimo.


Estão bem uns para os outros. Isenção é coisa que não abunda em qualquer um dos jornais.


E o Sporting, no meio disto tudo?

Vale a pena recordar algo que Horácio Piriquito, ex-membro do Conselho Fiscal da FPF, escreveu a Pedro Guerra num dos emails que levaram ao seu pedido de demissão: 
"Muitas vezes são as associações que estrangulam ou beneficiam os clubes conforme os alinhamentos 'clubísticos'. Por isso as corridas do SLB e do FCP ao domínio das associações. Se uma associação é Portista pode atrasar os pagamentos a um clube alinhado com o Benfica, e vice versa."

Estas frases, escritas em contexto de conversa privada entre camaradas afetos ao Benfica e amigos de longa data, demonstra bem que Os dirigentes de Benfica e Porto são os grandes cancros do futebol português. É um complemento elucidativo aos escândalos do Apito Dourado e do polvo encarnado - e, eventualmente, deste Novo Apito Dourado -, que em conjunto demonstram que existem dois clubes dispostos a fazer de tudo fora de campo para facilitar a vida dentro das quatro linhas. 

Comparado com isto, a denúncia caluniosa de Paulo Pereira Cristóvão é uma brincadeira de crianças - e, apesar disso, Paulo Pereira Cristóvão foi forçado a sair do Sporting no espaço de poucas semanas. Por sua vez, os presidentes de Benfica e Porto, enfiados até às orelhas nesta podridão, têm sido reeleitos sem contestação.

Mesmo não ganhando campeonatos há tanto tempo, é tão bom ser do Sporting...

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

VAR fora, dia santo na loja

Fim-de-semana alargado com mais uma eliminatória da Taça de Portugal, e a arbitragem portuguesa retomou a sua atividade presenteando-nos com exibições ao nível daquelas que tinha feito antes da paragem para os compromissos das seleções: miserável.

Em três jogos envolvendo os grandes do futebol português, não houve um que não tivesse pelo menos um erro grosseiro. Não vi os jogos dos nossos rivais, pelo que não posso afirmar que cometeram erros a beneficiar exclusivamente uma das equipas - os únicos lances que vi foram o da expulsão perdoada a Alex Telles e o do penálti perdoado a Varela -, mas o facto é que existiram decisões mal tomadas que poderão ter tido influência no resultado final.

No entanto, posso falar do que vi in loco em Alvalade e, mais tarde, pela televisão: uma quantidade desproporcionada de erros a favorecerem exclusivamente uma das equipas - não surpreendentemente, o adversário do Sporting.

A meio da primeira parte, ficou por marcar um penálti sobre Dost. O defesa do Famalicão não poderia ter sido mais óbvio no agarrão, prolongado e ostensivo, à camisola do holandês. Dos quatro pares de olhos da equipa de arbitragem que estavam no relvado, não houve um único que tivesse vislumbrado o sucedido.

Foi também óbvia a dualidade de critérios na marcação de faltas e na exibição de cartões, cumprindo-se mais um jogo que vai ao encontro de uma tendência já bem conhecida: os cartões saem com muito mais facilidade quando as faltas são cometidas por jogadores do Sporting. A partida terminou com 4 cartões amarelos mostrados a jogadores do Sporting (a maior parte por interrupção de ataques prometedores), contra apenas 1 mostrado a jogadores do Famalicão (nenhum por interrupção de ataque prometedor, e existiram vários).

Mas o lance mais inacreditável foi aquele que deu origem a uma grande penalidade marcada a favor dos visitantes:


Na mesma jogada, três erros consecutivos que acabaram por determinar uma oportunidade flagrante de o Famalicão reentrar na discussão do jogo: uma falta evidente sobre Battaglia que ficou por marcar imediatamente antes do cruzamento; posição irregular do jogador do Famalicão sobre quem é assinalado o penálti no momento do cruzamento; e não existe falta de Mattheus, pois é visível que não empurra o seu adversário - que, sentindo o braço do brasileiro nas suas costas, limitou-se a mergulhar para cavar a falta. 

Que a incompetência prolifera na arbitragem nacional, já todos sabemos. Mas fica difícil aceitar que se trata apenas de incompetência quando os erros acontecem todos a prejudicar o mesmo... porque, estatisticamente, seria expectável que pingasse um ou outro erro a prejudicar a outra equipa em campo.

Não é de estranhar que isto tenha acontecido numa competição em que não existe VAR. Não quer dizer que as arbitragens, com VAR, estejam a ser um modelo de isenção e competência - infelizmente, mesmo com VAR, continuam a cometer-se erros incompreensíveis -, mas ainda não tinha visto uma arbitragem deste calibre nesta época.

Acredito que, logisticamente, não seja possível à FPF ter VAR em todos os estádios nas primeiras eliminatórias, mas espero que Fernando Gomes anuncie a existência de videoárbitro, também na Taça de Portugal, já a partir dos oitavos-de-final. São só oito jogos, ou seja, menos do que uma jornada da Liga, pelo que não deverá ser difícil arranjar os meios humanos e tecnológicos necessários para que isso aconteça. E tem mesmo que acontecer, porque com os árbitros que temos, está mais que visto que não se pode facilitar.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Rescaldo do jogo com o Braga

A arbitragem

Saí do estádio e cometi o erro de ligar o rádio para ouvir as entrevistas rápidas na RR. Enquanto jogadores e treinadores não chegavam ao local das entrevistas rápidas para fazerem as suas declarações, os cavalheiros de serviço na emissora católica nacional deram nota 1 a Xistra por, segundo a sua opinião, o árbitro ter beneficiado de forma clara o Sporting. Concordo com a nota mas, no cômputo geral, não se pode dizer que o Sporting tenha sido beneficiado de uma forma clara. 

O grande erro do jogo foi, obviamente, o golo anulado ao Braga. Com a existência de VAR, é inaceitável que aconteçam situações destas nos lances de dúvida de fora-de-jogo - o árbitro deve deixar sempre seguir mesmo que o fiscal-de-linha assinale a posição irregular, e depois reavalia-se pelas repetições se for golo. Pouco depois, há um penálti sobre Podence - de que não me apercebi no estádio -, mas que, recorrendo às imagens, o VAR também podia ter assinalado. Doumbia fez falta segundos antes do penálti sobre Alan Ruiz, mas este é um erro que, na minha opinião, é desculpável, porque existem n casos destes em todos os jogos que são assinalados (ou não) de forma errática. Depois ainda houve a questão disciplinar: Esgaio fez faltas para amarelo suficientes para não acabar o jogo, e André Pinto devia ter visto o segundo amarelo quando comete uma falta junto à grande área do Sporting, aos 93', quando o resultado estava em 1-2.

A arbitragem foi péssima, no geral o Braga tem mais razões de queixa - pelo que considero que o Sporting foi beneficiado -, mas não foi o roubo de igreja que andam para aí a querer vender. E está muito longe de anular os benefícios que outros têm tido desde que o campeonato começou.


A exibição

Os senhores da RR também disseram que o Braga fez uma exibição muito superior ao Sporting e que, como tal, o resultado acabou por ser muito injusto para os minhotos. 

Concordo que o Sporting fez um jogo pouco conseguido, mas é absurdo dizer-se que o Braga tenha feito melhor. Na primeira parte, Rui Patrício foi um mero espectador, e os únicos calafrios por que passou surgiram a partir de desatenções de jogadores nossos. Nos primeiros 75', o Braga teve uma única verdadeira oportunidade - a do golo anulado -, enquanto o Sporting teve várias: no início, Bruno Fernandes (após grande passe de Dost) surge na cara do guarda-redes e define mal; ainda durante a primeira parte, Matheus teve uma brilhante defesa a cabeceamento de Coates e outra boa parada de um livre de Bruno Fernandes; na segunda parte, Dost atira à malha lateral após cruzamento de Jonathan; e, poucos minutos depois, o holandês marcou o golo. Neste período, repito, o Braga teve uma ocasião para marcar. Com o resultado em 1-0, Abel finalmente arrisca, e só a partir dos 75' é que o Braga começa a ameaçar a baliza de Rui Patrício: Gelson tira de forma brilhante uma oportunidade de golo a Esgaio; Fransérgio escapa a André Pinto e faz um remate que sai próximo do poste; e depois surgiram os dois golos do Braga, com uma oportunidade perdida por Doumbia pelo meio.

Olhando exclusivamente para o futebol jogado, só quem não viu os primeiros 75' pode dizer que o Braga mereceu ganhar.


Jesus e as lesões

É uma pena que o Sporting tenha consentido este empate após ter tido uma prestação bastante satisfatória neste complicado ciclo de jogos que agora terminou. Ontem, Jesus foi forçado a fazer mais duas substituições devido a lesões. O melhor período do Braga coincide com uma fase em que o Sporting tinha de fora mais de meia-equipa habitualmente titular: Piccini, Coentrão, Mathieu, William, Acuña e Dost. Parece haver, efetivamente, um problema de gestão física dos jogadores do Sporting. A rotatividade (não me refiro a trocar quatro ou cinco jogadores de cada vez, mas sim em ir fazendo mudanças pontuais no onze para gerir fisica e psicologicamente o plantel) tem sido feita em função das lesões, quando, na realidade, devia ser feita de forma a prevenir lesões. 

Jesus tem de rever a estratégia que tem seguido. O próximo ciclo terá 9 jogos num espaço de 35 dias e poderá definir o futuro do Sporting em quatro competições. Está visto que não temos plantel para ir a todas, pelo que as prioridades deveriam estar bem definidas: campeonato e Taça de Portugal à frente de todas as outras.

sábado, 28 de outubro de 2017

A legalidade do golo de Dost

Direto ao assunto polémico do Rio Ave - Sporting: a legalidade do golo de Bas Dost que nos deu os três pontos. Ao ver a repetição, na transmissão, fiquei com ideia de que o holandês estava adiantado. Na altura, pensei que o golo seria anulado pelo VAR.

Mais tarde vi o frame, e a minha opinião mudou ligeiramente: da mesma forma que não é possível afirmar que Dost está em posição regular, também não é possível dizer que está adiantado. O ângulo da repetição não ajuda, porque não só não está no enfiamento da linha de fora-de-jogo, como tem o defesa encoberto por Dost. Pelo que se consegue ver na imagem, o tronco dos dois jogadores está em linha (ou praticamente em linha) e não se vê a perna do defesa que está mais próxima da baliza. Não havendo imagens totalmente claras, o VAR não podia reverter a decisão tomada em campo. Esteve bem o fiscal-de-linha ao deixar seguir, e esteve bem o VAR ao não mudar a decisão.

Após o final do jogo, Pedro Henriques fez, na Sport TV+, uma análise que vai precisamente neste sentido.


Já se percebeu que será este o tema que dominará as conversas na semana que se segue mas, felizmente para o Sporting, a decisão de Jorge Sousa e João Capela foi acertada, assim como foi acertada a decisão em anular o golo de Bruno Fernandes.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Alto risco

Uma visita ao Rio Ave é sempre uma deslocação de risco. Este ano não será diferente, visto que a equipa de Miguel Cardoso tem praticado um futebol bastante positivo, com intenção de ter bola e mandar no jogo, e com resultados encorajadores: a equipa ocupa o 6º lugar na tabela, apesar do calendário inicial complicado que já incluiu receções ao Benfica e Porto e uma deslocação à Madeira. Convém também lembrar o que aconteceu na época passada: o Sporting, depois de uma exibição muito positiva em Madrid, pagou caro o excesso de confiança com que entrou em campo contra o Rio Ave - a derrota por 3-1 foi tão categórica como justa. Mais logo, será necessário aparecer o melhor Sporting se quisermos trazer para Lisboa os três pontos.

O árbitro nomeado para este jogo é Jorge Sousa. Em condições normais, seria uma nomeação incontestável, mas neste caso em particular há dúvidas (legítimas) que se levantam devido à sua recente suspensão pelas palavras dirigidas a Stojkovic no Real Massamá - Sporting B. Obviamente que, sendo Jorge Sousa um dos melhores árbitros portugueses da atualidade - o que, face ao universo em questão, não é garantia de grande coisa -, mais cedo ou mais tarde teria que voltar a arbitrar jogos do Sporting. Espero que tenha percebido que o episódio que levou à sua suspensão é de sua exclusiva responsabilidade, e que, por isso, não apareça em Vila do Conde com sentimentos vingativos. Infelizmente, o Sporting costuma ser um alvo que os árbitros veem como fácil, pelo que não seria surpreendente que tal sucedesse.

Para compor o ramalhete, o VAR será João Capela. É justo recordar que o árbitro já fez um jogo do Sporting na época passada, em Alvalade, e teve um desempenho globalmente positivo. O problema é que uma arbitragem como aquela que fez há quatro anos é difícil de esquecer. De qualquer forma, espero que encare a nomeação de logo como mais uma oportunidade para prosseguir o seu processo de reabilitação junto dos adeptos sportinguistas. Não precisa de nos favorecer. Basta que tenha um desempenho isento e competente.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

As responsabilidades da FPF

A FPF pode e deve ser alvo de críticas por causa de vários dossiers importantes que está a gerir de forma desastrada - ou a não gerir de todo -, mas há um mérito que não deve ser esquecido: foi a federação que decidiu, de forma atempada e sem esperar para ver como paravam as modas, que o VAR seria para implementar já nesta época em Portugal. Decidiu e cumpriu, e, felizmente, já foram vários os jogos cuja verdade desportiva foi salvaguardada devido ao recurso a esta ferramenta. Há coisas que não têm corrido tão bem, mas isso é um problema que tem mais a ver com os recursos humanos envolvidos do que com a ferramenta em si.

E é por isso que me faz bastante confusão que Fernando Gomes não tome medidas para garantir a maior transparência possível no âmbito do VAR. Não digo com isso que seja obrigatório divulgar todas as comunicações entre árbitro de campo e responsável pelo VAR em situações polémicas - apesar de também não haver algum mal nisso -, mas aquilo que aconteceu na Vila das Aves deveria ter sido assumido de imediato pela Federação. Infelizmente, o que aconteceu (e ainda está a acontecer) foi precisamente o contrário: houve uma tentativa de encobrimento por parte de funcionários da FPF, conforme se pode perceber através do vídeo seguinte:


Fernando Gomes tem feito vários apelos para uma maior consciencialização por parte dos clubes, mas isso soa a pura hipocrisia olhando para o que acontece dentro de portas da federação: a cortina de fumo lançada pelo diretor de comunicação da FPF na sequência do erro que aconteceu em Vila das Aves; a prepotência e incoerência de Meirim e do Conselho de Disciplina; e o corporativismo da arbitragem que vai permitindo que as maçãs podres continuem misturadas com as restantes. Nada disto contribui para a transparência e pacificação no futebol português, e era bom que o presidente da federação não se esquecesse das responsabilidades próprias do organismo que gere no estado atual do futebol.

Aberração

Retirado do relatório de jogo do Sporting - Chaves, elaborado pelo árbitro Rui Costa. Como é possível que, depois de ter visto e revisto as imagens, ache que Gelson o terá tentado enganar? Penalizou o Sporting ao sonegar uma excelente oportunidade para marcar, e penalizou o jogador com um cartão amarelo que lhe poderá valer, mais à frente, uma suspensão de um jogo prematura.

E, já agora, como é possível ainda não haver, no Conselho de Disciplina, um mecanismo para retirar o cartão ao jogador? O penálti já não há forma de se corrigir, mas repor a justiça ao nível da disciplina seria o mínimo exigível.

(via @SrBalakov)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A greve

A APAF anunciou na segunda-feira passada que os árbitros farão greve aos jogos da Taça da Liga que se disputarão em novembro e dezembro. Segundo a associação liderada por Luciano Gonçalves, na base da decisão tomada está a "asfixia constante em torno do papel do árbitro", em particular "nos últimos tempos", o que, segundo o órgão representativo da classe, impede que existam condições para continuar a arbitrar.

Ao que parece, a APAF tem andado distraída: o ambiente de asfixia da arbitragem já existe há pelo menos três anos, desde os tempos em que a atuação de Vítor Pereira, Ferreira Nunes e companhia ficou demasiado óbvia para qualquer pessoa que acompanhe o fenómeno com um mínimo de atenção. Como se aplicou essa asfixia? Criando um sistema de nomeações, avaliações, promoções e despromoções que opera em função dos interesses de um único clube. 

A asfixia que os árbitros dizem sentir não é mais do que uma consequência da asfixia aplicada que eles próprios aplicam aos rivais do clube do sistema. Infelizmente, poucos árbitros tiveram coragem (ou interesse) em denunciar a asfixia de que foram alvo nos anos do anterior CA, e foi isso que levou ao atual estado das coisas. Aqui, podemos fazer a divisão dos árbitros em dois grupos: o primeiro é formado pelos padres que já tinham sido ordenados na altura em que Adão Mendes fazia recomendações a Pedro Guerra, e pelos novos padres que entretanto foram sendo promovidos segundo o método de Ferreira Nunes; o segundo grupo é composto pelos árbitros que, não partilhando o ideal do clube do sistema, já perceberam o que têm de fazer para não lhes darem cabo das notas e poderem permanecer na 1ª categoria, onde os cheques que recebem no final do mês são bem mais atrativos. Enquanto os primeiros são a força motriz do sistema, os segundos são coniventes e não percebem que as suas tomadas de posição corporativistas apenas servem para manter o status quo.

Perante isto, a greve anunciada aos jogos da Taça da Liga não é mais do que um expediente de vitimização sem qualquer lógica, e que é simples de desmontar:

a) O timing: porquê agora? O ambiente está mais asfixiante agora do que estava há um mês, ou há seis meses - quando tomámos conhecimento dos emails e dos padres -, ou mesmo há dois anos - quando se ficou a saber que o Benfica oferecia vouchers de refeição a meio mundo? Claro que não. O Sporting e o Porto, enquanto vozes mais sonoras de oposição ao atual sistema, não têm endurecido o tom do seu discurso nos "últimos tempos" (para usar a mesma expressão da APAF), pelo que o momento escolhido não faz sentido.

b) O âmbito: porquê apenas aos jogos da Taça da Liga? Só não há condições para arbitrar, então não faz sentido limitar a greve a uma única competição. Por que não fazem greve aos jogos da Liga?

Propositadamente ou não, a verdade é que anúncio da greve acabou por ser bastante conveniente para desviar a atenção daquilo que sucedeu no último fim-de-semana: num jogo em que o Benfica não se podia dar ao luxo de perder mais pontos, calhou ter sido feita a primeira nomeação da época de um padre (Nuno Almeida, neste caso) para um jogo do Benfica, calhou haver um erro grave a favorecer o Benfica, numa altura em que calhou o VAR estar inoperacional - como muito bem escreveu José Manuel Ribeiro na sua coluna de opinião do jornal O Jogo:


Existe uma outra questão paralela que merece atenção: até que ponto a polémica do fim-de-semana será utilizada para fragilizar a Liga de Clubes? Talvez valha a pena estarmos atentos às respostas da FPF aos pedidos de esclarecimento da Liga sobre a quebra do VAR na Vila das Aves...

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Clusterfuck à portuguesa

É estranho que as comunicações do VAR no Aves - Benfica do último domingo tenham falhado. Estamos em 2017, num país com uma excelente infraestrutura de comunicações. Milhares e milhares de negócios em todo o país organizam os seus processos confiando que o serviço das comunicações se mantém constantemente operacional. Claro que, muito ocasionalmente, podem existir falhas no serviço, mas é para isso que existem redundâncias. Há uma falha de um lado, comunica-se por outro. Normalmente só há problemas verdadeiramente sérios se se tratar de uma falha geral, mas aí o universo de pessoas e negócios afetados é bastante grande e impossível de passar despercebido.

Não consta que tenha sido esse o caso de domingo passado. A Sport TV fez a transmissão sem sobressaltos, os jornalistas fizeram a cobertura do jogo sem problemas, os espectadores presentes no estádio não ficaram sem rede no telemóvel. A conclusão que posso retirar, à falta de melhores informações, é que a falha atingiu apenas a comunicação do VAR com o árbitro de campo.

Mas isso não foi conhecido de imediato. O jogo prosseguiu sem que, aparentemente, alguma das equipas fosse informada do sucedido. Azar dos azares, poucos minutos após o Aves ter marcado um golo, aconteceu um caso polémico que o recurso ao VAR resolveria sem problemas - assumindo que o responsável do VAR seria uma pessoa competente e bem intencionada. Mas não havendo VAR, prevaleceu o erro, que acabou com as dúvidas de quem seria vencedor.

A primeira versão que começou a correr foi a de que o VAR, em caso de penálti, não tinha que avaliar a jogada desde o início. Falso. Seria interessante perceber de onde partiu esta teoria, porque chegou a um enorme número de pessoas. Quando a corrente de opinião começou a mudar esta ideia, surgiu o esclarecimento da conta de Twitter da FPF dedicada ao projeto de videoárbitro - dando a informação de que, afinal, deixou de haver VAR a partir do minuto 66. 

Entretanto soube-se que nem árbitro nem delegados ao jogo referiram nos seus relatórios que deixou de haver VAR. Amnésia coletiva? Ninguém achou que seria relevante reportar esse facto? 

Mais de 24 horas passadas após o final do jogo, ainda não sabemos ao certo o que aconteceu. Começou também a circular a informação de que esta não terá sido a primeira vez que as comunicações do VAR falharam, o que levanta duas questões:

1. Se houve situações idênticas em jornadas anteriores, por que razão isso não foi divulgado publicamente pela FPF? Já agora, em que jogos isso sucedeu?

2. Se houve situações idênticas em jornadas anteriores, como é possível a FPF não ter arranjado uma solução de recurso para ser utilizada em caso de nova falha? Que raio, bastava um telemóvel entre o VAR e o 4º árbitro, que serviria de ponto com o árbitro principal.

Isto é o futebol português: inundado de gente amadora, que é incapaz de esclarecer aquilo que acontece nos bastidores de um jogo. Pelo contrário, em vez dos tais esclarecimentos oficiais, ficamos à mercê de informações cruzadas de origem duvidosa, que apenas contribui para aumentar a confusão de todos os interessados. Nada de surpreendente: a transparência não costuma ser uma prioridade por cá.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Diamantino cartilhando

A conta de Twitter gerida pelo diretor de comunicação do Benfica reagiu rapidamente ao primeiro golo do Sporting, apontando para uma suposta falta de William Carvalho sobre um defesa do Chaves no lance do 1º golo de Bas Dost.

Tratou-se, evidentemente, de uma manobra para desviar a atenção do escândalo que foi o penálti que deu o 3º golo ao Benfica - não o penálti em si, mas a falta ostensiva de Jonas que acontece no início da jogada. Um remake de outra situação ocorrida com o Benfica no Bessa, em que o golo que inaugurou o marcador começa com uma falta clara de Luisão. 

Mas estou a divagar. Voltando ao golo do Sporting, basta olhar com alguma atenção para a repetição para perceber que quem faz primeiro falta é Anderson Conceição, havendo depois um agarrão mútuo. A ser marcada alguma infração, teria de ser penálti a favor do Sporting.


De qualquer forma, a cortina de fumo estava criada. Um pouco mais tarde, no Mais Tabaco, Diamantino Miranda não deixou os seus créditos de cartilheiro por mãos alheias, e fez questão de lançar a discussão sobre esse lance com a brilhante introdução "não me queria meter mais nisso, até porque não é assim um assunto que eu goste de estar a falar, mas...":

(obrigado, Tiago!)

Nice try, Diamantino, nice try...
in Record (via @SrBalakov)

A outra grande virtude do VAR

Que o VAR é uma ferramenta essencial para tornar o futebol um jogo mais justo, pouca gente terá dúvidas. Já foram várias as situações em que a verdade desportista foi reposta através do recurso às imagens por parte dos árbitros.

A outra grande virtude do VAR é particularmente importante para o futebol português: expõe por completo a incompetência e/ou desonestidade dos árbitros que temos. Ontem, em Alvalade, aconteceu isto:


Gelson foi travado de forma clara. Pode dizer-se que já esperava o contacto, pode dizer-se que quando o sentiu desistiu de jogar a bola e deixou-se cair, mas o contacto existe, é indiscutível, e é motivo suficiente para desequilibrar o jogador. Penálti mais que evidente que Rui Costa, numa primeira análise, interpretou como sendo simulação do extremo do Sporting.

Mas o pior ainda estava para vir. Bruno Esteves, em funções de VAR, recomenda a Rui Costa que reveja o lance. Assim o fez, mas manteve a decisão. Volta a ser aconselhado a rever uma segunda vez. E apesar de todas as evidências, apesar das imagens claras, apesar dos conselhos do VAR, não mudou de ideias.

Recordo que falamos do mesmo árbitro que também decidiu não expulsar Eliseu pela agressão cometida no Benfica - Belenenses.

Isto é estar a gozar com toda a gente que esteve a ver o jogo. Na melhor das hipóteses, estamos perante um caso de total incompetência. Na pior, é desonestidade. Num caso ou noutro, espero que o CA faça o mínimo exigível: como se diz por outras bandas, tem que lhe dar cabo da nota.

sábado, 14 de outubro de 2017

A confissão clubística do Senhor Juiz

Foi rejeitado, pelo Tribunal da Comarca do Porto, a providência cautelar colocada pelo Benfica para impedir que o Porto continuasse a divulgar os emails que têm incendiado o futebol português nos últimos meses.

O Benfica reagiu prontamente à sentença, dizendo que irá recorrer para a 2ª instância. Um dos motivos da revolta encarnada é a "confissão clubística" do juiz que tomou a decisão - que, no início do processo, assumiu ser adepto portista.


É uma argumentação pertinente. Que garantias tem o Benfica de que o juiz consegue efetivamente alhear-se da sua condição de portista no momento de tomar a decisão? Em teoria, qualquer juiz deve estar preparado para pôr de lado todas as preferências e preconceitos pessoais, mas na prática sabemos que, muitas vezes, não é isso que acontece. Como tal, não deveria esta decisão ficar a cargo de um juiz que não ligue a futebol?

É claro que esta argumentação pode abrir outras questões: seguindo a mesma linha de raciocínio que o Benfica traçou ontem, então sportinguistas e portistas têm toda a legitimidade para não aceitar que os padres Manuel Mota, Nuno Almeida, Vasco Santos, Bruno Esteves (que estavam na lista que Adão Mendes passou a Pedro Guerra) e João Pinheiro (que manda e-mails confidenciais para o menino bonito Nuno Cabral) - para não falar de outros novos talentos da arbitragem que estão claramente ligados à mesma máquina - arbitrem jogos seus e do próprio Benfica, pois não dão garantias de isenção, que é uma característica fundamental que qualquer árbitro deve ter.

No caso destes árbitros - e ao contrário do juiz portista que tomou a decisão sobre a providência cautelar -, nem sequer estamos no domínio das suposições: basta olhar para o histórico de decisões polémicas que tiveram em jogos dos grandes - no caso de Vasco Santos, até como VAR já conseguiu ter uma decisão escandalosa a favorecer o Benfica, ao não dar indicações para expulsar Eliseu. A tendência em favorecer o clube da sua preferência é evidente aos olhos de todos. De que está o Conselho de Arbitragem à espera para os afastar em definitivo destes jogos?

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Igualdade de tratamento?

Na sequência do castigo de três jogos aplicados a Samaris, Rui Vitória veio reclamar a necessidade de haver igualdade de tratamento para todos os clubes. No entanto, Rui Vitória será, provavelmente, a pessoa do futebol português que menos motivos tem para andar a exigir igualdade de tratamento para todos em situações disciplinares.

É verdade que o caso de Slimani ainda está relativamente fresco na memória de todos - o castigo de um jogo foi curto para a gravidade do sucedido e o tempo que o caso levou a ser julgado foi surreal -, mas esse é, muito possivelmente, o único caso em que o Benfica poderá alegar ter razões de queixa nos últimos anos.


Samaris ter sido suspenso por três jogos é pena leve para aquilo que fez: devia ter sido expulso duas vezes em pleno relvado, e considerando que é um jogador que recorrentemente agride outros jogadores - cumpriu no início desta época uma suspensão de 4 jogos por agressão a Diogo Ivo, no jogo com o Moreirense na época passada -, devia ter levado uma pena verdadeiramente exemplar.


A última semana foi particularmente fértil na demonstração do tratamento privilegiado que o Benfica tem por sistema. Veja-se o caso de André Almeida: conseguiu não ver qualquer cartão após uma bárbara agressão a um jogador do Braga, e, não surpreendentemente, foi expulso (e bem) na Liga dos Campeões por uma falta com bastante menor gravidade.


Sinceramente: alguém acredita que André Almeida seria expulso em Portugal pela falta que fez em Basileia? 90% dos árbitros (numa perspetiva otimista) não teria coragem para lhe mostrar cartão vermelho. Lembram-se bem do que aconteceu a Marco Ferreira...

Mas vale a pena recordar outros casos recentes, como a agressão de Eliseu sobre um jogador do Belenenses, que o árbitro não viu e transformou em falta a favor do Benfica, e em que o videoárbitro Vasco Santos, apesar das repetições a que teve acesso, não vislumbrou qualquer gravidade...


... ou a agressão de Pizzi a Francisco Geraldes, mais uma vez sem um cartão que fosse.


O mesmo Pizzi a quem, no ano passado, foram perdoadas expulsões direta por outra agressão sobre um jogador do Rio Ave...


... e por uma varridela inacreditável em Podence nas meias-finais da Taça da Liga.


Ou, apenas mais um exemplo: como é que Jonas não viu vermelho aqui?


E poderia continuar... existem muitos outros exemplos. Só em jogos contra o Sporting: o vermelho que Renato Sanches não viu pela entrada assassina sobre Bryan Ruiz, ou os vermelhos que Fejsa e Samaris não viram no 0-3, por agressões sobre Adrien e Bryan Ruiz, ou ainda, no tal jogo em que Slimani agrediu Samaris, para a Taça de Portugal, também Eliseu (por duas boladas contra jogadores do Sporting com o jogo parado), Jardel e Samaris (por repetidas faltas duríssimas) deviam ter visto o cartão vermelho - o grego ainda acabou expulso no prolongamento, mas podia ter visto o vermelho muito antes.

Também poderíamos levar a questão da igualdade de tratamento para outros tipos de lances... como o penálti que foi assinalado sobre Jonas no jogo contra o Rio Ave por agarrão, e o penálti que não foi assinalado sobre Doumbia no Moreirense - Sporting também por agarrão.

Rui Vitória quererá mesmo igualdade de tratamento? Talvez seja melhor ter cuidado com aquilo que deseja...