terça-feira, 1 de julho de 2014

A ver se nos entendemos sobre as cláusulas de rescisão


O facto de o Sporting ter anunciado uma cláusula de rescisão de €60M ao assinar com Tanaka parece ter espoletado uma série de reações de espanto, estranheza e gozo. Na base destas reações está o facto de Tanaka ser um desconhecido no futebol europeu, que nem sequer esteve nos 23 do Japão no mundial. Como tal assume-se que é impossível que mereça tamanha avaliação.

Não se justifica que o público em geral perca mais do que 3 segundos da sua vida a matutar sobre a justiça de uma cláusula de rescisão. As cláusulas de rescisão são quase sempre um valor de cariz puramente psicológico que não têm qualquer relação direta com o valor de mercado real do jogador.

Há duas formas de encarar uma cláusula de rescisão: ou é um montante aproximado ao valor real do jogador, que lhe dá alguma flexibilidade para decidir mudar de clube (situação cada vez menos frequente), ou é um valor estupidamente elevado que na prática deixa o clube com total poder de decisão sobre o futuro do jogador durante a duração do contrato (neste caso o jogador pode considerar lisonjeiro ver o clube inscrever uma cláusula elevada, como sinal de confiança nas suas capacidades).

Tanto quanto sei, a existência de uma cláusula de rescisão nos contratos dos jogadores em Portugal nem sequer é obrigatória. Não ter cláusula de rescisão ou ter uma cláusula de rescisão de €500M (um valor inatingível para qualquer clube do mundo) é igual. Na prática ambas significam que o clube terá sempre a última palavra sobre o futuro do jogador durante a duração de contrato.

O melhor exemplo do desfasamento que as cláusulas de rescisão têm com o mundo real é Cristiano Ronaldo. Em teoria, quem o quiser levar terá que pagar ao Real €1.000M. Mil milhões de euros. €1.000.000.000.

Por isso será completamente indiferente se Tanaka ou outro jogador desconhecido tem uma cláusula de €30M, €45M, ou €60M. O valor contabilístico do jogador não é influenciado pela cláusula de rescisão. Um clube comprador, salvo raras exceções, conseguirá contratar o jogador que quer abaixo do valor da cláusula de rescisão. O valor da cláusula de rescisão não reflete o valor de mercado de um jogador. Um jogador apenas vale aquilo que outro clube está disposto a pagar por ele.

33 comentários :

  1. Bom dia, a clausula de rescisão não serve para impedir que o jogador use a lei Webster para sair quando quer? Ou a lei Webster é aplicável de qualquer modo?

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    1. TIago, a ativação da lei Webster pode ser feita ao fim de 3 anos de contrato (ou 2 anos, no caso de o jogador ter assinado contrato com 28 ou mais anos de idade). O montante a pagar de indemnização pela lei Webster é igual ao valor dos salários que o jogador teria a receber até ao final do contrato. A cláusula de rescisão não tem qualquer influência. Um abraço.

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  2. Bem dito Mestre. Um dos exemplos recentes confirma isso. Falo do caso do Garay, com uma clausula de 30 milhões, sai para o Zenit por 6 . Por mim acho que o SCP faz bem em criar estas clausulas, por forma a garantir maior estabilidade num plantel que se exige tranquilo e disponível para o trabalho...neste caso ganhar títulos .

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    1. Só uma pequena correção, caro anónimo. A cláusula de rescisão de Garay era de €20M. Mas de resto é como diz, estas cláusula de valor elevado garantem estabilidade ao clube.

      Quanto mais baixas forem as cláusulas maiores serão os zunzuns de saída quando um jogador começa a ter bons desempenho dentro do campo.

      Um abraço.

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  3. Bom dia MdC. Realmente o Sporting faz comichão a muita gente. Mas essa malta ainda não tinha reparado que é norma, desde que lá está esta direcção, colocar cláusulas de rescisão de 60M€ para avançados e 45M€ para restantes jogadores?
    O que se diria agora se o William Carvalho tivesse uma cláusula de 10M€. Não se espantaram por há um ano se ter posto uma cláusula de 45M€ num desconhecido William?

    Olhe que quando são os outros nunca lhes fez confusão, até serviu, imagine-se, para "avaliar" o plantel (ahahahah):
    http://www.record.xl.pt/Futebol/Nacional/1a_liga/Benfica/interior_premium.aspx?content_id=834988

    PS. Ontem foi a assembleia geral do SCP e foi apresentado o passivo consolidado de todo o grupo SCP (Clube + SAD + restantes empresas do grupo) é de 440M€ antes da reestruturação. Após a reestruturação diz-se que vai ficar em 325M€. Era bom esses comichosos das cláusulas exigissem aos seus clubes que fizessem o mesmo...

    SL

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    1. Sar, precisamente: se o Sporting andasse a colocar cláusulas de rescisão de €10M ou mesmo €20M, logo que esses jogadores começassem a render desportivamente começariam os rumores de saída - e aí lamentaríamos as cláusulas tão baixas.

      No caso de William, é evidente que ele ainda não vale €45M, e essa é a nossa melhor garantia que continuará connosco para o ano. Se fosse €20M já teria ido embora.

      Essa avaliação do Record é uma anedota. Que tristeza, vindo de jornalistas supostamente profissionais.

      Quanto ao passivo, está mais ou menos na ordem de grandeza que suspeitava, mas bastante abaixo daquilo que os profetas da desgraça (Vieira, RGS, Manha) andaram a anunciar. Seria de facto interessante que os outros clubes fizessem o mesmo.

      Um abraço.

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    2. sar e MdC

      Então esse passivo consolidado do clube é relativo a que data? 30-06-2013?

      É que já estamos em 01-07-2014.

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    3. Não sei, Luís Miguel. Já vi uma foto de parte da página do passivo mas não mostrava o cabeçalho com as datas a que diziam respeito.

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    4. Sim, é referente a Junho de 2013. Provavelmente porque é a data do último relatório e contas auditado do Clube e é a data em que foi negociada a reestruturação da dívida com os credores/parceiros.

      E o porto, quando é que consolida as contas e as torna públicas?

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  4. Excelente texto.
    O que me doi é ver que há alguns blogs sportinguistas (ou que se dizem sportinguistas) que reputam estas cláusulas de disparatadas.
    De facto são disparatadas, mas são-no para o jogador que as assina.
    Da parte do clube só demonstra uma enorme sagueza negocial (algo a que o clube não estava habituado, daí a estranheza de alguns).
    Enfim, pode ser que percebam o seu valor no dia em que o Sporting encaixar 40 milhões com a venda de um jogador acabado de aparecer, o que seguramente não tardará muito. Há um ano atrás, a cláusula do William Carvalho era motivo de gozo, hoje é a maior segurança do Sporting (ou faz um grande encaixe ou continua com o seu melhor jogador, numa "win-win situation").

    Tiago, as cláusulas de rescisão não contam para o cálculo da indemnização fixável ao abrigo da Lei Webster, apenas os slários que o jogador ainda tem por receber.

    SL


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    1. Jô, o clube está a defender os seus interesses. E o William é de facto um excelente exemplo da utilidade de estabelecer cláusulas à partida irrealistas.

      Um abraço.

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  5. É só gente estúpida. Aliás, se não servem para nada nem se percebe porque é que há cláusulas.

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    1. Caro anónimo, penso que existem alguns países onde é obrigatório existir uma cláusula de rescisão (Espanha). A moda pegou e passou a ser prática comum por aqui. Um abraço.

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  6. No geral concordo com as cláusulas de rescisão elevadas tal como têm sido fixadas pela actual direcção, apesar da sua duvidosa eficácia (mesmo no período não abrangido pela lei Webster) dada a hipótese de redução equitativa das cláusulas penais manifestamente desproporcionais, acabam por fixar patamares iniciais de negociação mais elevados e mais dificilmente originam especulações e manhosices tão queridas da nossa imprensa desportiva.
    No entanto parece-me que deve existir maior flexibilidade na fixação das cláusulas que devem ser definidas caso a caso, pois um jogador ambicioso e com verdadeiro potencial vai sempre exigir um salário e prémios bastante superiores como contrapartida da vinculação a uma cláusula dessas ou então nem sequer renova.

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    1. Tugarão, acho que o clube faz bem em puxar para cima as cláusulas. Nunca se sabe o que vai acontecer no futuro, pelo que mais vale estarmos protegidos do que não estarmos. Um abraço.

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  7. Mestre disse: "Há duas formas de encarar uma cláusula de rescisão: ou é um montante aproximado ao valor real do jogador, que lhe dá alguma flexibilidade para decidir mudar de clube (situação cada vez menos frequente), ou é um valor estupidamente elevado que na prática deixa o clube com total poder de decisão sobre o futuro do jogador durante a duração do contrato (neste caso o jogador pode considerar lisonjeiro ver o clube inscrever uma cláusula elevada, como sinal de confiança nas suas capacidades)."

    O Eric Dier por exemplo enquadra-se no tipo 1, eu no lugar dele e tendo clubes ingleses no meu encalce, que facilmente pagam 20 M por qualquer tipo de jogador, nunca renovaria pelo SCP se a minha cláusula fosse aumentada para um valor de 45M, porque ao ganhar agora uns trocos, aumento derivado à renovação, crio um impedimento ao meu futuro clube.

    Quanto ao último paragrafo não é bem assim, imagina que o Slimani que assinou por 4 anos e com uma cláusula de 30M o ano passado, na altura era um perfeito desconhecido se tivesse assinado com uma cláusula de 6M que é aproximadamente vinte vezes o preço que custou, hoje devido a sua valorização a cláusula estaria completamente desfasada e ao alcance de qualquer equipa dos principais campeonatos.

    Agora o Tanaka com 27 anos, ou Enoh pelo seu valor como jogador, terem uma cláusula de 30, 40, 60 ou 1000 é indiferente.

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    1. argelino, no caso do Dier €20M é um valor que facilmente qualquer clube da premier league consegue pagar. O clube não está devidamente protegido neste caso. Também me parece que será difícil renovar mexendo na cláusula, neste momento o jogador tem muito mais janelas abertas.

      Quando refiro que é indiferente a cláusula ser de €30M, €45M ou €60M, falo evidentemente de valores suficientemente elevados que coloquem o jogador protegido da maior parte dos clubes. Na nossa história nunca vendemos nenhum jogador acima dos €30M.

      Um abraço.

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  8. Caro Mestre:
    Há um aspecto que não pode ser esquecido: é a gestão das espectativas dos adeptos. Os clubes portugueses são obrigados a vender os seus jogadores mais valorizados para equilibrar as contas. Portanto, se daqui a 2 anos houver um Valência qualquer a oferecer 20 milhões por esse Tanaka, isso é um bom negócio para o Sporting e o BC vai certamente fazê-lo. Mas antes disso vai fazer-se "caro" e vai dizer que nenhum jogador sai abaixo da cláusula de rescisão. Quando os adeptos começarem a ver o BC a vender jogadores muito abaixo da cláusula de rescisão, não irão gostar. Portanto, não sei se não teria sido preferível colocar uma cláusula mais baixa, por exemplo 40 milhões. O Sporting está a colocar as cláusulas muito altas e isso pode rebentar nas mãos do BC daqui a 2-3 anos.

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    1. Eu parece-me óbvio que estas cláusulas visam proteger o SCP e servem para não sermos apanhados com as calças na mão quando surgir um William Carvalho. Eu não estou à espera que BdC venda todos os jogadores pelas cláusulas (apesar de o afirmar - apenas bom senso negocial), mas estas dão-nos um óbvio poder negocial. Eu acho muito mais fácil os adeptos compreenderem isto do que vendas ao desbarato e em bloco de % de jovens promessas.

      Qual é mesmo o problema em defender os interesses do SCP?

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    2. Caro anónimo, os adeptos não deviam criar esse tipo de expetativas. A habitual conversa de que "o jogador só sai pela cláusula" é apenas uma jogada negocial. A questão é que se for repetida demasiadas vezes depois aí os presidentes não se podem queixar que essas expetativas são criadas.

      No caso concreto de BdC, creio (posso estar enganado) que só fez referência ao valor da cláusula em relação a William Carvalho. E estou convencido que diz isso porque não está interessado em vender o jogador já esta época.

      Um abraço.

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    3. Sar, no fundo é mesmo disso que se trata: defender os interesses do clube. Um abraço.

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    4. Caro Mestre de Cerimónias,

      Eu diria mesmo mais: ressalvando um ou outro caso, o mais natural é os jogadores saírem todos abaixo da cláusula de rescisão.
      Não imagino um único sportinguista (minimamente sério) que fique surpreendido se o Tanaka for vendido abaixo dos 60 milhões. Logo, não estou a ver em que medida é que " isso pode rebentar nas mãos do BC daqui a 2-3 anos".
      Os críticos (a existirem) serão os mesmos que criticam tudo o que a Direcção faz, incluindo as cláusulas altas, o que será no mínimo um contra-senso.




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    5. Exato, Jô. Avaliarmos se um jogador é ou não bem vendido terá que ser sempre com base naquilo que mostra em campo ou no potencial que tem. O valor de referência nunca deve ser a cláusula de rescisão. Um abraço.

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  9. grande evangelização que para aqui vai

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    1. O que significa esse comentário, caro anónimo? Não estou a tentar converter ninguém a nada, estou apenas a prestar esclarecimentos sobre um tema que não devia gerar grandes confusões.

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  10. "Por isso será completamente indiferente se Tanaka ou outro jogador desconhecido tem uma cláusula de €30M, €45M, ou €60M."

    Não é indiferente.

    Relembremos o caso Afonso Martins: o Sporting queria-o dispensar e como não chegaram a acordo tiveram que pagar anos a fio sem o utilizar.

    Relembremos o caso da saída de JVP do galinheiro: Vale e Azevedo queria vender JVP e JVP queria receber dinheiro para sair, chegando os dois a acordo pela rescisão.

    Se Tanaka render bem desportivamente pode ser alvo de cobiça alheia e para sair pode querer uma parte do valor da cláusula e se Tanaka não render e o Sporting dispensá-lo Tanaka pode querer um valor para sair.

    Exagerar os valores da cláusula de rescisão pode dar problemas futuros, mas essencialmente, nestes casos, tudo depende da saúde financeira da entidade patronal e do salário que o jogador aufere.

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    1. Luís Miguel, o Sporting teve que pagar o salário do Afonso Martins durante anos a fio porque nenhum clube o queria contratar sequer a custo zero. A cláusula de rescisão não tem nada a ver.

      Tanaka pode exigir uma percentagem do valor da cláusula, mas não tem qualquer poder para o fazer. E mais uma vez a existência da cláusula não influencia nada.

      Honestamente não vejo como uma cláusula de rescisão alta possa gerar problemas...

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    2. O Hulk tinha uma cláusula de €100M. No que é que isso afetou a sua venda? Saiu por €40M - bem vendido. Fim de história.

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    3. Não o queriam contratar a custo zero porque não tinham dinheiro para o salário alto nem o Sporting se disponibilizava a pagar parte do salário.

      Os problemas acontecem quando não existe acordo.

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    4. Certo, por causa do salário. A cláusula de rescisão não teve nada a ver (nem sei se tinha na altura).

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    5. Minha nossa sra, que confusão para aqui vai.
      O Afonso Martins é um dos maiores chulos dos últimos anos, que preferiu ficar sem jogar no clube mas a receber contracto em vez de tentar a sua sorte e jogar noutro clube.

      O que é que isso tem a ver com a cláusula? Zero.
      Ele não tinha sequer cláusula de rescisão... O jogador recusou-se a sair do clube, por empréstimo, venda, ou rescisão. Como é que a cláusula modificava alguma coisa?
      Sabe sequer o que é uma cláusula de rescisão?

      Cada vez que leio um comentário deste luis miguel, sinto-me a ficar mais estúpido...

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