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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A forma e o conteúdo da entrevista de Dier

                                                                                                                                             
A oportunidade da entrevista

Não podemos censurar o Record por ter realizado esta entrevista ao jogador inglês. O interesse jornalístico é inegável, pois temos um jovem da formação do Sporting, um dos mais admirados pelos adeptos, que decidiu unilateralmente sair do clube após mais de uma década de ligação, usando um direito que lhe assistia.


Nesse sentido, também não é de espantar que o jornal opte por destacar as palavras de descontentamento do jogador face ao tratamento a que supostamente a direção o terá submetido.

No entanto, podemos questionar a política que o Record segue para realizar estas entrevistas de jogadores com vontades desalinhadas com os interesses do clube. Por exemplo, Oblak desapareceu para assinar pelo Atlético à revelia do clube, mas o Record já não foi tão expedito a garantir uma entrevista com o jogador. Garay saiu por tuta e meia, deixando mensagens enigmáticas aos adeptos benfiquistas (dizendo que não podia esperar mais), e continuamos à espera que os jornalistas do Record falem com ele. Rolando recusa-se a jogar no Porto, os seus empresários andam a ser ameaçados e insultados, mas parece que ninguém tem interesse em ouvir o lado da história do jogador.

O que parece óbvio é que o Record tem, em demasiadas ocasiões, a tendência para dourar a pílula para uns clubes e para plantar cenários catastrofistas para outros, como se pode exemplificar por estas duas capas publicadas no espaço de 9 dias:


O Record podia ter optado por dar ênfase a outras palavras que Slimani disse na mesma entrevista, como "No Sporting não me falta nada. Voltei aos treinos e trabalho no duro para poder estar em condições quando recomeçar a competição. Com o resto não me preocupo." ou "Espera-me uma temporada preenchida aqui no meu clube". Certamente seriam palavras que, colocadas na primeira página, dariam uma perspetiva bem mais semelhante à capa sobre Enzo.

Ficarei também a aguardar a entrevista que o Record fará a Bernardo Silva, que também tem um interesse jornalístico elevado. Será interessante ouvir a perspetiva de um jogador da formação benfiquista inegavelmente talentoso sobre os motivos que o levaram a ter tão poucas oportunidades para se afirmar no seu clube do coração.


As palavras de Dier

Na entrevista é possível perceber três questões que, segundo Dier, terão contribuído para a sua saída do Sporting: o processo de renovação do contrato, a relação com a direção, e a fraca utilização na época passada.

1º A renovação

Segundo Dier, não foi o salário o fator impeditivo para a renovação do contrato. O problema foi a cláusula de €45M que o Sporting queria impôr. Compreendo que o jogador não quisesse abdicar de uma cláusula acessível a qualquer clube inglês para uma que muito dificilmente seria batida, sem que tivesse um salário correspondente aos tais €45M (que certamente o Sporting, na situação em que está, não poderia pagar).

O facto de esse processo apenas ter começado há poucos meses não me parece relevante. Para todos os efeitos ainda existiam duas épocas de contrato, e a melhor altura para tratar este tipo de temas é precisamente o defeso. 

Perante este impasse, seria realmente possível uma aproximação das duas partes? Para isso era preciso saber quanto queria Dier receber e até onde estaria disposto a aumentar a cláusula de rescisão. Por outro lado, até onde estaria disponível a direção do Sporting para baixar as pretensões da cláusula, sem comprometer a política de gestão contratual que tem seguido? 

Não basta dizermos que casos excecionais exigem medidas excecionais, e que Dier, pelo seu historial no clube e potencial, merecia um tratamento diferente por parte da direção. Tratamentos privilegiados são uma potencial fonte de problemas no balneário (e eventualmente até com os credores), e é preciso medir as consequências que daí poderão advir.


2º A fraca utilização na época passada

Dier é claro ao dizer que a sua escassa utilização se deveu apenas a opções técnicas de Leonardo Jardim. Referiu a lesão na pré-temporada, que o deixou em desvantagem em relação a Maurício. Compreendeu e aceitou a decisão do treinador em considerá-lo como a 3ª opção para central.

Diz também que o melhor treinador que alguma vez teve foi Jesualdo Ferreira. Diz que aprendeu com ele mais em alguns meses do que com os outros em cinco anos. Não admira: Jesualdo apostou incondicionalmente em Dier apesar de, curiosamente, o ter tentado adaptar a trinco - Dier voltou a afirmar na entrevista que prefere jogar a central.


3º A relação com a direção

Dier diz que foi muito maltratado pela direção de Bruno de Carvalho desde que esta tomou posse. Acho estranho: com Bruno de Carvalho (e Jesualdo), Dier continuou a jogar com regularidade. Nunca foi colocado a treinar à parte e nunca deixaram de lhe pagar o salário. Então, de que maus tratamentos estamos a falar?

Tentando colocar-me nos pés do jogador, parece-me que esta insatisfação estará muito ligada às expetativas com que Dier ficou na altura das novelas de Bruma e Ilori.

Dier foi o único dos três que não causou problemas e que ficou no plantel. Esperava certamente continuar a titular, o que seria excelente do ponto de vista do seu desenvolvimento como jogador. Não acredito que tenha ficado chateado por o Sporting não lhe ter proposto uma renovação de contrato na altura - ainda tinha 3 anos de contrato pela frente, e a tal cláusula de €5M era uma garantia muito confortável para o seu futuro a médio prazo.

No entanto, os planos do jogador saíram furados quando apareceram Maurício, vindo por 300 mil euros da 2ª divisão brasileira, e William, regressado de um empréstimo em que pouco deu nas vistas, que agarraram a titularidade em duas posições em que Dier previsivelmente seria a 1ª opção.

Dier esperava ser titular e deve ter ficado desgostoso por ninguém na direção ter recompensado a sua "lealdade" no verão quente de 2013, influenciando Leonardo Jardim de forma a que o inglês tivesse mais oportunidades para jogar. Alguém se admira que o pai (e empresário) do jogador tivesse contactado Bruno de Carvalho de forma a que o presidente procurasse junto de Jardim facilitar o acesso de Dier ao onze? Eu não.

E partindo deste meu pressuposto, faria mais sentido que Dier guardasse as queixinhas para si. O Sporting investiu no seu desenvolvimento ao longo de 12 anos, ajudou-o decisivamente a desenvolver o seu potencial, deu-lhe oportunidades para jogar na equipa principal que poucos clubes lhe dariam, e como consequência de tudo isso vai agora jogar para um dos principais clubes ingleses, com um salário certamente muito acima daquilo que o Sporting lhe poderá pagar.

Aliás, dizer que o Sporting não quis que ele continuasse por não ter igualado as condições do Tottenham é de uma enorme desonestidade, pois os meios financeiros de ambos os clubes não são comparáveis. Mesmo que por absurdo o Sporting igualasse a proposta, o que impediria o Tottenham de oferecer mais umas centenas de milhar de euros no dia seguinte?

Dier saiu porque viu que não tinha a titularidade garantida no Sporting. Suplente por suplente, vai para onde lhe pagam mais. Muito mais. Fim de história.

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O salário de Dier

                                                                                                                                                     
É pertinente a crítica de quem acha que a direção atual podia ter-se esforçado mais para renovar com Eric Dier. Bem menos razoável, na minha opinião, é estar-se a criticar o Sporting por não ter coberto a proposta de vencimento que o Tottenham apresentou, conforme o previsto na tal cláusula. São coisas completamente diferentes.

Fico ansiosamente à espera para saber o salário que Dier vai ganhar em Inglaterra. Se for tornado público, ficaremos todos a perceber quais seriam as reais hipóteses de o Sporting se poder sequer aproximar daquilo que os ingleses ofereceram ao jogador.

A partir daí, também ficamos a saber as expetativas que Dier tinha num novo contrato. É possível que fizesse um desconto de amigo ao Sporting e aceitasse ficar por menos há um ano atrás, mas quão menos? 10%? 20%? Vá, 30% no máximo. Quem achar que Dier abdicaria da cláusula de €5M por um salário abaixo disso não deve estar a ver bem o filme.

Façamos as contas assim que o novo salário de Dier for conhecido, e ficaremos a saber exatamente o que é que ESTA direção poderia ter feito para segurar o jogador.

O choque da saída de Dier

                                                                                                                                        
E afinal a história tinha mesmo um fundo verdadeiro. Demasiado verdadeiro. Dier vai à sua vida e deixa-nos com a novamente com o amargo sabor de vermos um jovem muito promissor da academia partir sem dar um proveito desportivo razoável ao clube que investiu anos no seu desenvolvimento. Não posso negar: fiquei profundamente desapontado quando ouvi a notícia no princípio da noite de ontem.

O facto de Dier estar a ser aposta de Marco Silva leva a crer que o clube contava com ele para a época que se avizinha, com fortes hipóteses de ser titular. No entanto, isso não era claramente suficiente para o jogador, caso contrário não teria saído.

Convenhamos: não foi nos últimos dois ou três meses que este desfecho ficou definido. O problema vinha de trás, desde que Bettencourt renovou com Dier permitindo que se incluísse no contrato uma cláusula com um preço de amigo para clubes ingleses. Isto iliba a atual direção de todas as responsabilidades? Não é possível saber, mas ano momento em que escrevo este texto, um pouco mais a frio, parece-me que Bruno de Carvalho não poderia fazer muito mais sem comprometer as reformas que está a realizar no Sporting.

Será que se Leonardo Jardim tivesse entregue a titularidade a Dier faria com que o jogador sentisse que era uma aposta forte e aceitasse renovar o contrato que incluísse uma cláusula que protegesse melhor os interesses do clube? Acho que não. Quanto mais tempo Dier jogasse, mais perto ficaria de despertar a atenção dos clubes ingleses, facto que seria certamente aproveitado pelo jogador e pelo pai.

Poderia Bruno de Carvalho oferecer um salário milionário a Dier, ao nível dos atletas mais bem pagos no Sporting? É evidente que não. Não só Dier nunca provou em campo merecer ganhar um salário a rondar um milhão de euros anuais, como isso seria um tiro no pé no esforço do clube em sanear as suas contas. O que diriam outros jogadores como Maurício, Rojo, William, Cédric, Jefferson, Montero, Slimani, André Martins e Carlos Mané perante a diferença de tratamento? Não nos podemos esquecer que o orçamento do clube é de €25M. A questão salarial tem que ser gerida com pinças de forma a não comprometer aquilo que ficou acordado com os nossos credores.

O maior pecado de Bruno de Carvalho em todo este processo acaba por ser as declarações que fez no dia anterior, ao dizer que não existiam propostas por jogadores do Sporting. Não acredito que não soubesse que o Tottenham estivesse na iminência de bater a cláusula. Tecnicamente o Tottenham não fez nenhuma proposta, é verdade. Uma proposta tem o atributo de poder ser aceite ou ser recusada pela entidade que a recebe. Neste caso, o Sporting não tinha o poder de aceitar ou deixar de aceitar. Mas Bruno de Carvalho devia ter-nos preparado de alguma forma para esta notícia, em vez de negar a existência de quaisquer propostas.

Para os adeptos que estiverem furiosos com este desfecho, recomendo que direcionem esses sentimentos para os grandes responsáveis por esta situação, que felizmente já não estão no Sporting, mas cujo legado se fará sentir durante pelo menos mais 5 anos. Falo da gente que hipotecou de forma inaceitável o futuro do clube ao não acautelarem devidamente os interesses do Sporting nos contratos assinados com os jogadores, e ao alienar por valores irrisórios percentagens significativas dos passes de jogadores formados em Alcochete: Adrien Silva (70% cedidos a terceiros), André Martins (70%), Bruma (50%), Cédric (50%), Rui Patrício (35%), William Carvalho (40%), Wilson Eduardo (70%), Chaby (52,5%), Ponde (25%), João Mário (40%), Tobias Figueiredo (50%), Betinho (5%), Nuno Reis (15%), Renato Neto (40%). E este episódio prova que a política de contratos de longa duração com cláusulas proibitivas para os jovens da academia faz todo o sentido.

Quanto a Dier, desejo-lhe felicidades para a sua carreira. Ao contrário de Bruma e Ilori, foi sempre um excelente profissional, mesmo quando não foi opção para o onze durante uma grande parte da época passada. Não amuou, não fez qualquer tipo de chantagem, e sai do clube utilizando um direito que contratualmente lhe assistia.

A vida continua, e é com quem fica que temos que contar. Sem Dier, passa a ser fundamental a manutenção de Marcos Rojo, a bem das ambições da nossa equipa. Nenhum dos centrais que entraram para o plantel principal estão ainda em condições de serem titulares numa equipa que quer vencer o campeonato e vai participar na Liga dos Campeões.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

A venda de Dier: embuste noticioso ou história inspirada em factos reais?

                                                                                                                                                  
Desde o final da tarde de ontem que se sucedem as notícias sobre uma mais que provável saída de Eric Dier para o Tottenham por €5M. A transação faz o pleno nas capas dos jornais (apesar de o Record falar apenas em interesse do clube inglês e não como um facto consumado), e até o Maisfutebol, que normalmente não é muito dado a noticiar meros rumores de transferências de jogadores, publicou ontem uma notícia que coloca o inglês com um pé fora de Alvalade (e continua a colocá-la ao princípio da tarde de hoje com um destaque considerável).



Haverá algum fundo de verdade nestas manchetes ou estaremos perante mais um boato sem fundamento, tão comum na silly season futebolística?

Bruno de Carvalho disse ontem, na sequência de perguntas colocadas por jornalistas sobre possíveis ofertas por Rojo e William, que "não há propostas por jogadores do Sporting". Pode não haver nenhuma proposta séria em cima da mesa, mas duvido que numa altura destas o Sporting não esteja envolvido em negociações com outros clubes para vender jogadores do plantel. 

O Sporting precisa de vender. Dier é um jogador de enorme potencial, está a 2 anos do final do contrato, o processo de renovação parece estar estagnado, é internacional sub-21 inglês, pelo que me parece normal que existam clubes interessados no jogador e que estas notícias tenham um fundo de verdade.

Espero no entanto que a venda do inglês não se concretize. Nem vou falar nos números referidos: €5M parece-me um valor ridiculamente baixo. Qualquer clube da Premier League, e até alguns do escalão abaixo, têm meios financeiros para cobrir a cláusula de rescisão de €20M. A meu ver, se esta venda se concretizar por €5M será um negócio ruinoso, ao nível da venda de Garay ao Zenit.

O Sporting tem primeiro que esgotar todas as hipóteses de renovação com Eric Dier. É um jogador da casa, com carácter, querido pelos adeptos, e que pode vir a ser um dos melhores centrais que alguma vez tivemos. Faltam dois anos para o contrato terminar, pelo que o Sporting não tem que se sentir pressionado para abrir mão dele tão cedo.

Até acredito que a direção do Sporting esteja a negociar Dier, mas nunca por estes valores. Depois de conseguirem fechar as vendas de Bruma e Ilori por montantes superiores em circunstâncias bem mais desfavoráveis, seria um passo atrás na credibilização negocial do clube estar a oferecer o inglês por uma verba tão reduzida - a não ser que exista alguma cláusula no contrato que preveja uma saída do jogador a preço de saldo para Inglaterra.

Dier em Inglaterra por €5M? Ver para crer.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mais do que um simples treino

                                                                                                                           
Digam o que disserem, um jogo entre Sporting e Benfica, mesmo que seja na pré-época e com parte dos jogadores indisponíveis, não é um jogo qualquer. Isso foi mais que evidente pelas bancadas bem compostas e pelo empenho que ambas as equipas colocaram em campo.

O Sporting alinhou na máxima força (faltando apenas os jogadores que estiveram no mundial), apresentando-se com uma equipa muito semelhante à da época passada. A vitória foi indiscutível, já que o Sporting dominou a maior parte da partida, e o resultado acaba por pecar por escasso já que tivemos bastante mais ocasiões para marcar que o nosso adversário.


Grande partida de Adrien (para mim o melhor em campo), com muito bons jogos de Dier, Rosell, André Martins, João Mário e Carrillo. Capel esteve muito ativo, mas acabou quase sempre por dar má sequência aos muitos espaços que conseguia obter através em velocidade, quer através do seu poder de drible, quer através de boas combinações com os companheiros.

O Benfica jogou com muitas caras novas, mas é preciso dizer que dos jogadores disponíveis que serão crónicos titulares apenas Luisão e Sálvio ficaram de fora - os outros que não jogaram são os que ainda estão de férias por terem participado no mundial (situação que também afetou o Sporting). Como é evidente, tantas caras novas partem em desvantagem quando jogam contra uma equipa que na sua maioria joga junta há um ano. Na minha opinião, estranho seria se não vencêssemos.

Fica no entanto uma sincera palavra de satisfação por ver o Benfica a dar oportunidades a jovens da sua formação. Espero que seja para manter no futuro - o futebol português agradece.

Como é evidente, não podemos tirar grandes conclusões sobre aquilo que cada uma das equipas valerá quando a época arrancar. Ainda só se trabalha há quinze dias e falta mais de um mês para o mercado encerrar. Se é verdade que Jesus tem muito trabalho pela frente, fruto de uma renovação forçada do plantel, também é normal que Marco Silva ainda esteja nas etapas iniciais no processo de colocar a equipa a jogar à sua imagem.

Para terminar, gostava que me explicassem quem elegeu Talisca como o melhor jogador do torneio. Deve ter feito um jogo fenomenal contra o Estoril, porque no de ontem esteve longe de ser o melhor em campo. E já agora, espero que Nuno Lobo e a Associação de Futebol de Lisboa dêem indicações ao canal responsável pela transmissão em direto da competição que para a próxima mostrem a entrega do troféu aos vencedores (no próximo post escreverei sobre a transmissão da Benfica TV - perdão, BTV).

Ah, é verdade: apesar de o resultado num jogo destes pouco interessar, a vitória acaba por ter um sabor bem agradável à conta de coisas como esta...


sexta-feira, 13 de junho de 2014

Balanço de 2013/14: Guarda-redes e defesas



Rui Patrício (***)

Foi mais uma vez ano de São Patrício. Mais uma época de grande nível, tendo sido decisivo em vários jogos. O erro que cometeu na Luz para a Taça foi o único momento negativo de uma excelente temporada. 

Marcelo Boeck (*)

No início da época tudo apontava para a saída de Rui Patrício, e Marcelo contaria certamente com a titularidade. Ter passado o ano no banco deve ter sido uma desilusão, mas a verdade é que continuou igual a si próprio: um grande 12º jogador enquanto está no banco. Nas poucas vezes em que foi chamado à titularidade, esteve muito bem - nomeadamente no jogo com o Marítimo para a Taça da Liga.

Cédric (***)

Grande evolução. Pulmão inesgotável, velocidade, capacidade de drible, muito bom a cruzar com os dois pés, e este ano passou a ser muito consistente a defender. Um dos melhores do ano. Merecia estar no mundial.

Jefferson (**)

Excelente primeira metade de época. Desequilibrador no ataque, não tão forte a defender, muito bem na marcação de cantos. Perdeu fulgor ao longo da segunda metade da época. Precisa de um jogador no plantel que lute com ele pela titularidade.

Piris (*)

Esteve quase sempre bem nas poucas oportunidades que teve. Fez jogos de qualidade nos dois flancos, o que o tornou numa peça importante num plantel pouco profundo. Não fosse a sua cláusula de compra tão elevada e seria uma boa opção para continuar connosco na próxima época.

Welder (-)

Bom espírito de grupo a avaliar pelos instagrams dos jogadores. De resto foi uma aposta completamente falhada, como os 0 minutos de utilização atestam.

Rojo (***)

Se houvesse um prémio de Most Improved Player, seria de caras para Rojo. No ano passado era um jogador demasiado impetuoso e agressivo, com falhas graves de posicionamento, com uma taxa de passes longos ridiculamente baixa e perdia muitas bolas quando avançava em posse. Este ano transfigurou-se. Um jogador impressionante. Intransponível no um contra um, imperial no jogo aéreo ofensivo e defensivo, muito concentrado. Na minha opinião o jogador mais underrated do campeonato. Uma época extraordinária. Seria muito bom que ficasse mais um ano.

Maurício (***)

Uma enorme surpresa pela positiva, atendendo ao facto de ter sido contratado a um clube da segunda divisão brasileira. Um guerreiro em campo, foi também um dos principais responsáveis pelo acerto defensivo da equipa.

Dier (*)

Teve várias oportunidades ao longo da época para jogar. Começou mal, parecendo muito nervoso nos primeiros jogos em que foi utilizado. No entanto, ao longo da época foi voltando a ser o jogador que conhecemos. Teve uma prova de fogo contra o Porto que foi inteiramente ganha, ficando na retina o golo que tirou dos pés de Jackson com um golpe de rins incrível. Atribuo-lhe * e não ** porque infelizmente não foi o ano de afirmação de um dos jogadores de maior potencial que temos no plantel. Apesar de ter gostado muito da época de Maurício, preferiria ver Dier a ser utilizado de forma mais regular.

Rúben Semedo (*)

Deu nas vistas contra a Fiorentina, mas acabou por não ser utilizado. Os casos em que esteve envolvido são, na minha opinião, menos graves do que se quis fazer passar. Há que ter paciência e apoiá-lo, pois tem imenso potencial.

domingo, 4 de maio de 2014

A crónica do Nacional - Sporting, por Q.

                                                                                                                       
Este é um dia muito especial para este blogue. Ao contrário do que é habitual, o post sobre o jogo entre o Sporting e o Nacional não foi escrito por mim, mas por um ilustre jornalista da nossa praça que aceitou interromper o primeiro dia de descanso após um período prolongadíssimo de trabalho ininterrupto, carregado de emoções fortes.

O jornalista, que por acaso até é diretor de um conhecido jornal desportivo, pediu-me para não revelar a sua identidade (devido ao contrato de exclusividade que tem com o grupo económico para quem trabalha), pelo que vou referir-me a ele por Q.. 

É com grande orgulho que deixo de seguida a crónica do Nacional - Sporting, escrita por Q. em rigoroso exclusivo para este blogue.


O Nacional - Sporting ficará na história do futebol português pelos piores motivos. Mais uma vez, a verdade desportiva foi colocada em causa quando o Nacional decidiu realizar este jogo na Choupana. Com esta atitude lamentável de Rui Alves, foi permitido que o adversário pudesse ter milhares de adeptos a apoiá-los. Não se compreende como o Nacional não tenha mudado o jogo para o campo do Camacha, onde caberiam apenas os sócios da equipa da casa. No fundo, deixou que os interesses económicos se sobrepusessem aos desportivos, o que é um atentado à verdade desportiva que não pode passar impune, e que se tem repetido vezes sem conta esta época nos jogos em que o Sporting tem jogado fora de casa.

Apesar do ritmo lento, próprio de equipas que já não têm nada para lutar, foi um jogo com várias ocasiões de golo, quase todas protagonizadas pelo Nacional, que tem o 2º ataque mais perigoso da liga (não é por acaso que a equipa de Manuel Machado foi das poucas que conseguiu marcar 2 golos à melhor dupla de centrais da Europa -- Luisão e Garay).

O Sporting jogou com pouca intensidade, tendo sido poucos os jogadores que tentaram lutar contra a avalanche ofensiva da equipa da casa. Cédric foi provavelmente o jogador mais inconformado, talvez para tentar chamar a atenção de Paulo Bento, na vã esperança de conseguir o lugar nos convocados para o mundial que pertence por direito a André Almeida.

Foi no entanto contra a corrente do jogo que o Sporting acabou por inaugurar o marcador, com um auto-golo de Nuno Campos, que se estreou a titular neste jogo. O jovem jogador não deve ficar desmotivado pelo erro que cometeu. Comparando com uma outra situação célebre, ficou a milhas do enorme frango que Rui Patrício sofreu no golo de Luisão para a Taça de Portugal, que acabaria por eliminar o seu clube num dos mais espetaculares jogos deste século (em que o melhor Sporting do ano conseguiu dar alguma luta a um Benfica que teve sempre o jogo controlado, com uma excelente arbitragem de Duarte Gomes).

Na primeira parte, é de destacar a enorme exibição de Candeias, certamente motivadíssimo pela transferência para o único clube de dimensão verdadeiramente internacional em Portugal, procurando mostrar desde já ao futuro treinador que talvez tenha talento para fazer parte do plantel do próximo ano.

Na segunda parte, o Sporting continuou a jogar num ritmo morno, e o Nacional conseguiria chegar ao empate num golo em que Rui Patrício tem claras responsabilidades, ao não conseguir impedir com a cara o remate à queima-roupa de Diego Barcellos. Se tivesse a escola eslovena, o guarda-redes do Sporting saberia que tinha que colocar a testa na trajetória da bola para afastá-la para longe da baliza, em vez de marcar mais um auto-golo tão típico nele.

A partir desse momento o Sporting procurou aumentar a intensidade de jogo, mas raras vezes chegou com perigo à área adversária. De destacar um lance de Capel, em que o espanhol, não dispondo daquela magia argentina / sérvia que caracteriza os melhores extremos do mundo, preferiu atirar-se para o chão ao sentir os braços de um defesa adversário nas costas. Esteve bem o árbitro Rui Costa em amarelar o jogador do Sporting.

Empate injusto, pois o Nacional foi a única equipa em campo que demonstrou categoria para vencer a partida. De qualquer forma foi um mau jogo que acabou por ser uma perda de tempo para todos aqueles que aguardam ansiosamente o dia de amanhã para voltar a ver futebol que valha a pena.


Como esta crónica de Q. não espelha exatamente aquilo que penso do jogo, deixo também a minha opinião.

O Sporting pareceu entrar em campo já com a cabeça nas férias. A partida até foi relativamente interessante de seguir por terem existido várias oportunidades de perigo distribuídas pelas duas equipas, mas pareceu faltar alguma agressividade (para não dizer empenho) na forma como vários jogadores encararam o jogo. Destaco pela positiva Rui Patrício, Cédric, Maurício, Dier, André Martins, e Capel. Não gostei do jogo de Carrillo, William (cometeu vários erros que não lhe são habituais), Gerson Magrão (não compreendo a insistência de Leonardo Jardim em apostar nele), e Slimani (muito perdulário).

As substituições foram tardias: há muito que se tinha percebido que havia jogadores que não estavam a acrescentar nada em campo. Foi pena, porque tivemos o jogo na mão e poderíamos ter garantido uma vantagem maior caso a equipa tivesse colocado um pouco mais de atitude competitiva em campo.

Mais uma vez ficou um penálti por assinalar, que nos poderia ter dado a vitória. É verdade que, olhando para o que as duas equipas fizeram, o empate é o resultado que mais se aceita. Mas infelizmente o Sporting voltou a ser penalizado pelas arbitragens num jogo em que demonstrou menos inspiração. É verdade que o campeonato está decidido, o jogo já não aquece nem arrefece para as contas finais, mas são mais dois pontos que se acumulam a outros tantos que não deveríamos ter perdido se as arbitragens não tivessem influência no resultado final.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Lost in translation

O interesse do Zenit em Eric Dier                                                                                                          
Ontem, o jornal russo Izvestia noticiou o interesse do Zenit em contratar Eric Dier. É sabido que grande parte do trabalho diário dos nossos jornalistas desportivos é a retransmissão de todo o tipo de rumores, mesmo os mais descabidos, pelo que não espantou que pouco depois os sites de A Bola, Record, O Jogo, e Rádio Renascença tenham dado eco à notícia vinda de leste.

As notícias dos quatro sites continham mais ou menos os mesmos pormenores, o que leva a crer que todos se basearam no conteúdo divulgado pelo jornal russo para construir os seus textos: falam todos no facto de o reforço da defesa ser uma prioridade do Zenit, que Dier agrada pela polivalência e pela presumível facilidade de se adaptar aos métodos de Villas-Boas, e em que o valor do negócio se poderá fazer por €4,5M.

É óbvio para todos que isto não passa de um rumor sem qualquer fundamento. Ninguém acredita que o Zenit pense em Dier para atacar a Liga dos Campeões (o inglês tem muito potencial mas ainda não está nesse nível), nem me parece que o Sporting o deixasse sair por €4,5M. É mais uma as infindáveis "notícias" sobre hipotéticos interesses que acabam por se esfumar com o tempo.

No entanto, o Record ainda adocicou um pouco a notícia com uma razão adicional para o interesse do Zénit (no último parágrafo, a amarelo):


Segundo o Record, o interesse do Zenit em Dier deve-se também ao facto de André Villas-Boas ter visto o central em ação quando treinava equipas portuguesas.

Ora, AVB treinou apenas dois anos em Portugal -- em 2009/10 na Académica, e em 2010/11 no Porto.


Isto significa que o viu em ação quando estava nas reservas do Everton ou nos juvenis do Sporting. Faz todo o sentido... até já estou a imaginar Villas-Boas, na véspera da final da Liga Europa, a pedir ao comandante do avião que faria o percurso Porto - Dublin, para fazer um desvio por Liverpool, para poder ver Dier a fazer um jogo nas reservas do Everton.

Sim senhor, isto é jornalismo do bom. De A Bola, O Jogo, RR, mas com distinção para o Record pelo delicioso pormenor que acrescentaram a uma história que já tresandava a falso.

Sim, eu sei que provavelmente terá sido somente um erro na tradução de russo para português, e erros todos estamos sujeitos a cometer. Tudo natural, e estou a escrever isto em tom de brincadeira. Mas agora mais a sério: será que há necessidade de darem importância a rumores sem qualquer tipo de confirmação de uma fonte credível? Já ninguém acredita nestas coisas, mesmo... por que não se limitam a dar notícias com confirmações de fontes em quem confiem? Seria um bom passo para jornais e rádios tentarem recuperar um pouco da sua própria credibilidade.

Por exemplo, honra seja feita ao Maisfutebol: raramente dão corda a notícias deste tipo. Quando falam na possibilidade de haver uma transferência, eu fico atento ao que eles têm para dizer.

P.S.: as minhas desculpas pelo plágio a @baavin, que foi quem se apercebeu do erro nesta frase do Record.

segunda-feira, 17 de março de 2014

A improvável noite em que o karma meteu férias

Foi uma vitória conseguida da forma mais improvável possível, em que existem dois lances paradigmáticos: o golo que definiu o resultado foi conseguido na sequência de um lance em fora-de-jogo de André Martins, que aproveitaria a posição irregular para fazer uma assistência milimétrica para a cabeça de Slimani, que não perdoou; e, perto do fim, Patrício comete um erro enorme que deixou Jackson com o golo nos pés, mas Dier conseguiu encontrar os rins necessários para se virar, esticar a perna, e impedir o empate que já parecia inevitável. 

Um erro de arbitragem e uma falha tão absurda quanto inesperada do nosso guarda-redes, que este ano já nos custaram demasiados pontos para o campeonato e uma eliminação da Taça de Portugal, desta vez não decidiram um resultado contra o suspeito do costume e penalizaram a equipa que mais vezes tem beneficiado deste tipo de situações.

Podemos alegar inclusivamente que o Porto deixou-se cair numa espiral nervosa após o golo, não voltando a ter oportunidades de perigo (com exceção da que já referi, que Dier salvou) e mostrando vários jogadores de cabeça perdida, como Fernando. Os erros de arbitragem podem ter este efeito no rumo de um jogo, e o Sporting sabe-o melhor que ninguém. É caso para perguntar aos portistas: dói, não dói?

Apesar de um início de jogo forte, com grande pressão em todo o campo, o Sporting não foi capaz de criar grandes oportunidades de golo. O Porto, a partir dos 15 minutos, equilibrou a partida e, através de Quaresma, conseguiu ter os dois maiores lances de perigo da primeira parte: primeiro, um cruzamento de letra que encontrou Varela, que rematou para grande defesa de Patrício; depois, um remate em arco da quina da área que embateu com estrondo na barra. Jackson, perto do final da primeira parte ainda teria uma grande ocasião num cruzamento, mas cabeceou em desequilíbrio (que não me parece ter sido causado por Cédric, que só tocou em Jackson depois deste cabecear).

É preciso reconhecer que o Sporting teve sorte em ir para o intervalo com o jogo empatado. Não se pode dizer que o Porto estivesse a dominar, mas teve indiscutivelmente mais arte para criar perigo, e fez mais que o Sporting para justificar o golo.

Na segunda parte, o Sporting voltou a entrar muito forte, ameaçando a baliza de Helton por várias vezes. Primeiro por Dier, de livre, depois por Mané num desvio ao primeiro poste na sequência de um canto, e por Slimani na recarga à defesa de Helton. Pouco depois o Sporting marcaria o único golo do jogo.


A partir daí o Sporting baixou no terreno, de forma a reduzir os espaços no seu meio-campo, e para tirar partido das muitas recuperações de bola que ia fazendo para iniciar jogadas de contra-ataque. Existiram três ocasiões de superioridade numérica que podiam (e deviam) ter causado mais perigo, mas infelizmente o Sporting confirmou algumas deficiências no aproveitamento deste tipo de situações, que já havia demonstrado por várias vezes ao longo da época.

No entanto, do ponto de vista defensivo a equipa esteve extremamente concentrada, com um espírito combativo que quebrou praticamente todas as iniciativas portistas para se aproximarem da área de Rui Patrício. Não só o Porto parecia gradualmente perder o controlo emocional, como também pareceu quebrar fisicamente, acabando por ser pouco mais que inofensiva durante toda a segunda parte.

Em termos individuais, há dois destaques óbvios: William Carvalho, que fez um jogo monstruoso, e Slimani que mais uma vez marcou um golo que valeu pontos. Mas genericamente toda a equipa esteve muito bem, sendo justo referir as também excelentes exibições de Dier e Rojo, que estiveram intransponíveis.

Custa-me escrever que foi uma vitória importantíssima, porque não me consigo desligar da forma como foi conseguida, mas a verdade é que estes três pontos repõem um distanciamento mais que justo em relação ao Porto, que poderá vir a ser decisivo na luta pelo segundo lugar. Nada está decidido, mas o panorama está agora bem mais agradável.