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quarta-feira, 23 de abril de 2014

Quanto dá 47% de 0,0023% de 790 milhões?

O estudo da UEFA dos 47% de benfiquistas                                                                   
Ontem fiz referência aos muitos pontos de interesse que o relatório de benchmarking da UEFA tem para quem se interessa pelo fenómeno do futebol. Infelizmente, a nossa comunicação social preferiu dar apenas destaque a uma das 104 páginas que esse relatório tinha, que indica que o Benfica é o clube europeu com maior percentagem de adeptos (47%) dentro do seu país.

in expresso.pt

Pois bem, falemos então deste estudo. Como fez referência a Lusa, este estudo foi feito a 18.000 cidadãos europeus entre os 18 e os 69 anos. O que a Lusa não fez referência, é que o estudo (ou sondagem, para sermos mais precisos) foi feito em 38 países, conforme o relatório da UEFA indica. Ou seja, os tais 18.000 cidadãos questionados sobre o seu clube favorito, são na realidade uma amostra de um universo de cerca de 790 milhões de habitantes (e estou a contar apenas com a população da parte europeia da Rússia).

Ou seja, a amostra da sondagem corresponde a 0,0023% do universo analisado.

Arredondando por alto a população portuguesa para 11 milhões, e assumindo que a amostra foi mais ou menos equilibrada pelos vários países em função da população respetiva, isto significa que terão sido entrevistados cerca de 250 portugueses, dos quais 117 terão respondido serem benfiquistas.


Não é referido se os questionários foram feitos tendo em consideração o perfil da população portuguesa (representação geográfica, sexo, escalões de idade, ou graus de instrução. De qualquer forma, uma sondagem feita com base em apenas 250 entrevistas, mesmo que seguisse os critérios de representatividade que referi, dificilmente pode ser tomada como credível devido à dimensão da amostra.

Isto significa que os 47% são um número pouco válido. Os benfiquistas poderão argumentar que serão mais, os sportinguistas e portistas que serão menos. Dos órgãos de comunicação social poderíamos esperar que ao menos olhassem com alguma atenção para o que andam a divulgar.

Repito aquilo que escrevi no post de ontem: o relatório da UEFA é interessantíssimo. Dos vários quadros e gráficos, quase todos se baseiam em fontes credíveis, como estatísticas oficiais das competições (assistências), ou os relatórios e contas apresentados pelos clubes. Esta sondagem da UEFA que determinou os 47% de benfiquistas (que envolveu outras perguntas, como se os entrevistados se interessam muito, se interessam, ou se não se interessam por futebol, e as ligas estrangeiras que seguem) é das poucas coisas do relatório que não se baseiam em números oficiais e completos. Lamento que a comunicação social não se tenha apercebido disso.

terça-feira, 22 de abril de 2014

O relatório de benchmarking da UEFA

Na semana passada, a Lusa fez o seguinte artigo, amplamente divulgado por todos os órgãos de comunicação social portugueses:


Quem leia a notícia fica a pensar que a UEFA fez um estudo elaboradíssimo sobre as preferências clubísticas dos cidadãos europeus. Não podia estar mais longe da verdade. O relatório da UEFA onde esta estatística é referida é um documento de benchmarking (obrigado por me terem indicado como encontrá-lo, @captomente e @nunovalinhas), referente ao ano de 2012, que abrange as mais diversas áreas relacionadas com o futebol europeu. Fala de facto sobre o peso que os clubes mais populares têm dentro do respetivo país, mas trata também de outros temas interessantes como as transferências de jogadores, assistências médias, comissões de agentes, receitas, custos com pessoal, nível de capitais próprios, cash flow, mudanças de treinadores, etc..

A notícia dada pelos jornais e televisões do nosso país corresponde a 1 das 104 páginas do relatório. E acredito que olhos mais treinados do que o meu poderiam tirar daqui algumas conclusões interessantes.

É que há mesmo muito sumo neste relatório. Se tiver oportunidade hei-de voltar a ele em posts futuros, mas neste vou-me focar em alguns números que a UEFA reuniu que vão ao encontro do que Bruno de Carvalho disse sobre a necessidade de os clubes ajustarem os seus orçamentos à realidade do país.

Página 39: tendências da média de assistência de 2011/12 para 2012/13


Portugal: entre -10% a -20%. 37 ligas europeias estão melhor, 7 ligas europeias piores.


Página 62: evolução das receitas de 2011 para 2012



Portugal: as receitas caíram entre 10% e 20%. 44 ligas europeias estão melhores, 4 ligas europeias estão piores.



Página 69: evolução do rácio custos com pessoal / receitas de 2011 para 2012

Este índice essencialmente indica se o crescimento das receitas acompanha o crescimento dos custos com pessoal. Uma evolução de 0% significa que ambos cresceram proporcionalmente, uma evolução positiva significa que os custos com pessoal cresceram mais do que as receitas (o que é mau sinal).


Portugal: superior a 10%. Não existem ligas piores do que a nossa.


Página 80: lucros / prejuízos agregados por liga



Portugal: cerca de 30% de prejuízo, ao nível das piores ligas da Europa


Página 95: nível dos capitais próprios agregados por liga



Portugal: os passivos dos clubes são superiores em 1% em relação aos ativos.



Não sou um especialista na matéria, mas creio que todos sabemos que, nos dois anos que se sucederam ao período deste estudo, a situação geral dos clubes portugueses e da própria economia em Portugal piorou. Neste momento não há nenhum dos grandes com capitais próprios positivos (o Sporting terá após a reestruturação financeira, se se confirmarem as condições divulgadas). As assistências têm vindo a diminuir progressivamente, bem como a generalidade das receitas (os direitos televisivos do Benfica são uma das poucas exceções). Nos últimos dois anos, Benfica e Porto não desaceleraram o investimento na contratação de jogadores, gastando cada vez mais no reforço dos plantéis. As vendas milionárias já nem sequer têm sido suficientes para cobrir os défices operacionais.

Mas enfim, os 47% de benfiquistas é que são o ponto a reter deste relatório. Obrigado pelo bom serviço que nos prestaram, senhores da comunicação social.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sorriso amarelo

Desde que Luís Castro assumiu o comando da equipa principal do Porto, as típicas conferências de imprensa que antecedem os jogos passaram a ser substituídas por declarações exclusivas ao Porto Canal, realizadas em pleno relvado do treino de campos do Olival.

Registo com apreço que a nossa briosa e profissional comunicação social não deixou de querer levar as opiniões de Luís Castro aos seus espectadores / ouvintes / leitores, e vai gradualmente desacostumando-se aos ambientes das salas de imprensa dos clubes, podendo em alternativa pousar o seu rabinho no conforto das suas cadeiras nas respetivas redações ou estúdios, enquanto transcrevem as declarações a que agora só podem aceder através do canal 14 do Meo ou do canal 13 da Zon.

Alguém se espantaria se qualquer dia este hábito se estendesse também às reações do treinador após os jogos?

É por isso que acho estranho o silêncio dos diretores de jornais e dos responsáveis de desporto das estações de rádio e televisão perante a sua exclusão destas antevisões aos jogos, já que ficam impedidos de colocar as perguntas que as suas audiências querem ver respondidas. E já nem vou entrar no desprezo declarado que o Porto demonstra desta forma por todos os jornalistas.


Entretanto, o Benfica, sempre desejoso de experimentar os métodos inovadores do mentor de Vieira, decidiu fazer na terça-feira, em direto da sala de imprensa do Estádio da Luz, a conferência de imprensa menos concorrida da história, convidando apenas a Benfica TV para o evento.

Bem a propósito, Jorge Jesus iniciou a conferência de imprensa cumprimentando todos os jornalistas presentes.

in maisfutebol.pt

Mais uma vez, podemos agradecer o zeloso serviço da comunicação social em fazer chegar as declarações de Jesus a todos os portugueses que não têm a Benfica TV. Aliás, não só são zelosos como também são indivíduos com sentido de humor que sabem reconhecer uma piada quando a vêem, mesmo sendo eles o objeto da graçola.

É mais uma daquelas situações em que me pergunto se este silêncio da Comunicação Social não se transformaria num sonoro protesto se fosse o Sporting a decidir não prestar declarações aos jornalistas.

Tweet a propósito do blackout decidido pelo Sporting em Abril de 2012

Suspeito que pelo menos algum ruído haveria.