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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A verdadeira derrota

Ao fim de ano e meio de disputas legais entre o Sporting e a Doyen, o TAS acabou por dar razão ao fundo. O Sporting foi ontem condenado a pagar cerca de 12 milhões de euros. O desfecho não é, obviamente, aquele que os sportinguistas desejariam. Mas, ao contrário daquilo que muitos tentarão fazer crer, não foi ontem que o Sporting foi derrotado. 

O dia em que o Sporting foi derrotado no processo Rojo foi o dia em que decidiu contratar o jogador sem ter meios financeiros para o fazer. A falta de condições financeiras para investir num jogador como Rojo levou os nossos antigos dirigentes a sujeitarem-se a uma "parceria" em que o clube abdicava de todos os direitos e assumia todos os riscos e responsabilidades. Graças a essa decisão, o Sporting andou durante duas épocas a desenvolver e a valorizar um jogador que, graças às cláusulas do contrato de TPO assinado com a Doyen, nunca poderia dar qualquer retorno financeiro ao clube. Fosse vendido por um euro ou fosse vendido pela cláusula de 30 milhões, era matematicamente impossível para o Sporting conseguir recuperar o dinheiro gasto na aquisição dos seus 25% de passe e nas comissões e outras despesas pagas no processo de contratação do jogador argentino.

Nota: este gráfico não inclui custos de comissões e outras despesas suportadas ou a suportar pelo Sporting.

O Sporting foi derrotado no dia em que contratou um jogador para os seus quadros e depositou na mão de terceiros o poder de definir a continuidade do atleta no clube. O Sporting foi derrotado quando se sujeitou a cláusulas abusivas que retiraram ao clube até a capacidade de renovar com o jogador sem ter primeiro que consultar a Doyen.

Ontem foi o dia em que perdemos as hipóteses de reequilibrar os pratos da balança de um contrato desigual. Mas se do ponto de vista financeiro as consequências traduzem-se num retorno à estaca zero - o Sporting terá que entregar à Doyen o montante que lhe caberia pelos seus 75% somados de juros de mora que estão ao nível da taxa de financiamento médio do clube -, não posso concordar com quem fale de uma derrota do clube ao nível da imagem passada para o exterior.

Basta comparar o antes e o depois de todo este processo. Em agosto de 2012, altura em que Rojo foi contratado, o Sporting era um clube sem dinheiro e sem ativos, com um plantel pouco valorizado e hipotecado - basta lembrar a quantidade de jogadores cujo passe eram detidos por terceiros. A Doyen era um fundo que operava de forma completamente livre no mercado futebolístico e sem qualquer tipo de controlo ou escrutínio. Hoje a situação é completamente diferente: o Sporting é um clube com um plantel muito mais rico e está a valorizar os seus ativos em seu próprio proveito - e não para enriquecer sobretudo terceiros -, enquanto que a Doyen viu-se obrigada a operar praticamente na clandestinidade, recorrendo a sistemas ainda menos claros de financiamento de transferências de e para clubes que fazem ou faziam parte do seu catálogo, como o Porto, Marselha, Watford, Udinese, Inter, Gijón, Granada, Atlético Madrid ou Twente.

O Sporting iniciou sozinho uma cruzada que mudou a forma como o mundo do futebol vê os fundos - pelo menos a parte do mundo do futebol que prefere não tapar os olhos. Não é possível retirar o mérito a Bruno de Carvalho pela forma como conseguiu colocar o assunto na agenda mediática do futebol europeu - até mais no estrangeiro do que em Portugal, vá-se lá perceber o motivo. O caso Rojo e a ação do Sporting foram os pretextos usados pela UEFA para avançar contra a influência crescente destas entidades opacas, acabando por forçar a FIFA a tomar a histórica decisão de banir a partilha de passes com terceiros a nível mundial. 

Como seria de esperar, os fundos tentaram adaptar-se à nova legislação e encontrar novas formas de fazer aquilo que faziam, mas já não se livram da imagem de organizações agiotas que estão dispostas a atropelar tudo e todos em nome do lucro. Aquilo que aconteceu recentemente na Holanda com o Twente será provavelmente o melhor dos exemplos.

Neste momento, tudo isto pode servir de pouco consolo perante a decisão desfavorável do TAS. Mas todo este processo acabou por ter uma outra vantagem que não se esgota no presente: deu-nos a conhecer os nossos verdadeiros inimigos. E não me refiro apenas aos responsáveis de Porto e Benfica que usufruíram de uma deslocação e custas pagas até à Suiça para testemunhar a favor da Doyen. Falo, sobretudo, dos antigos dirigentes do Sporting que aceitaram testemunhar voluntariamente contra o seu próprio clube:


Os sportinguistas podem e devem sentir-se desiludidos com o desfecho de ontem. Mas em vez de direcionarem a raiva ou frustração que possam sentir contra os dirigentes que não recearam enfrentar forças extremamente poderosas para defender os interesses do clube, devem primeiro relembrar-se da pesada herança que Bruno de Carvalho recebeu dos seus antecessores. Falando concretamente de Godinho Lopes, é a ele que devemos dois anos de incompetência extrema - dos quais o contrato com a Doyen sobre Rojo é apenas um de inúmeros exemplos - que conduziram o clube a uma situação desesperada de pré-falência. Infelizmente para nós, esses dois anos de incompetência tiveram, têm e terão consequências cujos efeitos continuarão a fazer-se sentir, no mínimo, até 2026. Resíduos altamente tóxicos (*) que condicionarão a ação desta direção e das que se seguirão. É bom que nunca ninguém se esqueça disto.

(*) em breve apresentarei outro exemplo.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O negócio Rojo

Entre os documentos revelados pelo Football Leaks estão os contratos assinados pelo Sporting com a Doyen e com o Spartak de Moscovo para a transferência de Marcos Rojo para Alvalade. Quem se dê ao trabalho de ler o conteúdo desses documentos certamente que não deixará de ficar arrepiado pela péssima defesa dos interesses do clube.

Já se sabia que o jogador custou €4M, tendo sido €1M suportado pelo Sporting e €3M pela Doyen. Olhemos agora para outras cláusulas relevantes, algumas das quais ainda não eram conhecidas.
  • O Spartak de Moscovo tinha sempre direito a €1M da venda de Rojo pelo Sporting, independentemente do valor da transferência.
  • Adicionalmente, se a transferência fosse feita por valores acima dos €5M, o Spartak de Moscovo tinha direito a receber 20% do valor que ultrapassasse este patamar.
  • Em caso de venda, independentemente do valor da transferência, o montante a que a Doyen teria a receber do Sporting nunca poderia ser inferior a €4,2M.
  • No caso de o contrato de Rojo chegar ao fim sem ter sido vendido pelo Sporting, a Doyen teria a receber do Sporting uma indemnização de €4,2M.
  • Se Rojo rescindisse com o Sporting e não lhe fosse atribuída justa causa, o Sporting teria que entregar à Doyen o valor superior entre estas duas hipóteses: 1) 35% da indemnização devida por Rojo ao Sporting; 2) €3,7M.
  • No caso de uma venda, caberia ao Sporting suportar a totalidade das despesas, incluindo comissões e mecanismo de solidariedade (o mecanismo de solidariedade com os clubes formadores é normalmente pago pelo novo clube do jogador, mas de qualquer forma há uma cláusula no contrato entre o Sporting e a Doyen a prever isto).
  • O Sporting era obrigado a fazer um seguro para a eventualidade de morte ou lesão incapacitante do jogador de valor não inferior a €3,7M. Na eventualidade de o seguro ser acionado, a totalidade do valor seria entregue à Doyen. Se a companhia seguradora entendesse pagar menos de €3,7M, o Sporting teria que indemnizar a Doyen pela diferença.
  • Se o Sporting renovasse o contrato de Rojo sem autorização da Doyen, o fundo poderia optar por uma de duas situações: 1) exigir o pagamento de €4,2M por troca dos 75% do passe que possuiam; 2) manter os 75% e estendo todos os direitos à totalidade da duração do novo contrato.
  • A qualquer altura a Doyen poderia obrigar o Sporting a comprar os seus 75% dos direitos desportivos por €3,7M. Se isso acontecesse, e se posteriormente o Sporting vendesse Rojo nas duas janelas de transferências seguintes (tendo já o clube os 100% dos direitos desportivos do jogador), a Doyen manteria o direito ao diferencial entre 35% do valor total da transferência e os €3,7M recebidos, caso os 35% fossem superiores aos €3,7M.

Considerando as cláusulas acima descritas, fiz um gráfico que mostra - para transferências entre €1M e €30M (o valor da cláusula de rescisão) - qual seria o lucro da Doyen, o lucro do Sporting e o valor a que o Spartak teria direito numa eventual venda de Rojo.


Não, não estão a ver mal. A linha verde é a do Sporting. Vamos esticar em altura a linha do Sporting para termos um pouco mais de detalhe.


Ou seja, o Sporting só não teria prejuízo caso vendesse o jogador por €20M ou mais. E no melhor cenário possível - a venda pelos €30M da cláusula de rescisão - o Sporting teria um lucro total de €500.000, aos quais se teriam que abater todas as despesas incorridas do processo de venda, bem como a comissão e o prémio de assinatura pagos no momento da contratação do jogador (que não estão aqui incluídos, já que não foram divulgados).

Quanto à Doyen, tinha a garantia que o seu lucro nunca seria inferior a €1,2M, ou seja, estava assegurada uma valorização nunca inferior a 40% do dinheiro investido. Este tipo de relacionamento entre um fundo e um clube, em que uma das partes à partida não tem qualquer hipótese de retirar qualquer benefício do seu investimento, nunca pode ser considerado como parceria - expressão que os representantes dos fundos gostam muito de utilizar. Não passa de pura exploração de entidades cujo objetivo é distorcer o mercado de forma a impedir que uma fatia significativa dos jogadores mais promissores estejam ao alcance da maior parte dos clubes - a não ser que se metam nestas parcerias.

Por outro lado, o Sporting não era obrigado a assinar um contrato destes. Rojo era um jogador com potencial mas estava longe de ser um jogador feito. É inaceitável que os dirigentes do Sporting tenham aceitado desenvolver um jogador sabendo à partida que nunca poderia tirar qualquer proveito financeiro da sua valorização. O buraco em que o clube acabaria por cair também se explica pela ausência de bom-senso em negócios destes.


P.S.: ficámos também a conhecer a cláusula que o Sporting invoca para a legitimação da rescisão do contrato com a Doyen:


Parece claro que uma cláusula que condiciona a renovação de contrato do jogador é uma interferência tácita na política do clube na gestão do atleta. Mensagens enviadas pelo líder do fundo a ameaçar que o jogador poderá levantar problemas caso não seja transferido também são uma pressão que a cláusula 14 claramente proíbe.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

É um bocado isto, sim senhor

Apanhado no Twitter de um adepto do Manchester United no último fim-de-semana:


(Lamento por aqueles jornalistas e gente dos media portugueses que classificaram Marcos Rojo como 'banal' e Markovic como 'extraordinário')


Verdade seja dita que agora já há alguns jornalistas portugueses que reconhecem valor a Rojo. Pena é que tenha sido necessário chegar ao XI do mundial e uma transferência de €20M para um dos maiores clubes do mundo para lhe fazerem alguma justiça, pois até lá preferiram ignorar a época brutal que o argentino fez no Sporting, em que a norma foram exibições seguríssimas e estatísticas a condizer.


domingo, 17 de agosto de 2014

O pedido de desculpas de Rojo

Creio que poucos serão ingénuos ao ponto de pensar que depois do pedido de desculpas de Rojo na Sporting TV tudo voltará a ser como dantes. Apesar de o argentino ter anunciado que voltará aos treinos com a equipa principal, certamente que não deixará de ter a cabeça em Manchester - o que é perfeitamente natural. A possibilidade de dar o salto para um dos maiores palcos futebolísticos à escala planetária inquietaria o espírito de qualquer um.

No entanto, este pedido de desculpas impunha-se. Por muita razão o jogador tenha em ficar abalado pelo arrastar das negociações, não pode recusar-se a treinar e de estar disponível para aquilo que o treinador entender enquanto for funcionário do clube. Como tal, é de saudar a postura do Sporting, do jogador e do seu empresário por terem tido a presença de espírito necessária para apaziguar a situação.

A partir daqui, suponho que seja uma questão de tempo para Sporting e Manchester United se entenderem para concretizar a transferência do jogador. A recusa em treinar é uma atitude grave, mas não tão séria ao ponto de bloquear a progressão de carreira de um jogador que teve a humildade suficiente para se retratar publicamente da sua falha, e que teve um comportamento irrepreensível ao longo dos dois anos em que esteve connosco.

Gostava que Rojo continuasse connosco por muito tempo, mas na minha opinião a melhor atitude do clube será deixá-lo ir, assumindo que o Manchester United paga um valor justo pelo seu passe - com ou sem o acordo da Doyen. O jogador não tem culpa que o Sporting tenha assinado um acordo de transferência que à partida afastava praticamente qualquer hipótese de realização de mais-valia para o clube. Para além disso, se formos demasiado intransigentes na negociação com o United, o rasgar de contrato com a Doyen será visto como uma mera forma de amealhar milhões a que não teríamos direito, em vez da questão de princípio em não tolerar a ingerência do fundo na gestão desportiva do jogador.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

A resposta do Sporting à Doyen

                                                                                                                                           
Conforme seria expectável, não foi preciso esperar muito para termos uma resposta pública do Sporting ao comunicado da Doyen. O clube contrapôs alguns dos argumentos que tinham sido apresentados pelo fundo, e concluiu a mensagem com o anúncio da rescisão dos contratos que tinha com a Doyen referentes aos jogadores Rojo e Labyad.

Que efeitos práticos imediatos poderá ter está rescisão unilateral? Tanto quanto me parece, o efeito principal é que o Sporting não reconhece o direito da Doyen em ser indemnizada pela recusa do clube em transferir o jogador. Para além disso, aumentam significativamente as probabilidades de Rojo continuar no Sporting. Não estou a ver a FA permitir que um clube inglês contrate um jogador cujos detentores do passe não se entendem em relação aos direitos de cada uma das partes numa eventual transferência.

É uma jogada muito forte do Sporting. No limite, todo este processo poderá arrastar-se durante anos no tribunal, o que deixará Rojo num limbo que lhe poderá arruinar a carreira, impossibilitando o clube de tirar qualquer aproveitamento desportivo e económico do jogador, e em que os detentores do fundo garantidamente ficam sem ver um tostão que seja do dinheiro que aplicaram na contratação do argentino durante um largo período de tempo.

Não quero com isto dizer que me desagrada esta tomada de posição do Sporting. Segundo os pormenores revelados pelo comunicado do Sporting, são evidentes as provas de pressões ilegítimas e má-fé da Doyen em todo este processo - das quais o SMS enviado e a participação do CEO numa reunião sob uma falsa identidade são absolutamente gritantes e impossíveis de ignorar. 

O mais provável é que seja promovida uma reaproximação entre as duas partes para tentar resolver o imbróglio que se gerou, por iniciativa de peixe mais graúdo ligado ao fundo. Cheira-me que esse CEO da Doyen, de seu nome Nélio Lucas, terá que começar em breve a procurar outro emprego.

P.S.: apresento-vos Nélio Lucas. Do que vejo no vídeo abaixo, diria que não estamos a lidar com um CEO, mas sim com um relações públicas manhoso... também ajuda a explicar a qualidade do comunicado que a Doyen escreveu ontem. (obrigado, Sar!)



O fundo da questão

                                                                                                                                            
Já todos sabemos que o futebol português é fértil em originalidades, infelizmente quase sempre pela negativa. Ontem tivemos o privilégio de assistir a mais um acontecimento singular: pela primeira vez um fundo sentiu-se na necessidade de fazer um longo comunicado para defender o seu bom nome - apesar de juntar os termos "fundo" e "bom nome" na mesma frase parecer um contrassenso.

Não quero com isto dizer que seja justo demonizar os fundos só por causa da sua reputação: da parte que me toca, e pela experiência que o Sporting tem tido, prefiro que o clube viva bem longe deles (mesmo que isso implique não podermos contar com jogadores em teoria mais talentosos), mas admito que podem ser úteis a curto prazo para quem trabalhe com eles. E, como em tudo na vida, haverá fundos com gente mais séria e outros com gente menos séria.

De qualquer forma, não podemos ser ingénuos: os fundos estão nisto por dinheiro, e estão a borrifar-se para os interesses dos clubes "parceiros" e das carreiras dos jogadores envolvidos. Um negócio, para um fundo, só pode ter um final feliz: garantir que são realizadas mais-valias, de preferência no mais curto espaço de tempo possível.

O comunicado que a Doyen escreveu ontem é patético e contraditório, provocador e, acima de tudo, revelador de um enorme nervosismo.

Como é sabido, já existe na UEFA alguma vontade política para banir as propriedades partilhadas de jogadores. A concretização dessa vontade será uma sentença de morte para os fundos como a Doyen, pois a esmagadora maioria dos valores de transações de jogadores envolve equipas europeias. E já correm primeiras páginas nos jornais desportivos britânicos sobre o braço de ferro entre o Sporting e a Doyen - precisamente o tipo de publicidade que os fundos desejam evitar.

Podem alegar que a Doyen está apenas a defender os interesses que lhe estão contratualmente assegurados. Sim, é verdade, mas será que interessa à Doyen que entidades de supervisão comecem a vasculhar os contornos do contrato estabelecido com o Sporting por Rojo?

Vamos recapitular o que sabemos:
  • O Sporting comprou Rojo ao Spartak Moscovo por €5,4M;
  • O Sporting cedeu 75% do passe à Doyen por €3M, incorrendo no prejuízo imediato de €1M (o Porto fez recentemente uma operação semelhante com Brahimi, precisamente com o mesmo prejuízo);
  • O Sporting tem que pagar 20% de mais-valias da venda ao Spartak (revelado na terça-feira por Bruno de Carvalho);
  • O Sporting, quer venda Rojo por €20M ou por €30M, recebe o mesmo montante, o que significa que existe algo no contrato com a Doyen que estabelece que o fundo terá direito à totalidade da verba acima de um determinado valor (revelado no comunicado de ontem da Doyen);
  • Se o Sporting não vender o jogador, terá que indemnizar a Doyen numa verba não especificada, mas considerável (revelado pela Doyen);
  • O Sporting poderá recomprar em setembro de 2015 o passe do jogador por valores bastante superiores aos que recebeu no momento da cedência (revelado por Bruno de Carvalho).

Tudo isto junto significa que, mesmo que Rojo saia pela cláusula de rescisão, o Sporting sairá sempre a perder dinheiro neste negócio. E também fica provado que o risco da Doyen é na realidade muito mais limitado do que à partida se poderia supor.

O caso Rojo, para além de revelar uma imensa irresponsabilidade dos dirigentes do nosso clube que aceitaram estas condições ruinosas, vem também demonstrar que os fundos não têm problemas em açambarcar a totalidade dos lucros por apenas uma parte do risco, caso isso lhes seja permitidos. E infelizmente, acredito que isso seja mais a regra do que a exceção, pois as dificuldades financeiras por que passam a generalidade dos clubes por toda a europa são mais que conhecidas, e a concorrência desportiva não dá tréguas. Estando os fundos disponíveis para financiar transferências, os clubes que a eles recorrerem têm uma vantagem competitiva imediata, mesmo sabendo que muito provavelmente estarão a prejudicar o seu futuro a médio / longo prazo.

A UEFA não tem a obrigação de proteger os clubes da estupidez dos seus dirigentes, mas não pode ignorar que a existência dos fundos privilegia quem com eles negoceia, colocando em causa o equilíbrio das competições e o futuro dos próprios clubes. E sem clubes, as competições da UEFA também sofrerão.

É claro que no meio de tudo isto ainda surgem histórias com um final feliz para todos, como a de Mangala. Aliás, o comunicado da Doyen começa precisamente a destacar os elogios que o Porto lhes tece pelo seu papel na transferência do jogador francês para o Manchester City:
Na declaração enviada pelo F. C. Porto à FA destacamos o seguinte parágrafo: "having Doyen an exemplary behaviour during all the referred period of time".

Não é de admirar este elogio: segundo uma versão que para aí corre, a Doyen "abdicou" de €8M a favor do Porto, satisfazendo-se apenas com €5M dos €13M a que teria direito. Duvido no entanto que a única contrapartida que o Porto terá dado em troca desses €8M tenha sido uma simpática referência numa missiva a uma federação que proíbe que os fundos possuam parcelas dos passes dos jogadores dos seus clubes. E aqui poderíamos entrar nas questões da transparência, mas o post já vai demasiado longo.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O que pode fazer a direção para evitar casos como os de Rojo e Slimani?

                                                                                                                                       
Na caixa de comentários do post anterior, Duarte Fonseca deixou um comentário para reflexão que me parece muito pertinente:
Caro,
Considero ser muito importante ter uma postura forte na negociação, mas não lhe parece que são casos a mais? E todos idênticos? Não lhe parece que começa a ser contra producente a forma de actuação? Prefere continuar a acreditar que a culpa é sempre dos jogadores? Não era bom questionar (mesmo que abstractamente) os métodos relacionais entre os gestores desportivos do Sporting e os jogadores?
São só algumas questões que gostaria de deixar para discussão.
SL

É uma questão de facto muito relevante. É inegável que este tipo de casos tem sucedido com demasiada frequência e é perfeitamente legítimo que se questione se a posição de permanente intransigência que a direção adota perante jogadores com objetivos divergentes é a que melhor defende os interesses do clube.

Desde que esta direção tomou posse já tivemos os seguintes casos:

  • Bruma, com quem o Sporting não chegou a acordo para renovar, tendo posteriormente o jogador e representantes procurado, sem sucesso, a rescisão unilateral de contrato;
  • Ilori, que a dois anos do fim do contrato disse veementemente que queria sair e que estava disposto a ficar dois anos sem jogar;
  • Cassamá, Sambu e Bramé, com quem o Sporting não chegou a acordo para renovar e que assinaram pelo Porto no final do contrato;
  • Labyad, colocado a treinar na equipa B sem jogar, cujo "pecado" era o enorme salário que auferia (em comunicado aquando da sua cedência ao Vitesse, foi referido que o Sporting poupa €4,5M durante o ano e meio do empréstimo) sem que tivesse um rendimento desportivo condizente;
  • Elias, que ao voltar do empréstimo do Brasil foi também colocado a treinar na equipa B;
  • Dier, que afirmou após ter saído que só não ficou no Sporting porque a direção não quis;
  • Vários casos de jovens da formação que se recusaram a renovar contrato (ou cujas negociações se prolongaram durante largos meses), como Fokobo, Alexandre Guedes, Gelson Martins ou Matheus Pereira, em que alguns deles foram impedidos de jogar ou colocados noutras equipas.


Existirão certamente outros casos de que não me lembro de momento, mas que poderei colocar aqui caso alguém lhes faça referência. De qualquer forma, o objetivo deste post não é abordar cada caso de forma individual, mas fazer uma reflexão sobre aquilo que a direção pode fazer para este tipo de casos - ou sobre o que faz ou não faz de forma preventiva para impedir que as situações cheguem a pontos de rotura.

Excluo desta reflexão alguns dos casos referidos acima, em que é evidente que o único plano de carreira definido pelos empresários é o dinheiro imediato. Esses casos não merecem sequer que se perca tempo em pensar no que poderia ter sido feito para evitar a rotura.

É verdade que cada jogador é um caso, e todos têm os seus planos de carreira delineados, mais ou menos realistas e razoáveis, em função do valor que consideram ter - e se puderem cortar etapas nesse plano de carreira tanto melhor. Mas creio que também é legítimo que a direção se sinta no direito de estabelecer limites nos salários que paga ou em definir um preço para a saída dos jogadores, de acordo com as possibilidades e os melhores interesses do clube.

Há no entanto algo que nunca pode ser colocado em causa: durante os processos de negociação de renovações ou transferências, o mínimo que se pode exigir aos jogadores é que continuem a treinar e a jogar no caso de serem opções do treinador.

Infelizmente só há uma forma de apaziguar este tipo de situações: colocando dinheiro na mesa. É assim que Benfica e Porto normalmente resolvem os seus casos. Enzo pede para sair? Então em vez de ganhar 700.000€ ao ano passa a ganhar €2M. Jackson quer ser transferido? Então passa a ganhar €3M ao ano e ainda oferecemos 5% do passe ao empresário. Oblak, no princípio de 2013/14, numa altura que seria previsivelmente suplente, desapareceu sem deixar rasto. Chamou-se o empresário, oferece-se 20% do passe, aumenta-se substancialmente o salário ao jogador, e caso resolvido. 

É claro que estes três casos têm uma coisa em comum que é indiscutível: os clubes podem ter cedido perante situações de chantagem (pelo menos no caso de Oblak é inegável), mas depois retiraram um enorme proveito desportivo dos jogadores que se traduziram em títulos (no caso do Enzo e Oblak) e em muitos golos (previsivelmente no caso de Jackson).

Mas o Sporting não pode seguir esse caminho. A meu ver, o espartilho financeiro em que o clube vive é um fator incontornável que reduz as hipóteses de gerir a relação entre os gestores desportivos e os jogadores. Estamos a falar de jogadores profissionais, a maior parte dos quais (se não todos) vê o Sporting como uma mera plataforma que os ajude a atingir outros patamares na sua carreira - e contra isso, sem liberdade orçamental para ir afastando tentações externas, a única coisa que vejo que a direção pode fazer é procurar gerir as suas expetativas a curto prazo. Se a estrutura de futebol faz isso de forma competente ou não, é difícil saber.

No entanto, não nos podemos esquecer de uma coisa: a direção NUNCA poderá controlar ofertas provenientes de outros clubes aos jogadores. Uma vez surgindo essas ofertas, não há muito a fazer - qualquer ser humano que não tenha poços de petróleo no quintal fica com a cabeça às voltas na perspetiva de poder receber um salário muito superior. Todas as expetativas que estavam alicerçadas na mente do jogador e empresário, repentinamente desvanecem-se.

Perante isto, o Sporting ou cede ao fim de 2 ou 3 tentativas negociais, ou tenta impor a sua vontade até ao limite da razoabilidade. Se essa razoabilidade foi ultrapassada nos casos de Rojo e Slimani, não sei, mas inclino-me para acreditar que não - pelo facto de ainda haver 3 semanas até ao fecho do mercado.

Mas independentemente da linha de rumo a seguir, acho inaceitável que exista tolerância para um jogador que se recuse a treinar e jogar. Até ao momento em que assine por outro clube, é jogador do Sporting Clube de Portugal e tem que cumprir as suas obrigações.

Os casos de Rojo e Slimani, e um presidente que não se esconde

                                                                                                                                        
A minha visão dos casos Rojo e Slimani antes das notícias da rotura entre jogadores e clube

Ponto prévio: na minha opinião Rojo e Slimani são dois jogadores importantíssimos, e gostaria de continuar a vê-los de leão ao peito durante esta época. Rojo é para mim o nosso melhor central (e a recente saída de Dier torna-o ainda mais importante), e Slimani possui qualidades que mais nenhum jogador do plantel tem, e que são essenciais num campeonato como o nosso (como tivemos oportunidade de testemunhar ao longo da época passada).

Tratando-se de dois jogadores que deram nas vistas durante o mundial, com tudo o que isso implica ao nível da valorização dos seus passes, via no entanto algumas diferenças fundamentais nos dois casos que poderiam levar a direção a facilitar um pouco mais a saída de Rojo: 
  • Convites de clubes como o Manchester United não surgem todos os dias;
  • €20M é uma verba considerável para um defesa central (casos como os de Mangala e David Luiz são anomalias em relação ao que é o valor típico de jogadores de topo nesta posição); 
  • O jogador já cumpriu dois anos de contrato no Sporting, o que não sendo o ideal (a bem da estabilidade e competitividade do plantel, deveríamos evitar a saída de jogadores que não nos tivessem proporcionado 3 anos de rendimento desportivo) já é alguma coisa;
  • O Sporting não tem condições para lhe oferecer um salário superior para o manter satisfeito mais um ano.

No caso de Slimani, penso que o Sporting tinha todas as condições e motivos para o manter no plantel:
  • O jogador chegou apenas há um ano;
  • O Sporting tem capacidade para lhe aumentar substancialmente o salário (que não atingindo os valores que outros clubes oferecem ao jogador, certamente que iriam ao encontro das melhores expetativas que Slimani teria quando assinou há um ano);
  • Fazendo uma boa época, certamente que para o ano haveriam outros Leicesters ou Trabzonspors interessados na sua contratação.

De qualquer forma, perante a atual valorização dos atletas, a situação financeira do clube e as legítimas aspirações dos jogadores, compreenderia que a direção aceitasse negociar os jogadores de forma a conseguir um compromisso que fosse vantajoso para todas as partes envolvidas. 


A entrevista a Bruno de Carvalho na Sporting TV

As notícias que foram sendo divulgadas ao longo do dia de ontem tornavam essencial um esclarecimento completo por parte do Sporting aos sócios e adeptos. A minha expetativa era que a Sporting TV cumprisse o seu principal desígnio - ser um veículo privilegiado de comunicação entre o Sporting e os sportinguistas - abordando os temas quentes do momento, sem tabus, no programa Sporting Directo.

A solução encontrada superou totalmente as minhas expetativas: uma entrevista ao presidente, que não se escondeu e prestou os esclarecimentos que se impunham sobre vários assuntos relevantes (não só sobre Rojo e Slimani, como também de Dier e Shikabala, e a "despromoção" de Gauld para a equipa B, entre outros). Sem dourar a pílula, revelando factos desconhecidos do público, e colocando de forma muito clara a posição do clube perante os vários temas abordados.

O facto de termos uma direção que, na pessoa do presidente, se dirige aos sportinguistas de forma imediata de forma a prestar esclarecimentos sobre temas muito incómodos, não pode ser subvalorizada. É assim que se demonstra na prática que os sócios estão a ser tratados como uma parte fundamental da vida do clube, e não apenas como clientes cuja única função é pagar quotas, comprar camisolas, e renovar lugares de época.


O que se soube durante a entrevista

Para além de confirmar os problemas disciplinares com Rojo e Slimani, e que os jogadores não jogarão na 1ª jornada contra a Académica, Bruno de Carvalho fez também mais algumas revelações interessantes:
  • Afinal o Sporting não ficará com 25% da verba da transferência, pois tem que ceder 20% das mais-valias ao Spartak de Moscovo.
  • A Doyen está a pressionar o Sporting para vender [nota minha: apesar de o seu responsável ter dito precisamente o contrário numa entrevista ao DN (aquando da reportagem feita há poucas semanas sobre o fenómeno dos fundos no futebol)].
  • O Sporting nunca teve a opção de recomprar parte do passe de Rojo à Doyen; existe essa possibilidade em setembro de 2015, por valores elevados.
  • Dier recusou a treinar-se na altura em que decidiu sair.
  • Não é novidade, mas Bruno de Carvalho referiu-se ao Record (e Cofina) como tendo uma campanha em curso que visa denegrir tudo o que se faz no Sporting.
  • A questão do visto de Shikabala está a ser investigada, de forma a apurar-se se existem ou não responsabilidades do jogador.
  • As negociações por Rabia começaram ainda em maio.


A atitude da direção perante os casos Rojo e Slimani

A partir do momento em que se confirma que os jogadores procurar forçar a sua saída utilizando métodos pouco aceitáveis, parece difícil que quer Rojo quer Slimani alguma vez voltem a jogar pelo Sporting.

Isto, como é evidente, é um golpe nas aspirações do clube em lutar pelo título, e é lamentável que as coisas tenham chegado a este ponto. Se para mim a melhor solução possível era manter Rojo e Slimani satisfeitos pelo menos durante mais um ano, esta acaba por ser, à primeira vista, a pior - jogadores encostados sem render financeiramente ou desportivamente.

No entanto, parece-me que nada disto irá impedir que se continue a negociar a venda dos jogadores. O afastamento dos jogadores das opções do treinador acaba por ser uma posição de força (Bruno de Carvalho afirmou que se for preciso toma decisões semelhantes às de Labyad e Elias) que é também uma forte jogada negocial por parte do clube. Resta saber até que ponto os clubes interessados serão afugentados ou não perante esta posição do Sporting.

Poderia ter tido a direção uma atitude diferente perante os jogadores e os clubes interessados? Na minha opinião, não. É perfeitamente normal que o Sporting não aceite a primeira proposta que chegue à mesa, e que procure maximizar o proveito que poderá obter para si. Este tipo de negociações é um braço de ferro que exige que todos os interessados mantenham o sangue frio, começando pelos próprios jogadores. 

Aliás, não vejo qualquer motivo para os jogadores terem recusado cumprir as suas obrigações. Faltam ainda três semanas para o mercado fechar e muita água haveria de correr por baixo da ponte - como é normal neste tipo de situações.

Como tal, não vejo outra alternativa para a direção do Sporting que não seja castigar os jogadores. A bem da estabilidade do clube, não se pode ceder em situações destas - é uma porta que se abre para provocar futuras situações de insatisfação noutros elementos do plantel por eventuais diferenças de tratamento. A coerência é um valor fundamental na gestão de recursos humanos e deve ser mantida a todo o custo - para o bem e para o mal.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

A hora da Sporting TV

                                                                                                                                           
Perante os acontecimentos das notícias que referem a recusa de Rojo em treinar e o afastamento de Slimani para a equipa B, espero sinceramente que a Sporting TV não ignore o tema. 

Tem sido referido por várias vezes pela direção que nestas situações os sportinguistas devem dar ouvidos apenas aos canais de comunicação do clube. Pois bem, penso que hoje vão ter a nossa total atenção. Falando por mim, terei a televisão ligada na Sporting TV para ouvir atentamente as explicações que serão dadas no programa Sporting Directo.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Exemplar

                                                                                                                                           
Rojo, que nos tem orgulhado a todos com o excelente mundial que está a realizar, esteve também muito bem nas declarações que fez sobre o seu futuro e o Sporting, no final do Argentina - Suiça:


Rojo estará ausente no jogo dos quartos de final contra a Bélgica, por ter visto o segundo amarelo na partida de ontem.

Para Enzo Perez, a vida na seleção parece não estar a correr tão bem...

Retirado da página de facebook do Super Sporting

Curiosamente todos os jornais desportivos fazem eco das declarações de Rojo, mas nenhum refere o comportamento que o jogador do Benfica teve com o jornalista da RTP. Será que o tratamento dos jornais teria sido idêntico se fosse Rojo a ter esta atitude?

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Balanço de 2013/14: Guarda-redes e defesas



Rui Patrício (***)

Foi mais uma vez ano de São Patrício. Mais uma época de grande nível, tendo sido decisivo em vários jogos. O erro que cometeu na Luz para a Taça foi o único momento negativo de uma excelente temporada. 

Marcelo Boeck (*)

No início da época tudo apontava para a saída de Rui Patrício, e Marcelo contaria certamente com a titularidade. Ter passado o ano no banco deve ter sido uma desilusão, mas a verdade é que continuou igual a si próprio: um grande 12º jogador enquanto está no banco. Nas poucas vezes em que foi chamado à titularidade, esteve muito bem - nomeadamente no jogo com o Marítimo para a Taça da Liga.

Cédric (***)

Grande evolução. Pulmão inesgotável, velocidade, capacidade de drible, muito bom a cruzar com os dois pés, e este ano passou a ser muito consistente a defender. Um dos melhores do ano. Merecia estar no mundial.

Jefferson (**)

Excelente primeira metade de época. Desequilibrador no ataque, não tão forte a defender, muito bem na marcação de cantos. Perdeu fulgor ao longo da segunda metade da época. Precisa de um jogador no plantel que lute com ele pela titularidade.

Piris (*)

Esteve quase sempre bem nas poucas oportunidades que teve. Fez jogos de qualidade nos dois flancos, o que o tornou numa peça importante num plantel pouco profundo. Não fosse a sua cláusula de compra tão elevada e seria uma boa opção para continuar connosco na próxima época.

Welder (-)

Bom espírito de grupo a avaliar pelos instagrams dos jogadores. De resto foi uma aposta completamente falhada, como os 0 minutos de utilização atestam.

Rojo (***)

Se houvesse um prémio de Most Improved Player, seria de caras para Rojo. No ano passado era um jogador demasiado impetuoso e agressivo, com falhas graves de posicionamento, com uma taxa de passes longos ridiculamente baixa e perdia muitas bolas quando avançava em posse. Este ano transfigurou-se. Um jogador impressionante. Intransponível no um contra um, imperial no jogo aéreo ofensivo e defensivo, muito concentrado. Na minha opinião o jogador mais underrated do campeonato. Uma época extraordinária. Seria muito bom que ficasse mais um ano.

Maurício (***)

Uma enorme surpresa pela positiva, atendendo ao facto de ter sido contratado a um clube da segunda divisão brasileira. Um guerreiro em campo, foi também um dos principais responsáveis pelo acerto defensivo da equipa.

Dier (*)

Teve várias oportunidades ao longo da época para jogar. Começou mal, parecendo muito nervoso nos primeiros jogos em que foi utilizado. No entanto, ao longo da época foi voltando a ser o jogador que conhecemos. Teve uma prova de fogo contra o Porto que foi inteiramente ganha, ficando na retina o golo que tirou dos pés de Jackson com um golpe de rins incrível. Atribuo-lhe * e não ** porque infelizmente não foi o ano de afirmação de um dos jogadores de maior potencial que temos no plantel. Apesar de ter gostado muito da época de Maurício, preferiria ver Dier a ser utilizado de forma mais regular.

Rúben Semedo (*)

Deu nas vistas contra a Fiorentina, mas acabou por não ser utilizado. Os casos em que esteve envolvido são, na minha opinião, menos graves do que se quis fazer passar. Há que ter paciência e apoiá-lo, pois tem imenso potencial.

domingo, 13 de abril de 2014

A loja dos mestres André e Cédric

O jogo de hoje foi, na minha opinião, um mais fracos que tivemos oportunidade de assistir em Alvalade. O golo madrugador, em vez de injetar confiança e tranquilidade, pareceu funcionar como um anestesiante que se traduziu numa das primeira partes mais chatas que me lembro de ver nos últimos tempos.

O golo, marcado antes de o ponteiro dos segundos dar uma volta completa, nasceu de uma excelente jogada entre Cédric e Carrillo, cabendo ao peruano um cruzamento que foi encontrar a cabeça de Slimani. O argelino cabeceou colocado e estava feito aquilo que parecia mais difícil.

Infelizmente, o Sporting pareceu pouco interessado em ir à procura do segundo. Trocava a bola lentamente, à espera que o Gil se esticasse um pouco mais no campo, mas... nada. O Gil, a perder, não arriscou um milímetro que fosse -- mantendo-se trancados no seu meio campo quando não tinham a bola, e jogando com 7 ou 8 jogadores atrás da linha da bola quando a tinham em seu poder. Foram um redondo zero de ambição. O meu coração palpita de felicidade quando penso que para o ano poderei ver mais duas equipas deste calibre a jogar em Alvalade, graças ao oportuno e celebrado alargamento para 18 clubes.

No resto da primeira parte, apenas escapou a este torpor o flanco direito do Sporting: Cédric e Carrillo estiveram muito bem, e tiveram alguns rasgos de genialidade que proporcionaram ao público alguns fantásticos momentos.

A segunda parte continuou na mesma toada da primeira. A equipa pareceu reagir apenas quando Leonardo Jardim decidiu colocar André Martins. Entrou muito bem o nº 8 do Sporting, que colocou uma intensidade que acabou por contagiar um pouco os seus companheiros. A partir daí o Sporting teve várias ocasiões de golo, com especial destaque para um grande remate de longe de Rojo que embateu com estrondo na barra. Rojo teve também um jogo seguríssimo e esteve bem nas poucas vezes que conduziu a bola, fazendo um outro passe longo com grande acerto. Eu sei que já o referi antes, mas estou mesmo a ficar fã do argentino.

O golo da tranquilidade acabaria por chegar já em tempo de descontos. Rui Patrício bateu o pontapé de baliza, após a única jogada do Gil que provocou alguns calafrios, Martins ganha de cabeça para Montero, que solta de imediato num passe a rasgar para a velocidade para Carrillo, que sacou da régua e esquadro para colocar a bola direitinha em Heldon, que apenas teve que encostar. Segunda assistência para golo de Carrillo num grande momento de futebol, que aproveitou uma das poucas situações em que apenas metade da equipa do Gil estava no seu meio-campo.


Foi a 5ª vitória consecutiva e a 8ª nos últimos 9 jogos, deixando o apuramento direto a apenas dois pontinhos de distância, assumindo que o Porto conquistará amanhã os três pontos em Braga. Para a semana temos uma deslocação a Belém, sem Cédric, que viu um amarelo que o colca de castigo na próxima jornada. Será que Esgaio terá a sua oportunidade para nos dar um cheirinho do que será 2014/15?

domingo, 6 de abril de 2014

Vitória tranquila com acabamentos de requinte

O Sporting conseguiu ontem em Paços de Ferreira uma vitória justa que foi, seguramente, a mais tranquila dos últimos meses para o campeonato.

A equipa fez por isso: entrou forte, e chegou ao golo com naturalidade. Já tinha ameaçado por Slimani e Mané, até que marcou na sequência de uma grande jogada que William Carvalho iniciou e concluiu com grande frieza, embelezada por um adorno de calcanhar de Slimani. Sérgio Oliveira também teve o seu papel no lance do golo: quando viu William soltar a bola em Slimani, alheou-se completamente da marcação que estava a fazer e permitiu ao médio sportinguista progredir para a área e voltar a receber a bola sem qualquer oposição.



O Paços tentou reagir e teve três boas oportunidades, mostrando um Bebé de remate fácil que fez questão em pôr à prova Rui Patrício. De facto Bebé parece merecer uma equipa de outro nível, que ajude definitivamente a libertá-lo do estigma de flop que lhe ficou colado após a transferência milionária para Manchester.

Pouco depois da meia-hora de jogo, Adrien bateu um canto da esquerda que encontrou Rojo completamente solto, que apenas teve que parar a bola e rematá-la para o fundo das redes. Pareciam estar lançadas as bases para um jogo tranquilo, como há muito o Sporting não tinha.

No resto da primeira parte e no princípio da segunda o Paços assumiu a iniciativa de jogo, mas a verdade é que não existiram situações de perigo. No entanto, a equipa da casa conseguiria reduzir para 1-2 através de um remate de ângulo apertado de Bebé, com algumas responsabilidades para Rui Patrício. No entanto, em abono do guarda-redes, é necessário dizer que o remate foi súbito, forte e existia um outro jogador do Paços que surgia ao primeiro poste e poderia fazer o desvio, pelo que se existem atenuantes para a reação tardia de Patrício.

Soube reagir bem o Sporting, que voltaria a repôr, doze minutos depois, uma vantagem tranquila no marcador, numa excelente jogada de contra-ataque iniciada com uma recuperação de bola de André Martins. O médio soltaria na esquerda para Slimani que esperou pela aproximação de Adrien para lhe pôr a bola mesmo a jeito para um remate de belo efeito. Cinco minutos depois o Paços ficaria reduzido a 10 por um 2º amarelo a Filipe Anunciação, terminando com as esperanças do Paços em conseguir conquistar pelo menos um ponto.

Foi no geral uma exibição bem conseguida, com muitos jogadores em bom nível. Destaque para o meio-campo, em que William, Adrien e André Martins estiveram muito bem, e para Slimani pelo imenso trabalho que dá aos defesas adversários e pelas duas assistências para golo. Maurício e Rojo voltaram a estar muito bem, especialmente o brasileiro, e Cédric esteve também muito bem defensivamente. Mané estava a fazer um bom jogo até ao momento em que se lesionou.

Desde a 13ª jornada, quando que o Sporting derrotou o Belenenses por 3-0, a equipa conseguiu apenas uma vitória por mais que um golo de diferença -- 3-1 ao Marítimo, em que o golo da tranquilidade surgiu apenas a quatro minutos do fim. A enorme sequência de vitórias à tangente vem, na prática, corroborar o que Leonardo Jardim disse no final do jogo: no princípio da época os adversários não respeitavam o Sporting como agora respeitam. Felizmente o Sporting soube adaptar-se às novas circunstâncias com distinção: já lá vão sete vitórias nos últimos oito jogos (com um interregno em Setúbal) e conseguiu assegurar o objetivo inicial da época a quatro jornadas do fim. O que vier agora será por acréscimo.

domingo, 30 de março de 2014

Deixem marcar o Montero

Comecemos por algo que já ultrapassou os limites do razoável. A confiança de um ponta-de-lança alimenta-se de golos. Montero não marca desde o jogo em Barcelos. Nos jogos seguintes não marcou, mas fez bons jogos, contribuindo de outras formas para o sucesso da equipa. Gradualmente a sua influência foi diminuindo, e com os golos que Slimani foi conseguindo, acabaria por ser relegado para o banco.

Contra o Olhanense, Montero marcou um golo perfeitamente legal, mas o fiscal-de-linha viu um fora-de-jogo que mais ninguém viu. Hoje aconteceu o mesmo. Em ambos os jogos o Sporting ganhou por 1-0, mas aquilo que poderiam ter sido vitórias tranquilas acabaram por se transformar em jogos de grande aflição para todos nós.

O problema de Montero é que os nossos adversários criaram uma narrativa de tal forma repetida até à exaustão, que os fiscais-de-linha se sentem quase obrigados a levantar a bandeirola em caso de dúvida, ou mesmo em casos em que não é suposto haver qualquer dúvida. É esta também uma luta que o Sporting tem que ter fora das 4 linhas. Quem nos representa tem que desmascarar no momento as mentiras que são ditas. Têm que ir preparados, saber que erros existiram ou não, desarmar as narrativas logo à nascença. Ainda na semana passada houve um paineleiro que falou em 5 golos de Montero em fora-de-jogo. Qualquer dia chegarão à conclusão que o Sporting ainda não marcou qualquer golo legal.

Mudo agora a agulha para Slimani: é inadmissível o que fez hoje. Se já é mau ter-se atirado para o chão no início do jogo em vez de tentar tirar o melhor proveito possível da jogada, é uma total irresponsabilidade fazê-lo uma segunda vez, arriscando pôr a equipa a jogar com menos um durante largos minutos. O próprio pareceu ter-se apercebido de imediato da asneira, pois levantou-se de imediato para correr atrás da bola, mas o mal estava feito. Tivemos sorte nesse erro do árbitro.

De resto, foi uma vitória justíssima. Na primeira parte só existiu uma equipa. O Sporting entrou fortíssimo no jogo, e criou grandes oportunidades bem cedo. Primeiro por Slimani, após um lançamento longo de William, que terminou na simulação do argelino, após perder demasiado tempo a controlar a bola. Depois num remate de Jefferson que Douglas defendeu para a frente, para uma zona onde infelizmente não estava nenhum jogador do Sporting para fazer a recarga.

O Guimarães conseguiu equilibrar o jogo no resto da primeira parte, mas foi sempre o Sporting a conseguir criar as melhores ocasiões, graças principalmente às arrancadas de Mané.

Ao intervalo, Leonardo Jardim lançou Montero, retirando o inconsequente Heldon. A segunda parte começou com o golo que daria a vitória ao Sporting. Cruzamento de Jefferson da direita, a bola bate nas costas de um jogador do Guimarães, indo na direção de Rojo, que rematou à meia-volta sem pedir licença a ninguém. O remate volta a ressaltar num defesa do Guimarães e acaba por entrar na baliza. Um golo feliz que, no entanto, só pecou por tardio.


Foto: Record

Imediatamente a seguir, Rojo resolve pessimamente um lance na área, que daria a primeira grande ocasião de perigo do Guimarães, que acabaria por ser resolvida por Maurício. Rojo esteve bem no resto do jogo, tendo conseguido alguns desarmes fundamentais, um dos quais seria transformado incompreensivelmente em falta à entrada da área e em cartão amarelo pelo árbitro.

Até aos 65 minutos o Sporting teve várias oportunidades, entre as quais esteve o golo anulado a Montero, a cruzamento de Jefferson. Pouco depois, Mané fez um grande centro da direita, Slimani amortece ao 2º poste de cabeça para Capel, que se estica para finalizar mas acaba por esbarrar com Douglas, que se lançou corajosamente à bola.

A partir daí a iniciativa de jogo coube principalmente aos visitantes, que dispuseram de boas ocasiões para marcar, algumas das quais me causaram enormes calafrios na espinha. O Sporting também poderia ter resolvido o jogo em alguns lances de contra-ataque, que acabaram invariavelmente perdidos por más decisões tomadas por quem conduzia a bola.

Mas a verdade é que a vitória é justíssima e assenta bem ao Sporting, que acumula mais três importantes pontos na luta pelo 2º lugar. Gostei principalmente das exibições de Rojo, Mané, e Jefferson. William voltou a mostrar momentos de enorme classe, mas pareceu-me algo hesitante em intervir defensivamente em algumas situações que lhe cabiam a si resolver.

Podemos agora ficar confortavelmente à espera do jogo do Porto de amanhã, sabendo que transpusemos um difícil adversário, que vendeu caríssimas as derrotas na Luz e no Dragão, também por 1-0. E já só faltam cinco jogos.


Foto: Record

P.S.: Iniciativa muito interessante a de se colocarem os nomes de adeptos nas camisolas dos jogadores. Se passar a ser uma tradição anual, pode vir a dar campanhas de marketing altamente concorridas. Quem não quereria ter o seu nome estampado nas costas de jogadores destes?

segunda-feira, 17 de março de 2014

A improvável noite em que o karma meteu férias

Foi uma vitória conseguida da forma mais improvável possível, em que existem dois lances paradigmáticos: o golo que definiu o resultado foi conseguido na sequência de um lance em fora-de-jogo de André Martins, que aproveitaria a posição irregular para fazer uma assistência milimétrica para a cabeça de Slimani, que não perdoou; e, perto do fim, Patrício comete um erro enorme que deixou Jackson com o golo nos pés, mas Dier conseguiu encontrar os rins necessários para se virar, esticar a perna, e impedir o empate que já parecia inevitável. 

Um erro de arbitragem e uma falha tão absurda quanto inesperada do nosso guarda-redes, que este ano já nos custaram demasiados pontos para o campeonato e uma eliminação da Taça de Portugal, desta vez não decidiram um resultado contra o suspeito do costume e penalizaram a equipa que mais vezes tem beneficiado deste tipo de situações.

Podemos alegar inclusivamente que o Porto deixou-se cair numa espiral nervosa após o golo, não voltando a ter oportunidades de perigo (com exceção da que já referi, que Dier salvou) e mostrando vários jogadores de cabeça perdida, como Fernando. Os erros de arbitragem podem ter este efeito no rumo de um jogo, e o Sporting sabe-o melhor que ninguém. É caso para perguntar aos portistas: dói, não dói?

Apesar de um início de jogo forte, com grande pressão em todo o campo, o Sporting não foi capaz de criar grandes oportunidades de golo. O Porto, a partir dos 15 minutos, equilibrou a partida e, através de Quaresma, conseguiu ter os dois maiores lances de perigo da primeira parte: primeiro, um cruzamento de letra que encontrou Varela, que rematou para grande defesa de Patrício; depois, um remate em arco da quina da área que embateu com estrondo na barra. Jackson, perto do final da primeira parte ainda teria uma grande ocasião num cruzamento, mas cabeceou em desequilíbrio (que não me parece ter sido causado por Cédric, que só tocou em Jackson depois deste cabecear).

É preciso reconhecer que o Sporting teve sorte em ir para o intervalo com o jogo empatado. Não se pode dizer que o Porto estivesse a dominar, mas teve indiscutivelmente mais arte para criar perigo, e fez mais que o Sporting para justificar o golo.

Na segunda parte, o Sporting voltou a entrar muito forte, ameaçando a baliza de Helton por várias vezes. Primeiro por Dier, de livre, depois por Mané num desvio ao primeiro poste na sequência de um canto, e por Slimani na recarga à defesa de Helton. Pouco depois o Sporting marcaria o único golo do jogo.


A partir daí o Sporting baixou no terreno, de forma a reduzir os espaços no seu meio-campo, e para tirar partido das muitas recuperações de bola que ia fazendo para iniciar jogadas de contra-ataque. Existiram três ocasiões de superioridade numérica que podiam (e deviam) ter causado mais perigo, mas infelizmente o Sporting confirmou algumas deficiências no aproveitamento deste tipo de situações, que já havia demonstrado por várias vezes ao longo da época.

No entanto, do ponto de vista defensivo a equipa esteve extremamente concentrada, com um espírito combativo que quebrou praticamente todas as iniciativas portistas para se aproximarem da área de Rui Patrício. Não só o Porto parecia gradualmente perder o controlo emocional, como também pareceu quebrar fisicamente, acabando por ser pouco mais que inofensiva durante toda a segunda parte.

Em termos individuais, há dois destaques óbvios: William Carvalho, que fez um jogo monstruoso, e Slimani que mais uma vez marcou um golo que valeu pontos. Mas genericamente toda a equipa esteve muito bem, sendo justo referir as também excelentes exibições de Dier e Rojo, que estiveram intransponíveis.

Custa-me escrever que foi uma vitória importantíssima, porque não me consigo desligar da forma como foi conseguida, mas a verdade é que estes três pontos repõem um distanciamento mais que justo em relação ao Porto, que poderá vir a ser decisivo na luta pelo segundo lugar. Nada está decidido, mas o panorama está agora bem mais agradável.

domingo, 2 de março de 2014

A arte de saber contrariar o destino

Apesar da noite de mau tempo que tornava o conforto do sofá mais convidativo que uma viagem até ao estádio, cuja cobertura não era suficiente para evitar que as persistentes rajadas de vento arrastassem a chuva para cima de quem estava nas bancadas, foi uma moldura humana muito interessante que marcou presença no jogo de ontem com o Braga.

No entanto, o mau estado do tempo rapidamente deixou de ser o fator mais desagradável da noite, quando algumas das pessoas presentes decidiram não respeitar o minuto de silêncio em memória de Mário Coluna. Não compreendo este desrespeito perante uma figura que engrandeceu o futebol português, mesmo sabendo que o objetivo era provocar o clube que representou. Ao tomarem atitudes destas não só menorizam o Sporting, como estão a dar demasiada importância ao clube que era alvo da provocação.

O Sporting entrou bem no jogo, muito pressionante e conseguindo que a bola rondasse a baliza de Eduardo com bastante frequência, tendo uma oportunidade de golo flagrante quando Carrillo, depois de fazer gato-sapato de um defesa do Braga, coloca a bola nos pés de Slimani, que falharia o pontapé de forma inacreditável. Curiosamente, no minuto a seguir Carrillo tem uma abordagem mais apática a um lance e recebe os primeiros protestos vindos da bancada. Não se justificava esta falta de paciência perante o melhor jogador do Sporting até à altura, e que continua a ser quem melhor consegue desencantar lances de perigo no um contra um.

A integração de Gerson Magrão no onze não fez esquecer Adrien, mas foi melhor do que esperava. Magrão esforçou-se muito defensivamente, sendo dos primeiros a pressionar a saída de bola do adversário, mas ofensivamente parecia um corpo estranho. Creio que o rendimento ofensivo de Jefferson e Carrillo emperrou muito devido à falta de rotinas de Magrão, que não aproveitava as desmarcações e linhas de passe conseguidas pelos seus companheiros na esquerda, e que acabaria por conseguir os seus melhores momentos em situações em que optou por conduzir a bola individualmente no sentido da baliza adversária.

O Braga, a partir dos 15' conseguiu equilibrar o jogo e tentou explorar o contra-ataque, sem no entanto conseguir criar perigo, muito por culpa de um jogo fantástico de Rojo, que se revelou intransponível, e de mais uma exibição portentosa de William Carvalho, que recuperou inúmeras bolas.

Aos 22' Mané enfiou a bola na baliza, mas Artur Soares Dia já tinha apitado uma falta que mais ninguém viu.

Acabou por ser de forma muito injusta e cruel que o Braga inauguraria o marcador. Um remate de Rafa bate em Cédric, que fez com que a bola se desviasse na direção do poste, e na ressaca a bola bateu nos pés de Rui Patrício, que recuava na direção da baliza após uma saída incompleta, acabando por entrar na baliza. Depois do auto-golo de Maurício uma semana antes, mais uma vez a má sorte colocava o Sporting em desvantagem, sem que o adversário tivesse feito o suficiente para o merecer.

A primeira parte não acabaria sem que o Sporting dispusesse de mais uma grande oportunidade de golo na sequência de um canto, em que um remate de Slimani, primeiro, e de Maurício, logo a seguir, fossem desviados na linha de golo por um defesa do Braga.

No princípio da segunda parte o Sporting não conseguiu ser dominador nem criar grandes ocasiões de perigo. Leonardo Jardim decidiu mexer na equipa e tirou André Martins e Carrilo para fazer entrar Heldon e Capel, com Mané a deslocar-se para o centro. As alterações espevitaram mais a equipa, apesar de a bola continuar afastada da baliza do Braga. No entanto, foi precisamente através de uma investida de Mané a partir do centro que o Sporting obteve um penalty indiscutível que permitiu a Jefferson igualar a partida e exorcizar um jejum de golos que já durava desde a época passada.

O empate empolgou o público e a equipa, que poucos minutos depois conseguiria chegar à vitória com um remate fulminante de Slimani, que colocou o estádio em delírio. Apesar de algum excesso de voluntarismo que por vezes acaba por atrapalhar a equipa, o que é facto é que o argelino vai acumulando golos que são decisivos e justifica, no mínimo, que se considere a preparação de um modelo de jogo diferente de forma a permitir a sua integração no onze inicial.


Estava concretizada mais a 6ª reviravolta da época, após duas com o Arouca (de 0-1 para 5-1 na 1ª jornada e de 0-1 para 2-1 na 16ª), Marítimo (de 1-2 para 3-2), Penafiel (de 0-1 para 3-1) e Rio Ave (de 0-1 para 2-1). Se juntarmos as vitórias ao cair do pano em Guimarães e Braga, e a recuperação para a taça com o Benfica de 1-3 para 3-3, é mais que evidente que temos equipa com uma força de vontade tremenda para lutar contra todas as adversidades.

Até final, de registar uma tarja na curva a dizer "Tudo de volta à normalidade, nós a lutar pelo título e vocês pela manutenção" e uma grande defesa de Patrício a segurar a vitória.

Mais uma vez, o Sporting vence sem ter conseguido um jogo de grande nível, mas voltou a fazer o suficiente para merecer a vitória e continuar a intrometer-se numa luta que, vezes sem conta, os comentadores encartados declararam não ser a nossa. Também aqui o Sporting tem tido a arte de saber contrariar o destino.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O general inverno perdeu a primeira batalha

Assim que começou a transmissão da Sport TV, temi o pior: chuva muito intensa e um terreno num estado lastimável, impróprio para futebol mas bastante apropriado para causar lesões. Já se estava mesmo a ver o que iria acontecer: impossibilidade total de jogar a bola pelo chão, que automaticamente reduz drasticamente as diferenças entre duas equipas de valias bem distintas.

Mas também deu para ver a onda verde em grande força. É justo começar pelos bravos leões que se espalharam por todas as bancadas, apesar do preço dos bilhetes, do temporal e da ausência de cobertura da maior parte das bancadas. A vitória começou neles.

Foi o Arouca que se adaptou melhor a estas condições, sendo uma equipa bem mais perigosa nos primeiros minutos. Nesse período, o Sporting esteve em cima do jogo apenas durante cerca de 5 minutos, que curiosamente terminaram no momento do golo do Arouca. Um lance mal resolvido por Maurício, que terminou num cruzamento que atravessou toda a área e terminou nos pés de um jogador do Arouca totalmente abandonado pela defesa e meio-campo do Sporting.

O Sporting teve que ir atrás do resultado, procurando ainda jogar pelo chão, até conseguindo alguns lances interessantes, mas foi numa bola parada que conseguiu o empate, por Rojo.


A segunda parte transformou-se numa batalha essencialmente aérea, feita quase exclusivamente de passes picados e bolas longas. Mas a verdade é que o Sporting dominou completamente o jogo a partir do intervalo, talvez por uma quebra física do adversário, que jogou muito pressionante nos primeiros 45 minutos.

Aos 62 minutos, um segundo amarelo muito forçado a Tinoco tornou o cenário mais agradável para o Sporting, mas Rojo (certamente só para contrariar aquilo que escrevi sobre ele horas antes num post sobre o balanço da primeira volta) fez uma falta escusada 5 minutos depois e viu também o segundo amarelo, também exagerado. Cosme Machado pelo menos foi coerente ao longo de todo o jogo, o que não nada, nada mau nos dias que correm. Tirando esse rigor exagerado nas duas expulsões, pareceu-me uma excelente arbitragem.

Slimani resolveu o jogo alguns minutos depois com um torpedo que acabaria por afundar o Arouca no terreno pantanoso em que se tinha transformado o relvado. Mais um jogo em que o argelino valeu pontos. Marítimo, Guimarães, Nacional (este golo acabou por não valer pontos, como todos sabemos) e agora Arouca, em apenas 206 minutos de jogo. Notável!

Não vou entrar em destaques individuais. Foram 14 leões que batalharam em condições completamente adversas, alguns deles cerrando os dentes e indo à luta mesmo em visíveis limitações físicas. Encheram de orgulho todos os sportinguistas.

Para terminar, duas notas. A primeira é relativa à transmissão da SportTV, que insistia em dar 2 e 3 repetições de lances pouco importantes, esquecendo-se que entretanto o jogo já estava a decorrer. Eu sei que isto é uma queixa ridícula de alguém que ficou sentado em casa a ver o jogo enquanto outros tomaram o duche das suas vidas estando a apoiar a equipa presencialmente no estádio, mas fica o reparo.

A segunda tem a ver com a excelente flash interview de Adrien e Leonardo Jardim. Adrien, fazendo referência a mais um teste colocado pela comunicação social, e Jardim nitidamente orgulhoso da equipa, dos jogadores e pela vitória acabada de conseguir. Fica aqui o vídeo que gravei com o telemóvel para quem não teve oportunidade de ver. É um pouco longo mas vale a pena. Desculpem também a qualidade do som, mas a estas horas não posso pôr o volume da televisão muito alto...