Há pouco menos de três anos, quando se discutia quais os jogadores que Paulo Bento deveria levar para o mundial do Brasil, Rui Pedro Braz criou uma das mais extraordinárias teorias da história do comentário desportivo português, ao dizer que Adrien Silva - que, nessa época, foi um dos melhores jogadores do campeonato - estaria sempre atrás de Rúben Amorim nas hierarquia de escolha do selecionador, apesar de o médio benfiquista não ser titular no seu clube.
Para Braz, o facto de Rúben Amorim ser suplente de Enzo dava-lhe um estatuto que Adrien, na sua opinião, não tinha:
Ao que parece, Paulo Bento estava de acordo com esta teoria e decidiu convocar Rúben Amorim, deixando Adrien de fora - apenas uma de várias decisões absurdas que acabaram por ser uma preciosa ajuda para o desastre que foi a nossa participação nesse torneio.
Três anos depois, em 2017, parece que vários comentadores estão a recuperar essa linha de raciocínio. Não tão radical como o caso de Rúben Amorim, é certo, mas também a desvalorizar o nível de utilização de um jogador face ao nível do clube a que pertence. Aqui ficam dois exemplos:
Já o escrevi aquando da convocatória da passada quinta-feira: compreendo a convocatória de Renato Sanches e André Gomes - apesar da sua escassa utilização (no caso de Renato) e mau momento de forma (no caso de André)- , mas era só o que faltava que o facto de um jogador pertencer aos quadros de um colosso europeu lhe abra automaticamente as portas da convocatória.
Uma coisa é falarmos de um Cristiano Ronaldo ou de um Pepe, ainda na posse das suas melhores faculdades técnicas e atléticas, jogadores consagrados com um grande historial na seleção. Outra é de jogadores como Renato Sanches e André Gomes (ou mesmo João Mário ou Raphael Guerreiro, para dar outros exemplos) que, apesar de jogarem em grandes clubes de ligas muito mais competitivas do que a nossa, não fizeram ainda o suficiente para justificarem um estatuto idêntico.
Se o critério fosse esse, então por que razão é que Eduardo, suplente de Courtois, não foi convocado? Se o critério fosse esse, então Adrien nunca poderia ambicionar ser titular na seleção enquanto André Gomes estivesse disponível - e vimos todos como correu isso no Euro 2016. Se Secretário fosse hoje jogador do Real Madrid, isso dar-lhe-ia acesso automático ao lote dos convocados?
São legítimas as dúvidas sobre a convocatória de um jogador sem ritmo de jogo para um duplo compromisso. O jornal O Jogo publicou um gráfico com a utilização dos convocados de Fernando Santos desde a última partida da seleção:
Como se pode ver, a diferença de utilização entre Renato Sanches e a generalidade dos outros jogadores é imensa. São 270 minutos de competição em 4 meses. Certamente que não serão um par de treinos e 180 minutos de competição que o farão recuperar a sua melhor forma. Numa convocatória para uma fase final seria diferente: com várias semanas de treino e vários jogos particulares, isso já seria perfeitamente possível.
Existem argumentos válidos para justificar a convocatória de Renato Sanches, mas o clube em que joga não pode servir de escapatória para qualquer tipo de situação.
Na antevisão do Benfica - Porto da última sexta-feira, falava-se na dificuldade que tanto o Benfica de Rui Vitória como Jonas têm revelado nos jogos contra adversários de maior nível. Eis o que Jorge Baptista disse sobre o assunto:
Segundo o comentador da SIC Notícias, as apreciações que se fazem sobre os maus resultados de Rui Vitória nos dérbis e clássicos são injustas porque Jorge Jesus, na sua primeira temporada como treinador do Benfica, também não ganhou quase nenhum jogo a um grande. Raramente, e é se ganhou. No campeonato não, pelo menos.
Recordemos os resultados do Benfica contra adversários mais complicados em 2009/10:
Braga 2-0 Benfica (D)
Sporting 0-0 Benfica (E)
Benfica 1-0 Porto (V)
Sporting 1-4 Benfica (V) (Taça da Liga)
Benfica 3-0 Porto (V) (Taça da Liga)
Benfica 1-0 Braga (V)
Benfica 2-0 Sporting (V)
Porto 3-1 Benfica (D)
Incluí o Braga nestas contas porque foi o 2º classificado nessa época.
Portanto, em 8 jogos, Jorge Jesus registou na sua primeira época no Benfica um total de 5 vitórias, 1 empate e 2 derrotas contra os adversários mais complicados. Rui Vitória, recorde-se, tem 5 derrotas em 5 jogos. Ou 1 vitória e 5 derrotas em 6 jogos, se quisermos incluir o Braga nestas contas. Não é exatamente a mesma coisa...
Amigos, vem aí o 1º grande teste da temporada para o Sporting. Então e a Supertaça?, perguntam vocês. É uma questão pertinente, mas em vez de vos responder diretamente prefiro remeter as explicações para Ribeiro Cristóvão e Jorge Baptista.
Portanto, o jogo com o Benfica para a Supertaça não foi um grande teste para o Sporting porque:
O Sporting só esteve na Supertaça porque Marco Silva ganhou a Taça;
Foi um jogo no princípio da temporada e ainda não havia ritmo nenhum.
Podemos presumir então que se o treinador fosse Marco Silva o teste já seria a sério? Por acaso o sistema de jogo que o Sporting apresentou já não teve nada a ver com o de Marco Silva, mas suponho que isso seja um detalhe sem importância. E as 30.000 pessoas que lotaram o Estádio do Algarve pareciam de facto visivelmente incomodadas com a falta de ritmo... foram lá apenas para beber umas cervejas, porque o jogo era a feijões...
E ficámos também a saber que se o Sporting perder na Luz as coisas ficarão complicadas para o Sporting, isto apesar até ficarmos (provisoriamente) à frente do Benfica. Já o que poderá acontecer ao Benfica se perder no domingo permanece um mistério.
... oh, atenção, temos um empate no 1º lugar da votação:
Jorge Baptista, pelas muito profissionais declarações feitas momentos antes do jogo de domingo...
via canal ContraAMentiraDoFutebolzinhoPortuguês
... e Miguel Amaro, pelo magnífico texto que escreveu na ressaca da vitória do Sporting! (nota: o destaque a negrito em determinadas partes do texto é da minha responsabilidade).
O CÉREBRO GANHOU CONTRA O MEDO No post anterior (este) antecipei que JJ ia ganhar Supertaça. O meu tiro era certeiro, claro, pois foi baseado nas declarações do treinador do Sporting, ou seja, ele ganharia sempre.
Venceu o Sporting mas não me parece uma vitória de um treinador cerebral. Ganhou porque foi melhor equipa, jogou mais, entrou para vencer. Isto frente a um adversário mais fraco, individual, coletivamente e com muito menos atitude, vontade de vencer, chamem-lhe o que quiserem, e era aqui que queria chegar pois o jogo revelou que JJ se enganou nas declarações anteriores à Supertaça.
O Benfica não está igual ao do seu tempo, como Rui Vitória mostrou em termos táticos. No entanto, revelou algo do seu antigo treinador, algo que o Benfica de JJ mostrava quando defrontava adversários mais poderosos: medo. Nesse aspeto, infelizmente para os adeptos encarnados, as águias não mudaram, apesar de terem trocado de treinador.
De resto, fiquei também desiludido com JJ no final do jogo. Pensei que o mestre da tática nos ia explicar a todos que o golo do Sporting nascera de um lance imaginado por si. O disparo de Carrillo a desviar em Teo pensei que fosse uma jogada de laboratório preparada durante a semana. Afinal não foi, a jogada foi mesmo fortuita.
Além de o Sporting ter sido melhor e de ter merecido vencer, ficam duas notas negativas neste jogo, ambas por parte da equipa de arbitragem. O auxiliar anulou um golo limpo aos leões - algo que JJ ficou a saber logo de seguida e "atirou à cara" do 4º árbitro - e Jorge Sousa não considerou penálti uma falta clara de Carrillo sobre Gaitán. Imaginem, estimados leitores, o que seria com a situação ao contrário: o Benfica a vencer por 1-0 e o árbitro não assinalar uma grande penalidade clara a favor do Sporting. Nem quero imaginar...
Como aperitivo para a época a Supertaça foi um bom jogo. Provou o anunciado por JJ: a Liga vai mesmo ter três candidatos. Concordo com esse aspeto mas discordo no seu mote: o Sporting é candidato ao título porque tem boa equipa. Juntou à base da época passada craques como Teo, Ruiz e Aquilani e ainda tem João Pereira no lugar de Cédric, por exemplo. Ou seja, os leões estão com muitas soluções e assim é mais fácil lutar pelo título mas estaria na corrida fosse Leonardo Jardim, Marco Silva ou Manuel Machado o treinador, naturalmente é candidato com JJ.
Por último, uma pequena nota. JJ guardou uma substituição para os últimos 30 segundos. Compreendo estas manobras quando uma equipa mais pequena está a conseguir um resultado positivo contra outra maior. Quando a equipa mais forte, a que tem melhores jogadores, está a vencer e até a dominar já não consigo entender. Ou melhor, não entenderia se fosse Guardiola ou outro dos super treinadores do mundo a fazer uma substituição assim. Sendo feita por um técnico que passou quase 20 anos em clubes pequenos até consigo entender. Há coisas que nem o tempo mudam e a essência é uma delas.
P.S. Antes que apareçam os comentários do costume, a chamarem-me lampião com azia ou algo do género, deixo aqui um aviso a quem não me conhece. Não sou adepto de nenhum dos três grandes, por isso, era-me completamente indiferente o vencedor da Supertaça. Na época passada gostei da vitória do Sporting na Taça de Portugal pois os leões eram treinados por Marco Silva. Eu, como outros estorilistas, sou "Marcosilvista" e fico satisfeito com os seus triunfos. E por ser fã do antigo treinador do Estoril considero que o Benfica cometeu um erro na escolha do técnico para esta época, embora também simpatize com Rui Vitória. O tempo nos mostrará se os encarnados não ficavam mais fortes com o ex-técnico do Sporting. Não porque seria uma vingança para com o rival mas por Marco Silva ser melhor treinador do que os dois que disputaram esta Supertaça.
De Jorge Baptista não há muito a dizer: falamos de um comentador de quem se podem esperar as maiores cambalhotas possíveis no discurso. Relembro, por exemplo, a forma como apelou à chamada de Rúben Neves à seleção, usando de forma totalmente oposta o argumento a que recorrera quatro meses antes para defender a exclusão de Adrien Silva do Mundial 2014. (LINK).
Pois bem, Jorge: ganhámos, vibrámos (será assim um pecado tão grande celebrar um título e uma vitória sobre o rival de sempre?), mas euforias como se tivéssemos ganho a Champions? Eu pessoalmente não tive conhecimento de quaisquer festejos no Marquês nem de nenhuma massa humana a deslocar-se ao estádio para receber a equipa e o novo troféu. Os sportinguistas comportaram-se como se comportariam os benfiquistas - agora mais habituados a conquistas de títulos - se a vitória tivesse caído para o outro lado.
Por outro lado, já não se pode dizer que Jorge Baptista se esteja a comportar da forma que a sua posição deveria exigir, ao utilizar uma linguagem rasteira e insultuosa para com todos os sportinguistas. Devia ter vergonha na cara.
Quanto a Miguel Amaro, acho graça que diga com tanta certeza que Marco Silva seja assim tão melhor treinador que Jorge Jesus. É que até ver os onzes de que um e outro dispuseram não são assim tão diferentes: Cédric é melhor que João Pereira (na minha opinião, claro), Naldo ainda não demonstrou ser melhor que Ewerton, Nani é Nani e Bryan Ruiz, sendo evidentemente um jogador de enorme classe, nunca conseguiu na sua carreira atingir o melhor patamar competitivo do português, e Teo ainda não revelou as qualidades que o levaram a ser contratado. E ainda há esse pequenito pormenor da lesão de William Carvalho.
Mais: Jorge Jesus tem pouco mais que um mês de trabalho - e com grande parte do plantel a chegar já com a pré-época em andamento. Num período de tempo muito reduzido, é seguro dizermos que Jesus conseguiu pôr a equipa a fazer coisas que o Sporting de Marco Silva nunca conseguiu ao longo de toda uma época, mas se quisermos fazer comparações mais justas talvez seja sensato esperar mais uns meses.
Se Miguel Amaro, jornalista, é assim tão Marcosilvista ao ponto de desejar de forma tão transparente as derrotas do Sporting e de Jorge Jesus (o que nem é compreensível em relação ao treinador, que nada teve a ver com o processo de despedimento de Marco Silva), se calhar é melhor abster-se de comentar direta ou indiretamente os resultados do Sporting. Porque não dedicar-se mais ao campeonato grego? Talvez lhe faça melhor à saúde. Mas o essencial em tudo isto é que Miguel Amaro deveria saber que é indiferente ser-se parcial por ser benfiquista, portista ou sportinguista, ou por ser marcosilvista ou jorgejesusista. Jornalista não deve ser parcial, ponto. E muito menos deixar que essa parcialidade afete de forma tão visível o seu trabalho.
... mas não será este o caso, certamente. Ladies and gentlement, peço o vosso aplauso para Jorge Baptista:
Com óculos (maio de 2014)
Adrien? Desde quando é que algum jogador pode ambicionar ser chamado à seleção só porque faz uma boa temporada? Com todo o respeito pelo Carcavelinhos.
Jorge Baptista disse isto com todo o respeito pelo Carcavelinhos, só não sei se foi com todo o respeito pelo Sporting e por Adrien. Adiante.
Sem óculos (setembro de 2014)
Rúben Neves? Começou o campeonato a jogar muitíssimo bem! Como é que não entra na convocatória para Albânia?