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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Os derrotados de 2020/21

O rescaldo desta tão desejada conquista do campeonato não ficaria completo destacando apenas os responsáveis pelo sucesso: a história do título também é explicada em parte pelos responsáveis pelo não insucesso, protagonistas que, seja por natural obrigação (pelo cargo que ocupam) ou por indisfarçável desejo (apesar do cargo que ocupam), fizeram tudo o que podiam para impedir este desfecho e, ao contrário do que tem sido costume, falharam.

O futebol português tem a particularidade de estar carregada de figuras para quem não existe limites de tabuleiros onde se pode jogar. Qualquer questão, de natureza pessoal ou profissional, desportiva ou não desportiva, é utilizada desde que isso possa aproximar um centímetro que seja da sua meta. E não faltaram tabuleiros originais onde se jogou em 2020/21...

Aqui ficam os principais, por ordem crescente de relevo e/ou esforço.


7º - António Salvador

Esperneou muito quando o Sporting foi buscar Rúben Amorim, mas desconfio que, no seu íntimo, se riu da jogada de mestre que pensava ter aplicado ao único rival que existe (apenas) na sua cabeça. Nunca perdeu uma oportunidade de gozar o prato e foi metendo na comunicação social todos os detalhes da operação (IVA incluído) e - neste caso com razão - das dificuldades que o Sporting teve em cumprir o acordado.

Esperneou também na venda de Paulinho, e aí acredito que lhe tenha custado mais. O Braga estava na luta por vários objetivos e não era bom, desportivamente, prescindir de uma das suas principais figuras. Salvador fez o seu papel e espremeu o Sporting o mais que pôde, conseguindo um negócio financeiramente muito bom para o seu clube.

As vitórias na imprensa ficaram-se por aí. De resto, a época foi um pesadelo para o nosso querido trolha.

Ficou furioso quando o Braga perdeu em Alvalade. Mais furioso ficou ao ser derrotado na final da Taça da Liga. Mas o ponto mais baixo terá sido quando teve de assistir, a partir da tribuna do estádio de que é inquilino, ao momento mais determinante da conquista do campeonato. Como de costume, reagiu como uma criança frustrada - até "valeu" divulgar fotografias do lixo deixado no balneário pelo Sporting - e a sua equipa entrou em colapso a partir daí, comprovando que a motivação de presidente e restante organização provém quase exclusivamente dos confrontos com o Sporting.

A verdade é que, ao descobrir Amorim e ao aceitar negociá-lo, o presidente braguista acabou por ser, de forma indireta, um dos obreiros deste título - e o melhor de tudo é que Salvador tem plena consciência disso. Não deve estar a passar dias fáceis.


6º Jorge Jesus

Depois de uma passagem de tremendo sucesso no Brasil, voltou para Portugal pela porta grande para relançar a carreira europeia e servir as ambições eleitorais de Vieira. Esquecidos os conflitos do período quente de 2015/16, o retomar da parceria entre presidente e treinador, suportada por um investimento inédito no reforço do plantel, deixava antever um passeio a nível interno e a reafirmação do clube a nível europeu.

Jesus, no seu estilo tão próprio, não desiludiu à chegada: aterrou em Tires com uma cobertura mediática ao nível de uma visita do Papa (o de Roma), foi apresentado no Seixal com toda a pompa e circunstância ao lado das provas das suas façanhas - finais europeias perdidas incluídas - e com um discurso 50% mais ambicioso do que o que teve em Alvalade em 2015. O Benfica não ia jogar o dobro, ia jogar o triplo e arrasar a competição.

O descalabro às mãos do PAOK foi simultaneamente prenúncio e catalisador de uma realidade que ficaria distante das promessas. Vieira foi forçado a vender o esteio da defesa para compensar um orçamento totalmente dependente do apuramento para a Champions, a estrutura da equipa abanou e Jesus não foi incapaz de encontrar soluções. A equipa que ia arrasar viu-se fora das contas do campeonato quando ainda havia metade dos jogos para disputar, e não deve ter sido fácil para o ego de Jesus ver Amorim alcançar à primeira no Sporting aquilo que ele próprio não conseguiu em três tentativas.

A responsabilidade do fracasso de 2020/21 não terá sido toda de Jesus, mas isso é tema de outro âmbito que não é para aqui chamado. Ainda que, verdade seja dita, o principal objetivo aos olhos de quem o contratou tenha sido alcançado: Vieira foi reeleito para mais um mandato de quatro anos.


5º: As viúvas

Dizem-se sportinguistas, mas não são. Alguns até poderão ter cartão de sócio com quotas pagas, mas não com a intenção de ajudar o clube a ser maior: fazem-no apenas com o objetivo de serem uma força de bloqueio e de, um dia, poderem consumar a sua vingança. Até lá, vão ocupando o tempo a insultar, perseguir e ameaçar adeptos sportinguistas que se atrevem a ter opiniões diferentes das suas, e a lançar periodicamente "bombas" que, invariavelmente, ficam por detonar. Fazem exatamente aquilo que apontavam a outros há uns anos. Em caso de dúvida, podem facilmente ser identificados pela intensa azia que mostram a seguir a qualquer sucesso do Sporting e pelo sentimento de culpa que tentam colocar nos sportinguistas que não seguem o seu triste exemplo.

Querer o melhor para o Sporting e celebrar os sucessos do Sporting não implica que se goste da direção atual nem que não se reconheça o que de bom foi feito pela direção anterior. Mas há que seguir em frente porque as direções e os presidentes passam, e o clube continuará sempre o seu caminho com maiores ou menores dificuldades. Há muitos sportinguistas que votarão numa alternativa quando a altura chegar, mas que não deixam de desejar o melhor quando uma equipa nossa entra em competição - independentemente da modalidade ou de quem criou a secção, independentemente de quem contratou jogador X ou Y. É ver o exemplo das claques, que continuaram a apoiar as equipas sempre que possível, apesar de a sua situação ainda estar por resolver.

Nem imagino o cabeção com que estarão as viúvas nesta altura. Arranjem outro interesse na vida, apoiem outro clube, mas deixem o Sporting em paz. Como podem ver pelo que se passou esta época, o Sporting não precisa de vocês.


4º Pinto da Costa

Tem muitos anos disto, títulos como ninguém, mas desta vez foi devidamente castigado pelo recurso à bazófia quando afirmou, em vésperas de deslocação do Sporting a Braga, que o Porto seria campeão em condições normais. Só ele saberá realmente o que queria dizer com "normal", mas a verdade é que a interpretação mais consensual entre os sportinguistas se confirmou de imediato: seguiram-se duas arbitragens que fizeram os possíveis e os impossíveis para tirar pontos ao Sporting.

Para o Porto, foi mais uma época "contra tudo e contra todos", apesar de a quantidade de decisões de arbitragem a seu favor ter atingido proporções absurdas, apesar de terem beneficiado de um penálti a favor a cada 180 minutos, apesar da tolerância quase inesgotável para com os acessos de fúria de Conceição e outros elementos do staff após resultados negativos, apesar da rábula que criaram com a Unilabs para retirarem de campo Nuno Mendes e Sporar da meia-final da Taça da Liga, apesar dos números que Luís Godinho, Rui Costa, Fábio Veríssimo, Soares Dias, Manuel Oliveira e outros fizeram em jogos do Sporting. Noção precisa-se.

Para a história, fica também o pedido de Pinto da Costa para ter o mesmo tratamento dado ao Sporting. Considerando o historial dos últimos 40 anos no futebol português, é melhor ter cuidado com aquilo que deseja.


3º Os amigos do apito

A chegada do VAR limitou-os mas, com o tempo, foram adaptando os seus métodos.

Os mais habilidosos sabem como fazê-lo sem prejudicar a nota, decidindo para um lado ou para o outro no limite do critério. O melhor exemplo da temporada foi a decisão de Soares Dias mostrar o 2º amarelo a Gonçalo Inácio em Braga aos 18' por uma falta muito menos grave do que as que deveriam ter valido um 2º amarelo a Gilberto em Alvalade ou a Pepe na Luz. Como se explica que o mesmo árbitro tenha decidido desta forma, considerando que se tratavam de três jogos de importância capital?

Os menos habilidosos são mais descarados: Manuel Oliveira e Luís Ferreira tiveram, no Sporting - Nacional, a arbitragem mais escandalosa desde que há VAR em Portugal, fechando os olhos a 3 penáltis e 2 expulsões como o resultado ainda a zeros; Fábio Veríssimo disfarçou mal a pressa em amarelar um recém-entrado Palhinha por uma disputa de bola banal, de forma a deixá-lo de fora contra o Benfica; Luís Godinho, espoliou o Sporting de 4 pontos com múltiplas decisões aberrantes em Alvalade contra Porto e em Famalicão; e mais exemplos haveria.

Sim, também houve algumas decisões a favorecer o Sporting, mas o saldo não deixa dúvidas a ninguém. Desta vez, e ao contrário de tantas outras épocas, as arbitragens não foram determinantes para o desfecho do campeonato... mas não foi por falta de tentativa.


2ª Cláudia Santos

Criou o cambalacho da época ao tentar impor uma doutrina de aplicação de justiça que só faz sentido aos seus olhos. A forma como geriu o caso Palhinha expuseram a sua vontade e incompetência, devidamente castigadas dentro e fora de campo: Palhinha pôde ser utilizado e o Sporting venceu o dérbi. Isso sim, foi justiça poética.

Dra. Cláudia & Cª não se deram por vencidos e viraram as agulhas para Amorim, aplicando-lhe suspensões sucessivas e um processo que o ameaça deixar sem trabalho durante vários anos, criando jurisprudências e precedentes em função das falhas que apanham no Sporting. Há uns dias saiu a notícia de que o Braga será castigado com dois jogos à porta fechada por terem tido Custódio como treinador - já todos perceberam a que porta irão bater a seguir. 

Uma justiça prepotente e cega, no pior sentido do termo, que funcionou como instrumento de vendetta pessoal é tudo menos justiça. Num país a sério, esta senhora e seus pares há muito que teriam sido colocados no olho da rua.


1º José Pereira

O furriel a quem nunca deixaram comandar uma companhia deve estar com um cabeção do tamanho de um Panzer VIII Maus, ao ver o mancebo Amorim a liderar uma unidade por quem ninguém dava nada e que, sozinha, venceu a II Guerra Mundial.

Deixando as analogias militares de lado, de um lado temos um treinador que conseguiu uma das maiores proezas a nível interno da história do futebol português (o recorde de mais jogos consecutivos sem perder numa única época já ninguém lhe tira), enquanto do outro está um dirigente cuja experiência total de jogos como treinador principal cabe nos dedos de duas mãos.

Com que moral é que José Pereira, inapelavelmente desautorizado pelos factos, poderá continuar a vender os seus cursos de treinador que pouco mais são do que uma validação burocrática e inútil de qualidades que só se podem aferir realmente no campo e no balneário? Se calhar está na altura de dar lugar a alguém que faça evoluir a ANTF do lobby de televendas que é hoje para uma verdadeira classe de treinadores.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Generalizando o que não é generalizável


Este lapso do jornalista da RTP aconteceu em direto na edição de ontem do Telejornal, e tem a sua piada. É um engano que pode acontecer a qualquer pessoa, e que é também perfeitamente inócuo: toda a gente sabe que Vieira é presidente do Benfica, e não do Sporting. No entanto, o mesmo não se pode dizer de outras peças em que tem havido pouco rigor na forma como se refere o envolvimento dos clubes na Operação Lex. Por exemplo, na manhã de ontem, a RTP fez uma peça em que é referido o seguinte:



Referir que Rui Rangel é acusado de ter recebido vantagens patrimoniais para influenciar diversos processos, e depois listar, sem qualquer explicação adicional, os nomes de Luís Filipe Vieira, do Sporting e de José Veiga, pode levar telespectadores ao engano. Enquanto Vieira e Veiga são acusados de terem recorrido a Rui Rangel para influenciar processos, o Sporting é vítima: José Viega pediu a Rangel para influenciar o processo que opunha o Sporting a Pedro Sousa, de forma a que houvesse uma decisão contra o clube.

Também ontem, a SIC prestou um mau serviço informativo, ao trazer à baila os processos em que o presidente do Benfica e também os presidentes de Porto e Sporting estão ou estiveram envolvidos:



É um pouco discutível estar-se a recuperar os processos de outros presidentes quando, atualmente, nenhum outro é arguido em qualquer caso. Mas, no caso de Bruno de Carvalho, o termo "suspeito" é bastante infeliz, pois parece-me demasiado forte para descrever investigações que surgem como consequência de denúncias de gente com pouca ou nenhuma credibilidade.

Numa altura em que há que há muita gente a tentar generalizar o que não é generalizável, nomeadamente com a narrativa de que "isto toca a todos", seria bom que se procurasse informar com o maior rigor possível. Está mais que comprovado que não são todos iguais.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Falemos do salário de Bruno de Carvalho

A propósito das horas de debate que as nossas televisões dedicaram ao salário de Bruno de Carvalho aquando da divulgação das contas do Sporting, agora que os relatórios e contas dos três grandes foram publicados, podemos finalmente fazer uma análise comparativa dos vencimentos dos administradores das SAD's de Sporting, Benfica e Porto.

Os dados apresentados não são surpreendentes:


Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, ganha menos do que qualquer administrador remunerado das SAD's de Benfica e Porto. Não é um salário baixo para os valores que se praticam em Portugal, é certo, mas parecem-me valores razoavelmente enquadrados para a responsabilidade que tem. De qualquer forma, seria interessante que as CMTV's e MaisTabacos da vida analisassem de forma igualmente zelosa os vencimentos dos administradores das outras SAD's.

Luís Filipe Vieira, como se sabe, tem dedicado os últimos 14 anos da sua vida. Esperemos que o seu altruismo não leva a que ele e a família passem fome. O facto de Rui Costa não ter tido direito a prémio num ano de excelentes resultados desportivos e financeiros também permite questões interessantes. Sabendo-se que está há quase 10 anos a ser preparado por Vieira para ser o próximo presidente (yeah, right), poucas dúvidas restarão que as suas funções são pouco mais que decorativas: servirá, sobretudo, para apertar a mão aos convidados de Vieira no camarote presidencial e para levar com a responsabilidade dos Taarabts e dos Djuricics...

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Só mesmo a CMTV para me fazer ter uma pontinha de simpatia por Pinto da Costa

Pinto da Costa foi ouvido esta manhã em tribunal na qualidade de réu no julgamento do caso da Operação Fénix, onde Antero Henrique está também envolvido.

O tipo de crimes que estão a ser julgados faz com que este processo me seja relativamente indiferente enquanto adepto de futebol em geral, e de um clube rival em particular. De qualquer forma, vejo isto da seguinte forma: se Pinto da Costa for condenado por recorrer a serviços de segurança ilegais, então estaremos perante uma situação com algumas semelhanças à que se passou com Al Capone: toda a gente sabia que era um patrão do crime organizado, mas acabou por ser preso por evasão fiscal, coisa insignificante em relação aos restantes crimes de que era suspeito.

Devem calcular, portanto, que não tenho pena nenhuma por ver Pinto da Costa neste tipo de situações. 

Mas, apesar de tudo isto, esta manhã consegui sentir uma pontinha de simpatia por Pinto da Costa. Efeitos que a trampa de jornalismo que se pratica nda CMTV consegue ter em mim...

(via Os Truques)

É uma pena que não existisse um lago nas imediações. Aquele microfone merecia ser arremessado à água.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Ano de transição ou de falta de noção?


Desportivamente falando, esta semana não foi particularmente favorável ao Porto, muito por culpa da derrota em Inglaterra ante o Leicester. Mas, ainda assim, a semana conseguiu ser muito pior ao nível das declarações que duas figuras do clube fizeram à comunicação social.


As declarações de Pinto da Costa ao Porto Canal

O primeiro a falar foi Pinto da Costa, em vésperas do jogo para a Liga dos Campeões:


É estranho que, só agora, o presidente portista refira que esta é uma época de transição e de transformação. Normalmente, estas coisas anunciam-se por antecipação, e não com o comboio já em andamento. Mas se o timing não faz qualquer sentido, a própria ideia que o presidente portista está a tentar passar consegue ser ainda mais absurda. É uma época de transição em quê, exatamente? O que mudou radicalmente, dos anos anteriores para este ano, na abordagem à época?

O Porto fez algum tipo de downgrade nos seus objetivos em relação ao que é habitual? Não, continua a ser um forte candidato a ganhar todas as competições nacionais e a passar aos oitavos da Champions. O Porto inverteu a política de aproveitamento da formação de forma clara? Não, pois André Silva, que já tinha sido lançado no final da época passada, continua a ser a única aposta recente. O Porto deixou de investir no plantel? Não, foi a segunda equipa (a seguir ao Benfica) que mais investiu em jogadores neste defeso: só em Telles, Depoitre, Boly, Layún e Felipe, o Porto gastou 30 milhões de euros, para não falar nos 42 milhões que Óliver e Diogo Jota poderão vir a custar caso a opção de compra seja exercida. 

O que mudou, então? Mudou o treinador, mas isso, por si só, não justifica que se descreva a época como sendo de transição. O Manchester City, o Bayern e o Manchester United também trocaram de treinador, e não deixarão de lutar pelos seus objetivos internos. E saiu Antero Henrique, mas já depois de fechado o período de transferências, pelo que não foi por aí que as bases de ataque à época foram diferentes dos anos anteriores. A única coisa diferente em relação às épocas anteriores foi a incapacidade de o Porto vender os seus melhores jogadores, mas isso não prejudicou a formação do plantel.

Portanto, não existem quaisquer bases visíveis para se etiquetar esta época como sendo de transição.

Pior ainda, foi a figura de avestruz a enterrar a cabeça na areia que o presidente portista fez ao dizer que as assobiadelas vêm apenas dos borlistas que estão no estádio a convite dos parceiros comerciais do clube. Não faz qualquer sentido.

Tem sido óbvio, nos últimos tempos, que o presidente portista está longe da sua melhor forma nas declarações à comunicação social. Recorde-se, por exemplo, que ainda em abril passado, numa altura em que o clube ainda estava envolvido em várias competições, Pinto da Costa fazia já o lançamento da época seguinte, garantindo que Otávio, Josué e Rafa Soares iriam fazer parte do plantel do Porto. Acertou em 33%, pois Josué acabaria por forçar a saída e a contratação de Alex Telles retirou espaço a Rafa Soares. Cada vez são mais óbvias as dificuldades que Pinto da Costa tem em controlar o que se passa no clube, o que é natural atendendo à sua idade. As sucessivas infelizes declarações à comunicação social são apenas a parte mais visível do seu declínio. Todos os ciclos têm um fim.


As declarações de Nuno Espírito Santo ao The Guardian

Mais do que infelizes, as declarações que Nuno Espírito Santo fez ao jornal inglês The Guardian entram no domínio do surreal. Para quem não teve oportunidade de ler, eis a tradução feita pelo blogue Mister do Café:


É incrível - e bastante revelador - que Nuno Espírito Santo não se tenha inibido de contar publicamente este episódio, que envergonharia qualquer pessoa que preze o seu bom nome. Uma tremenda falta de ética e de respeito para com o seu clube na altura, e que acaba por ajudar a compreender a carreira de Nuno enquanto jogador mas, também, enquanto treinador.

A explicação mais óbvia é que se trata de uma total falta de noção de Nuno Espírito Santo. Mas também pode haver outra hipótese: se Nuno se sentiu à vontade para dizer isto publicamente, é porque acha que os benefícios de revelar tamanha intimidade com Jorge Mendes se sobrepõem aos prejuízos que isso possa fazer à sua imagem. E, se calhar, NES até tem motivos para pensar assim: até agora, as três oportunidades que lhe surgiram como treinador principal, foram-lhe entregues por Mendes sem que tivesse feito o suficiente para as justificar.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A contratação de NES

Os tempos em que qualquer treinador se arriscava a ser campeão no Porto já lá vão. Atualmente, não só a qualidade do plantel está alguns furos abaixo daquilo a que os seus adeptos se habituaram, como também já não existe no Dragão uma estrutura forte e coesa que domine o futebol português e ajude a manter o balneário 100% focado nos objetivos do clube. E se para a primeira parte do problema pode existir remédio - caso o Porto se reforce de forma muito competente durante o defeso -, em relação à segunda não há muito a fazer. Como tal, seria recomendável a escolha de um treinador com capacidade reconhecida em extrair o melhor dos seus jogadores e habituado a trabalhar em clubes que lutam pelo título.

Por tudo isto, não creio que Nuno Espírito Santo seja o treinador de que o Porto precisava. Não quer dizer que o técnico não venha a ter sucesso no cargo que agora assumiu, mas, à primeira vista, não me parece que possua as características de que o clube está mais necessitado neste momento: liderança de balneário, capacidade técnica acima de qualquer suspeita, e especialista em implementar com sucesso um futebol de ataque continuado frente a equipas muito fechadas.

O Porto precisava de trocar de treinador, pois a continuidade de José Peseiro teria tudo para correr mal. Compreende-se a decisão de mudar. E, na verdade, não vejo assim tantos nomes alternativos que pudessem ser escolhidos: Jorge Jesus seria o favorito de Pinto da Costa, mas decidiu continuar no Sporting; Leonardo Jardim tem uma cláusula de salvaguarda de €12M; André Vilas-Boas não deverá querer estragar a imagem de vencedor que deixou no Porto (o único clube em que teve sucesso na sua carreira) e refugiou-se num ano sabático; Marco Silva, ao que se diz, assinou no princípio de 2015/16 um pré-acordo com o Benfica (não fossem as coisas correr mal com Rui Vitória) que ainda não expirou; e Paulo Fonseca deve ter pesadelos à noite com a experiência que teve no Porto. 

Ninguém acredita que Nuno Espírito Santo tenha sido a primeira opção de Pinto da Costa (provavelmente nem sequer segunda ou terceira), pois, se o fosse, poderia ter assinado logo quando Lopetegui foi despedido. Tendo falhado as principais hipóteses, esta escolha de Pinto da Costa não estará dissociada dos préstimos de Jorge Mendes para a contratação de alguns jogadores que elevem o nível do plantel, mas nem aí existem totais garantias: a principal motivação de Mendes costuma ser a colocação intensiva de jogadores para fazer o mercado mexer, sendo que a adequação das características dos atletas às necessidades do clube não costuma estar no topo das suas prioridades. Quando Mendes patrocina uma transferência, existem vários outros fatores em consideração: a sua comissão (o que é normal), mas também o interesse daqueles que irão receber o dinheiro da transferência (que, normalmente, é ele próprio ou clubes amigos que fazem parte do seu carrossel).

Mendes é conhecido como superagente devido aos milhões que faz movimentar, e não pelo sucesso desportivo dos jogadores que coloca. Basta olhar para muitas das transferências que tem feito nos últimos anos: os adeptos dos clubes vendedores costumam ficar bastante mais satisfeitos do que os dos clubes compradores.

Considerando tudo isto, aquilo de que o Porto não precisa neste momento é de um treinador que diga ámen a todas as sugestões de Mendes. Mas, para o bem e para o mal, Nuno Espírito Santo é um yes-man de Mendes, que no Valencia chegou ao ponto de arranjar conflitos com jogadores (perguntem a qualquer adepto valenciano como João Pereira foi afastado do clube) para abrir espaço no plantel para jogadores do seu amigo.

Há seis ou sete anos, as competências de Nuno (porque, apesar de tudo, elas existem) poderiam ser suficientes para triunfar no Porto, mas percebe-se que hoje não sejam suficientes para entusiasmar os sócios e adeptos portistas. Terá uma prova de fogo logo no princípio da época, com o playoff da Liga dos Campeões, que, correndo bem, lhe poderá dar o tempo e tranquilidade necessários para pôr a equipa a jogar como quer. Correndo mal, terá o mesmo problema dos treinadores que o antecederam: muito pouca margem para errar perante os adeptos.

domingo, 22 de maio de 2016

Soltas sobre a final da Taça de Portugal

  • A partir do momento em que o Porto chegou ao empate, nunca pensei que o Braga chegasse aos penáltis. Depois do 1-2, a equipa de Paulo Fonseca estava nitidamente intranquila, e adivinhava-se o empate a todo o momento. Nestas situações o fator psicológico conta muito, e notava-se o fantasma da final do ano passado a pairar sobre os jogadores do Braga. Se o Porto arriscasse no prolongamento e mantivesse a urgência de marcar um golo, não acredito que o desfecho tivesse sido o mesmo.
  • Há que dizer que este Braga pouco fez para ganhar o jogo. Os dois golos que marcou foram autênticas ofertas. De resto, uma quase confrangedora incapacidade de sair a jogar, confirmando que estão muito longe daquilo que jogavam até há um par de meses. Mais do que ter sido o Braga a ganhar, foi o Porto a perder esta final.
  • É fácil falar nestas coisas no final, mas a utilização de Hélton não fazia grande sentido, logo à partida. Não só pela escassa utilização ao longo da época, mas sobretudo porque se mostrou muito irregular - capaz do melhor e do pior - nas oportunidades que lhe deram. É verdade que Casillas também não foi um poço de regularidade, mas numa final têm que ir (sempre) os melhores lá para dentro. Se não for assim, um treinador sujeita-se a que coisas destas aconteçam.
  • Por falar em Casillas, pode não valer (na minha opinião) os 5 milhões que recebe anualmente, mas há que admirá-lo pelo profissionalismo demonstrado e pelo compromisso com a equipa. Ao contrário do que se poderia esperar - em função do que se dizia dele no Real -, em Portugal não mostrou quaisquer tiques de estrela. A forma como festejou o 2-2 (apesar de ter ficado no banco) e procurou moralizar Hélton deve tê-lo feito subir vários pontos na consideração de muita gente.
    • É incrível como o Porto conseguiu desbaratar o maior orçamento da história do futebol português. Apesar de tanto dinheiro gasto em contratações, o plantel ficou desequilibrado e coxo em posições fundamentais. As mudanças efetuadas em janeiro ainda agravaram mais a situação. É o que dá contratar-se só para dar uma alfinetada num dos rivais. Mas desta vez foi o alfinetado que se ficou a rir. Os 6 ou 7 milhões gastos em Marega, Suk e Sá chegavam e sobravam para contratar um central de categoria, o que provavelmente seria suficiente para evitar vários dos amargos de boca que sentiram na segunda metade da época - incluindo na final de hoje. E já nem entro na forma como se decidiu dispensar Lopetegui sem ter um plano alternativo bem definido. Uma gestão desastrosa, quase tão má como a forma como Godinho Lopes planeou e conduziu a época de 2012/13.
    • Desde que a parceria com a Doyen se intensificou, o Porto ganhou zero. Uma coisa não é consequência direta da outra, mas também não lhe é completamente alheia.
    • E que dizer da atitude de Pinto da Costa, a ignorar deliberadamente José Peseiro?

    • Não faz grande sentido criticar-se Fernando Santos por não ter convocado André Silva para o Europeu. Com meia-dúzia de jogos pela equipa principal e um golo marcado no momento em que os 23 foram divulgados, é perfeitamente compreensível que o selecionador não sentisse confiança suficiente para o incluir na convocatória. Mesmo tendo marcado dois golos hoje, continua a ser (em teoria) curto para chegar à seleção A. Poderia fazer sentido numa ótica de preparar o futuro, à semelhança da ida de Nélson Oliveira ao Euro 2012, mas todos sabemos como isso correu. Claro que, perante a ida de Eder, qualquer outro nome parece fazer bastante sentido...



    sexta-feira, 22 de abril de 2016

    Introducing Diogo Luís

    Diogo Luís. Até ontem, o nome não me dizia nada. Fui investigar: falamos de um antigo jogador do Benfica (fez uma época na equipa principal no início do século, suponho que vindo das camadas jovens do clube), e faz comentários (tentem conter as exclamações de surpresa com o que vos vou revelar) na Bola TV. 

    Vem isto a propósito da sua participação no programa A Bola da Noite de quarta-feira, onde dissertou prolongadamente sobre os temas da atualidade dos três grandes. Devo dizer-vos: fiquei impressionado. Pedindo antecipadamente desculpa pela extensão deste post, vamos ver algumas das suas intervenções.


    Começou por falar do Sporting, dizendo que fica triste pela forma como Augusto Inácio tem intervindo na praça pública. Ficámos a saber que Diogo Luís considera que o passado de Inácio, enquanto jogador de futebol e treinador, deveria condicionar as suas intervenções enquanto dirigente do Sporting. Se fosse assim em todas as áreas profissionais, não haveria carreira que resistisse a duas promoções. Melhor ainda foi a alegação de que Inácio está a desvalorizar o trabalho de Rui Vitória. É de fazer chorar as pedras da calçada. "Sobretudo", continuou, sendo "um ex-jogador do Porto da década de 80, e nós sabemos o que é que se passou na década de 80". Para uma pessoa que não gosta que pessoas do futebol desvalorizem o trabalho de colegas ou ex-colegas de profissão, esta boca mandada a Inácio coloca um pouco em causa a coerência do próprio. Vamos continuar.


    Oi? Paulo Futre? Paulo "ex-jogador-do-Porto-da-década-de-80" Futre? Pelos vistos não, senão também teria tido direito a uma boca de Diogo Luís. Deve ser outro Paulo Futre. Em frente.


    Reforçando a ideia de que Inácio está a ser um mau colega <lágrimas> para Rui Vitória, Diogo Luís virou então a agulha para Bruno de Carvalho. Refere a acusação de Bruno de Carvalho para os discursos de quem tenta pressionar os árbitros, tenta encontrar outros exemplos e... só se lembra de Bruno de Carvalho e Octávio Machado. Nenhuma referência a Luís Filipe "roubo em letras bem grandes" Vieira, a Rui "não quero ser comido de cebolada" Vitória, a João "o título do Porto é um tributo aos árbitros" Gabriel, a Rui Gomes da Silva ou a Pedro Guerra. Memória bem seletiva. Siga.


    Diogo Luís, no meio de elogios irónicos, diz que Bruno de Carvalho está a atacar o Benfica desde o primeiro dia e nunca atacou o Porto. Só se considera que foi Bruno de Carvalho que atirou os petardos para o meio dos adeptos do Sporting e reagiu dizendo que se tratava de folclore. Só se considera que a contratação de um treinador com quem o Benfica não queria renovar foi um ataque. Deve estar esquecido das acusações que foram feitas a Jorge Jesus desde se mudou para o Sporting - começou tudo com a acusação de uns SMS que nunca chegaram a aparecer (tipo a Montblanc de Júlio César). Mais um caso de memória seletiva. Prosseguindo.


    Volta implicar com Inácio porque este, ao dar um exemplo de um jogo em que o Benfica foi beneficiado, referiu o de Guimarães, que se disputou há 17 jornadas. É óbvio, para qualquer pessoa não benfiquista, que Inácio tinha que falar no jogo de Guimarães, pois é, de longe, aquele que teve a arbitragem mais escandalosa deste campeonato. E até podia ter falado no Estoril, na primeira jornada. Os erros de arbitragem não prescrevem ao fim de quinze dias. Têm influência durante toda uma época.

    Falemos agora dos elogios feitos por Bruno de Carvalho a Jorge Jesus.


    Portanto, ficamos a saber que os elogios ao treinador são também uma forma de pressão. Se Bruno de Carvalho critica, é pressão. Se Bruno de Carvalho elogia, também é pressão. Fantástico.

    Bom, chega de falar de dirigentes do Sporting. Diogo Luís, o que tem a dizer sobre a reeleição de Pinto da Costa? É o homem certo para recuperar o Porto no mandato que se segue?


    Portanto, para Diogo Luís, Jorge Nuno "presidente-do-Porto-na-década-de-80" Pinto da Costa é... alguém com muito conhecimento e muita categoria. Ainda haveremos de descobrir que quem tratava da fruta, das viagens ao Brasil e dos quinhentinhos era o Inácio.

    Diogo Luís, falemos agora do Rio Ave - Benfica.


    Diogo Luís diz que, do ponto de vista do Benfica, é preferível que o Rio Ave jogue o jogo pelo jogo. Mas se Pedro Martins decidir colocar um autocarro (e tentar explorar o contra-ataque com jogadores rápidos como Heldon ou Ukra)... é porque o Sporting lhe ofereceu um grande prémio. OK, Diogo, estamos todos esclarecidos. Esperemos então que o Rio Ave jogue da forma que for mais conveniente para o Benfica. 

    Só para terminar, o que tem a dizer sobre o Sporting - União da Madeira?


    Portanto, o que Norton de Matos deve fazer é colocar um autocarro e tentar explorar o contra-ataque com os jogadores rápidos que tem. Está certo...

    segunda-feira, 18 de abril de 2016

    79%

    Pinto da Costa foi ontem reeleito com 79% dos votos. Inesperadamente, uma eleição que não deveria ter qualquer história acabou por ter um resultado muito significativo. Muito mais significativo que muitas outras eleições de clubes com múltiplos candidatos.

    Quando uma lista única consegue uma reeleição com apenas 79% dos votos, está feito um aviso que deveria ser levado muito a sério. Pinto da Costa referiu que os votos nulos continham mensagens de apoio a si e à sua direção, mas... isso é apenas uma distração. Numa eleição, a única mensagem de confiança que o eleitor pode dar é o voto propriamente dito.

    Os sócios do Porto passaram um claro atestado de incompetência ao presidente pela qualidade do trabalho feito ao longo do mandato que agora terminou. Ficou demonstrado que teria havido espaço para um candidato alternativo se apresentar. Dificilmente ganharia, mas teria conquistado o seu território e prestado um enorme serviço ao clube, pois promoveria um debate real sobre o trabalho desenvolvido pela direção de Pinto da Costa nos últimos 3 anos. O facto é que, por comodismo, pelo peso da história, ou por receio de pressões, ninguém avançou (mais uma vez). Daqui a quatro anos há mais.

    quarta-feira, 13 de abril de 2016

    A pré-época-de-fim-de-época do Porto

    A entrevista que Pinto da Costa deu, na semana passada, ao Porto Canal, ficou marcada por duas ideias fortes: a primeira, de que o Porto bateu no fundo; depois, que os seis jogos do campeonato que então restavam eram para ser encarados como uma espécie de pré-época para 2016/17.

    Tanto quanto me parece, a ideia do presidente portista em transformar o final desta época numa pré-temporada da próxima tem dois objetivos: baixar as expetativas dos adeptos para o que resta deste campeonato, o que ajuda a suavizar os efeitos de novos maus resultados em período eleitoral; e, sobretudo, tentar passar a ideia de que existe um plano, quando na realidade muito pouco no seu discurso leva a crer que exista realmente um plano (pelo menos dos bons).

    Não creio que haja qualquer plano com pés e cabeça porque Pinto da Costa pareceu sobretudo preocupado em criar uma série de distrações para desviar as atenções do momento atual do clube. Por exemplo, o regresso anunciado de Josué na próxima época - que, para além de ser portista ferrenho e bater penáltis bem, não tem nada que André André, Herrera, Sérgio Oliveira ou Rúben Neves não ofereçam já - não pode ser visto como um ponto de partida para qualquer tipo de refundação séria do plantel. O mesmo para Rafa, que, apesar de ser um jogador de indiscutível potencial, será solução para uma posição para a qual já existe Layun, que tem sido apenas o melhor lateral esquerdo da liga portuguesa.

    Para além das questões de médio/longo prazo envolvidas neste processo de intenções, existe um problema bem mais imediato: a mensagem que passa para os jogadores. Quando o presidente afirma que a época acabou, está também a dizer que já não espera grandes proezas desta equipa, o que seguramente não contribuirá para a recuperação anímica de um conjunto de atletas que está, visivelmente, num estado psicológico bastante frágil. O mote dado por Pinto da Costa fica ainda mais em causa quando o próprio diz, minutos mais tarde, que Peseiro não está confirmado como treinador para a próxima época. Uma pré-pré-época dirigida por um treinador que não escolherá quem fará parte da época seguinte não parece ser, à partida, um conceito propriamente vencedor.

    Mas pior que a declaração da pré-época, foi a do "bater no fundo". Porque, na realidade, há sempre a possibilidade de as coisas ficarem piores. Qualquer sportinguista pode garantir isso, pela experiência adquirida num passado muito recente. Nomeadamente, se nada for feito para inverter um círculo vicioso que coloca o clube cada vez dependente de terceiros para realizar investimentos, se se mantiverem os vícios de determinados elementos da direção que olham primeiro para os bolsos dos seus protegidos e apenas depois para os interesses da instituição que estão a gerir, e se continuar a navegação à vista que tem sido levada a cabo nos últimos meses e tão maus resultados tem dado. Esta descrição aplica-se tão bem ao Porto atual como se aplicava ao Sporting no tempo de Godinho Lopes.

    P.S.: Tudo isto, no entanto, não deve servir para nos incutir a ideia de que o Sporting terá a vida facilitada quando for jogar ao Dragão. O plantel do Porto pode ser desequilibrado, a qualidade do futebol praticado pode estar longe daquilo que se esperava, mas o problema neste momento é sobretudo psicológico e motivacional. Falamos da mesma equipa que, contra as expetativas da maioria das pessoas, foi ganhar à Luz. Se encararem o clássico como uma forma de limpar parte da má imagem deixada nas últimas semanas, então de certeza que só o melhor Sporting poderá conquistar os três pontos na sua deslocação ao Porto.

    quinta-feira, 17 de março de 2016

    Candidato único


    Não sei se a edição em papel do JN repetiu a gralha "candidado" que se pode ver na capa da versão eletrónica, mas este erro ortográfico consegue não ser o elemento mais absurdo desta imagem. Esse prémio vai direitinho para toda a frase que o jornal colocou.

    Nem a mais ingénua das criaturas acreditará que a candidatura de Pinto da Costa às próximas eleições do clube alguma vez dependeu do aparecimento de uma outra lista concorrente. O presidente do Porto tem 78 anos, terá 82 anos quando terminar o mandato para o qual será eleito, e não tenho grandes dúvidas que, mantendo em 2020 um mínimo de saúde e lucidez, voltará a ser candidato - havendo ou não uma lista rival para disputar consigo a presidência.

    Em 2016, Pinto da Costa será candidato único, como tem sido regra nos atos eleitorais das últimas duas décadas. E quem perde mais com isso é o próprio Porto. 

    Apesar de uma campanha eleitoral normalmente implicar uma lavagem de roupa suja que não é útil para ninguém (a não ser para divertimento dos adeptos dos rivais, obviamente), há também um lado positivo que é muito importante: permite que haja um debate aberto sobre o mandato que passou e sobre os planos para o futuro, obrigando a que os intervenientes façam compromissos públicos que poderão posteriormente ser acompanhados e avaliados.

    Como tal, teria sido muito útil que tivesse avançado pelo menos um outro candidato, quem quer que fosse (com um mínimo de credibilidade, obviamente), mesmo que nas urnas fosse perder por muitos. Seria um excelente serviço que prestaria ao clube e aos seus sócios e adeptos.

    sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

    A raiz de todos os males

    Qualquer pessoa que não acompanhasse o futebol português e que tivesse o azar de assistir a vários dos programas sobre o tema ao longo das últimas semanas, muito provavelmente ficaria a pensar que a história do futebol português se resume a duas fases fundamentais: o futebol antes de Bruno de Carvalho (aBdC) e o futebol depois de Bruno de Carvalho (dBdC).

    Quem ouça determinados comentadores, só pode concluir que o futebol aBdC era um espaço saudável e leal, onde todos os intervenientes tinham um comportamento exemplar e a verdade desportiva nunca era colocada em causa. Chegou Bruno de Carvalho, e tudo mudou. O futebol português dBdC é um lugar irrespirável onde existe um clima de tensão e intimidação insustentável e permanente.

    Calhou no entanto que, esta semana, elementos dos Super Dragões fizessem uma visita à família de um árbitro que favoreceu o Benfica. Poucos dias depois, Pinto da Costa disse não ter conhecimento das ações do líder da principal claque do seu clube, mas não se coibiu de disparar em todas as direções ao comentar o tema das arbitragens - atingindo o CA enquanto estrutura, dirigentes e determinados árbitros. O programa Mercado, da CMTV, pegou neste tema para o debate. No entanto, vejam como o assunto foi abordado - primeiro pela apresentadora do programa e, depois, pelo inqualificável Octávio Lopes:


    Ignorando totalmente a atualidade, o jornalista Octávio Lopes preferiu centrar-se unicamente no presidente do Sporting (mais uma vez), fazendo insinuações e acusações absurdas típicas de um indivíduo com graves problemas de memória ou de honestidade intelectual. Nem uma palavra, na sua intervenção inicial, para a intolerável atitude dos Super Dragões (terá sido Bruno de Carvalho que os mandou lá?) ou para as palavras de Pinto da Costa. O ódio irracional ao presidente do Sporting não podia ser mais claro.

    Mas não foi o único caso de ataques injustificados ao presidente do Sporting. Por exemplo, ontem, nas suas edições de papel e online, o jornal i ilustrou um artigo sobre o que aconteceu ao árbitro Jorge Ferreira - que, recordo, envolveu um jogo do Benfica e uma visita dos Superdragões ao restaurante do seu pai - com... uma fotografia de Bruno de Carvalho. Isto apesar de nem Bruno de Carvalho nem o Sporting serem mencionados uma única vez nesse artigo.


    Seria fácil encontrar muitos outros semelhantes a este. Mesmo quando são outros clubes a estar na origem da polémica em debate, é ao presidente que só chegou há 3 anos ao futebol que são imputadas as responsabilidades de tudo o que de mau se passa. E tenta-se convenientemente esquecer outros casos ocorridos num passado nada distante que são tão ou mais graves do que aqueles que são imputados a adeptos do Sporting.








    Isto para não falar num passado mais longínquo, numa altura em que eram os próprios jogadores a fazer as despesas da intimidação.


    Esqueçam os apitos dourados, a escolha de árbitros por telefone ou os discursos incendiários a ameaçar boicotes praticados tantas e tantas vezes por Pinto da Costa e Vieira. O único presidente de um grande que nunca se viu envolvido em episódios desse tipo e que, como tal, merecia algum benefício da dúvida, está a ser progressivamente responsabilizado pela podridão que já está instalada no futebol português há mais de três decadas - só porque a maior parte dos senhores jornalistas não consegue lidar com o ressurgimento do Sporting ou com o facto de o presidente do clube falar de forma demasiado agressiva para o que estavam habituados.

    Infelizmente, os críticos não percebem (ou não querem perceber) que o estilo de Bruno de Carvalho é uma reação natural à forma desenvergonhada como muitas pessoas que gravitam no futebol português vivem como autênticos parasitas de dois hospedeiros que não olham a meios para atingir os fins.

    (obrigado, José!)

    terça-feira, 12 de janeiro de 2016

    O coreano e os outros

    Muito se tem falado de Bruno de Carvalho, o coreano: o déspota que não tolera críticas ou vozes dissidentes, o tirano que ataca de forma ruidosa e imediata todos aqueles que se atrevem ter opiniões diferentes das suas, o empresário falhado que apenas quer garantir um tacho vitalício que lhe permita governar a sua vida pessoal.

    Nunca cheguei a perceber se o mérito da criação da figura de Bruno de Carvalho, o coreano, deve ser atribuída a benfiquistas, portistas ou a sportinguistas que não suportam vê-lo na presidência. O que sei é que, numa indústria em que existem vários presidentes mais agarrados ao cargo que uma lapa à rocha - e com um historial de tiques absolutistas bem mais recheado -, é extraordinário que haja quem acuse o líder do Sporting de ser um ditador.

    Certamente que não devem ter estado atentos ao futebol português nas últimas décadas.


    1. Bruno, o coreano

    Qualquer pessoa que ocupe o cargo de presidente do Sporting tem que estar preparado para ouvir críticas ao seu trabalho. Bruno de Carvalho levou esse requisito a um novo limite desde que foi eleito: tem sido alvo constante de críticas - de dirigentes e adeptos dos rivais, de uma falange de comentadores que não consegue esconder a aversão em relação a si e, sobretudo, de uma franja de sportinguistas que nunca conseguiu aceitar a sua eleição.

    A verdade é que nunca um presidente foi  tão criticado como foi Bruno de Carvalho. Não conheceu qualquer estado de graça. Foi atacado desde os primeiros dias no cargo, de todos os lados, numa altura em que estava sobretudo empenhado em salvar o clube da bancarrota. Depois disso, nunca lhe perdoaram o facto de não dar a outra face perante insultos e ataques ao clube, ao contrário do que era hábito - por feitio ou incompetência - nos seus antecessores. Passados quase três anos, não podendo ser atacado pela qualidade do trabalho desenvolvido nas vertentes desportiva e financeira, qualquer acontecimento negativo é agora aproveitado pela oposição adormecida para o atacar: a gestão do caso Carrillo, a derrota com a Doyen e, pior do que isso, a ressaca dos poucos resultados negativos que a equipa tem obtido. Normalmente fazem-no através entrevistas explosivas na comunicação social, mas até chegámos ao ponto de ver outdoors a mostrar como elas lhe doyen.

    A tudo isto, Bruno de Carvalho tem respondido prontamente - seja nos jornais, seja nas rádios, seja nas televisões, seja em conferências de imprensa improvisadas, seja no Facebook. É agressivo nas respostas? Muitas vezes, quer na forma, quer no conteúdo. Dá troco a pessoas que não justificam a sua atenção? Pode dizer-se que sim. Mas, num país livre que dá liberdade aos cidadãos para darem a sua opinião, era o que faltava se Bruno de Carvalho não pudesse defender-se na mesma medida aos ataques pessoais que lhe são dirigidos. Concorde-se ou não com as acusações, goste-se ou não do estilo do presidente, é um direito que tem. 

    A única atitude que, até ao momento, pode ser alvo de dúvidas, é o processo que foi aberto a 31 adeptos e sócios - supostamente por difamações nas redes sociais. Mas não me posso pronunciar sobre isso porque não conheço quem são essas pessoas, nem quais as palavras que estiveram na origem dessa atitude.

    Não tenho nada contra o facto de haver uma oposição a Bruno de Carvalho. Até acho desejável. Mas, para mim, não é tolerável que essa oposição só apareça nos piores momentos possíveis, usando argumentos completamente populistas - curiosamente, um dos pecados que normalmente apontam (mal) a Bruno de Carvalho -, e nunca medindo as consequências que isso poderá ter nos interesses imediatos do clube.

    Falando por mim, oposição que queira ser credível tem que escolher melhor aquilo que deve criticar e, sobretudo, deve escolher melhor os momentos e a forma dessas críticas.


    2. Jorge Nuno, o democrata

    Qual o nome que se dá a um regime político em que o presidente é o mesmo há 34 anos e cuja eleição é assegurada sem qualquer oposição? Alguém me consegue indicar o nome de um país em que isto se passe e que seja uma democracia?

    Já não me lembro da última vez em que Pinto da Costa teve concorrência numas eleições. Sim, é verdade que o presidente do Porto venceria facilmente qualquer opositor, mas não conheço nenhum outro cargo sujeito a sufrágio que registe há tanto tempo um completo deserto de candidaturas alternativas.

    Não vivo no Porto, mas não me admiraria que por detrás dessa ausência de candidatos esteja, em parte, um sentimento muito simples: medo. Lembro-me da comparação que Mourinho fez do Porto a Palermo, da associação dos dirigentes do Porto a uma empresa de segurança ilegal, dos rumores que correm por aí sobre o papel que alguns elementos das claques desempenham para além do apoio à equipa, da célebre agressão a Gomes da Silva, ou de ameaças a jogadores em conflito com o clube. E já que falamos de climas intimidatórios, ainda há pouco tempo vi isto no Twitter:


    Creio que estamos conversados em relação a esta democracia. Em qualquer cargo, há gente que concorre mesmo sabendo à partida que não tem hipótese de ganhar. É comum haver candidatos que avançam com outros objetivos: ganhar notoriedade, obrigar que se discutam determinados assuntos, ou já a pensar em futuros atos eleitorais. Neste clube... nada.

    Estamos em ano eleitoral no Porto. Alguém acredita que, mesmo que o Porto não ganhe nada pela terceira época consecutiva - cenário inédito nos últimos 30 anos -, vá aparecer algum candidato que concorra contra Pinto da Costa?


    3. Luís Filipe, o estadista

    Quando falamos na democracia do Benfica, é inevitável falar na alteração dos estatutos que Vieira promoveu poucos dias antes do jogo em que o Benfica poderia acabar com um jejum de 5 anos no campeonato. Numa AG em que participaram cerca de 100 sócios, em clima de euforia pela conquista que se adivinhava, foram aprovadas as seguintes alterações ao processo eleitoral do clube:
    • passou a ser obrigatório que um candidato à presidência do Benfica tenha um mínimo de 25 anos ininterruptos de sócio após os 18 - ou seja, é impossível candidatar-se com menos de 43 anos -, o que excluiu imediatamente da corrida vários potenciais candidatos que na altura se falavam;
    • as centenas de Casas do Benfica (que foram renovadas num mega-projeto que teve Vieira como patrono) passaram cada uma a ter direito a 50 votos e as filiais e delegações a 20 votos;
    • alteração da duração dos mandatos de 3 para 4 anos;
    • deixou de haver número limite de reeleições.

    Ou seja, não só Vieira conseguiu eliminar grande parte da potencial oposição, como praticamente garantiu a sua perpetuação no poder.


    Sendo o Benfica um clube em que, apesar da sua história recente, ainda existe mais massa crítica que no Porto, é possível que apareçam candidatos dispostos a tentarem a missão impossível de destronar Vieira. Candidatando-se, já se sabe que é provável que aconteça uma de duas coisas: ou acabam por receber um convite para se juntar à lista do atual presidente - como aconteceu com Moniz - ou terão que suportar a maior campanha negativa das suas vidas. A máquina de propaganda, muito bem oleada, não facilitará.

    Mas o que mais me chocou nos últimos tempos, foi o que Ricardo Araújo Pereira contou há poucas semanas no programa Governo Sombra. Falamos de uma figura pública cuja paixão pelo clube está acima de qualquer suspeita, e que nunca deu qualquer indicação de um dia querer concorrer a qualquer cargo no clube. Mas como é uma pessoa que pensa pela sua cabeça e cometeu o pecado de discordar publicamente da dispensa de Jorge Jesus, acabou por provocar algumas reações inesperadas:



    Se a estrutura dispensa insultos a um adepto que não quer nada do clube que não seja apenas as vitórias da sua equipa, nem imagino o que serão capazes de fazer se aparecer algum candidato às eleições com hipóteses reais de os tirar de lá.

    Por isso, continuem. Continuem a falar de Bruno, o coreano, esse ditadorzeco que mancha a saudável democracia que se vive no futebol português. Ficarei a aguardar com interesse como decorrerão as eleições de 2016 de Porto e Benfica.

    terça-feira, 20 de outubro de 2015

    Manual de Etiqueta para Presidentes, nº 2

    2. Um presidente de um clube trata sempre bem a comunicação social

    São inaceitáveis os ataque de Bruno de Carvalho à imprensa escrita, por causa de determinados artigos que não gostou de ler. Não é tolerável que um presidente de um clube mostre desagrado pelos temas que os jornais escolhem destacar no serviço público diário que prestam a todos os portugueses. Os jornalistas são profissionais dedicados que amam e promovem o futebol jogado e que merecem ser tratados sempre de forma digna.


    (obrigado, Cantinho!)

    segunda-feira, 19 de outubro de 2015

    Manual de Etiqueta para Presidentes, nº 1

    O Manual de Etiqueta do Presidente é a obra definitiva que finalmente estabelece os padrões morais e comportamentais que qualquer presidente de um clube de futebol deve seguir na sua atividade diária.

    Compilada a partir de um vasto conjunto comentários recolhidos ao longo dos últimos dois anos e meio dos mais reputados especialistas em etiqueta do futebol português - nomes consagrados do jornalismo desportivo como Joaquim Rita, Ribeiro Cristóvão, Rui Pedro Braz, José Nunes, Jorge Baptista, Bruno Prata ou Carlos Daniel -, presidentes como Bruno de Carvalho terão finalmente um guia que os poderá ajudar a elevar o nível dos seus comportamentos, de forma a deixar de envergonhar o futebol português.

    Ficam aqui alguns dos pontos focados com mais ênfase, e com vídeos a exemplificar como os presidentes de clubes em geral - e Bruno de Carvalho em particular - se deveriam comportar.


    1. Um presidente de um clube não deve fazer ataques pessoais aos seus homólogos

    A presença de Bruno de Carvalho no Prolongamento foi degradante, mas o momento mais baixo de todos foi aquele em que mostrou várias imagens de jornais com os casos de justiça a envolverem Luís Filipe Vieira.

    Bruno de Carvalho, na realidade, deveria seguir o bom exemplo de outros presidentes, incapazes de fazer este tipo de figuras que apenas servem para incendiar o futebol português.

    Fica aqui alguns excelentes exemplos de sã convivência entre presidentes, ocorridas há apenas três anos.



    quinta-feira, 8 de outubro de 2015

    Recordar é viver

    A propósito da presença de Bruno de Carvalho no Prolongamento, parece-me engraçado recordar duas ocasiões em que outros presidentes de clubes grandes foram convidados para participar em programas de características semelhantes. Uma coisa é certa: o ambiente destes foi seguramente mais cordial que o de segunda-feira. É a diferença entre ter Pedro Guerra ou Rui Oliveira e Costa como interlocutor e também a questão de não haver coragem suficiente para fazer perguntas difíceis a Pinto da Costa...


    Aqui, António Pedro Vasconcelos até apertou Luís Filipe Vieira... haja alguém...


    Se alguém conseguir obter as imagens de Vieira a entrar pelo estúdio da SIC adentro a interromper o "Dia Seguinte", no dia 24 de maio de 2004, ganhará um amigo para a vida... :)

    sexta-feira, 25 de setembro de 2015

    Confundindo o treinador com o presidente