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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Um conto de Páscoa

Um dia depois de ter sido anunciado publicamente a realização de um seminário sobre os fundos por iniciativa das ligas portuguesa e espanhola, a liga portuguesa colocou o programa no seu site. Vejam se notam alguma diferença entre a versão oficial (à esquerda) e a versão divulgada pela liga portuguesa, à direita:

(obrigado, @nunovalinhas)

Estando nós na quadra pascal, esta omissão de Nélio por parte da liga de Duque lembra-me um famoso episódio da vida de Jesus Cristo - a Última Ceia e a negação de Pedro - relatado no Envangelho de Mateus, capítulo 26. Estaremos perante algo semelhante, mas com outras personagens, e em que no lugar da Última Ceia temos O Último Seminário?



MATEUS 26 ADAPTADO


1. Tendo Nélio acabado todo este discurso, disse a seus discípulos:
2. Sabeis que de hoje a um mês celebrar-se-á a ilegalização dos fundos, e a Doyen será entregue para ser crucificada.
3. Depois decidiram reunir os principais sacerdotes e os anciãos no Hotel Eurostars Madrid Tower.
19. Eles fizeram como Nélio lhes havia ordenado, e prepararam o seminário.
20. À tarde estava ele sentado à mesa com os doze discípulos.
21. Enquanto comiam os acepipes, declarou Nélio: Em verdade vos digo que um de vós me trairá.
22. Eles, muitíssimo contristados, começaram um por um a perguntar-lhe: Porventura sou eu, Senhor?
23. Ele respondeu: O que põe comigo a mão no palanque, esse é o que me trairá.
26. Estando eles comendo, tomou Nélio o passe de Brahimi e, tendo dado graças, partiu-o e deu aos discípulos, dizendo: Tomai e admirai; este é o meu lucro.
27. Tomando o cálice, rendeu graças e deu-lho, dizendo: Bebei dele todos; 
28. porque este é o sangue, o sangue da santa aliança, que será derramado a partir de maio.
29. Mas digo-vos que desta hora em diante não beberei mais deste fruto da especulação do mercado.
31. Então lhes disse Nélio: A todos vós serei esta noite uma pedra de tropeço: pois está escrito: 
33. Disse-lhe Duque: Ainda que sejas para todos uma pedra de tropeço, nunca o serás para mim.
34. Declarou-lhe Nélio: Em verdade te digo que esta noite, antes de cantar o galo, três vezes me negarás.
35. Replicou-lhe Duque: Ainda que me seja necessário morrer contigo, de nenhum modo te negarei. Todos os discípulos disseram o mesmo.
(...)
69. Entretanto Duque estava sentado fora no pátio; e um poderoso diretor da UEFA, aproximando-se, disse-lhe: Também tu estavas com Nélio o Usurário.
70. Mas ele o negou diante de todos, exclamando: Não sei o que dizes.
71. Saindo para o alpendre, um outro viu-o e disse aos que ali se achavam: Este também estava com Nélio o Usurário.
72. Outra vez Duque o negou com juramento: Não conheço esse homem.
73. Logo depois se aproximaram de Duque os que ali estavam e disseram-lhe: Também tu és certamente um deles, pois até a tua fala o revela.
74. Então começou a praguejar e a jurar: Não conheço esse homem. Imediatamente cantou o galo.
75. Duque lembrou-se das palavras que Nélio proferira: Antes de cantar o galo, três vezes me negarás; e saindo dali, chorou amargamente.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Festa dos Fundos

Foi hoje anunciado um seminário sobre a ação dos fundos no futebol internacional, organizado em conjunto pelas ligas espanhola e portuguesa:


Olhando-se para os oradores convidados fica clarinho como a água a panelinha que se está a arranjar. A Liga Portuguesa, Porto e Benfica a defenderem os interesses das Doyens e dos Mendes desta vida.

Estranho a referência à presença de um representante da UEFA no painel das 11:30, considerando que ainda hoje a própria UEFA, em conjunto com a FIFPro, apresentou uma queixa contra os TPO junto da Comissão Europeia. Na argumentação da UEFA e da FIFPro podemos encontrar as seguintes declarações:

"Os jogadores de futebol ainda são tratados como mercadoria, não como seres humanos. Os TPO abrem a porta a parasitas que manipulam jogadores pelo lucro. Eles compram e vendem de uma forma que expõe todas as fragilidades do sistema de transferências. Os TPO não podem ser olhados de uma forma isolada. O sistema de transferências é um terreno fértil para praticas abusivas como os TPO."
"Os argumentos que estabelecem que os TPO ajudam economicamente o futebol e dão aos clubes fora da elite a possibilidade de competirem por troféus não podiam ser mais enganadores."
"A investigação pormenorizada que foi levada a cabo prova que o impacto dos TPO é extraordinariamente negativo e prejudica seriamente a indústria. Mostra que os clubes que ficaram dependentes dos TPO são prisioneiros de um desesperado ciclo de dependência entre dívida e especulação que inflaciona o mercado de transferências."

É isto que a nossa Liga está tão empenhada em defender.

(obrigado, @Sporting_Soul e @nunovalinhas)



Nota: a tradução é minha, a partir de alguns excertos do texto deste link.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Quem mandatou a Liga?

As Ligas portuguesa e espanhola emitiram ontem em simultâneo um comunicado onde anunciam a contestação na Comissão Europeia da decisão da FIFA e UEFA em banir a partilha de passes de jogadores com fundos (TPO's). Nada de novo - a imprensa internacional já tinha dado a notícia há cerca de uma semana - mas por algum motivo desconhecido só agora foi confirmada oficialmente.

Os textos utilizados nos dois comunicados são praticamente coincidentes, com apenas alguns ajustes à realidade de cada país, mas a argumentação apresentada é absolutamente surreal, com especial destaque para estes parágrafos:
Esta proibição prejudica os clubes, principalmente aqueles com menos recursos económicos, impedindo-os de partilhar as receitas obtidas com os direitos económicos resultantes das transferências dos jogadores profissionais que são da titularidade dos clubes, e gerir assim da forma mais prudente as suas obrigações financeiras. Esta proibição também prejudica a formação de dezenas de jogadores, cujas carreiras profissionais se apoiaram nos recursos humanos, técnicos e económicos de terceiros.
Por último, esta proibição afasta a possibilidade das Ligas Profissionais, como a portuguesa, de terem jogadores que no futuro passam a ser reconhecidos como os melhores jogadores do mundo, diminuindo assim o valor competitivo e financeiro das próprias Ligas.  

Segundo a Liga de Luís Duque, a proibição de partilhas e passes não só prejudica a formação de jogadores como também nos impedirá de termos de jogadores que futuramente poderão ser reconhecidos como os melhores do mundo. 

Luís Duque deve andar distraído: que papel tiveram os fundos no desenvolvimento dos melhores jogadores portugueses da história recente? Nenhum! Quanto muito só atrapalham, pois ao colocarem jogadores estrangeiros nos clubes portugueses apenas estão a tapar o caminho aos jovens da formação que aguardam por uma oportunidade para se imporem nos plantéis principais. Ou seja, só pode estar preocupado com a formação de países que não o nosso.

E está por demonstrar que esta medida afaste a possibilidade de os clubes portugueses poderem contar com jogadores estrangeiros que no futuro possam ser reconhecidos como os melhores do mundo. É verdade que com a atual valorização de jogadores promissores da América do Sul os clubes portugueses não têm meios próprios para os contratar, mas isso deve-se em grande parte ao inflacionamento dos passes em função da ação dos próprios fundos. Com os fundos fora de cena, a procura destes jogadores reduz-se e o mercado acabará inevitavelmente por se ajustar para valores mais razoáveis.

Quanto à argumentação de que esta medida prejudica os clubes: depende dos clubes, não? Será que o Guimarães ou o Paços de Ferreira sentem que é justo ver o Braga ou o Rio Ave a receberem constantemente jogadores que lhes seriam inacessíveis sem a benção de Jorge Mendes? Ou será que para esta liga há clubes que são filhos e outros que são enteados? (pergunta retórica, todos sabemos a resposta)

Há também um outro fator que desaconselha totalmente a utilização dos fundos: a sustentabilidade financeira. Não há clube português que não apresente sistematicamente défices operacionais nos seus R&C's, e apenas conseguem resultados minimamente equilibrados quando obtêm mais-valias através de vendas de jogadores. Ou seja, o que os clubes portugueses precisam é de formar, desenvolver e valorizar os seus próprios ativos para garantir o seu equilíbrio financeiro. Estar a apostar em ativos de terceiros pode compensar desportivamente no curto prazo, mas representa um enorme risco financeiro - e consequentemente desportivo - no médio / longo prazo.

Olhemos para o Porto, que é considerado um exemplo de boa utilização dos fundos: este ano apresentou um orçamento para o futebol a rondar os €71M. Considerando o histórico das contas do Porto, e já contando com a participação na Liga dos Campeões, para não apresentarem prejuízo este ano terão que obter cerca de €55M em mais-valias (números por alto). €25M estão garantidos por Mangala e Defour, faltando ainda €30M. Isto significa que terão que vender mais dois jogadores cujo passe lhes pertença na maioria. Olhando para o 11 do Porto, só poderão ser Jackson, Danilo ou Alex Sandro (Herrera não deve estar ainda suficientemente valorizado), sendo que os dois brasileiros estão a pouco mais de um ano do fim do contrato - provavelmente renovarão, mas à semelhança de Fernando ficarão com um salário milionário, obterão um prémio de assinatura chorudo e eventualmente terão direito a uma percentagem de uma futura venda.

De resto, os habituais titulares do Porto com maior potencial de valorização não pertencem ao clube. Oliver, Casemiro e Tello são emprestados e Brahimi pertence 80% a um fundo. Indi chegou há pouco tempo e Quaresma já está na fase descendente da carreira. E mais cedo ou mais tarde terão que indemnizar um fundo pelo dinheiro que investiram em Reyes, um jogador caríssimo que não se consegue impor na equipa.

E depois de venderem Jackson e Danilo / Alex Sandro, no ano seguinte onde irão arranjar os €50M / €60M de que necessitarão?

Com isto quero demonstrar que se a prioridade dos clubes portugueses não for valorizar os seus próprios ativos, é uma questão de tempo para se colocarem numa situação financeira extremamente delicada. O Sporting, que tão mal utilizou os fundos na era de Godinho Lopes e... Luís Duque, que o diga. Aliás, ainda hoje estamos a pagar por esses erros.

Voltando ao comunicado da Liga, o que eu gostava de saber é quem é que mandatou Luís Duque para tomar esta atitude. Tanto quanto sei, não houve recentemente qualquer reunião dos clubes. Ou já se assume que esta Liga deverá agir sempre como primeira defensora dos interesses de determinados clubes, empresários ou fundos?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O império contra-ataca

Notícia completa AQUI (obrigado, Paulo Lopes e @captomente!)

Não me lembro de o apoio aos fundos ter sido referido como parte do programa de Luís Duque para a Liga. Vendo bem, não me lembro de ter sido divulgado qualquer programa para este mandato - para além de retirar Mário Figueiredo e arranjar novos patrocinadores.

Acho estranho é que o Benfica apoie uma direção da Liga que toma as dores do Porto. Mas também é verdade que não vão querer chatear Jorge Mendes...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A ironia e os beneméritos

in abola.pt

É no mínimo irónico ver que uma das primeiras medidas tomadas por Luís Duque enquanto presidente da Liga é o pedido de uma auditoria externa às contas do organismo. Trata-se de uma medida perfeitamente compreensível atendendo ao buraco financeiro em que a Liga se meteu, mas fico curioso para saber se determinados opinadores irão fazer o mesmo tipo de observações condenatórias que fizeram quando a atual direção do Sporting anunciou a auditoria de gestão das direções anteriores.

O que não é tão compreensível é que alguém considere positivo que Porto e Benfica se ofereçam para sustentar as competições em caso de emergência. É assustador pensar que, numa situação dessas, teríamos delegados e árbitros numa posição de dependência direta do estado de espírito de dois presidentes que já demonstraram serem capazes de tudo, dentro e fora de campo, para facilitar a vitória dos seus clubes.

Se já há delegados que fecham os olhos e não incluem no relatório factos gravíssimos (no episódio da escaramuça de Jesus com a polícia, nem o árbitro Bruno Esteves - ring a bell? - nem os dois delegados da Liga, nem o chefe dos delegados - que também estava presente no relvado - se lembraram de relatar o ocorrido), se já há árbitros e fiscais-de-linha que em caso de dúvida favorecem constantemente os mesmos, já imaginaram o que acontecerá se eles tiverem a consciência de que o pagamento do seu salário estará dependente do bom ou do mau humor de Pinto da Costa ou de Luís Filipe Vieira?

Ninguém vê nenhum conflito de interesses se isto acontecer?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ele lá saberá como as coisas se fazem

Luís Filipe Vieira, a 28 de setembro de 2013, após o Benfica 1 - Belenenses 1 (em que o árbitro prejudicou o Benfica):

in maisfutebol.pt

Ontem:

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O Duque que virou Frade

                                                                                                                                                   

Na idade média era muito comum ver os segundos filhos de famílias nobres seguirem uma carreira eclesiástica, já que todas as propriedades e riquezas eram passadas para o filho varão de forma a não enfraquecer o poder da casa. O clero era uma classe com muito poder, e esses filhos dos nobres, sem perspetivas de terras ou títulos, acabavam por ter assim a sua oportunidade de contribuir para o reforço da força da família. Assim, era frequente que o nobre arranjasse forma de colocar o seu filho como auxiliar de bispos ou de qualquer outro mentor capaz de facilitar a subida do jovem na escada hierárquica da Igreja.

O que já não era tão comum, era que um desses filhos de nobres fosse para uma ordem que exigisse um voto de pobreza, como os franciscanos. Menos comum ainda era ver o próprio Duque decidir ele próprio passar a Frade.

Ontem assistimos a um desses raros casos na história da humanidade, neste caso tendo como mentores o "Papa" e o dono de uma "Catedral". É admirável ver um homem com fama de bon vivant ter a humildade e a coragem para renunciar a bens materiais nada negligenciáveis (nomeadamente um salário que andará à volta dos €10.000 mensais), satisfazendo-se com a alimentação espiritual proveniente da justiça da causa a que prometeu dedicar-se. 

Mais uma originalidade do futebol português. S. Francisco de Assis ficaria orgulhoso.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Pôr uma raposa a guardar o galinheiro

                                                                                                                                                             
Ontem, no programa 4x4x3, Alexandre Santos faz a certa altura a seguinte pergunta ao convidado José Eduardo:

AS - "De que forma pode e deve ser rentabilizada a Liga, que neste momento está com a corda na garganta?"

JE - "Como é que deve ser? Com gente competente."

AS - "Mas de que maneira?"

JE - "Para já, com um líder que não seja despesista."


Confesso que apenas tinha visto a escolha do ponto de vista político, mas realmente se refletirmos sobre as competências e qualidades do futuro presidente da Liga, a poupança e contenção financeira não serão certamente aquelas que aparecerão em primeiro lugar.

Numa altura em que a Liga não tem dinheiro para mandar cantar um cego, se calhar talvez fosse interessante encontrar alguém com um perfil ligeiramente diferente.

Desta vez se Duque quiser cheques, vai ter que suar as estopinhas para os arranjar.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Par de duques

                                                                                                                                                
A saída Mário Figueiredo é inevitável há muito
                                                                                                                                                           
Ponto prévio: independentemente das opiniões que vou dar sobre o processo de escolha de Luís Duque para o cargo de presidente da Liga e sobre as motivações de quem se lembrou de o convidar, não tenho dúvidas que Mário Figueiredo tem que ser afastado a bem do futebol português.

Sim, Mário Figueiredo afrontou os poderes instalados (Olivedesportos e Porto), mas fora isso o seu mandato foi caracterizado por um comportamento errático ao sabor dos apoios que julgava recolher no momento. Quem acabou por sofrer com isso foram as competições geridas pela Liga.

Mário Figueiredo não descansou enquanto não alargou o campeonato. Em 2012/13 chegou a propor a passagem para 18 clubes para 2013/14, que implicaria a alteração do esquema de promoções e relegações na própria época que estava em curso - proposta que acabou por ser chumbada na FPF. No ano seguinte, aproveitou a decisão do CJ que anulava a relegação do Boavista para concretizar os seus objetivos. A Liga tem agora 18 clubes, mas a competitividade não ganhou nada com esse alargamento. Entretanto também já tratou de expandir a II Liga para 24 clubes, o que é um completo absurdo financeiro e desportivo.

O facto de a Liga ter perdido praticamente todos os patrocínios (não só da Liga mas também da Taça da Liga) é outro ponto negativo, mas aí há duas atenuantes que Mário Figueiredo não podia controlar: a conjuntura económica e o ambiente de guerrilha que foi aberto por grande parte dos clubes a partir do momento em que os direitos da Olivedesportos foram colocados em causa.

Esse ambiente de guerrilha descredibilizou ainda mais o futebol e Mário Figueiredo deixou de ter quaisquer condições para continuar no cargo, sendo de lamentar os expedientes a que recorreu para tentar perpetuar-se no poder.

Resumindo, Mário Figueiredo foi um mau presidente da Liga e não gostei quando soube que o Sporting votou nele nas últimas eleições - mesmo considerando que era a única lista que foi a votos.


As motivações de Pinto da Costa

Parece-me óbvio que era do interesse do Porto afastar uma direção que lhe era hostil, não só por todos os inconvenientes práticos que Mário Figueiredo lhes causava em assuntos tratados pela Liga, mas também pela perda de face que é para Pinto da Costa não ter qualquer controlo num dos órgãos de poder do futebol português - mesmo que o poder real da Liga de Clubes seja atualmente bastante escasso.

Mas a motivação principal é, obviamente, a batalha que Mário Figueiredo estava a fazer contra a Olivedesportos, procurando anular os contratos em vigor de forma a poder renegociar de forma centralizada os direitos de televisivos. 

Seara era o nome inicialmente escolhido pelas boas relações que tem com a Olivedesportos, mas perante a sua recusa para encabeçar novamente uma lista, Duque acaba por ser the next best thing. Aliás, Duque e Seara são unha com carne. Ou carne com unha, talvez seja mais adequado. Não só são amigos de longa data, como também Duque foi vereador de Seara na Câmara de Sintra, e Seara foi adjunto de Duque durante a sua presidência da AF Lisboa.

Outra questão relacionada com a renegociação dos jogos que incomodava Pinto da Costa seria a intenção de Mário Figueiredo distribuir uma parcela maior das receitas pelos clubes mais pequenos.

O percurso de Pinto da Costa e Joaquim Oliveira tem sido feito de mão da dada na turva história recente do futebol português, pelo que não se é de surpreender esta atitude por parte do Porto.


As motivações de Vieira

Aqui é onde tudo fica mais confuso. A partir do momento que o Benfica avançou com a transmissão dos seus jogos, não parece que faça sentido que apoiem alguém que procure centralizar os direitos televisivos. A centralização implica que TODOS os jogos sejam vendidos em pacote a uma única cadeia, o que à partida significaria o fim da BTV.

Mas a verdade é que parece ser esse mesmo o objetivo do Benfica, pelo menos a julgar pelas palavras de Rui Gomes da Silva na segunda-feira passada:


Quando o vice-presidente do Benfica diz que Duque será um grande presidente da Liga se conseguir liderar um projeto de concentração de direitos televisivos, as intenções do Benfica ficam bastante mais claras.

Concentração implica um único operador. Perante isto há três hipóteses:
  • O Benfica quer comprar todos os direitos televisivos para a BTV - politicamente impossível, e o Benfica não tem a liquidez necessária para pagar antecipadamente a todos os outros clubes.
  • O Benfica está a preparar terreno para a entrada de um outro operador na disputa dos direitos - pouco provável, pois os relacionamentos políticos de Joaquim Oliveira impediriam um cenário desses (não esquecer que a banca entrou no capital da Controlinveste no âmbito da reestruturação financeira do grupo de Oliveira, e não irá financiar um potencial concorrente).
  • O Benfica chegou à conclusão que não é compensador continuar a deter os seus direitos televisivos e quererá que a BTV seja uma espécie de SportTV 6 (RGS fala em diferentes plataformas), incorporada no pacote SportTV.

Esta última hipótese parece-me bem mais provável, por três motivos:
  • A BTV, num ano de enorme sucesso desportivo, não teve lucro que compensasse a proposta de €22,2M / ano que a SportTV fez. Conseguiu chegar aos 300.000 assinantes apenas num mês em que recebeu Porto e Sporting, o que certamente terá levado a captado provisoriamente assinaturas de adeptos não-benfiquistas. 
  • Certamente que estará na mente dos dirigentes benfiquistas o que pode acontecer às receitas da BTV se a prestação desportiva não corresponder às expetativas dos seus adeptos.
  • Vantagens do ponto de vista de liquidez, pois o Benfica receberia antecipadamente o dinheiro dos direitos televisivos (em vez de receber à medida que os assinantes pagam) - numa altura em que o crédito bancário nunca esteve tão apertado.

A centralização dos direitos televisivos seria uma forma de Vieira poder acabar com o projeto de transmissão dos próprios jogos sem perder a face (pelo menos na cabeça dele - falamos do homem que tentou convencer o mundo de teve lucro na venda de Roberto), e incorporando a BTV na SportTV seria talvez uma forma de contornar a indexação dos contratos de Sporting e Porto ao que o Benfica receberá ao vender os seus direitos.

Outra conclusão que se tira, perante os almoços na Mealhada e os apertares de mão entre Vieira e Pinto da Costa, é que depois de longos anos a correr por fora, o presidente do Benfica sente-se finalmente confortável a vestir o fato do tal "sistema" que antes dizia combater.


O comportamento do Sporting no processo de escolha de Duque

Por norma não gosto de ver o meu clube a excluir-se da resolução de problemas que interessam a todos, mas a nomeação de Duque apenas vem dar razão à ausência do clube da reunião que determinou a sua escolha.

Benfica e Porto encontraram um ponto comum de entendimento e, mais do que discutir um programa que girasse em torno do interesse das competições, preocuparam-se apenas em encontrar um nome (escolhido secretamente pelos dois presidentes, tendo sido revelado aos outros clubes na própria reunião que o "elegeu") que erguesse o estandarte dos seus interesses. Para além disso, tem o bónus de ser uma figura envolvida num conflito judicial com o Sporting. O facto de Godinho Lopes ter sido contactado antes de Duque demonstra que a exclusão do Sporting de uma eventual solução era um ponto fundamental para Vieira e Pinto da Costa.

Esta escolha de Luís Duque por Benfica e Porto não é mais que um par de duques no póquer: uma mão demasiado fraca para ganhar que só pode iludir tolos.

Como tal, fez bem o Sporting em não cair no bluff dos rivais e demarcar-se desta escolha. Já existe demasiada gente a fazer figura de tolo à mesa.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Contos e contas

Foi divulgado o relatório e contas da última época desportiva do Sporting. Godinho Lopes já não mora em Alvalade, mas é caso para dizer que os efeitos da sua obra vão perdurar no tempo e serão incontornáveis sempre que se quiser falar das finanças do clube.

Sousa Cintra, nos último dias de mandato, ofereceu uma estátua de um leão ao clube. Pagou do seu bolso, disse-se na altura, mas mais tarde descobriu-se que custou ao clube umas largas dezenas de milhar de contos, em moeda antiga. 

Godinho Lopes e o projeto desportivo roquetista não deixaram de legado uma estátua. Deixaram de legado as pirâmides de Gizé, que servem de local de eterno descanso às esperanças dos sportinguistas de terem a possibilidade de lutar com armas iguais com os seus adversários nesta década. A não ser, claro, que Porto e Benfica tenham um embate com a realidade semelhante ao que o Sporting está a enfrentar.

Ao fundo: aquisição de passes de maus jogadores pagos a peso de ouro, alienação de percentagens de passes de jogadores do plantel com maior valor potencial por valores irrisórios, contratos milionários de administradores incompetentes com cláusulas inacreditáveis, endividamento à banca irresponsável, crescimento galopante do passivo e dos capitais próprios negativos; À frente: Godinho, Duque e Freitas admiram a sua obra (não sei quem são os três homens que os estão a montar, mas suspeito que sejam Pinto da Costa, José Maria Ricciardi e Joaquim Oliveira)


É inacreditável a falta de competência técnica que esteve na formulação dos plantéis e outras decisões desportivas e financeiras nos dois longos anos do mandato de GL. E pior do que isso foi a falta de bom senso, que deveria ser suficiente para fazer tocar algumas sirenes de alarme em algumas daquelas cabeças. Também há a hipótese de ter sido tudo propositado, mas isso seria ainda mais grave.

Fica a faltar a auditoria externa. Dificilmente, num país em que a classe política sai sempre impune dos crimes efetuados contra o interesse do país, se conseguirá provar e condenar em tribunal a gestão criminosa a que o clube esteve sujeito. Pelo menos servirá para expor publicamente gente que sempre se preocupou muito mais com as aparências e a promoção pessoal do que com o clube que se comprometeram a defender. Não é castigo suficiente mas já será alguma coisa.