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segunda-feira, 3 de junho de 2024

Another Varandas, Zenha & Viana appreciation post

Credit where credit is due. Se, em maio de 2021, enquanto celebrávamos de máscara o fim de um jejum de 19 anos, havia a consciência de que, a par de muito mérito no trabalho desenvolvido, também tinha havido uma conjugação de fatores irrepetíveis (Covid, estádios vazios, eliminação precoce das competições europeias) que desempenhou um papel naquilo que, meses antes, parecia impossível, agora, em maio de 2024, vemos que fomos campeões devido, integralmente, à competência de quem está no clube. Houve 0% de sorte na conquista deste título. O Sporting sagrou-se campeão porque teve, de longe, os dirigentes, técnicos e jogadores mais competentes desde o momento em que a época começou a ser preparada até à última jornada do campeonato.

Entre os resultados alcançados, estado dos rivais e as perspetivas futuras, estamos a viver um período realmente atípico. Seguramente um dos melhores, se não mesmo o melhor, de que me lembro. Por um lado, isso só é possível porque, de facto, têm sido muito mais as más fases do que as boas. Mas, por outro, também nos permite perceber que nunca nada está garantido e de que o processo, para ter sucesso continuado, tem de apontar para uma melhoria constante, nunca facilitando. 

Os sócios e adeptos também têm um papel a desempenhar nesse processo. Começando por saber identificar o que tem sido bem ou mal feito e reconhecer ou apontar os méritos e deméritos dos responsáveis, independentemente de se simpatizar mais ou menos com as pessoas em causa. Aqui fica o meu pequeníssimo contributo nesse sentido.


Política de transferências bem afinada

O futebol português teve dois períodos hegemónicos do século XXI: entre 2002/03 e 2012/13, o Porto limpou 9 campeonatos em 11; seguido do período entre 2013/14 e 2018/19 do Benfica, que venceu 5 campeonatos em 6. Ambas as hegemonias tiveram dois pilares que as sustentaram. O primeiro pilar foi o jogo de influências nos bastidores, dos apitos dourados, dos conselhos matrimoniais a árbitros, dos Gonçalves e Boaventuras da vida, dos amigos colocados nos centros de decisão de futebol nacional e das famosas ajudas desinteressadas a vários clubes que competiam no escalão máximo do futebol português. Mas havia também um segundo pilar, legítimo - ainda que muito impulsionado pelas facilidades concedidas pelo primeiro -, que era a capacidade de contratar, desenvolver, valorizar e vender jogadores, proporcionando rendimento desportivo e um elevadíssimo retorno financeiro que, por sua vez, criava condições para novas contratações de jogadores de grande potencial. Um círculo virtuoso, difícil de iniciar, por exigir a conjugação de sucesso desportivo, capacidade negocial e de habilidade na identificação de atletas que se insiram na estratégia do clube.

O Sporting não está em posição para alcançar uma posição de hegemonia - não só por não entrar nos mesmos jogos de bastidores, como também por ter um adversário com capacidade para gastar muito mais em contratações e salários -, mas está em condições de impedir que outra se instale, interferindo nas lutas pelo título e podendo sagrar-se campeão com uma frequência bastante superior ao que tem sido norma nas últimas largas décadas. E isto porque parece ter conseguido entrar no seu círculo virtuoso, que, bem mantido, assegurará condições para ser sempre competitivo, independentemente de quem saia no final de uma determinada época.

Varandas, Zenha, Viana e Amorim parecem ter encontrado a fórmula para o sucesso. Diria que a última lição terá acontecido em agosto de 2022, quando Matheus Nunes foi vendido em desespero a poucos dias do fecho do mercado e foram contratados vários jogadores low cost que pouco ou nada contribuíram desportivamente. O panorama, hoje, é bem diferente. Ao contratar, apontam para alvos de potencial elevado mas já com uma rodagem considerável em contextos competitivos relevantes. Compreendem que a chance de correr bem é muito superior quando se gasta mais. Desenvolvem os jogadores, tiram partido desportivo e, ao perceberem que há uma potencial venda no horizonte, começam a trabalhar na substituição. O alvo é identificado, trabalhado e negociado, demore o tempo que demorar. 

Francisco Zenha, na entrevista recente dada à TVI, disse algo muito importante, mais ou menos neste sentido: o Sporting, neste momento, pode escolher quem e quando vende. E isso faz toda a diferença, quer desportivamente, quer no momento das negociações.


Situação financeira equilibrada e estratégia em sintonia com a vertente desportiva

Neste momento, o Sporting poderia facilmente pagar toda a sua dívida bancária, de factoring e obrigacionista (128M a 31/12/2023) se vendesse dois ou três dos seus jogadores mais cotados, como Gyökeres, Inácio, Hjulmand ou Diomande. Não o fará, evidentemente, porque é muito mais importante manter ou aumentar o rendimento desportivo do que abater a dívida toda de uma vez. O fundamental é que a questão da dívida, financeira e a fornecedores, já está controlada e acabará por se resolver se o Sporting se mantiver competitivo dentro de campo.

É muito importante ter prioridades bem definidas e, evitando riscos excessivos, saber onde aplicar o dinheiro disponível. Diria, que dos três grandes, o Sporting é o clube que tem o rumo mais bem traçado. 

O Porto vai passar por alguns anos complicados. A situação financeira é dramática. Exigirá a venda de alguns dos seus jogadores mais cotados e cortes profundos nos gastos. Com uma capacidade de investimento reduzida e sem Liga dos Campeões, será mais difícil atrair treinadores cotados e jogadores de um patamar elevado para os padrões da nossa liga. Não quer dizer que não possam ser competitivos - o Sporting já demonstrou no passado que é possível competir com menos meios -, mas exigirá um nível de acerto elevadíssimo nas opções tomadas.

O Benfica é, dos três, o que tem maior capacidade de investimento, mas a estratégia desportiva parece mais errática. Nos últimos anos, tem dado a ideia de que contratam mais pelo efeito mediático (wonderkids e jogadores com nome) do que pelas necessidades do plantel, como Kokçu (MVP da Eredivisie, mas que não encaixou na estratégia do treinador), Prestianni, Rollheiser, Schjelderup (com futuro mas que no imediato praticamente não contaram) ou Gonçalo Guedes, Bernat, Draxler (lesionados crónicos com nome mas com rendimento nulo). Todos os clubes falham ao contratar, mas o Benfica tem desperdiçado muito mais, o que tem permitido aos rivais nivelar os pratos da balança.

O Sporting também falha, obviamente. Fresneda ficou aquém das expetativas, e os reforços de inverno, Pontelo e Koba, nada acrescentaram. Mas as duas grandes prioridades estabelecidas para 23/24 (o ponta-de-lança e o médio defensivo), que consumiram 80% do orçamento disponível para as transferências, foram de um acerto total e deram o impulso competitivo de que o clube necessitava. Para o resto, Amorim cozinhou a solução.

Os primeiros sinais do mercado deste verão são animadores. A grande necessidade do plantel (guarda-redes) parece fechada e já se cobriu a provável saída de um central. Pelas notícias, haverá interesse em contratar pelo menos mais um ponta-de-lança e um ala esquerdo. Se houver uma taxa de acerto idêntica à do verão passado, teremos um novo salto na competitividade da equipa.

Não sabemos ainda como decorrerá o reforço do plantel neste defeso, mas pelo menos parece ser bem pensado.


Modalidades competitivas

Somos competitivos na maior parte das modalidades e os troféus continuam a entrar no museu a um bom ritmo. Seis anos depois, voltámos a ser campeões no andebol, com uma equipa entusiasmante que fez também uma excelente carreira europeia. Conquistámos o quarto título de campeão europeu no hóquei em patins. No futsal, as dificuldades têm sido maiores, mas continuamos a estar em todas as decisões. O voleibol teve a melhor época em vários anos, conquistando uma Taça de Portugal e foi mais competitivo no campeonato. O basquetebol teve a pior época desde que voltámos a ter uma equipa no escalão sénior masculino.

É normal haver altos e baixos nas várias equipas. Épocas como a de 17/18, em que fomos campeões em todas as modalidades em que competimos, são extremamente raras para qualquer clube e não devem ser o padrão de exigência. O fundamental é que as nossas equipas tenham capacidade para discutir títulos, tendo sempre consciência de que não competimos sozinhos e de que há adversários competentes que investem tanto ou mais do que nós.

O gabinete olímpico tem tido algumas decisões discutíveis, mas é preciso termos consciência de que os recursos são limitados e, para se colocar dinheiro numa determinada secção, é preciso retirar de outra. São decisões complexas que afetam a vida de atletas e funcionários. O melhor que podemos esperar é que sejam tomadas com a maior justiça possível e com o superior interesse do clube em mente.


Infraestruturas em modernização

Gradualmente, a modernização do estádio começa a ser uma realidade. A substituição das cadeiras foi transformativa, o controlo das entradas melhorado, estão a decorrer obras de renovação em diversas áreas, interiores e exteriores, os tenebrosos ecrãs do estádio estão finalmente a ser substituídos e há planos para tapar o fosso. Quando tudo isto for uma realidade, o estádio ficará irreconhecível em relação ao passado... para muito, muito melhor. Mais moderno e, sobretudo, muito mais em linha com a identidade do Sporting. 

Haverá, seguramente, outras melhorias que seriam muito bem-vindas (sistema de revenda e empréstimo de gameboxes que permita ter um estádio sem clareiras, o sistema de som do estádio, a qualidade da oferta dos bares, nivelamento do piso em determinadas áreas do estádio que ficam inevitavelmente alagadas quando chove), mas o trabalho que tem sido feito nos últimos anos merece ser elogiado. Há finalmente vontade de investir a sério na segunda casa dos sportinguistas.


Investimento no espetáculo fora de campo

A reta final da época trouxe novas iniciativas que valorizam o espetáculo fora das quatro linhas. As coreografias, a pirotecnia montada no relvado e na cobertura, a festa do Marquês e a cerimónia final da celebração do título em Alvalade foram iniciativas muito bem montadas e organizadas, que tornaram toda a experiência ainda mais especial.

Mas a vertente do espetáculo proporcionado pelas claques também é muito importante para o ambiente. A utilização de tarjas, adereços, e equipamentos como megafones e os bombos não deviam estar limitados às aberrantes zonas especiais para adeptos. A "trégua" no último jogo do campeonato mostrou como o espetáculo sai valorizado se as claques tiverem condições para dar o seu melhor contributo, e seria bom que isso voltasse a ser uma realidade permanente.


O futuro é verde

Haverá sempre questões a rever e arestas a limar, mas o balanço do trabalho realizado é, obviamente, muito positivo. Depois de dois anos iniciais muito turbulentos, a direção de Varandas aproveitou o efeito Amorim para se encontrar, equilibrar e estabelecer uma estratégia desportiva e financeira coerente e quase sempre bem executada.

Diria que o teste final acontecerá no dia em que Rúben Amorim for chamado para outro campeonato. Mas, aconteça isso quando acontecer (e que esse dia esteja ainda distante), creio que a estrutura já é suficientemente sólida para identificar alternativas e apresentar um projeto capaz de atrair outros treinadores com capacidade para manter o clube na rota do sucesso. 

Olho para o clube e vejo estabilidade, competência e um rumo bem definido, que me deixam otimista e confiante para os desafios que se seguirão. Foram mortos uma série de fantasmas e mitos, as décadas de autofagia parecem ter ficado para trás, e acontecer Sporting tem agora outro significado. Mostraram que é possível competir e ganhar sem abdicar dos valores que nos separam dos demais. 

O futuro é verde.

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Cinco jogos que definiram a época

A diferença dentro das quatro linhas foi de tal forma clara em relação aos adversários, que acabaram por não existiram tantos momentos icónicos como em 2020/21. Ainda assim, aqui ficam os 5 jogos que, a meu ver, foram os mais importantes na caminhada para o 24º título nacional do Sporting.


5º A importância de se entrar com o pé direito

Sporting 3 - Vizela 2 (1ª jornada) 

Primeiro jogo do campeonato. Depois de uma época desapontante a todos os níveis, a entrada em campo não poderia ter sido mais afirmativa: Gyökeres fez o gosto aos dois pés ainda dentro dos 15' e o Sporting parecia arrancar para uma vitória fácil e expressiva. No entanto, no espaço de 2 minutos, o Vizela empataria a cerca de 15 minutos do fim. O início de sonho evaporou-se e cada sportinguista presente nas bancadas e em casa começou a questionar-se se 23/24 não seria mais do mesmo.

Mas não foi. O Sporting voltou a carregar e, aos 90'+9, num último fôlego, Paulinho acabaria por marcar o golo da vitória. Euforia nas bancadas e Alvalade cantou um dos "Freed from Desire" mais épicos de que há memória. Momento arrepiante que serviu de mote para o resto da época.


4º O murro na mesa

Vitória SC 3 - Sporting 2 (13ª jornada)

Jogo com muitas incidências mas que teve uma intervenção decisiva de João Pinheiro e Hugo Miguel. Aos 45', quando o Sporting vencia por 1-0, o árbitro assinalou penálti por suposto derrube de Adán a Ricardo Mangas. Falta inexistente, visto que se tratou de simulação. Em vez de o árbitro mostrar amarelo ao jogador do vitória (que seria o 2º e consequente expulsão) que deixaria o Sporting em vantagem no marcador e também em vantagem numérica, as equipas foram empatadas para o intervalo.

Apenas duas jornadas após a amarga derrota na Luz, registou-se este novo desaire. Mas a verdade é que a equipa parece ter sentido a injustiça, e soube reagiu da melhor forma possível, partindo para um resto de campeonato praticamente imaculado. 20/21 teve o 2-2 de Famalicão, 23/24 teve o 3-2 de Guimarães.


3º Vincar a diferença

Sporting 2 - Porto 0 (14ª jornada)

Encontro de líderes em Alvalade, com o Porto. O Sporting parecia em quebra, vindo de duas derrotas na três jornadas anteriores. Para além disso, somava-se a preocupação de haver 3 centrais indisponíveis (Coates e St. Juste lesionados, Diomande na CAN). Amorim apostou em Quaresma e o miúdo respondeu com uma exibição primorosa. Secou Galeno e ainda teve pernas para construir uma jogada primorosa com assistência para golo mal anulado a Gyökeres.

O Sporting demonstrou ser muito superior ao Porto e, havendo justiça, o resultado devia ter sido 4-0 (ainda houve outro golo mal anulado a Paulinho). A equipa mostrou ter estofo para dar a volta ao pior momento da época e assumiu a liderança isolada do campeonato - que nunca mais largaria sem ser "à condição". Para além disso, foi o princípio do fim das aspirações do Porto ao título.


2º Momentos de Genyo 

Sporting 2 - Benfica 1 (28ª jornada)


Geny Catamo ainda tem uma longa carreira pela frente, mas nunca se esquecerá deste jogo. Inaugurou o marcador logo ao 1º minuto, ainda o público de Alvalade não se tinha sentado após cantar "O Mundo Sabe Que", e garantiria a vitória nos descontos com um remate que levou o estádio à loucura.

A exibição não foi boa. Foi, possivelmente, dos poucos jogos da temporada em que o Sporting não foi a melhor equipa em campo. Não conseguiu ter bola na primeira parte e, na segunda parte, as oportunidades de golo repartiram-se. O acaso por vezes tem o seu papel e, neste jogo, a vitória poderia ter caído tanto para um lado como para o outro.

O momento de Genyo teve ainda a particularidade de livrar Daniel Bragança de um estigma semelhante ao que Bryan Ruiz teve de suportar depois daquele falhanço no dérbi de 15/16. Não foi por esse lance que o Sporting perdeu esse campeonato - que se deveu muito mais aos boaventuras da vida - mas de certeza que não houve sportinguista que não tivesse revivido o momento quando, minutos antes ao golo de Geny, Bragança pisou a bola e não a conseguiu meter na baliza. Mas, felizmente, estava escrito que era uma época para matar fantasmas e não para os criar. 


1º Quem é o Rei agora?

Famalicão 0 - Sporting 1 (20ª jornada) 

4 de fevereiro. À partida para a 20ª jornada, o Sporting era líder isolado e mantinha 1 ponto de avanço sobre o Benfica, vantagem que se mantinha desde a derrota em Guimarães. Se na tabela classificativa a diferença era mínima, a nível exibicional não se passava o mesmo: enquanto o Sporting atropelava adversários e vencia de forma categórica, o Benfica ia-se aguentando com exibições sofríveis e pouco convincentes, parecendo sempre mais perto de ceder do que o líder.

Uma greve bastante seletiva das forças policiais acabaria por forçar o adiamento do Famalicão - Sporting para meados de abril, por não haver abertura no calendário. 

Nesse mesmo dia de fevereiro, o Benfica venceu o seu jogo e subiu, à condição, para a frente da classificação. Na ressaca dessa vitória, não passou despercebido o esforço concertado da comunicação do clube, com a ajuda dos jornais e comentadores do costume, para fazer do momento um ponto de viragem no campeonato. Durante semanas, fez-se de conta que o Sporting não tinha um jogo em atraso.

Quem não foi na conversa foi Frederico Varandas. "Queremos chegar à nova data com menos um jogo e em primeiro lugar.". Não se enganou. O Sporting disputaria o jogo em atraso a 16 de abril, após a 29ª jornada, com um avanço de 4 pontos sobre o Benfica. Venceria o Famalicão por 1-0, aumentando para 7 pontos a vantagem sobre o rival, e colocando praticamente um ponto final sobre a questão do título.

O dérbi de Alvalade foi crítico para a definição do campeão, mas o jogo de Famalicão foi, para mim, o mais simbólico. E, ironia do destino, seria precisamente em Famalicão que o Benfica entregaria de bandeja o título ao Sporting. 

Quem é o REI agora?

quarta-feira, 19 de maio de 2021

The Frederico Varandas & Hugo Viana appreciation post

Chegou o momento de dar a mão à palmatória. Depois da catastrófica época de 19/20, nunca imaginei que Varandas e a sua equipa conseguissem dar a volta como deram, ainda mais num espaço de tempo tão curto. A minha descrença não se devia a falta de vontade em vê-los a ter sucesso - afinal de contas, votei nesta direção nas eleições de 2018 -, mas porque não conseguia vislumbrar qualquer rumo estratégico coerente nem capacidade para inverter a tendência de definhamento a que o clube parecia condenado no futebol. Mas, da mesma forma que há um ano me sentia defraudado, é da mais elementar justiça que afirme agora que o trabalho desenvolvido desde então foi excecional, e que sem isso não teríamos festejado o título que há tanto nos fugia.

Alguns dirão que foi sobretudo um golpe de sorte e que qualquer indivíduo pode ganhar o Euromilhões numa dada semana. Discordo por completo. Numa liga que tem os vícios que tão bem conhecemos e defrontando dois rivais com orçamentos muito superiores, sair o Euromilhões ao Sporting corresponderia a aproveitar o demérito de uma dessas equipas e garantir o acesso direto à Liga dos Campeões com um 2º lugar no campeonato. Ser campeão com este nível de brilhantismo - sem derrotas até se ter levantado o troféu -, superando em simultâneo um Porto de nível europeu e um Benfica que investiu como nunca, com o acréscimo de ter de suportar algumas arbitragens escandalosas, de ter sido perseguido pelos CDs e ANTFs e Unilabs da vida, nunca poderia ser apenas um golpe de sorte. Seria o equivalente a ganhar o Euromilhões em três semanas consecutivas - algo que, obviamente, nunca aconteceu nem nunca acontecerá, nem sequer ao cidadão mais afortunado do mundo. O Sporting pode ter tido alguma sorte em determinados momentos, como acontece com todos os campeões, mas não foi a sorte que determinou este desfecho.

O que mudou, então? Não vou repetir o que já escrevi sobre a importância de Amorim, é unânime o reconhecimento do papel central que o treinador teve. Mas um treinador não ganha sozinho, precisa de quem lhe crie as condições necessárias para desempenhar o seu trabalho da melhor forma que sabe. É aí que entra a estrutura.


Competência em várias frentes


Reforços dentro e fora de campo. A estrutura à volta de Hugo Viana foi reforçada e isso permitiu uma preparação de época incomparavelmente melhor à anterior. Os novos jogadores foram chegando a tempo e horas, sem grandes novelas ou fugas de informação, as opções que se tomaram quer nas saídas e nas entradas foram certeiras tendo sempre em consideração as componentes desportiva e financeira. Convém não esquecer que o dinheiro disponível para reforços era escasso e havia todo um plantel para reconstruir após um 4º lugar dececionante, pelo que a criatividade nas negociações foi trunfo fundamental: recorreu-se a regressos de emprestados (Palhinha, Bragança) e empréstimos (Porro, João Mário), a contratações a custo zero (Adán, Antunes) ou de custo reduzido (Feddal), a permutas para reduzir o preço (Nuno Santos) e a partilhas de passes (Pedro Gonçalves, Tabata). O Sporting gastou menos em todos os seus reforços de verão do que o Benfica gastou em Waldschmidt (ou Pedrinho, ou Everton, ou Darwin). O aproveitamento dos reforços foi quase exemplar: dos 10 jogadores que entraram, 7 foram titulares quase toda a época. Mais tarde, no mercado de inverno, houve discernimento para perceber as carências e ambição para dar ao treinador exatamente o que pretendia. No global, o desempenho no reforço do plantel foi brilhante.

Formação. A formação foi utilizada como complemento efetivo às contratações, de forma convicta e persistente, com renovações e melhorias contratuais a acontecerem de forma rápida e natural em função do rendimento demonstrado em campo. O Sporting voltou a ser o clube mais atrativo para qualquer miúdo que sonhe ser profissional, conforme referiu Rúben Amorim no dia em que lançou Essugo.

Comunicação. As intervenções públicas da estrutura foram raras e só aconteceram em situações em que o treinador não se podia expor. Seria fácil cair na tentação de procurar protagonismo, ainda mais estando na liderança do campeonato durante tanto tempo, mas nunca o fizeram - nem sequer nos festejos do título.

Covid. O risco da pandemia foi, na medida do possível, bem circunscrito. Apesar de ter sido uma das primeiras equipas, se não a primeira, a ter um surto a afetar grande parte do plantel - dificultando a preparação para o arranque temporada por indisponibilidade de jogadores e impossibilidade de realizar jogos de preparação -, a reação de isolar a equipa numa bolha foi imediata e permitiu minimizar os danos. A eliminação da Liga Europa foi talvez a consequência indireta mais nefasta (um mal que veio por bem, sabemos agora), mas felizmente não comprometeu em nada o arranque na liga. 

Ligação aos adeptos. Em ano de jogos sem público, houve a inteligência de oferecer todo um novo leque de conteúdos aos sócios e adeptos que permitiram uma proximidade à equipa como nunca tinha antes existido - entrevistas do ADN de Leão, Backstage dos jogos, Inside dos treinos - e que foram fundamentais para uma completa identificação do público com a equipa.


Foi um trabalho que envolveu muitos tipos diferentes de competências, transversais a toda a organização. 

Frederico Varandas, enquanto responsável máximo do clube e SAD, e Hugo Viana, como diretor de futebol, foram alvo de inúmeras críticas durante a época anterior, a maior parte justas face ao desempenho da equipa. Felizmente tiveram a força de vontade, capacidade e fortuna necessárias para inverter a situação e alcançar o impensável. Merecem o devido reconhecimento pelo excelente trabalho realizado e pela época inesquecível que nos proporcionaram.


O que se segue?


Depois de uma época desastrosa e outra de sonho, o que podemos esperar da próxima? Diria que o principal desafio será evitar o deslumbramento pelo sucesso. Há que consolidar e desenvolver as aprendizagens das últimas épocas, perceber que os desafios de 21/22 serão superiores e que a fasquia da exigência dos adeptos estará colocada num nível mais elevado. Não haverá margem para facilitismos, e não me refiro apenas ao futebol. Deixo de seguida outros três pontos que deverão ser encarados de forma prioritária.

Finanças. Aproxima-se o reembolso do empréstimo obrigacionista de 26M. Penso que é praticamente inevitável que se emita um novo, de valor superior e com uma taxa de juro mais reduzida, que, tendo sucesso, permitirá restaurar alguma estabilidade na tesouraria pela primeira vez desde o verão quente de 2018. Essa estabilização será fundamental para se poder finalmente começar a juntar o pé-de-meia necessário para a recompra das VMOCs - momento que eliminará em definitivo o espectro de perda da maioria da SAD.

Modalidades. Muitos acusaram esta direção de desinvestir nas modalidades, mas o tempo tem mostrado que a racionalização de custos era necessária face às dificuldades que o clube atravessou, agravadas ainda mais pela pandemia. Todos os outros clubes, portugueses ou europeus, tiveram de fazer o mesmo. O tempo e o museu têm mostrado também que, de uma forma geral, continuamos a ter equipas competitivas: a época 2020/21 ainda não chegou ao fim e já temos títulos no futsal (Liga dos Campeões, Taça de Portugal referente a 19/20, Taça da Liga), basquetebol (Taça de Portugal e ainda a Taça de Portugal referente a 19/20), voleibol (Taça de Portugal), hóquei em patins (Liga Europeia), atletismo (Campeonato Nacional de Corta-mato Masculino e Feminino) e rugby (Campeonato Nacional de XV Feminino). Manter a competitividade e a sustentabilidade de todas as equipas será sempre o caminho certo, se possível aumentando de forma gradual o peso da formação nas equipas principais - as conquistas do futsal foram exemplares também nesse sentido.

Unidade. Aproveitar o bom momento para tentar chegar a um compromisso com as claques, de forma a podermos voltar a sentir o incomparável ambiente a que nos habituámos em Alvalade e no Pavilhão João Rocha. Obviamente que, aqui, será necessário existir boa vontade de todas as partes, mas a bem do clube, das suas equipas e atletas, é fundamental termos o conflito sanado quando os recintos desportivos forem reabertos ao público.


São desafios importantes que precisamos de superar. Os sportinguistas sabem, por experiência própria, que muitas coisas podem mudar no espaço de um ano: ainda há pouco tempo observámos o clube desabar sobre si próprio em poucos meses; mas neste último ano, muitas coisas mudaram para melhor, para muito melhor. Que continuemos a caminhar neste sentido e que daqui a um ano estejamos ainda mais próximos do clube eclético, competitivo, sustentável e unido que todos desejamos.

terça-feira, 28 de julho de 2020

"It's not me, it's you", parte 2: O plantel e o mercado

No post anterior debrucei-me sobre a dança de treinadores e total ausência de um fio condutor lógico e consistente nas sucessivas escolhas feitas neste mandato. Hoje vou escrever sobre o plantel e o mercado. Aqui, o panorama consegue ser ainda mais negro.

Varandas teve todo um ano 0 para preparar a época que agora terminou. Sou sensível ao argumento das dificuldades de tesouraria e da necessidade que havia em vender, mas não há desculpa que justifique a razia de qualidade que o plantel do Sporting sofreu nos três mercados que passaram desde que Varandas e Viana pegaram nas rédeas do futebol. 

No dia em que tomou posse, o presidente tinha Coates, Mathieu, Gudelj, Wendel, Bruno Fernandes, Nani, Raphinha, Acuña e Dost. O plantel era desequilibrado, caro, mas tinha uma base de qualidade que permitiu, mesmo sem uma liderança técnica forte, conquistar duas taças. Hoje, essa equipa parece um luxo em comparação com o que temos agora: sobram apenas Coates, Wendel e Acuña (sendo que o argentino parece estar de saída), o plantel continua com um nível salarial demasiado elevado (escandalosamente elevado se considerarmos a sua qualidade) e, de todas as contratações feitas por esta direção, apenas Sporar cumpriu os mínimos para ser considerado titular indiscutível (o facto de não ter concorrência a sério acaba por ajudar). Na categoria de boas contratações podemos ainda incluir Matheus Nunes e Plata, pela relação custo/potencial. Nenhum dos outros jogadores adquiridos ou cedidos por empréstimo, tenham jogado mais ou menos minutos, alcançou um nível de rendimento desportivo que justificasse o valor que foi pago ou o salário que lhes foi oferecido. Foram dezenas de milhões de euros esbanjados, parte dos quais de forma escandalosamente incompetente.

Os primeiros sinais do mercado que agora inicia não são bons, por dois motivos. Primeiro, porque as pessoas que gerem o mercado são as mesmas e, a não ser que Rúben Amorim e Paulo Noga consigam pôr um pouco de ordem à mesa, o mais provável é os resultados sejam idênticos. Houve tempo para contratar um diretor desportivo a sério, mas aparentemente o presidente não viu necessidade de correções a este nível. Depois, porque o ataque ao mercado parece estar a ser pouco focado e propenso a repetir erros do passado. Faz sentido contratar um guarda-redes com um salário elevado quando estamos a desenvolver Max? Ou afinal já não é para apostar em Max? Que sentido faz contratar Antunes, em final de carreira e vindo de uma lesão grave que o limitou a 180 minutos de competição em 19/20? Vamos mesmo trazer Porro sem uma opção de compra acessível? As notícias sobre o interesse num tal de Jason, do Valência, é uma piada de mau gosto dos jornais ou temos de dar mais uma voltinha no carrossel? Falta muito para começarem a despachar jogadores que não justificam o salário que ganham? Vamos deixar outra vez para o fim o reforço de posições que necessitam de reforços urgentes? 

Com tantas carências identificadas, não é aceitável que se ande a desperdiçar mais milhões em jogadores que não sejam um upgrade claro em relação ao que já temos. Jogadores para o banco já existem em número suficiente: casos como Matheus Nunes, Plata ou Tiago Tomás, demasiado verdes; casos como Vietto, Jovane ou Ristovski, pouco regulares; casos como Borja, polivalente que pode ser útil; ou ainda jogadores que andaram emprestados como Ivanildo, Dala, Palhinha ou Bragança. É fundamental colocar o foco em jogadores que subam o patamar competitivo da equipa. Numa época em que se qualificarão para a Liga dos Campeões 2+1 equipas, o fracasso no mercado poderá ter consequências arrasadoras para o futuro do clube.

Presidente: it's not me, it's you. Chega de brincar com o Sporting.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

"It's not me, it's you" (*), parte 1: Os treinadores de Varandas

A contratação de Keizer foi a primeira grande decisão desportiva do mandato de Frederico Varandas. Face à desconfiança com que o fraco currículo do holandês foi recebido, Varandas revelou ao mundo sportinguista o seu critério de quatro parâmetros para seleção de técnicos: competência técnica e tática, liderança, gestão de grupo e comunicação. No entanto, a alegada proficiência de Keizer nesses quatro parâmetros não foram suficientes para o aguentar por muito tempo no clube. Mesmo depois de ter conduzido o Sporting à melhor temporada dos últimos 18 anos (palavras do presidente com que não concordo), o técnico holandês foi despedido poucos dias após o fecho do mercado de verão da época que agora terminou. O treinador do projeto de Varandas, cuja contratação não teve nenhum risco (palavras do presidente), não chegou aos 10 meses no cargo.

Seguiu-se Leonel Pontes, que à data liderava uma equipa de sub-23 que passeava na Liga Revelação. O facto de ninguém assumir de forma clara que Pontes era uma solução provisória, aliada à falta de pressa na contratação do sucessor de Keizer, davam a entender de que a direção estava na expetativa para ver se Pontes desenrascaria como técnico principal. Um empate e três derrotas em quatro jogos demonstraram que não só não desenrascou, como foi suficiente para enterrar de vez quaisquer hipóteses que o clube ainda tivesse no campeonato e deixar a continuidade na Taça da Liga presa por um fio.

Então, Varandas apresentou Jorge Silas, desta vez sem qualquer referência aos quatro parâmetros de seleção referidos na contratação de Keizer - agora o importante era ter um técnico que conhecesse bem o futebol português e fosse ambicioso. Nas entrelinhas, todos perceberam que Silas era a solução possível após negas de uma longa lista de treinadores. A desculpa saída da boca do presidente que ficou a ressoar nos ouvidos dos sportinguistas foi a de que os treinadores com currículo não estão para "aturar um clube de malucos", na tristemente célebre entrevista dada à Teresa, Teresa, Teresa, Teresa. É preciso recuar muitos anos (provavelmente até Carvalhal) para encontrar um técnico que tenha entrado tão fragilizado no clube.

Fragilidade que, sem surpresa, matou Silas à nascença. Sem capacidade para galvanizar o grupo de trabalho e impor mudanças fundamentais para se conseguir sacar o quer que fosse da época, o técnico português foi definhando à medida que os meses foram passando, sem qualquer sinal de apoio da direção e da estrutura profissional de que o presidente tão orgulhosamente fala. O único aspeto notável pela passagem de Silas no Sporting foi a forma como anunciou semi-oficialmente, em conferência de imprensa de jogo, o nome do seu sucessor.

E assim chegamos a Rúben Amorim, técnico que um ano antes andava pelo Campeonato de Portugal e que começou a época no Braga B. Foi promovido por Salvador a técnico da equipa principal e, sob o seu comando, o Braga arrasou tudo e todos. Um par de meses fulgurantes que, para o visionário Varandas, foram suficientes para perceber que estava ali o seu treinador. Mais uma vez, os quatro parâmetros de Keizer ficaram na gaveta: agora, o importante era ter coragem para apostar na formação. Varandas pegou no dinheiro da venda de Matheus Pereira - dinheiro que ainda não tinha - e bateu a cláusula de 10 milhões perante o choque de todos os que conheciam o currículo do treinador e as (tão faladas) dificuldades financeiras que, nos meses anteriores, tinham servido de justificação para todos os fracassos desportivos. O problema é que, quando se pega em dinheiro que não se tem, as coisas não costumam correr bem: a interrupção das competições acabou por adiar a transferência definitiva de Matheus e o Braga continua sem ver um tostão da cláusula.

Rúben Amorim tem muito para aprender enquanto treinador, mas, na minha opinião, tem mostrado qualidades que poderão fazer dele o treinador de que o Sporting precisa. Se vai conseguir ter sucesso no Sporting, é outra conversa: infelizmente, está dependente da qualidade dos jogadores que o duo formado por Varandas e Viana lhe conseguir arranjar. Mas falarei dos jogadores e do mercado na segunda parte desta série de posts.

No que a treinadores diz respeito, a única conclusão possível é que Varandas vai decidindo em função de fezadas, embrulhadas cuidadosamente nas justificações mais convenientes que houver no momento para tentar passar a ideia de que existe algum tipo de estratégia na génese das escolhas. Já não engana ninguém. É apenas navegação à vista. 

Presidente: it's not me, it's you.


(*) Adaptação de uma das mais famosas frases da mítica série Seinfeld, utilizada frequentemente por George Costanza para acabar com relacionamentos da forma menos incómoda possível.

terça-feira, 3 de março de 2020

A contratação de Rúben Amorim

Não sei o que Rúben Amorim vale como treinador. Os resultados iniciais no Braga são bastante positivos, mas a amostra ainda é muito pequena para se saber ao certo se são fruto das circunstâncias ou da capacidade do treinador. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para nos recordarmos dos primeiros dois meses de Keizer ao serviço do Sporting: o holandês arrasou quando chegou, deixou Varandas babado com a sua própria capacidade para detetar talento onde mais ninguém via - fácil, fácil -, mas não tardou muito para que o clube caísse de novo na realidade.

Da mesma forma que não sei o que vale Rúben Amorim como treinador, tenho a certeza que Varandas e a sua entourage também não sabem. Já o viram treinar alguma vez? Sabem que ideias tem como treinador? Como reagirá em momentos de dificuldade, em períodos de maus resultados prolongados? Se tem a capacidade para lidar com a pressão de um clube como o Sporting? Se conseguirá agarrar um balneário com jogadores que já viveram de tudo na sua carreira? Se encaixará num projeto sustentado e adequado à nossa realidade? Obviamente que não sabem o suficiente. Andam a jogar à lotaria com treinadores na esperança que lhes saia o prémio grande. A ânsia que existe no futebol português em encontrar o novo Mourinho raramente funcionou no passado, e as probabilidades de sucesso encolhem ainda mais num clube como o Sporting - em que à habitual falta de tempo derivada dos longos anos sem conquistar o campeonato, se junta a incompetência de uma estrutura de futebol incapaz de montar um plantel competitivo, de proteger as costas ao seu treinador (a estrutura defendeu Keizer timidamente mas deixou Silas a cozer em lume brando desde a eliminação com o Alverca), de defender o clube contra quem o procura prejudicar e de mobilizar os adeptos.

A esta incapacidade crónica, acresce a irresponsabilidade do investimento que a contratação de Rúben Amorim implicará. O Sporting vendeu recentemente o único jogador do plantel de nível internacional, e não se pode dar ao luxo de estourar num treinador grande parte do dinheiro que é a última tábua de salvação para construir um plantel minimamente competitivo a curto prazo. Da mesma forma que não é solução tentar reduzir o valor em dinheiro através da cedência de jogadores que poderiam perfeitamente fazer parte do nosso plantel. Num treinador que há três meses estava no Braga B e que na época passada treinava o Casa Pia.

Tudo isto que escrevi tem muito pouco a ver com Rúben Amorim. Tem a ver sobretudo com o discernimento de quem o quer contratar. Varandas falhou com Viana, falhou com Beto, falhou com Vidigal, falhou com Keizer, falhou com Leonel Pontes e falhou com Silas. Falhou em demasiadas contratações e falhou em várias dispensas. Falhou estrondosamente a união do clube. Prepara-se agora para fazer um all in no seu 4º projeto de treinador. A única coisa que o separa de ser o pior presidente da história é a responsabilidade financeira que Godinho Lopes não teve. Mas por este caminho, é uma discussão que poderemos começar a ter em breve...

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Colapso

Estou à vontade para escrever o que vou escrever porque votei nesta direção e dei-lhe o devido tempo para porem em prática as suas ideias. Optei por esperar para ver como reagiriam às primeiras dificuldades que apareceram, tentei sempre balancear os bons sinais que iam sendo dados com os maus e vice-versa, nunca me esquecendo das complicações estruturais e conjunturais que enfrentavam nem da base boa que havia para trabalhar. Percebia a dificuldade da missão da direção eleita em setembro de 2018, apesar de nunca ter concordado com a expressão herança pesada, usada até à exaustão ao longo do último ano e picos – é verdade que a herança tinha complicações de resolução delicada, mas também incluía ferramentas que ajudavam a resolvê-las… como o chorudo contrato televisivo que foi utilizado para tapar o buraco de tesouraria. Há quem ache que isto é querer estar bem com Deus e o diabo, querer sol na eira e chuva no nabal, mas, para mim, talvez por deformação profissional, não sou capaz de ver a realidade apenas a preto e a branco. Falar é fácil, mas planear bem e executar em conformidade não é para todos... ainda mais quando se trata do Sporting.

Da parte desportiva, no que ao futebol diz respeito, creio que já ninguém anda iludido em relação à (falta de) competência de quem manda. A "estrutura altamente profissional" falhou em toda a linha: construiu um plantel de forma completamente amadora - com carências evidentes e assente na contratação de jogadores medianos -, foi incapaz de convencer um verdadeiro treinador de projeto a pegar na equipa em duas ocasiões distintas, as lesões sucedem-se sem que alguém dê explicações e estimativas para o regresso dos atletas e a preparação física da equipa é uma anedota. Estamos condenados a assistir a um ano de exibições que oscilarão entre o sofrível e o embaraçoso, a não ser que Silas faça um milagre. Do ponto de vista desportivo, a competência da equipa montada por Varandas merece ser equiparada à da de Godinho Lopes. Felizmente, ainda há uma diferença fundamental (pelo menos por enquanto) entre as duas direções: a de Varandas tem sido responsável do ponto de vista financeiro.

A competência mostra-se sobretudo nos detalhes, mas quando analisamos os detalhes - em quase todas as áreas - as conclusões são confrangedoras. Falta rigor, falta profissionalismo, falta exigência, falta noção, falta memória. A quantidade de más decisões é diretamente proporcional às banais frases “inspiradoras” que foram nascendo nas paredes da Academia, de onde se destaca um espaço dedicado à liderança por exemplo que inclui um ex-capitão cujo último exemplo dado aos colegas, nessas funções, foi dar o mote às rescisões em massa ao ser o primeiro a romper com o clube. Uma homenagem incompreensível feita pela mesma direção que decidiu ignorar oficialmente a conquista inédita do nosso judoca Jorge Fonseca por ter cometido o gravíssimo e imperdoável pecado de dar um par de entrevistas não autorizadas. 

Há que reconhecer que não tem faltado coragem a estes órgãos sociais ao nível do combate interno. Para além da mesquinha punição ao campeão do mundo de judo e dos recados mandados à oposição que se começa a organizar, observa-se que o conflito com as claques está a ser conduzido com mão de ferro - a violência contra elementos dos órgãos sociais é inaceitável e tem de ser punida severamente, mas será que não deveria haver o bom senso de separar os responsáveis por esses atos dos outros milhares de elementos que nada têm a ver com isso? - e há notícias que dão conta da abertura de processos disciplinares aos sócios que os insultaram nas AGs - vamos lá a ver o sentido de proporcionalidade que aí vem por parte do CFD. Há alguns membros dos órgãos sociais que continuam a parecer muito mais motivados em levar a cabo ajustes de contas com o que ainda resta do tempo de Bruno de Carvalho do que em cumprir as suas obrigações institucionais e fazer os possíveis para reduzir o nível de crispação existente.

Infelizmente, esta coragem demonstrada nos assuntos internos - e tão elogiada pela comunicação social - não encontra correspondência no combate externo, onde a estratégia parece ser incomodar o menos possível. Como se viu ainda nas últimas duas jornadas, as arbitragens continuam a prejudicar-nos ostensivamente e não se ouviu uma palavra que fosse de um representante do clube.

São apenas alguns de inúmeros exemplos que revelam uma desconexão demasiado evidente para aquilo que os sócios esperam da direção: competência transversal a todas as áreas, promoção efetiva da união e defesa intransigente dos interesses do clube. Os resultados do futebol são o que são, os níveis de desmobilização dos sócios são assustadores e ninguém da direção assume responsabilidade pelo que de mau se tem passado. Pior: o presidente não dá indicações de ter consciência dos erros cometidos, que seria o imprescindível primeiro passo para os poder corrigir. Pelo contrário, parece que vivemos num estado de negacionismo - o edifício está em risco de colapsar, mas a única medida concreta é mandar pintar as paredes e convidar os jornalistas para uma visita guiada para que possam fazer reportagens do quão bonitas estão. 

Não penso que a melhor maneira de resolver o problema seja necessariamente a realização de eleições imediatas - o clube não aguenta continuar a viver em campanha permanente e, pior, não há qualquer garantia de que os próximos sejam aquilo de que o clube precisa -, mas é imprescindível que Varandas e a sua equipa ganhem (e mostrem) noção do desastre que está a ser o seu trabalho e comecem a tomar ações corretivas de imediato. Ações corretivas que terão de incluir, imediata e impreterivelmente, a contratação de um diretor desportivo de créditos firmados que conheça o universo futebolístico e o mercado como a palma da sua mão para um projeto de reconstrução nunca inferior a três anos e livre de ingerências dos cientistas da bola que têm contribuído para nos meterem na atual situação. Caso contrário... estar-se-á apenas a adiar o inevitável.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sobre Silas (ou quem quer que seja o próximo treinador do Sporting)

À hora que escrevo este texto, ainda não está confirmado oficialmente quem será o novo treinador do Sporting. O nome mais mencionado é o de Silas que, dos vários que têm vindo a ser lançados como hipóteses para suceder a Keizer, é o que mais me agrada. Mas o facto de ser o nome que mais me agrada de um pequeno universo que inclui Quique Setién, Abel Ferreira, Pedro Caixinha e Pedro Martins… pouco significa por si só. 

Foto: record.pt
Gostei do trabalho de Silas no Belenenses, apesar do despedimento recente. Pôs a sua equipa a jogar de forma personalizada e positiva não tendo um plantel particularmente rico ao seu dispor, parece ter as ideias bem estruturadas e tem ainda o bónus de ser um sportinguista assumido. Mas isso não quer dizer que esteja já preparado para assumir um desafio em que o nível de exigência e pressão são incomparáveis aos que conheceu na sua curta carreira de treinador, e muito menos nas condições em que vai apanhar o clube caso se concretize a sua contratação. 

Considerando que já passaram 23 dias desde o despedimento de Keizer e 22 dias desde que Silas foi dispensado do Belenenses, é completamente evidente para os adeptos e, sobretudo, para os jogadores que terá de comandar, que o treinador não é a primeira escolha (provavelmente nem sequer será a décima escolha) de Varandas. Juntando isto ao seu curto currículo (não tendo o nível 4 de treinador, não se pode levantar do banco para dar instruções aos jogadores nem comparecer nas flash interviews) e às circunstâncias que vai encontrar – sem tempo para implementar rotinas, sem hipótese de mexer a curto prazo num plantel mal construído e desmoralizado, e com a paciência dos sócios esgotada –, significa que entrará no clube numa situação muito frágil. Demasiado frágil. 

Acresce que a direção de Frederico Varandas não deve encarar Silas como apenas mais um treinador. Depois do fracasso de Keizer enquanto treinador de projeto e da falta de competência demonstrada na construção deste plantel, ficou agora completamente exposta a incapacidade de recrutamento de um substituto com provas dadas e, consequentemente, a ausência de um plano B viável. Mais: a diversidade de nomes que surgiu na imprensa deixa entender que, mais do que andar à procura de um determinado perfil, a direção já só anda à procura de um treinador que… aceite o enorme desafio que lhe é proposto - o que não é nada bom sinal. Começam a ser fracassos a mais, e parece-me que Silas será a última oportunidade que esta estrutura de futebol terá para demonstrar que merece a responsabilidade que lhe foi atribuída. Se Varandas, Hugo Viana, Beto e departamentos de suporte não ajudarem Silas a transformar-se no treinador de que o Sporting precisa, esgotarão a tolerância dos poucos que ainda lhes dão o benefício da dúvida. 

Se contratarem Silas (ou outro treinador que seja), tratem-no desde o primeiro minuto como se fosse realmente a primeira opção. O pior que pode acontecer é parecer um treinador a prazo. No caso de Silas, falamos de um homem do futebol português, um homem de balneário, um homem com personalidade e convicções. É fulcral que a estrutura perceba exatamente as áreas em que o treinador precisa de aconselhamento e apoio, e quais as áreas em que não deve interferir – algo que, nitidamente, não correu nada bem com Keizer. 

Também ajudaria se a direção e estrutura tivessem a humildade de reconhecer publicamente alguns dos erros graves que cometeram, não só para percebermos que houve um diagnóstico do que correu mal e ações corretivas, mas também para que o novo treinador ganhe alguma folga junto dos adeptos. 

Que não haja ilusões: o futuro da estrutura (e muito provavelmente da direção) será igual ao futuro do próximo treinador. Para o melhor e para o pior.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Um ano de Varandas

Foto: Expresso
Cumpriu-se ontem um ano desde que a direção liderada por Frederico Varandas tomou posse. É justo reconhecer que a tarefa era, à partida, de uma tremenda dificuldade: encontrando um clube completamente fraturado, com graves problemas desportivos e financeiros por resolver e pouco ou nenhum tempo para o fazer, foi, provavelmente, a primeira direção que não teve direito a qualquer período de estado de graça, tendo sido fortemente e ruidosamente contestada desde o primeiro dia.

É, por isso, uma boa altura para se fazer um balanço do trabalho desenvolvido. Até que ponto as expetativas criadas e as promessa feitas foram cumpridas? Aqui fica a minha avaliação pessoal sobre o desempenho nas diferentes áreas (de 1 a 5 estrelas).


Títulos do futebol (****)

A finalidade de um clube como o Sporting é vencer e, considerando todos os constrangimentos conhecidos, é justo reconhecer que esta primeira época de Varandas superou as expetativas iniciais da maior parte dos sportinguistas no que aos títulos do futebol profissional diz respeito. 

É verdade que não jogámos de forma dominadora nos momentos decisivos da Taça de Portugal e da Taça da Liga, mas sempre ouvi dizer que as finais não são para se jogar... são para se ganhar. E mesmo tendo sido ambas conquistadas nos penáltis, convém lembrar que o percurso foi repleto de dificuldades: eliminámos o anfitrião nas meias-finais da Taça da Liga e o Porto na final, sendo obrigados a recorrer a Petrovic como central com o nariz partido; e eliminámos o Benfica nas meias-finais - com uma segunda mão de excelente nível - e o Porto na final, com erros graves de arbitragem (golo mal anulado ao Sporting na Luz e golo mal validado ao Porto) que, como é habitual, nos prejudicaram. 

A equipa foi sempre encarada como a menos favorita das quatro que chegaram às meias finais, mas prevaleceu. Contra tudo e contra todos. É, por isso, da mais elementar justiça que se reconheça mérito nas duas conquistas.


Gestão das modalidades (****) 

Apesar dos muitos rumores que circularam sobre o suposto fim do ecletismo do Sporting tal como o conhecíamos como consequência de um forte desinvestimento, a competitividade geral das equipas manteve-se. 

Houve, de facto, uma racionalização de certos gastos, mas, olhando individualmente para cada uma das equipas, não se reconhecem mais pontos fracos do que os que existiam em épocas anteriores: o futsal renovou-se (e bem) após uma época em que conquistou um título europeu inédito, Taça de Portugal e Supertaça, e ficou a milímetros de poder discutir o campeonato nos penáltis; o hóquei, depois da conquista europeia, fez ajustes pontuais e promete voltar a lutar por todas as competições; o andebol, após uma época em que apenas a participação na Liga dos Campeões se aproveitou, trouxe um treinador prestigiado a nível europeu e rejuvenesceu-se com jovens de grande potencial; o voleibol foi obrigado a mexidas ainda mais profundas do que é habitual por causa da mudança de casa para Lisboa, mas contratou um técnico brasileiro conceituado e vários jogadores de quem se espera muito; o basquetebol, regressado após um interregno de 24 anos, parece estar suficientemente equipado para dar luta aos habituais favoritos; a equipa de judo masculino sagrou-se campeã europeia. 

Ainda está por confirmar a continuidade ou término do acordo no ciclismo e existem dúvidas legítimas sobre o que se pretende para o atletismo, para algumas modalidades de combate e para o desporto adaptado. O tempo encarregar-se-á de as esclarecer, mas não me parecem fazer sentido as preocupações sobre o futuro do ecletismo no Sporting.


Filosofia na formação (****)

Ao contrário do que vinha sendo habitual, existe este ano uma preocupação em expor os jogadores da formação a contextos de maior exigência competitiva. Os sub-23 estão carregados de jogadores de 18 ou menos anos, a equipa de juniores é composta, quase na totalidade, por juniores de 1º ano e juvenis, e assim sucessivamente. Isso poderá implicar resultados iniciais menos positivos nos vários escalões, mas trará frutos importantes a longo prazo.

Importante também a preocupação com a recuperação da equipa B, a renovação das condições da Academia e a aposta no Polo EUL. São objetivos que demorarão o seu tempo a serem cumpridos, mas que são imprescindíveis para dotar o clube de condições de topo para o desenvolvimento dos seus jovens jogadores.


Contratações (***)

A necessidade de reforçar a equipa em muitas posições e as limitações de tesouraria têm levado a que o perfil das contratações seja quase exclusivamente de jogadores com potencial para serem desenvolvidos e valorizados com tempo, de montante médio ou baixo. A única exceção à regra foi Vietto (jogador feito e em que os 50% dos direitos económicos adquiridos foram avaliados em 7,5M), mas, como se sabe, veio no pacote do acordo por Gelson para abater o valor da dívida do Atlético e não correspondeu a qualquer saída real de dinheiro dos cofres de Alvalade.

Genericamente, os jogadores contratados têm sido úteis e correspondido ou superado as expetativas, mas ainda nenhum se revelou um golpe espetacular de mercado. Há, no entanto, que dar tempo ao tempo. E ajudaria se o treinador desse oportunidades a alguns deles.


Treinadores (**) 

Varandas despediu Peseiro no momento certo. E também despediu Keizer no momento certo - depois do que conquistou, não podia deixar de dar ao holandês a pré-época que lhe faltou na temporada passada. Mas, apesar de Varandas ter dito que Keizer cumpriu os objetivos, o facto é que a sua escolha só pode ser considerada um fracasso, porque na altura nos foi vendido pelo presidente como um treinador de projeto.

Keizer acabou por se transformar na antítese daquilo que prometia ao início: um treinador medroso e aborrecido, amarrado nos equívocos que foi criando e alimentando, e que ignorou (ou não compreendeu) o contexto que o rodeava tanto ao nível das expetativas internas como da forma de pensar dos adeptos.

Será desta que Varandas conseguirá contratar o treinador de que o clube precisa? Os sinais não são animadores: o facto de não ter delimitado de forma clara o prazo de Leonel Pontes - um treinador que, até agora, não tem absolutamente nada que o recomende como o homem certo para o lugar - deixa entender que tem mais dúvidas do que certezas em relação à forma como resolver esta importantíssima questão. 


Planeamento da época (**)

Sobre isto, recorro ao que escrevi recentemente aqui: LINK.


Futebol feminino (**)

Apesar de o futebol feminino estar a conhecer um período de desenvolvimento inédito de visibilidade a nível mundial, a importância dada por esta direção segue em sentido contrário. Indecisões a nível diretivo, excessiva tolerância para com o paupérrimo futebol de Nuno Cristóvão, pouca ou nenhuma reação ao fortíssimo investimento do Benfica, e zero preocupações em promover o futebol feminino junto dos sócios sportinguistas - como se pode avaliar pela ausência de qualquer jogo disputado em Alvalade.

Em vez de se desenvolver, o futebol feminino do Sporting tem definhado... e isso não parece preocupar minimamente os atuais responsáveis do clube.


Finanças (**)

Até ver, não há nada de particularmente positivo ou negativo que se possa dizer da gestão das finanças do clube: melhor ou pior, a racionalização dos custos com o plantel foi concretizada - o apertar de cinto era imperativo -, o que contribui para reduzir a necessidade de vendas futuras e normalizar a situação de tesouraria; o empréstimo obrigacionista ficou perto - mas abaixo - do objetivo mínimo, sendo certo que a detenção de Bruno de Carvalho na véspera do primeiro dia da fase de subscrição não terá ajudado em nada o cumprimento da meta estabelecida; e continua a não haver fumo branco em relação à reestruturação financeira e à recompra das VMOC's. 

O reequilíbrio da tesouraria foi alcançado, sobretudo, à custa da antecipação de receitas do contrato dos direitos televisivos e dos acordos com os clubes que contrataram os jogadores que rescindiram. Ou seja, não houve qualquer demonstração inequívoca de competência, mas também é justo dizer que se tentou evitar ao máximo ir pelos caminhos mais fáceis (e menos desejáveis) para ultrapassar as dificuldades imediatas. Por exemplo, teria sido muito mais fácil para esta direção antecipar 100 milhões em vez de 65 - evitaria muitas dores de cabeça e problemas de curto prazo, mas a médio/longo prazo a situação ficaria mais negra.


Comunicação (**)

Depois de cinco anos em que a comunicação social esteve em guerra aberta com o Sporting (o contrário também é válido), são visíveis os resultados do esforço de sedução que esta direção tem feito junto de jornais e televisões. 

É fácil perceber que agora existe uma capacidade muito superior de colocar temas, narrativas e informações na ordem do dia. No entanto, parece-me que este bom relacionamento é mais conjuntural do que estrutural - apenas existe porque os atuais donos disto tudo não veem o Sporting como uma oposição real. Não é preciso ser-se adivinho para prever que, no dia em que o Sporting começar a incomodar, os mesmos comentadores que hoje defendem Varandas com unhas e dentes se transformarão em seus detratores e não terão quaisquer problemas em escarafunchar toda e qualquer polémica com a mesma desonestidade intelectual que demonstraram no passado.

Ainda assim, é inequivocamente um progresso. Infelizmente, não se tem observado o mesmo nível de progresso na comunicação direta com os sócios e adeptos. Se é verdade que se eliminou muito do ruído que antes existia, também se pode dizer que acabámos por cair no extremo oposto. A comunicação tem sido pobre, escassa, pouco clara e com timings inadequados. 

O presidente tem feito progressos no discurso, mas continua longe de ser um comunicador eficaz. De Hugo Viana, raramente se ouve uma palavra. A Sporting TV parece-se cada vez mais um canal generalista que enfia transmissões de jogos nos espaços livres, com meios técnicos indignos do século XXI e uma qualidade de comentários a cair a pique. As redes sociais não compreendem o seu público e cometem gaffes constantes. O jornal acumula decisões editoriais incompreensíveis e brinda-nos semanalmente com um par de espaços de propaganda ainda mais descarada do que é habitual neste tipo de meios. E até na comunicação com a CMVM se cometeu a proeza de escrever mal o nome de Keizer por duas vezes seguidas - um pormenor com pouca importância mas que é sintomática do desleixo que parece existir.


O Sporting e o ambiente que o rodeia (*) 

Uma das promessas de Varandas era que os interesses do Sporting seriam defendidos de forma intransigente. Um ano depois, essa afirmação parece manifestamente exagerada.

O Sporting não impõe qualquer respeito junto dos adversários e das instituições que gerem o desporto em Portugal. Não se compreende por que razão o clube não recorreu da decisão do e-toupeira - mesmo não tendo efeitos práticos, era importante dar o sinal de que o clube não aceitava a decisão da instrução -, não se compreende por que razão não colocamos o caso Bruma na FIFA, não se compreende a forma ingénua como se abordou a questão relacionada com Pedro Henriques, não se compreende a quase completa ausência de críticas às péssimas arbitragens de que temos sido alvo, não se compreende a falta de reação aos favoritismos do Secretário de Estado do Desporto, e por aí fora.

Esta postura não é de clube civilizado, é de clube manso. Num ecossistema populado maioritariamente por mafiosos e chicos espertos, é meio caminho andado para que os outros façam de nós tudo o que quiserem.


Unir o Sporting (*)

O lema de campanha de Frederico Varandas devia ser uma bandeira desta direção. Infelizmente, não tem havido vertente menos cuidada do que esta, prejudicada, em boa parte, por ser clara a vontade de alguns elementos dos órgão sociais em dar sequência a perseguições que em nada beneficiam o clube. Une-se o Sporting trabalhando para o futuro em vez de se procurar fazer ajustes de contas com o passado.

Apesar de perceber que não se pode ignorar o passado nas análises feitas à situação atual, creio que têm sido excessivas as referências e comparações com a gestão anterior - e que são feitas apenas nas partes que convêm, claro. Também não ajudaram as tiradas populistas feitas em campanha. O candidato Varandas disse que, caso fosse presidente, Bruno de Carvalho não seria expulso de sócio. A promessa não deveria ter sido feita porque não depende do órgão que dirige, mas, se tivesse sido sincero, o presidente Varandas poderia ter feito uma declaração nesse sentido em vésperas da AG de expulsão do seu antecessor. Une-se o Sporting canalizando as energias para combater as pessoas que querem mal ao clube, e gastando apenas o tempo estritamente necessário em querelas internas. Se o anterior presidente tivesse percebido isso, provavelmente ainda estaria hoje no poder.

Sou o primeiro a reconhecer que a união depende da vontade dos diferentes lados da barricada e que existem sócios que não têm qualquer vontade de ceder no quer que seja, mas as iniciativas de reconciliação terão sempre de partir de quem dirige o clube - de forma coerente e persistente. Falo em coerência, porque seria bom que o rigor que tem havido no julgamento dos antigos dirigentes se aplicasse também à análise dos erros próprios: continuamos à espera que sejam encontrados e punidos os responsáveis pelos gravíssimos leaks das auditorias feitas à gestão de Bruno de Carvalho. Une-se o Sporting analisando-se as questões em função dos supremos interesses do clube, e não em função dos responsáveis pelas desgraças que nos acontecem.

Não é preciso ser-se um génio para perceber o que se deve ou não fazer para unir o Sporting. Infelizmente, há pessoas na atual direção que revelam imensas dificuldades em compreender o óbvio.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O balanço da época, nº 1: Sucesso ou insucesso?

Terminada a época desportiva, em que contabilizámos dois títulos (Taça de Portugal e Taça da Liga), um 3º lugar no campeonato e a eliminação nos 1/16 de final da Liga Europa, as opiniões dividem-se em relação à avaliação geral do desempenho em 2018/19. O presidente Frederico Varandas disse, no seu discurso na Câmara de Lisboa, que foi a melhor época dos últimos 17 anos, ou seja, foi a melhor época desde que o Sporting venceu o campeonato pela última vez. Muitos sportinguistas concordarão, mas outros sportinguistas têm uma opinião distinta - a de que nunca se poderá considerar uma época de sucesso a partir do momento em que não alcançámos o objetivo primordial: o título de campeão nacional que há tanto tempo nos escapa. Entre as duas correntes, aproximo-me mais da posição de Frederico Varandas - ainda que não concorde totalmente com o que disse.

Na minha opinião, quando avaliamos o sucesso/insucesso da época temos de levar em consideração as expetativas que existiam a 31 de agosto, dia em que a janela de transferências encerrou e o plantel ficou definitivamente fechado. Nessa altura, só um louco (ou Sousa Cintra) poderia pensar que o Sporting tinha condições para lutar pelo título.

Começo pela escolha do treinador. Como se não bastassem todas as dificuldades causadas pelo estado de calamidade que o clube viveu entre maio e setembro de 2018, a contratação de José Peseiro foi uma aberração: não tinha a capacidade técnica necessária, é um fraco líder e, segundo o que se disse na altura, contribuiu decisivamente para o desequilíbrio do plantel com as suas indecisões numa altura em que o tempo urgia. 

Depois, o desequilíbrio do plantel. As inúmeras lacunas que estavam por resolver não foram devidamente abordadas. Bruno Gaspar, Marcelo, Diaby e Sturaro foram contratações fracassadas. Não se contratou nenhum médio defensivo para suprir a saída de William Carvalho. O único lateral esquerdo de raiz com que ficámos foi... Jefferson, recusando-se o regresso de Fábio Coentrão. Não contratámos um médio defensivo (Gudelj fez a posição mas não é o seu lugar) nem um ponta-de-lança puro que pudesse substituir Dost (Montero tem características bem diferentes e Castaignos... bem, é Castaignos). Renan foi contratado a pedido de Peseiro e valeu dois títulos mas, convenhamos, a posição da baliza não era uma prioridade havendo Viviano, Salin e Max. Mantivemos no plantel um conjunto de jogadores que se via claramente serem demasiado caros para o que poderiam render, como André Pinto, Marcelo, Jefferson, Petrovic, Misic ou Castaignos. Bruno César ficou mas não contou para o totobola (mais valia ter saído logo). Considerando as lacunas, as dispensas de Demiral (um crime, nas condições em que saiu), Matheus Pereira, João Palhinha e Gelson Dala são incompreensíveis. Resultado: tivemos de atacar a época com um plantel caríssimo e carente de soluções.

Junte-se a isto o facto de Benfica e Porto terem acesso às dezenas de milhões da Liga dos Campeões, e não é difícil perceber que ninguém poderia realisticamente acreditar na conquista do campeonato. Se no dia 1 de setembro me tivessem perguntado se ficaria satisfeito vencendo a Taça de Portugal e a Taça da Liga, obviamente que responderia afirmativamente.

A prestação no campeonato acabou por estar na linha do que se previa. Ficámos fora da corrida muito cedo e o terceiro lugar alcançado, tão longe dos rivais, não é nenhuma proeza. A boa ponta final acabou por corrigir um percurso que foi demasiado irregular entre novembro e fevereiro e, a determinada altura, chegou a cheirar a humilhação. Por muito mal que o clube tenha iniciado a época, não seria tolerável terminar abaixo do Braga.

A boa ponta final no campeonato, a partir de março, e o sucesso nas taças abre algum otimismo para o futuro. Para vencer a Taça de Portugal foi preciso bater tanto Benfica como Porto. A Taça da Liga, sendo um troféu de importância secundária, foi conquistada numa final four disputada pelas quatro equipas mais fortes do país - incluindo o Braga, que jogava em casa - e que tudo fizeram para a conquistar. Não existiram quaisquer facilidades pelo caminho, pelo que o mérito do Sporting é absolutamente incontestável.

Não concordo com Frederico Varandas quando afirmou que esta foi a melhor temporada dos últimos 17 anos. Pensando exclusivamente em títulos, até poderá ter razão... mas, porque o acesso à Liga dos Campeões é agora mais fundamental do que nunca devido aos prémios que distribui, preferia um 2º lugar no campeonato à Taça da Liga - algo que Paulo Bento alcançou em 2007/08: 2º lugar, Taça de Portugal e ainda a Supertaça. Esta sim, foi a melhor época dos últimos 17 anos. Mas considerando as expetativas com que partimos e aquilo que foi alcançado, sou de opinião de que podemos considerar 2018/19 como uma época de sucesso, seguramente a de maior sucesso desta década. Para além disso, Keizer parece estar a adaptar-se bem à realidade nacional após alguns erros iniciais, e houve um bom trabalho no mercado de inverno que abre boas perspetivas para o que se poderá fazer na preparação da próxima época. Há motivos para que os sportinguistas sintam satisfação pelo que foi conquistado nesta temporada, e há também motivos para reforçarmos a esperança naquilo que 2019/20 - uma época em que a ambição terá de ser necessariamente mais elevada - nos poderá proporcionar.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Na mouche

Excelentes as declarações de Frederico Varandas no final do jogo com o Braga, a apontar para verdades evidentes que se arriscam a cair no esquecimento face à histeria a que se assistiu nos últimos dois dias.

A primeira é que, desde que há VAR, as arbitragens melhoraram de forma indiscutível. Continuam a existir erros críticos, alguns incompreensíveis, mas são em menor quantidade e influenciam menos desfechos de jogos.

A segunda é que Keizer precisa de tempo para trabalhar. Obviamente que ninguém pode estar satisfeito com a qualidade do futebol praticado nos últimos jogos, mas falamos de um treinador que trabalha com um plantel que foi construído por outro treinador que tinha ideias bem diferentes, e que ainda está em período de adaptação ao futebol português.

A terceira é em relação aos erros de arbitragem de ontem. Houve falta sobre Acuña a preceder o golo (bem) anulado ao Braga e ficou um penálti por assinalar sobre Coates. Já se sabe que Abel e Salvador ficam cegos de raiva quando perdem com o Sporting, e era mais que previsível a reação que tiveram.

Aqui fica a totalidade das declarações de Varandas. Vale a pena ouvir.






terça-feira, 18 de dezembro de 2018

100 dias de Varandas

Completaram-se ontem os primeiros 100 dias da presidência de Frederico Varandas. O presidente assinalou ontem essa marca dando uma entrevista à Sporting TV para fazer um balanço do trabalho realizado e lançar os objetivos que pretende cumprir a curto e médio prazo.

Deixo de seguida a minha opinião sobre o que tem sido feito, dividindo-a pelos seguintes tópicos: gestão do futebol, gestão das modalidades, finanças, componente empresarial, a união do Sporting e comunicação.


Gestão do futebol 

Ao nível do futebol profissional, os primeiros 100 dias da presidência de Frederico Varandas terão sido certamente mais agitados do que estaria à espera quando foi eleito. A atenção esteve inicialmente centrada na reorganização da estrutura, seguindo uma estratégia e uma cadência que me agradam: privilegia-se a contratação dos profissionais considerados certos para cada lugar sobre a sua disponibilidade imediata. Será, por isso, um processo que demorará ainda alguns meses a ser concluído, mas o mais importante é que o diagnóstico parece estar a ser bem feito e as soluções encontradas dão confiança para o futuro. Aos poucos a casa (quem diz casa diz academia, departamento médico, scouting, unidade de performance, estrutura de suporte à equipa profissional e equipas de formação, treinador dos sub-23) vai sendo arrumada com passos bem medidos e seguros. 

O que a nova direção não estaria à espera era ter que ser obrigada a mexer na equipa técnica da equipa principal tão depressa, mas o péssimo rendimento da equipa não permitia outra alternativa. A escolha de Marcel Keizer foi corajosa. Teria sido muito mais cómodo apostar num nome conhecido dos adeptos, mas Varandas não se resguardou e foi atrás do perfil que pretendia para o treinador da equipa principal: alguém que colocasse o Sporting a praticar futebol atrativo e dominador e com apetência para apostar em jovens. Para já, o treinador está a corresponder de forma exemplar, superando largamente as expetativas iniciais. 

Obviamente que é preciso tempo para avaliar se as decisões tomadas ao nível do futebol profissional darão os frutos desejados, mas de uma forma geral os sinais são bastante positivos.


Gestão das modalidades e futebol feminino 

Alguns percalços no início da temporada, com derrotas em algumas supertaças, ditaram um arranque algo turbulento. No entanto, ao contrário dos receios levantados na altura, não há qualquer alteração ao nível da competitividade das nossas equipas: liderança no campeonato de voleibol e duas eliminatórias europeias superadas; liderança no campeonato de andebol e qualificação inédita para a fase seguinte da Liga dos Campeões; liderança no campeonato de hóquei em patins e do grupo da Liga Europeia; segundo lugar no campeonato futsal, mas com a qualificação para a final four da Liga dos Campeões; conquista da Liga dos Campeões de judo, um título europeu inédito para o Sporting e para Portugal; conquista da Taça Ibérica no rugby feminino. 

A nota mais negativa é o desempenho da equipa de futebol feminino sénior, que está a ser uma desilusão. A derrota na supertaça, a eliminação prematura no apuramento para a Liga dos Campeões e o campeonato comprometido são consequências de uma má preparação da época e do plantel e da má qualidade do futebol praticado. 

A continuidade da aposta no ecletismo é uma realidade, pois foi já garantido o regresso do basquetebol sénior masculino (com acesso imediato ao maior escalão da modalidade) e também a criação de equipas de andebol e hóquei femininos. 


Finanças 

O primeiro grande desafio foi o lançamento do empréstimo obrigacionista para pagamento do anterior, adiado desde abril. O processo era à partida delicado por causa de todas as condicionantes conhecidas, e, para piorar, a fase de subscrição foi muito mais agitada do que se pressupunha por causa da falta do apoio da banca na sua publicitação e da explosão do caso Alcochete precisamente no dia anterior ao seu arranque. Creio que a SAD foi apanhada desprevenida e não acautelou tudo o que podia ser acautelado – obviamente que há coisas que não se podiam antecipar, ninguém podia adivinhar que o MP iria deter Bruno de Carvalho um dia antes do início da fase de subscrição –, mas reagiu muito bem à fraca adesão dos primeiros dias, lançando uma campanha intensa que envolveu o desdobramento dos elementos da administração em declarações e entrevistas e um recurso de nível inédito aos atletas e ex-atletas do clube. Os cerca de 26 milhões obtidos acabaram por ser um bom resultado considerando os obstáculos que se levantaram, mas ficaram abaixo das expetativas iniciais – fiquei com a impressão  que a SAD até planeava alargar o valor do empréstimo obrigacionista acima dos 30 milhões caso tivesse havido uma procura superior por parte dos investidores. Como tal, podemos falar apenas num sucesso relativo. 

Seguem-se agora dois desafios importantes. O primeiro é a concretização da reestruturação financeira que permita fechar a recompra das VMOCs e resolver em definitivo a questão da dívida bancária. O segundo, mais imediatista do que estruturante, está ligado à componente desportiva: é necessário aliviar o plantel principal de uma série de jogadores caros que pouca ou nenhuma utilidade têm para equipa de futebol, medida fundamental para baixar a massa salarial e alcançar resultados positivos no final da época. Sousa Cintra deixou uma herança pesada neste aspeto: é preocupante que um plantel tão desequilibrado seja tão ou mais caro que o da época passada sabendo que não teríamos as receitas da Liga dos Campeões. 


Componente empresarial 

Para já, o aspeto mais visível passa pela reabertura da Loja Verde junto ao multidesportivo, mas falta ainda investir forte ao nível das áreas de marketing, corporate e comercial, e também nas infraestruturas – nomeadamente em obras de recuperação e transformação de certas áreas do estádio. É fundamental que haja um bom desempenho desportivo e… dinheiro para reforçar equipas que estão longe de ter os recursos adequados para poderem exercer as suas funções com a qualidade que uma organização com a dimensão do Sporting necessita. 


Unir o Sporting 

A melhor forma de unir o Sporting é através de vitórias, em especial da equipa de futebol. No entanto, tendo sido “Unir o Sporting” o slogan da campanha de Frederico Varandas, era de esperar algo mais a este nível.

“Unir o Sporting” não pode significar apenas o apaziguamento e agregação dos sócios que não se identificavam com o estilo de liderança de Bruno de Carvalho.

Tenho consciência de que não é fácil sarar as feridas geradas por todo o processo que levou à queda da direção anterior e que existe um conjunto de sócios que, desde a AG de junho, passou a estar unicamente interessado em minar e desestabilizar o clube. Não há nada que se possa fazer para os recuperar e não faz sentido que o clube esteja a desviar o seu rumo para se aproximar de quem não respeita a vontade da maioria e não revela abertura para qualquer tipo de entendimento. No entanto, há muitos outros sócios, tão silenciosos como a maioria que votou pela destituição de Bruno de Carvalho, que, continuando a desejar o melhor para o clube, se identificavam com muito do que a direção anterior defendia e que lhe continuam a reconhecer méritos que, a seu ver, deveriam implicar outro tipo de condução desta mudança de ciclo. Estes sócios podem e devem ser recuperados. Fazem falta ao Sporting. 

Infelizmente, será difícil recuperá-los enquanto continuar a haver um discurso revanchista de pessoas que se colam a esta direção e de elementos dos próprios órgãos sociais. Posso referir como exemplo a última edição do Jornal Sporting, que não prestou um bom serviço ao clube: não só retirou o destaque óbvio que a conquista europeia do judo merecia, como também colocou o foco numa entrevista pouco feliz de Baltazar Pinto, presidente do CFD. Na realidade não foi bem uma entrevista, foi sobretudo um desfiar de razões para os sócios confirmarem a suspensão da antiga direção. Apesar de Baltazar Pinto ter começado por dizer que não se iria pronunciar sobre a justiça das sanções, acabaria por dedicar 70% do espaço da entrevista a enumerar e explicar os crimes dos visados. É difícil não interpretar isto como uma tentativa de influenciar os resultados da Assembleia Geral que iria decorrer dois dias depois. Sendo o jornal um órgão de comunicação do clube, seria desejável um tratamento mais neutral do tema.

A AG foi muito bem dirigida – falo pelo que vi nas cerca de três horas em que estive no PJR –, mas é preciso um esforço transversal e persistente de todos os órgãos sociais para efetivamente tentar unir o Sporting. Não tenho nenhuma solução de fácil aplicação para resolver este problema, mas simplesmente sei que será muito mais difícil alcançar uma verdadeira união  enquanto persistir este ambiente de ajuste de contas com o passado.


Comunicação 

É visível que está em curso uma normalização do relacionamento com a comunicação social após alguns anos de difícil convivência. A forma como determinadas notícias vão aparecendo em simultâneo em diferentes jornais desportivos mostram alguma capacidade de marcar a agenda informativa, mas não convém que se fique com a ilusão de que teremos a mesma capacidade que o Benfica tem de controlar a agenda mediática: basta confrontar o tempo de antena e a tinta gasta a comentar Alcochete em semana de empréstimo obrigacionista vs. fase de instrução do e-toupeira, ou a forma como grande parte dos experts da bola malharam em Frederico Varandas aquando do despedimento de Peseiro e posterior contratação de Marcel Keizer. 

Se os progressos ao nível da comunicação oficiosa são evidentes, o mesmo não se pode dizer da comunicação institucional. Têm sido diversas as situações em que o clube ou a SAD deviam ter emitido uma posição oficial sobre acontecimentos que, direta ou indiretamente, nos diziam respeito. Tem prevalecido uma estratégia de silêncio quase total, que, muitas vezes, se pode ser interpretada como passividade ou mesmo fraqueza. Compreendo e concordo com o silêncio quando não temos nada de novo a acrescentar, mas por vezes é mesmo preciso marcar uma posição para o exterior.

Uma última palavra para os meios de comunicação do clube. As redes e o jornal estão em processo de mudança de equipas, que se tem traduzido em alguma quebra de qualidade e gaffes evitáveis, mas há que dar a devida tolerância para as dificuldades que alterações deste tipo implicam. Por sua vez, a Sporting TV mudou a grelha e apresentou novas caras. Pela positiva, gosto do programa Pressão Alta por ser dos poucos espaços que discutem o que se passa à volta do Sporting - concordo que nos devemos virar mais para dentro, mas não exageremos. Pela negativa, a qualidade técnica das transmissões de conferências de imprensa e outros diretos continua a deixar muito a desejar - são frequentes os problemas de som e imagem, que acabam quase sempre por me levar a mudar de canal.