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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Balanço de 2014/15: GRs e Defesas



Rui Patrício (***)

Mais uma época em grande. Apesar de um outro ou momento infeliz (no qual se destaca o jogo de Belém), foi um ano recheado de exibições fantásticas. O seu ponto fraco continuam a ser as hesitações nos cruzamentos, mas em contrapartida provou vezes sem conta ser dos melhores do mundo em situações de um contra um. O início de época foi tremendo, destacando-se a exibição de antologia em Alvalade com o Chelsea, o penálti defendido no Dragão para a Taça e, claro, a épica série de penáltis na final da Taça em que se transformou numa espécie de Adamastor para os jogadores do Braga, mesmo coxeando.


Marcelo Boeck (*)

Mais um ano ingrato para o suplente de um dos guarda-redes mais disponíveis do campeonato português. Fez 8 jogos (o da última jornada do campeonato, 3 da Taça de Portugal e 4 da Taça da Liga). Infelizmente o seu jogo mais marcante da época acaba por ser a noite insegura na eliminatória da Taça de Portugal contra o Vizela. A avaliar pela contratação de um guarda-redes esloveno, parece aproximar-se do fim a passagem de Marcelo pelo Sporting.

Cédric (**)

Se do ponto de vista defensivo continuou a evolução que já tinha registado com Leonardo Jardim, pareceu regredir do ponto de vista ofensivo. Menos desequilibrador e acima de tudo muito mais ineficiente nos cruzamentos, que já foram a sua imagem de marca. Época regular que felizmente não ficou marcada de forma negativa pela prematura expulsão na final da Taça.

Miguel Lopes (**)

Foi provavelmente o suplente perfeito. Merece respeito por ter abdicado de parte do vencimento para ser integrado no plantel principal. Esperou pela sua oportunidade e quando a teve agarrou-a com unhas e dentes, fazendo exibições bastante positivas, destacando-se a magnífica exibição em casa contra o Guimarães em que participou ativamente em 3 dos 4 golos. Diferenciou-se de Cédric pela forma como explora o espaço interior para causar desequilíbrios, tornando-se mais imprevisível para os adversários.

Jefferson (**)

À semelhança do que aconteceu em 2013/14, foi mais uma época de altos e baixos. Começou muito mal, chegando inclusivamente a perder a titularidade para Jonathan. Pareceu espicaçado e voltou em grande nível, tornando-se num dos principais municiadores dos pontas-de-lança. Borrou completamente a pintura ao ter o episódio de indisciplina com Bruno de Carvalho. O final da época foi algo penoso em virtude do desgaste acumulado.


Jonathan (*)

Época irregular. Começou da melhor forma possível. Estreou-se em Barcelos com uma vitória por 4-0 e na jornada seguinte ao fim de 2 minutos no seu primeiro jogo em Alvalade já tinha marcado um golo ao Porto. Infelizmente o seu nível exibicional decresceu com o tempo, ao qual não terá sido alheio o facto de ter participado em ambas as (pesadas) derrotas para o campeonato - acabando por ser um dos sacrificados pelo treinador nas duas ocasiões. Jogador raçudo que se sente muito confortável em zonas mais interiores, promete explodir na próxima época. Há que lembrar que tem apenas 20 anos.


Ricardo Esgaio (*)

Inesperadamente foi titular logo na 3ª jornada na Luz devido à lesão de Cédric e manteve-se no onze a na jornada seguinte. Apesar dos dois empates, Esgaio cumpriu. Teve mais tarde um desafio de fogo contra o Chelsea e aí as coisas não lhe correram bem, provocando um penálti logo a abrir. No entanto, há que dizer que Marco Silva não lhe facilitou a vida: podia perfeitamente tê-lo lançado na partida anterior com o Boavista para ganhar ritmo e entrosamento com os colegas. No mercado de inverno foi emprestado à Académica.

Maurício (*)

Depois de uma época em que surpreendeu positivamente (não esquecer que vinha da segunda divisão), esperava-se que fosse o esteio da defesa após a saída de Rojo. Puro engano. Pareceu acusar em demasia a responsabilidade e acabou por contribuir para a instabilidade defensiva da equipa com erros em excesso. A Liga dos Campeões correu-lhe de forma desastrosa: fez a rosca que esteve na origem do empate dos eslovenos ao cair do pano, saiu ensanguentado em casa com o Chelsea após choque violento com Diego Costa, e foi expulso de forma completamente desnecessária pouco depois dos 30 minutos em Gelsenkirchen numa altura em que ganhávamos por 1-0. Transferido no mercado de inverno para a Lazio.

Sarr (*)

Inesperadamente, em virtude de uma série de acontecimentos encadeados, acabou por ser titular logo no princípio da época. Numa fase inicial não comprometeu mas rapidamente os erros começaram a acumular-se. Sei que ainda é novo mas tenho muitas dúvidas que alguma vez possa vir a ser jogador para o Sporting. Tecnicamente não me parece dos piores, mas tem quebras de concentração inexplicáveis e não consegue fazer uso do seu 1m96 e 90 Kgs para se impor perante os adversários - nem sequer no jogo aéreo.

Paulo Oliveira (***)

Depois de uma pré-época dececionante parecia condenado a ser 5ª opção - ou seja, provavelmente nem teria ficado no plantel caso Rojo e Dier se tivessem mantido no Sporting. Mas as mexidas aconteceram e acabou por ficar como 3ª opção atrás de Maurício e Sarr. Teve um primeiro teste de fogo ao entrar contra o Chelsea a substituir o lesionado Maurício e surpreendeu pela positiva. A mim convenceu-me nesse momento e a Marco Silva também, porque a partir daí Paulo Oliveira passou a ser titular e de semana a semana foi solidificando o seu estatuto até ser absolutamente indiscutível. Chegou também à seleção A e está a fazer para já uma prova extraordinária no Europeu Sub-21. Não parece, mas Paulo Oliveira tem apenas 23 anos.

Tobias Figueiredo (**)

Depois de uma primeira metade de época errática na equipa B, teve a sua oportunidade quando Maurício saiu para a Lazio e Marco Silva se viu sem outras opções credíveis para o centro da defesa. Mas Tobias fez por merecer essa oportunidade. Fez uma exibição imperial na Taça da Liga em Guimarães e foi logo de seguida titular em Espinho para a Taça de Portugal. Passou a ser titular na 17ª jornada e convenceu tudo e todos ao entender-se de forma perfeita com Paulo Oliveira. Não tremeu perante adversários de enorme dificuldade como o Benfica ou o Wolfsburgo. Teve uma exibição infeliz no Dragão e pareceu ressentir-se disso, já que a partir daí a segurança já não foi a mesma e cometeu vários deslizes - incluindo dois que lhe valeram o cartão vermelho direto ainda na primeira parte. Perdeu a titularidade para Ewerton. Para 2015/16: 3º central (onde seguramente terá oportunidade de fazer mais de 20 jogos) ou roda noutra equipa da I Liga? Eis a questão.

Ewerton (***)

Um caso paradigmático do que é chegar, ver e vencer. Chegou em janeiro vindo de uma lesão prolongada e sem ritmo de jogo. Teve a sua oportunidade ao entrar para tapar o lugar do expulso Tobias, com o Penafiel, e não mais largou o lugar. É um central muito completo, mas impressiona sobretudo pela serenidade e pela capacidade de jogo aéreo. Seguramente que não há ninguém que pense que o €1,5M da cláusula de opção de compra a pagar ao Anzhi será dinheiro mal gasto.

Rabia (-)

Chegou tarde e lesionado, o que não terá ajudado nada à sua adaptação. Só em novembro começou a jogar, e não convenceu nem na equipa B nem na Taça da Liga, cometendo muitos erros. Mais para o final da época começou a jogar com mais regularidade e a ter prestações mais interessantes. Se isso será suficiente para fazer parte do plantel principal, não sei.

André Geraldes (-)

Uma contratação que pareceu um equívoco. A pré-temporada correu-lhe mal e acabou por ser aposta apenas na Taça da Liga - e sempre como defesa esquerdo, que não é a sua melhor posição. Mesmo assim fez um excelente jogo em Guimarães, colocando a dúvida se não mereceria mais oportunidades. Não me parece que fique connosco na próxima época.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Nada de novo

Não tive oportunidade de ver o jogo todo. Assisti apenas aos primeiros 25 minutos e gostei bastante do que vi, com óbvio destaque para os lances dos golos. No primeiro, Podence encontra Tanaka a desmarcar-se e o japonês, em boa posição para marcar, prefere entregar a Gauld que tinha a baliza completamente aberta. No segundo, deliciei-me com o levantar de bola de Wallyson para um remate cruzado de primeira do escocês com o pé direito - um grande golo que parecia deixar a vitória praticamente assegurada. 

Do resto, vi apenas os lances dos golos do Belenenses. No primeiro, Rabia sofre uma falta clara de Camará (imaginem a falta de Montero no 2º golo do Rio Ave, mas 10x mais evidente) que aproveita a queda do egípcio para seguir isolado para a baliza e marcar. O segundo é um golaço do miúdo Dálcio que passa por Jonathan e Wallyson e remata cruzado sem hipóteses para Marcelo. O terceiro foi através de um penálti que, sinceramente, não consigo perceber se é ou não bem assinalado. O que tenho a certeza é que a abordagem de Sarr ao lance foi completamente defeituosa. Não se percebe que se atire em carrinho para intercetar um cruzamento rasteiro e acabe por cortar a bola com o peito. Depois a bola ressalta e fica a dúvida se há braço na bola ou não.


Não me parece que este jogo nos tenha revelado alguma coisa que não soubéssemos já: Tanaka é um jogador de equipa e Gauld vai ter um papel a desempenhar na equipa principal ainda esta época. Aliás, tenho dúvidas se o escocês fará muito mais jogos na equipa B. Por outro lado, Sarr teve mais um daqueles lances improváveis que demonstram que ainda tem muito que crescer (em dimensão futebolística, entenda-se) até poder ser uma opção credível para a equipa principal.

Do pouco que vi, voltei a ficar desiludido com Rosell. Tentou construir jogo progredindo com a bola no pé, mas definitivamente não é o seu forte. O problema é que no passe também não esteve nada bem. Está longe da forma que demonstrou na pré-temporada, mas há que lembrar que o catalão vinha com a rodagem da MLS (que estava em curso) enquanto todos os outros voltavam de férias. De qualquer forma parece-me cedo para estarmos a tecer sentenças definitivas sobre a sua qualidade: Rosell ainda não teve oportunidade de jogar de forma regular e para a posição em que joga as rotinas com os colegas são fundamentais.

De resto, perder um jogo destes não é drama nenhum. Sigamos em frente.

P.S.: vi os últimos 20 minutos do Braga - Porto, e fiquei impressionado com as incríveis defesas que Hélton fez. Depois de o ter visto sair de maca em Alvalade, com 35 anos, pensei que a sua carreira tivesse terminado. Foi bom vê-lo recuperado. Espero apenas que não desate a defender todos os jogos assim. :)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Distribuição de passes



Não sou o maior fã de Sarr, mas há uma coisa que não posso negar: o rapaz sabe passar a bola - e não é preciso uma tabela estatística para nos apercebermos disso. Mas neste caso a estatística impressiona: fez 33 passes, todos corretos, dos quais apenas 1 foi curto. Não que tenha feito nenhum passe de encher o olho, mas foram todos precisos, o que já não é nada mau.

Demonstração de orgulho e tenacidade

O jogo de ontem foi a meu ver uma grande demonstração coletiva de orgulho e tenacidade. Começou nas bancadas, que soube expressar de forma clara o nojo que nos causou a roubalheira de Gelsenkirchen...

A video posted by Joel Silva (@joelysandra) on


... e continuou dentro de campo, com uma equipa que soube mais uma vez reagir da melhor forma à adversidade. Apesar de a partida ter começado mal, com mais um autogolo, o Sporting conseguiu dar a volta e voltou a demonstrar que é superior ao Schalke, proporcionando-nos vários momentos mágicos que deixarão esta noite na nossa memória durante muito tempo. Uma vitória justíssima na Liga dos Campeões, que peca apenas por tardia, foi a melhor resposta possível à exibição menos conseguida de domingo e abre novas perspetivas para o nosso futuro na competição.



Positivo

Nani, what else? - sofreu a falta que deu origem ao primeiro; assistiu Jefferson para o segundo golo, ao parar a bola por uns segundos e prendendo dois adversários que só se preocuparam em tapar-lhe o caminho da baliza; marcou o terceiro após jogada extraordinária de Carrillo; serviu João Mário num passe a rasgar e Mané num cruzamento nas melhores oportunidades da primeira parte; e 90 minutos com a qualidade a que nos tem habituado; foi substituído perto do fim e ouviu uma mais que merecida ovação.

A luva magnética de Rui Patrício - sem culpas nos golos sofridos, fez uma defesa que foi festejada no estádio como se de um golo se tratasse - quando o resultado era de 2-1, fez um mergulho incrível para tirar a bola dos pés de Obasi com uma palmada. Foi um momento chave do jogo, absolutamente fantástico.

As alterações no onze de Marco Silva - quatro mudanças em relação a Guimarães. Uma forçada, duas previsíveis e uma inesperada, mas todas elas foram apostas ganhas: Sarr, com exceção de um momento de atrapalhação com a bola nos pés, teve uma boa atuação, coroada com um golo importantíssimo; Mané entrou muito bem e fez estragos no flanco direito, arrancando algumas boas iniciativas que semearam o caos na defesa do Schalke; Jefferson cumpriu defensivamente, não esteve particularmente ativo no ataque, mas é inevitavelmente uma das figuras do jogo pelo golo que marcou e pela assistência que fez para Sarr; e Slimani que, na minha opinião, foi um dos melhores em campo (ultrapassado apenas por Nani), foi um trabalhador incansável que correu, pressionou, construiu e, ao cair do pano, marcou o golo da tranquilidade que tanto mereceu.

Golaços para todos os gostos - o de Naby Sarr, não podendo ser considerado um golaço, foi provavelmente o mais importante dos quatro pelo ânimo que devolveu à equipa; o remate tirado a régua e esquadro de Jefferson, numa trajetória tensa e improvavelmente reta que apanhou de surpresa o estádio e os adversários; o incrível drible e sprint da lebre Carrillo, que sem parar para comer umas cenouras deixou inapelavelmente para trás a tartaruga branca que o tentava acompanhar, oferecendo o golo a Nani em bandeja de prata; as reservas de energia que Slimani encontrou para aquela correria louca de 40 metros com um adversário a pressionar, em resposta a um passe de Rosell.

8 (oito) portugueses na equipa titular - Rui Patrício, Cédric, Paulo Oliveira, William, Adrien, João Mário, Nani e Mané. Sete desses jogadores são da academia. E isto vindo de uma equipa que não aposta na formação, como muitos comentadores para aí dizem. Imaginem se apostasse.

Grande ambiente nas bancadas - e não sou só eu que o digo.


Negativo

A insistência nas faltas desnecessárias - Sarr foi a meio do meio-campo do Sporting dar um encosto duro por trás a um adversário. Falta completamente desnecessária que lhe valeu um amarelo e um livre para o Schalke. Ocorreram-me de imediato dois pensamentos: acabávamos de dar ao adversário uma oportunidade de explorar um dos seus pontos fortes (bolas paradas ofensivas) que é também um dos nossos maiores problemas; e que Naby Sarr não acabaria o jogo sem ver um segundo amarelo. Numa delas os meus receios concretizaram-se de imediato: foi desse livre que surgiu o 1º golo dos alemães. Em relação à outra, felizmente enganei-me.



Do ponto de vista das contas do apuramento, foi uma noite perfeita. O empate do Chelsea na Eslovénia contra a pior equipa da Champions (que já leva três empates, um dos quais na Alemanha) faz com que os ingleses tenham que levar o próximo jogo em Gelsenkirchen muito a sério, se quiserem garantir o primeiro lugar já na próxima jornada. E ganhando na Alemanha poderão receber-nos de forma mais relaxada. Para além disso, a vitória por 4-2 deixa-nos com vantagem no confronto direto com o Schalke, o que pode ser decisivo nas contas finais.

Segue-se uma receção ao Maribor. Vencendo, ficamos com o 3º lugar garantido e com boas hipóteses de conseguir o apuramento. Eu acredito.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A hora de Paulo Oliveira

                                                                                                                                      
Depois de uma sequência de jogos muito complicada que nos levou a defrontar, no espaço de um mês, Benfica, Maribor, Porto e Chelsea, creio que está na altura de Marco Silva procurar novas soluções para o eixo da defesa.

As opiniões dos sportinguistas até se podem dividir sobre se será Maurício ou Sarr a principal fonte de intranquilidade, mas certamente que todos estaremos de acordo que alguma coisa terá que ser feita. Contra equipas fortes ou fracas, já são demasiadas os erros que cometemos, e é insustentável que uma equipa que quer lutar pelo título mantenha este nível de insegurança defensiva.

Na minha opinião, Maurício foi o que começou pior a época, mas tem estado a subir de rendimento nos últimos jogos. Está muito longe de ser um jogador exemplar ao nível do posicionamento e tem visíveis dificuldades em lançamentos feitos para as suas costas, mas é um jogador batalhador, forte quando tem o adversário e bola à sua frente, e já provou ao longo da época passada que pode ser um jogador muito útil.

Sarr pareceu dar algumas boas indicações iniciais (admito que gostei do que vi nos primeiros jogos), mas tem estado cada vez mais nervoso de jogo para jogo. Infelizmente, o facto de ser muito forte nas bolas paradas defensivas não compensa as falhas de posicionamento, os lapsos de concentração e as hesitações que o levam a perder bolas de forma infantil.

Não digo que não possa vir a ser um central de qualidade no futuro - não me parece que seja um tosco, parece ter uma capacidade de passe interessante, e tem atributos físicos muito superiores à média - mas simplesmente neste momento não está pronto para ser titular de uma equipa como o Sporting.

Paulo Oliveira, por infelicidade de Maurício, foi ontem lançado a frio num jogo em que teve que se opôr a jogadores de classe mundial. Saiu-se muito bem, na minha opinião: entrou concentrado, resolveu alguns lances difíceis sem complicar e pareceu confortável com a bola nos pés - o que pode ser particularmente útil contra equipas mais fechadas. 

No caso do Xerife estar fisicamente apto para o jogo de Penafiel, penso que Marco Silva deveria aproveitar o ciclo de jogos que se segue (Penafiel, Taça, Schalke, Marítimo) para apostar na dupla Maurício - Oliveira.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Tremenda frustração

                                                                                                                                      
Winston Churchill disse um dia que um indivíduo pessimista é aquele que vê dificuldades em todas as oportunidades, e que um otimista é aquele que vê oportunidades em todas as dificuldades. Considero-me uma pessoa otimista, mas confesso que neste momento só consigo ver uma única oportunidade no desastre que ocorreu hoje na Eslovénia. E que oportunidade é essa que consegues ver nesta tragédia, perguntam vocês? Já lá vamos.

Num jogo em que o Sporting foi uma equipa personalizada e dominadora, que inclinou o campo a seu favor através de uma pressão alta sufocante, recuperando inúmeras bolas a meio campo, e empurrando o adversário para a sua área, foi capaz de causar desequilíbrios com alguma facilidade e que se traduziram em mais uma resma de situações de golo que os nosso homens na frente parecem fazer questão em desperdiçar. Foi por isso tremendamente injusta aquela traição dos nossos centrais que, num hara-kiri a dois tempos, entregaram ao puto Zahovic um golo de bandeja ao cair do pano que nos roubou uma vitória que seria um importante reforço moral para os desafios que se seguem.

Com exceção de um período de dez minutos após a meia-hora da primeira parte, a superioridade do Sporting foi tão evidente e completa, que parecia impossível que saíssemos de Maribor sem os três pontos e o cheque de 7 dígitos que tanta falta nos faz. Quando aos 80 minutos Nani puxou dos galões e da perna esquerda para finalmente enfiar a bola na baliza, já nos devíamos a nós próprios uma mão cheia de golos. Até ao final ainda tivemos mais duas ocasiões de golo que podiam ter arrumado definitivamente com a partida mas que, mais uma vez, desperdiçámos. E depois aconteceu aquilo já nos descontos...

Foto: ojogo.pt


Positivo

Exibição personalizada, muito intensa, e com poucas intermitências - foi no geral um excelente jogo do Sporting. A equipa foi extremamente eficaz a não deixar jogar o Maribor. Pressão alta e constante, que terminava quase invariavelmente com a recuperação de bola, muitas vezes ainda no meio campo adversário. No ataque, muito boa circulação de bola, mesmo não estando alguns jogadores ao seu melhor nível, que deram origem a inúmeras ocasiões de golo.

Follow the leader - mais uma vez Nani jogou e fez jogar, puxou pela equipa, pegou no jogo quando tinha que pegar, e marcou um excelente golo que já pecava por escasso. Por vezes pára a bola parecendo indeciso por onde seguir, mas está de olho em todas as movimentações dos companheiros e a bola lá vai parar para os pés de quem está melhor colocado para dar sequência ao lance. Ao fim de quatro jogos já é uma referência incontornável da equipa, e à medida que vai conhecendo melhor os companheiros e os companheiros o vão conhecendo melhor a ele, essa capacidade de marcar a diferença irá aumentar. Temos que estar felizes por podermos contar com um jogador desta classe.

O tanque Slimani - não teve muitas ocasiões de golo, e as que teve levaram perigo para a baliza. Mas foi incansável nas suas ações, desgastou ao limite os centrais adversários e acabou por ativamente ajudar na construção de vários lances de perigo. Não marcou, mas fez um excelente jogo.

Seja bem-vindo, João Mário! - estreou-se em jogos oficiais de forma muito positiva, mostrando-se bastante confortável a pisar terrenos adiantados e a manobrar em espaços apertados. Foi lançado ao intervalo para substituir o apagado André Martins, e poderá ter conquistado a titularidade em Barcelos com aquilo que produziu na segunda parte.


Negativo

Killer instinct procura-se - à semelhança do que já tinha acontecido com o Belenenses (e o Benfica, e o Arouca, e a Académica) voltámos a desperdiçar infantilmente uma série de ocasiões de golo que nos teriam hoje assegurado uma vitória mais que confortável. É verdade que nenhuma dessas ocasiões foi de baliza aberta, mas não é possível que se continue a falhar tanto. 

A sombra de William - o nº 14 teve hoje algumas intervenções que fizeram lembrar o William da época passada, mas continua muito incerto no passe e lento a recuperar quando o adversário recupera a bola. Algumas das oportunidades do Maribor surgiram devido ao facto de os seus jogadores terem conseguido receber a bola com demasiada facilidade numa área do terreno que William deveria controlar.

Contribuição ofensiva dos laterais - Jefferson esteve o oposto do que é normal - muito bem a defender mas inofensivo a atacar, insistindo demasiado em sprints que eram facilmente anulados pelos adversários. Cédric começou bem o jogo, mas o entendimento com Carrillo pareceu muito perro em relação ao que é normal. Foi-se apagando ao longo do tempo e ainda teve tempo para uma perda de bola infantil que levou perigo à nossa baliza.

Maurício e Sarr - pior Maurício, que já tinha ameaçado uns minutos antes ao falhar uma interceção na área que podia ter dado o golo do empate ao Maribor. Mas a paragem cerebral sincronizada que tiveram simplesmente não é admissível em alta competição. Se se tratasse um caso isolado, não seria um problema - mas infelizmente este tipo de falhas têm sido demasiado frequentes.


E, voltando à única oportunidade que vejo nesta tremenda desilusão, é que Marco Silva não poderá fechar os olhos ao estado psicológico de Maurício e às falhas de concentração de Sarr. O treinador tem que mexer no centro da defesa, caso contrário os dois centrais serão uma bomba relógio a la Artur enquanto não estabilizarem a cabeça. Estando Rabia lesionado, suponho que seja de lançar Paulo Oliveira e/ou Tobias Figueiredo já no jogo com o Gil Vicente. Vêm aí o Porto e o Chelsea, e será incompreensível se não se começar já a trabalhar uma solução alternativa à atual - e que nos poderá trazer alguns proveitos ao fim de algum tempo.

Fora isso, fora esta frustação de ver uma vitória imensamente merecida a escapar-se por entre os dedos mesmo no final, fica a (para já escassa) satisfação de ver a equipa a praticar mais uma vez bom futebol, o que nos traz boas perspetivas para o futuro. Quando a finalização entrar nos eixos e a defesa estabilizar, claro.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A quantidade também tem as suas virtudes

                                                                                                                                                    
Dizia Jorge Jesus no lançamento do derby que o Sporting deste ano é uma equipa com mais... quantidade, ao referir-se às diferenças que separam a equipa comandada por Marco Silva daquela que Leonardo Jardim conduziu ao segundo lugar na época passada. Este não elogio de Jesus não passou de uma alfinetada no meio de outras observações pouco simpáticas que fez sobre o Sporting (incluindo na conferência de imprensa após o jogo), mas não discordo do que o treinador benfiquista disse, no sentido em que o Sporting deste ano tem muito mais soluções capazes de, a meio de um jogo que não está a correr de feição, repor o equilíbrio necessário em situações de maior aperto. 

A verdade é que foi essa quantidade que, lançada no momento certo, acabou por ser decisiva para primeiro estancar, e depois inverter, uma tendência do jogo entre os 55 e os 65 minutos onde o golo encarnado parecia adivinhar-se a qualquer momento. 

Marco Silva mexeu bem na equipa, primeiro apostando em Capel para manter a bola em nossa posse, arrancar umas faltas e quebrar o ritmo de jogo que estava demasiado sufocante, e depois colocando Mané e Rosell para refrescar o meio campo numa altura em que o jogo já estava mais partido, contribuindo para o crescimento do Sporting no jogo nos últimos minutos em que a vitória acabaria por escapar devido a uma extraordinária defesa de Artur.

Contra isto, provavelmente Jesus desejaria ter mais... quantidade. Fez apenas uma substituição, aos 86', sendo incapaz de interferir no desenrolar do jogo por notória falta de confiança nos jogadores que não fazem parte do onze.

A inacreditável fífia de Artur que está na origem do golo de Slimani acaba por ser o momento incontornável do jogo, que teve várias alternâncias no domínio ora de uma equipa ora de outra (apesar de o domínio mais acentuado ter sido do Benfica na primeira metade da segunda parte), e em que o empate acaba por ser o resultado mais certo - apesar de, confesso, ter-me sabido a pouco pela forma como o Sporting terminou o jogo.



Aplausos

Inteligência na exploração das fraquezas do adversário: o Sporting percebeu os pontos fracos do Benfica e insistiu, insistiu, insistiu nos lançamentos para as costas da linha defensiva adversária e na pressão imediata sobre o jogador do Benfica que recuperava a bola. O golo, apesar de ter sido um erro gravíssimo de Artur, só acontece porque Carrillo não desistiu dessa pressão e porque Slimani já se aproximava para fechar as linha de passe no lado oposto. Era esse o plano e o plano deu frutos porque ajudou a provocar um erro que nos deu o golo do empate. Muitas vezes diz-se que um jogo é decidido nos detalhes - e foi precisamente isso o que se passou aqui.

Mexer bem na equipa e na altura certa: Marco Silva conseguiu provavelmente evitar a derrota ao lançar Capel, que foi importantíssimo para estancar o domínio de jogo do Benfica numa altura em que já se adivinhava o 2-1. Refrescou a equipa com Mané e Rosell a 10 minutos do fim, que foram decisivos para que o Sporting terminasse a partida em claro ascendente sobre o adversário. Não arriscou e tirou os amarelados Carrillo e Adrien - num jogo destes um segundo amarelo poderia surgir a qualquer momento e deitar tudo a perder. Esteve muito bem o nosso treinador.

A presença de Slimani: devolveu ao Sporting aquilo que era mais que evidente para todos - precisamos de mais, muito mais presença na área adversária. O golo foi provavelmente o mais fácil da carreira do argelino, e até teve mais algumas ocasiões para marcar que acabou por desperdiçar, mas é um animal de área que torna o Sporting imediatamente mais perigoso. Vem de uma ausência prolongada que pode explicar a ferrugem demonstrada na finalização, mas é imperioso que continue no plantel.

Carrillo primeiro, Nani depois: na primeira parte Carrillo foi o elemento que mais tentou desequilibrar (em oposição a um Nani discreto), mas mesmo assim nunca deixou de trabalhar incansavelmente em tarefas defensivas. Voltou a confirmar a mudança de atitude em relação ao passado, estando continuamente focado naquilo que tem a fazer em campo, com e sem bola, o que o torna num dos jogadores mais valiosos que temos. A experiência de Nani veio ao de cima a meio da segunda parte, tendo sido decisivo para inverter uma tendência de jogo que nos era desfavorável. Fez uma assistência de morte perto do final que Slimani por pouco não converteu no golo da vitória.

A segurança de Rui Patrício, Esgaio e Sarr: Patrício foi um esteio de tranquilidade para a equipa, tendo brilhado com um punhado de intervenções muito complicadas. Esgaio e Sarr, que pela sua falta de experiência pareciam ser os pontos fracos a explorar pelo Benfica, estiveram muito bem. Prova inteiramente superada.


Assobios

As incertezas à volta de William: não é que William tenha jogado mal, mas esteve longe do monstro que vimos vezes sem conta durante a temporada passada. Certamente que os rumores de mercado terão alguma coisa a ver com um início de época abaixo do que se esperava dele. Para o melhor ou para o pior, é um assunto que estará resolvido amanhã - mas como é óbvio, será fundamental que William continue connosco.

A intranquilidade de Maurício e a concentração defensiva de Jefferson: o central voltou a mostrar-se demasiado nervoso, principalmente com a bola nos pés, enquanto que o lateral ficou ligado ao golo do Benfica - pareceu-me que podia ter feito melhor na cobertura a Sálvio no início do lance do 1-0. Aliás, o Benfica insistiu nos ataques pelo nosso flanco esquerdo precisamente por saberem que Jefferson tem algumas lacunas nesse departamento.


Conquistar um ponto na casa dos rivais é sempre um resultado positivo, independentemente das incidências do jogo que acabaram por se verificar. Mantemos a desvantagem de dois pontos em relação ao Benfica e passamos a ficar a quatro do Porto, mas acaba por ser um resultado moralizador que fecha um ciclo de jogos marcado por uma enorme instabilidade na constituição do plantel. E ao contrário do que muitos pensavam, saímos desse ciclo bem vivos.

domingo, 24 de agosto de 2014

Mané espanta-espíritos

                                                                                                                                            
Quando vi Nani pegar na bola, que repousava abandonada na área do Arouca após o árbitro ter assinalado um penálti a favor do Sporting, temi o pior. Já tinha visto este filme antes. Imagens de Bojinov passaram-me à frente dos olhos e comecei a ver todo o enredo que iria ser feito se Nani falhasse a conversão do castigo máximo. Foi com enorme desconsolo que vi Adrien afastar-se e juro-vos que naquele momento já sabia que não ia festejar o golo, mesmo que a bola tivesse entrado. Vá, eventualmente faria um cerrar de punho a la Gobern em pleno direto televisivo, mas não mais do que isso. Porque naquele momento só conseguia pensar nas consequências que tudo aquilo poderia causar.

Nani falhou, a equipa ressentiu-se, e a boa dinâmica que se via em campo desde o princípio da segunda parte desapareceu. Valeu-nos que o destino, por uma vez na vida, compadeceu-se de nós e colocou esse herói improvável, de seu nome Carlos Mané, no sítio certo para colocar justiça no resultado e, ainda mais importante, dar-nos três pontos importantíssimos que permitirão trabalhar de forma bem mais tranquila a visita à Luz e gerir o caso do penálti de Nani de forma serena - e não debaixo da pressão que se acumularia devido a 4 pontos perdidos em duas jornadas.

Mas é preciso dizer que os três pontos são o único desfecho adequado, já que o Sporting foi a única equipa que procurou o golo, dispondo de ocasiões suficientes para conseguir uma vitória tranquila, não estivessem os níveis de eficácia da concretização a rastejar na lama.

A equipa até entrou forte no jogo, mas ao fim de 20 minutos acabou por cair num futebol lento e previsível, claramente insuficiente perante uma equipa que arriscou zero e jogou sempre com onze jogadores atrás da linha da bola. Na segunda parte a qualidade de jogo subiu, muito graças ao abanão que representou a entrada de Mané ao intervalo, acentuando ainda mais o domínio da partida.

Uma última palavra para Nani: escreverei mais tarde sobre a sua atitude no pénalti, mais a frio. Em relação ao jogo, demonstrou esforço, alguns bons pormenores, e demasiada vontade para ter uma boa estreia que lhe poderá ter prejudicado o discernimento em algumas situações. Falta claramente entrosamento com os colegas, o que é perfeitamente normal atendendo ao par de treinos em que participou. Teria sido um jogo positivo se tivesse deixado Adrien bater o penálti.



Positivo

A entrada de Mané: não falo apenas pelo golo que marcou. O puto foi um fator de desequilíbrio desde os primeiros momentos da segunda parte, e deixa-nos todos a pensar se neste tipo de jogos não será de ter mais presença no centro do ataque desde o 1º minuto. Mostrou-se mais hoje do que em todos os jogos de pré-época juntos, com uma exibição que o coloca na primeira linha para substituir um André Martins pouco inspirado, pelo menos em jogos com estas características.

Os cruzamentos teleguiados de Jefferson: o brasileiro fez um excelente jogo e saíram do seu pé esquerdo grande parte dos lances de perigo de que o Sporting dispôs. No minuto 93 foi mais uma vez Jefferson a colocar a bola na área - Carrillo amortizou, Tanaka rematou ao poste, e Mané fez explodir as bancadas.

Adrien, sempre Adrien: debaixo daquele tórax devem estar um par de pulmões que aspiram tanto ar quanto uma gaita de foles das Highlands. Grande intensidade durante todo o jogo e fundamental para manter o equilíbrio da equipa num meio-campo a dois. Esteve bem na flash interview ao desvalorizar o episódio do penálti - aquilo é assunto para ser tratado a um outro nível.

Boas indicações de Sarr: não teve muito trabalho, mas quando precisou de intervir impressionou pela pujança física e poder de impulsão. Em situações de maior aperto não inventou, e surpreendeu pela sua capacidade de passe de média / longa distância, quer a lançar Jefferson pela faixa, quer a variar jogo para o lado oposto do campo. Terá a sua primeira prova de fogo para a semana, mas para já os indicadores são positivos.


Negativo

O marcador de penáltis é Adrien: não é questão para ser debatida por ninguém num momento daqueles, em que toda a tranquilidade e cabeça fria são necessárias. Mesmo que Nani acabasse por entregar a bola para que Adrien batesse o penálti, aquele diálogo já teria sido suficiente para colocar uma pressão adicional totalmente desnecessária no nosso nº 23.

O jogo mastigado da primeira parte: Rosell e Martins nunca conseguiram empurrar o jogo para perto da área do Arouca, Esgaio pareceu acusar o peso da titularidade e demonstrou falta de entrosamento com os companheiros mais próximos. Tudo isto, aliado a alguma falta de garra durante uma boa fatia da primeira parte, tornou-nos uma presa fácil para uma equipa que só veio jogar para o empate. 

As hesitações nos pontapés de baliza: às vezes mais vale bater a bola para a frente rapidamente, do que estar no passa-não-passa. Enerva o público, enerva a equipa e dá confiança ao adversário.


A importância do golo de Mané não pode ser relativizado. Poupou-nos de ter que passar uma semana de tensão tremenda e que tornaria o jogo da Luz numa questão de vida ou de morte. Podemos estar a falar apenas de uma diferença de dois pontinhos apenas, mas a verdade é que as circunstâncias do jogo fazem com que a relevância da vitória ultrapasse em muito os 3 pontos conquistados.