Mostrar mensagens com a etiqueta arbitragem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta arbitragem. Mostrar todas as mensagens

sábado, 31 de agosto de 2019

Ainda há quem acredite em contos de fadas

Foto: zerozero.pt
Futebol miserável. Por muitos problemas e indecisões que persistam na composição do plantel a um par de dias do fecho da janela de transferências, nada pode justificar a paupérrima qualidade do futebol apresentado pelo Sporting contra o Rio Ave. Com e sem bola. Grande parte das responsabilidades está no duplo pivot de Keizer, que pouco constrói e que anda às aranhas quando o adversário tem a bola. Wendel parece preso a uma corrente invisível que o impede de fazer o transporte de bola para o meio-campo adversário. Doumbia teve uma prestação absolutamente horrível, ao ponto de me fazer suspirar por Battaglia. Mas, verdade seja dita, o duplo pivot é só parte de um gigantesco problema coletivo. A equipa não ataca como um bloco, não pressiona nem defende em bloco, cada jogador parece estar entregue a si próprio. O foco incidirá muito sobre Coates pelos dois penáltis cometidos (o outro foi oferta dos homens do apito), mas a verdade é que os centrais são mais vítimas do que culpados, já que são demasiadas as vezes que ficam expostos a situações de um contra um na área ou lá perto.

Treinador paralisado, falta de ambição. Não são apenas problemas técnico-táticos. É inadmissível que o Sporting, vendo-se a ganhar com um golo aos repelões a 40 minutos do fim, decida defender o resultado em vez de ir para cima do adversário para tentar matar o jogo. Keizer só se lembrou de meter jogadores de características ofensivas quando se viu a perder, já nos descontos, provocando um coro de assobios totalmente justificado.

Gestão (?) de plantel. Keizer teve oportunidade de lançar Camacho ou Plata em Portimão: com 3-1 e um adversário em quebra física, estavam reunidas as condições ideais para dar 10/15 minutos a um dos miúdos. O jogo podia não precisar que os lançasse, mas fazia sentido numa perspetiva de integração gradual, já pensando em jogos futuros. Não o fez. Hoje, em desespero, lançou um desses miúdos. Plata teve a sua estreia oficial na equipa principal do Sporting em desvantagem no marcador, em desvantagem numérica, com uma equipa mentalmente e fisicamente de rastos, e com a obrigação de ter impacto imediato nos cinco minutos que restavam. Isto não é gestão de plantel, é acreditar em contos de fadas.

Encomenda. Quando um árbitro assinala um penálti como o segundo da noite, quando o VAR não lhe chama a atenção para uma repetição que demonstra sem lugar para dúvidas de que não existiu qualquer falta, não ficam quaisquer dúvidas sobre as intenções de quem dirigia a partida. Os outros dois penáltis aceitam-se, como se teria aceitado se João Pinheiro tivesse assinalado um penálti por empurrão sobre Raphinha. Infelizmente, a capacidade visual parece mudar em função da cor das camisolas, e o amigo de Nuno Cabral apenas vislumbrou as que aconteceram na nossa área. Um azar que já tinha acontecido em Portimão, convém relembrar. Se, no ano passado, em que ficámos fora da luta pelo título muito cedo, conseguiram transformar-nos na equipa mais indisciplinada da Liga, alguém teria dúvidas do que nos iriam fazer caso começássemos a incomodar? Pensar que os árbitros nos vão tratar melhor só porque somos simpáticos... é digno apenas de quem acredita em contos de fadas. Mas, hey, se a direção não se preocupa com isso - até à hora que escrevo não houve qualquer reação dos responsáveis do clube -, por que é que nós nos haveríamos de preocupar?

domingo, 26 de maio de 2019

Uma viagem louca de exploração aos limites do sofrimento

Não havia necessidade. Era escusado sermos submetidos novamente a mais um violento teste de stress ao sistema cardíaco, mas, à boa maneira das últimas conquistas do Sporting no futebol, a final da Taça de Portugal reservava aos sportinguistas mais uma montanha russa de sentimentos que nos levou da iminente euforia à depressão e da depressão à euforia final no espaço de poucos minutos.

As dificuldades enfrentadas foram mais que muitas. As ausências e lesões obrigaram Keizer a rapar o fundo ao tacho do plantel, indo a jogo com Bruno Gaspar e Diaby - que fez uma primeira parte surpreendentemente boa - e acabando com Ilori a lateral e Jefferson a médio centro. Há que reconhecer que o Porto dominou grande parte do jogo pela intensidade colocada na pressão e nos duelos a meio-campo, criando frequentemente perigo nas bolas paradas e quando esticava o jogo à procura de Soares e, principalmente, Marega. 

Mas há que dizer que esse domínio também aconteceu com a prestimosa colaboração da equipa de arbitragem. Jorge Sousa demonstrou que para se ser o melhor árbitro em Portugal não é necessário ser o que mais decisões acerta: basta saber como inclinar um campo sem afetar a nota que receberá. Essa habilidosa condução de jogo refletiu-se numa óbvia e constante dualidade de critérios na marcação de faltas e na punição disciplinar - incluindo uma expulsão perdoada a Manafá por agressão a Bruno Fernandes -, ou, por exemplo, na interrupção de uma jogada de contra-ataque do Sporting para mostrar um amarelo a Danilo por pisão (curiosamente, igual ao que valeu vermelho a Ristovski e o deixou de fora desta final). Mas não foi apenas isso: é um escândalo que o primeiro golo do Porto não tenha sido anulado por braço de Herrera na bola (jogar a bola com aquela área do ombro é ilegal). Foi uma infração clara cometida mesmo à minha frente e não é aceitável que nem fiscal-de-linha nem VAR tenham assinalado a falta. O mesmo fiscal-de-linha que conseguiu não ver um fora-de-jogo de um metro de Marega no golo que o VAR anulou.

Dificuldades que, juntando-se à forma como o Porto chegou ao empate nos descontos da segunda parte de prolongamento, quando já cheirávamos a Taça, e à grande penalidade falhada por Dost na abertura da nossa série, nos levaram-mais uma vez a explorar os limites do sofrimento que um adepto pode suportar. 

Um sofrimento que, no final, se transformaria na mais saborosa das emoções e numa conquista que ficará na nossa memória durante muitos anos: a dança de Renan entre os postes e a fa-bu-lo-sa estirada para sacudir o remate de Fernando Andrade, a frieza do improvável Luiz Phellype a garantir um troféu que todos desejávamos (e precisávamos) intensamente - tão bem ilustrado pelas lágrimas do gigante Mathieu no final -, e ainda a épica subida à tribuna dos jogadores (e em particular de Renan) num fantástico momento de comunhão com os adeptos que os ladeavam. E foi a linda festa em Alvalade.

Nós merecemos muito isto. Agora é tempo de desfrutar.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Uma equipa de arruaceiros - edição 2018/19

No final do jogo do Dragão, Frederico Varandas falou aos jornalistas referindo, de forma sarcástica, a facilidade com que os árbitros exibem cartões aos jogadores do Sporting. Não se pode dizer que seja uma novidade os critérios serem mais apertados quando são os jogadores do Sporting a cometer faltas, mas esta época foi particularmente pródiga em situações absurdas a penalizar os nossos atletas - ainda mais quando, noutros estádios, vemos sistematicamente equipas a escaparem a sanções disciplinares por situações de jogo idênticas ou mesmo mais graves.

Há alguns episódicos bem sintomáticos que vale a pena recordar e comparar. Ristovski foi expulso por três vezes: a primeira vez, em Setúbal, por ter protestado após uma cotovelada que sofreu - uma das agressões mais brutais da época - ter passado impune; a segunda, em Chaves, por ter feito uma falta banal que se deveria ter resolvido no máximo com um amarelo; a terceira, em Alvalade frente ao Tondela, por um pisão que se costuma punir com um cartão amarelo. No seu conjunto, custou-nos quatro pontos (Setúbal e Tondela) e poupou uma expulsão a um jogador do Chaves numa altura em que o resultado estava em aberto. Em contrapartida tivemos, no passado sábado, uma entrada de pitons de Felipe no tendão de aquiles de Diaby - muito pior que a falta de Ristovski frente ao Tondela - que escapou apenas com um amarelo. Aos 12’ da jornada inaugural, Tiago Martins já tinha amarelado Nani e Bruno Fernandes por protestos, o que contrasta, por exemplo, com as várias situações em que João Félix deu sermões a árbitros de dedo em riste sem qualquer punição.

Critérios completamente disformes que protegem uns de cenários potencialmente complicados e que empurram outros, neste caso o Sporting, para situações de dificuldade acrescida.

Nada de particularmente novo, mas, este ano, pode dizer-se que os árbitros capricharam. O Sporting chega ao fim do campeonato como a equipa mais indisciplinada da liga. Foi a equipa que viu mais cartões amarelos (95 contra 90 da segunda equipa mais amarelada), sendo o cenário composto com 7 expulsões.

Fonte: Transfermarkt

É um anacronismo aberrante que o Sporting, uma das melhores equipas da liga, cujos jogadores estão regularmente sujeitos a entradas bem mais violentas (lembrar, por exemplo, a nossa deslocação a Vila da Feira em que valeu tudo menos arrancar olhos), seja a equipa mais indisciplinada do campeonato. Mais indisciplinada que os "pés na chapa" que pululam nesta liga recheada de especialistas em pôr ferrolhos na porta.

Benfica, Porto, Braga, V. Guimarães e Moreirense, as outras equipas que se posicionaram de forma destacada no top-6 do campeonato, estão todas no grupo das 8 equipas mais disciplinadas. Esta é a regra. Por que razão o Sporting foi (e costuma ser) exceção?

Para além do condicionamento a que os nossos jogadores ficam sujeitos após verem cartões - quantas vezes Keizer, que já percebeu como funcionam as coisas por cá, foi forçado a substituir defesas e médios prematuramente? -, para além das suspensões quando se acumulam 5, 9 e 12 amarelos, há ainda o tempo de jogo que disputámos em inferioridade numérica. Só há quatro equipas no campeonato que jogaram mais tempo em desvantagem numérica do que o Sporting.

Gráfico feito com base em dados do site whoscored.com; equipas com valores negativos significa que jogaram mais tempo em superioridade numérica do que em inferioridade numérica; os minutos sem um determinado jogador acumulam-se em situações em que equipas tiveram dois ou três jogadores expulsos no mesmo jogo

Há ainda a questão do momento em que os jogadores são expulsos: uma coisa é uma equipa ver-se privada de um jogador perto do minuto 90; outra é ficar com menos um jogador durante a primeira parte.


Também aqui o Sporting é das equipas que mais penalizada foi: nas partidas em que nos vimos em desvantagem numérica estivemos, em média, a jogar 45 minutos nessa condição - fruto de várias expulsões na primeira parte e no início da segunda. Só o Marítimo tem média pior, ainda que, no caso da equipa insular, tenha tido apenas quatro expulsões durante a época. Braga, Benfica e, especialmente, Porto, sentiram muito menos (ou nada) na pele as dificuldades de jogar com menos jogadores do que o adversário.

2018/19 foi mais uma época em que saímos com muito mais razões de queixa do que os nossos rivais. E a questão disciplinar é apenas uma de várias áreas relacionadas com a arbitragem em que somos tratados de forma muito diferenciada, para pior, do que as equipas com quem tentamos disputar o título.

EDIT 12h30: apercebi-me agora que a tabela do Transfermarkt ainda não estava atualizada na noite de ontem - altura em que extraí o quadro que coloquei acima - com os cartões dos jogos disputados durante o dia. Aqui ficam os dados atuais, em que o Tondela passa a ser a equipa mais indisciplinada, "relegando" o Sporting para o segundo lugar desta tabela. Esta alteração não afeta a análise global e as conclusões que retirei. Os dados retirados do whoscored.com que coloquei já continham os últimos jogos.


sábado, 30 de março de 2019

Em ritmo de passeio de Mota a Chaves

Depois de um período entre outubro e meados de fevereiro em que o Sporting teve um calendário muito intenso e em que a falta de frescura física foi apresentada como parte da justificação pelos maus resultados e fracas exibições que se foram acumulando, seria de esperar que, tendo voltado ao simpático ritmo competitivo de uma partida por semana, a equipa fosse apresentando melhorias graduais de rendimento. No entanto, esses sinais de melhoria não apareceram. Tinha ainda uma réstia de esperança que, tendo havido duas semanas de paragem e podendo o treinador dispor de 8 dos 11 titulares que apresentou ontem em Chaves para olear rotinas, ontem seria o dia em que se observaria finalmente o regresso a exibições convincentes - ainda mais estando do outro lado uma das equipas mais fracas da liga.

Infelizmente, voltei a ficar desiludido. O Sporting jogou a primeira parte em ritmo de passeio, como que à espera que a partida se resolvesse sozinha. É verdade que se pode dizer que não deu grandes chances ao adversário para criar perigo, mas a triste realidade é que também raramente colocou em risco as redes adversárias. Chegámos ao intervalo apenas com um par de boas jogadas para mostrar, uma das quais valeu o golo que nos dava vantagem na ida para os balneários: excelente envolvimento pela direita a envolver Raphinha, Bruno Fernandes e Ristovski, com a bola a ser servida em bandeja de ouro para Luiz Phellype encostar e estrear-se a marcar de leão ao peito.

A segunda parte começou na mesma toada, com pouco perigo de parte a parte... até ao momento em que Jefferson vê o segundo amarelo e deixa o Chaves com menos um e, em desvantagem no marcador, parecia que seria uma questão de pouco tempo até o jogo ficar definitivamente resolvido. Puro engano: em vez de colocar alguma velocidade no jogo e encostar o Chaves às cordas, os jogadores do Sporting pareceram entrar em descompressão precoce, permitindo à equipa da casa pegar no jogo e... chegar ao empate. Soaram os alarmes, Jovane saltou para dentro de campo e, finalmente, viu-se o Sporting a dar uso à superioridade numérica, não tardando o golo que nos recolocava em vantagem a partir dos pés do inevitável Bruno Fernandes (que remate de primeira!).

A partir daí, foi a altura de Manuel Mota borrar a pintura com a sua recorrente incompetência. Raphinha é travado em falta junto à área do Chaves quando se isolava, Mota mostra o vermelho ao defesa flaviense mas é chamado pelo VAR e... reverte a decisão e, surrealmente, expulsa Ristovski por um lance em carrinho em que cortou a bola de forma clara - o contacto posterior que existe não se podia evitar. Decisão absurda mas completamente intencional que colocou o macedónio de fora do decisivo jogo com o Benfica - imperativo recorrer da suspensão do jogador e pedir punição a Mota e Vasco Santos - e relançou o jogo que, no entanto, foi bem controlado pelo Sporting até ao fim, dando ainda para Luiz Phellype fazer o bis aos 90'+11 (descontos justificados).

Vitória demasiado sofrida para a presumível dificuldade do oponente, sobretudo por culpas próprias. E isso levanta outra questão: faz sentido Keizer continuar perante a falta de evolução coletiva do nosso futebol e a falta de desenvolvimento das individualidades que temos no plantel? Diria que não,  e já nem sei se uma eventual (e altamente improvável) vitória na Taça de Portugal poderá mudar o panorama.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Uma equipa de arruaceiros

45'50'': Paulinho coloca-se à frente de Gudelj e não o deixa marcar um livre junto à linha de meio-campo. A partida prosseguiu sem qualquer chamada de atenção do árbitro. 

46'50'': Wendel coloca-se à frente de Claudemir e não o deixa marcar um livre junto à linha de meio-campo. Cartão amarelo para o jogador do Sporting.




Esta duas ocorrências, separadas por apenas 60 segundos no jogo de ontem com o Braga, são um bom exemplo daquilo que é a perseguição disciplinar a que os jogadores do Sporting têm sido sujeitos esta época. É uma perseguição que se faz sentir de três maneiras:

  • Dualidade de critérios dos árbitros dentro do mesmo jogo, em que atuam disciplinarmente de forma diferente em relação aos jogadores do Sporting e aos seus adversários. 
  • Permissividade face a entradas violentas dos adversários do Sporting: ontem Raúl Silva devia ter sido expulso por Jorge Sousa quando agrediu Acuña sem bola: na semana passada Manuel Mota poupou a expulsão a três jogadores do Feirense (Soares, Vítor Bruno e Briseño); duas jornadas antes Hélder Malheiro expulsou Ristovski por contestar a sua decisão em nem sequer marcar falta na cotovelada que Mendy lhe aplicou na testa e mostrar o respetivo cartão vermelho... e podia continuar por aí fora.
  • Dualidade de critérios dos árbitros entre jogos diferentes. É perfeitamente evidente que é muito mais fácil mostrar cartões aos jogadores do Sporting do que às restantes equipas que estão no topo da tabela, seja por protestos (os jogadores do Sporting não são os únicos que protestam, e se o fazem mais é porque, na realidade, têm bons motivos para isso) ou por faltas banais (Ilori a ver um amarelo aos 2' na Luz por uma falta sobre João Felix que não foi particularmente dura nem interrompeu nenhuma jogada de perigo) ou faltas que realmente justifiquem ação disciplinar. 

O mote foi dado logo na primeira jornada: quando o Sporting se deslocou a Moreira de Cónegos em agosto para o arranque do campeonato, os seus dois capitães (Nani e Bruno Fernandes) já estavam amarelados ao fim de 12' de jogo por protestos que não foram especialmente exuberantes.

Resultado de toda esta campanha? Uma das equipas mais massacradas por entradas duras dos adversários é... a segunda equipa que mais cartões amarelos viu esta época.

Fonte: zerozero.pt

E olhando para a tabela dos jogadores com mais amarelos vemos que...

Fonte: zerozero.pt

... o Sporting tem 4 (!) dos 16 jogadores mais indisciplinados da Liga. Isto é uma anormalidade estatística aberrante que deixa perceber uma cultura de tolerância zero dada aos jogadores do Sporting por parte da maior parte das equipas de arbitragem, algo que tem sido perfeitamente percetível para quem tem acompanhado os jogos do clube.

Isto, obviamente, não desculpa a falta de competência que a equipa tem tido em campo em tantos jogos, mas é justo assinalar que este excesso de zelo disciplinar condiciona constantemente os nossos jogadores durante o jogo, para além de representar mais exclusões por suspensão ao longo da época.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Nas asas de Bruno

O onze e a rotação

Sabe-se que a falta de frescura física de vários jogadores tem sido um dos principais problemas com que o Sporting tem-se debatido nas últimas semanas. Isso tem sido particularmente óbvio no trio do meio-campo: Gudelj, Bruno Fernandes e Wendel têm tido uma utilização intensiva e isso tem-se refletido - principalmente no caso do brasileiro - na incapacidade de jogos completos em condições. Seria por isso de esperar que Keizer aproveitasse esta deslocação ao estádio do último classificado para refrescar o meio-campo - quanto mais não seja porque não o poderá fazer nos três desafios que se seguirão nos próximos 10 dias - contra o Villarreal não poderá usar Doumbia e Geraldes por não estarem inscritos, e contra o Braga terá, obviamente, de meter a carne toda no assador. 

Keizer optou, no entanto, por ir a jogo novamente com o trio do costume. Entendo que queira agarrar-se o mais possível às escassas hipóteses de conseguir uma melhor classificação no campeonato, mas não me parece que, face à enorme diferença de valor entre o Sporting e o Feirense, que corresse riscos enormes se entrasse pelo menos com Doumbia e Geraldes nos lugares de Gudelj e Wendel. Junte-se a isso ainda o facto de ter arriscado em perder Bruno Fernandes e Coates contra o Braga, visto que ambos estão à beira da suspensão por já terem 8 amarelos no campeonato. Sinceramente, esperava um outro tipo de definição de prioridades e planeamento a curto prazo que fosse ditado pela estrutura para a equipa técnica. Felizmente, ontem correu tudo pelo melhor - não houve lesões nem amarelos a jogadores em risco, e até deu para fazer alguma gestão de esforço na segunda parte -, mas pusemo-nos novamente a jeito.


O jogo

Ao contrário do que tem sido normal, o Sporting entrou bem e foi à procura da vantagem do marcador logo nos primeiros minutos, mas a partir dos 15' perdeu por completo a capacidade de ditar o ritmo de jogo e de encostar o Feirense à sua área. A responsabilidade, a meu ver, divide-se entre a falta de peso do nosso meio-campo e da permissividade do árbitro às entradas duras dos adversários - perdoando dois cartões vermelhos na primeira parte a jogadores do Feirense, marcando faltas ao contrário, apitando faltas inexistentes e deixando passar faltas óbvias. O que é facto é que o nível exibicional caiu a pique e voltou a observar-se a crise de confiança que afeta os jogadores, proporcionando alguns momentos dignos dos apanhados. O golo da vantagem acabaria por surgir inesperadamente perto do intervalo, na sequência da primeira jogada com pés e cabeça que a equipa conseguiu fazer. 

A segunda parte teve uma dinâmica completamente diferente, com um Sporting superior a chegar com justiça à tranquilidade através de um bis de Bruno Fernandes - que cada vez mais se assume como o cérebro, o coração e o pulmão desta equipa -, primeiro antecipando-se à ponta-de-lança ao marcador direto com um cabeceamento após cruzamento de Diaby, depois com um (mais um) livre superiormente executado, desta vez mais em jeito do que em força. Já leva 20 golos e 10 assistências, que seria algo notável num ponta-de-lança... e mais notável é num médio. Aquilo que conseguirmos fazer esta época dependerá muito da capacidade que Bruno Fernandes terá para nos transportar.


Destaques individuais

Bruno Fernandes é, por motivos óbvios, a figura do jogo, e foi bem secundado por Acuña. O flanco esquerdo funcionou bem, graças ao bom entendimento entre o argentino e Borja. Sobre o colombiano, esteve novamente em bom nível - desta vez com o cruzamento para o 1º golo - mas voltou a ter responsabilidades - tal como já tinha tido no 2º golo sofrido na Luz - no golo sofrido. Renan voltou a estar magnífico entre os postes - fez duas grandes defesas, uma delas sensacional a evitar um golo certo - e péssimo fora deles. Geraldes estreou-se e fez bom uso dos minutos que lhe foram dados.


A arbitragem

Bem sei que o Sporting não se pronuncia publicamente sobre más arbitragens, mas espero sinceramente que o façam em privado com os responsáveis da Federação. Temos sido prejudicados de forma sistemática ao longo das últimas semanas - algumas vezes com influência no resultado - e ontem aconteceu o mesmo com o trabalho de Manuel Mota:

  • Aos 2', Soares entra com tudo de pitons sobre o tornozelo de Bruno Fernandes, torcendo-o. Com um pouco de azar (ou sorte, dependendo da perspetiva), podia ter causado uma fratura e terminado com a época do nosso melhor jogador. Um vermelho claríssimo que ficou por mostrar, mas o árbitro nem sequer amarelo mostrou.
  • Ainda na primeira parte, Vítor Bruno tem uma entrada dura de pitons sobre o pé de Dost. Deveria ter visto o segundo amarelo, mas Manuel Mota deixou-o no bolso.
  • Na segunda parte, Diaby sofre uma falta de Briseño numa situação em que ficaria isolado. O árbitro mostrou o amarelo por ter interpretado (a meu ver, mal) que ainda havia outro defesa capaz de disputar a jogada. Na minha opinião, mais um vermelho que ficou por mostrar.
  • Na primeira parte, num canto a favor do Sporting, Dost foi ostensiva e insistentemente abraçado por um defesa adversário. O holandês é claramente condicionado na disputa do lance e acaba por correr contra André Moreira. Manuel Mota assinalou falta de Dost, mas podia ter assinalado penálti.
  • Alguém entendeu o amarelo a Doumbia enquanto se posicionava atrás da barreira no livre que daria o terceiro golo do Sporting?

Salvou-se a boa decisão em invalidar o golo do Feirense, após indicação do VAR. Marco Soares estorva a ação de Renan na linha de golo, metendo inclusivamente o peso do corpo para trás para impedir que o guarda-redes chegasse à bola.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O afastamento de Fábio Veríssimo

Fábio Veríssimo cometeu dois erros graves na meia-final entre Benfica e Porto: não recomendou a marcação de um penálti a favor do Porto por falta de Rúben Dias, e não recomendou a anulação do primeiro golo do Porto por causa de uma falta de Óliver no início dessa jogada. O principal erro do jogo, aquele que mais protestos causou - o golo anulado ao Benfica por fora-de-jogo inexistente -, não lhe pode ser imputável: a decisão foi do árbitro assistente e o VAR só podia reverter a decisão caso existissem imagens claras que comprovassem o contrário. Não existindo, Fábio Veríssimo estava de mãos atadas.

É normal, para os padrões do futebol português, que Luís Filipe Vieira pedisse a cabeça de Veríssimo por se sentir gravemente prejudicado - sem motivos, convém relembrar - pela sua atuação. O que não é normal é que o Conselho de Arbitragem tenha anunciado, menos de 24 horas depois, que o árbitro seria afastado por um período indefinido - e sem dar quaisquer explicações sobre o critério que esteve por trás da decisão. Não explicando, ficámos todos sem perceber por que razão não foram afastados por um período indefinido outros árbitros responsáveis por outras decisões aberrantes do VAR a que já assistimos esta época. O CA, com esta atitude, humilhou publicamente o árbitro e deixou no ar a ideia de que foi apenas uma medida para agradar ao DDT do futebol português. O comunicado de apoio a Veríssimo que foi emitido no dia seguinte ao afastamento já veio tarde, porque o moral da história da decisão já tinha tido tempo suficiente para se entranhar na mente de adeptos, dirigentes e restantes árbitros.

Cá estaremos para ver quantos mais árbitros serão suspensos ou dispensados por tempo indeterminado no que restar da época. Considerando a qualidade média dos homens do apito, suspeito que não irão faltar oportunidades para avaliarmos a coerência do CA.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Perigo amarelo

Creio que não estarei muito longe da verdade ao dizer que Bas Dost, Gelson Martins e Bruno Fernandes - não necessariamente por esta ordem - são os três jogadores do Sporting que mais atenções têm atraído ao longo desta época. No entanto, tenho a certeza absoluta que nenhum destes três jogadores estará no centro das preocupações de determinadas pessoas durante a próxima partida que o Sporting disputará em Portimão.

As figuras do jogo de sábado serão outras: Rui Patrício, Coates e Battaglia. Não pelo que poderão dar à equipa neste sábado, mas pelo que poderão não dar à equipa na jornada seguinte. Os três atletas estão em risco de suspensão para o dérbi com o Benfica e ficarão de fora desse jogo caso vejam um cartão amarelo frente ao Portimonense. O risco é grande caso o árbitro escolhido pelo CA for para dentro de campo com ideias de alterar o tempero da ultra-decisiva partida da penúltima jornada. Coates e Battaglia são alvos particularmente fáceis por causa das funções desempenhadas em campo - qualquer lance dividido com um adversário que se deixe cair poderá servir de pretexto para o juiz sacar do cartão.

É um filme já muitas vezes visto. No passado, em circunstâncias semelhantes, não me lembro de haver um único árbitro a ser tolerante com jogadores do Sporting perante uma falta que pudesse ser interpretada como sanção para cartão. Por exemplo, quando William viu um amarelo por uma falta feita junto à linha lateral nos descontos do Sporting - Académica em 2013/14 que o deixou de fora da visita à Luz na jornada seguinte - um amarelo aceitável por cortar um "ataque prometedor", mas que já vimos ser perdoado muitas vezes a determinados outros clubes em situações similares. Ou ainda um outro caso - este sim, escandaloso - quando, em 2015/16, Adrien foi impedido de participar na última (e decisiva) jornada em Braga por ter visto um amarelo neste lance:


Aconteceu aos 14', naquela fase em que os árbitros até costumam avisar os jogadores para terem cuidado. Desta vez não houve abébias para ninguém. Foi perfeitamente óbvio para todos os que viram o jogo que o árbitro - Tiago Martins, neste caso - tinha ido para dentro de campo com uma missão. E mal surgiu uma oportunidade, não a desperdiçou.

Da mesma forma que os nossos jogadores costumam ser alvos a abater em circunstâncias destas, é perfeitamente visível a tolerância que os jogadores do Benfica têm tido quando cometem faltas para amarelo. Aposto com quem quiser como Grimaldo, Rúben Dias, Fejsa e Jardel, igualmente em risco, poderão ir tranquilamente a jogo - não só porque o Tondela será uma presa tenrinha (ficarei muito surpreendido se não estiverem a perder por 2 ao fim de 15/20 minutos) que não causará dificuldades que obriguem os jogadores a trabalhar no limite - o pé-na-chapa de Pepa costuma ficar reservado para Sporting e Porto -, mas também porque poderão contar com a habitual tolerância por parte dos homens do apito caso algum acontecimento de jogo fuja do script pré-definido. 

Sejamos compreensivos: não andaram a trabalhar cinco anos para dominar a arbitragem e a enchê-la de mimos e cortesias para depois não poderem usufruir destas pequeninas retribuições quando os momentos decisivos chegam. Retribuições tão pequeninas, que ninguém precisa de ficar de consciência pesada... é só de um cartão amarelo que estamos a falar. Nenhum campeonato se decide por causa de um amarelo...

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Paixão por Bruno

Sabendo da derrota do Benfica no clássico, o Sporting foi a jogo (que começou atrasado 13 minutos por demora dos jogadores do Belenenses em subir ao túnel de acesso - gostava de saber o que se terá passado) com o conhecimento de que dependia apenas de si para conseguir chegar ao 2º lugar. Esse importante pressuposto para o que resta da época impunha, obviamente, que a equipa saísse do Restelo com os três pontos no bolso.

Nesse sentido, o jogo não podia ter começado de pior forma: Bruno Paixão decide penalizar o Sporting com (mais) um penálti que não se assinalaria contra nenhum outro candidato ao título. A perder desde cedo, o Sporting reage categoricamente com um vendaval de futebol proveniente dos pés de Bruno Fernandes e vira o resultado, e levando dois golos de vantagem para o intervalo. Tentou adormecer o jogo na segunda parte, mas nem o Belenenses nem Bruno Paixão foram na cantiga: grande jogada pela esquerda na origem do 2-3 e novo penálti que ninguém assinalaria a Benfica ou Porto para o 3-3.

Valeu-nos a jurisprudência criada por Bruno Paixão na decisão do primeiro penálti para assinalar um penálti a favor do Sporting, que resolveria o jogo. Houve muito Bruno (Paixão), mas, felizmente, acabou por haver muito mais Brunão.




Brunão - mais uma exibição portentosa. O passe para o golo de Dost é de uma categoria assombrosa: tenso e com uma precisão milimétrica para facilitar a receção orientada do holandês. Assistência para Gelson. Participação na jogada do terceiro golo. E não tremeu na marcação do penálti. Para além de outras iniciativas de ataque deliciosas. Só não esteve perfeito num par de ocasiões de remate de que dispôs na área do Belenenses. Está com números estratoféricos que só surpreenderão quem não o vê jogar. Não deve haver sportinguista que não sinta uma arrebatadora paixão pelo Brunão.

A reação ao primeiro golo - depois de mais um penálti que só se marca contra o Sporting, a equipa não podia ter tido melhor reação. Não tardou a conseguir o empate e dispôs de variadíssimas oportunidades até alcançar a vantagem com que foi para o intervalo. Uma resposta que deve ser valorizada se considerarmos as dificuldades que o Belenenses causou recentemente a Benfica e Porto.

Bryan a 8 - não tendo estado ligado de forma tão direta aos golos, é justo que se refira o excelente jogo que fez. Enquanto 8, tem sido capaz de dar a ligação entre setores de que a equipa precisa e de dar os equilíbrios defensivos necessários, pelo menos enquanto não rebenta fisicamente. Está em muito boa forma.

A defesa de Patrício a segurar a vitória - Florent tentou cruzar, mas a bola seguiu caprichosamente para o canto superior oposto da baliza do Sporting. Entraria, não fosse a extraordinária defesa de Rui Patrício a desviar o esférico para a barra. Valeu dois pontos.



A arbitragem - felizmente, o Sporting ganhou, pelo que não me poderão acusar de estar a culpar a arbitragem para esconder um insucesso da equipa. Já vi este filme demasiadas vezes para achar que isto são apenas coincidências. Patrício bate com a mão em Yazalde no lance do primeiro penálti. É um facto, mas quantas vezes é que um guarda-redes, ao embater num adversário sem tocar na bola na pequena área num lance dividido, deram direito a penálti? Nomeadamente contra Benfica ou Porto? Ao contrário teria marcado? Nem pensar. Há duas semanas, em Braga, Matheus arriscou-se a partir a perna a Dost num lance idêntico e o árbitro mandou seguir. Vejo o penálti de Acuña sobre Licá e apenas me lembro do penálti que Artur Soares Dias não assinalou sobre Doumbia no Dragão. Disse que a UEFA o matava se assinalasse uma lance daqueles, que foi bem mais evidente do que este. É assim o futebol português, os protocolos vão sendo "construídos" em função do tipo de lances que vão acontecendo a determinados clubes. Outro exemplo ainda: o amarelo mostrado a André Pinto logo aos dez minutos: quantas vezes é que os árbitros toleram faltas para amarelo quando são cometidas no início? Nos jogos do Sporting é a regra... quando a primeira falta para amarelo é cometida por um adversário do Sporting. Em relação ao penálti sobre Dost, obviamente que Paixão não teve alternativa senão assinalá-lo, depois do que tinha decidido no penálti de Patrício - a cotovelada de Yebda foi bem mais ostensiva. Outra situação: Bruno Paixão não podia ter impedido Dost de ficar em campo após ter sido assistido nesse mesmo lance... porque foi assistido por causa de uma lesão provocada por um adversário que viu um amarelo por essa falta. Ou seja, Dost viu um amarelo injustificado por ter permanecido em campo após a assistência (quando na realidade não precisava de ter saído) e não pôde bater o penálti graças a esta absurda decisão de Bruno Paixão, que o manteve fora de campo. Felizmente, Bruno Fernandes marcou com sucesso o penálti, caso contrário estaria armado mais um caso gravíssimo.

Fonte: O Jogo

Há ainda a mão (indiscutível) de Ristovski no lance do terceiro golo. Quando o golo de Doumbia mal anulado contra o Feirense, o CA divulgou um pormenor importante em relação ao momento em que o VAR pode recuar na jogada:


Ora, já depois da mão de Ristovski, Bruno Fernandes pára a progressão para pensar o que vai fazer, e Dost lateraliza para Ristovski. São dois momentos em que a jogada não prossegue rapidamente na direção da baliza adversária. Não sei até que ponto é que isso constitui ou não o início de uma nova fase de ataque. Admito que não, e que o VAR deveria ter recuado até ao controlo de bola de Ristovski, mas fica a dúvida. O que tenho certeza é que não justificava tamanha revolta por parte do narrador do jogo (ver mais abaixo).

Incapacidade de gerir vantagens - a reação ao golo do Belenenses foi fabulosa. A vantagem de 3-1 ao intervalo era confortável, mas a verdade é que, mais uma vez, o Sporting deixou o adversário reentrar no jogo e chegar ao empate. Já tinha acontecido, por exemplo, em Vila da Feira: em poucos minutos o Feirense recuperou de 0-2 para 2-2. Abdicámos de atacar e convidámos o adversário a acampar no nosso meio-campo. Percebo a ideia de abrandar o ritmo, considerando o desgaste do jogo com o Atlético e o desafio da próxima quarta-feira com o Porto, mas não se pode cair no exagero - já devíamos estar mais que avisados para este tipo de situações.

A inenarrável narração da Sport TV - não me lembro de ver comentários tão facciosos num canal supostamente isento. Estive a investigar e constou-me que Rui Pedro Rocha tinha acabado de comer uns burritos estragados minutos antes de começar a emissão do Belenenses - Sporting, o que talvez explique tamanha azia. Tentou desesperadamente chamar a atenção para a falta de Patrício naquele que seria o primeiro penálti da noite; tentou lançar a dúvida sobre a falta de Yebda naquele que seria o único penálti a favor do Sporting; sugeriu que Patrício poderia ver o vermelho no primeiro penálti ("vamos ver que cartão vai mostrar a Patrício", disse ansiosamente), mas mais tarde sugeriria que Yebda poderia não ter visto amarelo no terceiro penálti ("ser penálti não é obrigatoriamente amarelo", disse desanimado); e sobretudo, pelas inúmeras vezes que chamou a atenção para uma mão de Ristovski no terceiro golo do Sporting. Enquanto não perdia uma oportunidade para relembrar esse lance, conseguiu não reparar que a decisão de manter Dost fora de campo no penálti batido por Bruno Fernandes é ilegal. Eu ainda sou do tempo em que os comentadores da Sport TV evitavam falar de arbitragem para não desvalorizar o produto. Burritos estragados à tarde, e pastéis de Belém estragados à noite. Não foi fácil o dia de Rui Pedro Rocha.



Jogo de loucos que nos permitiu aproveitar os pontos perdidos pelo Benfica. Neste momento, apenas dependemos de nós para chegar ao 2º lugar. Não sendo "o" objetivo, não deixa de ser um objetivo importante para o Sporting por causa do acesso à Champions.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Uma questão de disciplina




Tenho quase a certeza que a maior parte dos sportinguistas que tenha visto em direto esta ocorrência da segunda parte do Belenenses - Porto de ontem terá pensado: alguma vez, se o Soares fosse jogador do Sporting, teria deixado de ver um cartão por este empurrão? As quatro expulsões de jogadores nossos nos últimos seis jogos para o campeonato, todas por acumulação de amarelos, servem de resposta a esta questão. O lance que me veio imediatamente à memória foi a forma como Mathieu foi expulso em Tondela por uma ação idêntica cometida sobre um adversário, após esse mesmo adversário lhe ter acertado com o braço na cara alguns segundos antes sem punição. Como sabemos, o árbitro João Capela nem pestanejou: mostrou o segundo amarelo ao francês e o Sporting via-se obrigado a ir à procura do golo da vitória em inferioridade numérica na última meia-hora de jogo.

Ontem, para além do amarelo perdoado a Soares, Brahimi conseguiu ter ainda mais sorte: Hugo Miguel poupou-lhe o cartão quando empurrou várias vezes um adversário que saía de campo para ser substituído; e perto do final, o argelino fez uma tesoura por trás que lhe devia ter valido a expulsão direta, mas o árbitro mostrou-lhe apenas um amarelo.

É uma história bastante batida: a tolerância de que os nossos adversários usufruem raramente existe para jogadores do Sporting.

Claro que vai havendo exceções à regra: Coentrão também devia ter sido expulso em Setúbal, pelos mais que evidentes insultos na cara do árbitro - mas o jogo estava decidido e a expulsão não iria alterar nada -; Danilo Pereira, na época passada, vê um vermelho por tropeçar em Luís Godinho enquanto recuava, e até o Benfic-- bem, ao Benfica nunca acontecem erros de avaliação que lhe sejam prejudiciais: para um jogador ser expulso sem ser a pedido ou estando o jogo por resolver, é preciso mesmo ter feito algo demasiado evidente para ser ignorado (se bem que, muitas vezes, até dessas conseguem escapar).

A gestão da disciplina é um pormaior que pode dar vários pontos a ganhar ou a perder ao longo de uma época, e não há VAR que valha à verdade desportiva: estamos completamente à mercê da homília que os padres quiserem dar. Os números da época são bastante claros. 

Começando pelos cartões vermelhos mostrados a jogadores dos grandes nesta época, o Sporting tem quatro, o Porto tem três e o Benfica tem apenas um. A disparidade entre os clubes é semelhante ao nível do número de minutos que disputaram em inferioridade numérica:


Olhando para o número de cartões vermelhos mostrados aos adversários dos grandes, a disparidade do Sporting para os restantes ainda é maior. O Sporting apenas viu por uma vez um adversário ser expulso, o Porto teve quatro expulsões de adversários, enquanto o Benfica teve seis. No caso do Benfica, essas expulsões correspondem a mais de 160 minutos em superioridade numérica (mais descontos, que não estão contabilizados nestes gráficos).


O saldo entre os penáltis assinalados a favor e contra e entre os minutos em superioridade e inferioridade numérica demonstram uma tendência perfeitamente clara:


Os números ficam ainda mais interessantes se adicionarmos uma outra dimensão a esta análise: as faltas cometidas e sofridas por cada uma das equipas.


O Sporting consegue ser a equipa mais penalizada com vermelhos mesmo cometendo bastante menos faltas que o Porto e sensivelmente as mesmas que o Benfica, da mesma forma que é a equipa que, de longe, mais faltas sofre e raramente tem um adversário expulso.

A cada 61 faltas sofridas, o Benfica tem um adversário expulso, contra a média de 466 do Sporting. Quando passamos a cartões vermelhos por cada falta cometida, a estatística inverte-se: o Sporting vê um vermelho a cada 107 faltas cometidas, enquanto o Benfica teve essa infelicidade apenas em uma das 426 faltas que cometeu até agora no campeonato. Mais elucidativo que isto é impossível.

Como sabemos, isto não é nada de novo. É uma tendência recorrente época atrás de época.

É certo que o Sporting tem culpas próprias na forma como se deixou atrasar na classificação, é mais do que óbvio que, dentro daquilo que está apenas dependente de nós, há coisas que podem e devem ser melhoradas, mas convém sempre contextualizar as análises que se façam. A competição em que estamos inseridos está longe de ser justa e, como tal, não devemos deixar de colocar a seguinte questão antes de pedirmos a cabeça de quem quer que seja: se a tendência prejudicasse Benfica e Porto como prejudica o Sporting e se beneficiasse o Sporting como benefícia o Benfica, será que a classificação no topo da tabela seria igual?

A resposta é simples. Obviamente que não.

P.S.: para outras estatísticas interessantes sobre este tema, recomendo a leitura deste post do Mister do Café (LINK).

P.S.2: entretanto vi isto.




sexta-feira, 30 de março de 2018

Humilhação



A notícia de que não haverá árbitros portugueses no mundial 2018 a desempenhar quaisquer funções - árbitro, assistente ou VAR - só pode ter surpreendido quem andava totalmente distraído. Nem a vantagem que tiveram pelo facto de Portugal ser um dos primeiros países a adotar o VAR em todas as competições principais foi suficiente para convencer a FIFA dos seus talentos. Num total de 99 juízes provenientes de 46 nações, Portugal não terá nem um para amostra.

Parabéns. É um justo reconhecimento da qualidade que têm demonstrado ao longo das últimas épocas, começando nos nossos árbitros de topo - se bem que seja discutível que a palavra topo possa ser utilizada no âmbito da arbitragem nacional -, que têm sido os coveiros do Sporting nas últimas épocas, e acabando nas aberrações que têm ultrapassado sistematicamente todos os limites imagináveis da incompetência.

Provavelmente alguns deles acharão injusto, já que a qualidade média das arbitragens dos mundiais tem sido miserável - a obrigatoriedade da representatividade dos vários continentes tem contribuído para que os mundiais tenham recorrentemente os seus escândalos. Vamos ver como correrá desta vez, sabendo-se que haverá VAR. Será curioso ver como se adaptarão os árbitros no recurso a esta ferramenta, alguns dos quais terão pouco tempo de experiência. Se por acaso conseguirem entre todos, vindo de competições tão díspares, manter um critério consistente, sem demasiados erros grosseiros... será uma grande vitória - e, ao mesmo tempo, uma humilhação para os árbitros cá do burgo, que ao fim de vários meses ainda andam a patinar nos critérios, muitas vezes ao sabor dos clubes que estão em campo.

Claro que tudo isto deveria servir para que a classe dos árbitros refletisse sobre o que acabou de acontecer... mas acredito mais que a reação geral seja a de descarregar a frustração nos desgraçados do costume - e provavelmente começando já no sábado, já que há uma equipa - aquela equipa que eles sabem - que está mesmo, mesmo a jeito de ser colocada de fora da corrida pelo título.

terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Como é fácil mostrar cartões ao Sporting

Ontem, foi a vez de Tiago Martins demonstrar que é muito, muito fácil mostrar cartões a jogadores do Sporting do que aos nossos adversários. Aqui fica uma pequena a mostra do que se passou ontem:


Perante os assobios que se ouviram ontem no estádio, gostaria de perguntar a quem o fez se não seria mais proveitoso atacarem equipas de arbitragem como a de ontem, em vez de atacarem em pleno jogo os nossos próprios jogadores, que, à entrada de março, continuam a manter o Sporting na luta em todas as frentes, contra tudo e contra todos - mesmo contra alguns dos nossos adeptos.


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Vitória hardcore

Começa a ser uma ciência: quando o Sporting ganha à tangente, pode-se aferir a importância da vitória e o nível da azia dos rivais pelo tempo que o presidente do clube adversário passa na sala de imprensa após o final da partida. Nesse sentido, considerando que defrontávamos uma espécie de Benfica C (sendo que o Braga é o Benfica B e o Benfica B é o Benfica D), o jogo de ontem não poderia ter terminado de forma mais apropriada para testar a teoria acima exposta. Golo marcado nos descontos dos descontos dos descontos que deu direito a um presidente na sala de imprensa a mostrar fotos de mazelas de jogadores em lances perfeitamente limpos e a barafustar com a compensação de tempo demasiado esticada por João Capela (aqui com alguma razão, admita-se). Sendo esse presidente um benfiquista assumido que tem o condão de contagiar esse benfiquismo aos treinadores e jogadores que lidera sempre que a sua equipa defronta um grande - principalmente quando o adversário é o Benfica - é fácil compreender a sua a frustração - não tanto pelo ponto perdido - que não lhe deverá fazer particular falta, considerando que o objetivo da manutenção está bem encaminhado -, mas sobretudo pela mala que voou e pela impossibilidade de um certo rival do seu adversário poder assumir o segundo lugar isolado na classificação. Há dias assim.

Foto: Vítor Parente / Kapta+ (zerozero.pt)



Até ao fim - as circunstâncias eram bastante desfavoráveis: havia o desgaste acumulado durante a semana com duas viagens intercontinentais e uma partida exigente, e, para piorar, um dos poucos jogadores poupados a esse esforço foi expulso, deixando a equipa em desvantagem numérica durante meia-hora. Jesus preferiu não mexer na equipa e colocou William como central improvisado. Como seria de esperar, o Sporting não foi capaz de fazer um final de partida tão esclarecido como seria desejável, mas nem por isso deixou de criar ocasiões para marcar. Foi um daqueles jogos ganhos com o coração, graças à superação de esforço de todos os que estavam em campo. Vitória hardcore, mas inteiramente merecida.

A importância de ter Dost - marcou mais um golo que foi só encostar, correspondendo a um magnífico cruzamento de Acuña, mas o holandês teve participação decisiva na construção da jogada, fazendo a ligação com Bruno Fernandes (que depois faria o passe para Acuña) com um precioso toque em habilidade. Não marcou o segundo golo, mas também teve um papel fundamental na jogada ao servir Doumbia com um toque de cabeça em esforço. Ricardo Costa antecipar-se-ia ao costamarfinense desviando a bola para o poste, e Coates faria o resto. O regresso de Dost não podia ter corrido de melhor forma.

A resposta ao golo do Tondela - boa reação da equipa, que aumentou a velocidade de execução e a pressão sobre o adversário, encostando o Tondela às cordas. O golo de Dost surgiu com naturalidade, e a equipa poderia ter perfeitamente chegado ao intervalo em vantagem.



Equipa hardcore - Pepa prometeu e a sua equipa não o desiludiu. A partir do momento em que o Sporting começou a mandar no jogo, o Tondela entrou em modo castanhada e conseguiu superar largamente a média que faz deles a equipa mais faltosa da liga. 24 faltas, algumas delas bastante duras e que não nem sempre foram punidas em conformidade, que ajudará a subir a média de 18 faltas que tinham até esta jornada. Curiosamente, Pepa ainda não explicou em que ilha deserta ficou perdida a equipa hardcore no dia do jogo contra o Benfica, partida que apenas cometeram... 8 faltas. Uma equipa pouco séria, que tem por hábito ser das mais duras do campeonato, mas que estende a passadeira quando o adversário ao Benfica. A rábula do presidente do Tondela após o final do jogo foi a cereja no topo do bolo. Se há uma equipa que merece perder desta forma hardcore, o Tondela é seguramente uma delas.

(via @paravertudo)



A arbitragem - João Capela fez uma excelente arbitragem... até ao tempo de descontos da primeira parte. Deu apenas um minuto adicional (quando houve uma assistência que, sozinha, durou quase dois minutos) e nem deixou marcar um canto conquistado antes desse minuto adicional se ter esgotado. A segunda parte foi muito fraca, com erros para os dois lados. O mais falado é, obviamente, a extensão do tempo de descontos da segunda parte, que foi exagerado (apesar de não tão exagerado como se diz por aí, pois houve imensas paragens após os 90'). Mas, por outro lado, os quatro minutos de descontos, numa segunda parte que teve muitas paragens e substituições, foram compensação demasiado curta. Mathieu foi bem expulso, mas Pedro Nuno devia ter visto também ordem de expulsão - segundos antes tinha simulado uma falta sem ver amarelo, e a varridela a Rúben Ribeiro foi alaranjada. Pareceu-me haver um penálti por assinalar sobre Coates aos 73', mas infelizmente o VAR não fez a revisão desse lance. O amarelo a Murillo por simulação não faz sentido: apesar de não ter havido penálti, o desequilíbrio é natural face à pressão que estava a sofrer de ambos os lados. Coates devia ter visto amarelo por tirar a camisola nos festejos. Arbitragem obviamente negativa, mas não tão inclinada quanto os Benfica Press's da vida quererão fazer crer.

A expulsão de Mathieu - segundo amarelo bem visto, numa asneira pouco compreensível num jogador tão experiente. Esteve muito perto de comprometer decisivamente a conquista dos três pontos.



Nota artística: 4 até à expulsão, 3 no geral.

MVP: Bas Dost



Vitória hardcore, obtida no final de um tempo de descontos hardcore, contra uma equipa que prometia ser hardcore e foi efetivamente hardcore. Curiosamente, foi uma espécie de reedição do jogo de estreia do Tondela na I Liga, em casa emprestada... contra o Sporting, que também terminou em 2-1, com o golo da vitória a surgir aos 98'. Três pontos absolutamente fundamentais.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O eufemismo do ano: "interpretação desajustada"

O Conselho de Arbitragem emitiu ontem um comunicado para esclarecer a polémica do golo anulado a Doumbia no Sporting - Feirense:


Saúda-se a preocupação da FPF em esclarecer o público sobre qual a decisão que deveria ter sido tomada, mas, por outro lado, não se entende o pudor que leva o CA a não dizer concretamente a que lance se refere. Toda a gente percebe que é do golo de Doumbia que se está a falar. Há algum motivo lógico para não o indicarem explicitamente?


O esclarecimento dado sobre o que é a fase de ataque é muito importante, mas mais uma vez não faz qualquer sentido o público ser informado apenas agora disto. Tendo havido um "esclarecimento recente aos árbitros portugueses" (quão recente? semanas? meses?), significa que andámos todos desinformados em relação ao âmbito da intervenção do videoárbitro - o que tem sido transmitido e debatido publicamente é que a análise do VAR pode recuar até ao momento em que a equipa que marcou o golo recuperou a posse de bola. Esta omissão por parte da FPF é um péssimo serviço prestado ao futebol: que sentido faz manterem adeptos, jornalistas e comentadores alheados das indicações que os árbitros devem seguir?

Ora, segundo este comunicado, a fase de ataque pode ser bem mais curta do que o período que compreende o momento em que a equipa recuperou a posse de bola e o momento em que marcou golo: basta que uma equipa deixe de procurar rapidamente a baliza adversária para acabar uma fase de ataque e iniciar outra. O conceito parece-me fazer sentido, pois é consistente com o espírito que rege o VAR nos lances do golo: eliminar erros grosseiros com impacto elevado no desfecho da jogada. Faz particularmente sentido quando há equipas como o Barcelona que mantêm a posse de bola durante períodos prolongadíssimos até atacarem a baliza - não faz sentido recuar-se um, dois ou três minutos à procura de uma falta. No entanto, esta definição de fase de ataque traz um novo tipo de problema: insere mais um nível de subjetividade, porque nem sempre um passe para trás implica uma interrupção numa fase de ataque.

Mas, centrando no que é essencial: descrever o erro de Manuel Oliveira como "interpretação desajustada" é estar a brincar com as pessoas. Interpretação desajustada pode acontecer em situações de subjetividade, o que não é definitivamente o caso em questão. Aliás, à luz desta nova definição, o erro de Manuel Oliveira é ainda mais gritante. É impossível não ter sido deliberado, pelo que é imperativo que existam consequências para o árbitro. Aquilo que se passou no domingo tem de ser investigado e punido em conformidade. Não pode haver lugar a qualquer tomada de posição corporativista, pois, a bem da reputação da classe, os árbitros flagrantemente desonestos e incompetentes não podem continuar a ser defendidos. Manuel Oliveira simplesmente não pode continuar a apitar jogos de futebol.

P.S.: já agora, não é apenas Manuel Oliveira que está a precisar de uma reciclagem profunda de conhecimentos. Pouco depois do final do jogo, Nuno Sousa, comentador da RTP 3, fez o seguinte comentário ao lance do golo de Doumbia:


O lance é bem invalidado. O Sporting não se pode queixar, até porque foi um dos defensores públicos do videoárbitro. O Sporting só se pode queixar de si próprio. Sinceramente, ouço este discurso e imagino Carlos Janela sentado em frente à televisão a bater palmas de aprovação.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Agarra que é ladrão

Um roubo. Não há outra forma de designar aquilo que ontem se passou em Alvalade. O golo anulado a Doumbia é um escândalo, porque o árbitro responsável pelo VAR - Manuel Oliveira - decidiu fazer tábua rasa do que diz o protocolo que rege a atuação do videoárbitro. Por desconhecimento? Impossível, qualquer adepto minimamente informado sabe que o lance pode ser revisto apenas até ao momento em que a equipa que marcou o golo recuperou a bola. Por distração? Impossível, pois ao recuar as imagens até ao momento da falta (que nem sequer me parece clara) de Bruno Fernandes não pode ter deixado de reparar que o Feirense tinha tido, entretanto, a bola em seu poder. Não podendo ser por desconhecimento ou distração, sobra a explicação evidente: a anulação do golo sustenta-se exclusivamente na vontade de Manuel Oliveira em manter o resultado em 0-0.



O Sporting acabou por ganhar o jogo, mas não é por isso que deveremos deixar de apontar a gravidade do sucedido. Em primeiro lugar, porque não é admissível que um árbitro interfira de forma consciente no decurso de um jogo. Em segundo lugar, porque já houve vários casos em jogos de rivais em que o VAR passou por cima de faltas claras que antecederam golos seus. É certo que erros não devem ser compensados com outros erros, mas o que é facto é que este acumular de "enganos" no mesmo sentido acaba por representar uma penalização dupla para o Sporting, e que poderá ter um peso decisivo num campeonato disputado ponto a ponto. E em terceiro lugar, porque não se pode menosprezar o efeito que uma ocorrência destas poderia ter numa equipa a atravessar uma fase complicada e que estava proibida de perder mais pontos, e - já agora - no público presente no estádio. Falando por mim, não fui capaz de festejar nenhum dos golos que foram marcados posteriormente, porque não conseguia deixar de pensar que poderia ter havido algum jogador do Sporting a espirrar três ou quatro minutos antes, o que seria, certamente, motivo suficiente para Manuel Oliveira anular os lances.

Quanto ao jogo em si, em vez de se ver em vantagem aos 20' e poder gerir o jogo e o esforço de outra forma, o Sporting foi obrigado a continuar à procura do golo. E se não os alcançou mais cedo, não foi por falta de oportunidades. À semelhança do que já tinha acontecido em alguns momentos contra o Estoril, a equipa teve períodos de excelente futebol, mas parecia voltar a fazer questão de desperdiçar as situações de golo feito que ia construindo. Felizmente, a persistência da equipa em chegar à vitória acabou por dar frutos e permitiu a conquista de três pontos inteiramente merecidos, contra tudo e contra todos.




Nota artística - ao contrário de outras ocasiões, a equipa não ficou à espera que o jogo se resolvesse sozinho, e foi à procura do golo desde o primeiro minuto. À vontade de desbloquear o resultado o mais rapidamente possível, juntou-se a capacidade de impor um futebol dinâmico, veloz e agressivo, que se traduziu numa enorme quantidade de oportunidades flagrantes para marcar. O golo foi-se adiando, seja por incapacidade própria na finalização, seja por excelentes intervenções do guarda-redes Caio Secco, seja pela vontade de Manuel Oliveira. Mérito para a generalidade dos jogadores, com Gelson, Montero e William Carvalho num patamar acima dos restantes.

A mão que segurou o resultado - não me refiro à mãozinha marota de Manuel Oliveira a rodar o botão do feed no sentido contrário aos ponteiros do relógio para recuar as imagens à procura de um motivo para anular golos, mas sim à de Rui Patrício: duas defesas fabulosas, uma em cada parte, numa altura em que o marcador ainda estava em branco.

As estreias - Rafael Leão estreou-se para o campeonato, e a sua entrada fez-se sentir de imediato. Primeiro com um remate para defesa difícil de Caio, depois com uma assistência para golo (irregular) de Gelson. Velocidade, técnica, agressividade e olhos colocados na baliza adversária. Promete. Lumor também entrou bem, integrando-se bem no ataque, revelando velocidade e voluntarismo, para além de ter feito um bom cruzamento. Perdeu, no entanto, um lance de cabeça num cruzamento para a área do Sporting em que nem sequer tirou os pés do chão, a fazer lembrar Jonathan Silva. Ainda assim, no global, teve uma estreia positiva.



A arbitragem - VAR à parte, a arbitragem foi fraca. Não que não estivessemos avisados desde cedo do que se iria passar: aos cinco minutos de jogo, Gelson já tinha sido alvo de duas faltas duras - numa delas nem sequer marcou falta - e Montero de outra. Cartões é que nem vê-los. Pouco depois do golo anulado a Doumbia, há um possível lance de mão na bola na área do Feirense, mas não houve VAR nem Luís Ferreira que desse uma apreciação cuidada à jogada. Dois exemplos do critério disciplinar errático que exerceu: mostrou um amarelo a William por fazer falta a meio do meio-campo do Sporting sobre um adversário que estava marcado também por Mathieu, poucos minutos depois de ter poupado Kakuba numa falta ostensiva sobre Gelson junto à área do Feirense, quando o extremo se preparava para ganhar a linha de fundo; e o amarelo para Patrício após a segunda reposição de bola lenta (depois do 1-0), quando foram precisas cinco ou seis reposições lentas de Caio Secco para ver cartão. Junte-se a isso várias situações em que impediu o Sporting de marcar livres de forma rápida e a eternidade que demorava a tomar nota dos cartões que mostrava. Luís Ferreira pode não ter jeito para a arbitragem, mas deve ser dono de uma caligrafia irrepreensível.

Doumbia - teve a infelicidade de lhe ter sido anulado um golo após excelente iniciativa individual, mas esse foi, provavelmente, o único bom momento dos muitos em que lhe deram oportunidade para brilhar. Começou logo nos minutos iniciais quando William o solicitou em profundidade e dominou mal a bola - problema que viria a demonstrar mais vezes enquanto esteve em campo. No total, teve pelo menos quatro oportunidades que desperdiçou de forma escandalosa. Infelizmente, não está a ser o ponta-de-lança de que necessitamos para render Dost. Provavelmente terá a sua última grande oportunidade na quinta-feira no Cazaquistão, espero que não a desperdice.



MVP: Fredy Montero

Nota artística: 4



Lado positivo do que se passou? Acredito que a equipa tenha saído mais forte após ter superado este nível de adversidade, juntando-se à sequência da melhoria da qualidade do futebol praticado que já se tinha visto na Amoreira (apesar da derrota). Lado negativo? É mais uma arbitragem de campo inclinado, que tem sido frequente nos últimos tempos. Os padres estão a sentir a fragilidade e querem acabar o servicinho.