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sábado, 17 de dezembro de 2016

Doyen / Traffic / Títulos nacionais

Decisão do Tribunal Federal Suiço sobre o caso Rojo

Conforme se previa, o TFS deu razão à Doyen. Era previsível porque este tribunal limita-se a analisar questões processuais dos julgamentos de primeira instância, pelo que era bastante improvável que revertesse a decisão do TAD. No entanto, este desfecho não justifica que se queira fazer disto mais do que uma mera notícia de rodapé, pois não terá grande impacto na vida do clube.

Do ponto de vista moral, o Sporting continua com a razão do seu lado. A melhor prova disso está à vista de todos: foi a ação abusiva dos fundos que levou a FIFA a decidir banir os contratos de TPO do futebol. Quando o Sporting denunciou o contrato de Rojo e Labyad, os fundos agiam impunemente. Hoje, os fundos, tal como os conhecíamos, são proibidos e vistos como uns párias pelo mundo do futebol - com exceção de um punhado de clubes que adora viver metido em negociatas. 

Ainda ontem, foi divulgado pela imprensa internacional que a Doyen organizou uma festa com prostitutas onde participou Florentino Perez, presidente do Real Madrid, que, só por acaso, foi uma das testemunhas contra o Sporting no caso Doyen. Assim se vê o nível destes indivíduos. Mas a vida continua, e, felizmente, o Sporting está muito mais sólido do que estava em agosto de 2014. Em contrapartida, a Doyen e outros fundos estão em processo de perda de influência, que terminará assim que expirarem os últimos contratos ainda em vigor.

Do ponto de vista das contas, também não há impacto relevante ao nível da contabilidade e tesouraria do SAD. Do ponto de vista das contas, a provisão feita na época passada antecipou os custos de uma decisão desfavorável no TFS. Do ponto de vista da tesouraria, a retenção das receitas da Liga dos Campeões cobre, quase na totalidade, o valor a pagar.

Valeu a pena o Sporting ter-se metido nesta guerra? Na minha opinião, sim. Em primeiro lugar, pela questão de princípio de não admitir ingerências de indivíduos que nada têm a ver com o clube. Nem o problema dos juros pagos acaba por ser uma penalização particularmente dura, pois a taxa está ao nível do que se pagaria se se recorresse à banca ou a empréstimos obrigacionistas.

A Doyen é, finalmente, parte do passado do Sporting. Daqui a poucos anos, a Doyen será parte do passado do futebol. Até lá, o Benfica e o Porto que os aturem, pelo menos enquanto não venderem Ola John, Corona e Brahimi.


A parceria com a Traffic

Tem muita graça haver quem tente apontar a parceria com a Traffic como uma incoerência do Sporting face à sua posição em relação aos fundos. O Sporting insurgiu-se contra os contratos TPO e contra os fundos de quem se desconhece a origem do dinheiro. Os contratos TPO fazem parte do passado. E, tanto quanto se sabe, os proprietários da Traffic são conhecidos.

Ironicamente, o maior problema está no facto de os proprietários da Traffic serem conhecidos - e terem um historial com acusações muito graves. Isso faz com que não me agrade este acordo entre o Sporting e a empresa brasileira.

Agora, tudo dependerá da natureza da parceria: se for um simples acordo de prospeção e colocação de jogadores, não vejo grandes inconvenientes; se for para trazer Veras ou outros sul-americanos desconhecidos a troco de milhões, com clubes fachada metidos pelo meio, então Bruno de Carvalho terá de responder por isso. O tempo esclarecerá as dúvidas, mas não vejo motivos para que não se acredite que se trata da primeira hipótese.


A questão dos títulos nacionais

A Bola colocou na capa de ontem a notícia de que "a FPF já esclareceu a questão dos títulos". O jornal sustentou esta afirmação com um link do site da Federação que contém a lista de vencedores da Taça de Portugal, onde foram incluídos, numa subsecção situada no final da página, os vencedores do Campeonato de Portugal.

Não vejo como se pode achar que esta questão fica fechada com um mero link de um site, que pode ter sido colocado por um qualquer funcionário (ou até algum subcontratado). Qualquer tomada de posição da FPF terá de vir da sua direção. Mas mesmo uma tomada de posição da direção da FPF não se pode limitar a constatar que sim ou sopas - é necessário que essa posição seja bem sustentada juridicamente. A absurda (e não fundamentada) decisão de 2005 da FPF em considerar as ligas experimentais como campeonatos nacionais é discutível moral e juridicamente. Não se pode tirar, de ânimo leve, o estatuto de Campeão Nacional aos clubes, atletas e técnicos que conquistaram os Campeonatos de Portugal, conforme lhes era reconhecido à época.

A questão dos títulos continua tão aberta hoje como estava na quinta-feira.

sexta-feira, 18 de março de 2016

O negócio Brahimi

Ao longo dos últimos meses, o Football Leaks foi revelando uma série de documentos que permitem entender o quão complexo é o negócio Brahimi. Aquilo que parece, à primeira vista, ser um simples negócio de compra e posterior venda de parte do passe a um fundo, tem, na realidade muitas outras ramificações. Nada que surpreenda quem tem acompanhado os leaks com detalhe, no entanto. De seguida fica uma cronologia de todo o negócio, que se baseia na informação constante dos contratos que foram publicados.


I. Antes da transferência

O passe de Brahimi era partilhado por duas entidades:

  • Granada, o clube onde jogava o argelino;
  • Fifteen Securisation, uma empresa com base no Luxemburgo.

A forma como o passe estava dividido entre as duas partes não é conhecida. O Granada é um clube detido pela família Puzzo. Da Fifteen Securisation sabe-se pouco, mas um dos seus administradores é conhecido: Raffaele Riva, que é também o presidente do Watford, clube inglês que é detido... pela família Puzzo (LINK).


II. A transferência para o Porto

Assim que ficou decidida a transferência de Brahimi para o Porto, houve uma movimentação à formalização da venda do jogador. A Doyen e a Fifteen Securisation chegaram ao seguinte acordo: a Fifteen Securisation abdicava da sua percentagem de direitos económicos de Brahimi em favor do Granada (que passava a ser detentor de 100% do passe); em contrapartida a Doyen pagava 3 milhões de euros à Fifteen Securisation.


Paralelamente a esta cronologia, para melhor compreensão dos direitos e dos custos suportados por cada uma das entidades envolvidas neste negócio, irei atualizando um pequeno quadro-resumo:


A 22 de julho de 2014, o Granada vende os direitos federativos e 100% dos direitos económicos de Brahimi ao Porto, por €6,5M.



Numa carta paralela assinada na mesma data, o Porto compromete-se a ceder ao Granada 20% das mais-valias de uma futura venda. O valor a considerar para o cálculo dessa mais-valia é o excedente da transferência a partir dos €10M, deduzindo-se adicionalmente o valor a suportar do mecanismo de solidariedade e o custo de comissões até um máximo de 5% do valor da venda.



Numa segunda carta, também datada de 22 de julho de 2014, o Granada informa o Porto que cedeu os direitos das mais-valias referidos na carta anterior à Doyen. Não há nenhum leak que indique que tenha havido um pagamento adicional da Doyen ao Granada por esta transferência de direitos. No entanto, é possível que a Doyen tenha recebido este direito como contrapartida do pagamento de €3M que tinha feito anteriormente à Fifteen Securisation em favor do Granada.



A 23 de julho, Porto e Doyen assinam o ERPA, o típico contrato de TPO que regula as obrigações e deveres de cada uma das partes. O Porto cede 80% do passe de Brahimi à Doyen por contrapartida de um pagamento de €5M.

Fica definido que, na eventualidade de uma futura venda, a Doyen deverá receber pelos seus 80% um montante nunca inferior a €8,5M mais 10% de juros ao ano. Por seu lado, o Porto fica com o direito de recomprar até 55% do passe de Brahimi (que, juntando-se aos 20% com que o clube ficava inicialmente, significava que o Porto poderia vir a ter até 75% dos direitos económicos). Os valores estipulados para essa recompra são:
  • 20% por €2,3M, a acionar até 01.05.2015;
  • 10% por €1,2M, a acionar até 01.05.2016;
  • 10% por €1,5M, a acionar até 30.06.2015; ou por €3M após essa data, até 01.08.2017;
  • 10% por €2M, a acionar até 30.06.2016; ou por €3M após essa data, até 01.08.2017;
  • 5% por €1,5M, a acionar até 01.08.2017.


A 24 de julho, a Doyen assina um acordo com a Denos, uma empresa de consultoria, em que se compromete a pagar €1,5M pelos serviços prestados pela consultora em todo o processo da transferência de Brahimi.



A 24 de setembro de 2014, ou seja, dois meses depois de a transferência estar concluída, o Porto concordou pagar à Vela (empresa do universo Doyen) 5% das mais-valias de uma transferência futura (considerando o valor que o Porto receberá e não o total do negócio) pelo papel da empresa na intermediação do negócio. Para além disso, o Porto concordou pagar mais 5% de mais-valias caso seja a Vela a intermediar o negócio da venda.


Para efeitos de simplificação, e perante a mais que provável participação da Vela/Doyen no negócio de venda de Brahimi do Porto para o seu futuro clube, assumirei no quadro resumo que a Doyen terá direito a mais 10% de mais-valias.



III. O Porto recompra 30% do passe

Em junho de 2015, o Porto recomprou 30% do passe de Brahimi por €3,8M, acionando o 1º e o 3º ponto do call option.



IV. A renovação de Brahimi

A 1 de setembro de 2015, o Porto comprometeu-se a pagar €500.000 à Vela caso o processo de renovação de Brahimi se concluísse com sucesso durante o mês seguinte. O jogador acabaria por renovar contrato dentro desse período.

Para além disso, a Doyen concordou suportar a parte do aumento salarial de Brahimi caso, no momento da venda, o fundo detenha ainda 50% dos direitos económicos do jogador.



V. A futura venda de Brahimi

Resta saber se o Porto irá exercer a opção de recompra dos 25% dos direitos económicos que ainda estão previstos no contrato com a Doyen, tendo para isso que pagar €4,7M. A partir daqui, é especulação minha. Em teoria deverão fazê-lo, pois o valor adicional que terão a receber da venda de Brahimi seguramente compensará essa despesa. No entanto, não estou tão seguro que isso irá acontecer. Por outros leaks, sabemos que o Porto tem pedido vários tipos de ajuda à Doyen, nomeadamente um empréstimo para fazer face a obrigações fiscais prestes a vencer. Para além disso, a cláusula de ressalva dos 50% colocada na renovação, dá a entender que não é certo que o Porto irá exercer o direito dos tais 25%, caso contrário essa cláusula seria desnecessária - o Porto simplesmente assumiria a responsabilidade pelo aumento salarial.

Para ficarmos com uma ideia genérica daquilo que Porto e Doyen ganharão com o negócio, depois de todas as contas feitas, vou apresentar dois cenários. Um em que o Porto mantém os 50%, outro em que recompra os 25% e fica com um total de 75% dos direitos económicos de Brahimi.

Mais uma vez, para efeitos de simplificação, não vou considerar valores amortizados de passe nem comissões de intermediação adicionais ou outras despesas relacionadas com a transferência. Também não vou considerar a responsabilidade do aumento salarial após a renovação de contrato.

a) Porto 50% / Doyen 50%


O Porto dificilmente não terá lucro com toda esta operação, mas as mais-valias que obterá não serão muito significativas. Se Brahimi for vendido por €50M (um montante bastante improvável, apesar de não ser impossível - remember Mangala), o Porto fará uma mais-valia aproximada de €13M. Muito curto para um jogador que não foi assim tão caro. A Doyen, por seu lado, terá um lucro de cerca de €26M. Ou seja, o dobro.


b) Porto 75% / Doyen 25%



Neste cenário, os ganhos do Porto são mais significativos, subindo quase aos €18M caso o jogador seja vendido por €50M. Mas mesmo tendo o Porto 75% dos direitos económicos, a Doyen conseguirá sempre um ganho líquido superior àquele que o clube terá.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Festa dos fundos: a after-party no Twente


Na sequência das conclusões de um relatório independente sobre a situação financeira do Twente, um dirigente da federação holandesa (KNVB), Bert van Oostveen, declarou ontem numa entrevista que existe uma forte probabilidade de o clube ser despromovido na próxima época para os campeonatos não profissionais.

A primeira consequência das recomendações do relatório já se fez sentir: o afastamento dos elementos da direção do clube que se mantiveram após a demissão em novembro do presidente Aldo van der Laan. Existe também um conjunto de medidas que terá que ser implementado pelo clube para evitar a perda da licença profissional, mas as hipóteses de sucesso são consideradas magras. A consequência em caso de fracasso é a perda da licença profissional e a relegação para os campeonatos não profissionais.

Relembro que tudo isto aconteceu devido à descoberta em novembro de que o Twente entregava à KNVB contratos de jogadores - cujos passes eram detidos parcialmente pela Doyen - com cláusulas diferentes daquelas que tinham sido efetivamente assinadas com o fundo. A revelação do Football Leaks dos contratos reais provocou uma reação rápida da KNVB, que penalizou o Twente com a exclusão do clube das competições europeias durante 3 anos.

Mais: o Football Leaks publicou posteriormente uma troca de emails em que Nélio Lucas admite, numa discussão interna da Doyen, que o Twente tinha entregado contratos falsos à KNVB seguindo uma recomendação do próprio fundo.

Entretanto, o Twente e a Doyen já terminaram a sua relação com a revogação dos contratos de partilhas de jogadores que ainda estavam em vigor: o Twente foi pressionado a isso pelo escândalo em que se viu metido, e a Doyen pela obrigatoriedade de salvar o dinheiro investido (conforme os leaks demonstraram na mesma troca de emails interna).

Quando as coisas apertam a sério, vemos efetivamente a ajuda que os fundos prestam aos clubes. Foi o salve-se quem puder.

terça-feira, 1 de março de 2016

Os ativos da XXIII Capital Limited

Graças ao Football Leaks, ficámos a saber que existem clubes a antecipar recebimentos de transferências recorrendo aos serviços da XXIII Capital Limited. Na parte que diz respeito aos clubes, falamos de simples operações de antecipação de valores. 

Para explicar melhor, vou dar um exemplo hipotético: o clube A vende um seu jogador ao clube B por €10M. Fica acordado que o clube B paga €5M a pronto e os restantes €5M daí a um ano. O clube A, por questões de tesouraria, chega a um acordo com uma empresa como a XXIII Capital. A XXIII Capital adianta os €5M ao clube A (na realidade, são €5M aos quais se deduz uma determinada comissão, ou seja, o clube A receberá um valor inferior ao que receberia se esperasse pela data acordada com o clube B). O clube B, daí a um ano, em vez de pagar ao clube A os restantes €5M, entrega esse valor diretamente à XXIII Capital. Para além disso, o clube A compromete-se a pagar um juro à XXIII Capital enquanto o clube B não liquidar a totalidade da dívida.


Os ativos conhecidos


Os ativos da XXIII que se conhecem são:

1. Duas tranches da transferência de Imbula do Marselha para o Porto, que totalizam €9,65M



2. Uma tranche de €5,25M da transferência de Bernardo Silva do Benfica para o Mónaco


Quem está na origem da XXIII Capital Limited?



Stephen Duval, co-fundador da XXIII Capital, trabalhou com vários clientes, entre os quais está a CAA. Recorde-se que Nélio Lucas trabalhou para a CAA...


... e que a CAA Sports é co-proprietária da empresa Polaris Sports, com a Gestifute de Jorge Mendes.


Considerando que os dois ativos da XXIII Capital conhecidos são duas transferências realizadas por Nélio Lucas e Jorge Mendes, não será descabido imaginar que se encontrem na lista de ativos desta empresa outras transferências de jogadores negociados pela Doyen e Gestifute.


O que fez a XXIII Capital com estes ativos?


A XXIII Capital criou um produto financeiro composto com as promessas de recebimentos destas transferências. Ou seja, usando os exemplos de Bernardo Silva e Imbula, falamos de títulos cujo valor dependerá diretamente do cumprimento dos pagamentos das tranches que Benfica e Marselha cederam à XXIII Capital por parte do Mónaco e Porto.

Se, como será normal, Mónaco e Porto pagarem as tranches a tempo e horas, este produto não perde valor e os investidores receberão o dinheiro que investiram.

Como ganham as diversas partes neste processo? Os clubes vendedores recebem, a troco de uma comissão e de um juro, quase todo o valor das tranches de forma antecipada. A XXIII Capital fica com a comissão (que tipicamente varia entre 5-15%) que cobrou aos clubes a quem anteciparam o dinheiro. Os investidores ficam com o juro (3-4%) que os clubes que cederam os direitos das tranches têm que pagar até as tranches serem efetivamente pagas à XXIII Capital.

O risco destes títulos é considerado muito baixo. Falamos de clubes de primeira linha europeia que não podem arriscar entrar em incumprimento sob pena de sofrerem várias penalizações desportivas. E acaba por ser compensador para os investidores, porque estes conseguem obter um juro entre os 3 e 4%, que é uma taxa bastante simpática para um produto de risco reduzido nos dias que correm.


O produto criado pela XXIII Capital Limited


A XXIII Capital pediu um parecer sobre este produto financeiro a uma agência de risco: a Kroll Bond Rating Agency (KBRA). Este parecer é público (LINK) e contém informações novas sobre as transferências em que a XXIII Capital terá antecipado dinheiro a clubes de futebol.


O documento começa com a atribuição de rating A ao produto, o que significa que, segundo a agência, existe uma pequena probabilidade de perda do investimento (é o 3º nível mais alto).


Mas o mais interessante deste documento está numa tabela apresentada com o portefólio do produto.


Ou seja, vemos que neste produto estão incluídas 9 transferências de jogadores, que envolvem clubes de Itália, Inglaterra, Espanha, Portugal, França e Holanda.

O portefólio


A pergunta que se segue é: que transferências de jogadores estão a alimentar este produto? Isto é o mesmo que perguntar: que clubes recorreram aos serviços da Capital XXIII para antecipar os valores das transferências?

Conhecemos as tranches de Bernardo Silva (€5,25M a pagar pelo Mónaco ao Benfica) e de Imbula (€9,65M a pagar pelo Porto ao Marselha). Vamos ver se conseguimos encontrar alguma correspondência com alguma das entradas da tabela do portefólio.

Em primeiro lugar, os valores a receber estão listados em dólares, o que significa que temos que primeiro converter em Euros, segundo as taxas de câmbio indicadas no rodapé da tabela (acrescentado à direita na tabela seguinte).


Nenhum destes valores coincide ao certo com os €5,25M de Bernardo Silva e com os €9,65M de Imbula, mas há duas linhas que estão próximas e que coincidem em termos de país.

A 4ª linha é aproximada ao valor de Imbula. O clube que tem que pagar a tranche é o Porto, logo o Country of Obligor parece ser o país do clube que comprou o jogador.


Seguindo este raciocínio, a linha de Bernardo Silva deve ter como país a França. A 7ª linha parece ser a única candidata, e até se aproxima bastante em termos de valor (€5,206M). A data também coincide com uma das tranches de pagamento: julho de 2016.


Em ambas existe um desvio em relação ao valor das transferências. Mas fazendo um cálculo para perceber o desvio percentual entre o valor apresentado no portefólio e o valor das tranches, obtemos isto:


O desvio das duas linhas é exatamente igual. Ou seja, parece que, por algum motivo, foi aplicada uma taxa aos montantes das tranches para determinar o valor que entrou neste produto financeiro. Aplicando este desvio às restantes linhas, ficamos mais perto de perceber o real valor das transferências do portefólio da XXIII Capital.


Como vemos, a aplicação deste fator nas restantes linhas gera outros valores bastante exatos:
  • 3ª linha: uma transferência para um clube espanhol com tranche(s) no valor de €9,95M;
  • 5ª linha: uma transferência para um clube espanhol com tranche(s) no valor de €8,34M.

As restantes linhas não dão valores exatos, mas é possível que tenham sido aplicadas taxas ligeiramente diferentes. De qualquer forma, aproximam-se muito de valores redondos. Fica mais fácil, portanto, procurar outras transferências financiadas desta forma, considerando o país de destino do jogador, o valor e a data. E, com alguma probabilidade, em negócios que tenham tido o envolvimento de Nélio Lucas ou Jorge Mendes.


Uma boa candidata: a transferência de Enzo Perez do Benfica para o Valência


O Football Leaks divulgou recentemente o contrato de transferência de Enzo Perez do Benfica para o Valência. Nesse contrato podemos ver o seguinte:


Um negócio realizado em finais de dezembro de 2014, que envolveu Jorge Mendes, uma tranche de €8,34M, a vencer em junho de 2016 e a pagar por um clube espanhol. Parece um candidato perfeito, e é mesmo, pois bate em cheio com esta linha:



Quando o Football Leaks revelou a intervenção da XXIII Capital Limited, o Benfica confirmou ter recebido o valor de Bernardo Silva antecipadamente, apesar de não ter qualquer referência à operação nos seus relatórios financeiros (LINK). Não há nenhuma informação sobre isto na nota referente aos empréstimos bancários, obrigacionistas e factoring, apesar de tanto os adiantamentos de Bernardo Silva (confirmada pelo clube) e, se esta suposição estiver correta, de Enzo (não confirmada pelo clube) serem operações de factoring que deveriam ser mencionadas.


Especulando: que outros jogadores farão parte do portefólio?


Resumindo, o que se sabe é isto.


Para determinar os outros jogadores, é uma questão de seguir transferências cujo valor se aproxime a múltiplos das linhas desta tabela. Tudo o que vem a seguir é pura especulação, pois os contratos de transferências dos jogadores não são públicos.

Começando pela 1ª linha, de €15,05M: Kondogbia (transferido do Mónaco para o Inter por €31M) e Carlos Bacca (do Sevilha para o Milan por €30M), duas transferências realizadas por clubes do universo Mendes / Doyen, são bons candidatos. Alex Sandro não pode ser o jogador em causa, pois o Porto declarou no R&C do 1º trimestre de 2015/16 que recebeu o valor antecipado do Internationales Bankhaus Bodensee.

Na linha 2, Nicolás Otamendi é um bom candidato. A transferência foi de €44,6M.

Na linha 3, a tranche de €9,95M pode muito bem referir-se à transferência de Ferreira Carrasco (vendido pelo Mónaco ao Atlético Madrid por €20M) ou de Abdennour (vendido pelo Mónaco ao Valência por €21,84M).

Existem inúmeros cenários possíveis, mas provavelmente só teremos mais certezas caso o Football Leaks revele mais contratos destas e outras transferências.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Curiosidades

A Doyen pagou uma viagem em jato privado a Luís Filipe Vieira e outra à Promovalor (empresa de Luís Filipe Vieira). Revelado hoje no Football Leaks.


segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

A kind of magic

De todos os documentos publicados pelo Football Leaks, os emails trocados entre Nélio Lucas e outros responsáveis do universo Doyen foram, seguramente, dos mais surpreendentes e reveladores. Reveladores porque mostram como muitas vezes as aparências iludem, havendo muito esforço para fazer passar uma imagem que, afinal, não corresponde de todo à realidade. 

Recapitulando o que foi revelado na sexta-feira, tudo começou no final de fevereiro de 2015, quando o Porto pediu à Doyen um empréstimo de 3 milhões de euros durante 45 dias, supostamente para poder fazer face a obrigações fiscais imediatas. Nélio Lucas usou as suas influências pessoais para conseguir que o Banco Carregosa emprestasse esse valor ao Porto, ficando a Doyen com o papel de... fiador.

Aqui estão as primeiras peculiaridades desta história. Em primeiro lugar, o facto de o Porto ter que recorrer a dinheiro da Doyen. Em segundo lugar, o facto de o empréstimo de 3 milhões do Banco Carregosa se ter concretizado no dia 23 de fevereiro de 2015...

Contrato de penhor entre Banco Carregosa e Doyen para o empréstimo ao Porto

... precisamente um dia antes de o Porto ter contraído um outro empréstimo de curto prazo a outro fundo, neste caso a For Gool, no valor de 5 milhões, durante 7 meses, tendo como contrapartida uma taxa de juro que poderia variar em função de uma eventual venda de Herrera.

R&C da FC Porto, SAD, 3º trimestre 2014/15

Nesse mesmo mês, o Porto contraiu ainda um outro empréstimo, mais tradicional, junto do Montepio, no valor de 1,5 milhões a vencer no prazo de dois anos e meio. Mas mesmo ignorando este último empréstimo, no espaço de dois dias o Porto pediu emprestado 8 milhões a dois fundos distintos. Ou seja, a conclusão lógica que se pode retirar disto é que a situação de tesouraria do Porto devia ser, à data, desesperada, e que as fontes habituais de crédito não estariam disponíveis.

As outras peculiaridades têm a ver com as explicações dadas por Nélio Lucas na tal troca de e-mails com outros responsáveis do grupo Doyen. Como, por exemplo, o facto de a Doyen não ter 3 milhões para emprestar ao Porto, o que é estranho atendendo ao facto de Nélio Lucas ter, em entrevistas que fez no passado, referido o enorme músculo financeiro do fundo que gere.

Ao invés, o que se pode ler num dos mails escrito por Nélio Lucas é o seguinte (o negrito aqui colocado reflete o próprio mail):

"Porto requested us a 45days loan of 3M€. We didn’t have that money. And obviously I couldn’t say that in order not to affect our image of big capacity, image that cost me a lot to create. Me and my partners (the investors).
So it was need some creativity and once again I was able to create some magic."


Traduzindo:
"O Porto pediu-nos um empréstimo de 45 dias de 3M€. Não tínhamos esse dinheiro. E obviamente eu não poderia dizer isso para não afetar a nossa imagem de grande capacidade, imagem essa que me custou muito a criar. A mim e aos meus parceiros (os investidores).
Por isso era preciso alguma criatividade e mais uma vez consegui criar alguma magia."

Nélio Lucas usou a sua boa relação pessoal com o presidente do Banco Carregosa para facilitar de forma rápida esse empréstimo ao Porto. A Doyen comprometeu-se em abrir uma conta de €2,5M no Banco Carregosa como garantia no empréstimo. Para agilizar o processo, não foi exigida de imediato a documentação necessária para a abertura de conta que serviria de garantia. 

Mas, ao que parece, a Doyen só tinha €1,5M disponíveis. Nélio Lucas teve que dar garantias pessoais para cobrir o remanescente. Entretanto, nos meses seguintes, os serviços administrativos do grupo Doyen não enviaram a documentação necessária ao Banco Carregosa, o que impediu que a conta fosse movimentada e fez com que a Doyen (segundo palavras do próprio Nélio Lucas) falhasse compromissos com terceiros.
"We need this money at Doyen Sports account in order to face payments that we must do immediately. We already very late regarding many payments and we can’t wait more or we will face extra costs or even lose money already advanced."

Traduzindo:
"Precisamos deste dinheiro na conta da Doyen Sports de forma a fazer face a pagamentos que precisamos de fazer imediatamente. Já estamos muito atrasados em relação a muitos pagamentos e não podemos esperar mais ou teremos que suportar custos extra ou mesmo perder dinheiro já adiantado."

Parece que o truque do ilusionista ficou exposto à vista do público.