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quinta-feira, 5 de abril de 2018

A conferência sobre a violência no desporto

A Assembleia da República organizou uma conferência sobre a violência no desporto. Foram convidados os diretores dos desportivos para moderarem os vários painéis, que contaram com oradores divesos, como responsáveis de várias instituições e associações (entre os quais incluem-se os presidentes da FPF, da Liga, do Sindicato de Jogadores e da APAF), o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, representantes das forças policiais, e ainda elementos da comunicação social, como diretores e editores das equipas de informação/desporto da RTP, SIC e TVI, um vogal da ERC e a presidente do Sindicato de Jornalistas. Várias outras pessoas assistiram ou participaram das bancadas, com o destaque óbvio para os presidentes de Sporting e Benfica.

É um debate importante que tinha (e continuará a ter) de ser feito, mas que, ou muito me engano, nada de novo trará ao futebol. Aliás, a ideia principal que ficou no final... foi a hipocrisia de muitos dos intervenientes. 

Começo por Fernando Gomes, cuja principal ideia lançada foi a criação de uma entidade autónoma que se foque exclusivamente neste problema. Não consigo deixar de perguntar em que realidade paralela tem o presidente da FPF vivido nos últimos anos. Fernando Gomes, devido à sua inação, é um dos principais responsáveis - se não o principal - pelo assobiar para o lado que tem acontecido na Federação. O CD e o CJ têm meios para punir muitos dos tristes acontecimentos que têm ocorrido nos últimos anos, mas têm optado por aplicar sistematicamente medidas punitivas leves: por exemplo, quando um adepto entrou no Dragão no Porto-Benfica para tentar agredir intervenientes do jogo, nas muitas ocaisões em que adeptos benfiquistas lançam objetos pirotécnicos para zonas onde estão jogadores adversários, elementos das equipas de arbitragem ou adeptos da equipa adversária - sendo que o caso mais grave deste género até foi causado por adeptos do Braga, que atiraram um petardo que acertou num jogador do Moreirense que festejava um golo na final da Taça da Liga da época passada -, ainda no sábado passado o árbitro Luís Godinho foi atingido por um objeto no Braga - Sporting... e nunca houve coragem para interditar os respetivos estádios. Estão à espera de quê? Que aconteça mais uma tragédia?

Convém também não esquecer que é o mesmo Fernando Gomes que patrocinou a ideia peregrina de formar e patrocinar uma claque da seleção, formada com elementos dos grupos de adeptos que são uma parte dos problemas que estiveram em debate - ainda que a milhas dos problemas criados por outras claques ilegais. Ou seja, quando lhe dá jeito, não deixa de alimentar os mesmos grupos que agora quer, supostamente, controlar de forma mais rígida.

Também falou o presidente da Liga, o líder do organismo que achou boa ideia que se realizasse o Sporting - Benfica no dia seguinte ao assassinato de Marco Ficcini. A propósito, alguém se lembra da punição que o Benfica sofreu por causa dos cânticos ofensivos que os adeptos benfiquistas fizeram durante o minuto de silêncio? Pois...

Parece-me que, no geral, ninguém deu grande relevância ao que foi dito na conferência - basta ver como a maior fatia de atenção acabou por ser dedicada à presença dos presidentes de Sporting e Benfica, que ocupou um espaço mediático muito superior a tudo o resto. O que nos leva a outra questão importante que acredito que terá sido ignorada pelos elementos da comunicação social que participaram na conferência: o seu papel em tudo isto.

Não concordo com Bruno de Carvalho quando este disse que o discurso dos presidentes não contribuem para a existência de animosidade e comportamentos violentos por parte dos adeptos, pois parece-me óbvio que as palavras inflamadas e as acusações de parte a parte são um potente combustível para o estado de crispação que se vive. No entanto, concordo inteiramente nas acusações que Bruno de Carvalho fez à comunicação social, que, como muito bem sabemos, faz questão de alimentar as polémicas recorrendo a pirómanos comunicacionais profissionais. Há muito que a esmagadora maioria dos espaços noticiosos e de debate sobre futebol deixaram de ter qualquer valor informativo, dando lugar a entretenimento rasteiro, já que os jornalistas/comentadores/notáveis, em vez de serem escolhidos pelo seu profissionalismo e competência, são, na sua maioria, "colocados" por cunhas de clubes e pela apetência que têm para criar momentos televisivos virais. Ou seja, são espaços que passaram a ser dominados por cartilheiros e palhaços, que vendem fake news e dizem as maiores barbaridades que se possam imaginar sobre os adversários. Há muito que deixou de haver limites para estes indivíduos, que são, sem sombra de dúvida, os maiores promotores da crispação existente.

Basta ver, aliás, a forma como a TVI abriu o jornal da noite de quarta-feira: o tema escolhido foi a conferência sobre a violência, mas abordaram exclusivamente a acusação feita por Bruno de Carvalho à comunicação social... e terminando com um resumo das frases mais polémicas do presidente do Sporting desde que assumiu funções. 


Como puderam ver, sobre a conferência propriamente dita, nem mais uma palavra. Isto é jornalismo sério? Obviamente que não. Sentiram-se ofendidos e decidiram, em vez de informar, alimentar ainda mais a polémica.

Este comportamento da TVI não deixa de ser sintomático do estado das coisas. Apenas demonstraram que, efetivamente, estão-se a borrifar para o que se passa no futebol, desde que isso dê audiências e o seu orgulho permaneça intacto. Entrento, nessa mesma noite, o canal de "informação" da TVI emitiria um especial sobre o Benfica. Participantes: Pedro Guerra e João Malheiro, acabando prematuramente devido à saída deste último em direto por se sentir ofendido pelo primeiro. Isto é que é serviço público, TVI!


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

VAR nas meias-finais da Taça de Portugal

A FPF anunciou hoje que haverá videoárbitro nos jogos das meias-finais da Taça de Portugal. Uma boa medida que peca apenas por tardia - creio que existiriam condições para que houvesse VAR já nos quartos-de-final e, até quem sabe, nos oitavos-de-final. De qualquer forma, é um passo em frente que se saúda e que espero que esteja definido à partida na próxima edição da competição.

Falta à Liga anunciar o mesmo para a final four da Taça da Liga, que se disputará daqui a duas semanas. Não faz qualquer sentido que se abdique de uma ferramenta tão importante nos jogos de decisão de uma competição, estando à disposição os meios logísticos e humanos necessários.




terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Bar aberto


Na sequência da agressão de um adepto portista a Pizzi no clássico de 1 de dezembro, o CD decidiu punir o Porto com uma multa de €2.869. Parece-me uma decisão irresponsável não haver uma pena de interdição, nem que fosse com pena suspensa: é um precedente perigoso que passa a mensagem a todos os arruaceiros que existem em todos os clubes que não existem consequências desportivas graves quando alguém tem uma atitude destas.

Os aspirantes a hooligans agora já sabem: se o jogo estiver interrompido com um sururu no banco,  é bar aberto - podem saltar lá para dentro e atirar ao chão um qualquer elemento da equipa adversária, desde que saiam rapidamente de cena e não resistam a ser retirado de campo.

Para um CD que parece apreciar a aplicação de penas exemplares para qualquer coisa que Bruno de Carvalho diga, fica complicado entender tanta compreensão para com atos de violência vindos da bancada.


sábado, 4 de novembro de 2017

A PJ foi à sede da FPF

A TVI noticiou ontem que a PJ se deslocou à FPF, por mais do que uma vez, para consultar documentos relacionados a investigação em curso sobre o caso dos emails. Segundo a notícia, a PJ está a olhar para o processo de nomeações, atribuição de notas a árbitros e relatórios de delegados, recuando até ao ano de 2011. Estas visitas realizaram-se antes de a PJ ter realizado buscas no Estádio da Luz e nas residências de Luís Filipe Vieira, Paulo Gonçalves, Pedro Guerra, Adão Mendes e Nuno Cabral.

Aqui fica a notícia para quem não teve oportunidade de ver.




quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Serpa, o escudeiro da santíssima trindade do futebol português

A parcialidade com que Vítor Serpa analisa os acontecimentos do futebol português não é novidade para ninguém. A linha editorial d' A Bola está muito bem definida de há bastantes anos para cá: infelizmente para o jornal, não assentam numa postura de isenção e equidistância. Os exemplos que este e outros blogues têm mostrado são mais que muitos. Pegando em exemplos recentes, basta ver a forma como A Bola ignorou o caso dos emails durante meses a fio. Se houvesse alguém que não consumisse notícias sobre futebol a partir de outras fontes, não faria ideia de que tal polémica tinha rebentado até ao dia em que a PJ finalmente bateu à porta do estádio do Benfica e da residência de alguns dos seus dirigentes, colaboradores a recibos verdes e meninos queridos.

Basicamente, A Bola limitou-se a seguir - de forma que não duvido ter sido concertada - a estratégia definida pelo Benfica para reagir aos emails: manterem-se em silêncio - estratégia, reconheça-se, mais sábia do que tentar defender o indefensável a todo o custo. Aliás, basta ver as trapalhadas em que se viu metido o único protagonista do Apito Abençoado que não se pôde remeter ao silêncio em virtude do seu biscate das segundas à noite: quando a crise rebentou, Pedro Guerra reagiu dizendo que não se lembrava de ter recebido tais emails; neste momento, não só se lembra dos emails, como até já reconheceu que até falou várias vezes ao telemóvel com Adão Mendes. Sentir de perto a respiração de inspetores da PJ deve fazer maravilhas à memória.

Numa altura em que é impossível ignorar o escândalo dos emails e as profundas implicações que isso tem para o que se passou nos últimos anos no futebol português, acho magnífico como é que nenhum dos pesos pesados do jornal A Bola ainda não encontrou tempo para se pronunciar de forma detalhada sobre todo este fenómeno. Uma atitude que não surpreende, face ao vergonhoso alinhamento que têm com o clube do atual regime, e que é indigno da profissão que exercem.

Igualmente indigna tem sido a postura do presidente da FPF, que parece viver numa realidade paralela. Fernando Gomes manteve-se calado que nem um rato perante os dois acontecimentos mais graves do futebol português nos últimos anos - o assassinato de Marco Ficini e o escândalo dos emails -, e tem preferido tentar, ao invés, colocar o centro da discussão no bate-boca dos dirigentes. Este posicionamento de Fernando Gomes é um escândalo, e é óbvio que só o Benfica pode ficar satisfeito com isso.

Daí que não surpreenda que Vítor Serpa tenha produzido mais um artigo inenarrável, desta vez a sair em defesa de Fernando Gomes e tentando colocar o Sporting e o Porto como os maus da fita do futebol português.


Ao mesmo tempo em que defende acerrimamente a agenda de Fernando Gomes, o diretor do jornal A Bola aproveita a oportunidade para fazer mais um ataque cerrado ao presidente do Sporting - que, como sabemos, é para Serpa o símbolo da geração rasca do dirigismo desportivo. 

É impossível, também, não reparar em dois pormenores no discurso serpiano:

  • a falta de huevos para fazer críticas diretas a Pinto da Costa - como se o presidente do Porto não tivesse nada a ver com o ataque que o Porto tem feito ao Benfica;
  • a patética tentativa de colar o escândalo dos emails a algumas figuras menores da arbitragem e uns quantos benfiquistas marginais, como se o círculo de poder de Vieira (Paulo Gonçalves, Domingos Soares Oliveira e o próprio presidente) não estivesse enfiado neste lamaçal até ao pescoço, e como se Ferreira Nunes e os presidente e presidente da AG da Liga não fossem personagens com cargos muito relevantes no edifício do futebol nacional.

Serpa não é mais do que um lacaio da tríade que controla o futebol português: está sempre pronto a defender o Benfica, como todos sabemos; não perde oportunidade para elogiar o presidente da FPF, por muito inundado de sonsice que esteja o seu discurso - como este texto bem demonstra; e também, se houver necessidade disso, terá postura idêntica com Jorge Mendes - há quem diga que Serpa fez um discurso emocionado, num briefing que a FPF organizou para os órgãos de comunicação social em vésperas da partida da seleção para o Euro 2016, em que apelou à contenção de notícias sobre os recém-descobertos problemas fiscais em que Mendes estava metido, como se de uma espécie de desígnio nacional se tratasse.

Benfica, FPF e Mendes são uma espécie de santíssima trindade do futebol português, que se protege mutuamente com todos os meios que tem ao seu dispor. A promiscuidade entre Benfica e Mendes é mais que evidente. O entendimento entre Mendes e a FPF é mais discreto, mas existe - ao que se diz, também a FPF fez pressão junto dos jornalistas para não darem relevo aos problemas que o empresário arranjou com a lei em Espanha. E também salta a vista a recusa da FPF em agir contra o Benfica em situações gritantes como o das claques ilegais, o caso dos emails ou dos vouchers, ou mesmo a impunidade a que assistimos nos relvados quando o Benfica está em campo.

Como se pode facilmente avaliar pelo texto acima, Serpa é apenas uma ferramenta ao serviço da única Santa Aliança do futebol português.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Em que país vivem estes cavalheiros?



Primeiro Fernando Gomes, agora Rui Vitória. É triste ver duas das principais figuras do futebol português a fazerem de conta que algo de muito grave não aconteceu já. Há apenas seis meses, um adepto morreu em confrontos com adeptos de outro clube. E se não morreram mais, não foi por falta de tentativa do assassino. A morte deu-se em vésperas de um dérbi, e as reações de algumas das partes envolvidas não poderiam ter sido mais infelizes: enquanto o Benfica tentava colocar o ónus nos adeptos sportinguistas - como se estarem num determinado local a determinada hora servisse de justificação para outra pessoa decidir tirar a vida a alguém -, a FPF fez aquilo que costuma fazer melhor, ou seja, fingir-se de morta. O jogo manteve-se marcado, e a claque responsável pela morte teve oportunidade de gozar ainda mais o prato durante o minuto de silêncio à vítima.

No último fim-de-semana, adeptos do mesmo clube - ainda não percebi se eram ou não organizados - causaram distúrbios nas imediações do estádio do Aves. Há dois meses, em Vila do Conde, adeptos do Rio Ave foram agredidos por adeptos benfiquistas. Na época passada, uma claque do Porto fez uma visita de cortesia ao centro de estágios dos árbitros - e consta que não terá sido para lhes cantarem as janeiras. Há dois anos, em Alvalade, as claques do Benfica atiraram petardos para uma bancada repleta de adeptos sportinguistas, e só por milagre não houve feridos. Há cerca de três anos, dois adeptos do Sporting foram esfaqueados em Guimarães. Há cerca de seis anos, adeptos do Sporting incendiaram uma bancada do Estádio da Luz. Há mais tempo ainda, Pedro Proença foi agredido por adeptos benfiquistas. Como tal, é favor não fazerem de conta que isto se trata de um fenómeno novo, e, já agora, é favor não fazerem de conta que tomaram medidas para evitar que essas situações se repetissem no futuro. E, claro, não esquecendo o assassinato de Rui Mendes no Jamor. Quantos estádios foram interditados por causa destes acontecimentos? Pois...

Não cabe à FPF garantir a segurança pública, mas devia, dentro dos seus limites de atuação, penalizar os clubes cujos adeptos protagonizam episódios de violência. Garantidamente, se os clubes começarem a jogar à porta fechada por causa de atos violentos dos seus adeptos, farão um esforço efetivo para controlá-los bastante melhor. A FPF devia também fazer pressão para que o IPDJ faça cumprir a lei no que diz respeito às claques ilegais - que, não surpreendentemente, são as que mais problemas causam. Fernando Gomes só terá moral para dar sermões sobre violência quando começar efetivamente a fazer algo para punir os responsáveis pelo que tem acontecido.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

As responsabilidades da FPF

A FPF pode e deve ser alvo de críticas por causa de vários dossiers importantes que está a gerir de forma desastrada - ou a não gerir de todo -, mas há um mérito que não deve ser esquecido: foi a federação que decidiu, de forma atempada e sem esperar para ver como paravam as modas, que o VAR seria para implementar já nesta época em Portugal. Decidiu e cumpriu, e, felizmente, já foram vários os jogos cuja verdade desportiva foi salvaguardada devido ao recurso a esta ferramenta. Há coisas que não têm corrido tão bem, mas isso é um problema que tem mais a ver com os recursos humanos envolvidos do que com a ferramenta em si.

E é por isso que me faz bastante confusão que Fernando Gomes não tome medidas para garantir a maior transparência possível no âmbito do VAR. Não digo com isso que seja obrigatório divulgar todas as comunicações entre árbitro de campo e responsável pelo VAR em situações polémicas - apesar de também não haver algum mal nisso -, mas aquilo que aconteceu na Vila das Aves deveria ter sido assumido de imediato pela Federação. Infelizmente, o que aconteceu (e ainda está a acontecer) foi precisamente o contrário: houve uma tentativa de encobrimento por parte de funcionários da FPF, conforme se pode perceber através do vídeo seguinte:


Fernando Gomes tem feito vários apelos para uma maior consciencialização por parte dos clubes, mas isso soa a pura hipocrisia olhando para o que acontece dentro de portas da federação: a cortina de fumo lançada pelo diretor de comunicação da FPF na sequência do erro que aconteceu em Vila das Aves; a prepotência e incoerência de Meirim e do Conselho de Disciplina; e o corporativismo da arbitragem que vai permitindo que as maçãs podres continuem misturadas com as restantes. Nada disto contribui para a transparência e pacificação no futebol português, e era bom que o presidente da federação não se esquecesse das responsabilidades próprias do organismo que gere no estado atual do futebol.

sábado, 10 de junho de 2017

Critério disciplinar incompreensível

O Conselho de Disciplina suspendeu na sexta-feira o jogador Diogo Brás, um dos principais elementos da equipa de juvenis do Sporting, por 3 jogos. Isto significa que não pode participar nas três últimas jornadas do campeonato, em que o Sporting defronta Porto, Académica e Benfica - encontros obviamente decisivos para apurar o campeão nacional.


O jovem jogador foi expulso no fim-de-semana passado em Oeiras, mas olhando para a falta que provocou o cartão vermelho - cuja justiça não está em causa -, não é nada de particularmente grave. O jogador não reclamou a expulsão e abandonou o terreno de jogo sem qualquer outro incidente. Como tal, não se compreende o que é que o CD viu neste caso para impor uma pena tão dura.

O caso ganha contornos de escândalo quando analisamos um outro caso, bem recente, ocorrido no campeonato de juvenis. Apenas duas semanas antes, o Sporting deslocou-se
ao Seixal e venceu o Benfica por 2-0. Perto do final, um jogador do Benfica teve uma agressão bárbara sobre o guarda-redes do Sporting: sem haver disputa de bola, dá um pisão forte e completamente intencional numa zona do corpo em que poderia ter causado uma lesão gravíssima. Qual foi o castigo que o jogador teve? Um jogo. UM JOGO!


Aqui ficam os lances, para verem o absurdo do critério do Conselho de Disciplina.


Espero que o Sporting recorra do castigo. Esta decisão do CD é uma palhaçada e pode complicar as contas do clube na luta pelo título. Esperemos que os restantes jogadores consigam dar a volta a este obstáculo adicional.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

CD passa a abrir processos sumaríssimos e prendas acima de 200 euros é corrupção

CD passa a abrir processos sumaríssimos e prendas acima de 200 euros é corrupção

A FPF tornou pública esta sexta-feira a sua proposta para um novo Regulamento Disciplinar, fruto do trabalho levado cabo pela Comissão de Reforma do Regulamento Disciplinar da FPF, presidida por Germano Marques da Silva desde final de 2016. Este RD, a ser aprovado, não é aplicável à I e II Liga, bem como a Taça da Liga.

Por entre uma série de alterações, agora trazidas a discussão, a FPF é clara: é um documento para ser analisado, discutido e por isso ainda aberto a propostas. Sendo assim, a federação divulga mesmo uma morada de mail (conselho.disciplina@fpf.pt) para onde podem ser enviados "contributos" até 16 de junho.

O regulamento disciplinar em causa, que não é válido para as provas profissionais organizadas pela Liga, encerra diversas novidades. Entre elas, a liberdade do Conselho de Disciplina da FPF passar a poder "abrir um processo sumarísismo em qualquer circunstância"; a redução para 200 euros do valor das ofertas aos árbitros - acima disso será corrupção -, valor abaixo dos 300 euros que são o limite em vigor na UEFA.

Fonte: O Jogo



Não sei se esta proposta de regulamento disciplinar virá a ser aprovada, mas não deixa de ser curioso registar que, depois de andarmos meses a ouvir dizer que os vouchers não tinham nenhum mal, o próprio Benfica deixou de os oferecer e, agora, a própria FPF propõe acabar com ofertas de valor superior a 200€. Se calhar é porque tinha algum mal...

Mas ouvi dizer que há por aí um determinado cavalheiro recentemente condecorado que não concorda com esta proposta...


sexta-feira, 21 de abril de 2017

O castigo de Brahimi


Brahimi foi castigado com dois jogos de suspensão na sequência da expulsão no Braga - Porto disputado no último sábado. Devo dizer que, por uma questão de princípio, acho que faz sentido que um jogador que veja cartão vermelho por protestos ou faltas violentas seja castigado com um mínimo de dois jogos. Não faz sentido equiparar estas situações às expulsões por duplo amarelo ou aos vermelhos que decorrem de lances normais de um jogo, como o derrube a um adversário isolado.

Ainda esta época, Heldon foi suspenso por três jogos por ter insultado o árbitro Vasco Santos. Segundo o relatório desse jogo, o extremo do Rio Ave disse: "És um borrado meu grande filho da p...! Vai para a grande p... que te pariu!". Convenhamos que até a mãe de Heldon terá concordado com o castigo. O que não faria sentido era que o castigo fosse apenas de um jogo, como foi prática corrente no futebol português durante vários anos.

Voltando à expulsão de Brahimi, as imagens da transmissão televisiva não são esclarecedoras. A dada altura, vê-se Hugo Miguel a dirigir-se para a área técnica portista, onde dirigentes e membros da equipa técnica protestavam com o quarto árbitro, mostrando, uns segundos depois, o cartão vermelho ao jogador argelino, que estava junto ao banco. Ou seja, não temos forma de perceber o que aconteceu para levar o árbitro a expulsar Brahimi.

Depois houve a reação de Brahimi ao ver o cartão vermelho. Dirigiu-se ao quarto árbitro, mas a linguagem corporal do jogador não pareceu anormalmente agressiva ou insolente. Resta aquilo que o jogador possa ter dito.

Aqui está o primeiro problema. Aquilo que vem descrito no documento divulgado pelo CD da FPF...


... não tem nada a ver com o que foi captado pelas câmaras da Sport TV. Esta justificação só pode fazer sentido caso os factos descritos tiverem ocorrido antes de a realização ter passado a seguir as movimentações junto ao banco.

Ora, considerando o momento da época e a importância do jogador em causa - provavelmente o mais desequilibrador de um dos dois clubes que estão a disputar o título -, teria sido sensato que o CD tivesse dado explicações adicionais. E não faz sentido que o CD remeta a justificação para o relatório do árbitro, pois falamos de um documento que não é público.

O segundo problema, a meu ver, é o aparente agravamento dos castigos para certo tipo de sanções. Não que veja qualquer inconveniente nesse endurecimento das sanções, desde que praticadas de forma coerente - para além disso, falamos de um CD que tomou iniciou funções esta época, pelo que tem toda a legitimidade de alterar a sua atuação em relação ao que se fazia nas épocas anteriores.

No entanto, para haver uma justiça efetivamente equilibrada, esta endurecimento disciplinar deveria ter sido acompanhado por um maior rigor no tratamento dos casos flagrantes de indisciplina que não são devidamente sancionados pelos árbitros durante o jogo. E é aqui que o CD está a falhar em toda a linha. Pior do que isso, está a passar a ideia de que há justiças diferentes em função dos clubes envolvidos.

Não é compreensível, por exemplo, que em duas jornadas consecutivas, Samaris agrida adversários e não seja julgado em conformidade: a agressão a Alex Telles passou incólume, enquanto o soco a Diego Ivo deu apenas direito a um processo que dificilmente conhecerá desfecho na época em curso.

(de notar que não me esqueci do caso de Slimani, mas não só foi tratado por outro CD, como também é o exemplo perfeito de como não se deve conduzir um processo disciplinar desta natureza)

Como também não é compreensível que o CD tenha ignorado o encosto de cabeça de Luisão ao árbitro Nuno Almeida, no jogo Benfica - Chaves, em fevereiro passado:


Isto faz com que o sentimento de justiça dispar acabe por ganhar ainda mais força, pois o encosto de cabeça no árbitro é precisamente um dos atos que o CD considerou na suspensão de dois jogos de Brahimi.

O CD não existe para servir de contrapeso às péssimas arbitragens que existem em Portugal - não só pela fraca qualidade técnica e disciplinar dos árbitros, mas também pela parcialidade revelada em favor dos de sempre -, mas ao agravar as penas sancionadas em campo e ao continuar a ignorar as que não são punidas pelas equipas de arbitragem, está, efetivamente, a ampliar o efeito das más arbitragens. E se já era muito complicado para as equipas não bafejadas pelo colinho da arbitragem poderem competir com as que são, esta nova política do CD torna essa batalha ingrata e desigual ainda mais difícil.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Para quando a desclassificação do Canelas 2010?

A incapacidade em lidar com os escândalos sucessivos que ocorrem nos jogos do Canelas 2010 é paradigmático da falta de vergonha que existe em quem manda no futebol português. Não estamos a falar de um caso isolado. Não é aceitável que qualquer dirigente se revele surpreendido com a bárbara agressão de um jogador do Canelas ao árbitro, porque todos aqueles que têm acompanhado a sucessão de acontecimentos envolvendo este clube sabiam que era uma questão de tempo para acontecerem novos casos de violência.

Aquilo que aconteceu ontem não é mais do que uma consequência lógica dos meses e meses de impunidade de que esta equipa tem beneficiado. A intimidação e agressões a jogadores e adeptos adversários entraram num esquema quase rotineiro, e isso levou à decisão da maior parte dos clubes em não comparecer aos jogos com o Canelas. Uma atitude sábia, a partir do momento em que as autoridades desportivas não parecem muito interessadas em proteger a integridade física de todos os intervenientes.

O episódio que aconteceu ontem é chocante. Não há nenhuma atenuante que possa justificar o comportamento do jogador. Ainda o jogo mal tinha começado, e já estava a agredir um adversário. O árbitro cometeu o sacrilégio de o expulsar, e levou tratamento semelhante - o que demonstra bem como esta malta está formatada para cometer atos de violência.


Há quem diga que é circunstancial o facto de haver elementos dos Super Dragões nesta equipa, e que, como tal, isso não deveria ser relevado, mas a verdade é que é aí que está o cerne da questão. A promiscuidade entre Lourenço Pinto, presidente da AF Porto e o FC Porto é conhecida e tem décadas, nas quais se incluem os anos negros em que o dirigente liderou o Conselho de Arbitragem da FPF. E toda a gente sabe que a promiscuidade entre os líderes dos Super Dragões e o FC Porto vai muito além daquilo que deve ser o relacionamento entre uma claque e um clube. Aliás, o protecionismo de que beneficiam estende-se muito para além das atividades praticadas no âmbito do futebol.



O Canelas já anunciou, através do seu presidente, que o jogador não mais voltará a representar o clube. No entanto, a FPF e a AFP têm, obviamente, de tomar medidas disciplinares exemplares contra o próprio Canelas. Obviamente que essas medidas estarão sempre dependentes daquilo que os regulamentos prevejam para estas situações, mas tudo o que não seja a desclassificação imediata da competição será pena insuficiente. Se assim não for, com que espírito entrarão o adversário e a equipa de arbitragem na próxima jornada? Lourenço Pinto até pode dizer que irá assistir à partida para assegurar que nenhum episódio idêntico sucederá (como já fez no passado), mas e então como será no jogo seguinte? E nos outros que se seguirão?

O interesse de Lourenço Pinto no assunto não poderia ser menor. Basta ver como falou sobre o tema Canelas há apenas mês e meio, num debate sobre o futebol distrital:


"Um não-caso neste momento". "daí que tenhamos de falar em [outras, que não a do Canelas] situações que tenham interesse para o futebol distrital.". "está a seguir o seu caminho normal, um ritualismo puro, um dinamismo processual respeitável, e que nós temos que aceitar com tranquilidade". Bela imitação do Diácono Remédios.

Os dirigentes da FPF e AFP nada fizeram em relação às agressões entre adeptos nas bancadas. Também nada fizeram em relação às agressões dentro de campo, apesar dos repetidos apelos dos restantes clubes. Agora, foi um árbitro agredido. Continuem a enfiar a cabeça debaixo da areia na esperança de que isto passe...

P.S.: Vamos também ver se se seguirão mais operações de limpeza de imagem como esta, realizada há apenas alguns meses...



terça-feira, 28 de março de 2017

Os estranhos critérios nas convocatórias das seleções jovens

Post muito pertinente do Grande Artista e Goleador sobre os estranhos critérios que são utilizados na convocação de jogadores para as seleções jovens: LINK.

segunda-feira, 27 de março de 2017

Os incidentes à margem do Portugal - Hungria

A ideia de "recrutar" elementos de claques para apoiar a seleção no Euro '2016 foi inteligente e deu bons resultados. Funcionou porque se tratava de uma competição especial, disputada no estrangeiro, de acesso mais restrito aos adeptos mais fervorosos, e - muito importante - jogada numa altura em que a temporada dos clubes já tinha terminado. Mas achar que a mesma ideia poderia funcionar em solo nacional numa fase em que as competições de clubes estão ao rubro, foi, pura e simplesmente, ingenuidade.

Obviamente que todas as pessoas, mesmo as que fazem parte da claque de um qualquer clube, são livres de assistir a jogos da seleção disputados no estádio de um rival. Se vão para um jogo da seleção entoam cânticos a provocar ou insultar equipas rivais, isso apenas revela a sua falta de capacidade de se comportar de forma cívica. Mas a partir do momento em que são apoiados de alguma forma pela FPF (nem que seja apenas através da oferta de bilhetes), não é tolerável que tenham comportamentos como aqueles que aconteceram no sábado - mesmo podendo haver atenuantes pelo facto de a claque ter sido também alvo de provocações por parte de adeptos presumivelmente benfiquistas. Depois disto, não é compreensível que a FPF continue a recorrer a esta estratégia de animação de jogos.

Infelizmente, não foi o único episódio lamentável que sucedeu à margem do Portugal - Hungria:


Aquilo que se passou com Jaime Marta Soares é inaceitável. Aconteceu na Luz, mas infelizmente é algo que nenhum adepto de Sporting ou Porto pode garantir que não acontecerá no seu estádio. Energúmenos existem em todo o lado, e basta um pequeno punhado de indivíduos mal intencionados para provocar uma situação deste tipo.

Agora, o que aconteceu é indesmentível. Tão mau como estes episódios terem acontecido é haver dirigentes que desdramatizem ou ignorem o que se passou. Veremos, portanto, como reagirá a FPF a estes incidentes. 

O mais provável é que não reaja de todo, porque a federação de Fernando Gomes é perita em fingir que nada de anormal se passa no mar de anormalidades que ocorrem no futebol português - e essa é a melhor forma de garantir que episódios semelhantes acontecerão no futuro, seja na Luz, seja no Dragão, em Alvalade ou em qualquer outro estádio.

E, já agora, também ajudava se os jornalistas não tentassem reescrever a história de uma forma que lhes seja mais conveniente, como sucedeu na edição de ontem do jornal A Bola...


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Carta aberta ao presidente da FPF

Novo texto do 3295C.



Caro dr. Fernando Gomes:

O trabalho que cada um desenvolve à frente das instituições que dirige acaba por ser o legado que se deixa, não apenas para as gerações vindouras mas também honrando a história que nos precede. A sua passagem pela Federação Portuguesa de Futebol ficará, certamente, marcada pela conquista do título europeu. Um momento de imensa alegria para o país. No entanto, nem seis meses depois, no mesmo ano que agora acaba, mandou colocar (ou pelo menos não se opôs) os vencedores do Campeonato de Portugal na lista de vencedores da Taça de Portugal.

Com uma “decisão informática” provavelmente baseada numa acta mal interpretada da organização que dirige, pura e simplesmente apagou da história do futebol português 12 títulos de campeão, reconhecidos por toda a imprensa da época. Aliás, nem se percebe muito bem a decisão já que no mesmo site em que foi feita a ‘mudança’ dos Campeonatos de Portugal, continua a estar reconhecido ao FC Porto o título de primeiro campeão nacional na época 1921/22. Reconhece-o, mas retira-lhe o título, incluindo a competição como Taça de Portugal.

Num só ano consegue o melhor e o pior do que deixará para a história o avaliar como presidente da organização que superintende o futebol nacional, desde o tempo em que se chamava União Portuguesa de Futebol (UPF). Apesar da mudança do nome para Federação Portuguesa de Futebol ter apenas acontecido em 1926, por certo não quererá manchar a tradição e continuar a considerar Sá e Oliveira como o primeiro presidente da instituição que dirige.

Poderá parecer-lhe rebuscada esta analogia, mas creio que entende o alcance da razão.

Não são apenas os clubes campeões nacionais entre 1922 e 1939 que saem prejudicados desta contabilidade tão enganosa quanto fraudulenta. É, igualmente, a própria FPF. Como explica à FIFA que os Campeonatos que atribuíam o título de campeão nacional entre esses anos tenham sido martelados na Taça de Portugal? Só porque ambas as competições se disputavam nos mesmos moldes? Não creio que se escude nesse argumento.

Revisionismos da história dão sempre mau resultado e só na propaganda nazi é que se acreditava que uma mentira dita mil vezes se tornava numa verdade. Considerar que se andou a disputar a Taça de Portugal nos primeiros 16 Campeonatos organizados em Portugal é humilhante para a FPF e, especialmente, para si por dar cobro, ainda que com o seu silêncio e manobras informáticas, a uma mentira contada muitas vezes na vã tentativa de que se torne verdade. Humilhante por ser, acima de tudo, uma falta de respeito por todos aqueles que se esforçaram e foram consagrados, reconhecidos e homenageados até por Presidentes da República no seu tempo. Não por ganharem a Taça de Portugal e sim por serem campeões nacionais.

Se defende intransigentemente os interesses do futebol português, comece por respeitar a sua história e não embarque em teorias pseudo-iluminadas que lhe possam garantir que liga a título experimental não é a mesma coisa que liga experimental. Isso não é um problema semântico. É apenas ridículo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O programa de Fernando Gomes

Foi com alguma pompa e circunstância que Fernando Gomes, atual presidente da FPF e candidato único às próximas eleições, divulgou ontem o programa para o seu 2º mandato. Numa cerimónia realizada para esse efeito, anunciou 100 medidas a cumprir durante os próximos 4 anos, onde se incluem a utilização de vídeo-árbitro na Supertaça e nas eliminatórias finais da Taça de Portugal já em 2016/17, a publicação dos relatórios dos árbitros e um combate duro à corrupção.

Não há como discordar deste tipo de medidas / intenções, mas não deixo de ficar com a sensação que isto é pouco mais que fachada. Digo-o por dois motivos:

Em primeiro lugar, por causa do timing da apresentação do programa. Foi feita a 25 de maio, apenas 10 dias antes (!) da data das eleições. Supostamente, uma candidatura deveria ser avaliada em função do programa, pelo que (a meu ver) esta apresentação já deveria ter sido realizada há meses. Considerando que Fernando Gomes está em modo de pré-campanha há algum tempo, isto significa que:
  • Andou a recolher apoios para a sua candidatura sem um programa definido.
  • Houve quem lhe prometesse apoio sem saber que programa estava a apoiar.
  • É possível (conhecendo o futebol português, é uma possibilidade muito próxima da certeza) que o programa tenha sido parcialmente definido ou influenciado em função de compromissos assumidos pelo candidato de forma a garantir determinados apoios.

Em segundo lugar, porque dá a ideia que os pontos de destaque deste programa (a adoção das novas tecnologias, o combate anti-corrupção e a defesa da transparência) são motivados sobretudo por uma questão de imagem, e não pelas convicções do candidato. Será que Fernando Gomes tocaria no assunto corrupção se o Jogo Duplo não tivesse explodido há um par de semanas? Será que se mostraria tão entusiasta com as novas tecnologias se não fossem uma evolução inevitável por iniciativa do International Board?

Não me lembro de nenhuma frase forte de Fernando Gomes sobre o problema da corrupção no futebol antes do escândalo do Jogo Duplo. Assim como não me lembro de nenhuma proposta concreta (ou sequer uma declaração clara de apoio) que tenha feito em favor do aumento da transparência ou da utilização das novas tecnologias no futebol antes de o International Board se ter decidido pela sua aplicação. Em mais de quatro anos como presidente da FPF não lhe faltaram ocasiões para o fazer.

É, portanto, um programa de candidatura à imagem de Fernando Gomes: que se deixa ir com a corrente, reagindo aos acontecimentos e abraçando o inevitável. É aquilo que é possível quando a pessoa que está à frente de uma organização tem perfil de administrativo (mesmo que seja um administrativo competente) e não de líder.

sábado, 9 de abril de 2016

A decisão do caso Slimani

Toda a novela do caso Slimani foi uma demonstração perfeita do caos que é a justiça no nosso futebol. Ontem, ao fim de 5 meses de indagações e ponderação, o Conselho de Disciplina decidiu ilibar o argelino, considerando que o movimento que Slimani fez com o braço foi uma reação instintiva à deslocação lateral de Samaris, considerando assim que não houve intenção em magoar o jogador do Benfica.

O que se passava na cabeça de Slimani naquele momento, só o próprio saberá. A explicação do CD é plausível, mas a mim parece-me mais razoável considerar que o jogador do Sporting aproveitou aquele momento de "intimidade" circunstancial para castigar um adversário que não é propriamente meigo, e que já tinha feito umas entradas duras na primeira parte.

Como tal, não me chocaria que Slimani fosse suspenso por um ou dois jogos. Mais que isso, seria um exagero. Mas não poderia ser o único jogador a ser suspenso, pois Eliseu, o próprio Samaris e Jardel também fizeram faltas também violentas (ou agressões) a jogadores do Sporting nesse mesmo jogo.

O que deveria ter acontecido era a suspensão destes 4 jogadores, mas logo em novembro. Esta decisão dos senhores do CD acaba por ser uma forma de minimizar as trapalhadas cometidas nesta novela. Primeiro, ao deixarem arrastar o processo; depois, pelas estapafúrdias conclusões que tiraram do que Jorge Sousa "viu" ou "vislumbrou"; e, finalmente, pela utilização de provas vídeo no caso de Slimani,  mas não as considerando para os jogadores do Benfica - que culminou com o processo instaurado a Slimani e o arquivamento das agressões dos jogadores do Benfica (que o CJ anularia posteriormente). Escrevi "minimizar as trapalhadas" porque, efetivamente, seria um escândalo muito maior castigar nesta fase do campeonato qualquer jogador que fosse por algo que aconteceu em novembro, do que aplicar uma pena de suspensão, por muito pequena que acabasse por ser.

Mas, na realidade, Slimani não saiu livre deste processo. O jogador esteve castigado sem ter sido suspenso. Foi mais que evidente, dentro das quatro linhas, o condicionamento de que foi alvo, graças ao muito barulho produzido pela máquina de propaganda benfiquista. É possível que o Sporting tenha sido condicionado nas movimentações de mercado do inverno: Barcos foi contratado tendo também em mente uma eventual suspensão de Slimani. 

É a justiça desportiva que temos: sem coerência, sem senso comum, funcionando em moldes amadores que não são compatíveis com uma competição profissional. Seria bom que, aproximando-se um período eleitoral na FPF, os candidatos propusessem reformas para o funcionamento do CD e do CJ. O futebol português agradeceria.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

A reavaliação das agressões de Eliseu e Jardel

A decisão da secção não profissional em tratar casos de agressão - ocorridos no mesmo jogo - de forma diferente foi provavelmente uma das maiores aberrações de que tenho memória na "justiça" desportiva. Slimani foi alvo de um processo disciplinar, enquanto as agressões de jogadores do Benfica foram arquivadas. Num caso as imagens televisivas foram determinantes, nos outros nem sequer foram levadas em consideração.

Hoje ficou a saber-se que o CJ mandou o CD rever a decisão de arquivamento das agressões óbvias de Jardel e Eliseu.

Mais uma vez, a secção não profissional do CD vê-se desautorizada pelas instâncias superiores. Gostaria de dizer que se trata apenas de um caso de incompetência, mas não me parece que seja só isso. Não é a primeira vez que estes senhores protegem o Benfica de uma forma escandalosa.

De qualquer forma, a história não vai acabar bem para o Sporting. O processo disciplinar de Slimani já está em andamento e é mais que previsível que venha a ser suspenso numa altura crítica do campeonato. Relembro que os acontecimentos que levaram a este processo disciplinar já ocorreram há mais de três meses. Quanto a Jardel e Eliseu, até acredito que venham a ser suspensos, para não dar muito nas vistas. Um preço pequeno a pagar quando de um lado estão jogadores facilmente substituíveis, e do outro está um dos jogadores mais influentes da sua equipa.

A não recandidatura de Vítor Pereira

Vítor Pereira anunciou ontem que abandonará o Conselho de Arbitragem em junho. Significa, portanto, que levará o atual mandato até ao fim e não se recandidatará.

Era previsível. Querendo Fernando Gomes apresentar uma lista que possa agradar a várias sensibilidades, nunca poderia incluir a figura mais controversa do edifício da FPF, pois estaria automaticamente a alienar vários apoios de que não quererá prescindir logo à partida. 

Curiosamente, existe uma coincidência temporal entre este anúncio e as recentes revelações de Pinto da Costa sobre a forma como o Conselho de Arbitragem funciona, mas não passa disso mesmo: uma simples coincidência. Se fosse há cinco anos, até acreditaria que a visita de Pinto da Costa fez ao CA na semana passada e as críticas feitas esta semana estariam relacionadas com este anúncio de retirada de cena. Mas hoje os poderes instalados são outros, e esta retirada já devia estar decidida há algum tempo por outras pessoas que não o presidente do Porto. Como tal, não tenho grandes dúvidas que Vítor Pereira fez isto para sacudir um pouco a pressão para poder continuar a fazer até ao final da época aquilo que tem feito nos últimos anos, já com um olho posto no seu futuro pós-FPF.

Portanto, mais do que uma boa notícia, encaro este anúncio com preocupação. À boa maneira dos políticos deste país, Vítor Pereira não é homem para ir para a fila do centro de Segurança Social para meter os papéis para o subsídio de desemprego. Seguramente que estará a contar com um tacho bem remunerado como recompensa pelos bons serviços prestados. Por outro lado, haverá quem queira garantir que o ainda presidente do CA não se sinta tentado a falar de forma franca sobre aquilo que foi o seu mandato. Não faltarão, por isso, empresas ou instituições dentro da esfera dominada pelos seus aliados que lhe possam arranjar uma confortável posição como consultor ou dirigente, onde poderá pôr em prática as "competências" que foi adquirindo ao longo do seu mandato. Como tal, Vítor Pereira tem também todos os motivos para continuar a demonstrar a sua utilidade até ao último dia em funções.

Será com muita curiosidade que aguardarei pelo anúncio do seu novo pouso após as férias de verão de 2016. Os amigos vêem-se nestas ocasiões.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O silêncio à volta de Leander Siemann

Pela primeira vez, um órgão de comunicação social desportivo referiu-se ao caso Leander Siemann. O Record inclui na edição de hoje um pequeno artigo onde faz esclarecimentos adicionais sobre a suspensão do jogador:


Não colocando em causa a veracidade das explicações dadas pela fonte - não tenho forma de as comprovar ou rebater -, há no entanto uma outra questão que gostaria de ver esclarecida: por que motivo foi a secção não profissional do CD a deliberar sobre este assunto?

Leander Siemann era jogador do Porto B, equipa que disputa um campeonato profissional. O regulamento antidopagem da FPF (que também se aplica às competições da liga) é omisso em relação a qual das secções do CD deve conduzir os processos disciplinares. Não encontrei no regulamento disciplinar da FPF qualquer referência específica ao tratamento destes casos. A não ser que o controlo ao jogador que acusou o uso de substâncias proibidas tenha sido feito no âmbito de um jogo particular ou no estrangeiro (o que me parece improvável, em função da natureza de uma equipa B), não estou a ver motivos para que fosse a secção não profissional do CD a deliberar sobre o caso.

O que é facto é que foi muito conveniente enfiar a resolução deste processo disciplinar no meio de um documento que à partida não teria qualquer interesse para o grande público. Se a FPF não fosse um organismo reconhecidamente imparcial - como sabemos é incapaz de usar dois pesos e duas medidas em função dos emblemas em causa -, até poderíamos ser levados a pensar que tentaram colaborar no que puderam para que o caso fosse abafado.

E, já agora, tratando-se de um caso de automedicação assumida ao qual o clube parece ser completamente alheio, por que razão o Porto nunca comunicou o sucedido aos seus sócios e adeptos? Sempre ouvi dizer que quem não deve, não teme.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A decisão do TAD sobre a suspensão de Bruno de Carvalho


No curtíssimo espaço de tempo desde que o Tribunal Arbitral do Desporto iniciou funções em Portugal enquanto instância de recurso de processos disciplinares, já vamos em duas decisões que contrariaram deliberações tomadas pelo CD da FPF contra o Sporting. A primeira dizia respeito à queixa que o Sporting fez contra jogadores do Benfica por atos cometidos na final de futsal em 2012. O TAD deu razão ao Sporting, mas acabou por não haver consequências práticas devido a prescrição do caso - graças a lentidão exasperante do CD da FPF em julgá-lo.

Esta semana, o TAD pronunciou-se sobre a suspensão que o CD impôs a Bruno de Carvalho, por insultos a um técnico de equipamentos do Gil Vicente. Mais uma vez, o TAD deu razão ao Sporting e, mais uma vez, sem consequências práticas - pois o presidente do Sporting já cumpriu o castigo. Ou seja, não há forma de reverter as consequências da decisão incorreta do CD.

Apesar de a suspensão de Bruno de Carvalho não ser propriamente um golpe nas ambições desportivas do Sporting, a verdade é que a forma como todo o processo se desenrolou é bastante grave: ficou provado que os delegados da Liga relataram de forma falsa as ocorrências, e que o Conselho de Disciplina da FPF interpretou a legislação de forma incorreta, o que permitiu que Bruno de Carvalho fosse alvo de um processo sumário em vez de um processo disciplinar normal.

Vamos por partes. Em primeiro lugar, o papel de Tiago Belchior e José Pinto, os delegados da Liga nessa partida, que reportaram o seguinte:


O Sporting alegou que Bruno de Carvalho nunca se dirigiu ao funcionário em questão.


E o TAD confirmou que, de facto, o relatório dos delegados Tiago Belchior e José Pinto não correspondia ao que se passou na realidade.


E, para além disso, não foi levado em consideração o testemunho do próprio técnico do Gil Vicente:


Para além disto, o CD decidiu punir Bruno de Carvalho - que estava presente no local na qualidade de delegado ao jogo - com uma norma que se aplica a outro tipo de intervenientes. Essa norma permitiu que o processo fosse julgado de forma sumária, permitindo uma decisão muito mais rápida do que se conseguiria caso tivesse que passar por todos os passos de um processo disciplinar normal.


Ao ignorarem o depoimento do visado, ao ignorarem as contradições entre o relatório dos delegados da Liga e as imagens vídeo disponíveis, e ao forçarem uma interpretação incorreta de forma que o caso pudesse ser julgado de forma sumária, não é difícil perceber que havia uma e só uma ideia em mente dos elementos do CD: suspender Bruno de Carvalho o mais rapidamente possível. 

Juntando-se a isto outros casos aberrantes que aconteceram recentemente - como o processo da final de futsal ou a disparidade de tratamento do caso Slimani em relação a Eliseu, Fejsa e Samaris -, fica claro o posicionamento do CD em relação ao Sporting.