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quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O revisionismo do "all in"

O estado das contas do 1º trimestre que o Sporting divulgou esta semana confirma a existência dos problemas que se adivinhavam face às insistentes notícias de que os melhores jogadores poderão ser vendidos no mercado de inverno. O desequilíbrio das contas ainda é uma realidade: o nível de custos é excessivamente alto para um clube que não está na Liga dos Campeões e não houve milagres nas receitas ordinárias, cujo crescimento está longe de ser suficiente para que a direção retire a grande e chamativa placa que colocou na montra da SAD a anunciar que estamos em época de saldos.

Não sou nem nunca fui insensível às dificuldades que se deparavam, mas a verdade é que, uma época desportiva e 4 trimestres financeiros após da eleição de Frederico Varandas, o panorama é preocupante. 

A situação financeira está apenas marginalmente melhor. Os problemas têm vindo a ser tapados recorrendo à antecipação de receitas futuras ou vendendo jogadores ao desbarato e nos piores timings possíveis, com as graves consequências desportivas que estão à vista de todos. Em meados de outubro, o clube estava fora da luta pelo campeonato, fora da Taça de Portugal e com um pé fora da Taça da Liga. O plantel é o mais fraco de há muitos anos para cá. E o mais dramático é que estamos metidos numa espiral negativa desportiva e financeira que não permite vislumbrar uma saída fácil, ainda mais perante a evidente incompetência de quem manda no futebol - não há na estrutura quem saiba contratar, não há quem saiba vender, não há quem saiba montar um plantel, não há quem proteja treinadores e jogadores, não há quem defina um rumo, não há quem mobilize os sócios e adeptos. A falta de dinheiro já não pode servir de única desculpa para o descalabro em que o clube está metido, e podemos dizer, com (triste) segurança, que a situação de hoje é, no geral, pior do que há um ano. Progressos indiscutíveis só na capacidade de colocar notícias e narrativas na imprensa para dourar a pílula.

Uma dessas narrativas, que muito me incomoda, é a das repetidas referências de Frederico Varandas e Francisco Zenha a um suposto all in feito em 2017/18. Incomoda-me porque, do ponto de vista de planeamento da época, 2017/18 foi praticamente exemplar. Houve um nível de acerto de contratações inédito, a equipa rendeu ao mais alto nível na Liga dos Campeões, venceu a Taça da Liga, e preparava-se para disputar os restantes títulos internos até ao fim quando Bruno de Carvalho decidiu começar a dar tiros sucessivos nos pés que, no final da época, foram fatais para os objetivos mínimos da equipa no campeonato e que, a partir daí, culminaria rapidamente na tragédia de que todos nos lembramos e que causou um profundo rombo (desportivo, financeiro, mas sobretudo na união do clube) que demorará ainda muitos anos a ser consertado. Não havia organização, tivesse níveis de risco elevados, aceitáveis, reduzidos ou nulos, que resistisse ao que aconteceu em maio de 2018.

A divulgação das contas do 1º trimestre de 2019/20 permite varrer em definitivo com o revisionismo do all in de 2017/18. Em 2017/18 correram-se riscos, mas perfeitamente compreensíveis face à participação na Liga dos Campeões e considerando a previsível valorização de um plantel riquíssimo. Aliás, olhando para os números dessa época e comparando-os com os de 2019/20, fica perfeitamente perceptível que, segundo a imagem dos respetivos primeiros trimestres, o nível de risco... é muito superior esta época do que há dois anos.


De lá para cá, as receitas ordinárias caíram 32% (em 2017/18 houve Liga dos Campeões), mas os custos com pessoal são agora superiores - conforme explicado no R&C, os custos com pessoal subiram por causa de 5M pagos em indemnizações que permitirão controlar melhor os custos daqui para a frente (ver o meu post sobre as contas aqui: LINK). Os custos de funcionamento (FSE's) aumentaram 42%. Para reduzir o desequilibro das contas, houve necessidade de praticamente duplicar as mais-valias em vendas de jogadores.

Nessa época do "all in", o nível do plantel era incomparavelmente melhor que o do atual. Não só havia jogadores de nível superior que vinham de trás, como também o acerto das contratações foi fenomenal: Mathieu, Battaglia, Bruno Fernandes, Acuña e Coentrão fizeram pelo menos 2/3 dos minutos totais dessa época (com Piccini muito perto dessa percentagem de utilização), e com o rendimento em campo que se sabe.


Ao invés, dos jogadores contratados esta época, só Vietto se pode considerar um titular indiscutível, enquanto Rosier vai cimentando esse estatuto - sobretudo graças às lesões constantes de Ristovski. Mas a verdade é que nenhum dos jogadores contratados esta época, com exceção de Vietto, conseguiriam lutar por um lugar no onze de 2017/18.

2017/18 foi um exemplo de como planear e preparar uma época. Seria bom que a atual direção percebesse isso. Em vez de demonizar tudo o que era feito no passado, poderia esforçar-se mais por perceber o que foi bem feito para tentar a sua replicação. Talvez assim tivesse conseguido melhor que este lindo embrulho que é o plantel 2019/20...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

As contas do 1º trimestre

O Sporting comunicou à CMVM, na noite passado do sábado, as contas referentes ao 1º trimestre de 2019/20. Foi apresentado um resultado positivo de 21,1 milhões obtidos, sobretudo, devido à às mais-valias dos passes de Raphinha e Thierry Correia nos últimos dias do mercado de transferências. Infelizmente, apesar do lucro obtido - sempre enganador quando falamos do 1º trimestre de um exercício -, o panorama geral é preocupante. A dependência da SAD das receitas extraordinárias (como vendas de jogadores e prémios de competições europeias) mantém-se demasiado elevada, o que leva a que a atual ineptidão desportiva - equipa de futebol à deriva e que dispõe de um único jogador capaz de proporcionar uma venda considerável a curto prazo - tenha efeitos duplamente nefastos: não só pelos objetivos desportivos que vão caindo prematuramente, mas também pelo cumprimento das obrigações financeiras da época. 


1. Receitas operacionais



As receitas operacionais ordinárias tiveram aumentos na casa dos 10% ao nível dos bilhetes de época (infelizmente, terá sido mais por causa do aumento significativo dos preços das Gameboxes do que pelo aumento do número de Gameboxes vendidas), patrocínios, camarotes e business seats e merchandising, tendo-se voltado, de uma forma geral, ao nível atingido há dois anos.

Os prémios da UEFA são mais reduzidos do que em 2018/19 porque na época passada houve uma correção positiva referente à participação da Liga dos Campeões de 2017/18, e também porque, até setembro de 2019, apenas foi disputado um jogo da Liga Europa que acabou em derrota - e, portanto, sem direito a prémio monetário.


2. Custos


Custos com pessoal 

Inesperadamente, registou-se um aumento de 3,2 milhões de euros relativamente a 2018/19. No R&C, a SAD deu a seguinte explicação para esse aumento:
Os gastos com pessoal cresceram cerca de 3,2 milhões de euros face ao mesmo período da época passada, no entanto, importa referir que este aumento é explicado por dois efeitos contrários: i) redução trimestral dos gastos com jogadores e colaboradores em cerca de 1,3 milhões de euros e ii) aumento das indemnizações em 4,7 milhões de euros. O valor relativo às indemnizações por rescisão de contratos de trabalho ascende a cerca de 5 milhões de euros, mas permitirá uma poupança líquida de cerca de 25 milhões de euros, parte significativa da qual irá-se refletir ainda na corrente época.
Suponho que as indemnizações por rescisão de contratos incluam Keizer e a sua equipa técnica, e jogadores como Viviano, Salin, Jefferson e Wallyson (que rescindiram) e, eventualmente, como Alan Ruiz, Petrovic ou André Pinto (como "motivação" para assinarem por outros clubes). Ainda assim, percebendo a poupança que isso implicará em comparação com o que se teria de pagar até ao final dos respetivos contratos, o balanço do trabalho de cortes está longe de ser positivo. A redução de 1,3 milhões em jogadores e colaboradores é claramente insuficiente, ainda mais olhando para a fraquíssima valia desportiva de um plantel que está mais perto das posições de despromoção do que do 1º lugar.


FSE's

Houve um aumento de 21% dos fornecimentos e serviços externos, que está distribuído por diversas componentes. No entanto, há uma delas em que o aumento dá particularmente nas vistas: 


O R&C explica que o "aumento dos gastos com organização, deslocações e estadias em jogos está relacionado com o jogo de pré-época com o Liverpool disputado em Nova Iorque e com a sazonabilidade das deslocações da Liga Europa.". A sazonabilidade da Liga Europa explica-se com a deslocação à Holanda para defrontar o PSV (na época passada o 1º jogo da Liga Europa foi em casa). Ainda assim, podemos assumir que a maior parte dos 924.000 euros a mais que se gastou se deverá à deslocação a Nova Iorque - mais prolongada e mais longa do que a de Eindhoven. No entanto, se olharmos para um detalhe ao nível das receitas, vemos que...


... a SAD só encaixou cerca de meio milhão em competições particulares. Isto dá a entender que a participação do Sporting no particular com o Liverpool terá dado prejuízo, o que seria, no mínimo, ridículo. Espero que haja algum proveito escondido noutra rubrica, porque obrigar a equipa a uma deslocação destas, com o impacto que tem na pré-época, e ainda ter de pagar por isso no final... seria absurdo.


Dependência das receitas da UEFA e venda de jogadores

Os valores das indemnizações têm algum peso no défice operacional que se registou, mas, mesmo assim, a dependência dos prémios das competições europeias e das mais-valias de jogadores continua demasiado elevada.



3. Dívida


O aumento global do endividamento relativamente a junho de 2018 não é novidade, devido à operação de antecipação das receitas do contrato da NOS realizada em março de 2019. No entanto, há um efeito secundário que ainda não era conhecido mas que é bastante desagradável: o pagamento de juros da dívida durante o 1º trimestre de 2019/20 disparou de 1,271M para 2,964M. Ou seja, teremos de contar com um aumento de juros anuais na casa dos 7 milhões de euros. O período dos juros baixos acabou em definitivo para o Sporting.


4. Outras notas

  • Curioso o acordo que o Sporting fez com Podence: dos 7 milhões, apenas vamos receber 2 milhões até setembro de 2020; o Olympiacos só terá de pagar os outros 5 milhões depois disso; e 10% do valor total da compensação foi atribuído em comissões a Jorge Mendes.
  • Até 30 de setembro de 2019, o Valência tinha pago 3 milhões relativos à transferência de Thierry Correia; o clube espanhol pagará mais 3 milhões até 30 de setembro de 2020 e 6 milhões depois dessa data.
  • O Rennes já pagou cerca de metade do valor de transferência de Raphinha.
  • Dos 53,500 milhões de vendas de jogadores, 5,9M foram pagos em intermediações, ou seja, um valor médio superior a 10% (no caso da venda de Thierry atingiu uns obscenos 16,7%).

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Reestruturação coxa

O Sporting comunicou ontem à CMVM a formalização do acordo que permitirá a recompra de todas as VMOCs por um valor correspondente a 30% do seu valor nominal. Significa isto que os 135 milhões de VMOCs poderão ser resgatadas com um investimento de 40,5 milhões de euros, elevando a participação do clube no capital social da SAD na ordem dos 90%. Uma excelente notícia, ainda que não seja propriamente uma novidade: no essencial, falamos das mesmas condições negociadas por Bruno de Carvalho no pré-acordo anunciado há cerca de ano e meio. Foram introduzidas agora condições mais suaves de reembolso que permitirão à SAD dispor de uma maior percentagem das mais-valias de vendas de jogadores e de outras entradas de dinheiro.

Ainda assim, independentemente dos méritos de cada um, o importante é que se trata de um passo importantíssimo para a independência do clube face a outros investidores, e que afasta em definitivo o fantasma da perda de maioria da SAD. Há motivos para os sportinguistas ficarem satisfeitos com este acordo.

No entanto, convém lembrar que, ao contrário do que a comunicação social está a relatar, a recompra das VMOCs é apenas uma metade da reestruturação financeira que o clube necessita. Continua por realizar a igualmente essencial - e ainda mais urgente - reestruturação da dívida, prometida por esta direção em campanha eleitoral, e que consistirá na compra da dívida à banca com a participação de uma empresa financiadora, a troco de um haircut (ou perdão de dívida, se preferirem) substancial. Ainda há muito trabalho para fazer. Esperemos que não seja necessário aguardar mais um ano para termos novidades concretas nesta frente.

segunda-feira, 3 de junho de 2019

As contas do 3º trimestre

Quando fiz a análise das contas do 1º semestre apontei três problemas essenciais que a SAD está a enfrentar:

1. A redução das receitas operacionais
2. A falta de ajustamento dos custos à previsível redução de receitas
3. As necessidades de tesouraria de curto prazo

São três questões que a atual administração da SAD pouco ou nada pôde fazer para evitar ou reverter, uma vez que entrou em funções apenas após o fecho do mercado de verão. É que, por um lado, as receitas ordinárias ficam definidas em meados de agosto, mais milhão menos milhão; por outro, os custos operacionais estão altamente dependentes da massa salarial do plantel, que fica fechado a 31 de agosto

Infelizmente, a Comissão de Gestão pouco fez para emagrecer o plantel sabendo que não havia Champions e que a venda de Gameboxes não acompanhava o ritmo de épocas anteriores. Não só deu aumentos incomportáveis a Dost e Battaglia, como, sobretudo, não se desfez de praticamente nenhum contrato de jogadores cujo rendimento desportivo fica muito aquém do custo financeiro. E ainda gastou praticamente todo o dinheiro que havia para investir em Diaby. À tragédia que vivemos no final da época passada, sucedeu-se a falta de competência de quem preparou 2018/19.

Isto tudo condiciona, como é óbvio, as contas do 3º trimestre da época. Os primeiros três meses de 2019 não podiam trazer quaisquer novidades em relação ao primeiro ponto, visto que a não qualificação para a Liga dos Campeões e a redução das receitas das gameboxes são fatalidades que não há forma de inverter com a época em andamento. O melhor que se pode fazer em relação a isso é agir em conformidade no segundo ponto, ou seja, ajustar o custo do plantel às receitas esperadas. Infelizmente, o momento certo para o fazer é entre junho e finais de agosto. A direção de Frederico Varandas fez o possível em janeiro, dispensando alguns atletas que auferiam vencimentos elevados e substituindo-os (ou não substituindo sequer) por outros com salários mais reduzidos - felizmente sem consequências desportivas nefastas, bem pelo contrário. O terceiro ponto acima referido, relativo às necessidades de tesouraria, foi temporariamente resolvido com a antecipação de 65 milhões de euros do contrato dos direitos televisivos. E digo temporariamente porque, para ser definitivo, é preciso adequar os custos às receitas sob pena de andarmos a alimentar consecutivamente défices nas contas e na tesouraria. 

Ou seja, começa agora o período onde poderemos efetivamente avaliar a capacidade da atual administração da SAD. O desafio não será fácil: aumentar significativamente a competitividade do plantel de 2019/20, ao mesmo tempo que reduz o seu custo.

Passemos então à análise dos números do 3º trimestre.


Receitas operacionais



A redução das receitas operacionais devem-se, principalmente, à não participação na Liga dos Campeões. Em 2017/18, os prémios da UEFA foram a principal fonte de rendimento da SAD. Em 2018/19, fruto da participação na Liga Europa, esse valor caiu para menos de metade. Para além disso, não participar na Liga dos Campeões reflete-se também nos direitos televisivos (por causa do marketpool da UEFA) e na bilheteira.


Detalhando a bilheteira, houve uma quebra de 650 mil euros na venda das Gameboxes e perdemos cerca de 1 milhão na bilheteira das competições europeias. Houve, no entanto uma recuperação ao nível das competições nacionais e um aumento ao nível dos camarotes e business seats.


Custos com pessoal

Em linha com os relatórios anteriores, o custo salarial do plantel é excessivo para as receitas existentes.


Apesar de terem saído alguns jogadores críticos no final da época passada e da redução de qualidade geral do plantel, continuamos a gastar ao mesmo nível de 2017/18. Mas olhando para o detalhe do custo dos salários trimestre a trimestre, os números ficam ainda mais surpreendentes:


No 1º trimestre, o custo do plantel foi mais baixo do que em 2017/18. Isso explica-se pelo facto de muitos dos reforços terem chegado tarde e por não termos pago os salários dos jogadores que rescindiram e mais tarde voltaram durante uma parte desse trimestre.

No entanto, no 2º trimestre, com o plantel completo, gastámos mais na época atual do que em 2017/18 - o que é inadmissível considerando a (falta de) qualidade do plantel. Pior: no ano passado o peso do salário de Jesus nos custos de pessoal era significativamente superior ao de Peseiro/Keizer.

No 3º trimestre houve uma redução significativa dos custos salariais, fruto das movimentações de mercado. Sem salários como os de Nani, Montero, Marcelo ou Bruno César, e reforçando a equipa com jogadores mais baratos como Luiz Phellype, Borja, Ilori ou Doumbia, foi possível baixar a folha salarial em mais de 2,5 milhões (o que corresponderia a 10 milhões anuais caso estas medidas tivessem sido tomadas no início da época).


Endividamento

Como se esperava, houve um aumento significativo do endividamento devido à antecipação de 65 milhões de receitas do contrato de direitos televisivos.


Destes 65 milhões, o clube ainda tinha cerca de metade em caixa (no ativo). A restante metade distribuir-se-á entre pagamentos a fornecedores e pagamentos à banca. Infelizmente, sendo este relatório uma imagem do estado das contas no dia 31 de março, não é possível saber ao certo no que é que o dinheiro foi aplicado. O que se pode ver é que, apesar de esta antecipação de receitas provocar um aumento de 65 milhões no passivo, o passivo total a 31 de março aumentou "apenas" 48,7 milhões em relação a 31 de dezembro. Ou seja, isto indicia que a outra metade do dinheiro da antecipação foi usado para abater outros passivos (a conta não é direta porque entretanto vão surgindo novos passivos, como, por exemplo, as contratações de Doumbia, Ilori, Borja, Plata e Matheus Nunes).


Notas finais

  • O Sporting apresentou um prejuízo de 5,9 milhões após ter registado um lucro de 6,4 milhões nas contas do 1º semestre. Era previsível, já que, não tendo havido encaixes significativos com vendas de jogadores em janeiro, o 3º trimestre é o pior em termos de receitas ordinárias.
  • O acordo por Gelson foi fechado após 31 de março, pelo que as mais-valias registadas ainda não entraram nestas contas.
  • Em contas por alto, parece-me que não será necessário vender até 30 de junho para ter contas relativamente equilibradas no final da exercício. No entanto, creio que será necessário fazer uma excelente venda no defeso de forma a financiar o reforço do plantel e assegurar o preenchimento das necessidades de tesouraria da época - para além, claro, de resolver a situação de jogadores como Viviano, Bruno Gaspar, Jefferson, Lumor, André Pinto, Ilori, Petrovic, Battaglia, Misic, Mattheus Oliveira, Diaby e Dost.



quinta-feira, 14 de março de 2019

O risco das poupanças

Têm sido insistentes, nas últimas semanas, as notícias que dão conta de que muitos jogadores do Sporting poderão sair no final da época. Os motivos são diversos: falta de qualidade, contratos que chegam ao fim, possibilidade de aparecerem propostas interessantes para os cofres do clube, e ainda outros casos em que, supostamente, o clube considerará que o rendimento desportivo não está a corresponder ao salário auferido. Dost, Coates, Mathieu, Acuña são alguns dos titulares indiscutíveis que se diz que poderão sair no verão, para além de, previsivelmente, uma série de outros jogadores cuja saída não deixará nenhum sportinguista com particular saudade, como André Pinto, Bruno Gaspar, Jefferson, Gudelj, Petrovic ou Diaby. Bruno Fernandes, a jóia da coroa do plantel, parece ser a única exceção: é desejo dos responsáveis pelo futebol que a equipa da próxima época seja construída à sua volta.

Esta "vassourada" virá na sequência de uma série de saídas a custo zero ou por baixo valor no recente mercado de inverno: Marcelo, Mané, Castaignos, Bruno César, Misic, Sturaro, Montero e Nani.

Poucos discutirão a saída da maior parte dos nomes desta lista, mas os casos de Montero e Nani são diferentes. Nenhum dos dois jogadores foi substituído por um elemento de igual utilidade para a equipa. Luiz Phellype não faz esquecer o colombiano (mesmo a mim, que não sou particular fã de Montero) e Gonzalo Plata só agora chegou a Alcochete, tendo ainda muita papa Cerelac para comer até poder atingir o nível do ex-capitão.

Nos casos de Montero e Nani, a expressão mais utilizada - oficiosamente, através dos jornais - para explicar as suas transferências foi poupança nos salários. Compreendo a decisão da direção em reduzir drasticamente a folha salarial face ao enorme desequilíbrio orçamental que a Comissão de Gestão de Sousa Cintra deixou, mas, ainda assim, as saídas de Montero e, em especial, de Nani, são difíceis de aceitar do ponto de vista desportivo.

Mas fico ainda mais preocupado perante as notícias de que Coates, Mathieu e Dost poderão não continuar na próxima temporada. Já corremos riscos grandes por estarmos obrigados, no próximo defeso, a reformular uma parte demasiado ampla do plantel para substituir o muito entulho que temos - e que exigirá uma enorme percentagem de acerto nas contratações. Mas se a isso juntarmos ainda a substituição de quatro jogadores de qualidade indiscutível - ainda que Dost, neste momento, esteja a atravessar uma grave crise de confiança -, temo que dificilmente teremos capacidade de lutar para o título na próxima época. 

Pego, por exemplo, no caso de Dost. Percebo que o holandês, auferindo um salário de 6 milhões, seja encarado um encargo elevado para as finanças da SAD. Acredito também que o departamento de scouting ache possível contratar um ponta-de-lança que valha muitos golos por valores muito inferiores... mas isso não quer dizer que o consigam fazer, pois existem muitas variáveis que determinam o sucesso de um jogador. A qualidade do atleta que o vier substituir será fundamental, mas não é tudo: falhando a adaptação ao país, ao clube, ao campeonato ou ao sistema de jogo do treinador, essa qualidade não se irá traduzir em golos - e muito menos na grande quantidade de golos que sabemos que Dost vale.

O ajuste orçamental é necessário face à perda dos prémios da Liga dos Campeões. Para piorar a situação, o aumento dos prémios monetários da Liga dos Campeões permite a Porto e Benfica investirem mais e pagar melhores salários aos seus jogadores - e, consequentemente, aumentar a sua capacidade de atrair e manter talento. Pode-se observar no gráfico seguinte que voltou a haver um fosso entre o Sporting e os rivais no que ao orçamento do futebol diz respeito.

2018/19 H1 - 1º semestre; 2018/19 PROJ - projeção para o final da época, com o pressuposto de que os custos do 1º semestre se manterão no 2º semestre

Depois de duas épocas com orçamentos equiparáveis a Porto e Benfica, o primeiro semestre de 2018/19 já permite constatar um aumento de investimento dos nossos adversários. Ao invés, o Sporting terá ainda de fazer um ajuste em baixa. Se os custos do segundo semestre se mantivessem idênticos aos do primeiro, o Benfica gastaria mais 32 milhões do que o Sporting. Isso não deverá acontecer, já que os dois clubes de Lisboa dispensaram vários jogadores caros no inverno, mas o tal fosso é uma realidade indiscutível... e que se vai agravar em 2019/20. A diferença orçamental para os rivais, só por si, faz-nos partir de uma posição de grande desvantagem, mas se a isso juntarmos um extreme makeover do plantel que não poupa nem os melhores... será preciso um milagre para termos uma equipa capaz de competir pelo campeonato.

A história dos últimos anos mostra-nos que é possível ter equipas competitivas com orçamentos inferiores - veja-se os exemplos de 2015/16 e 2013/14 -, mas a margem de erro que o Sporting terá nas decisões de mercado será quase nula. Agora temos de perceber quais as intenções da direção do ponto de vista do orçamento. Espero que não passe por ajustar os custos operacionais aos proveitos operacionais, isso seria um erro. Na minha opinião, deverá ser sempre assumido um risco calculado na definição do orçamento, contando à partida com as mais-valias de uma grande venda ou duas boas vendas.  Não assumir esse risco sujeita-nos a outro tipo de risco, de natureza desportiva. Há que limitar a redução do orçamento tanto quanto possível, de forma a aumentarmos as probabilidades de termos mais jogadores de qualidade e valorizáveis. Isso facilitará a entrada num círculo virtuoso em que o sucesso desportivo e o sucesso financeiro se alimentam mutuamente, e que só um plantel de qualidade pode iniciar.

segunda-feira, 4 de março de 2019

As contas do 1º semestre

O Sporting divulgou no final da passada semana as contas do 1º semestre de 2018/19, apresentando um lucro de aproximadamente 6,5 milhões de euros. É um valor que, sendo positivo, obrigará a SAD a fazer pelo menos uma boa venda até junho de 2019, já que o 1º semestre tem tipicamente bastante mais receitas do que o 2º semestre.

Há três aspetos negativos nas contas. 

1º problema: a redução das receitas operacionais. 

A conjugação da crise que o clube viveu a partir do final da época passada com a não qualificação para a Liga dos Campeões representou um enorme decréscimo ao nível dos prémios da UEFA e ao nível da bilheteira - lugares de época e lugares empresariais incluídos. O único aspeto positivo é o aumento de 15% registado nos patrocínios e publicidade.


Decompondo a componente Bilheteira, observa-se uma redução a todos os níveis, sobretudo ao nível dos bilhetes jogo a jogo. Isso explica-se pela redução de cerca de 1 milhão entre os jogos da Liga dos Campeões da época passada para os jogos da Liga Europa desta época, pelo facto de não ter havido nenhum jogo caseiro com equipas do topo da tabela até 31 de dezembro e, claro, não ajuda o pouco entusiasmo que a equipa de futebol tem despertado entre os sócios e adeptos sem Gamebox. 



2º problema: a falta de ajustamento dos custos à previsível queda das receitas

Perante a queda total de 8,7 milhões das receitas operacionais - que era mais que previsível -, teria sido fundamental fazer um ajuste do orçamento da equipa de futebol para manter as contas equilibradas. Infelizmente, não foi o caso. Se excluirmos a diferença de salário de Jorge Jesus para Peseiro/Keizer e o prémio de qualificação para Liga dos Campeões que foi pago na época passada, chegamos à conclusão que o plantel atual é mais caro do que o da época passada - com a agravante de isso não se ter refletido, nem de perto nem de longe, na manutenção da qualidade que existia.


Uma herança indesejada deixada pela Comissão de Gestão à atual direção, que, tendo entrado após o fecho de mercado de verão, só em janeiro pôde fazer os ajustes que se impunham. Será previsível que os custos com pessoal desçam no 2º semestre após as movimentações do mercado de inverno.



3º problema: as necessidades de tesouraria de curto prazo

Não é complicado perceber que as obrigações de pagamento do clube a curto prazo (neste caso a 1 ano) são imensamente superiores aos valores que a SAD tem a receber.

A pagar durante os próximos 12 meses:
  • Fornecedores - 54,2M;
  • Financiamento (banca) - 53,9M;
  • Estado - 6,3M.

A receber durante os próximos 12 meses:
  • Clientes - 12,3M;
  • Estado - 0,4M.

As rubricas de outros devedores e outros credores referem-se, em grande parte, a valores a pagar entre o grupo Sporting e não alteram de forma significativa o panorama.

O valor que se deve a fornecedores é relativamente normal. O problema está no resto: até há uns anos, assumia-se que os empréstimos bancários se renovariam automaticamente, coisa que hoje já não acontece; e o valor a receber de clientes (vendas de jogadores a outros clubes) é invulgarmente baixo, consequência da rescisão em massa de vários dos atletas com mais mercado que impossibilitaram os encaixes de que o clube necessitava. Tudo isto foi agravado pelo facto de o último empréstimo obrigacionista não ter tido a adesão desejada.

Não espanta, portanto, que corram notícias de que a SAD pondera a antecipação de receitas da NOS para fazer face a estas necessidades de tesouraria, no âmbito da reestruturação financeira que se encontra a ser negociada.


O endividamento e as receitas antecipadas

Não fossem as obrigações de curto prazo, o panorama do endividamento do Sporting até poderia ser encarado como bastante positivo. A dívida voltou a baixar, em parte explicada pela "troca" do EO de 30 milhões pelo novo de cerca de 25 milhões. A antecipação de receitas manteve-se estável em relação ao último ano. Obviamente que, à luz das notícias dos últimos dias, é de prever que o valor aumente significativamente durante o 2º semestre.


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

18,98 and counting...

O Sporting comunicou ontem à CMVM que o valor total de investimento captado até ao final da quarta-feira - penúltimo dia da fase de subscrição do empréstimo obrigacionista -, é de 18,98 milhões de euros.

Sendo praticamente impossível que durante o dia de hoje se atinja o objetivo dos 30 milhões - teriam de aparecer investidores de outra dimensão -, não deixa de ser uma boa notícia face ao lentíssimo arranque registado na semana passada. Só ontem registou-se um investimento de 4,3 milhões de euros, o que confirma a tendência de que o interesse está a crescer com o passar dos dias - aumento de interesse que não será alheio à campanha agressiva que o Sporting fez esta semana, em reação à ausência total de publicitação da banca junto dos seus clientes. 

Há, obviamente, o outro lado da moeda: tendo sido o Sporting apanhado de surpresa pela falta de colaboração das instituições bancárias, não se deveria ter reagido de imediato com uma campanha própria logo ao fim de um ou dois dias de subscrições muito abaixo das expetativas? Possivelmente contribuiria para um arranque um pouco melhor, mas não nos podemos esquecer que até a mais agressiva das campanhas seria engolida pelo ruído que o caso de Alcochete gerou - que começou precisamente na véspera do primeiro dia de subscrição com a prisão preventiva de Bruno de Carvalho. 

Os obstáculos tem sido mais que muitos. Só o facto de ter havido o adiamento do pagamento do EO anterior já implicava um nível de desconfiança superior ao normal, a que se juntaram o pouco tempo de preparação que esta direção teve para o lançar, as tentativas de boicote levadas a cabo por gente com uma agenda própria, a falta de colaboração dos bancos e ainda o tal circo mediático de Alcochete que concentrou as atenções só país nos primeiros 4 dias de subscrição (de um total de 9). 

Seria ótimo que o ritmo de procura se mantivesse neste último dia de subscrição, pois cada euro angariado a mais representará uma maior folga para a apertada gestão de tesouraria que tem vindo a ser - e continuará a ser - necessária. E também porque mesmo se sabendo que os 30 milhões não serão atingidos, um bom último dia será o desfecho merecido para a demonstração de força e de união a que temos assistido esta semana. Ainda não sendo a força e união que é possível alcançar, é indiscutivelmente um progresso em relação ao passado recente: há muitos, muitos meses que não se via tantos sportinguistas a remar para o mesmo lado.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Investir ou não investir, eis a questão

Sucesso desportivo gera criação de valor que, por sua vez, pode ser utilizado para fomentar a renovação do sucesso desportivo, e assim sucessivamente. É o objetivo que qualquer sociedade desportiva ambiciona atingir e que, depois de alcançado, necessita de competência e objetividade para se manter. Mas para lá chegar é necessário ainda mais competência, porque os obstáculos que têm de ser superados implicam dificuldades muito superiores. 

O empréstimo obrigacionista que o Sporting lançou na semana passada é um bom exemplo de como os obstáculos são bem diferentes quando estamos distantes do sucesso desportivo. Apesar de ser uma ferramenta financeira a que as SAD's têm recorrido regularmente, este EO não está a ter qualquer tipo de apoio da banca na sua publicitação - canal privilegiado de contacto com os potenciais investidores -, e tem sido acompanhado de uma série de peças jornalísticas que se focam exclusivamente naquilo que pode correr mal, sem olhar para as especificidades de uma sociedade desportiva. Obviamente que o adiamento do reembolso do EO anterior contribui para que haja alguma desconfiança do mercado, mas, ainda assim, acho estranho que um empréstimo de 30 milhões encontre tantas reservas quando se sabe que o Sporting poderá conseguir isso com a venda de um único jogador ou quando está em vigor um contrato de direitos televisivos que valerá centenas de milhões de euros ao longo dos próximos anos.

Neste empréstimo obrigacionista, o Sporting vai emitir um mínimo de 15 milhões de euros e um máximo de 30 milhões, em função da procura por parte dos investidores. Se o valor total de obrigações subscritas não atingir o tal mínimo de 15 milhões, então todas as ordens de subscrição realizadas ficam sem efeito. É um passo muito relevante para a estabilização financeira do clube, e cujo sucesso afetará também a capacidade do clube em se reforçar no mercado de inverno. Como tal, é importante que todos os sportinguistas avaliem o produto e os seus riscos e potencial e, caso decidam investir, que o façam em função da sua capacidade financeira.

Eu já investi. A avaliação que fiz foi a seguinte: 
  • o juro é muito atrativo; 
  • não tenho receio de não ser reembolsado do valor investido, pois falamos de um montante que não é muito significativo face à grandeza de valores que a SAD do Sporting movimenta anualmente;  
  • o maior risco que está aqui em causa para o Sporting, a meu ver, é o investimento total não atingir os 15 milhões e a emissão obrigacionista ser cancelada - e nesse caso eu, enquanto investidor, não corro qualquer risco porque a subscrição fica sem efeito.

Caso o empréstimo obrigacionista seja emitido com sucesso, a situação financeira do Sporting ficará praticamente normalizada... e poderá melhorar ainda mais a curto prazo, caso o Sporting consiga concluir também a nova reestruturação financeira e a recompra das VMOCs. Tenho confiança no trabalho que está a ser desenvolvido pela atual administração, pelo que acredito que lá chegaremos - sendo que o sucesso do empréstimo obrigacionista facilitará certamente o sucesso das outras duas. Depois disso, serão muito menores os obstáculos que nos separam do sucesso desportivo.

P.S.: De salientar o contributo de Nani e Cédric na promoção do produto. Também Coates fez uma insta story ligada ao investimento no futuro do Sporting. É muito importante envolver os atletas e ex-atletas nas outras vertentes da vida do clube.


Eu também já investi.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A entrevista da SIC Notícias a Francisco Zenha

Francisco Zenha, administrador da SAD com o pelouro financeiro, foi ontem entrevistado na SIC Notícias a propósito do empréstimo obrigacionista que está neste momento em fase de subscrição, e aproveitou para prestar esclarecimentos sobre a atual situação financeira do Sporting e contextualizar alguns números que têm sido usados por alguma comunicação social em peças de teor mais negativo.

Abordou também os temas mais quentes da semana: o relacionamento do clube com as claques, as AG's recentemente marcadas e as possíveis consequências do processo judicial da invasão a Alcochete.

Vale a pena ver. Por questões de limitação de tempo dividi a entrevista em duas partes. A primeira é sobre o EO e a segunda sobre as claques, AG's e Alcochete. Se só tiverem 10 minutos, não deixem de ver o primeiro vídeo.



quarta-feira, 31 de outubro de 2018

As contas do 1º trimestre

Depois de, há uns dias, a SAD ter divulgado resultados positivos de 16 milhões de euros para o 1º trimestre de 2018/19, foi ontem enviado à CMVM o relatório e contas completo. Para o bem e para o mal, deve-se dizer que a atual direção, que tomou posse a 9 de setembro, pouco pôde fazer para influenciar as contas agora apresentadas. O período a que se referem é de 1 de julho a 30 de setembro, sendo que o que mais influencia o equilíbrio financeiro de uma época é o trabalho realizado até 31 de agosto, dia em que encerra o mercado de transferências. 

Tal como qualquer R&C referente ao 1º trimestre, os dados divulgados não permitem ter ainda uma imagem muito nítida do que deveremos esperar para a época, mas existe um par de questões que vale a pena analisar: o equilíbrio dos custos salariais face às receitas esperadas e o endividamento da SAD.


Dimensionamento dos custos do plantel num ano sem Champions

Este é, para mim, o ponto que gera maior preocupação. O facto de não termos acesso às receitas da Champions obrigava a que se fizesse um trabalho profundo de remodelação do plantel, de forma a ajustar os custos salariais às fontes de receitas disponíveis. Infelizmente, a Comissão de Gestão não teve capacidade para fazer o ajuste que se impunha.

Comecemos pelas receitas: como se pode ver, a presença na Liga Europa vale, para já, uma quebra de 10 milhões relativamente ao mesmo período da época passada, em que participámos nos playoffs e na fase de grupos da Liga dos Campeões. Isso também teve reflexos ao nível dos direitos televisivos, que desceram em relação a 2017/18 em virtude da diferença do marketpool da Liga dos Campeões para o da Liga Europa. Houve também uma redução na casa dos 18% nos lugares de época, camarotes e business seats. Apenas se registaram melhorias ao nível dos patrocínios.


A quebra total de receitas nestes três meses foi de 10,5 milhões de euros, mas os ajustes dos custos salariais do plantel foram claramente insuficientes. 


Apesar de ter havido uma redução de 2,4 milhões dos custos com pessoal em relação a 30 de setembro de 2017, este número não reflete bem a realidade. É que essa redução se explica em grande parte pelo prémio de apuramento para a Champions que se pagou na época passada. Ao nível dos salários propriamente ditos, o corte não chegou aos 1,2 milhões nos primeiros três meses da época.


Isto, apesar de terem rescindido alguns dos jogadores mais caros do plantel e de termos deixado de suportar o encargo com o elevado salário de Jorge Jesus. Ou seja, na prática, é provável que esta redução se deva na totalidade à diferença de salários entre a equipa técnica de Jorge Jesus e José Peseiro. Ao nível dos jogadores, os gastos devem ser semelhantes aos da época passada - o que, mesmo assim, não foi suficiente para evitar que o plantel seja desequilibrado e tenha lacunas gritantes em determinadas posições. 

No final do 1º semestre será possível ter uma ideia mais clara em relação a este desfasamento entre custos e receitas, mas para já o panorama não é animador. Será um dos principais desafios que a direção de Frederico Varandas terá de enfrentar até junho ao nível financeiro.


Endividamento

Aqui as notícias são melhores, pois continua a tendência de redução do endividamento da SAD. Ao longo do 1º trimestre, o Sporting reduziu a sua dívida (factoring incluído) em 4,3 milhões de euros.


Olhando apenas para a componente de endividamento das receitas antecipadas, houve uma redução do seu valor para cerca de 44 milhões de euros.


Ao longo da época deverá haver desenvolvimentos ao nível da composição da dívida, sendo certo que a questão da tesouraria será uma das principais dores de cabeça da direção. Em novembro teremos a emissão do novo empréstimo obrigacionista e continua a ser negociada a nova reestruturação da dívida do grupo Sporting. Para além disso, há a questão dos recebimentos e pagamentos das transferências. O acordo por Patrício permitiu um encaixe de 14 milhões que ainda não está refletido nestas contas, mas as obrigações a curto prazo no pagamento de transferências continuam a ser superiores ao que temos a receber.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

As contas de 2017/18

O Sporting divulgou no sábado as contas referentes à época de 2017/18: o exercício culminou com um prejuízo de 19,9 milhões de euros, que contrasta profundamente com o lucro 30,5 milhões obtidos em 2016/17. Não é um resultado surpreendente, considerando os números que já se conheciam do 3º trimestre (1 milhão de euros de lucro) e a ausência de vendas significativas de jogadores até 30 de junho.

O prejuízo poderia ter sido bastante maior caso não se tivessem revertido as rescisões de Dost, Bruno Fernandes e Battaglia, que, de todos os jogadores que abandonaram o Sporting, eram os que tinham valor contabilístico mais elevado (todos os outros ou eram jogadores da formação ou foram adquiridos por valores reduzidos). Os três jogadores eram ativos que estavam avaliados nas contas em 18 milhões de euros e, caso não tivessem regressado, o prejuízo dispararia para 37,9 milhões de euros.

As perdas de 19,9 milhões explicam-se pelo facto de a época ter terminado da forma que todos conhecemos. A direção de Bruno de Carvalho atacou 2017/18 assumindo um nível de risco superior ao nível das contas, que se traduziu num crescimento significativo dos custos com a equipa de futebol graças a várias contratações de jogadores com salários elevados, que se juntaram a um plantel que já era caro. O risco aumentou, mas era calculado: a venda de Adrien no início da época e a boa prestação na Liga dos Campeões deram algum desafogo financeiro, pelo que para atingirmos o lucro bastaria vender mais um dos jogadores principais do plantel - o que acabou por não acontecer por tudo aquilo que sabemos.


PROVEITOS OPERACIONAIS

Ao nível dos proveitos operacionais, registou-se a continuidade da evolução positiva registada ao longo dos últimos anos. 


O principal aumento deu-se ao nível dos prémios da UEFA. As receitas de bilheteira também tiveram um crescimento interessante, mas acabam por estar também ligados às competições europeias - nomeadamente com as visitas de Barcelona, Juventus e Atlético Madrid. Pela negativa, assinale-se a estagnação ao nível dos camarotes e business seats, um segmento que, claramente, continua num estado de sub-aproveitamento.


CUSTOS OPERACIONAIS

Os custos com pessoal dispararam para 73,8 milhões de euros, um valor que me parece excessivo face ao nosso nível de receitas operacionais. Os salários de jogadores e equipa técnica praticamente que triplicaram no espaço de quatro épocas.


Sousa Cintra revelou no sábado que cortou 10 milhões ao nível dos custos com pessoal. Considerando que nos vimos livres do salário de Jorge Jesus e perdemos alguns dos jogadores mais bem pagos do plantel (como Patrício e William), não me parece uma grande proeza. De qualquer forma, sendo verdadeiros esses números, é expectável que os custos com pessoal baixem para a ordem dos 60-65 milhões - um valor mais aceitável para a nossa realidade.


RESULTADOS

Apesar de o Sporting ter apresentado resultados operacionais positivos (3,5 milhões), a verdade é que sem as receitas da Liga dos Campeões e sem as mais-valias das vendas de jogadores teríamos prejuízos operacionais de 50 milhões. 


Em relação a 2018/19, já sabemos que não teremos Liga dos Campeões e que as vendas de Gameboxes diminuíram; em contrapartida, as receitas televisivas deverão aumentar com a entrada em vigor do contrato da NOS, já fizemos algumas vendas que geraram algumas mais-valias (William e Piccini) e haverá o tal corte de 10 milhões ao nível dos custos com pessoal. Isto significa que continuaremos a estar mais dependentes de vendas de jogadores do que seria desejável.


ENDIVIDAMENTO

É das poucas boas notícias que este relatório e contas tem para oferecer. Apesar de tudo o que se passou, a dívida total (onde incluo as receitas antecipadas) baixou de 148,8 milhões para 131 milhões.


Detalhando a parte da dívida correspondente às receitas antecipadas, a 30 de junho a SAD tinha antecipado cerca de 49 milhões de euros. Fica abaixo dos 60 milhões que Ricciardi referiu, mas é possível que tenha havido recurso a mais antecipações entre julho e setembro.



AQUISIÇÕES

Raphinha custou 6,5 milhões por 100% do passe. Não foram pagas comissões. O Sporting terá de entregar 20% das mais-valias de uma venda futura (assumo que ao V. Guimarães, o relatório e contas não é explícito quem tem esse direito).

Bruno Gaspar custou 4,5 milhões por 100% do passe, a que se soma 236.000 euros de outros encargo.

Viviano custou 2 milhões por 100% do passe. Não foram pagas comissões.

Marcelo foi uma contratação a custo zero, mas o Sporting gastou 500.000 euros noutros encargos.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A antecipação de 60 milhões do contrato da NOS

No debate entre candidatos presidenciais na última quarta-feira, José Maria Ricciardi afirmou que o Sporting já tinha antecipado 60 milhões do contrato da NOS. O número adiantado é surpreendente pela negativa, pois no R&C mais recente, relativo ao 3º trimestre de 2017/18 (ou seja, à data de 31 de março de 2018), os números do factoring rondavam apenas os 7,5 milhões de euros.

Ao longo da época, é no quarto trimestre que os clubes têm um menor fluxo de dinheiro a entrar. A partir do momento em que Sporting não conseguiu concretizar a emissão do empréstimo obrigacionista previsto para maio e viu-se privado, em virtude das rescisões, dos seus ativos de maior valor que poderiam (e iriam certamente) proporcionar encaixes consideráveis no defeso, o recurso à antecipação do contrato da NOS passou a ser uma inevitabilidade. 

Ainda assim, de 7,5 milhões para 60 milhões vai um salto gigantesco que não pode deixar de preocupar os sportinguistas. 

Pode-se argumentar que Ricciardi poderá estar a manipular números de forma a criar um alarmismo que favoreça os argumentos da sua lista, mas convém lembrar que o candidato a presidente acabou de recrutar dois ex-elementos do Conselho de Gestão que estarão certamente bem informados.


O R&C do 3º trimestre de 2017/18

Na rubrica Financiamentos Obtidos, está disponível o seguinte quadro:


O valor do factoring a 31 de março de 2018 era de 7,515 milhões - 3,75 milhões com prazo de vencimento inferior a um ano (corrente) e 3,765 milhões com prazo de vencimento superior a um ano (não corrente).

Acontece que houve valores antecipados de receitas futuras que não foram colocados neste quadro. Mais à frente no relatório, na rubrica Outros Passivos Não Correntes, temos isto...


... e na rubrica Outros Passivos Correntes ainda há isto:


A observação "(nota 21") aponta para a explicação dada na imagem anterior (a rubrica Outros Passivos Não Correntes é o ponto 21 do R&C).

O R&C não refere se estes valores antecipados são referentes ou não ao contrato da NOS, mas o relatório anual de 2016/17 diz isso explicitamente.


Suponho que tenham sido colocados à parte por questões técnicas, mas deverá ser tudo considerado em conjunto quando falamos de antecipação de receitas. 

Assim, a 31 de março de 2018, o Sporting tinha antecipado 32,055 milhões de receitas futuras. Isto significa que, caso os números de Ricciardi sejam rigorosos, houve recurso à antecipação de cerca de 28 milhões adicionais de março para cá - o que me parece um valor plausível.

Considerando todas as rubricas, a evolução das antecipações ao longo dos anos foi a seguinte:


Exclui deste gráfico os valores referentes à antecipação de receitas da venda de jogadores, utilizada sobretudo nas relações com fundos de jogadores - algo que foi perdendo relevância à medida que o Sporting se foi desligando dos TPO's.


"O momento não é para estagiários"

A antecipação de receitas é uma ferramenta entre várias que existem para fazer a gestão de tesouraria. A partir do momento em que os bancos fecharam a torneira aos empréstimos, os clubes passaram a ter que se virar para outras formas de se financiarem. Os empréstimos obrigacionistas e a antecipação receitas são as mais normais. Obviamente que não é bom estarmos perante um cenário destes, mas é preciso ter em consideração que atravessamos uma situação extraordinária que nos impediu de fazer boas vendas e emitir um empréstimo obrigacionista. E convém relembrar que o Sporting tem conseguido reduzir significativamente o montante dos empréstimos bancários. O essencial é que a dívida, na sua globalidade, vá descendo.

O momento não é para estagiários, como disse Ricciardi mas também não vejo a situação como sendo desesperada. Fazendo uma época desportiva decente, é possível ao Sporting voltar em breve a uma situação de normalidade - sem ter que recorrer a investidores que, uma vez cá dentro, dificilmente voltarão a sair. Vendendo um par de jogadores bem vendidos no prazo de um ano e conseguindo indemnizações justas pelos jogadores que rescindiram no prazo de dois, a situação financeira poderá passar a ser mais saudável do que alguma vez me lembro de ter sido. 

O que é fundamental - mesmo fundamental - é que o clube seja bem gerido por gente que acautele os seus melhores interesses.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Manipulação inaceitável

O Sporting divulgou hoje os resultados do 3º trimestre. Apresentou um prejuízo de 8,9 milhões entre janeiro e março de 2018, mas o total da época ainda se cifra num lucro de 1,1 milhões. São contas positivas considerando que a única venda significativa realizada em 2017/18 foi a de Adrien Silva, por 20M, com mais 5M de variáveis.

Na época passada os lucros totais apresentados no 3º trimestre foram de 35,1 milhões por causa, sobretudo, das vendas de Slimani e João Mário por um total de 70 milhões de euros. Ainda assim, os resultados referentes ao 3º trimestre foram piores do que esta época: entre janeiro e março de 2017 o Sporting apresentou um prejuízo de 11,4 milhões.

É, por isso, completamente inaceitável que o Record apresente a notícia sobre os resultados financeiros do Sporting desta forma:


O Jornal de Negócios decidiu também "atacar" pelo mesmo ângulo.


Se vivêssemos numa situação de normalidade, os resultados apresentados hoje seriam considerados bastante positivos. Chegar ao 3º trimestre com lucro apenas com uma venda significativa é sinal que as contas são suficientemente equilibradas para aquela que é a realidade do mercado português - em que a grande fonte de receitas é, precisamente, a venda de jogadores.

Mais ainda quando se pode ver que, entre janeiro e março de 2018, o Sporting reembolsou a banca em mais 8,5 milhões de euros, reduzindo a dívida total de 110,6 milhões (números apresentados nas contas do 1º semestre) para 102,1 milhões. No total da época, o Sporting já reembolsou a banca em 25,2 milhões de euros.


Este não é caso único. Têm saído várias notícias relacionadas com questões financeiras com títulos sensacionalistas cujo objetivo é agravar a situação de instabilidade que o Sporting atravessa. Muito cuidado, mais uma vez, com os julgamentos prematuros.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

A estratégia do Sporting para os empréstimos obrigacionistas

O jornal Sporting publicou ontem uma oportuníssima entrevista com Guilherme Pinheiro, um dos administradores da SAD, sobre o ponto de situação dos empréstimos obrigacionistas do Sporting - tanto aquele que vencia agora e cujo prazo foi estendido por mais seis meses, como o novo empréstimo de 15 milhões que se emitirá de imediato.

Deixo para já a entrevista (carreguem na imagem para a ampliar), que é de leitura imprescindível para quem se interessa pelas contas da SAD, e farei alguns comentários logo de seguida.


Como é sabido, o Sporting tem, neste momento, um único empréstimo obrigacionista de 30 milhões. Deveria ser reembolsado precisamente agora, mas a SAD entendeu não estarem reunidas as condições ideais para o fazer devido à polémica que estalou recentemente. Percebo o racional que esteve por trás da decisão - não vou dizer que concordo ou deixo de concordar com ela porque não faço ideia de qual era o sentimento dos principais investidores perante a instabilidade que se gerou -, mas não posso concordar de forma alguma com Guilherme Pinheiro quando diz que esta conjuntura foi criada por terceiros. Sabemos bem que não foram terceiros. Adiante.


A ideia da SAD passa pela emissão de um empréstimo de menor valor (15 milhões, mas que poderá ser superior em função da procura por parte dos investidores) já este mês, com dois anos e meio de maturidade. Daqui a seis meses será emitido um novo empréstimo de 30 milhões para para pagar o atual, com maturidade de (suponho eu) três anos. O Sporting ficará então com dois empréstimos ativos, de 15 e 30 milhões, que vencerão, respetivamente, em novembro de 2020 e em novembro de 2021.

Um aumento substancial do nível de empréstimos obrigacionistas (de 30 para 45 milhões, no mínimo) nunca será por si só uma boa notícia, mas não terá de ser necessariamente uma má notícia. O balanço, positivo ou negativo, terá de ser feito em função da evolução do endividamento total. Se a este aumento corresponder uma diminuição igual ou superior dos empréstimos bancários e do factoring, então a evolução do panorama geral será positivo. Se, ao invés, a SAD não for capaz de abater em igual medida as restantes ferramentas de financiamento, então a evolução será negativa. 

Acredito que estaremos perante o primeiro caso, por dois motivos. Em primeiro lugar, porque Bruno de Carvalho explicou o seguinte no artigo que publicou no DN: 
"III - Sobre a emissão obrigacionista de 15 milhões e o adiamento de 30 milhões da Sporting SAD
1. A emissão de 15 milhões está alinhada com o acordo com os actuais bancos (NB/BCP) de permitir aumentos de dívida desde que no global a mesma não aumente;"

Portanto, há um compromisso com a banca em como a dívida total não será aumentada. Em segundo lugar, por causa da explicação que Guilherme Pinheiro deu para a emissão do empréstimo de 15 milhões já em maio:
"A finalidade da emissão que estamos agora lançar (...) é o financiamento da tesouraria da sociedade, operacional e também de serviço de dívida. O objetivo é dar-nos uma maior flexibilidade na gestão do mercado de transferências para tentarmos valorizar ao máximo os nossos activos e fazermos os melhores negócios possíveis para a sociedade. Essa flexibilidade é muito importante para conseguirmos os melhores negócios."

Isto significa que a ideia da emissão do empréstimo de 15 milhões em maio é, em parte, permitir que o clube não se sinta pressionado, por questões de necessidades de tesouraria, a vender à primeira boa oferta se entender que poderá conseguir um negócio melhor - não esquecer que estamos em ano de mundial, onde teremos um grande número de jogadores na melhor montra possível. Ao mesmo tempo, a SAD terá maior flexibilidade para atacar o mercado sem estar condicionado pela concretização das inevitáveis vendas. Na prática, o Sporting está a repetir a estratégia de contratações do último defeso: ter a maior parte das aquisições (e que aquisições) feitas a tempo do início da pré-temporada.

Com as mais-valias geradas pelas vendas, será então possível reembolsar empréstimos bancários de forma que a dívida global não aumente. Claro que, se no final, a dívida se mantiver no mesmo nível, não ficamos exatamente na mesma, pois os juros médios vão aumentar substancialmente. No entanto, isso será uma contrapartida perfeitamente razoável no âmbito da renegociação das condições de compra das VMOCs.

Tudo isto está interligado e no geral, se tudo correr conforme o planeado, entre dívida bancária, obrigacionista e VMOCs, não tenho dúvidas de que ficaremos muito melhor do que estávamos há dois meses.