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quinta-feira, 22 de março de 2018

Como apaparicar um menino querido

Os emails divulgados no passado domingo pelo blogue Mercado de Benfica têm estado a ser partilhados um pouco por toda a parte nas redes sociais, e se há alguma conclusão que pode ser retirada do que se tem visto é: muita borla há naquele clube.

Começando por contextualizar: o arquivo de email que foi disponibilizado pelo Mercado de Benfica é de Ana Paula Godinho, responsável pelo protocolo do Benfica, nada mais nada menos do que uma das pessoas por quem passam os convites para jogos realizados no estádio da Luz. Num desses emails, referente à época 2010/11, pode ver-se o próprio Domingos Soares Oliveira a fazer uma estimativa das borlas providenciadas pelo Benfica em cada jogo:

(via página Facebook Papa Pinto da Costa)

Uma média de 5.000 borlas por jogo, valendo mais de 2 milhões de euros por ano, é dose. Mas, como se sabe, não existe em Portugal clube mais cortês do que o Benfica.

Desconheço se Domingos Soares Oliveira conseguiu reduzir o número de borlas desde 2010, mas a avaliar pelos emails que têm vindo a ser conhecidos ao longo dos últimos meses, suponho que haja uma margem imensa para continuar esse trabalho de redução.

Agora: observando a correria ao convite em jogos rotineiros do Benfica, não será difícil imaginar o que terá sido o trabalho do protocolo quando o Benfica se qualificou para a final da Liga Europa. Não deve ter sido fácil gerir a distribuição de uma quantidade (muito) mais limitada de lugares por uma clientela bastante vasta.

Sendo uma ocasião especial, o Benfica decidiu (como é natural) distribuir convites pelos órgãos sociais, comissão executiva, ex-presidentes e antigas glórias do clube, por altos funcionários da FPF, Liga, associações distritais de futebol, APAF, ANAF, ANTF, Sindicato de Jogadores, clubes da I e II Liga, alguns membros do Governo e das Câmaras de Lisboa e Seixal, e ainda por uma série de convidados do presidente onde se incluiam figuras públicas das mais diversas áreas da sociedade.

Para se ter uma noção da escassez de lugares, basta verem como foi atendido o pedido de bilhetes do presidente da Estradas de Portugal - que, para todos os efeitos, é uma empresa pública de relevo. Aqui está o pedido...

(via @OhFazFavor)

... e aqui a resposta de Domingos Soares de Oliveira:


Como se pode ver, não se andavam a distribuir bilhetes a qualquer um que o solicitasse. Como tal, acaba por ser estranho - ou talvez não - ver na lista de convites para a final de Amesterdão um determinado nome na categoria "Convidados do Presidente":

(via @OhFazFavor)

O convite incluia viagem de avião.


Recordo que este convite aparece pouco mais de um mês depois do famoso email de Nuno Cabral a Paulo Gonçalves onde expressava a sua ambição de se tornar um menino querido do Benfica. Nuno Cabral que, à data, era delegado da Liga, e que usava o seu cargo para obter e enviar informações para o Benfica, conforme revelou Francisco J. Marques no Porto Canal.

Um ano depois, quando o Benfica repetiu a presença na final da Liga Europa, em Turim, o nome de Nuno Cabral voltou a aparecer na lista de convidados do presidente.




Nuno Cabral continuava a ser delegado da Liga em maio de 2014 - só abandonaria a liga dois anos mais tarde.

Considerando os serviços prestados por Nuno Cabral, não é complicado perceber as motivações de quem lhe atribuiu estes convites. Não terá sido por caridade que lhe ofereceram dois bilhetes para finais europeias, uma viagem paga a Amesterdão e uma viagem paga a Turim.

Isto sim, é um menino querido bem apaparicado.

P.S.: quando andava à procura de elementos para este post, esqueci-me de anotar a fonte de algumas das imagens que aqui coloquei. Peço desculpa a essas páginas. Se por acaso conseguir reencontrar os locais de onde as retirei, colocarei de imediato aqui as fontes.

sexta-feira, 9 de março de 2018

Escutas implicam Vieira

O Correio da Manhã revela que existem escutas que provam que Luís Filipe Vieira conheceu pessoalmente a toupeira José Silva. Segundo o jornal, José Silva foi fotografado pela PJ na companhia de Paulo Gonçalves na zona VIP do Estádio da Luz, e, nesse mesmo dia, terá sido levado pelo assessor jurídico do Benfica até Vieira. Esse encontro não terá sido fotografado, mas escutas ao telemóvel de José Silva comprovam que esse encontro terá mesmo acontecido. 

Se dúvidas existissem, esta revelação torna ainda mais evidente que o presidente do Benfica tinha conhecimento das ações praticadas por Paulo Gonçalves e pelo técnico de informática em benefício do clube. Ou seja, Vieira não sabe apenas das coisas pelos jornais...

Aqui fica o resumo feito pela CMTV...


... e a notícia completa do CM.

(clicar na imagem para ampliar)

De referir também que, apesar de o Benfica ter negado que o sobrinho de José Silva alguma vez tenha trabalhado no Museu Cosme Damião, a Polícia Judiciária encontrou o seu CV no escritório de Paulo Gonçalves, o que indicia que, pelo menos, terá mesmo havido oferta de emprego. Como se sabe, não é necessário haver uma oferta consumada para que seja considerado corrupção - basta a simples promessa de oferta.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Recital à Braz

Ao princípio da noite de ontem, foram anunciadas as medidas de coação aos dois arguidos detidos pela Polícia Judicária. José Sousa, o técnico informático que terá fornecido ao Benfica elementos confidenciais de processos judiciais, ficou em prisão preventiva, enquanto Paulo Gonçalves foi submetido a termo de identidade e residência e proibição de contactar os restantes arguidos do processo.

A notícia de que Paulo Gonçalves poderá permanecer em liberdade enquanto as investigações decorrem parece ter provocado um estado de euforia em Rui Pedro Braz que, minutos depois, na TVI24, deu um dos maiores recitais cartilheiros de que tenho memória, uma obra-prima da arte do spin. Ou então não, porque se uma pessoa se põe a pensar um pouco sobre o que disse, acaba por ficar baralhada. Aqui ficam alguns dos melhores momentos.


"A violação do segredo de justiça é uma farsa!"


Para Braz, a violação de segredo de justiça provocado por Paulo Gonçalves não tem qualquer importância, porque o segredo de justiça é constantemente quebrado em Portugal, seja por jornalistas ou blogues. O que se pode concluir das suas palavras é: como todos fazem, então isto não tem qualquer importância.

Rui Pedro Braz esquece-se de dois pormenores que fazem toda a diferença entre uns casos e outros: a motivação que leva uma pessoa a quebrar o segredo de justiça e, sobretudo, o que espera ganhar com essa quebra de segredo de justiça. Um jornalista fá-lo com o intuito de informar o público. Um blogger fá-lo com o intuito de expor algo que considera errado, normalmente de forma não desinteressada (se estivermos a falar de futebol), mas usa dados que já foram previamente publicados por outros. Paulo Gonçalves, segundo as informações que foram veiculadas nos últimos dias, fê-lo para prejudicar clubes concorrentes (e, por inerência, beneficiando o clube para o qual trabalha) e, pior, fê-lo para se manter informado sobre o estado de uma investigação que tinha como alvo o próprio Benfica - que, no limite, podia permitr-lhe tomar medidas de forma a ludibriar ou dificultar o curso dessas mesmas investigações.

Misturar isto com a generalidade dos casos de violação de segredo de justiça é totalmente absurdo.


"O homem passou a noite na prisão... para isto"


Braz diz que um suborno pressupõe uma contrapartida equiparada em relação ao favor que está a ser prestado, dando a entender que, considerando as ofertas feitas ("meia dúzia de bilhetes e uma camisola de merchandising"), então não deveremos estar perante um caso ilícito.

Em primeiro lugar, folgo saber que, de entre as fontes de Rui Pedro Braz, existe um especialista em taxas de câmbio de favores que sabe ao certo quando é que uma determinada oferta poderá ser suficientemente aliciante para levar alguém a deixar-se corromper.

Eu, pessoalmente, acho que Braz está a menosprezar o valor sentimental das ofertas. Se por acaso eu fosse uma pessoa corruptível, garanto que mais facilmente me deixaria tentar por um bilhete para um jogo do Sporting com valor facial de 30 euros do que por um bilhete para o mais exclusivo dos bailados em cena no Teatro Bolshoi com viagem e alojamento incluídos. No caso do técnico de informática, que, ao que tudo indica, é mesmo uma pessoa corruptível e não deverá ser uma pessoa de grandes contactos e património, não me custa nada a acreditar que se tenha sentido encantado por ter ido ver um jogo ao camarote presidencial do Benfica e conhecer alguns dos seus ídolos de juventude (ver imagem ao lado, colocada no Twitter pelo Mister do Café).

Depois, Braz consegue ainda transformar Paulo Gonçalves em vítima: então obrigaram o homem a passar uma noite na prisão por causa de seis bilhetes e uma camisola?, pergunta indignado. Não, Rui Pedro. Obrigaram o homem a passar uma noite na prisão por causa dos benefícios que alegadamente terá recolhido de uma prática criminosa.

E Paulo Gonçalves não foi libertado por uma questão de falta de provas. Simplesmente, sendo de cinco anos a pena máxima do crime em causa, Paulo Gonçalves teria de preencher uma série de prerrogativas para justificar a medida de coação de prisão preventiva. Mas considerando-se não haver perigo de fuga, sendo uma pessoa com residência fixa e uma ocupação laboral estável, e considerando o crime em causa, é normal que tenha sido libertado.


"Tudo somado, começa a causar alguma estranheza como é que ainda não há consequências"


Esta é hilariante. Braz considera que não houve consequências significativas após cinco buscas e meses de investigação. Bom, se considerarmos que...
  • Luís Filipe Vieira, presidente do Benfica, foi constituído arguido por corrupção no processo Lex;
  • Fernando Tavares, vice-presidente do Benfica, foi constituído arguido por corrupção no processo Lex;
  • Paulo Gonçalves, assessor jurídico do Benfica e um dos braços direitos do presidente, foi detido e constituído arguido por corrupção ativa.

... então não sei o que poderiam ser consequências apropriadas num espaço de tempo tão reduzido. E considerando o que se conhece dos emails, das suspeitas de aliciamento a jogadores de equipas adversárias, e sabendo-se que existem escutas... veremos o que ainda se seguirá. Há quem continue a dizer que o melhor ainda está para vir.


A pièce de résistance

Se aquilo que já viram é de uma delícia extrema, então não deixem de ver o próximo vídeo. É a maravilha das maravilhas.




Esta entra diretamente para o top 3 das melhores teorias de sempre de Rui Pedro Braz. Não posso deixar de comentar duas destas frases.

"Hoje em dia é raro o processo que numa repartição de finanças ou numa entidade bancária é despachado em tempo útil sem que se tenha de pagar um almoço a alguém"

Agora fiquei confuso: Rui Pedro Braz tinha acabado de dizer que 6 bilhetes de futebol e uma camisola de merchandising não é contrapartida suficiente, mas agora diz que com almoços consegue-se fazer coisas acontecer?

E já agora que falamos em almoços, se me conseguir esclarecer uma dúvida: e vouchers para um jantar para quatro pessoas? Dá para desbloquear alguma situação chata que não se esteja a resolver por si só? É para um amigo...

"Eu não consigo muitas vezes levar as coisas em tempo útil sem ter que pedir um favor a alguém, sem ter que demonstrar alguma gratidão por alguém" 

Pois, caro Rui Pedro Braz, considerando o emprego que tem e a forma como o exerce, já todos tínhamos percebido isso... 

quarta-feira, 7 de março de 2018

First responders

Os americanos costumam designar de first responders os profissionais das forças de segurança e da proteção civil, como polícias ou bombeiros, que chegam em primeiro lugar ao local de uma emergência.

Ontem, em Portugal, viveu-se uma espécie de emergência - pelo menos para uma certa fatia da sociedade civil - com a notícia da detenção de Paulo Gonçalves. Não havendo um plano previamente delineado para responder a um incidente desta natureza - leia-se cartilha de Janela -, muitos dos comentadores afetos ao Benfica chamados para comentar a ocorrência não conseguiram esconder uma certa descoordenação no discurso.

É nestes momentos de caos que se consegue determinar aqueles que conseguem manter o sangue frio que lhes permita desencantar soluções em condições muito adversas. Nesse prisma, o prémio vai para o duo dinâmico do MaisTabaco composto por Rui Pedro Braz e Luís Aguilar - em particular para o primeiro, que parecia ter saído há pouco da cama quando foi chamado a comentar via telefone. No meio da confusão generalizada, conseguiram colocar um mínimo de organização no discurso.

Ora vejam:


Discurso bem coordenado entre as duas almas gémeas.  Admito que é uma forma bastante elegante de se colocar em dúvida que Paulo Gonçalves tivesse efetivamente feito as coisas que levaram à sua detenção: o homem é de tal forma experiente e competente, que não faz grande sentido que tivesse cometido tais atos. Há, no entanto, dois pormenores que torna isto menos surpreendente: primeiro, é normal que, após anos e anos seguidos a fazer o que quer, uma pessoa se sinta intocável e não tome todas as precauções necessárias; depois, a data em causa é anterior à constituição de Paulo Gonçalves como arguido, pelo que os holofotes estavam a aquecer e ainda não encandeavam pessoas demasiado seguras de si próprias.


terça-feira, 6 de março de 2018

E o Oscar de justificação mais esfarrapada vai para...

E o Oscar de justificação mais esfarrapada para as ações do Benfica vai para...

<abrindo o envelope>

... Jorge Baptista, pelo que disse há pouco na SIC Notícias!

<standing ovation>




E-toupeira: e assim se demonstra a cumplicidade da estrutura


Artigo da Sábado onde se pode ler que o Benfica ofereceu emprego ao sobrinho do técnico informático dos serviços judiciais que foi hoje detido, como contrapartida dos "serviços" prestados. 



Perante isto, cai por terra a réstia de dúvidas que pudesse existir em relação ao conhecimento que a restante estrutura teria sobre as ações de Paulo Gonçalves. O assessor jurídico do Benfica agiu em benefício do clube e o clube colocou à disposição meios próprios para ajudar Paulo Gonçalves na obtenção desses benefícios.

Relembro que os convites que Júlio Loureiro recebeu do Benfica foram feitos por Paulo Gonçalves com conhecimento do próprio Luís Filipe Vieira.





Operação e-toupeira

Comunicado da Polícia Judiciária (LINK):

A Polícia Judiciária, através da Unidade Nacional de Combate à Corrupção (UNCC) e no âmbito de um inquérito que corre termos no DIAP de Lisboa deteve dois homens pela presumível prática dos crimes de corrupção ativa e passiva, acesso ilegítimo, violação de segredo de justiça, falsidade informática e favorecimento pessoal.

No decurso da operação, que envolveu cerca de 50 elementos da Polícia Judiciária, um juiz de instrução criminal e dois magistrados do Ministério Público, foram realizadas trinta buscas nas áreas do Porto, Fafe, Guimarães, Santarém e Lisboa que levaram à apreensão de relevantes elementos probatórios.

Nesta investigação, iniciada há quase meio ano, averigua-se o acesso ilegítimo a informação relativa a processos que correm termos nos tribunais ou Departamentos do Ministério Público a troco de eventuais contrapartidas ilícitas a funcionários.

Os detidos vão ser sujeitos a primeiro interrogatório judicial.

A investigação prossegue com vista à continuação de recolha de prova e ao apuramento dos benefícios ilegítimos obtidos.



Duas notas: o nome da operação (e-toupeira) não desilude, e já tem lugar no panteão das grandes expressões do futebol português; vale a pena recuperar o post que apresenta Júlio Loureiro, um dos funcionários judiciais visados nesta operação: LINK.


Paulo Gonçalves detido por suspeita de corrupção ativa

Notícia da revista Sábado: LINK.

Benfica: Paulo Gonçalves detido por suspeitas de corrupção na Justiça

Assessor jurídico dos encarnados é suspeito de distribuir prendas a funcionários judiciais para obter informações de processos. Tribunais de Fafe e Guimarães estão a ser alvos de busca, assim como a SAD do SLB.

Paulo Gonçalves, assessor jurídico da SAD do Benfica, foi esta terça-feira detido por suspeitas de corrupção activa. Segundo informações recolhidas pela SÁBADO, também um técnico de informática do Instituto de Gestão Financeira e Equipamento da Justiça foi detido pela Unidade Nacional Contra a Corrupção da Polícia Judiciária por suspeitas de corrupção passiva. Em causa estará uma rede montada pelo Benfica junto do sistema judicial para recolher informações de processos que corriam, sobretudo, no Departamento de Investigação e Acção Penal de Lisboa.

O técnico do IGFEJ e outros funcionários judiciais suspeitos na investigação recolheriam informação directamente do sistema dados dos processos judiciais, o Citius, a qual chegaria posteriormente a Paulo Gonçalves. Um empresário de futebol é outro dos suspeitos na operação lançada esta terça feira pela Judiciária que, além das detenções, está a realizar buscas em casas particulares, no Benfica e nos tribunais de Guimarães e Fafe, onde trabalha outro dos suspeitos: Júlio Loureiro, funcionário judicial, já identificado no chamado "casos dos emails", depois de ter sido público que enviou para o assessor jurídico do Benfica uma notificação do Tribunal de Guimarães para uma audição do treinador Rui Vitória.

Esta investigação estará relacionada com dados recolhidos em Setembro pela SÁBADO, os quais apontavam já para a existência de fugas de informação de investigações judiciais para o Sport Lisboa e Benfica.


sábado, 3 de fevereiro de 2018

Octávio Correia: o sexto elemento

As figuras mais mediáticas da Operação Lex são, indiscutivelmente, Rui Rangel e Luís Filipe Vieira. O primeiro por ser uma pessoa que, alegadamente, usa do enorme poder que o seu cargo lhe confere para influenciar o desfecho de processos judiciais em favor daqueles que lhe paguem ou lhe prometam outro tipo de contrapartidas. O segundo por ser presidente do Benfica, mesmo sabendo-se que o caso de tráfico de influências / corrupção de que é suspeito nada ter a ver com a sua atividade enquanto líder do clube. Isto significa que, apesar de serem duas figuras reconhecidamente ligadas ao Benfica - Rangel já foi candidato à presidência -, é legítimo que se diga que este caso não tenha nada a ver com o clube.

No entanto, é impossível ignorar que existe uma ligação demasiado estreita entre muitas das figuras apanhadas nesta teia e o Benfica. O processo tem, até ver, 13 arguidos, e uma 14ª pessoa que, não sendo arguida neste processo em concreto, está fortemente envolvida. Dos 14 implicados, é amplamente conhecida a ligação de 5 deles ao Benfica:

1. Rui Rangel: ex-candidato a presidente do Benfica e membro da Comissão de Honra da candidatura de Vieira em 2016. Arguido. Não pode (por enquanto) ser detido por ser juiz. Foi ontem suspenso pelo Conselho Superior de Magistratura.

2. Luís Filipe Vieira: presidente do Benfica. Diz-se que há escutas em que se prova ter oferecido cargos no Benfica em troco de uma decisão favorável num processo respeitante ao seu filho. Arguido com termo de identidade e residência.

3. Fernando Tavares: vice-presidente do Benfica, tendo a seu cargo o pelouro das modalidades. Amigo próximo de Rangel. É também suspeito do crime de tráfico de influências. Arguido com termo de identidade e residência.

4. João Rodrigues: antigo presidente da FPF, foi apanhado nas escutas do Apito Dourado a servir de intermediário entre Vieira e Pinto de Sousa, na altura presidente do Conselho de Arbitragem, para a escolha de árbitros para os jogos do Benfica. Aparece na Operação Lex como suspeito de tráfico de influências. Arguido com termo de identidade e residência.

5. José Veiga: antigo diretor de futebol do Benfica, foi um dos homens de confiança de Vieira durante vários anos. Não é arguido neste caso em concreto - está em prisão preventiva no âmbito do processo Rota do Atlântico, de onde teve origem a Operação Lex - mas é uma das pessoas apanhadas a pedir a Rangel para influenciar processos judiciais, um dos quais para prejudicar o Sporting.


Octávio Correia, o sexto elemento

Há, no entanto, uma outra figura envolvida neste processo que, sendo desconhecida do grande público, tem ligações fortes com o mundo do futebol e, em particular, com o Benfica. Refiro-me a Octávio Correia, o oficial de justiça que, alegadamente, viciava os sorteios do Tribunal de Relação para atribuir determinados processos a Rui Rangel. Octávio Correia é um dos cinco detidos da Operação Lex.

Octávio Correia foi delegado da Liga durante as épocas 2009/10 e 2010/11. Sobre esta personagem, há muito para dizer. Para começar, transcrevo o que Bernardino Barros revelou na quinta-feira no site Batalha1983 (LINK):
No “Caso LEX”, um dos detidos e já presente a interrogatório, foi o escrivão da 9ª secção do Tribunal da Relação de Lisboa, de seu nome Octávio Correia.
Este senhor foi, em tempos, delegado da Liga (nas épocas 2009/10 e 2010/11) tendo sido suspenso (internamente) por não cumprir com os regulamentos internos – por exemplo, não relatando factos presenciados nos terrenos de jogo. Por esses motivos, levou um aviso no início da época 2010/11; mas, a reincidência, no dia 17 de Abril de 2011, no jogo 12706 (benfica vs. Beira Mar), conduziu a que o Coordenador do Delegados o suspendesse por um mês e não o convidasse a integrar o quadro de delegados na época seguinte.
Recorde-se que, no dia 17 de Abril de 2011, o sr. Octávio Correia era o delegado no terreno, tendo omitido os insultos que Rui Costa (o da estrutura encarnada) dirigiu, no final do encontro, a Elmano Santos, o árbitro da partida, levando a que o delegado principal, situado no camarote, tivesse problemas por o assunto não ter sido reportado no relatório final…

Portanto, estamos perante mais um caso em que um delegado omitiu, de forma muito conveniente, factos que poderiam implicar castigos para um dirigente do Benfica. Na prática, uma situação semelhante a uma outra revelada pelos emails: a oferta de bilhetes do jogo do título de 2015/16 de Paulo Gonçalves a Simões Dias, um ex-delegado que, em 2008, foi suspenso por ter falsificado um relatório de forma a omitir insultos de Nuno Gomes e do próprio Paulo Gonçalves ao árbitro Pedro Henriques. No email, Paulo Gonçalves justificava a oferta dos bilhetes a Simões Dias da seguinte forma: "Com essa omissão safou-me a mim e ao Nuno Gomes de uma sanção, mas lixou-se."

Voltando a Octávio Correia, não há registos que tenha sido presenteado com convites para ver jogos do Benfica em honra... mas fez isto no dia 16 de março de 2010:


Portanto, o que temos aqui é um delegado em funções a pedir bilhetes a Paulo Gonçalves para um juiz desembargador. E note-se que este Benfica - Braga não era um jogo qualquer: era apenas o jogo do título.

Classificação do campeonato 2009/10 no momento em que se realizou o Benfica - Braga

Falamos, portanto, de um pedido de favor especial, já que a procura de bilhetes para este jogo foi enorme. O Benfica venceria o Braga por 1-0 e aumentaria a vantagem para 6 pontos, almofada essa que viria a revelar-se decisiva para recuperar um título que lhe fugia há 5 épocas.

Repito: Octávio Correia era, à data, um delegado da Liga em funções. Consultando o arquivo da Liga podem ver que Octávio Correia tinha sido delegado a um jogo disputado 9 dias antes deste email: LINKMais um exemplo de promiscuidade que, a meu ver, configura mais um caso de tráfico de influências. Considerando isto e as acusações que recaem agora sobre Octávio Correia, ficamos conversados em relação ao seu carácter moral.

Claro que isto tudo já são ocorrências com quase oito anos, mas desenganem-se aqueles que pensam que a ligação entre Octávio Correia e o Benfica pode ter esfriado ao longo do tempo. Bem mais recentemente, em outubro de 2016, Octávio Correia foi um dos convidados para o jantar de encerramento da campanha presidencial de Luís Filipe Vieira:


No ficheiro está identificado tal como podem ver: OCTAVIO (TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA). Para que não haja dúvidas de que falamos da mesma pessoa, podem confirmar neste LINK (quadro de funcionários do Tribunal de Lisboa) que existe apenas um Octávio.


Creio que também ficamos conversados em relação ao nível de proximidade entre Vieira e Octávio Correia. E chamo a atenção para o pormenor que não foi identificado nem pelo nome e apelido, nem como OCTAVIO (EX-DELEGADO DA LIGA). Foi mesmo como OCTAVIO (TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA). Porque será?

Curiosamente, entre os convidados a este jantar podemos encontrar também os nomes de Rui Rangel...


... e de Jorge Barroso...


... que é outro dos cinco detidos da Operação Lex. Jorge Barroso é o advogado de Luís Filipe Vieira na área do imobilário, e, segundo a imprensa, terá sido apanhado em escutas a servir de intermediário entre Vieira e Rangel para a "compra" da influência do juiz.

Fonte: DN

Para um processo que, segundo nos dizem, nada tem a ver com o Benfica, não deixa de haver demasiados pontos de contacto. Veremos se não aparecerão outras surpresas num futuro mais ou menos próximo.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Triângulo das Bermudas

Hoje em dia, a maior parte das pessoas que segue o futebol com alguma atenção já conhece bem o nome de César Boaventura. Para os poucos a quem tal personagem é desconhecida, estamos a falar de um empresário de futebol que enfiou a carapuça quando, numa das edições do programa semanal no Porto Canal, Francisco J. Marques comentou, em jeito de insinuação, que os dirigentes das equipas que o Benfica ia defrontar fariam bem em não deixar aproximar nenhum César dos seus jogadores.

A partir daí ficou conhecido como o homem da mala do Benfica. César Boaventura é um dos responsáveis da GIC - uma agência de jogadores que tem trabalhado de perto com o Benfica, intermediando os negócios de Gabigol e Lisandro Lopez com o Inter -, tendo como sócio Abel Silva, ex-jogador e treinador das camadas jovens do Benfica e um dos arguidos do processo Jogo Duplo, em que é suspeito de ter servido de intermediário no aliciamento do Leixões a jogadores da Oliveirense que, entretanto, já estariam “carregados, do Benfica”. É que o Benfica B, a par do Leixões, também lutava para não descer de divisão.

Quem quiser saber mais pormenores sobre César Boaventura e Abel Silva pode consultar o seguinte post do Mister do Café: LINK.

Como também é sabido, as recentes suspeitas que recaem sobre o Benfica por aliciamento de jogadores de cinco equipas adversárias na época de 2015/16 envolvem a participação de certos "empresários ligados ao Benfica".

Juntando as várias peças existentes, não é complicado imaginar quem será um desses empresários.

Feita a introdução, recuemos até setembro de 2017, altura em que o Record publicou a seguinte notícia:

Portanto, o Leixões, clube investigado por aliciamento no processo Jogo Duplo, recorre a César Boaventura, alegado homem da mala do Benfica e sócio de Abel Silva, arguido no caso acima mencionado que envolve também o Leixões, estabeleceu um protocolo com o Governo das Ilhas Caimão, um conhecido paraíso fiscal da região das Caraíbas.

Uma pessoa não pode deixar de ficar curiosa sobre como e de onde terá surgido interesse para uma parceria tão improvável. Mas continuemos. Sensivelmente na mesma altura, o Leixões anunciou a contratação de um jogador de 18 anos das Ilhas Caimão, chamado Sebastian Martinez.


Na altura, César Boaventura explicou a um jornal local como iria decorrer o processo de integração do jovem jogador no futebol português:

Fonte: Cayman Compass

Um ano a adaptar-se no Leixões B - equipa que alinha nos distritais da AF Porto - para se preparar física e tecnicamente para se adaptar ao futebol de topo, com a meta de subir à equipa principal ao fim de uma época. Mas o projeto de César Boaventura e Fitzroy Simpson - empresário que também participou nestas operações - tem como principal objetivo a colocação do jogador num clube como o Benfica ao fim de três épocas.

Até ver, segundo as estatísticas do site zerozero.pt o jogador ainda não jogou qualquer minuto pelo Leixões B. Ainda assim, continua a haver muito tempo para que o objetivo de César Boaventura seja cumprido. Uma coisa é certa: o Benfica deve ter algum interesse em que tal venha a acontecer, porque, segundo Fitzroy Simpson...

Fonte: Cayman Compass

... o Benfica já tem opção de preferência numa eventual venda futura do jogador (!).

As Ilhas Caimão estão localizadas na região das Caraíbas, cerca de 500 quilómetros a sul de Havana, situando-se, portanto, nas imediações dessa zona sinistramente célebre que é o Triângulo das Bermudas. No entanto, parecem estar a aproximar-se ainda mais de outro triângulo igualmente sinistro, que tem como vértices o Benfica, o Leixões e César Boaventura. Sendo verdade que o Benfica se meteu também neste negócio, confesso que fico com alguma curiosidade em saber as contrapartidas que foram dadas... e os reais motivos de tal opção ter sido adquirida.

Uma coisa é certa: esta história, apesar de estranha, já não consegue ser surpreendente, sabendo-se a forma como o Benfica tenta jogar em todos - mas mesmo todos - os tabuleiros. A proximidade do agente com estes dois clubes acaba também por ser algo de muito natural, considerando tudo aquilo que os une... e não estou a falar do facto de equiparem de vermelho e branco.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Martelado na nota

Um dos emails mais célebres divulgados até hoje é aquele em que Vieira mandou "dar cabo da nota" do árbitro Rui Costa, na sequência do jogo Porto - Benfica em 2014. A consequência dessa ordem foi a descida da nota de 3,5 para 2,0, o que, segundo o que se escreveu nos jornais, corresponde à maior descida de sempre. 

Nos emails de Paulo Gonçalves de 2010 não se joga ao "dar cabo da nota ao árbitro", mas há um desporto parecido e igualmente popular para as bandas da Luz: o "martelar a nota ao árbitro". 

O visado em questão foi o árbitro João Capela, que apitou, em finais de setembro de 2010, o jogo Marítimo - Benfica, que terminou com a vitória dos encarnados por 1-0. A arbitragem de João Capela não terá agradado ao Benfica, e, uma semana mais tarde, Paulo Gonçalves faz o seguinte comentário a João Gabriel:


Mais um que foi martelado na nota. Se reparerem, existe um ficheiro em anexo: trata-se do relatório do observador de árbitros sobre o trabalho de João Capela na Madeira. É um documento de 6 páginas, enviado pela Liga aos clubes que participaram no jogo.


Sendo um documento que não pode ser divulgado publicamente, mandaria o bom senso que não fosse partilhado com terceiros. No entanto, poucas horas depois, o que fez Paulo Gonçalves ao documento?


Enviou-o para José Manuel Delgado. De que serve martelar uma nota a um árbitro se o mundo não souber que tal martelanço existiu? Há mensagens que não podem deixar de ser passadas de forma bem clara...

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O rei das borlas

O arquivo dos emails recebidos por Luís Filipe Vieira nos primeiros meses de 2017 incluem uma série de pedidos de autorização ao presidente para oferta de convites para os jogos do Benfica, provenientes de vários funcionários do Benfica. O MVP neste campeonato particular é, sem sombra de dúvidas, Paulo Gonçalves - facto reconhecido por Luís Filipe Vieira de forma bem humorada neste email:


Paulo Gonçalves, no entanto, parece ter acusado algum toque, porque se sentiu na necessidade de se justificar perante o comentário do presidente. Paulo Gonçalves responde dizendo que...


... os convites são atribuídos sempre no "interesse exclusivo do SLB". Portanto, daqui podemos excluir cortesias completamente desinteressadas. Os cinco convites em causa foram solicitados por Paulo Gonçalves em abril de 2017 para o Benfica - Marítimo, mas existem muitos mais que foram sendo atribuídos ao longo destes meses. Vou fazer uma listagem não exaustiva dos emails provenientes de Paulo Gonçalves que aparecem na caixa de entrada de Luís Filipe Vieira entre fevereiro e abril de 2017. Mas primeiro, quero abordar um pedido de convites, no mesmo período, que a comunicação social já noticiou:


Neste caso concreto, a censura recai inteiramente sobre Mário Centeno, que devia evitar-se colocar nesta posição. Para além de conhecer a polémica dos secretários de estado que foram a Paris ver a final do Euro 2016 às custas da Galp, já devia saber que não existem almoços grátis e que, ao sentar-se ao lado de um contribuinte que deve à banca largas centenas de milhões de euros, estaria a mandar um péssimo sinal ao país. Nenhum clube recusaria este pedido ao ministro das finanças, apesar de sabermos que, no caso do Benfica, receber esta solicitação foi como juntar a fome à vontade de comer.

Avancemos então para os tais convites solicitados por Paulo Gonçalves no "interesse exclusivo do SLB" entre fevereiro e abril de 2017.



14-Abril-2017: Benfica - Marítimo (29ª jornada)


Alguém me consegue explicar por que razão um delegado da Liga (neste caso, António Reis) recebe convites para um jogo em que vai estar a desempenhar funções? Até que ponto não fica condicionado para reportar determinados acontecimentos que não sejam convenientes ao anfitrião? Se não houvesse essa possibilidade, duvido que esta oferta fosse no "exclusivo interesse do SLB".


Aqui temos 6 bilhetes para o menino querido Nuno Cabral, com direito a parque de estacionamento, bilhetes para o piso 1 (o piso com bilhetes mais caros) e ao LL. LL refere-se ao Lisboa Lounge, que entranto recebeu o naming da Hublot, que é descrito no site do Benfica da seguinte forma:
Assista aos jogos com acesso ao mais recente espaço do Estádio do Sport Lisboa e Benfica, o Hublot Lounge. Trata-se de um conceito único, onde poderá usufruir do serviço de catering com tudo incluído e de muita animação, com a presença garantida de glórias do Clube, sorteio da camisola do melhor jogador em campo, oferta de cachecol oficial, visita ao Museu, entre outras surpresas. Garanta já os seus lugares.

Certamente que os convidados do menino querido terão ficado devidamente impressionados, seguramente no "interesse exclusivo do SLB".


24-Fev-2017: Benfica - Chaves (23ª jornada)


Mais uma vez, o menino querido com três convites para a zona VIP, onde, quem sabe, se poderá ter cruzado com Joaquim Evangelista, presidente do Sindicato de Jogadores.


1-Abr-2017: Benfica - Porto (27ª jornada)




Seria de esperar que houvesse grande procura de borlas para o jogo que poderia decidir o título. Aqui temos, como de costume, o menino querido Nuno Cabral, mas também outras ilustres figuras: 6 convites para delegados da Liga; 4 convites para elementos do registo de contratos da Liga; 4 convites para Ferreira Nunes, antigo vice-presidente do Conselho de Arbitragem e responsável pelas classificações dos árbitros; 5 convites para observadores do Conselho de Arbitragem; 3 convites para João Leal, responsável pelos registos de transferências da FPF (sobre quem o Mister do Café já escreveu AQUI); e ainda 3 convites para Júlio Loureiro, ex-árbitro, observador e funcionário judicial, que já apareceu anteriormente na novela dos emails por ter passado informações confidenciais a Paulo Gonçalves referentes a um processo judicial que envolvia Rui Vitória (podem vê-lo no canto inferior direito da infografia abaixo).



29-Abr-2017: Benfica - Estoril (31ª jornada)


Mais 2 convites para Ferreira Nunes, desta vez para a tribunal presidencial...


... para o inevitável Nuno Cabral, e ainda para o nosso conhecido Júlio Loureiro.


10-Fev-2017: Benfica - Arouca (21ª jornada)


Aqui foram dois convites, com direito a lounge, para o irmão de Nuno Cabral, árbitro, que também já foi mencionado anteriormente aqui: LINK.


14-Fev-2017: Benfica - Dortmund (Liga dos Campeões)


Convites para três personalidades já conhecidas. Siga!


13-Mar-2017: Benfica - Belenenses (25ª jornada)


Mais 5 convites com tudo do bom e do melhor para Nuno Cabral e um tal de Joel Amado. Será este Joel Amado?


Só nesta amostra, deu para encontrar meninos queridos - Nuno Cabral já deve ter engordado uns quilinhos com tanto catering -, observadores de árbitros, delegados, dirigentes da FPF, dirigentes da Liga, dirigentes do Sindicato de Jogadores, e ainda o famoso Frankc Vargas. Não há dúvida: Paulo Gonçalves é mesmo o rei das borlas, mas sempre no "melhor interesse do SLB". Não é difícil perceber em que sentido...

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

A Blog's Tale II - As avenças dos jornalistas

Certamente que estarão lembrados do projeto de Carlos Janela para criar um blogue de "enorme qualidade e impacto", do qual dei conta neste post (LINK). Foi uma iniciativa falhada que surgiu inicialmente do plano de Luís Bernardo criar 10 blogues para "dinamizar as redes sociais", mas que teve uma morte quase à nascença: impacto nem vê-lo, e a qualidade era bastante discutível.

O arquivo de emails de Luís Filipe Vieira, disponibilizado na última madrugada, lançou luz sobre um pormenor adicional que eleva esta novela para um patamar bastante mais controverso. Em março de 2017, poucos dias antes de o blogue iniciar as suas publicações, Carlos Janela enviou ao presidente benfiquista um orçamento para a produção do blogue.


Reparem: a rede de colaboradores e informadores não só serviria para receberem boas informações, mas também para divulgação de notícias. Como tal, estamos a falar, claramente, de jornalistas em atividade.

Nesse mail, seguia um anexo com valores pormenorizados: custos de construção do site, custos de inscrição do domínio, custos de manutenção anuais... e custos mensais com pessoal. Na prática, avenças mensais para jornalistas, identificados no documento pelas iniciais.


Pagamentos em cash para manter o máximo de confidencialidade e sigilo. Percebe-se porquê: isto é coisa que, sendo descoberta, poderia levar à retirada da carteira profissional aos jornalistas em questão.

No caso da TVI e RTP Lisboa, o mais provável é que RB e JN sejam dois dos célebres jornalistas a quem Carlos Janela costuma enviar notas soltas. Em relação aos outros, não é difícil adivinhar quem são. Por exemplo, o jornalista do DN pode muito bem ser a pessoa a quem, há mais de dois anos, dediquei um post chamado Cartilha I (LINK). O SK do Record Lisboa é fácil de saber quem é, bem como o JB do Record Porto, pois não há mais jornalistas com as mesmas iniciais nas respetivas redações. Em relação aos restantes, não conheço suficientemente a composição dos quadros para saber com um grau de certeza elevado quem serão.

Isto não quer dizer que a proposta de avença tenha ido para a frente e que os jornalistas em questão as tenham chegado alguma vez a receber - até porque o projeto Verdade Desportiva não durou mais do que duas semanas -, mas, de qualquer forma, a intenção de Janela é, por si só, revelador dos padrões morais e éticos do Benfica de Vieira. E, para os jornalistas em questão, não deixa de ser significativo (e preocupante, para os que pretendem manter uma boa reputação), que Carlos Janela os julgasse bons candidatos para entrarem no rol de pagamentos do Benfica.

Ranking dos jogos mais 'estranhos' do Benfica em 2015/16

A minha reação à notícia do alegado aliciamento de jogadores do Rio Ave por parte de empresários ligados ao Benfica foi, de certa forma, contraditória: por um lado, não me recordava de ter visto, nessa partida, de erros descarados de jogadores da equipa da casa; por outro, a época foi de tal forma escandalosa, que não me surpreende absolutamente nada que tenham existido movimentações no sentido de facilitar uma ou mais vitória - ainda mais numa época em que a famosa estrutura não podia, de forma alguma, perder o título para o Sporting de Jorge Jesus.

Convém lembrar, no entanto, que existem vários cenários hipotéticos em que o aliciamento de uns e a falta de erros descarados de outros possam ser compatíveis. Em primeiro lugar, o facto de ter havido aliciamento a jogadores não quer dizer que estes tenham aceitado o dinheiro que lhes tenha sido oferecido. Em segundo, nunca saberemos se, tendo os jogadores aceitado o dinheiro que lhes tenha sido oferecido, não estariam a reservar um erro flagrante para uma situação de extrema necessidade - o jogo só acaba com o apito final do árbitro, e a verdade é que, nessa época, muitos jogos se resolveram perto do fim. E há sempre a hipótese de cometerem erros impercetíveis. O mais natural é que não queiram dar demasiado nas vistas com erros demasiado óbvios, já que isso também pode complicar a sua carreira desportiva.

Quando, mais acima, me referi ao escândalo que foi a época, referia-me aos múltiplos jogos em que aconteceram infelicididades e erros grosseiros que, de uma forma ou de outra, ajudaram o Benfica a ganhar jogos.

Aconteceram também situações dessas em jogos do Sporting? Certamente que sim. Os benfiquistas lembram exaustivamente o penálti cometido por Tonel perto do fim, que caberia também numa lista dos casos mais estranhos, mas há uma diferença fundamental: enquanto no Sporting falamos de situações perfeitamente pontuais, no caso do Benfica a dimensão deste fenómeno foi absolutamete surreal.

Nos jogos do Benfica, não foram casos isolados, nem se restringiram a um determinado momento da época: aconteceram no início (desde a primeira jornada), no meio e no fim da época (até à última jornada); aconteceram em alturas em que o Benfica estava na perseguição ao líder, e em alturas em que o Benfica liderava isolado a classificação; e aconteceu haver jogos com erros pontuais (mas cirúrgicos) como jogos com epidemias de erros. Não quer dizer que tenham nascido de aliciamentos ilícitos, obviamente, e todos eles merecem o benefício da dúvida, mas que foram demasiados erros grosseiros e infelicidades, lá isso foram. 

Fiz um apanhado dessas infelicidades e erros. Aqui fica uma espécie de Best XI da época dos jogos 'estranhos' do Benfica, relembrando que bastaria que um destes jogos tivesse acabado empatado para o campeão ser outro.

Nota: nos jogos em que me refiro a erros de arbitragem, não houve quaisquer erros grosseiros a prejudicar o Benfica com o resultado em aberto, foi tudo num único sentido.


1º - Marítimo 0 - Benfica 2, 33ª jornada

Penúltima jornada, última deslocação de risco do Benfica no campeonato, sem que houvesse qualquer margem de erro. Um empate significaria que o Sporting, que no dia anterior goleara o V. Setúbal por 5-0, avançaria para a última jornada na frente e dependente apenas de si próprio para se sagrar campeão.

Neste jogo, não há imagens disponíveis que possam resumir de forma completa aquilo que aconteceu. A jogar em vantagem numérica durante a maior parte do desafio em virtude da expulsão de Renato Sanches, vários jogadores pareceram ter desaprendido de jogar à bola. Viu-se de tudo: abdicaram de contra-ataques em vantagem numérica, os remates à baliza foram quase exclusivamente de meia-distância com uma probabilidade de êxito quase nula (e aqui estou a ser generoso ao colocar a palavra quase), e das poucas vezes em que entraram na área... mais valia que não tivessem entrado tal foi o desastre na finalização. Isto, repito, jogando mais de 50 minutos de 11 contra 10. Nunca se terá visto uma equipa abordar com tamanho desinteresse uma partida em que poderia deixar uma marca profunda no desfecho do campeonato. Apesar da vergonhosa abordagem ao jogo, ninguém ficou realmente surpreendido depois da festa antecipada que Carlos Pereira e Luís Filipe Vieira tinham feito ao almoço.


2º - V. Guimarães 0 - Benfica 1, 15 ª jornada

Numa jornada em que Sporting e Porto (que tinham 4 e 5 pontos de avanço, respetivamente, sobre o Benfica), a equipa de Rui Vitória necessitava de vencer para poder, por um lado, aproveitar a perda de pontos de pelo menos uma das equipas, e, por outro, não se deixar ficar ainda mais para trás face ao vencedor.

O Benfica ganharia por 1-0, beneficiando de uma quantidade inacreditável de erros grosseiros de arbitragem - TODOS em seu favor - da equipa chefiada por Carlos Xistra. Com o resultado em 0-0, aconteceu apenas isto: Eliseu devia ter sido expulso aos 18' por uma agressão clara, ficaram penáltis por assinalar por faltas de Fejsa (33') e Lisandro (51') - este último valeria o segundo amarelo e consequente expulsão ao central. Nos descontos, com o resultado já em 0-1, Jardel devia ter visto o segundo amarelo que o deixaria de fora na partida seguinte. O inenarrável desempenho de Carlos Xistra foi bem evidente também por um amarelo mostrado a Cafu que ficou para a história como um dos mais absurdos de sempre.

Foi um jogo em que a arbitragem ofereceu - intencionalmente ou não, deixo ao juízo de cada um - 3 pontos ao Benfica que foram fulcrais para manter a equipa na luta pelo título.



3º - Nacional 1 - Benfica 4, 17ª jornada

O desnível do resultado está longe de demonstrar as dificuldade por que o Benfica passou na partida, que se disputou ao meio-dia de uma segunda-feira em virtude do nevoeiro que caiu sobre a Chupana na noite anterior. Este jogo ficou marcada por uma arbitragem que foi decisiva no decurso da partida, que até nem tinha começado mal para o Benfica. Dois erros escandalosos, um mais desculpável, mas os três com influência decisiva no resultado.

No início da segunda parte, com o resultado em 0-1, Eliseu escapou inacreditavelmente (mais uma vez) à expulsão. Com o resultado em 1-1, Tiago Martins assinalou uma falta ofensiva absurda a Tiquinho Soares num lance em que tinha tudo para consumar a reviravolta no marcador. O Benfica aproveitou a benesse e alcançaria de novo a vantagem no marcador com um golo irregular de Jonas - por ter afastado com os braços o defesa que o marcava.

No final, a vantagem de três golos no marcador pode passar a ideia de uma vitória tranquila, mas que só aconteceu porque o campo foi decisivamente inclinado quando o resultado estava completamente em aberto.



4º - P. Ferreira 1 - Benfica 3, 23ª jornada

O jogo que consagrou o artilheiro Jonas como Jonas Piscinas. O padre Jorge Ferreira cometeu dois erros graves com influência decisiva no resultado: primeiro, quando, nos descontos da primeira parte, assinalou grande penalidade num mergulho de Jonas na área, que deu o 1-2 ao Benfica. E o 1-3, marcado por Lindelof, é precedido por uma falta de Jardel, que se pendurou ostensivamente num adversário para fazer a assistência para o sueco.



5º - Belenenses 0 - Benfica 5, 21ª jornada

Não me recordo de alguma vez ter visto uma equipa a correr tantos riscos frente a um adversário superior. A passagem de Julio Velasquez pelo Belenenses caracterizou-se por uma vontade de sair o mais possível com a bola jogável, mas aquilo que aconteceu no jogo com o Benfica ultrapassou todos os limites da ideia de jogo, entrando no domínio da irresponsabilidade total. Não interessava se o Benfica pressionava ou não: os jogadores do Belenenses trocavam a bola entre si como se não existissem adversários atentos às suas ações, e o resultado foram inúmeras perdas de bola em locais proibidos. Um autêntico passeio para a goleada, como se não bastassem os acordos de cavalheiros existentes entre os dois clubes,


Ainda assim, não deixou de haver um erro de arbitragem com implicações no resultado: falta de Renato Sanches sem bola na jogada do 0-1, que desbloqueou o empate.



6º - Benfica 4 - Estoril 0, 1ª jornada

Logo a abrir, um sinal claro para aquilo que viria a ser a temporada do Benfica. Ao fim de 10 minutos, Tiago Martins já tinha perdoado uma grande penalidade a Luisão, com o resultado em 0-0. O Benfica acabaria por vencer por 4-0, mas a diferença de golos foi bastante enganadora: os tentos do Benfica apenas surgiram no último quarto de hora da partida, com o segundo golo a surgir de um penálti mal assinalado.



7º - Benfica 4 - Nacional 1, 34ª jornada

Erros a abrir, erros em alturas decisivas do campeonato, erros a fechar. Na última jornada, o jogo era de festa, mas era preciso que acabasse em vitória para a equipa da casa. Com o resultado em 0-0, Talisca falha um corte de cabeça e acaba por jogar a bola com a mão. Penálti que Nuno Almeida, carinhosamente conhecido por Ferrari Vermelho, decidiu não assinalar.



8º - Benfica 3 - Paços Ferreira 0, 6ª jornada

O resultado estava em 0-0. A única pergunta que se pode colocar é: como é que nem o árbitro Rui Costa nem o fiscal-de-linha viram o braço de Mitroglou a desviar a bola na marcação deste livre?



9º - Braga 0 - Benfica 2, 11ª jornada

Jogo de risco que o Benfica começou da melhor maneira, marcando dois golos no primeiro quarto de hora. No entanto, o segundo golo nasce de uma falta grosseira de Jardel, que abalroa Alan numa disputa de bola aérea. Como é possível Hugo Miguel não ter assinalado esta infração?



10


10º - Benfica 3 - Académica 0, 12ª jornada

Vitória por três golos, com os dois primeiros a serem obtidos de penálti. Comum a ambos: péssima, péssima abordagem dos jogadores da Académica. Infelicidade dupla.



11º - Tondela 0 - Benfica 4, 9ª jornada

Na ressaca da pesada derrota na Luz por 0-3 frente ao Sporting, era importante para o Benfica uma vitória categórica que ajudasse a repor os níveis de confiança. Por sorte, calhou na jornada seguinte uma deslocação a Aveiro para defrontar o Tondela, uma equipa que, quando defronta o Benfica, tem por hábito colocar níveis de agressividade inversamente proporcionais aos que emprega quando defronta Sporting ou Porto.

O jogo não podia ter corrido melhor, mesmo tendo Clésio a lateral. Ao fim de 10 minutos, o Benfica já vencia por 2-0: um primeiro golo em que o cabeceamento em balão de Jonas teve a sorte de apanhar um guarda-redes num momento de reflexos lentos e fraca capacidade de impulsão; e um segundo golo também de grande infelicidade para um defesa.