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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Insuficiências na construção

Um dos pontos que me causaram maior preocupação no jogo com o Moreirense foi as notórias dificuldades do Sporting no momento da construção. Isso, a meu ver, explica-se sobretudo por dois fatores: o duplo pivot que Peseiro coloca à frente dos centrais não tem capacidade para organizar e transportar jogo ou dar apoio em zonas mais adiantadas (Coates e Mathieu foram mais participativos do que Petrovic e Battaglia); e também a desinspiração de Nani e Acuña, sendo que no caso do argentino há a agravante de se ter alheado do jogo durante demasiado tempo (Jefferson foi mais extremo do que Acuña, que raramente teve intervenções úteis junto à área adversária).

Intervir muito no jogo não é sinónimo de intervir bem, mas intervir pouco não costuma ser bom sinal para a exibição de um jogador - nomeadamente se tiver responsabilidades na construção. E olhando para o número de toques por 90 minutos (o número de toques corrigido em função do tempo de utilização de cada jogador), vê-se claramente que os números confirmam essa perceção:


Toques na bola por 90 minutos vs Moreirense (Fonte: whoscored.com)

Por um lado, salta à vista o fraco nível de participação de Acuña em comparação com os outros jogadores de vocação mais ofensiva (deve excluir-se Dost desta comparação, pelas suas características específicas). É verdade que os número de toques de Raphinha e Jovane é empolado por terem sido muito mais solicitados no pouco tempo que estiveram em campo, mas, ainda assim, Acuña tocou na bola pouco mais de metade das vezes que os seus companheiros. 

Por outro, confirma-se que o centro do jogo ofensivo do Sporting passa muito pouco pelos homens que ocupam o miolo do terreno.

Heatmap vs Moreirense (Fonte: whoscored.com)

Petrovic raramente tocou na bola no meio-campo adversário. Battaglia jogou mais adiantado do que o sérvio, mas poucas vezes se aproximou da área do Moreirense. Jefferson, Bruno Fernandes e até Raphinha tiveram muito mais presença junto à linha de fundo do nosso flanco esquerdo do que Acuña.

E nem vale a pena falar na presença de jogadores na área. Foram poucas as ocasiões, bolas paradas excluídas, em que tivemos mais do que um homem em posição de finalização.

Parece-me evidente que a nossa produção ofensiva continuará a estar furos abaixo do necessário se não tivermos mais jogadores de apetência atacante. Contra o V. Setúbal, entre Raphinha, Jovane ou Matheus, pelo menos um terá de ser titular (no lugar de Acuña). E não me chocaria absolutamente nada se Peseiro apostasse de início em dois deles nos lugares de Acuña e Nani. 

Vamos ver o que decidirá o treinador no próximo sábado.

terça-feira, 29 de maio de 2018

Balanço de 2017/18: Médios



William Carvalho: **          
2016/17: **
2015/16: **
2014/15: **     
2013/14: ***

Mais uma época exibicionalmente irregular que, é justo que se diga, foi afetada pelas várias lesões que teve de enfrentar e pelo sistema de jogo de Jesus, que não favorece um médio com as suas características. Voltou a estar abaixo das expectativas, o que nos deveria levar a concluir que talvez sejam as expectativas que são demasiado elevadas. Não que o valor não esteja lá - é perfeitamente visível a diferença de um Sporting quando tem um William ao melhor nível -, mas já se percebeu que existem outros fatores que fazem com que não se consiga extrair tudo o que William pode dar. 


Adrien Silva: **          
2016/17: **
2015/16: ***
2014/15: **     
2013/14: ***

Na realidade não fez parte do plantel, mas coloco-o aqui porque acabou por somar mais minutos do que jogadores como Palhinha, Misic, Mattheus ou Wendel. Já estava com a cabeça noutras paragens, mas não há nada a apontar a Adrien pelo que fez enquanto ainda foi a jogo pelo Sporting.


Rodrigo Battaglia: **

Foi o jogador que participou em mais partidas de todo o plantel (57 jogos) o que, por si só, reflete a importância que teve ao longo da época mesmo não sendo um indiscutível. Battaglia é um poço de força e voluntarismo - qualidades que sabe dosear bem, o que pode ser atestado pelos apenas 9 amarelos que viu em todas as competições -, ainda que nem sempre consiga dar à equipa tudo aquilo que é necessário num 8. Curiosamente ou talvez não, o melhor período que teve foi quando jogou mais recuado, com Bryan Ruiz à sua frente no miolo. Espero que consiga ultrapassar as questões que o envolveram no triste episódio de Alcochete, pois é um jogador que poderá desempenhar um papel ainda mais importante na próxima época.


Bruno Fernandes: ***          

Contratação do ano e estrela da equipa. Teve um impacto imediato na qualidade de jogo do Sporting, em parte beneficiado por praticamente não ter tido férias e iniciado a época com mais ritmo do que a generalidade dos jogadores, mas a sua influência manteve-se elevada praticamente ao longo de toda a época. Quebrou um pouco no final por ter sido fisicamente mal gerido por Jesus - que não só não o poupou em muitas situações que assim o justificava, como também pelos papéis que lhe atribuiu em campo. Ainda assim, foi uma época brilhante: a folha estatística é impressionante (16 golos e 20 assistências) e foi recheada de muitos momentos que fazem levantar qualquer estádio. Não só é para manter para o ano: é a peça central à volta da qual a equipa tem de ser construida, e tem um perfil adequado que justifica que lhe seja atribuída a braçadeira de capitão.


Bruno César: **
2016/17: **
2015/16: **

Mais uma vez foi um jogador extremamente útil pela sua polivalência. Importante na primeira metade da época - e em particular nos jogos de maior exigência, brilhando na Liga dos Campeões -, foi perdendo espaço a partir de dezembro até ter contraído uma lesão que lhe acabou com a épca em março.


Bryan Ruiz: **          
2016/17: *
2015/16: ***

Afastado do grupo de trabalho durante a primeira metade da época, foi reintegrado progressivamente a partir de novembro até assumir um papel principal em fevereiro. As pernas frescas valeram-lhe boas prestações na posição 8, ainda que não seja um jogador talhado para funções tão exigentes fisicamente. Acabou o contrato e deverá continuar a carreira noutras paragens. Ainda que tenha ficado marcado por aquele falhanço e esgotado a paciência de muitos adeptos pela sobreutilização que Jesus lhe deu - em particular em 2016/17 -, é um jogador que, pelo menos a mim, deixará saudades pela classe que demonstrou ter, quer dentro quer fora de campo.



Alan Ruiz: *
2016/17: *

Tinha esperanças que conseguisse retomar a boa forma que demonstrou em parte da 2ª volta de 2016/17. Ao contrário da sua primeira época, chegou em boas condições físicas à pré-época e pensei que pudesse aproveitar esse balanço e a melhor adaptação ao clube para conseguir demonstrar as suas qualidades. O problema é que... não conseguiu, muito longe disso, e não foi por falta de oportunidades. Lento a decidir com a bola nos pés e defende só quando lhe apetece, o que faz com que seja um jogador perfeitamente inútil em campo. Esgotou a paciência dos adeptos e acabaria, também, por esgotar a paciência da única pessoa que ainda acreditava nele: o treinador. Um flop completo que poderá estar de volta em dezembro de 2018.


Mattheus Oliveira: *

Mattheus foi uma contratação que levantou alguma polémica. Nada nas suas características gerava confiança nas suas possibilidades de afirmação num clube como o Sporting - ainda mais num sistema de jogo como o de Jesus. Dos poucos minutos de competição que teve, a maior parte foi contra equipas de escalões inferiores... e nem aí conseguiu demonstrar capacidade que justificasse minutos em desafios mais exigentes. Um erro de casting previsível, pelo que não surpreendeu o empréstimo ao V. Guimarães em janeiro.


João Palhinha: -

Teve uma utilização demasiado esporádica para poder demonstrar o que pode fazer. Verdade seja dita que havia muita concorrência para a sua posição (William, Battaglia, Petrovic), mas acabou por ser um ano perdido. Mais valia ter sido emprestado.



Radosav Petrovic: *
2016/17: -

Mais uma época com poucos minutos. As oportunidades que teve como médio defensivo nunca foram aproveitadas, e acabaria por ser como defesa central que teve os seus melhores jogos. Há que dizer que a sorte também nunca o protegeu - como esquecer a sua absurda expulsão contra o Moreirense que viria a ser despenalizada pelo CD? -, mas está mais que visto que não tem valor para continuar por cá.


Wendel: -

É incompreensível que Jesus lhe tenha dado tão pouco tempo de jogo, considerando o esforço que a direção fez na sua contratação. E não se pode dizer que fosse um capricho da direção, porque, efetivamente, foi visível ao longo da época que precisávamos de um médio mais capaz nas tarefas de transporte de bola. Do pouco que se viu, Wendel tem essas competências que, por mesquinhez ou teimosia - o treinador não quis aproveitar.


Misic: -

Diz quem o conhece que é um médio centro posicional com boa capacidade de passe e especialista nas bolas paradas. Quem não o conhece não teve oportunidade de comprovar nada disto, face à escassez de utilização. Pior: quem conseguir entender por que razão Jesus o colocou a médio ala na final da Taça, que me explique.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Epílogo de um percurso europeu meritório

O Sporting nunca teve obrigação de passar esta eliminatória, e com muito menos obrigações ficou depois de ter perdido por dois golos sem resposta em Madrid. Tinha obrigação, isso sim, de disputá-la até ao limite das suas possibilidades, e foi precisamente isso que fez, tanto ontem como em Madrid. A grande diferença entre um e outro jogo esteve nos três erros crassos que cometemos - a entrada desastrada levou a que alguns jogadores abanassem em algumas situações de aperto. Mas no geral, creio que a equipa teve atitude nas duas mãos da eliminatória, ao nível do que mostrou em praticamente todos os jogos da Liga dos Campeões. 

O percurso europeu acabou mas foi meritório. Arrisco dizer que esta época defrontámos três das dez melhores equipas europeias do momento. Nessas seis partidas realizadas, apenas nas duas com o Barcelona é que vimos o adversário a superiorizar-se de forma mais ou menos clara - e mesmo num desses jogos, não deixámos de discutir o resultado até ao fim.

O crescimento europeu do Sporting tem sido visível com Jorge Jesus. É verdade que de um ponto de vista resultadista, Jesus não está a fazer nada que Paulo Bento, Sá Pinto ou José Peseiro não tenham feito nas suas passagens pelo clube. Mas do ponto de vista da personalidade com que se encara os adversários, os progressos são mais que evidentes.

Isto, na minha opinião, torna evidente uma outra questão: como é que uma equipa que soube encarar de frente alguns dos maiores da Europa, passou tão mal contra adversários internos que estão a milhas da realidade europeia?

Bem sei que os campos, em Portugal, têm andado constantemente inclinados contra uns e a favor de outros, e isso explica facilmente a diferença de pontuação em relação a quem está no topo, mas, ainda assim, parece-me óbvio que não fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Não coloco em causa que os jogadores têm dado o litro até ao fim nos jogos do campeonato quando o resultado não é o pretendido. O meu problema é que não têm dado tudo entre o primeiro minuto e o momento em que se apercebem que a vitória pode fugir. Pelo meio, vai-se acelerando o jogo em períodos curtos, o que muitas vezes chega para marcar, mas nem sempre.

É fundamental que a equipa esteja predisposta a correr até cair para o lado desde o primeiro minuto, e isso, de uma forma geral, não tem acontecido nas competições internas.

Claro que a motivação que um jogador tem quando defronta um tubarão europeu é diferente da motivação de um jogo rotineiro para o Tugão, mas se não estamos neste momento mais perto do topo da classificação é, claramente, porque essa diferença de motivação é muito mais ampla do que deveria ser.

A qualidade está lá, mais a qualidade, só por si, não é suficiente. Dentro daquilo que depende exclusivamente de nós, falta-nos conseguir reduzir a tal oscilação motivacional, perceber qual o modelo de jogo mais adequado para as competições internas, e ter prioridades bem definidas para o nosso calendário. Prioridades bem definidas, na minha opinião, que passavam por usar a Liga Europa para rodar a equipa... mas não foi isso que entenderam o presidente - que estabeleceu a vitória na competição como objetivo -, o treinador - que aprecia o palco europeu - e os jogadores - pelo menos na eliminatória com o Atlético. Foi uma competição gira enquanto durou, que melhorou o nosso ranking, trouxe prestígio assim-assim, mas, em contrapartida, deu pouco dinheiro e foi pródiga no desgaste e nas lesões que provocou. No geral, será que valeu a pena?

Em relação ao jogo de ontem, no entanto, mentiria se não reconhecesse o prazer que me deu a exibição da nossa equipa. Muito bem Jesus, mesmo com a ausência de quatro titulares indiscutíveis, a montar a estratégia que permitiu pôr os espanhois aos papéis durante a primeira parte: colocou três centrais para evitar as aflições de 2x2 (Coates e Mathieu contra Costa e Griezmann) que nos matou em Madrid; abriu os laterais a toda a largura e com permissão para explorarem a profundidade (e que enormes exibições fizeram Ristovski e Acuña); Battaglia e Bryan a fazerem um jogo de grande sacrifício e competência no miolo. Mesmo com o percalço da saída de Mathieu, Petrovic esteve impecável defensivamente - sempre muito concentrado e certo no posicionamento, sabendo quando tinha de se manter na linha defensiva ou quando tinha que sair em contenção. Chegámos ao intervalo a ganhar por 1-0 e a lamentar a estupenda defesa de Oblak a cabeceamento de Coates e a falta de pontaria de Gelson de cabeça numa situação em que apenas tinha que escolher o lado onde colocar o esférico. A segunda parte começou a ser mais complicada, principalmente quando começaram a faltar pernas. Infelizmente, falharam as outras duas substituições: Rúben e Doumbia não acrescentaram nada, mas há que reconhecer que qualquer equipa está sujeita a que isso aconteça quando se está a rapar o fundo do tacho (ou do banco - não esquecer que para além da indisponibilidade de Dost, Coentrão, Piccini e William, também não havia Podence, Leão e o talismã das noites europeias chamado Bruno César) e que também não ajudou o facto de, nessa altura, haver vários jogadores em nítidas dificuldades físicas, como Gelson ou Bruno Fernandes.

Uma última palavra para o grande ambiente que se viveu no estádio do início ao fim. Apesar de ser um jogo que merecia mais gente, os que marcaram presença tiveram nota máxima. Apesar da eliminação, foi uma noite europeia que valeu a pena presenciar ao vivo.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Uma equipa nos cuidados paliativos

As condicionantes eram várias, umas já expectáveis, outras nem tanto. Já todos sabemos que o Sporting é uma equipa que está fisicamente de rastos, resultado de andar há dois meses a jogar ininterruptamente, que mais uma vez teve de entrar em campo com a ausência de vários titulares, uma defesa remendada e um banco que teve de recorrer à equipa B, ao que se somou ainda um relvado absolutamente impraticável sobre o qual a bola saltava mais do que rolava, que, obviamente, contribuiu para minimizar a diferença entre as duas equipas ao nível técnico. Mas nada disto pode ser usado para justificar uma exibição tenebrosa, que por pouco não terminou num desastre europeu ao nível do que se passou em Salzburgo.

Durante 90 minutos, tudo pareceu correr mal - começando pelo golo madrugador sofrido em fora-de-jogo, prosseguindo pela incapacidade de dominar o adversário, pelas escassíssimas oportunidades de golo criadas, pela forma escandalosa como desperdiçámos as poucas (mas enormes) ocasiões de golo que tivemos, e terminando num penálti falhado que nos poderia ter poupado a mais 30 minutos adicionais de sofrimento e desgaste físico. Felizmente que o prolongamento nos reservaria a pontinha de felicidade necessária (ou de falta de infelicidade extrema, considerando os golos falhados anteriormente) para seguir em frente.





A qualificação - no final do dia, o que conta é que estaremos hoje no sorteio dos quartos-de-final. Acabaram-se os brindes, mas existem algumas equipas contra as quais teremos condições para discutir a eliminatória de igual para igual - partindo do princípio que esta pobreza exibicional é resolvida até lá; se voltarmos a jogar desta forma, seja lá contra quem for que nos calhe no sorteio, só com um milagre é que poderemos passar às meias-finais. Mas enquanto há vida, há esperança.

A defesa de Rui Patrício após o golo de Battaglia - a abrir a segunda parte do prolongamento, Rui Patrício fez uma defesa monumental com a ponta dos dedos, que permitiu gerir os últimos quinze minutos com outro nível de tranquilidade.

A estrelinha nos descontos - na primeira mão, Montero abriu o marcador nos descontos da primeira parte. Ontem, Battaglia marcou nos descontos dos descontos da primeira parte do prolongamento. Isto é que é aproveitar todos os segundinhos que o jogo nos dá...



Exibição paupérrima - não é novidade nenhuma, como sabemos. Os últimos jogos têm sido, do ponto de vista exibicional, de uma pobreza franciscana. Já dei os meus dois centavos sobre o que me parecem ser os motivos, pelo que não vale a pena estar a repeti-los. Compreendo que será difícil inverter a situação enquanto o calendário não afrouxar um pouco, mas a verdade é que, neste momento, a equipa não oferece grande confiança. Ainda assim, reconheça-se que se têm mantido na luta em todas as frentes.

Desperdícios de arrancar os cabelos - facto: considerando a diferença de qualidade teórica entre as duas equipas, produzimos futebol a menos e criámos oportunidades em quantidade demasiado escassa; outro facto: as poucas oportunidades que tivemos e falhámos foram ENORMES oportunidades: um penálti (Dost), de baliza aberta (Acuña), com o guarda-redes no chão (Bruno Fernandes) ou em que apenas era necessário escolher o lado para onde meter a bola nas redes (Acuña, Bryan 2x). Não sei se foi displicência, incompetência, nervosismo ou masoquismo. O que sei é que é inadmissível falhar tantos golos feitos.



Arsenal, Atlético Madrid, CSKA, Lazio, Leipzig, Marselha, Salzburgo são os papelinhos que nos poderão calhar no sorteio. Se o nosso Nhaga continuar a fazer o bom trabalho que tem feito nos nossos sorteios desta época, conseguirá afastar do nosso caminho os ingleses ou os espanhóis. Se o nosso Nhaga quiser caprichar, tira logo um Arsenal - Atlético Madrid para abrir o sorteio e deixa o nosso papelinho para último para podermos jogar em casa a segunda mão.

Daqui a três dias há mais, num espaço inferior às 72 horas regulamentares - por causa dos compromissos da seleção. Ou seja, mais um jogo que promete sofrimento. A verdade é que a equipa está nos cuidados paliativos há várias semanas, mas de uma forma ou outra, lá se tem conseguindo manter agarrada à vida. E enquanto há vida...

terça-feira, 13 de março de 2018

Meio a zero

O cenário, à partida, era negro: uma deslocação complicadíssima ao campo do 6º classificado que, na época passada, foi uma espécie de coveiro dos nossos objetivos, e onde não ganhávamos há 23 anos. Só por isso, seria um desafio exigente... mas a isso juntou-se o fator desgaste (em virtude de acontecer no meio de uma eliminatória europeia, sendo a 18º partida que o Sporting disputou no ano civil de 2018, no espaço de apenas 68 dias, e que incluiu uma longuíssima deslocação ao inferno gelado do Cazaquistão), e o facto de alinharmos apenas cinco dos habituais titulares (e com uma lesão logo a abrir). Ao fim de um quarto de hora, estávamos com um lateral adaptado (Battaglia), um lateral e um médio de transporte sem rotinas (Lumor e Misic), sem o motor da equipa (Bruno Fernandes), sem o flanco esquerdo habitual (Coentrão e Acuña), e com a 3ª ou 4ª opção para ponta-de-lança (Montero, atrás de Dost e Doumbia, e não sei se não estará também atrás de Rafael Leão).

À medida que o tempo ia correndo, não havia forma de o cenário se desanuviar. O Sporting fez uma primeira parte péssima, e ia a caminho de fazer uma segunda parte igual... até ter entrado Dost.




A entrada de Dost - a sua entrada transformou o jogo. A sua mera presença permitiu ao resto da equipa ter um ponto em que se focar, deixando de ter um jogo completamente inconsequente e passando a ter capacidade de construir ocasiões para marcar. Mas se a presença de Dost impõe respeito, por algum motivo será, e o holandês fez questão de o demonstrar. Não se fez rogado na área e manteve a sua média de 50% de finalização: teve quatro oportunidades razoáveis para marcar e aproveitou duas. Matador.

Battaglia decisivo - defensivamente competente, ofensivamente ineficaz, acabou por ser um lateral à imagem de Piccini (apesar de o italiano estar, naturalmente, alguns furos acima). Acabou por ser uma das figuras do jogo graças a duas intervenções decisivas: evitando um golo do Chaves sobre a linha, e, após roubar a bola a Platiny, assistindo Dost para o segundo golo.

Três pontos, apesar das adversidades - por tudo aquilo que referi no início, parece-me óbvio que ganhar nestas condições é sempre bom, nem que seja por meio a zero. De facto, face ao nível exibicional, soube precisamente a isso, a uma vitória por meio a zero. Sofrida, mas nem por isso menos saborosa.



Primeira parte para esquecer - foi do pior que vi o Sporting fazer esta época, provavelmente a par da primeira parte na Amoreira e da segunda parte na Luz, graças à total incapacidade de ligação entre setores quando tínhamos a posse de bola. Montero era incapaz de segurar uma bola, William e Misic não conseguiam transportar jogo e revelaram pouco acerto no passe, Ruiz passou completamente ao lado do jogo, e Rúben Ribeiro e Gelson estavam com o complicómetro ligado. Ao ver a completa ausência de fio de jogo, fiquei na dúvida se estes jogadores alguma vez na vida treinaram juntos. Foi demasiado mau.

Segunda parte a lembrar Setúbal - do ponto de vista exibicional, a segunda parte foi muito superior à primeira. Dost entrou, marcou... e a partir daí construímos várias ocasiões que fomos desperdiçando, umas a seguir às outras. Num jogo apertado, comecei a recordar-me demasiadas vezes do que se passou em Setúbal. Felizmente, Dost voltaria a faturar e deu-nos a folga necessária para trazer a vitória para casa. Não fosse essa folga, e provavelmente teríamos mesmo repetido Setúbal.



MVP: Bas Dost

Nota artística: 2

Arbitragem: boa decisão de Hugo Miguel e de Fábio Veríssimo ao validar o primeiro golo de Dost, pois Nuno André Coelho está a colocar o holandês em jogo no momento do cruzamento de Rúben Ribeiro. Decisão mais discutível no penálti assinalado a Coates: o uruguaio coloca, de facto, a mão sobre o ombro de Djavan, mas não vejo que o tenha puxado ou empurrado. Djavan sente o contacto e deixa-se cair. Um penálti que NUNCA seria assinalado contra Benfica ou Porto. Dúvidas ainda para uma queda de William na área do Chaves. Infelizmente, a Sport TV não mostrou nenhuma repetição nem durante a transmissão, nem depois no programa Juízo Final.



Mais uma exibição sofrível que redundou num bom resultado. Curiosamente, temos perdido pontos em jogos em que fizemos exibições interessantes. Com esta vitória, voltamos a ficar a apenas cinco pontos do Porto e a três pontos do Benfica. Estamos de volta à luta pelo título? Na minha opinião, não. Continuamos de fora dessa luta. Talvez se tenha entreaberto uma nesga de uma janela de oportunidade para podermos ainda sonhar com isso, mas, pensando de forma racional, parece-me muito improvável: estamos a jogar muito pouco, os jogadores indisponíveis são mais que muitos, continuamos com um calendário preenchidíssimo - em contraste com os rivais -, as arbitragens são o que são, e estamos com um atraso que, não sendo irrecuperável, será complicado de recuperar face a dois adversários diferentes. Ainda assim, a esperança é a última a morrer, e quando estamos estenuados, pode ser importante ter qualquer coisa para nos agarrarmos perante um cenário extremamente adverso.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O sucesso também se alcança através das quase-oportunidades

Após o empate do Porto na Vila das Aves e em véspera de um clássico Porto - Benfica, o jogo de ontem em Paços de Ferreira era um daqueles que o Sporting, simplesmente, não se podia dar ao luxo de não ganhar. O problema é que da necessidade à concretização vai alguma distância, sendo que, quando se joga na Mata Real, essa distância não costuma ser curta. O Paços não desiludiu e foi o adversário chato (no sentido de complicado) que costuma ser sempre que nos recebe, mas contra isso o Sporting soube mudar o chip da Liga dos Campeões e ser, desde o primeiro minuto, a equipa pragmática e concentrada que precisava de ser para sair de lá com os três pontos.




Vitória sem espinhas - o Sporting voltou para Lisboa com os três pontos porque fez em campo por merecê-los. O golo de Battaglia surge de uma jogada atabalhoada... mas totalmente legal, porque Bas Dost está atrás da linha da bola no momento em que o argentino faz o primeiro remate à baliza. Lamentável a postura dos comentadores de serviço da Sport TV ao dizerem de imediato que Dost estava adiantado - eles que, normalmente, costumam ser tão reticentes em apontar falhas da arbitragem -, quando as imagens, mesmo não sendo captadas do melhor ângulo possível, eram suficientemente esclarecedoras para comprovar a legalidade do lance. E depois, o golo de Gelson, a cruzamento de Fábio Coentrão é uma obra prima que acho que não terá o reconhecimento que merece. O trabalho a retirar o adversário do caminho antes do remate é absolutamente delicioso. Golos à parte, o Sporting também dispôs de bastantes mais oportunidades para marcar do que o Paços de Ferreira. A nota artística pode não ter sido muito elevada, mas a justiça da vitória do Sporting não pode ser beliscada de maneira alguma.

Savoir-faire na defesa, ou como o sucesso também se alcança através das quase-oportunidades - o normal, num jogo de futebol que oponha o Sporting a um adversário do nível do Paços de Ferreira no seu reduto, é que o Sporting tenha sempre mais oportunidades para marcar, independentemente de estar a atravessar uma época mais ou menos positiva. No entanto, em demasiadas ocasiões, o Sporting acabou por perder pontos graças a lances idênticos a vários que, por pouco, não aconteceram ontem. Vou tentar explicar-me melhor: o Paços teve três oportunidades para marcar em todo o jogo (uma das quais deu golo), mas teve umas três ou quatro quase-oportunidades que, noutros anos, teriam sido oportunidades de corpo inteiro e, com um elevado índice de probabilidade, poderiam mesmo parar apenas no interior da baliza de Rui Patrício. No entanto, ontem não passaram de quase-oportunidades porque temos uma linha defensiva extremamente competente a limpar vários tipos de lances complicados: é ver como Piccini e Coentrão fecham ao centro quando os cruzamentos/passes são feitos para o segundo poste, e como Mathieu (ontem Coates esteve abaixo do que é habitual) se transforma num muro quando um adversário entra na área com a bola controlada. Ações destas acabam por passar mais despercebidas do que os golos marcados, mas também têm valido muitos pontos esta época. São coisas que não costumam entrar nas estatísticas, mas que ontem, seguramente, nos garantiram a vitória.

Regressos - Acuña regressou à titularidade e fez um jogo regular, acabando por ser substituído perto da hora de jogo - suponho que a alteração já estaria planeada à partida, para não sobrecarregar o atleta. Bryan Ruiz também regressou, aumentando o lote de opções - e como o Sporting tanto precisava... - no banco. Não sei se este seria o momento mais adequado para o lançar: colocar um jogador que já não competia há 6 meses num jogo destes, com o resultado em aberto (o resultado estava ainda em 1-0), pode ter implicado alguns riscos que, felizmente, não se concretizaram.



O golo sofrido da praxe - no último mês e meio, o Sporting disputou 9 jogos. Em 6 jogos desses, sofreu pelo menos um golo nos últimos 5 minutos da partida. Uma estatística estranha de uma defesa que já demonstrou ser muito segura, mas que há-de ter alguma explicação lógica. Descompressão prematura? Desgaste físico? Azar? All of the above? Já vai sendo tempo de descobrir o motivo.



A jornada era complicada mas acabou por ser extremamente positiva: recuperámos 2 pontos em relação à liderança, com uma forte possibilidade de voltar a ganhar pontos a pelo menos um dos adversários diretos na próxima jornada. Mas primeiro há que não facilitar contra o Belenenses.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Um pequeno-grande passo

Longe vão os tempos em que ficava com um nervosismo quase incontrolável nas horas que antecediam jogos da Liga dos Campeões contra grandes clubes europeus. A conjugação das pesadas derrotas com o Bayern naqueles fatídicos oitavos-de-final e da prolongada ausência do Sporting da competição nos anos que se seguiram, ajudaram a cultivar um trauma profundo na psique coletiva sportinguista que marcava invariavelmente presença - e em força - neste tipo de jogos. Gradualmente, com a capacidade demonstrada pelo Sporting para defrontar os maiores emblemas europeus de olhos nos olhos nas últimas participações do Sporting na Liga dos Campeões, esse nervosismo pré-jogo foi baixando para níveis normais. Faltava, no entanto, materializar a qualidade exibicional e a atitude competitiva em algo mais que derrotas tangenciais.

Ontem foi o dia. Não vencemos, é certo, mas não há nada a apontar à exibição da equipa. Numa partida globalmente equilibrada e em que não abundaram oportunidades de golo em ambas as balizas, os jogadores do Sporting revelaram ambição e disposição para deixarem tudo em campo. Arrancaram para uma exibição de grande categoria na primeira parte, que valeu uma vantagem merecida no marcador. Na segunda a história foi diferente: a Juventus puxou dos galões de vice-campeã europeia e foi atrás do empate, mas a equipa demonstrou que, apesar das várias ausências por lesão, também sabe sofrer e manter-se coesa sob pressão.





Há empates que podem ser moralizadores, e este é um deles - qualquer análise que se faça ao jogo convém incluir o seguinte facto: o Sporting, sem três quartos da defesa habitualmente titular e sem o seu trinco titular, disputou até final a vitória contra o vice-campeão europeu, que se apresentou em Alvalade na máxima força. E, ao contrário do que tem acontecido nos confrontos com os tubarões europeus nas últimas duas épocas, desta vez... não perdemos. Pode não parecer muito, mas na realidade é um pequeno-grande passo que há muito merecíamos, e que acaba por ser uma consequência da crescente experiência e maturidade que a equipa foi conquistando no confronto com este tipo de adversários.

As segundas linhas a chegarem-se à frente - felizmente, os (legítimos) receios que os sportinguistas tinham à partida para este jogo - devido às ausências de peso anunciadas - revelaram-se infundados: todos os jogadores que entraram no onze, sem exceção, estiveram à altura das exigências. Começo por destacar a grande exibição de Ristovski que, defensivamente, realizou uma partida exemplar e fez esquecer Piccini. Ofensivamente, não foi o jogo mais propício para mostrar o que sabe fazer, mas não foi por falta de tentativa - na primeira parte pediu várias vezes a bola aos colegas, e nas poucas vezes em que esta lhe chegou aos pés, mostrou sempre ter (bom) critério na decisão e execução. Jonathan Silva não comprometeu - o que é uma evolução assinalável em relação às prestações mais recentes -, e saiu-se bem nas difíceis situações de 1x1 face a Cuadrado. André Pinto limpou quase tudo na sua área de ação. No único lance em que foi batido por Higuain, a Juventus marcou, mas era uma jogada muito difícil de anular. Bruno César esteve muito bem enquanto teve pilhas, mas infelizmente esgotaram-se cedo - a partir dos 30 minutos eram visíveis as dificuldades do brasileiro em se reposicionar defensivamente quando perdíamos a bola. Palhinha entrou para o seu lugar e fez aquilo que lhe foi pedido. Sinal de que o plantel do Sporting é mais profundo do que aquilo que se pensaria? É possível que sim, mas há que dar continuidade à sua utilização, através de uma rotação mais criteriosa que lhes dê condições para renderem e não se sentirem elementos estranhos em relação ao resto da equipa.

Os suspeitos do costume - voltámos a ter alguns vislumbres do grande Gelson, o extremo que, para além de ser incansável a ajudar defensivamente o seu lateral, tem capacidade para desequilibrar na frente. O slalom no lance do golo é uma delícia. Battaglia voltou a conseguir anular Dybala, enquanto Bruno Fernandes e Acuña voltaram a aliar uma enorme capacidade de trabalho à arte de construir jogo. Rui Patrício foi mais uma vez decisivo ao evitar um golo certo de Higuain.



Mais uma vez, não se segurou a vantagem até ao fim - tal como em Turim, o Sporting conseguiu estar em vantagem no marcador, mas não a conseguiu manter até final. No caso do jogo de ontem, o golo sofrido acaba por complicar bastante as contas para a qualificação para a fase seguinte da Liga dos Campeões. Não que isso fosse uma obrigação, mas o facto de termos estado tão perto de conseguir a vantagem no confronto direto com a Juventus acaba por deixar um travo amargo num resultado que não pode deixar de ser considerado positivo.

Quebra física - Ristovski, Bruno César foram os primeiros a quebrar, o que acaba por ser natural, se considerarmos a escassa utilização que têm tido. Gelson Martins e Bas Dost acabaram o jogo de rastos. Acuña e Bruno Fernandes, em função do tipo de tarefas que lhes foi exigido e do tempo de competição acumulado nas pernas, também devem ter terminado em dificuldades. Se a Juventus tivesse mantido o ritmo após ter marcado, creio que teríamos passado uns minutos finais muito complicados.



Foi uma noite gira, com um excelente ambiente no estádio, e não farão mal nenhum ao clube os €500.000 que o empate valeu. Mas o mais importante, para mim, foi a transposição daquela barreira psicológica da derrota tangencial contra os tubarões europeus, e também a resposta dada pelos jogadores que habitualmente não são titulares. Há motivos para sentir satisfação com a exibição e o resultado de ontem, mas agora há que recuperar fisicamente e capitalizar o que de bom aconteceu para aquilo que verdadeiramente interessa: a receção ao Braga para o campeonato.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Groundhog Day

Mais um jogo contra um tubarão europeu, mais uma exibição personalizada... e mais uma derrota tangencial. Como qualquer filme com demasiadas reposições, até podemos achar algum interesse no enredo, mas às tantas começamos a ficar fartos de ver a mesma história vezes sem conta. Real Madrid por duas vezes, Dortmund por duas vezes, Barcelona, e agora Juventus: seis jogos contra tubarões, sexta derrota por um golo de diferença.





De olhos nos olhos contra o vice-campeão europeu - qualquer análise que se faça ao jogo não pode ignorar o facto de a Juventus ser o atual vice-campeão europeu e o plantel riquíssimo de que dispõe. A meio da segunda parte, descontente com o decurso do jogo, Allegri mete em campo Douglas Costa e Matuidi, o que é um bom indicador da diferença de recursos existente entre as duas equipas. Não se pode apontar nada à estratégia montada por Jesus, que teve a virtude de anular muitos dos pontos fortes de um adversário de top mundial. Infelizmente, voltou a faltar um bocadinho assim, à Danoninho, mas seria injusto ignorar tudo o que foi bem feito.

Bruno Fernandes - a estratégia montada por Jesus tem o problema de exigir muito dos jogadores de características ofensivas: Acuña, Gelson e Bruno Fernandes têm um papel importantíssimo no apoio defensivo, os laterais pouco sobem, o que significava que, no momento de construção, os portadores da bola tivessem sempre poucas opções para desenvolver lances ofensivos. Para piorar, ainda não foi desta que Acuña, Gelson e Dost subiram de rendimento em relação ao que tem sido norma nos últimos jogos. No meio de todos estes constrangimentos, Bruno Fernandes foi o único que foi conseguindo inventar alguma coisa com a bola nos pés. Bom jogo.

Concentração da linha defensiva - Piccini, Coates, Mathieu e Coentrão tiveram muito trabalho e, tirando um outro lapso, foram resolvendo bem todos os problemas colocados pela Juventus. De referir também que Patrício defendeu tudo o que tinha defesa, e que Battaglia fez um grande trabalho a secar Dybala.



Groundhog Day - esta mania recorrente de perder jogos contra os todo-poderosos do futebol europeu faz lembrar a maldição de Bill Murray no filme mencionado no início deste parágrafo. Cada vez que acordava, Murray era obrigado a reviver o mesmo dia - e foi assim que me senti no momento em que o Sporting sofreu no 2º golo. Sim, compreendo a dificuldade que adversários deste nível representam, compreendo que há mérito na forma como temos discutido os jogos... mas começa a cansar sair sempre derrotado. Analisando cada partida isoladamente, não podemos apontar grandes críticas à equipa, mas, olhando para o conjunto, é cada vez mais complicado ver um lado positivo em exibições que redundam constantemente em derrotas tangenciais.

Um problema nada lateral - durante o jogo, foram vários os cruzamentos da Juventus atirados para o segundo poste. Piccini e Coentrão, com maior ou menor dificuldade, foram resolvendo. Cedendo canto, ganhando a posição e deixando a bola seguir na direção da bandeirola de canto ou da linha de fundo, ou aliviando para fora da área. Saiu Coentrão, entrou Jonathan... e sofremos o segundo golo com um cruzamento para o segundo poste. O segundo golo sofrido na Grécia também foi sofrido com um cruzamento para o segundo poste, com o mesmo Jonathan. Mandzukic é mais alto? É. Mas bastaria a Jonathan antecipar o que iria acontecer e preparar-se para saltar na direção da bola em vez de ficar a aguardar com as pernas rígidas e os pés pregados ao chão - ou seja, aquilo que Piccini e Coentrão já mostraram saber fazer quando confrontados com situações de jogo idênticas. O rapaz faz o melhor que sabe, mas está mais que visto que aquilo que sabe não é suficiente para este nível.

Pormenores que custam pontos - seria injusto, no entanto, não referir a falta desnecessária de Battaglia que originou o livre que Pjanic converteria no primeiro golo italiano. O argentino fez um bom jogo, mas a equipa pagou caro por esta má abordagem.

As substituições - compreendo o que Jesus quis fazer, mas, infelizmente, a substituição de Gelson por Palhinha não surtiu o efeito que o treinador pretendia. A altura do jogo em que Jesus decide mudar a equipa coincide com a fase da partida em que se estava a conseguir manter a bola no meio-campo italiano como nunca tinha acontecido até então. Gelson estava a jogar mal, sem conseguir criar desequilíbrios, mas pelo menos estava a conseguir segurar a bola e fazê-la circular sob pressão - coisa que se perdeu após a sua saída. A Juventus voltou a empurrar o Sporting para junto da sua baliza, e o resto é história. Quanto à troca de Coentrão por Jonathan, conhecemos as limitações físicas do primeiro e as limitações técnico-táticas do segundo. Vamos ter de viver com isto até ao final da época, resta saber quantos pontos nos custará até lá.



Já passámos a fase das vitórias morais por dar luta a equipas deste nível, e está mais que na altura de dar o passo seguinte. De qualquer forma, é apenas a Champions. Muito mais importante é saber mudar o chip para o nosso campeonato, onde não há qualquer margem ou tolerância para perder pontos.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Um plano quase perfeito

Uma derrota é sempre uma derrota, mas não é possível ficar-se de alguma forma ressentido com a exibição que o Sporting fez ontem perante uma equipa como o Barcelona, que veio a Lisboa trajada com o seu melhor fato - ou, como é mais habitual dizer-se em futebol, que meteu a carne toda no assador em Alvalade. 

Pode-se dizer também que houve o mérito de se ter conseguido, durante 90 minutos, fazer parecer humano o extra-terrestre Messi, graças a um plano defensivo pensado ao pormenor e brilhantemente executado durante praticamente todo o jogo por toda a equipa, acabando essa estratégia por ser traída por um momento de infelicidade. Obviamente que essa obsessão por anular os (muitos) pontos fortes do Barcelona acabou por ter custos no momento de procurar o golo. O desgaste e a preocupação constante em construir uma teia densa à volta da bola - e ninguém consegue fazer circular melhor a bola do que o nosso adversário de ontem - acabou por tirar muito do foco que seria necessário para desmontar a defesa do Barcelona, para além do desgaste acumulado que isso inevitavelmente acaba por provocar.




A estratégia defensiva - o Sporting não é, tradicionalmente, uma equipa com grande capacidade de jogar em linhas baixas e na expectativa daquilo que o adversário possa fazer, mas ontem não há nada a apontar ao comportamento defensivo. Basta dizer que o Barcelona marcou o único golo da partida através de um autogolo a partir de uma bola parada, e que, para além disso, só teve uma verdadeira oportunidade de golo, através de Paulinho, após um erro individual de Coates, defendido brilhantemente por Rui Patrício. O mérito é essencialmente coletivo: Battaglia estava encarregado de vigiar Messi, William jogou a maior parte do tempo à sua frente por estar mais preocupado com as movimentações de Rakitic, mas deve-se destacar a entreajuda que houve em todos os momentos por parte do resto da equipa, que foi sempre capaz de compensar os desposicionamentos temporários dos companheiros.

Battaglia - cabia-lhe a missão mais complicada e cumpriu-a com grande eficácia. Soube medir bem a carga física colocada no controlo do adversário e nas tentativas de recuperação de bola e, curiosamente, acabou por ser um dos poucos jogadores a não ser amarelado - o que é uma proeza se considerarmos a atuação do árbitro. Nos poucos momentos em que teve liberdade para entrar no meio-campo do Barcelona... conseguiu desequilibrar. Foi do argentino a recuperação de bola que deu a Dost e Bruno Fernandes a melhor oportunidade que o Sporting teve em todo o jogo.

Mathieu - jogo imperial do francês. Foi uma espécie de backup de Battaglia na marcação a Messi. Quando o astro argentino conseguia libertar-se com a bola da teia montada pelo meio-campo, Mathieu caía imediatamente em cima dele. Em tudo o resto esteve perfeito, quer no controlo defensivo do seu espaço, quer na saída com bola.

O ambiente em Alvalade - absolutamente esmagador, do princípio ao fim. É uma pena que não seja sempre assim, tenho a certeza de que valeria vários pontos no campeonato. Dá para pedir um encore no próximo domingo?



O culé vestido de azul que veio da Roménia - o melhor elogio que se pode fazer ao árbitro é que foi melhor que Messi. Perfeito no condicionamento dos jogadores do Sporting, distribuindo amarelos desde muito cedo e ignorando faltas semelhantes cometidas pelos catalães, excelente na forma como apitava preventivamente quando cheirava a oportunidade para o Sporting. E não assinalou um penálti sobre Dost quando foi agarrado na área. Artista completo, quer na defesa quer no ataque.

Falta de foco no ataque - o efeito secundário da grande preocupação defensiva acabou por prejudicar a disponibilidade psicológica para chegar à baliza adversária. Juntando-se a isso o momento menos bom de Gelson (raramente conseguiu passar por Alba), a falta de confiança de Dost (que, bem posicionado na única oportunidade que teve, devia ter rematado em vez de meter para Bruno Fernandes) e um árbitro sempre pronto a interromper os nossos lances, e fica explicado por que razão não conseguimos criar mais situações de perigo.



Não há derrotas boas, mas há coisas boas que se podem extrair de exibições que acabam em derrotas. O jogo de ontem é um desses casos, e a equipa demonstrou que há motivos para acreditar nela. Agora é recuperar fisicamente porque domingo há um jogo ainda mais importante para ganhar.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Não era dia para tragédias gregas

Num jogo que teve duas partes completamente distintas, com um nível exibicional que começou num registo sublime e terminou de forma displicente e quase descontrolada, é normal que surjam sentimentos contraditórios em relação a como devemos encarar uma vitória tangencial frente ao Olympiacos. Para mim, este é um caso em que a parte boa da exibição (e que boa que foi!, e que durou praticamente todo o jogo) pode e deve ser elogiada bem para além das críticas que possam ser feitas ao que aconteceu nos minutos finais. Assustámo-nos todos, muitos de nós certamente praguejaram ferozmente quando os gregos marcaram o segundo golo - God knows I was one of them - mas, analisando a frio, a vitória do Sporting nunca esteve em causa. Acredito que, noutros tempos, poderia ter ocorrido uma singularidade cósmica que levasse a que o jogo acabasse empatado, mas o Sporting desta época já desafiou, por diversas vezes - e sempre com sucesso! -, aquela fatalidade que é tão própria do clube. Convém não abusar da sorte, claro, mas para já merece ir sendo desfrutado.




Primeira parte avassaladora - os primeiros 45 minutos estiveram, seguramente, ao nível do melhor que já vi o Sporting fazer nas competições europeias. Não poderíamos desejar melhor começo: aos dois minutos, Acuña faz um cruzamento açucarado para Doumbia - os mesmos dois jogadores já tinham desenhado o primeiro golo em Bucareste -, e estava lançado o mote para o que seria o jogo até ao intervalo. Para além dos golos de Gelson e Bruno Fernandes, o Sporting dispôs de mais quatro ocasiões flagrantíssimas para marcar: bolas ao ferro dos mesmos Gelson e Bruno Fernandes e duas oportunidades negadas a Doumbia e Coates por Kapino. Um festival de bem defender e bem contra-atacar que poderia (e merecia) ter gerado números históricos ao intervalo.

Excelente começo de Champions - para além dos 3 pontos e do milhão e meio de euros que caem na conta (o que eleva para 16,2 milhões + bilheteira com o Steaua os ganhos na competição, que antecipa um recorde no Sporting), o Sporting conseguiu colocar-se em excelente posição para garantir o terceiro lugar do grupo e poder continuar na Liga Europa na segunda metade da época. Mas essa não deve ser a bitola por onde alinhar: o terceiro lugar pode ser o lugar natural no final da fase de grupos, mas há condições para ambicionar surpreender Barcelona e Juventus nas partidas que se seguem. Estes três pontos poderão dar alguma tranquilidade extra, que será bastante necessária contra adversários que estão, obviamente, noutro patamar. 

Ameaças múltiplas - longe parecem ir os tempos em que Dost era o único abono de família da equipa. Doumbia foi titular pela segunda vez, e pela segunda vez correspondeu com o sempre importante golo inaugural da partida - e ainda fez a assistência para Gelson. Bruno Fernandes voltou a fazer o gosto ao pé, e já leva cinco golos marcados, os mesmos que Dost e Gelson. Acuña tem sido o municiador de serviço, contando já com cinco assistências. Falamos de cinco jogadores que têm colocado com enorme frequência (em função da sua utilização) a sua marca nos jogos em que participam. Junte-se a isto a possibilidade que, agora, Jesus tem para abordar os jogos em função das características dos adversários: Doumbia é alternativa para jogos com mais espaço nas costas da defesa adversária, enquanto Gelson e Acuña parecem cada vez mais confortáveis a jogar no flanco oposto. E a versatilidade e imprevisibilidade de Bruno Fernandes é uma adição de que o Sporting muito precisava. Tudo somado, o Sporting fica uma equipa bem mais difícil de ser contrariada. Esperemos que a equipa continue a evoluir como até aqui.

Seria injusto não referir - excelentes exibições de William (que supostamente devia estar desmotivado e cabisbaixo) e Battaglia. E a assistência de Coates para o golo de Bruno Fernandes? Minha nossa...



Novamente, dificuldades em gerir um resultado tranquilo - o Sporting jogou praticamente toda a segunda parte sem grandes pressas, dando poucos espaços no seu meio-campo e parecendo - compreensivelmente - pouco interessado em esticar o jogo. Parecia estar a gerir o resultado de forma bastante competente e tranquila... até que começaram a aparecer os erros individuais não forçados que podiam ter deitado tudo a perder. É certo que, nesse mesmo período, Dost ainda atirou a terceira bola ao ferro e Bruno César teve um golo incompreensivelmente anulado, mas... não devíamos ter sofrido tanto. O mais preocupante é que não é a primeira nem a segunda vez em que o Sporting quase desperdiça vantagens confortáveis: é o terceiro jogo consecutivo em que acabamos de credo na boca após termos estado a vencer por dois ou mais golos. Não se pode atribuir ao acaso e às incidências de jogo algo que se tem repetido com tanta frequência. Cansaço físico? Falta de concentração? Seja o que for, é um problema que tem de ser tratado urgentemente.



Vitória importantíssima que pode ajudar a lançar uma participação interessante nesta edição da Liga dos Campeões, mas que ainda não garantiu nada. Apesar do susto final, pela qualidade demonstrada durante a maior parte do tempo, devemos desfrutar desta vitória e não desatar a anunciar um apocalipse iminente. No entanto, alerta máximo para a receção ao Tondela, uma equipa a quem nunca ganhámos em Alvalade.

sábado, 9 de setembro de 2017

Viciados no sofrimento

Começa a ser um hábito nos jogos desta Liga: em cinco jornadas, foi a terceira ocasião em que os adeptos sportinguistas correram sérios riscos de falecerem de paragens cardiovasculares graças às incidências dos últimos minutos. "Nada de inédito", poderão dizer - e com razão -, pois já aconteceu no passado o Sporting disputou, num curto espaço de tempo, várias partidas a serem decididas nos últimos minutos. A grande novidade é que, nestas três ocasiões, a estrelinha acabou por cair sempre para o lado do Sporting. 

Sim, são imensamente saborosas estas vitórias - a intensidade com que se passa do sofrimento para a euforia numa fração de segundo -, mas é uma experiência que convém não repetir demasiadas vezes, porque há-de chegar o dia em que a coisa não correrá tão bem.

Foto: Catarina Morais / Kapta +



Vitória arrancada a ferros numa deslocação muito complicada - ganhar assim sabe sempre bem, independentemente do local ou adversário, mas há que sublinhar a dificuldade desta deslocação: nenhum dos nossos rivais passará com facilidade em Vila da Feira, onde os espera um terreno de jogo estreito e com um relvado em más condições - nem imagino como será no inverno -, e um adversário que sabe ocupar bem os espaços e disputa todas as bolas com muita agressividade. Um desfecho importantíssimo, não só pelo facto de permitir que o Sporting continue a sua caminhada 100% vitoriosa, mas também porque poderia ser complicado gerir psicologicamente um empate consentido após estarmos a vencer por 2-0.

Foto: Catarina Morais / Kapta +
A segunda parte - o Sporting chegou ao intervalo sem ter conseguido criar uma única ocasião de golo e com alguma felicidade por não estar a perder, mas o rendimento na segunda parte foi incomparavelmente superior. A equipa entrou forte e não tardou a criar oportunidades de perigo, dominando o adversário e encostando-o à sua área, acabando por marcar numa altura em que já se adivinhava que era apenas uma questão de tempo até às redes balouçarem. Infelizmente, à semelhança do que aconteceu com o Estoril, permitimos que o adversário renascesse numa altura em que tínhamos o jogo na mão - uma bola parada e um contra-ataque após perda infantil de bola de Jonathan no nosso meio-campo foram suficientes para anular uma vantagem confortável. O jogo acabaria por se decidir num último minuto de descontos absolutamente louco: começou com um contra-ataque perigoso do Feirense resolvido por Iuri Medeiros, Rui Patrício sai da área junto à linha de fundo para evitar canto e passa a bola a William que, sem perder tempo, mete a bola na entrada da área onde Dost amorteceu para a entrada de Coates... e penálti. Dost, com enorme frieza, apontou-o e garantiu os três pontos para o Sporting. Uma grande segunda parte que ambas as equipas proporcionaram, em que é justo salientar o devido mérito do Feirense na forma como reentrou no jogo e pela coragem em tentar ainda chegar à vitória.

Destaques individuais - não houve nenhuma exibição de encher o olho, mas alguns jogadores merecem destaque: Coates, o melhor da linha defensiva - Mathieu e Jonathan cometeram erros graves -, marcou o primeiro golo e sofreu o penálti no terceiro; Bruno Fernandes, em dia de aniversário, assinou mais um bonito golo, marcou o canto do primeiro golo, e dispôs de duas das oportunidades mais perigosas do Sporting; William fez um bom jogo no regresso à titularidade; Battaglia desenrascou muito bem o lugar de defesa direito.



Incapacidade em segurar vantagens - Steaua, Estoril e, agora, Feirense: três ocasiões em que o Sporting, estando em vantagem no marcador, não teve capacidade para a gerir. Na Roménia, assim que a equipa congelou o ritmo de jogo, sofreu o golo do empate. Contra o Estoril, depois de uma entrada fortíssima acabámos o jogo em angústia. E ontem, com dois golos de rajada, seria de esperar que o Sporting tivesse resolvido o jogo... mas acabaria por sofrer apenas cinco minutos depois. Será que é apenas fruto do acaso - incidências de jogo impossíveis de controlar - ou é algo que não está a ser devidamente trabalhado? Considerando a quantidade de vezes que perdemos o controlo de jogos que pareciam estar no bolso, estou mais inclinado para a segunda hipótese.

A primeira parte - o Sporting revelou grandes dificuldades para chegar à baliza de Caio durante os primeiros 45 minutos. A lesão de Piccini certamente que complicou as coisas, pois o meio-campo sofreu uma revolução com a substituição: Battaglia foi para lateral direito, Bruno Fernandes baixou para 8, e Alan Ruiz, que entrou para o lugar do italiano, esteve em final de tarde pouco inspirado. Ainda assim, não justifica tão fraca produção na primeira parte. Para ser pior, só faltou ao Feirense aproveitar a ocasião que Mathieu lhes ofereceu de mão beijada. 



MVP: Sebastian Coates

Nota artística (1 a 5): 3

Arbitragem: Artur Soares Dias esteve bem ao assinalar penálti sobre Coates e no tempo de descontos concedido. Não teve, no entanto, um critério disciplinar uniforme, tendo ficado vários amarelos para mostrar a jogadores de ambas as equipas. Logo no princípio do jogo, num lance de bola parada junto à área do Feirense, assinalou uma falta ofensiva de William... mas na repetição deu-me a sensação de que William é que estava a ser agarrado insistentemente pelo adversário, pelo que me parece que ficou penálti por assinalar. 



Vitória fundamental, não tanto pelos pontos em si - ainda há muito campeonato pela frente -, mas mais pelo impacto psicológico negativo que poderia ter o desperdício de uma vantagem de dois golos a anteceder a estreia na Liga dos Campeões. 

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ataque VARdíaco

Aquilo que, ao fim de 11 minutos, parecia que ir ser um jogo sem história, acabou por se transformar, de certa forma, num dos mais fascinantes jogos da era VAR. O argumento usado pelos opositores à implementação do videoárbitro em como iria tirar emoção ao futebol acabou de cair por terra com estrondo: querem maior montanha russa de emoções do que aquele que se viveu no final de tarde de ontem em Alvalade? 

Tudo isto por causa dos dois golos anulados perto do fim da partida: no espaço de poucos minutos, o sportinguista passou da angústia para a euforia, da euforia de novo para angústia, depois para o desespero e, finalmente, quando tudo parecia perdido, para a alegria final. Ah, e a isto junta-se um pequeno pormenor: a verdade desportiva foi assegurada e venceu quem tinha que vencer.





Entrada atordoante - na etapa final de uma desgastante sequência de cinco jogos, o Sporting entrou em campo com a sábia intenção de resolver o jogo tão cedo quanto possível. Não podia ter passado das ideias aos atos de melhor forma: primeiro, com um cruzamento de Acuña a atravessar a área e a encontrar Gelson, que não perdoou frente a Moreira; depois, através de mais um missil teleguiado de Bruno Fernandes, de livre direto. Deveria ter sido uma entrada a matar, mas, por culpa própria, foi apenas uma entrada a atordoar: a (má) gestão de jogo feita posteriormente permitiu ao Estoril ter oportunidade para se reerguer e disputar uma partida que deveria estar mais que fechada.

O golo de Bruno Fernandes - palavras para quê, quando o podemos rever as vezes que quisermos?


Ataque VARdíaco - os últimos minutos da partida não podiam ter sido mais intensos e testaram ao limite a saúde cardiovascular de quem assistia ao jogo. Aos 92', numa altura em que o Estoril procurava o golo do empate, Piccini encontrou a linha de fundo e centrou para Dost, que colocou a bola na baliza. Alvalade explode num misto de alegria e alívio, mas prematuramente: Piccini estava fora-de-jogo e o VAR deu indicações para se anular o golo. Regressam os nervos ao estádio e à equipa. O relógio vai passando, mas demasiado devagar, e apenas dois minutos mais tarde, a 22 segundos do fim dos 4 minutos de descontos dados por Luís Godinho, o Estoril volta a meter a bola na baliza de Rui Patrício, perante a incrudelidade dos mais de 45 mil sportinguistas presentes. Um filme que, infelizmente, já foi muitas vezes visto, mas que desta vez, no entanto, não acabou em tragédia: Pedro Monteiro estava em posição irregular e Alvalade festeja a decisão do VAR e, pouco depois, a conquista dos três pontos. Sabendo como as coisas têm tendência a funcionar, fossem outros os tempos, é bem possível que os sportinguistas saíssem do estádio a lamentar-se de dois pontos perdidos.

A demonstração de liderança de Mathieu - já tinha acontecido contra o V. Setúbal, e voltou a acontecer ontem: numa altura em que a equipa parecia adormecida e se começava a pôr a jeito para a desgraça, Mathieu decidiu dar o exemplo, fazendo questão de levar a bola para a frente. Uma atitude taticamente pouco prudente, mas que era necessária. Uma demonstração de liderança que foi o ponto alto de mais uma exibição sólida do francês.

A exibição de Battaglia - o todo-o-terreno do meio-campo do Sporting voltou a marcar pontos, com mais uma bela partida. Não tanto por aquilo que deu à equipa quando o adversário tentou atacar - e onde se tem destacado no início de época -, mas sobretudo pelo aumento de confiança demonstrado quando está em tarefas de construção: está cada vez mais à vontade na criação de desequilíbrios com passes verticais - em oposição à sua imagem de marca, que é avançar no terreno com a bola nos pés. Tem é que refrear a forma demasiado intensa com que às vezes disputa so lances. Com a entrada de Petrovic subiu um pouco no terreno e começou a aparecer mais vezes junto à área - que também é aquilo que se pede de um 8. Não teve momentos tão geniais como Acuña, Gelson ou Bruno Fernandes, mas no conjunto dos 90 minutos foi o mais consistente da equipa. Para mim, o melhor em campo.



A equipa a pôr-se a jeito - notou-se perfeitamente que os minutos finais foram um suplício para muitos jogadores. Acuña, Bruno Fernandes e Gelson estavam esgotados, Coentrão já tinha sido substituído, e havia muito pouco esclarecimento por parte da equipa em geral. Compreensível, considerando o desgastante ciclo que a equipa teve que suportar, mas dispensável, porque o Sporting entrou em gestão de resultado demasiado cedo e abdicou de matar em definitivo o jogo quando o adversário estava nas cordas. 2-0 é um resultado aparentemente seguro, mas que está à distância de apenas uma falha individual ou um momento de inspiração alheia para se tornar perigosíssimo. E foi isso que aconteceu: o Sporting controlou bem o Estoril... até ao momento em que Lucas Evangelista disparou um tiro indefensável do meio da rua. De um momento para o outro, o jogo mudou... e por pouco não acabou da pior forma possível. Há que dizer, também, que Jesus mexeu mal na equipa: Bruno César e Petrovic não acrescentaram grande coisa - a não ser pernas frescas - e não se compreende que tenha guardado a 3ª substituição para os descontos.




MVP: Rodrigo Battaglia



Nota artística (1 a 5): 2


Arbitragem: Bom trabalho da equipa de Luís Godinho (considerando que o VAR faz parte da sua equipa e está lá para corrigir alguns dos erros que acontecem). Coerente no critério disciplinar, quer nos cartões que mostrou, quer nos cartões que não mostrou numa fase inicial. Dúvidas apenas num possível penálti sobre Dost.



Final feliz para um ciclo intenso e em que muito estava em jogo: qualificação para a Liga dos Campeões, quatro vitórias nas quatro primeiras jornadas, com 10 golos marcados e 1 sofrido. Ao contrário das últimas épocas, a equipa não se ressentiu demasiado dos compromissos europeus - quantas vezes concedemos pontos nas jornadas que antecediam ou se sucediam às competições da UEFA? Bom começo de época, e vê-se potencial neste conjunto de jogadores para, gradualmente, as coisas irem melhorando ainda mais.