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quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Barriga de aluguer?

O Wolverhampton anunciou durante a tarde de ontem a contratação de um jovem extremo de 18 anos chamado David Wang, proveniente da equipa B do Jumilla. O Jumilla é um clube da esfera Mendes com proprietários chineses cuja equipa principal alinha na terceira divisão espanhola, e que tem um acordo com o Wolves para receber atletas jovens. O insólito é que, ao fazer esse anúncio, o Wolves revelou também que o jogador irá passar o resto da época no Sporting. O Sporting entretanto anunciou que  Wang será integrado de imediato na equipa sub-23.

Salta à vista neste empréstimo a ausência de uma opção de compra que permita ao Sporting ficar com o jogador no final da temporada. Se assim for, estaremos perante mais uma operação a envolver Jorge Mendes que parece não trazer qualquer benefício relevante para o Sporting - o que não é grande novidade considerando o histórico que o clube tem com o empresário. 

Não faço ideia se o jogador tem muito ou pouco potencial. O que me parece é que, partindo do pressuposto de que não existe opção de compra neste negócio, não faz sentido o Sporting estar a usar as suas equipas de formação e desenvolvimento de jogadores para formar e desenvolver um jogador pertencente a outro clube. Havendo espaço para um extremo na equipa de sub-23 com o empréstimo de Elves Baldé ao Paços Ferreira, não faria mais sentido promover um extremo dos sub-19? Ou não havendo ninguém no sub-19 preparado para dar esse salto, por que não fazer uso do scouting e investir na contratação de um jovem pouco dispendioso que seja visto como tendo uma grande margem de progressão?

Começa a ser normal, nos tempos que correm, ver clubes da dimensão do Jumilla a servirem de barriga de aluguer para um clube recém-endinheirado como o Wolves. Obviamente que tal nunca se poderá aplicar a um clube com a tradição formadora do Sporting, pelo que não faz sentido estar-se já a vacitinar que isto é um sinal de que o Sporting estará predisposto a assumir esse tipo de papel ou a lançar-se para os braços de Mendes. O famoso carrossel implica muito mais do que isto, e convém relembrar que esta direção acabou de despedir um treinador de Mendes para contratar um treinador que nada tem a ver com Mendes. De qualquer forma, é uma fórmula comprovadamente nociva que importa evitar, pelo que seria bom que os responsáveis por este empréstimo explicassem os seus contornos aos sócios e aquilo que os levou a tomarem esta decisão.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

As voltinhas do leão no carrossel do Mendes

Ponto de situação das transferências do Sporting desde que a Comissão de Gestão tomou posse:

TREINADOR

Peseiro: tem Mendes como empresário (confirmado por Sousa Cintra - LINK).


ENTRADAS

Nani: contratado a custo zero ao Valência, um clube Mendes.

Renan: emprestado pela Traffic via Estoril.


SAÍDAS

Rui Patrício: saiu em litígio para o Wolverhampton, um clube Mendes, num negócio intermediado por Mendes.

Podence: saiu em litígio para um clube detido pelo novo dono do Nottingham Forest, um dos novos clubes Mendes; o agente do jogador é Jorge Mendes.

William: vendido por um valor modesto (que poderá ser interessante caso os objetivos forem cumpridos) ao Bétis com o acordo do Sporting; o Bétis não é um clube conhecido por ser da esfera da Gestifute mas, curiosamente, contratou passados poucos dias o jogador Sidnei - um dos jogadores com maior rotatividade no carrossel Mendes.

Gelson: saiu em litígio com o Sporting para o Atlético Madrid, um clube Mendes

Piccini: vendido por um valor modesto para o Valência, um clube Mendes.

Geraldes: emprestado ao Eintracht Frankfurt; quis sair por sentir que iria ser pouco utilizado.

Palhinha: tentaram, sem sucesso, fazê-lo ir para o Lille, cujo diretor desportivo é Luís Campos - que foi durante anos um utilizador frequente do carrossel na sua qualidade de diretor desportivo do Mónaco, um clube Mendes; foi agora emprestado em condições incompreensíveis ao Braga, um clube Mendes.

Jonathan Silva: emprestado ao Leganés.

Domingos Duarte: emprestado ao Dep. Coruña, um clube Mendes.


EM RESOLUÇÃO

Rafael Leão: as notícias apontam-no como estando próximo de sair litigiosamente para o Lille de Luís Campos, um homem próximo de Mendes.



Recapitulando: é possível encontrar impressões digitais de Jorge Mendes na contratação do treinador, em 1 das 2 entradas e em 7 das 9 saídas de jogadores (que poderão passar para 8 em 10 caso Leão assine pelo Lille) desde que a Comissão de Gestão tomou posse. Em 3 dessas 7 saídas, os jogadores saíram em litígio com o Sporting.

Não sei em relação a vocês, mas diria que este relacionamento com Jorge Mendes não está a ser propriamente positivo para o Sporting. O que é facto é que colocámos a definição do plantel na mão de Mendes - que, segundo se diz por aí, também teve um papel determinante na decisão de vários jogadores em rescindir -, e as coisas estão como estão, a apenas cinco dias do início da época. Será que valeu a pena, Sousa Cintra?

quinta-feira, 5 de julho de 2018

"Vender pelos dois"

Com a devida vénia ao Zero Seis, isto é bom (e triste) demais para não ser partilhado.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Entregues aos bichos

A entrevista que Sousa Cintra deu ontem na SIC e SIC Notícias não foi propriamente esclarecedora sobre a maior parte dos temas que careciam de esclarecimentos mais concretos, mas não deixou de trazer algumas novidades relativamente a alguns dossiers importantes. Destaco, relativamente a estes últimos, o que foi dito sobre os jogadores que rescindiram e sobre a escolha de José Peseiro.

Em relação aos jogadores, fica a ideia de que os regressos de Bruno Fernandes e Podence estarão praticamente acertados, e que as negociações com Gelson estarão um pouco mais atrasadas. Cintra não abriu o jogo em relação às condições em que se efetuará o regresso dos jogadores, mas referiu existirem conversações com todos os atletas e/ou com os seus empresários. Disse também que o acordo com o Wolves por Rui Patrício estará praticamente definido, provavelmente pelos valores que foram inicialmente acordados com Bruno de Carvalho.

Mas a grande (pelo menos para mim) revelação da noite teve a ver com a contratação de José Peseiro:


Portanto, o empresário que colocou José Peseiro no Sporting foi... Jorge Mendes. Jorge Mendes. Que pode ajudar nalguma solução.

Portanto, estamos a procurar soluções junto de alguém que participou ativamente na decisão de alguns dos jogadores rescindirem. Já se está mesmo a ver o que se seguirá: vamos começar a receber entulho com a chancela Mendes e, ao mesmo tempo, daremos a Mendes a garantia de que será ele a negociar os jogadores que regressarão, eventualmente com direito a uma percentagem generosa da venda. Esta última frase é suposição minha, mas não se iludam: é assim que Mendes opera quando clubes em dificuldades procuram a sua "ajuda".

Chegou-se ainda ao ridículo de ouvirmos Sousa Cintra dizer que o Sporting não pode recusar a ajuda daqueles que se oferecem para nos auxiliar, referindo-se a nomes como Futre, Mendes... e Doyen. Assustador. Como se houvesse almoços grátis, ainda mais com essa gente.

Pobre Sporting... estamos entregues aos bichos.

P.S.: vou só deixar aqui esta imagem, captada ontem. Há uns tempos diria que era carvão, mas hoje, depois do que acabei de ouvir da boca de Sousa Cintra... não sei não.


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Serpa, o escudeiro da santíssima trindade do futebol português

A parcialidade com que Vítor Serpa analisa os acontecimentos do futebol português não é novidade para ninguém. A linha editorial d' A Bola está muito bem definida de há bastantes anos para cá: infelizmente para o jornal, não assentam numa postura de isenção e equidistância. Os exemplos que este e outros blogues têm mostrado são mais que muitos. Pegando em exemplos recentes, basta ver a forma como A Bola ignorou o caso dos emails durante meses a fio. Se houvesse alguém que não consumisse notícias sobre futebol a partir de outras fontes, não faria ideia de que tal polémica tinha rebentado até ao dia em que a PJ finalmente bateu à porta do estádio do Benfica e da residência de alguns dos seus dirigentes, colaboradores a recibos verdes e meninos queridos.

Basicamente, A Bola limitou-se a seguir - de forma que não duvido ter sido concertada - a estratégia definida pelo Benfica para reagir aos emails: manterem-se em silêncio - estratégia, reconheça-se, mais sábia do que tentar defender o indefensável a todo o custo. Aliás, basta ver as trapalhadas em que se viu metido o único protagonista do Apito Abençoado que não se pôde remeter ao silêncio em virtude do seu biscate das segundas à noite: quando a crise rebentou, Pedro Guerra reagiu dizendo que não se lembrava de ter recebido tais emails; neste momento, não só se lembra dos emails, como até já reconheceu que até falou várias vezes ao telemóvel com Adão Mendes. Sentir de perto a respiração de inspetores da PJ deve fazer maravilhas à memória.

Numa altura em que é impossível ignorar o escândalo dos emails e as profundas implicações que isso tem para o que se passou nos últimos anos no futebol português, acho magnífico como é que nenhum dos pesos pesados do jornal A Bola ainda não encontrou tempo para se pronunciar de forma detalhada sobre todo este fenómeno. Uma atitude que não surpreende, face ao vergonhoso alinhamento que têm com o clube do atual regime, e que é indigno da profissão que exercem.

Igualmente indigna tem sido a postura do presidente da FPF, que parece viver numa realidade paralela. Fernando Gomes manteve-se calado que nem um rato perante os dois acontecimentos mais graves do futebol português nos últimos anos - o assassinato de Marco Ficini e o escândalo dos emails -, e tem preferido tentar, ao invés, colocar o centro da discussão no bate-boca dos dirigentes. Este posicionamento de Fernando Gomes é um escândalo, e é óbvio que só o Benfica pode ficar satisfeito com isso.

Daí que não surpreenda que Vítor Serpa tenha produzido mais um artigo inenarrável, desta vez a sair em defesa de Fernando Gomes e tentando colocar o Sporting e o Porto como os maus da fita do futebol português.


Ao mesmo tempo em que defende acerrimamente a agenda de Fernando Gomes, o diretor do jornal A Bola aproveita a oportunidade para fazer mais um ataque cerrado ao presidente do Sporting - que, como sabemos, é para Serpa o símbolo da geração rasca do dirigismo desportivo. 

É impossível, também, não reparar em dois pormenores no discurso serpiano:

  • a falta de huevos para fazer críticas diretas a Pinto da Costa - como se o presidente do Porto não tivesse nada a ver com o ataque que o Porto tem feito ao Benfica;
  • a patética tentativa de colar o escândalo dos emails a algumas figuras menores da arbitragem e uns quantos benfiquistas marginais, como se o círculo de poder de Vieira (Paulo Gonçalves, Domingos Soares Oliveira e o próprio presidente) não estivesse enfiado neste lamaçal até ao pescoço, e como se Ferreira Nunes e os presidente e presidente da AG da Liga não fossem personagens com cargos muito relevantes no edifício do futebol nacional.

Serpa não é mais do que um lacaio da tríade que controla o futebol português: está sempre pronto a defender o Benfica, como todos sabemos; não perde oportunidade para elogiar o presidente da FPF, por muito inundado de sonsice que esteja o seu discurso - como este texto bem demonstra; e também, se houver necessidade disso, terá postura idêntica com Jorge Mendes - há quem diga que Serpa fez um discurso emocionado, num briefing que a FPF organizou para os órgãos de comunicação social em vésperas da partida da seleção para o Euro 2016, em que apelou à contenção de notícias sobre os recém-descobertos problemas fiscais em que Mendes estava metido, como se de uma espécie de desígnio nacional se tratasse.

Benfica, FPF e Mendes são uma espécie de santíssima trindade do futebol português, que se protege mutuamente com todos os meios que tem ao seu dispor. A promiscuidade entre Benfica e Mendes é mais que evidente. O entendimento entre Mendes e a FPF é mais discreto, mas existe - ao que se diz, também a FPF fez pressão junto dos jornalistas para não darem relevo aos problemas que o empresário arranjou com a lei em Espanha. E também salta a vista a recusa da FPF em agir contra o Benfica em situações gritantes como o das claques ilegais, o caso dos emails ou dos vouchers, ou mesmo a impunidade a que assistimos nos relvados quando o Benfica está em campo.

Como se pode facilmente avaliar pelo texto acima, Serpa é apenas uma ferramenta ao serviço da única Santa Aliança do futebol português.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Uma voltinha de dois minutos no carrossel do Mendes

Atualização com o mercado de 2017/18. Acrescentados clubes que iniciaram ou retomaram uma atividade intensiva no carrossel. Lista não exaustiva.

A visualização do vídeo seguinte dispensa quaisquer comentários adicionais.











quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A grande bomba do mercado 2017/18

É verdade que o mercado enlouqueceu neste verão, que levou a que se assistisse a transferências por valores que, até há bem pouco tempo, se julgavam impensáveis. Mas, dentro dessa loucura, ainda se consegue vislumbrar algum tipo de racional a orientar quem toma determinadas decisões. 222 milhões é um valor absolutamente astronómico, sim, mas, ainda assim, Neymar é, aos 25 anos, um dos três melhores jogadores mundiais da atualidade e, provavelmente, não tardará a ser o melhor (face à idade mais avançada de Cristiano Ronaldo e Messi). O PSG pagou uma obscenidade ao Barcelona por um jogador, mas pode estar a garantir para os próximos 7/8 anos aquele que eventualmente será o melhor do mundo a breve prazo.

Havendo dinheiro para gastar - e os donos do PSG têm esse dinheiro - é uma decisão que consigo compreender.

Esqueçam Neymar. Esqueçam Mbappé e Dembelé. Esqueçam Lukaku, Morata, Mendy ou mesmo Kyle Walker. A mais sensacional transferência do mercado 2017/18 que, segundo a imprensa portuguesa, está prestes a realizar-se, envolve um clube português e não é nenhum dos suspeitos do costume.


A primeira pergunta que inevitavelmente surge na cabeça de quem lê esta notícia pela primeira vez é: quem?!

Eu esclareço. Falamos de dois jogadores do Braga: Pedro Neto, de 17 anos, e Bruno Jordão, de 19. O primeiro acumulou 47 minutos na equipa principal na temporada passada e 7 minutos na atual, mais 1 jogo no Braga B, e tem 2 internacionalizações nos sub-18 e 9 internacionalizações nos sub-17. O segundo nunca jogou na equipa principal do Braga, fez 19 jogos pelo Braga B, e tem 2 internacionalizações nos sub-18 e 7 internacionalizações nos sub-17. 

Desconheço o talento dos jogadores, admito que possam ter potencial, mas certamente não estaremos a falar de predestinados - caso contrário teriam outros números para mostrar. Sobra, portanto, a outra hipótese: é um negócio intermediado por Jorge Mendes.

Ou seja, levando a sério esta notícia, a Lázio está disposta a pagar 26 milhões por dois desconhecidos que, em conjunto, somam 20 internacionalizações pelos escalões jovens portugueses. A mesma Lázio que...


... até agora, não tinha gasto mais do que 6,5 milhões por um jogador. A Lázio que vendeu Biglia ao Milan por 17 milhões, parece disposta a torrar esse dinheiro e mais 50% nos dois atletas do Braga. Uma decisão desportiva e financeira que, no mínimo, é discutível.

Mas discutível não chega para descrever a operação. Isto está ao nível de uma transferência do tipo Francisco Vera. Se se vier a confirmar, não se compreenderá se as autoridades não controlarem de imediato o fluxo do dinheiro que esta venda gerará na realidade.

De qualquer forma, há que dizer que o empresário Jorge Mendes parece estar em forma: despachou estes jovens por um camião de mendilhões ainda antes de o selecionador Jorge Mendes conseguir convocá-los para a seleção A.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Pippo Russo na Sport TV+

Pippo Russo foi convidado pela Sport TV+ para participar, na quarta-feira passada, no programa Mercado de Verão, onde comentou alguns assuntos do mercado de transferências (a contratação de Arango do Benfica ao Millonários, a hipótese Gabriel Barbosa para o Porto, entre outros), e onde também pôde falar do seu livro sobre Jorge Mendes.

Aqui fica, dividido em duas partes, para quem não teve oportunidade de ver. Primeiro os comentários sobre o mercado, depois a parte relativa a Jorge Mendes.




Também podem ler a entrevista de Pippo ao Observador aqui: LINK.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Estratégia de defesa peculiar

Ultimamente o futebol tem sido pródigo em estratégias de defesa peculiares. Quando confrontado com a acusação de ser um dos recetores da cartilha de Carlos Janela, João Gobern invocou a 5ª emenda - que é, como quem diz, não vou responder para não me incriminar. Um par de meses mais tarde, Pedro Guerra, homem de prodigiosa memória e capacidade de organização e preparação, pareceu ser vítima de estranho caso de amnésia ao dizer que não se lembrava de ter recebido os mails de Adão Mendes.

Mas os exemplos referidos acima são insignificantes quando comparados com o que Jorge Mendes disse ao ser interrogado no âmbito do julgamento de Falcao por fraude fiscal.


Já vi desculpas mais convincentes. Aqui fica a notícia dada pelo online d' O Jogo: LINK.

Segundo o As, Jorge Mendes foi "apertado" pelo advogado do Ministério Público espanhol no interrogatório de terça-feira

O jornal espanhol As conta parte do interrogatório feito na terça-feira a Jorge Mendes por causa da alegada fraude fiscal de Falcao quando era jogador do Atlético de Madrid

O agente português disse ao juiz de instrução de Pozuelo de Alarcón, Espanha, que "nunca" assessorou em matéria fiscal os futebolistas que representa.

Acontece que o alegado esquema de fuga ao fisco acabava na empresa Multisport and Image Management (MIM), encarregue de gerir os direitos de imagem do jogador através de off-shores nas Ilhas Virgens e Panamá.

"Conhece Andy Queen?", perguntou o advogado, segundo o As. Jorge Mendes disse que sim, que era seu empregado. A acusação insistiu: "E você não sabe que o seu empregado Andy Queen, é o proprietário da MIM". Jorge Mendes, de acordo com a mesma fonte, negou, garantindo ser uma surpresa essa informação.

"Andy não me disse, é uma surpresa para mim. Juro-o", terá dito o agente.

O advogado do Ministério Público disse então à magistrada que a Polaris, de que Jorge Mendes é acionista e que procura patrocinadores para os jogadores, tem o seu domicílio na mesma rua e no mesmo número da MIM, em Dublin, na Irlanda.

terça-feira, 13 de junho de 2017

O negócio André Silva



O Porto anunciou ontem a venda de André Silva ao Milan por 38 milhões de euros, com mais 2 milhões em variáveis. São valores muito interessantes para o clube: André Silva é um ponta-de-lança jovem, com muito potencial, presença assídua na seleção nacional no último ano com vários golos marcados, mas, ainda assim, não nos podemos esquecer de que realizou uma segunda metade de época sofrível.

Segundo o jornal O Jogo, o Porto tem 100% dos direitos económicos do jogador, o que, à partida, pressuporia mais-valias financeiras elevadíssimas para a SAD portista - como é um jogador da formação, para determinarmos a mais-valia, basta retirar a comissão de intermediação dos 38 milhões e os gastos com as duas renovações que existiram desde 2014.


No entanto, a história não é assim tão simples. Em primeiro lugar, o facto de tudo indicar que é mais uma venda do carrossel levanta a questão de quanto deste dinheiro circulará realmente entre clubes. A saída do ponta-de-lança não surpreende ninguém, pois já desde o início da época se dizia que a venda de André Silva já estava definida, por valores a rondar os 40 milhões (ou deveremos dizer mendilhões?). O único aspeto em que não se acertou foi o destino, que era, supostamente, outro: o Atlético Madrid. Havia vários sinais que fortaleciam esta hipótese: à boa maneira do carrossel, o Atlético enviou Oliver Torres para o Porto com uma opção de compra (que entretanto foi acionada) também considerável: 20 milhões. O problema é que a FIFA proibiu o clube espanhol de inscrever jogadores, pelo que foi necessário encontrar outro destino. 

Para além disto, ainda há a questão dos direitos económicos. Em 2014, a pouco mais de 6 meses do final do contrato, o Porto e André Silva chegaram a acordo para renovar a ligação. Apesar de ser um jogador que, na altura, nunca tinha jogado pela equipa principal, o acordo acabou por não sair barato para o clube. Há cerca de um ano, o Football Leaks revelou o contrato de intermediação da renovação assinado entre o Porto e António Teixeira da Silva, na qualidade de agente do jogador, onde estão incluídas as seguintes compensações pelos serviços prestados:
  • Um pagamento de 100.000€ assim que o jogador completasse 10 partidas pela equipa principal;
  • Atribuição de 10% dos direitos económicos de André Silva ao agente;
  • Atribuição de 10% das mais-valias de uma futura transferência de André Silva.






Pelo texto do contrato, dá a ideia de que o agente ficaria com direito a 10% do valor da transferência (via direitos económicos) e, adicionalmente, com 10% das mais-valias registadas pelo clube após deduzidas as várias despesas da venda e da renovação.

A informação constante neste contrato entra em colisão com a indicação que O Jogo adiantou sobre o Porto ser detentor de 100% dos direitos económicos. Nos últimos R&C's da SAD não encontrei nenhuma informação sobre a percentagem de passe de André Silva que pertencia ao Porto. A CMVM deveria pedir esclarecimentos sobre isto.

Entretanto, em 2016, André Silva passou a ser representado por Jorge Mendes e voltou a renovar com o Porto. Não me apercebi, na altura, de notícias que dessem conta de que o Porto tivesse recuperado os direitos cedidos ao agente aquando da renovação de 2014. Se as condições do contrato mostrado acima ainda forem válidos, e considerando ainda que a transferência para o Milan foi coordenada por Jorge Mendes, então falamos de 3 grandes tranches que não entrarão nos cofres do Porto: os habituais 10% de intermediação do super-agente, os 10% dos direitos económicos e os 10% de mais-valias. Tudo junto, falamos de um pouco menos de 30% do bolo total.

Para além disso, há o problema adicional do carrossel de que poucos falam: os benefícios contabilísticos são imediatos, mas deixa um rasto de custos que aumentará a dependência de negócios destes nos anos que se seguirão.

Independentemente disso, é uma transferência que deixará os responsáveis portistas um pouco mais aliviados, pois é sabido que têm até ao final do mês para realizar vendas que permitam reduzir os prejuízos até 30 milhões. O recente acordo com a UEFA no âmbito do Fair Play Financeiro a isso obriga.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

As (exorbitantes) comissões pagas pelos clubes

A FPF divulgou ontem a lista de negócios dos clubes com jogadores (compras, vendas e renovações), realizados entre 1 de abril de 2016 e 31 de março de 2017, que implicaram o pagamento de comissões a empresários e intermediários. No final, fizeram um resumo com os valores pagos por cada um dos clubes:


Como seria de calcular, os três grandes ocupam as três primeiras posições dos clubes mais gastadores, mas a disparidade entre eles é aberrante: o Sporting gastou 4,9M, o Porto gastou 6,2M, e o Benfica gastou 30,1M. Salta à vista, obviamente, o facto de o Benfica pagar pouco menos do que o triplo que Sporting e Porto gastaram juntos.

Apesar disso, não tardou a aparecer quem viesse tentar explicar que os valores pagos pelo Benfica são "naturais".


Rui Pedro Braz lança logo da cartada de que o Benfica é o clube que faz mais vendas para justificar a tal disparidade. Segundo o comentador, o Benfica vendeu cerca de 130 ou 140 milhões de euros. Está aqui o primeiro erro do comentador. Nesta lista da FPF, as únicas vendas do Benfica que são consideradas são as de Renato, Gaitan e Guedes, mais os empréstimos de Talisca e Taarabt. É verdade que o Benfica anunciou, em janeiro, ter vendido Hélder Costa por (supostamente) 15 milhões. O problema é que Hélder Costa não aparece nesta lista da FPF - apesar de ser muito duvidoso que Mendes não tenha amealhado o seu dízimo. Isto significa que, dos 30 milhões gastos pelo Benfica em comissões, apenas cerca de 9 corresponderão a vendas de jogadores.

A primeira metade da justificação de Braz cai, assim, por terra.

Ou seja, o Benfica terá gasto cerca de 21 milhões em comissões para negócios de compra e renovação de jogadores. Sabe-se que os "custos zero" de Carrillo e Zivkovic corresponderam a custos de cerca de 12,6 milhões - nos quais é necessário retirar os prémios de assinatura dos jogadores, que não entram nestas contas -, que ajudaram a empolar estes valores. E também houve gastos com renovações de jogadores de 1ª linha, como Ederson (via Gestifute), Luisão, Sálvio ou Jardel. Sabe-se que a renovação de Sálvio custou 2,6 milhões, e que a de Jardel custou 2,1 milhões. Assim não custa nada negociar, diria eu.

Coloco agora a pergunta que se impõe: é mesmo obrigatório que os clubes paguem fortunas para realizarem negócios? As recentes vendas do Sporting provam que não, pois o clube encaixou 70 milhões só com João Mário e Slimani, sem que qualquer comissão fosse paga. E também se fecharam renovações de alguns dos principais jogadores do plantel, como Rui Patrício, Adrien, Gelson ou Schelotto.

A segunda metade da justificação de Braz assenta na ligação a Mendes. Diz o comentador que "o Benfica, se quer continuar a trabalhar com este empresário, tem que aceitar as suas regras". Jorge Mendes abre muitas portas? Sim, isso é indiscutível. Mas será que compensa esta dependência depois de deduzidos as comissões, os mendilhões, e a obrigação de compras igualmente milionárias para manter o carrossel em andamento? Não existirão outros empresários capazes de colocar os jogadores por valores líquidos igualmente interessantes, havendo qualidade? Não é para isso que servem os negociadores implacáveis?

O mercado funciona como funciona, e não é possível regressar a um tempo em que os clubes negoceiam diretamente com os jogadores, mas considerando a situação financeira de todos os clubes, não faz qualquer sentido que os clubes encarem as comissões como gastos inevitáveis e inegociáveis. Está provado que o caminho palmilhado pelo Sporting, por muitas dificuldades que isso possa causar a determinados negócios, faz todo o sentido. Só para colocar em perspetiva a barbaridade destes números, o Benfica contraiu ainda este mês um empréstimo obrigacionista de 60 milhões de euros, com duração de 3 anos. Ou seja, só no espaço de um ano, o Benfica gastou metade desse valor em comissões a empresários e intermediários...

sexta-feira, 24 de março de 2017

A UEFA e a Superliga Europeia

Na última entrevista dada à CMTV, Luís Filipe Vieira referiu, de forma algo misteriosa, que existe uma estratégia por trás das vendas tabeladas que Mendes tem feito de jogadores do Benfica. Vieira acrescentou que tudo ficará claro daqui a dois anos e, pouco depois, disse que o pagamento da dívida - razão para a qual o presidente do Benfica atribuiu a necessidade de vender jogadores - está relacionado com as mudanças que se perspetivam na Europa. Os entrevistadores perguntaram se essas mudanças estariam, de alguma forma, relacionadas com a criação de uma Superliga europeia. Vieira deixou claro que o Benfica está a posicionar-se para integrar essa competição, caso venha a ser criada.


Na verdade, não é a primeira vez que vejo referências à ligação das vendas do Benfica via Mendes com um projeto de Superliga europeia. De forma bem mais direta, Pippo Russo, no livro que recentemente publicou sobre Jorge Mendes - intitulado M. A Orgia do Poder, que será publicado em português em abril -, escreveu que a venda inflacionada de Renato Sanches ao Bayern pode estar relacionada com esse projeto, referindo também que Karl-Heinz Rummenigge, administrador do clube bávaro, está obcecado pela criação da Superliga.

Não é claro qual o papel que Jorge Mendes possa ter na criação de uma Superliga, mas é, muito possivelmente, a pessoa que melhores condições tem para coordenar uma empreitada destas fora do círculo da UEFA: tem contactos privilegiados com muitos dos maiores clubes europeus e tem ligações próximas com poderos grupos económicos com vontade de investir no futebol.

Em relação aos clubes, é fácil perceber a atração por uma liga fechada composta pelos mais importantes emblemas do velho continente: tornar-se-ia, facilmente, a maior e mais interessante competição de clubes do mundo e, consequentemente, aquela que maiores receitas geraria. E avaliando pelos sinais que têm sido dados pelos vários interessados, seria criada à margem da UEFA - o que também se compreende: para quê ter um intermediário que absorve uma percentagem tão grande das receitas, quando os clubes poderiam criar a sua própria organização para gerir a competição?

Obviamente que o aparecimento da Superliga levanta questões importantíssimas, nomeadamente no que diz respeito ao impacto que isso teria nas atuais competições, nacionais e europeias. Algumas ligas nacionais sofreriam um golpe profundo, mas a Liga dos Campeões seria, inevitavelmente, a competição mais afetada - imagine-se como seria sem equipas como o Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Chelsea, Arsenal, Manchester City, Bayern, Dortmund, Juventus ou PSG. O interesse do público cairia a pique e, como consequência direta, a capacidade de atrair patrocinadores e outro tipo de receitas desceria radicalmente. 

O mesmo se aplica às ligas nacionais. As ligas inglesa, espanhola e alemã, que geram receitas anuais na ordem dos milhares de milhões de euros, não estarão minimamente interessadas em perder preponderância. O mesmo se aplica a todas as outras ligas e federações de segunda linha, que deixariam de ter acesso ao mesmo patamar competitivo que os tubarões europeus. E quando as federações não estão felizes, o comité executivo da UEFA também não pode estar feliz.

Não admira, portanto, que Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, tenha ontem sido muito claro ao dizer que, durante a sua presidência, nunca permitirá que se crie uma Superliga fechada. É evidente que a UEFA não estará minimamente interessada em que lhe matem a galinha dos ovos de ouro, e é expectável que utilize todos os meios que tem à sua disposição para impedir que essa Superliga nasça à sua revelia.


O tema é muito interessante, a vários níveis. Qual é a estratégia dos clubes interessados para concretizar este projeto? Qual o papel que Jorge Mendes tem em tudo isto? Até que ponto os clubes que entrassem nesta Superliga cortariam em definitivo os laços com as competições nacionais? Qual o impacto que tudo isto teria numa competição como a liga portuguesa? Estarão as federações nacionais dispostas a abdicar de alguns dos seus principais membros? Que medidas de bloqueio estará a UEFA a preparar como resposta?

Aguardemos por respostas para algumas destas perguntas ao longo dos próximos dois anos.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Football Leaks: a parceria obscura entre Rybolovlev e Jorge Mendes

Artigo do L' Equipe, que pode ser lido aqui: LINKSegue-se a tradução para português. Vale a pena ler até ao fim.



FOOTBALL LEAKS: A PARCERIA OBSCURA ENTRE RYBOLOVLEV (MONACO) E JORGE MENDES

Segundo as novas revelações do Football Leaks, o proprietário do AS Monaco, Dmitri Rybolovlev, ter-se-á associado a um fundo de investimento que compra percentagens de jogadores, alguns dos quais passaram pelo seu próprio clube. Tudo isto com o agente português Jorge Mendes.

Sabe-se que Jorge Mendes já fez bons negócios com o Monaco, onde o agente português colocou os jogadores Falcao, Moutinho, James Rodriguez e Ricardo Carvalho. As últimas revelações do Football Leaks, publicadas quarta-feira pela Mediapart, mostram uma outra faceta dos negócios entre Dmitri Rybolovlev, presidente do AS Monaco, e Mendes.


Um fundo registado no Chipre

O bilionário russo terá usado um fundo de investimento (Browsefish Limited) para comprar, em total sigilo, parcelas de jogadores. Este fundo está registado no Chipre, mas o seu verdadeiro endereço aponta a Rybolovlev, no Monaco. O fundo terá comprado em junho de 2014 partes dos direitos económicos de seis jogadores do Braga, numa época em que a compra de jogadores por terceiras entidades (TPO) era autorizada, excetuando em certos países como a França ou o Reino Unido. Segundo o Football Leaks, a Browsefish detinha percentagens de doze futebolistas. "Se dirigir um clube ao mesmo tempo que se possui partes de jogadores dificilmente haverá compatibilidade, mas o conflito de interesses agrava-se quando um desses futebolistas acaba por ser contratado pelo Monaco", explica a Mediapart. É o caso do médio brasileiro Fabinho, membro do clube Mendes.



O exemplo absurdo de Fabinho

A transferência de Fabinho resume bem este esquema. Segundo o Football Leaks, em janeiro de 2014, a Browsefish terá adquirido 48,5% do jogador, isto é, metade da percentagem que pertencia a Mendes. No momento dessa compra, Fabinho já jogava no Monaco, emprestado pelo Rio Ave (Portugal) em junho de 2013. O seu presidente seria, portanto, proprietário de metade de um jogador que alinhava no seu clube. Posteriormente, o Monaco comprou-o, a 15 de maio de 2015. Isto é, quinze dias após a interdição dos TPO pela FIFA. Sendo que, algures durante esse intervalo de tempo, a 1 de janeiro de 2015, a Gestifute recomprou a parte de Fabinho que pertencia à Browsefish, pelo que o Monaco não comprou um jogador detido parcialmente... pelo seu presidente.

De acordo com a comunicação social, o Monaco comprou Fabinho por um valor entre os 5 e os 6 milhões de euros. Mas o documento oficial registado pelo Monaco no sistema de regulação de transferências da FIFA indica a soma de 10 cêntimos de euro. Para além disso, a sociedade Gestifute, que detinha 97% de Fabinho no momento da transferência, não aparece nos documentos enviados à FIFA. "Parece uma operação de TPO disfarçada em benefício de Jorge Mendes, quinze dias após a interdição de tais práticas", explica a Mediapart. Outro negócio igualmente nebuloso foi o do antigo defesa do Monaco, Wallace, que também integrou o portefólio de TPO da Browsefish.

Segundo o Football Leaks, entre janeiro de 2014 e junho de 2015, as vendas de parcelas de jogadores ao fundo de Rybolovlev representaram 87% da atividade TPO da Gestifute, a empresa de Mendes, e gerou 6,85 milhões de euros em mais-valias para o agente. Para a Mediapart, este sistema poderá ser também um meio para pagamento de comissões disfarçadas a Jorge Mendes. A Mediapart tentou contactar Mendes e Rybolovlev, mas os dois não responderam. Não há informações que indiquem se o fundo em questão ainda existe e se, em caso afirmativo, se respeita as novas leis.



O artigo do L' Equipe terminou na linha anterior. Daqui para a frente, o texto é meu. 

Este artigo do L' Equipe baseou-se num outro artigo da Mediapart, cujo link foi colocado mais acima, e que apenas pode ser lido na totalidade por assinantes. No entanto, tive a oportunidade de ler o artigo completo, e existem mais pormenores interessantes:

  • Em junho de 2014, a Browsefish Limited (o fundo de investimento de Rybolovlev), comprou 30 a 40% dos direitos económicos de seis jogadores do Braga, nos quais se incluía Rafa Silva, que entretanto se transferiu para o Benfica.
  • Jorge Mendes comprou 97% dos direitos económicos de Fabinho por 1 milhão de euros. Posteriormente, vendeu 48,5% a Rybolovlev por 2,325 milhões. Mais tarde, a Gestifute recomprou esses 48,5% por apenas 1 milhão! Conforme escreve a Mediapart: "Ficamos a imaginar o motivo que terá levado o proprietário do Monaco a aceitar um negócio tão desfavorável".
  • Ao contrato de venda de Fabinho do Rio Ave para o Monaco por 10 cêntimos, foi acrescentada uma adenda que, em caso de uma venda futura do jogador, o Monaco deverá entregar 50% do valor da transferência ao Rio Ave.
  • Em relação a Wallace, Jorge Mendes comprou, faseadamente, 90% dos direitos económicos do jogador por 6,4 milhões. Posteriormente, vendeu 45% a Rybolovlev por 4,4 milhões. Nesta altura, Wallace jogava no Monaco, por empréstimo do Braga (que, por sua vez, tinha pago 1€ ao Cruzeiro pelos direitos desportivos). Para apresentar um aspeto menos nebuloso, no dia 3 de julho de 2014, o Braga comprou os 90% dos direitos económicos a Mendes e Rybolovlev, mas comprometendo-se  a entregar à Gestifute a totalidade do valor de uma futura transferência. Não há nenhuma referência à Browsefish de Rybolovlev, mas presumindo-se que a Gestifute seria responsável pelo encontro de contas com o fundo - resta saber com que percentagem de comissão. Entretanto, em 2016, o Braga vendeu Wallace à Lazio por 8 milhões, o que significa que o lucro para os investidores foi relativamente reduzido. O Football Leaks não esclarece como Mendes e Rybolovlev distribuíram os ganhos.
  • O Football Leaks mostra que a Browsefish detinha percentagens de 12 jogadores, incluindo o mexicano Raul Jimenez, que agora joga no Benfica. O que pode lançar a seguinte questão: considerando as movimentações sucessivas de direitos económicos (compras, vendas e recompras) nestes negócios que envolvem Gestifute e Browsefish, usando os clubes como meros repositórios de jogadores, será que os 100% que o Benfica detém de Jimenez são reais? Ou estamos perante uma situação igual ou parecida com aqueles 100% que o Braga "detinha" de Wallace? Jimenez que, recorde-se, já terá guia de marcha definida por uma verba recorde - pelo menos é o que diz o feeling de Luís Filipe Vieira. E quem fala de Jimenez, fala de Rafa Silva.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Bola e a polémica Football Leaks


Engraçado: há uma semana que veio a público a questão da fuga de impostos de jogadores (e treinador) representados por Jorge Mendes, e A Bola não conseguiu encontrar sequer um cantinho de capa para a destacar.

No entanto, apesar de, aparentemente, desconhecerem o tema, hoje arranjaram espaço para apresentar a versão da Gestifute.

Curioso, mas não surpreendente. Longe vão os tempos em que o Football Leaks era relevante para este jornal.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

O regresso do Football Leaks

E eis que, de forma algo surpreendente, o Football Leaks voltou a dar sinais de vida. No princípio de maio deste ano, o responsável pelo site (que se identificou como John), deu uma entrevista ao Der Spiegel (LINK), onde anunciou que iria fazer uma pausa na divulgação de documentos. 

Na altura, pensei que essa atitude se devesse ao facto de ser um homem perseguido por inimigos muito poderosos. A Doyen acusava-o de extorsão e, segundo o próprio John, Jorge Mendes tinha contratado detetives para o identificar - o que dava a entender que também teria em sua posse documentos relacionados com a Gestifute, apesar de não os ter publicado até então.

Pelos vistos, essa entrevista ao Der Spiegel trazia brinde: apesar de ter anunciado uma pausa nos leaks por 6 meses, aproveitou para passar ao jornal alemão os documentos que recolhera. O Der Spiegel, perante a imensidão da informação que lhe foi colocada à disposição, entendeu ser aconselhável convocar uma série de jornais de outros países para colaborarem na análise dos milhares e milhares de documentos. Esta semana, cerca de seis meses depois da tal entrevista, os vários jornais começaram a publicar o resultado dessa análise.

As acusações feitas à Gestifute, a Jorge Mendes e aos seus clientes são muito, muito graves. Não me parece que irão abanar a indústria do futebol propriamente dita - as alegadas irregularidades apontam para um esquema usado por atletas multimilionários para escapar aos impostos, e nada têm a ver com o jogo em si -, mas põem em causa algumas das principais figuras do futebol mundial.

Já todos sabiam que Jorge Mendes era mais do que um simples empresário. Aliás, era mais do que um super-empresário. As áreas de atuação do comendador há muito que tinham ultrapassado as competências de um típico representante de jogadores. Sim, Jorge Mendes representava jogadores, mas também intermediava transferências, aconselhava proprietários de clubes, apostava forte na exploração de novos mercados - como o chinês - e, inclusivamente, já começava a meter o pé noutro tipo de atividades, como a indústria do entretenimento, com parcerias estabelecidas com poderosos grupos económicos que nada tinham a ver com o futebol.

No caso de todos os documentos analisados serem verídicos e as conclusões dos jornais estarem corretas, então fica à vista de todos aquilo que muitos já suspeitavam sobre Jorge Mendes.

No caso denunciado pelo Der Spiegel, Expresso, e outros órgãos de comunicação social europeus, Mendes montou um esquema que permitiu aos seus clientes pagar muito menos impostos do que deveriam. Os clientes de Jorge Mendes declaravam apenas uma pequena parte dos rendimentos provenientes de direitos de imagem (no caso de Cristiano Ronaldo, apenas 20% do total). A principal fatia era canalizada através de empresas de Mendes para contas offshore dos jogadores. Ou seja, em vez de amealhar cerca de 50% dos rendimentos em impostos, o fisco tributava apenas cerca de 10% do total (ou seja, metade dos 20% declarados). Como contrapartida pelo serviço prestado, as duas empresas de Mendes usadas para canalizar o dinheiro não declarado ao fisco, chamadas MIM e Polaris, retinham, respetivamente, 10% e 15% em comissões.



Ou seja, todos ficavam a ganhar. Todos, menos o Estado, claro. Os atletas pagavam muito menos impostos, e o empresário era recompensado com a sua habitual comissão. Segundo as notícias que foram sendo divulgadas ao longo dos últimos dias, outros atletas usufruiram deste esquema, como Ricardo Carvalho, Fábio Coentrão, James Rodriguez, Pepe e Özil.

Nada disto é uma originalidade. Infelizmente, são vários os esquemas semelhantes que permitem a muitas outras pessoas, do futebol ou de outras áreas de atividade, fugir aos impostos. Messi, como seguramente todos se recordam, foi recentemente condenado a 21 meses de prisão, com pena suspensa, por fraude fiscal. No entanto, confirmando-se tudo isto, ficamos a saber que Jorge Mendes se disponibiliza a enveredar por atividades ilegais para benefício próprio e dos seus clientes.

Agora pensem num determinado carrossel de jogadores, em que um certo conjunto de clubes compra e vende, de forma rotativa e num ritmo elevado, uma série de jogadores sobreavaliados, muitas vezes sem que haja uma explicação desportiva aparente. Estão também envolvidas figuras e fundos com fortunas de proveniência duvidosa. E no centro de tudo, está quem vocês sabem. Alguém se admiraria se os jornais descobrissem que se trata de uma esquema que vai muito para além da simples transação de jogadores?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

M - A Orgia do Poder

É hoje publicado em Itália o novo livro de Pippo Russo, sobre Jorge Mendes e a sua teia de ligações e influência no mundo do futebol - com particular ênfase no que se passa em Portugal. 


Para já, foi publicado apenas em italiano, mas creio que em breve será publicado noutras línguas. Fico a aguardar, com bastante expetativa, a tradução para inglês ou português (vamos ver se alguma editora nacional terá interesse em fazê-lo).

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

O jogo do Rafa


Nos últimos dias, os avanços e recuos das negociações entre o Sporting e o Inter por João Mário têm atraído a maior fatia das atenções dedicadas ao mercado de transferências, mas convém não esquecer que ainda está em curso uma outra saga negocial, com uma grande diversidade de protagonistas e bastante mais confusa: a venda de Rafa.

Segundo rezam as crónicas, António Salvador quer receber os 20 milhões da cláusula de rescisão. É legítima essa pretensão, mas isso não quer dizer que os interessados lhe irão fazer a vontade, pois falamos de uma verba incomportável para os cofres de qualquer clube português - a não ser, claro, que se esteja a falar de 20 mendilhões.

É indiscutível que Rafa é um excelente jogador, parece-me que tem valor para fazer parte do plantel de qualquer clube em Portugal, mas 20 milhões é, para além de uma verba assustadora para o diretor financeiro da SAD que os tiver que pagar, um valor excessivo para o que o jogador demonstrou até agora. Não quer dizer que não venha a valer isso, mas jogar no Braga não é o mesmo que jogar nos grandes - e mesmo no Braga, os números, sendo interessantes, não são espantosos: no campeonato da época passada marcou 8 golos e fez 3 assistências, em 30 jogos.

Acredito que o Porto tenha muito interesse no jogador. Partindo do princípio que Brahimi está perto de sair, não abundam os extremos de qualidade no plantel. O problema está nos valores pedidos, que, à partida, não serão fáceis de atingir em função da atual situação financeira do Porto: falhou o cumprimento do Financial Fair Play, ainda não fez qualquer encaixe com vendas de atletas, não sabe se terá acesso aos milhões da Liga dos Campeões, e já gastou cerca de 23 milhões em aquisições (Telles, Layun, Felipe e Depoitre).

Em relação ao Benfica, não há motivos para tanto interesse, considerando a quantidade e qualidade das opções que existem para as posições que Rafa pode fazer. Eventualmente terá mais espaço como suplente de Jonas do que como extremo, mas, mesmo assim, não deixam de ser 20 milhões por um jogador que, provavelmente, será suplente. É verdade que o Benfica já fez algo de semelhante com Jimenez, mas será que estará interessado em repetir a dose?

Está também por perceber o papel de Jorge Mendes em todo o processo. Considerando a relação íntima do empresário com o Benfica, a reaproximação recente ao Porto (pelo menos a chegada de Nuno Espírito Santo indicia isso), a enorme influência que tem sobre o Braga e a percentagem de passe que tem do jogador (apesar de, há uns dias, O Jogo ter noticiado que o Braga a recomprou - o que me parece duvidoso), para que lado irá pender a sua influência? Esta será, provavelmente, a revelação mais interessante que o desfecho desta novela dará a conhecer.

EDIT 10h00: Segundo os jornais de hoje, o Benfica parece ter ganho a corrida pelo jogador.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Pagar sem saber se pode usar, ou a corrida mais lenta de sempre?

Geralmente, uma das tarefas mais complicadas que o comum dos emblemas tem para resolver nas janelas de transferências é arranjar colocação para os jogadores excedentários em condições favoráveis para os seus cofres. Normalmente, os clubes dão-se por satisfeitos se conseguirem vendê-los recuperando a totalidade ou a maior parte do investimento. Não sendo isso possível, e se não estiverem dispostos a assumir o prejuízo de uma venda por um valor bastante inferior ao da compra, então tentam emprestá-lo a um clube que fique responsável por todos os encargos salariais e, eventualmente, até pague uma determinada verba por essa cedência temporária. No entanto, são muitos os casos em que nem isso se consegue. Surgem então as últimas alternativas: emprestam o jogador, mas continuando a suportar parte ou a totalidade do salário; ou encostam-no e colocam-no na equipa B, na equipa de reservas, ou a treinar à parte.

Conseguir vender um excedentário por mais do triplo do seu valor de mercado é algo que, definitivamente, apenas está ao alcance de clubes com relacionamentos muito privilegiados com gente que não tenha grande amor ao dinheiro. É nesta categoria que, segundo o que nos vai sendo transmitido pela comunicação social, se encaixa a venda de Talisca ao Wolverhampton. Temos, portanto, um clube da 2ª divisão inglesa que está interessado no jogador e, sem ligar a qualquer critério racional de avaliação de um atleta, está disposto a estourar 25 milhões de euros por um jogador que não vale sequer um terço desse montante.


Um luxo que os novos donos do clube inglês parecem muito desejosos de assegurar, mas ainda assim, um luxo que parece ser cobiçado... por muitos outros. Isto porque, mesmo que falhe a transferência de Talisca para o Wolves...


... os 25 milhões de euros que o Benfica quer receber não estarão em risco. É que, segundo o jornal A Bola, existem mais clubes interessados no jogador.

Ou seja, na eventualidade de falhar a inscrição em Inglaterra, e não estando em causa os 25 milhões e havendo outros clubes interessados, só pode significar que estamos perante um de dois cenários:

1) O Wolves não pode inscrever o jogador, mas compra-o na mesma por 25 milhões, cedendo-o depois a outro clube de outro país; para além de ser estranho que um clube queime tanto dinheiro num jogador que não pode usar de imediato, este cenário tem o twist adicional de o Wolves não ter forma de saber se conseguirá algum dia inscrever o jogador; ou seja, se por acaso não correr extraordinariamente bem a vida a Talisca na barriga de aluguer, isso significa que não será convocado para a seleção brasileira; e não sendo convocado para a seleção, continuará a não cumprir os requisitos para ser inscrito em Inglaterra. Em vez de reforçarem a equipa para o objetivo imediato de regressar à Premier League, preferem pagar 25 milhões por um jogador que não podem usar, e sem sequer saberem se algum dia poderão tirar proveito desportivo dele. Wow.

2) Existem clubes endinheirados de outros países dispostos a pagar os 25 milhões que o Benfica quer pelo jogador. Clubes esses, que não são chineses (Talisca já rejeitou ir para a China) e que estão dispostos a esperar pela conclusão do processo em Inglaterra. A corrida mais lenta de sempre por um jogador tão caro. Duplo wow.

Tudo isto é tão extraordinário, que nem a expressão negócio da China lhe faz justiça. Mas tem mesmo que ser assim, porque segundo rezam as lendas, ainda há mais 100 mendilhões em vendas para realizar. Só mesmo um Midas para concretizar uma coisa destas.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Negócios de Mendilhões

Negócio fechado por Talisca. 25 milhões por um jogador que, como é do conhecimento geral, não tem lugar no plantel do Benfica. Vamos, por um momento, fazer de conta que os clubes interessados não sabem desse pequeno-grande pormenor, e, como tal, não sabem que o poderiam levar por um terço do valor. O mais interessante é que se sabe que o negócio está fechado, sabe-se também o valor do suposto negócio, mas... não se sabe qual o clube que o vai comprar. Dizem que tanto pode ser o Liverpool - que depois o emprestará ao Wolverhampton -, como diretamente o Wolverhampton, ou eventualmente outro clube inglês que terá ficado encantado com a estrondosa época que o brasileiro fez.

Proposta de 30 milhões recusada por Carrillo. Um jogador que poderia ter sido transferido há um ano por um terço ou metade do valor, e que entretanto esteve sem jogar durante 9 meses. De repente, acotovelam-se os interessados e multiplicam-se os valores.

Salvio a ser negociado por 30 milhões. Apesar das dúvidas existentes sobre a real condição física do argentino - alvo de várias cirúrgias delicadas - que, na época passada, não conseguiu atingir o nível de anos anteriores, a sua cotação nunca esteve tão elevada.

Proposta de 35+5 milhões recusada por Jimenez, um jogador que, tendo sido importante na carreira do Benfica no campeonato e na Liga dos Campeões, foi quase sempre a 3ª opção para a sua posição.

Lindelof a ser negociado por 30 milhões, supostamente com o Chelsea. O sueco foi, efetivamente, uma das grandes revelações da época passada, mas o Euro 2016 não lhe correu particularmente bem. De qualquer forma é um jogador com um potencial inegável.

Negócios com a chancela de Jorge Mendes, segundo o jornal A Bola.

Curioso, no entanto, que Vieira, first of his namea.k.a. Midas, o negociador implacável, vá amochando quando os negócios acontecem fora da esfera de Jorge Mendes. Aí já tem de se conformar com os empréstimos dos Djuricics, Victor Andrades, Friesenbichlers e Mukhtars, porque não há quem pague por eles sequer uma parcela daquilo que custaram inicialmente. Na prática, os mesmos problemas que o Porto vai tendo com os Herreras ou Fabianos. Ou que o Sporting tem com os Monteros ou Slavchevs. Fora da esfera de Mendes, Vieira tem as mesmas dificuldades que todos os outros, e não consegue contornar as leis da racionalidade que normalmente imperam em qualquer negócio que envolva profissionais: é impossível que os clubes interessados não saibam o rendimento que os jogadores tiveram por cá, o que imediatamente desvaloriza o produto e reduz o poder negocial de quem os quer vender.

Na esfera de Mendes, as leis da racionalidade distorcem-se da mesma forma que o espaço-tempo se deforma nas imediações de um buraco negro: fechou a venda de Mangala para o Manchester City - após uma época medíocre do francês no Porto - por um valor acima da cláusula de rescisão; transferiu Cancelo e Cavaleiro por 15 milhões, apesar de nunca se terem conseguido impor no Benfica; levou Pizzi e Jimenez para o Benfica por 36 milhões; e parece que agora vai colocar uma legião de dispensáveis (Talisca, Cavaleiro, Hélder Costa, Ola John, Sílvio) no Wolverhampton, clube comprado pela Fosun, sabe-se lá por quantos milhões mais - como se os chineses não tivessem o mesmo amor ao dinheiro que qualquer outra empresa ou pessoa. 

Olhando para o que já aconteceu no passado, não ficarei surpreendido se qualquer uma destas transferências se concretizar.

Claro que, perante a ausência de racionalidade, uma pessoa poderá sempre questionar-se se jogadores e dinheiro serão realmente os únicos ativos a serem transacionados nestes negócios, ou seja, se não haverá alguma outra commodity a ser colocada na mesa para compensar a disparidade aparente nestas transferências.

Até compreendermos completamente os contornos destes negócios, talvez fosse mais sensato falarmos em Negócios de Mendilhões e não em Negócios de Milhões.