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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Eusébio no Panteão

Já o tinha escrito na altura da morte de Eusébio, e volto a fazê-lo agora: a homenagem que se faz hoje ao Pantera Negra é inteiramente justa. 

Eusébio da Silva Ferreira é um símbolo benfiquista, mas também um herói português que foi o principal embaixador do país durante décadas. A carreira de futebolista terminou mas a lenda manteve-se intacta. Eusébio deixou a sua marca em Portugal e no mundo não só pelo extraordinário jogador que foi mas também pela singular humildade e desportivismo que demonstrava dentro de campo. Não deixou obra palpável para a posteridade como os maiores escritores, poetas, pintores ou arquitetos, mas fica o legado de emoções, orgulho e esperança que proporcionou a um povo oprimido que vivia há décadas num isolamento forçado e envergonhado.

Quem contesta esta homenagem apontará certamente os problemas que Eusébio teve já depois do fim da carreira, ou até certas atitudes e declarações menos felizes durante os seus últimos anos de vida. É verdade, houve episódios dispensáveis que era melhor que não tivessem acontecido. Mas, tanto quanto sei, ser perfeito não é um requisito para a distinção de que Eusébio é hoje alvo. Se assim fosse, o Panteão estaria condenado a ficar vazio para a eternidade.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Capas que não fizeram história, nº 3: Mãozinha marota

Novembro de 2005

Simão para sempre. O "para sempre" na realidade correspondeu a um ano e oito meses, já que o jogador rapidamente acabaria por ficar com um formigueiro insuportável que só parou quando se viu no Atlético Madrid.

Mas o principal mistério da capa é: onde está a mão direita de Eusébio? É que olhando para a fotografia, uma das frases que Vieira proferiu aquando da morte do pantera negra...
"Tínhamos uma relação muito especial."
... ganha todo um novo sentido.

Too soon?

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Agora já chega, OK?

Eusébio morreu. O país chorou. Decretou-se luto nacional de três dias. Os noticiários dedicaram 100% da emissão ao sucedido. Formaram-se filas intermináveis para olhar para o caixão. Jornais fizeram coletas. Fez-se uma comparação com Mandela. O carro funerário deu a volta ao estádio. Seguiu-se um cortejo que atravessou quase toda a cidade. Realizou-se a missa de corpo presente com família, políticos, jogadores, dirigentes e malheiros. Enterrou-se o senhor. Uma cobertura televisiva nauseabunda que não deixou escapar sequer a colocação do caixão debaixo da terra. O presidente do clube anunciou ao fim de 24 horas o programa eleitoral para o seu mandato até 2020 com base nos desejos do falecido. Os partidos políticos tomaram uma decisão relâmpago de trasladar os restos mortais para o panteão, apesar de não a poderem concretizar até daqui a um ano. Já prometeram uma grande avenida com o seu nome. Dar o nome do estádio é que nem pensar, porque o Benfica é maior do que qualquer jogador. Transmitiu-se um jogo do mundial de 1966. Pacheco Pereira, Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa fizeram a análise técnico-tática do grande jogador que o país perdeu. Ergueu-se um memorial pavoroso. A FIFA prometeu uma homenagem na cerimónia de entrega da Bola de Ouro. Fez-se o minuto de silêncio em todos os estádios do país. Todos os jogadores envergaram uma fita preta no braço. Fez-se uma bonita homenagem no Estádio da Luz com aquelas enormes tarjas. Colocou-se o nome do defunto nas camisolas dos jogadores. Dedicou-se o primeiro golo. Dedicou-se o segundo golo. Dedicou-se a vitória contra o Porto. Dedicou-se a liderança no campeonato.


Agora já chega, OK? Se ganharem o campeonato podem voltar a fazer a dedicatória a Eusébio, mas até lá deixem o senhor descansar em paz.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Outra visão sobre Eusébio e o Panteão

Já escrevi que tenho a opinião que Eusébio merece a homenagem nacional de ter direito a repousar no Panteão. No entanto, sei que muitas pessoas não concordam, achando que se tratou acima de tudo uma personalidade ligada ao Benfica e, como tal, não suficientemente consensual para esta distinção.

O blog Reflexão Portista, que costumo seguir, publicou um texto em que se opõe à colocação dos restos mortais de Eusébio no Panteão. Usa argumentos perfeitamente válidos, nomeadamente a ausência de êxitos continuados da seleção numa altura em que havia uma base de jogadores suficientemente boa para ter estado em variadíssimas finais europeias de clubes, e também aponta com muita razão para o aproveitamento dos partidos políticos de toda esta situação.

Fica aqui o link para o artigo. Como já referi, é uma opinião diferente da minha, mas é um ponto de vista interessante e bem fundamentado que enriquece o debate sobre a questão. E é uma questão que deve ser debatida, e ser mais do que uma mera formalidade processual que começa e acaba numa votação unânime por parte do parlamento só porque os partidos políticos não querem ficar fora da carroça da popularidade de Eusébio e amealhar um punhado de votos à conta disso.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Eusébio, o Panteão e a Assunção

O Panteão

Como seria de esperar, com a morte de Eusébio surgiu um movimento que defende a trasladação dos seus restos mortais para o Panteão Nacional.

Sabendo pouco sobre o que qualifica uma personalidade a ganhar o seu espaço no Panteão Nacional, fui fazer uma pesquisa rápida pela internet para me informar sobre este monumento e sobre as figuras que lá estão sepultadas.

Em primeiro lugar, duas rápidas definições sobre o que é um panteão:

  • Edifício consagrado à memória dos homens ilustres e onde se depositam os seus restos mortais -- Dicionário Priberam
  • (...) os panteões foram reformulados para servir de última morada àqueles que, por meio de feitos notáveis nas mais diversas áreas, engrandeceram a sua pátria: intelectuais, estadistas, artistas, etc. -- Wikipedia

Em Portugal existem tecnicamente dois Panteões Nacionais: a Igreja de Santa Engrácia em Lisboa (conhecida por Panteão Nacional), e o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, onde estão depositados os restos mortais de D. Afonso Henriques e D. Sancho I.

Atualmente existem dois formas de homenagem no Panteão Nacional (o de Lisboa). Uma dessas formas são memoriais a figuras cujos restos mortais não se encontram ali depositados, como D. Nuno Alvares Pereira, Infante D. Henrique, Pedro Alvares Cabral e Afonso de Albuquerque. Heróis da história de Portugal.

E, como é evidente, existem as sepúlturas com os restos mortais de figuras de destaque da nossa história, com predominância de presidentes da república (Manuel de Arriaga, Óscar Carmona, Sidónio Pais e Teófilo Braga) e escritores (Almeida Garrett, Aquilino Ribeiro, Guerra Junqueiro e João de Deus). As únicas personalidades ali sepultadas que não foram nem presidentes nem escritores são Amália Rodrigues e Humberto Delgado.

Não sendo um apaixonado pela literatura portuguesa nem um estudioso da primeira e segunda república, não poderei defender ou deixar de defender a justiça da presença destes presidentes da república e destes escritores no Panteão Nacional. Em relação a Amália Rodrigues e a Humberto Delgado não tenho dúvidas da justiça desta homenagem.

Tendo em consideração o que mencionei até aqui, parece-me que Eusébio da Silva Ferreira merece indiscutivelmente esta distinção. Foi um herói português, o maior embaixador do país no mundo durante largas décadas, uma figura consensual com qualidades profissionais e humanas que conquistaram quem o conheceu. Não era perfeito, claro que não. Teve momentos pouco felizes, concerteza. Mas quem de nós não teve?


A Assunção

É triste, muito triste, ouvir isto da número dois da nação.


in abola.pt

Vivemos tempos de crise em que existem crianças que passam fome e famílias sem fontes de rendimento que lhes permitam ter uma vida digna. Perante este cenário, falar em custos de centenas de milhares de euros para transportar um corpo para um monumento nacional pode parecer obsceno, mas há limites para se colocar uma visão economicista em tudo o que se faz hoje em dia.

É absurdo ouvir a Presidente da AR falar no que custará uma ação destas, apesar de não parecer muito incomodada com a rede de sanguessugas que roubam ao Estado recursos que seriam muito melhor aplicados, por exemplo, numa rede de creches decente, em escolas melhores e mais funcionais (sem os luxos chocantes das escolas de Sócrates), em melhores hospitais ou no acesso a melhores medicamentos.

Escritórios de advogados com honorários despudorados, acessores de políticos de currículo duvidoso que auferem pequenas fortunas, boys e girls partidários sem qualquer competência técnica que montam redes de favorzinhos que esmagam a competência que existe no país, negócios ruinosos patrocinados por políticos que passados uns meses após a sua saída do Governo acabam como funcionários das mesmas empresas que ajudaram a garantir rios de dinheiro nas décadas vindouras. Some-se tudo isto e provavelmente daria para acabar com a pobreza no país.

A Sra. Presidente da Assembleia da República quer falar em custos elevados em tempos de crise? Porque não fala também na sua reforma?

in sol.pt

Assunção Esteves reformou-se do tribunal constitucional em 1998. Desde então já recebeu em reformas cerca de €1.500.000 (um milhão e quinhentos mil euros). Por ter sido juíza no tribunal constitucional durante 10 anos, entre os seus 32 e 42 anos de vida. Se Assunção Esteves viver até aos 70 anos (por este andar será a idade com que a generalidade dos portugueses se poderá reformar sem penalizações nessa altura), terá recebido do Estado cerca de €3.000.000 (três milhões de euros) por um serviço de 10 anos. Com que moral pode falar de um custo de centenas de milhar de euros para homenagear uma figura que deu bem mais ao país do que aquilo que ela alguma vez dará?

Ainda por cima baralha-se com os zeros... enfim...

in dn.pt

A sério, Mozer?

in record.pt

Eusébio talvez mais acima do que Nelson Mandela? A sério, Mozer? Falamos do Nelson Mandela que esteve 27 anos preso por se opôr a um dos mais odiosos regimes da civilização moderna, que foi determinante para derrubar o apartheid de forma pacífica e que quando chegou ao poder não cedeu a sentimentos de rancor e vingança, conseguindo unir uma nação completamente dividida? Esse Nelson Mandela?


Ah, está explicado! É um conteúdo da Benfica TV... já podiam ter dito!

domingo, 5 de janeiro de 2014

Eusébio

Nunca tive oportunidade em vê-lo jogar, pelo que para mim Eusébio pertence àquela galeria de lendas em segunda mão, pelo que ouvi dizer deles ou pelas curtas imagens que vi dos seus momentos mais notáveis.

Por isso, coloco Eusébio ao nível de outras figuras como Pelé, Beckenbauer ou Cruyff. Todos abaixo de Maradona, cuja magia testemunhei em primeira mão naquele inesquecível mundial do México.

Eusébio pode nunca ter ganho um mundial, mas a forma como conseguiu em 1966 carregar aos ombros os sonhos de um país onde era proibido sonhar, é digno de ser lembrado para sempre.

Infelizmente, os últimos anos de Eusébio revelaram demasiado o homem que existia debaixo do deus, fruto de um desgaste que a idade faz chegar a todos.

Celebre-se portanto o fabuloso jogador. Esse Eusébio viverá para sempre.



segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Comparar o incomparável? - Reações

Quisemos saber a opinião de ilustres jornalistas e colunistas da nossa praça sobre quem consideram ser o melhor jogador português de sempre. (*)

Hélder Conduto

OAdD - Quem acha que é o melhor jogador português de todos os tempos? Eusébio ou Cristiano Ronaldo?
HC - É difícil fazer essa comparação, por isso não lhe vou responder. Comparar um jogador dos anos 60 de um jog <telefone começa a tocar>
OAdD - ...
HC - Estou? <inaudível> Sim, chefe. <inaudível> Certo. <desliga o telefone>
OAdD - ... 
HC - É o Eusébio, há alguma dúvida?

João Querido Manha

OAdD - Melhor jogador português de todos os tempos: Eusébio ou Cristiano Ronaldo?
JQM - Nem um nem outro. O melhor é o Markovic.
OAdD - Mas o Markovic não é português...
JQM - Desculpe, mas ainda vai a tempo de conseguir a segunda nacionalidade. Basta ficar no glorioso mais uns anitos.
OAdD - Mas isso parece-me um argumento pouco válido...
JQM - Então e capas de jornais? Em dois meses o Markovic já conseguiu ser o tema principal em mais capas de jornais que os outros dois que referiu.
OAdD - Pois, é capaz de ter razão, mas o Markovic não é português...
JQM - Quem é o jornalista aqui? Até aposto consigo que amanhã vai haver uma capa de jornal desportivo que vai revelar Markovic pondera pedir a segunda nacionalidade assim que cumpra o tempo de residência mínimo em Portugal.
OAdD - Que fonte?
JQM - A do costume. Mas não lhe posso dizer quem é, afinal eu sou um jornalista e um jornalista nunca revela as suas fontes.

Júlio Magalhães

OAdD - Quem é para si o melhor jogador português de todos os tempos: Eusébio ou Cristiano Ronaldo?
JM - Pinto da Costa.
OAdD - Mas Pinto da Costa não é jogador...
JM - Desde quando é que é preciso dar pontapés na bola para se ser dominante? E segundo os argumentos dos títulos conquistados, ninguém ganhou mais do que Pinto da Costa. Não marcou golos? Pois não, mas o Vítor Baía também nunca marcou golos e é o segundo melhor jogador português de todos os tempos.

Miguel Sousa Tavares

OAdD - Quem acha que é o melhor jogador português de todos os tempos? Eusébio ou Cristiano Ronaldo?
MST - Cristiano Ronaldo.
OAdD - <supreendido> Confesso que não estava à espera de uma resposta tão direta. Porque acha que Ronaldo é melhor? 
MST - O Eusébio jogava sempre aos domingos à tarde, por isso nunca o consegui ver jogar. É uma maçada, jogos à tarde arruínam o domingo, destroem o fim-de-semana todo a uma pessoa.

(*) Estas conversas nunca aconteceram, por favor não me coloquem um processo em tribunal. Obrigado.

Comparar o incomparável?

Agora que Cristiano Ronaldo superou o número de golos de Eusébio na seleção portuguesa, parece relançado o debate sobre quem será o melhor jogador português de sempre. Uma questão que, na minha opinião, para já tem que ficar sem resposta.

Ninguém sabe o que valeria Eusébio se fosse jogador de futebol hoje. Nem ninguém sabe o valeria Cristiano Ronaldo se fosse jogador nos anos 60. 

Quem defende Eusébio diz que Cristiano Ronaldo só é o que é porque tem muito melhores condições de treino para se tornar o jogador portentoso que todos conhecemos. Mas também os adversários de Ronaldo têm melhores condições, e todos eles (com exceção de um) estão num patamar abaixo. Também dizem que Eusébio tem melhor média de golos na seleção, o que é uma falsa questão pois nos dias de hoje as equipas estão muito melhor preparadas para anular os ataques adversários do que nos anos 60 (seja por haver uma cultura tática muito superior, ou um muito melhor conhecimento dos jogadores adversários, já que não há nenhum jogo que não tenha transmissão televisiva acessível a qualquer pessoa no mundo).

Para os que defendem Cristiano Ronaldo, o argumento de já marcou mais golos que Eusébio será suficiente. Na minha opinião não, já que não só teve muito mais jogos como adversários mais fracos para os marcar. Não sei quantos jogos Eusébio teve oportunidade de fazer contra Luxemburgo, São Marino ou Liechtenstein, mas terão sido certamente em percentagem inferior. Também o argumento da carreira internacional de Ronaldo não pega, porque cortaram as pernas a Eusébio para mostrar o que poderia fazer num clube noutro país. E a questão do ícone mundial não só não conta para quem joga à bola (senão Beckham seria o melhor jogador de sempre) como a globalização de hoje em dia endeusa qualquer pessoa que caia nas boas graças do público. Ronaldo tem uma Bola de Ouro, mas esse prémio não existia nos anos 60.

Há mais argumentos que podem ser utilizados por ambos os lados, mas todos eles podem ser rebatidos.

Quem costuma seguir a NBA sabe que Lebron James é indiscutivelmente o melhor jogador de basquetebol do mundo. Está um nível acima de qualquer outro jogador, e o talento na NBA é abundante. Há muitas comparações que fazem com Michael Jordan, considerado o melhor de sempre. Quando fazem a pergunta a outras lendas do basket sobre quem é o melhor, a resposta quase unânime é Michael Jordan. E complementam com "Quando Lebron ganhar 6 títulos da NBA podemos reconsiderar esta posição".

E é esta a minha opinião também. Quer Eusébio quer Ronaldo são jogadores dominantes da sua época (com as facilidades e dificuldades que todos os jogadores seus contemporâneos tinham que enfrentar). São ícones do futebol, inesquecíveis para quem teve o privilégio de os ver jogar. E do ponto de vista de títulos, até ver estão mais ou menos iguais.

Eusébio ganhou uma Taça dos Campeões Europeus pelo Benfica (a 2ª, nunca chegou a jogar para a 1ª). Ronaldo ganhou uma Liga dos Campeões pelo Manchester United. Ambos venceram campeonatos nacionais (mais Eusébio, mas só em Portugal). Ambos levaram a seleção a uma meia-final de uma competição internacional (Eusébio no Mundial '66 e Ronaldo no Euro 2010 -- a seleção de 2004 e 2006 era liderada por Figo, que tinha uma equipa fortíssima consigo - Rui Costa, Cristiano Ronaldo, Deco, Ricardo Carvalho, a defesa e meio campo do Porto campeão europeu).

Por isso até ver, coloco Eusébio, Ronaldo e Figo na equação do melhor jogador português de sempre. Figo marca menos golos porque não é avançado, mas não era menos brilhante que qualquer outro jogador português da história. Deixemos Ronaldo continuar a fazer o que sabe, e daqui a uns anos se calhar teremos argumentos para o considerar o nº 1. E, já agora, aproveitem. Há-de tardar que apareça outro como ele.