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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Já cá faltava

A explicação da não conquista do mundial pela Argentina                                                            
No final do Alemanha - Argentina todos os canais de informação nacionais analisaram ao pormenor o confronto que definiu o novo campeão do mundo, apontando inevitavelmente o segredo do sucesso dos vencedores e aquilo que faltou aos vencidos para triunfarem.

No caso do que terá falhado na Argentina, a falta de inspiração de Messi, a má forma de Higuain e Aguero, a lesão de Di Maria e alguns equívocos táticos de Sabella foram provavelmente os mais mencionados. Mas existe um comentador irredutível, coerente até ao tutano, que se lembrou da única verdadeira coisa que faltou à Argentina:


Toni Kroos deve sentir neste momento um enorme alívio. Só teve direito a figurar no grupo dos melhores dez jogadores do mundial porque Sabella deixou o melhor 8 do mundo no banco, e quando o chamou foi para o encostar a um flanco (por acaso na final vi-o pisar outros terrenos, mas isso devia ser eu a confundir Enzo com outro jogador).

Rui Pedro Braz provavelmente ainda poderia sugerir a naturalização de Rúben Amorim para poder ser utilizado pela seleção argentina. O suplente de Enzo no Benfica poderia dar muito jeito caso o melhor 8 do mundo pedisse para ser substituído por se encontrar esgotado fisicamente ao fim dos 90 minutos...

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O lance "ensaiado" de Muller contra a Argélia

                                                                                                                                                   

Via thesunshineroom.com

Capricho dos deuses

O penálti de Vlaar                                                                                                                                    
Confesso que não me apercebi daquilo que aconteceu imediatamente a seguir à defesa de Romero ao penálti de Vlaar, o 1º da Holanda no desempate da marca de grandes penalidades que ditaria o apuramento da Argentina para a final do mundial.


Romero defende para a frente. A bola leva um efeito caprichoso, e ao bater no chão inverte a direção e volta novamente para a baliza, chegando a entrar parcialmente. Num último movimento acaba por voltar para trás, parando mesmo em cima da linha. 

Imaginem que a bola entra. Imaginem o melão de Romero, que festejava efusivamente a defesa que acabara de realizar. Por acaso dá a ideia que Vlaar toca na bola antes desta retomar a direção da baliza, mas nenhuma das imagens exibidas todas as dúvidas. Seria o suficiente para alimentar uma grande polémica de dimensão intercontinental. Mas os deuses preferiram evitar tudo isso. Ainda bem. 

quinta-feira, 10 de julho de 2014

O passeio dos ressabiados

A opinião de Bruno Prata sobre Scolari                                                                                         
Bruno Prata escreveu no Record um artigo de opinião sobre o fracasso do Brasil no mundial. Ficam aqui algumas passagens desse artigo.
"Mas, quando as lágrimas amarelas secarem, será altura de os brasileiros perceberem que a arte de vencer se aprende nas derrotas e que, no futebol, há muito se finou o tempo da Senhora de Caravaggio e do blusão azul da sorte. Este pode ser, por isso, um momento-chave, uma oportunidade única de o futebol brasileiro deixar de acreditar em prestidigitadores que só têm contribuído para que a nação do futebol ande há duas décadas a renegar a sua identidade, mesmo que nalguns momentos isso tenha sido disfarçado pela mestria inata de meia dúzia de craques. (...) (importa acrescentar que a seleção brasileira pagou também a decisão de despedir Mano Menezes para ir comprar a cartilha propagandística de quem acabara de despromover o Palmeiras)"

Não tenho muito a acrescentar ao que já escrevi no primeiro post de hoje, mas não posso deixar de dizer que reduzir as conquistas que Scolari tem no currículo a doses industriais de sorte e ao talento dos jogadores que comandou é altamente redutor, para não dizer desonesto. A história do futebol está carregada de exemplos de seleções de grande talento que ficaram muito aquém daquilo que delas se esperava. Scolari "apenas" venceu um mundial, chegou às meias-finais noutras duas ocasiões e a uma final de um europeu. Imaginem se Scolari tivesse alguma qualidade que fosse útil para uma equipa de futebol...

Convém também lembrar que a decisão de despedir Mano Menezes não foi assim tão estapafúrdia quanto Bruno Prata refere. O motivo do despedimento foram resultados que ficaram abaixo do esperado em competições oficiais.

Copa América 2011

Fase de grupos
Brasil 0 - Venezuela 0
Brasil 2 - Paraguai 2
Brasil 4 - Equador 2

Quartos de final
Brasil 0 - Paraguai 0 (0-2 em penáltis)


Jogos Olímpicos 2012

Fase de grupos
Brasil 3 - Egito 2
Brasil 3 - Bielorrúsia 1
Brasil 3 - Nova Zelândia 0

Quartos de final
Brasil 3 - Honduras 2

Meias finais
Brasil 3 - Coreia do Sul 0

Final
Brasil 1 - México 2

De referir que os 3 jogadores escolhidos por Mano Menezes acima dos 23 anos para os JO foram Thiago Silva, Marcelo e Hulk, que se juntaram a jogadores altamente promissores como Lucas Moura, Leandro Damião, Óscar, Neymar, Danilo, Alex Sandro, Ganso e Alexandre Pato.

Depois disso, é conveniente relembrar que Scolari venceu a única competição oficial que disputou até ao mundial.

Taça das Confederações em 2013

Fase de grupos
Brasil 3 - México 0
Brasil 2 - México 0
Brasil 4 - Itália 2

Meias finais
Brasil 2 - Uruguai 1

Final
Brasil 3 - Espanha 0

Pacto da treta

Hummels e o pacto de não humilhação ao Brasil                                                                                   
in record.pt

Se não queria humilhar os brasileiros, devia era ter ficado calado em relação ao "pacto" que fizeram ao intervalo. Toda a gente percebeu que a Alemanha levantou o pé do acelerador na segunda parte - e não sejamos ingénuos, também interessava aos alemães pouparem-se para a final e evitarem lesões e cartões.

Sendo verdade que os jogadores fizeram o tal pacto, foi uma atitude nobre. Mas ao virem a público revelá-lo, o altruismo do ato que dizem ter feito acaba por perder muito do seu valor. Fica apenas um sabor a condescendência totalmente dispensável.

Scolari

                                                                                                                                         
Tivemos por cá muitas manifestações de satisfação pela estrondosa derrota do Brasil contra a Alemanha, não tanto pelo sucesso alemão ou pelo fracasso brasileiro, mas sobretudo pela humilhação a que Luís Felipe Scolari foi sujeito. Não fiquei surpreendido.

O treinador brasileiro nunca foi uma figura consensual enquanto responsável pela nossa seleção, principalmente desde que comprou uma guerra com o Porto ao não prestar vassalagem a Pinto da Costa, e cujo efeito mais visível foi deixar de convocar Vítor Baía quando o guarda-redes estava no auge da sua carreira. Scolari chegou ao ponto de convocar o 3º guarda-redes do Porto numa atitude claramente provocatória, semelhante ao que Paulo Bento fez ao pré-convocar João Mário ao mesmo tempo que excluía Adrien Silva dessa lista. Devo dizer que após a convocatória de Paulo Bento comecei a compreender um pouco melhor a animosidade dos portistas contra Scolari.

É verdade que o selecionador brasileiro desperdiçou praticamente dois anos de trabalho durante a preparação do Euro 2004 ao insistir na aposta em jogadores com um passado mais longo na seleção, em detrimento de uma geração de jogadores que despontava no Porto. Mas não é menos verdade que Scolari não hesitou em fazer as devidas alterações logo após a derrota contra a Grécia, no jogo inaugural do Euro 2004 que foi, também, o seu primeiro jogo oficial ao serviço da seleção portuguesa. Até aí não tinha tido oportunidade de ver a sua equipa em jogos a doer. Já tivemos treinadores mais teimosos que nem à quarta ou quinta oportunidade corrigiram erros que eram óbvios à generalidade do público.

O que é indiscutível é que Scolari conseguiu os melhores resultados de sempre com a seleção: uma final num europeu e uma meia-final num mundial.

Sim, no Europeu jogávamos em casa, mas está mais que provado que isso é uma vantagem virtual (a não ser que os árbitros queiram dar uma alegria ao povo anfitrião, como sucedeu na Coreia do Sul em 2002). Aliás, sabem quais foram as últimas ocasiões em que o país anfitrião chegou à final de uma grande competição? Precisamente, Portugal em 2004. Antes disso, a França em 1998. A derrota na final com a Grécia foi um desastre difícil de entender, concedo, mas isso não deveria apagar aquilo que foi uma campanha notável da seleção que afastou, entre outras, a Espanha, Inglaterra e Holanda.

Tínhamos a melhor geração de jogadores da nossa história? Na minha opinião, não. A melhor geração de jogadores que alguma vez tivemos teve o seu auge em 2000 / 2002, altura em que Figo, João Pinto, Rui Costa, Fernando Couto e Vítor Baía estavam no pico das suas carreiras. E o melhor que conseguimos foram as meias-finais de 2000. No Euro 2004, Figo já tinha 31 anos e Rui Costa 32 anos, por exemplo. No Mundial 2006, Figo já tinha 33 anos.

Scolari limitou-se a aproveitar o trabalho de Mourinho no Porto? Sim, é verdade que aproveitou, mas desde quando é que isso é um defeito? Pelo contrário. Felizmente para nós, Scolari apercebeu-se a tempo do erro que estava a cometer e acabou por aproveitar até ao tutano o conhecimento que Paulo Ferreira, Nuno Valente, Ricardo Carvalho, Costinha, Maniche e Deco tinham entre si. Será que Paulo Bento teria feito o mesmo?

Já agora, alguém tira mérito a Low por estar a aproveitar a base do Bayern? Ou a Del Bosque por tentar replicar ao máximo a filosofia de jogo do Barcelona?

Mais: Scolari enfrentou um grupo cujo líder, Figo, se opunha abertamente à entrada de Deco na seleção (e muito provavelmente à chegada do próprio Scolari). Soube ultrapassar isso e os dois acabaram por se entender e levar a seleção aos seus melhores resultados de sempre. Scolari conseguiu compatibilizar duas gerações de jogadores e colocá-las ao serviço dos melhores interesses da seleção. Conseguiu galvanizar os jogadores e um país inteiro. Não me parece que fosse uma tarefa assim tão simples e, tirando Mourinho, não estou a ver outro treinador que na altura fosse capaz de atingir os mesmos resultados.

Pode-se discutir se o ciclo de Scolari não devia ter terminado em 2006, mas compreende-se a decisão da FPF prolongar o contrato por mais dois anos. Infelizmente, Scolari acabou por fazer uma tristíssima figura no final do Portugal - Sérvia, ao tentar agredir um jogador adversário, e os quartos de final alcançados nesse Europeu acabaram por ser uma desilusão.

Os fracassos que Scolari acumulou após a saída da seleção ajudaram a alimentar a fama de mau treinador, expondo de forma perfeitamente clara os seus defeitos, numa realidade em que qualidades como capacidade de planeamento, organização e competência tática acabam por ter um peso completamente diferente do que no trabalho de selecionador.

Nos últimos anos, o nome de Scolari acaba por ser lembrado na comunicação social e nas redes sociais sobretudo pelos seus defeitos e quase nunca por aquilo de bom que conseguiu enquanto foi o nosso selecionador. Scolari é visto por muitos como alguém que teve um papel marginal nos sucessos, e por vezes como um empecilho que impediu os nossos jogadores de conquistarem o europeu de 2004 e o mundial de 2006. Como se fosse uma coisa perfeitamente natural Portugal vencer provas desta dimensão.

Na minha opinião, Scolari merece mais reconhecimento dos portugueses pelos resultados que conseguiu. A mais temível seleção que alguma vez tivemos não é apenas resultado da qualidade dos jogadores. O selecionador teve um papel importante que foi bem para além das ações de marketing e das ajudas das divindades que invocava.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Capas que vão fazer história

Em jeito de brincadeira podemos dizer que perder 7-1 (nomeadamente contra equipas alemãs) é coisa que pode acontecer até aos melhores, mas a verdade é que a derrota de ontem do Brasil é coisa para ser falada daqui a 50 anos em todo mundo. 

A participação brasileira no mundial nunca foi convincente a ponto de serem considerados OS favoritos para vencer o mundial, mas nunca ninguém alguma vez imaginou que este massacre pudesse ser possível. Uma humilhação desportiva que se vai juntar a todos os problemas económicos e sociais que a organização da competição já tinha provocado no povo.

Voltando à questão estritamente desportiva, uma coisa parece ser certa: vão haver consequências pelo que aconteceu, tal como existiram em tantos outros países que desiludiram no mundial. Por cá, diz-se que vai ser feito um relatório que analisa as razões do nosso fracasso, mas todos sabemos que vai ficar tudo exatamente na mesma.









(capas via @nunovalinhas)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Os motivos do fracasso da seleção


Não deve haver um único português que tenha considerado positiva a campanha no mundial da seleção portuguesa. Não nos qualificarmos para os oitavos de final num grupo como o nosso é uma desilusão, mesmo que no papel o Gana seja uma seleção com alguns jogadores fortes e os EUA tipicamente organizarem o calendário das suas competições internas de forma a poderem aparecer no mundial na melhor forma possível.

Paulo Bento diz que o jogo com a Alemanha marcou muito negativamente a equipa, mas a verdade é que o destino se encarregou de nos dar algumas ajudas - a combinação dos resultados dos jogos EUA - Gana e Alemanha - Gana voltou a pôr-nos dependentes de nós próprios, e os problemas no estágio no Gana colocaram-nos à frente uma equipa psicologicamente destroçada - que nós não soubemos aproveitar.

Ouvir Paulo Bento dizer que é o único responsável por tudo o que de mau se passou é preocupante. Não só não corresponde à verdade, como leva a duvidar que a FPF vá fazer uma avaliação séria de todos os aspetos que falharam - e que não se resumem apenas ao selecionador. Que Paulo Bento não se importa de dar o corpo às balas, já todos sabíamos. Foi assim no Sporting durante vários anos. O problema é que ao fazê-lo está mais uma vez a dar cobertura a outras pessoas que não fizeram o seu trabalho de forma competente, e que merecem também ser julgadas pelo insucesso da campanha no Brasil.

Foram vários os erros cometidos. Tentando não ser demasiado exaustivo, aqui fica a minha opinião sobre quais os motivos principais que contribuíram para a nossa eliminação prematura.


A convocatória

Não foram convocados os 23 jogadores que poderiam dar o melhor contributo no mundial. Paulo Bento foi fiel ao seu núcleo duro, independentemente do estado seu estado físico e de forma. Compreendo que se levem alguns jogadores que façam bom balneário, mas nunca pode ser esse o principal critério de escolha.

A aposta na polivalência foi excessiva: não faz sentido levar apenas 2 laterais de raíz e deixando opções bem mais válidas para várias posições em Portugal.

É verdade que os nossos 10/12 melhores jogadores estavam lá. Mas olhando agora após o facto consumado, parece evidente que alguns dos que ficaram de fora dos 23 poderiam ter tido um papel importante, com Antunes, Adrien, Quaresma e Bebé à cabeça. Muito provavelmente teria sido o suficiente para seguirmos em frente para os oitavos de final.


O calendário de preparação

Paulo Bento focou ontem o facto de a Alemanha ter chegado ao Brasil apenas três dias antes de Portugal. A questão é que a Alemanha fez o estágio no Estado da Bahia, onde se realizou o primeiro jogo. Estiveram, portanto, a treinar oito dias no clima em que disputariam o primeiro jogo.

A passagem pelos EUA teve o mérito de adaptar os jogadores ao fuso horário da competição, mas os benefícios desportivos ficaram-se por aí. A seleção viajou para Campinas (que do ponto de vista de clima é diferente dos locais dos dois primeiros jogos) apenas cinco dias antes da estreia no mundial. Teria sido bem mais produtivo viajar-se mais cedo para o Brasil, e de preferência num ambiente mais reclusivo do que aquele estado de festa permanente que se viveu.

Neste caso parece-me que a responsabilidade será da direção, pois este tipo de decisões envolvem questões financeiras relevantes que ultrapassam as competências do selecionador.


Desaproveitamento dos jogos de preparação e persistência no erro

Paulo Bento utilizou os jogos de preparação com a Grécia e México para experimentar novos sistemas de jogo, em vez de verificar como respondiam os jogadores no sistema tradicional para perceber quem está em melhor forma. Quando começaram os jogos a doer, o selecionador optou pelo sistema do costume, com os jogadores do costume.

A resposta com a Alemanha foi má, mas contra os EUA Paulo Bento apostou exatamente nos mesmos jogadores (excetuando as alterações forçadas devido a lesões). A entrada de William deveu-se apenas à lesão de André Almeida, e nesses 45 minutos William demonstrou aquilo que todos já sabíamos: era a melhor opção para o lugar.

Também era evidente que Meireles há muito que já não tem a intensidade de jogo que o caracterizava no auge da carreira. Dentro do lote de selecionados, Rúben Amorim parecia estar em melhores condições de fazer aquele papel. Infelizmente foi preciso esperar pelo jogo com o Gana para o ver jogar.

Rui Patrício terminou cedo a época no Sporting, mas apenas foi utilizado no jogo com a Irlanda. Ou seja, chegou ao jogo contra a Alemanha apenas com 90 minutos de utilização no espaço de um mês. Para um guarda-redes presumivelmente titular, não se justificava que tivesse sido mais utilizado durante os jogos particulares?

E finalmente Ronaldo. Sendo um jogador que raramente participa no processo defensivo e com as limitações que eram conhecidas, não faria mais sentido jogar a 9? Se é verdade que foi o próprio a recusar-se a jogar nessa posição, o caso é ainda mais grave.


As lesões

Foram demasiadas para se poder atribuir exclusivamente à falta de sorte. A convocação foi, neste sentido, o 1º prego no caixão: foram escolhidos demasiados jogadores em más condições físicas. Depois alguma coisa deverá ter sido mal calculada na preparação, pois as lesões musculares sucederam-se.

Como é evidente, aqui as responsabilidades terão que estar situadas algures entre a equipa médica e os preparadores físicos.


O que se segue

Existiram outras coisas que na minha opinião não correram bem, mas parece-me que as que mencionei são as principais. 

É agora imperioso iniciar um processo de renovação dos jogadores, trazendo jovens com mais fome de bola, que tenham algo a provar e que queiram marcar o seu espaço, e deixar de fora jogadores que estão claramente na fase descendente das suas carreiras. Infelizmente, Paulo Bento não parece ser uma pessoa com o perfil indicado para esta tarefa - as suas declarações reafirmam a lealdade para com aqueles que o acompanharam ao longo dos quatro anos em que está no cargo - pelo que nos resta desejar que a estrutura FPF consiga dar a orientação necessária ao selecionador para que os interesses da seleção sejam defendidos. Algo me diz que é melhor esperarmos sentados.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Os salários dos selecionadores do mundial

                                                                                                                                        
Valores em libras.

via @nunovalinhas

Se estivesse no lugar de Paulo Bento também não quereria sair. Espero que saiba justificar os €3,2M que irá receber até ao Euro 2016.

Curiosamente, os três mais bem pagos também foram eliminados. Apenas continuam em prova 8 dos 16 mais bem pagos.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Fim

                                                                                                                             
Despedimo-nos com o melhor jogo que fizemos no mundial, o que, convenhamos, não era difícil. Paulo Bento finalmente fez alterações no meio-campo que há muito se impunham e a resposta foi positiva. 

Por outro lado, Paulo Bento optou por não mexer nos três elementos mais ofensivos, o que se demonstrou ter sido uma má decisão, pois Éder foi um elemento a menos em campo.

Entrámos bem, criámos oportunidades para marcar e chegámos com felicidade ao 1-0. À medida que o tempo foi avançando fomos perdendo gás, e na segunda parte o Gana acabou por conseguir tomar conta do jogo.

Ironicamente, acabámos por sofrer o golo do empate imediatamente a seguir aos alemães terem feito aquilo que precisávamos deles. A equipa ficou impaciente, mais partida, sucederam-se passes errados, mas conseguiríamos chegar ao 2-1 com mais um erro defensivo do nosso adversário.

A partir daí os ganeses ficaram psicologicamente arrasados e acabámos por ter oportunidades suficientes para marcar os 3 golos que nos faltavam para conseguirmos o apuramento, mas estivemos péssimos na finalização.

Noutras circunstâncias, a vitória por 2-1 seria um bom resultado. O Gana é uma equipa complicada, que esteve bem melhor que Portugal contra alemães e americanos, e os nossos jogadores fizeram um jogo sério e empenhado, pelo que não merecem censura pelo que fizeram hoje. 

A nossa eliminação teve, acima de tudo, origem em dois momentos: na convocatória e no jogo com os EUA. Escreverei sobre isso amanhã, mais a frio.

P.S.: mais uma vez, muito maus os comentários de Paulo Sérgio na RTP. Quem passa largos minutos a dizer que só nos faltavam dois golos para o apuramento, quando nos faltavam três (o que não é um pormenor de pouca importância naquelas circunstâncias) está a prestar um péssimo serviço a quem assiste ao jogo. Ao começar a narração de um jogo falando no 3º penteado de Ronaldo mostrou que está na carreira errada. Pode ser que a SIC Caras esteja a precisar de pessoal.


Portugal - Gana: à espera de um milagre

                                                                                                                                         
Há pouco mais de duas semanas, após a vitória categórica contra a Irlanda, estava longe de imaginar que chegariamos à 3ª jornada da fase de grupos numa situação tão delicada como aquela em que estamos metidos hoje.

A palavra milagre tem sido referida por jogadores, jornalistas e adeptos a um ritmo que nos faz pensar que estamos a falar das aparições em Fátima, e não de um jogo de futebol. Mas é mesmo de um milagre que precisamos. Aliás, de dois milagres: uma vitória nossa contra o Gana  e outra da Alemanha aos EUA com números que nos permitam recuperar o abismo de diferença de golos que nos separa dos americanos.

O pior é que, olhando para o percurso dos várias equipas intervenientes, o milagre mais complicado parece ser a nossa vitória. Acredito mais que a Alemanha consiga vencer por 3 golos, do que nós por 2 golos o Gana.

Infelizmente os nossos jogadores parece que também já atiraram a toalha ao chão. Ronaldo demonstrou mais uma vez não saber lidar bem com o fracasso, fazendo declarações que não lhe ficam nada bem após o jogo com os EUA - ainda mais sendo o capitão de equipa. Essa falta de confiança também ficou bem evidente nas palavras de João Pereira, Ricardo Costa e Pepe, os jogadores que entretanto falaram para os jornalistas.

Em relação ao onze, parece-me que se justifica que Paulo Bento faça as seguintes alterações:

  • Colocar Ronaldo a ponta-de-lança, de forma a que joguem dois extremos que desçam a apoiar o lateral. Não é admissível que voltemos a jogar num esquema tão desequilibrado como aquele que vimos no jogo passado. Assim como assim, Hélder Postiga e Hugo Almeida não devem estar aptos, e Éder mostrou muito pouco contra os EUA, pelo que Ronaldo acaba por ser a única opção para o centro do ataque.
  • Retirar os jogadores em pior forma, dando oportunidades a outros que têm demonstrado estar melhor: William Carvalho, Ricardo Costa, Rúben Amorim devem jogar nos lugares de Miguel Veloso, Bruno Alves e Raúl Meireles.
  • A defesa esquerdo, confesso que estou indeciso sobre quem será a melhor opção entre André Almeida e Miguel Veloso. Talvez apostasse em Almeida, apesar de haver dúvidas sobre se estará em condições para jogar.

Independentemente de quem jogue, espero que tentem aproveitar esta oportunidade para deixar uma imagem um pouco mais positiva. Que joguem como se o apuramento estivesse exclusivamente dependendo de nós, indo à procura do golo desde cedo, mandando no jogo e demonstrando um pouco da qualidade que celebrizou o futebol português nestas grandes competições nos últimos dez anos. Qualquer coisa que nos tire parte deste intenso sabor a amargo que as exibições feitas até agora nos deixaram.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Stephen Colbert e o EUA - Portugal

                                                                                                                                       

A conferência de imprensa de ontem

                                                                                                                                     
Humberto Coelho fez finalmente o frete de interromper as férias e compareceu com Henrique Jones na sala de imprensa para responder às perguntas dos jornalistas, que finalmente parecem ter percebido que nem tudo correu maravilhosamente bem na preparação do mundial.

As perguntas colocadas foram pertinentes, mas as respostas do diretor da FPF foram evasivas e pouco esclarecedoras. Humberto Coelho foi trapalhão, não acrescentou nada de novo, e foi evidente que deu a cara apenas para tentar aliviar alguma da pressão da conferência de imprensa que Paulo Bento dará esta tarde em Brasília.

Por seu lado, Henrique Jones desvalorizou o estado físico e as lesões dos jogadores, afirmando que não havia motivos para acreditar que não fossem estar a 100% durante o mundial, acrescentando que todos os jogadores que entraram em campo estavam medicamente aptos a jogar.

O médico da seleção afirmou ter dado a sua opinião sobre as características do centro de estágio no momento da escolha, mas que não teve influência na decisão final - nem sequer confirmou se concordou com Campinas. Disse também que a seleção precisaria entre 15 a 30 dias para se adaptar a 100% ao clima de Manaus, e 10 a 15 dias ao clima de Salvador, pelo que seria impossível os jogadores conseguirem estar totalmente ambientados.

Aparentemente também não foi Henrique Jones que escolheu o fisioterapeuta do Real Madrid para fazer parte da comitiva. O médico limitou-se a indicar à direção que precisava de mais dois fisioterapeutas, e que não teve influência nos nomes dos técnicos que foram contratados.

Compreendo que ninguém tenha dado qualquer resposta que ajudasse a esclarecer o que tem estado a correr mal neste mundial. Para todos os efeitos, existem ainda ténues possibilidades de passarmos à fase seguinte e apenas estariam a dar tiros nos próprios pés se começassem a revelar aquilo que efetivamente se passou desde que o mundial começou a ser preparado.

No entanto, não só não continuamos sem respostas que expliquem as opções tomadas, como as perguntas ainda se continuam a acumular: 

  • Se não foi o médico, quem decidiu integrar o fisioterapeuta do Real na comitiva? Foi Cristiano Ronaldo que fez pressão? Jorge Mendes? O Real Madrid diretamente? Quem na federação tomou essa decisão?
  • Se é necessário assim tanto tempo para os jogadores se adaptarem ao clima de Salvador e Manaus, não faria sentido a seleção chegar mais cedo? Em vez de fazer de Campinas o hub das deslocações da seleção, porque não viajaram diretamente para o local dos jogos? Sempre teriam mais alguns dias de adaptação?
  • Se os jogadores estão medicamente aptos, significa que houve algo que falhou redondamente para os colocar em condições físicas e técnicas para jogos desta importância. Quem são os responsáveis por isso? A equipa técnica? Falta de motivação dos jogadores? Mau ambiente no balneário?

São perguntas que percebo que só venham a ser respondidas após o regresso a casa de Portugal. Mas espero que os jornalistas façam o seu trabalho e pressionem a FPF a respondê-las - caso contrário dificilmente haverá apuramento de responsabilidades e arriscamo-nos a termos mais do mesmo daqui a dois anos.

Um apelo ao Gana


Nem nos matraquilhos...


terça-feira, 24 de junho de 2014

He's back!


A luta de um jornalista desportivo contra uma horda de climatólogos

                                                                                                                                           
Luís Pedro Sousa, chefe de redação do Record, escreveu na semana passada a propósito das reações que se seguiram ao Alemanha - Portugal:
Portugal viveu uma semana de depressão. A goleada sofrida frente à Alemanha, no jogo de estreia do Mundial 2014, não só fez esquecer a euforia vivida nos dias anteriores, especialmente desde as vitórias nos dois mais recentes jogos de preparação e das notícias relacionadas com a plena recuperação de Cristiano Ronaldo, como permitiu que emergisse uma série de novas vocações entre os cidadãos nacionais. O país ficou a saber que tem milhares de especialistas em meteorologia, climatologia, fisiologia e até medicina, que ainda acumulam tais saberes com uma notável cultura futebolística, especialmente nas suas componentes tático-estratégicas.

Da parte que me toca, assumo que a carapuça me serve na perfeição. Sim, escrevi sobre a hipótese de o local de estágio ter sido mal escolhido. Sim, escrevi sobre o facto de a seleção poder não ter tido tempo suficiente de adaptação às diferentes condições climatéricas que iria encontrar na fase de grupos. Sim, coloco em causa a preparação física e o rigor dos pareceres médicos que deram a cobertura necessária para que Paulo Bento embarcasse com os jogadores da sua preferência. Sim, coloquei em causa os experimentalismos nos jogos de preparação que impediram que o mais-que-provável onze inicial ganhasse rotinas no sistema de jogo que todos saberíamos que seria utilizado quando chegassem os jogos a doer.

Sim, tenho tendência para ficar otimista para o futuro próximo quando conseguimos uma boa exibição, da mesma forma que fico mais cético para o que aí vem quando fazemos um jogo abaixo das expetativas.

Quais as minhas qualificações técnicas de metereologia, climatologia, fisiologia, medicina e cultura futebolística, em especial nas suas componentes tático-estratégicas? Zero. 

Considero-me, no entanto, um indivíduo relativamente atento ao que se vai passando, e há décadas que sigo em detalhe todas as incidências à volta destas grandes competições. E lamento dizer a Luís Pedro Sousa que sempre que chegamos a estas grandes competições internacionais levamos com os discursos dos responsáveis em como todos os pormenores estão a ser minuciosamente preparados para que nada falhe quando chegar a hora das decisões. E existem temas que são invariavelmente referidos quando chegamos a esta fase, como a importância da adaptação ao clima local e a existência de programas específicos para que cada jogador possa chegar à competição na melhor forma possível após uma longa e desgastante época. Coisas que normalmente damos por garantidas, mas que acabam por saltar à vista de todos quando não são feitas de forma competente.

Mais: se os pormenores extra-jogo não fossem importantes, bastaria levarmos uma comitiva com 23 jogadores, treinadores, uma equipa médica, algum staff de apoio direto, e seria suficiente. No entanto, a comitiva oficial que está no Brasil é composta por:
  • 23 jogadores (agora apenas 22)
  • 1 selecionador nacional
  • 3 treinadores adjuntos
  • 2 médicos
  • 1 enfermeiro
  • 1 fisioterapeuta-chefe
  • 2 fisioterapeutas
  • 1 fisioterapeuta do Real Madrid
  • 1 analista de equipas adversárias
  • 1 técnico de audiovisuais
  • 4 técnicos de equipamentos
  • 1 presidente da FPF
  • 1 vice-presidente da FPF
  • 1 diretor da FPF
  • 1 diretor geral da FPF
  • 1 diretor da divisão desportiva da FPF
  • 1 diretor de operações
  • 3 observadores (não sei o que observam)
  • 2 assessores de imprensa
  • 1 organização (é este o cargo oficial, não faço ideia do que significa)
  • 1 oficial de segurança da PSP
  • 1 oficial de segurança da GNR (é para não ferir suscetibilidades?)
  • 2 chefes de cozinha
  • 1 representante da Nike (?)
  • 1 representante da Cosmos (WTF?, o que faz este? Leva a bolsinha com todos os bilhetes de avião?)
  • 1 fotógrafo

in Media Guide FPF

Ao todos, viajaram para o Brasil 36 indivíduos para que nada falte aos 23 jogadores convocados. Das duas, uma: ou assumimos que as pessoas que fazem parte da comitiva têm efetivamente um papel a desempenhar, ou então estão simplesmente a passar férias pagas à conta da FPF. Prefiro acreditar na primeira hipótese, e creio que Luís Pedro Sousa concordará comigo (caso contrário já o teria escrito nas suas colunas de opinião).

Por isso gostaria que os senhores jornalistas (Luís Pedro Sousa não foi o único) saibam viver com as opiniões sobre todas aquelas coisas que nos venderam como sendo fundamentais para que a seleção tenha sucesso, que vêm dos vários setores da sociedade civil, de gente com visibilidade mediática ou simplesmente pessoas anónimas como eu. Para todos os efeitos, é a nós que a seleção portuguesa está a representar. Não é um assunto que interesse apenas a jornalistas desportivos, dirigentes, jogadores e treinadores. Diz respeito a um país inteiro.

O que é triste é que, sendo jornalista desportivo, tenha preferido ocupar linhas a ironizar sobre quem fala sobre o assunto em vez de se dar ao trabalho de escrever sobre assuntos importantes que têm sido ignorados pela generalidade da imprensa.

Já agora, dispenso que jornalistas desportivos, uma classe carregada de "profissionais" que envergonham diariamente o seu código deontológico, incapazes de chamar os bois pelos nomes quando os factos o justificam plenamente, os primeiros a alinhar no folclore do desígnio nacional a bem da construção de audiências e vendas de jornais, que mataram o jornalismo de investigação para passarem a ser ferramentas de propaganda ao serviço de terceiros, que diariamente preenchem páginas de opiniões que ou são insonsas ou carecem de um mínimo de isenção, e que fizeram da especulação um modo de vida com o objetivo de faturar mais uns cobres, venham agora, do alto da sua imensa sabedoria, criticar aqueles que ousam dar a sua opinião nos espaços que têm ao seu dispor. Não só é pretensioso como, acima de tudo, não têm qualquer estatuto moral para o fazer.

A alma gémea de Paulo Bento

                                                                                                                                         
Nota prévia: este post não é uma crítica ao visado pela opinião que deu. Longe de mim estar a criticar os comentadores que dão as suas opiniões ANTES dos jogos começarem, mesmo que tenham falhado redondamente nas suas previsões. Prefiro esses aos que ganham a vida fazendo prognósticos de totobola à segunda-feira nos nossos jornais e televisões. Os jornalistas e comentadores de hoje preferem refugiar-se nos lugares comuns e alinhar pelo diapasão de quem manda, sendo cada vez menos aqueles que arriscam dar as suas verdadeiras opiniões antes do facto consumado.

O programa Contragolpe deste domingo foi para o ar pouco antes do início do EUA - Portugal. Após se conhecer o onze que Paulo Bento iria utilizar, a maior parte dos comentadores do programa (goste-se ou não, é um programa que efetivamente tem pessoas ligadas ao jornalismo que são independentes e dizem o que pensam) não compreendeu algumas das apostas de Paulo Bento. Por exemplo, a aposta em Postiga e o facto de William ficar no banco.

Todos os comentadores? Nem todos. Existe um irredutível comentador que continua a estar numa perfeita sintonia com as opções e ideias de Paulo Bento:


As opiniões de Rui Pedro Braz são legítimas (apesar de altamente discutíveis), mas agora que sabemos como se passou, olhar para isto só dá uma enorme vontade de rir (ou de chorar).

"Postiga deve ter crescido fisicamente neste estágio"

"Os EUA vão oferecer todo o controlo à seleção portuguesa (...) por aí explica-se a presença de Miguel Veloso no onze, vai ser muito importante Portugal ter boa circulação de bola em zonas mais próximas da área adversária"

Enfim, embirrações minhas que vêm desde o momento em que este mesmo senhor disse isto:


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Os números não mentem

A condição física da nossa seleção                                                                                        
O site squawka.com tem uma série de estatísticas interessantíssimas sobre os jogos do campeonato do mundo. Estive a olhar para o grupo de estatística Duels, que basicamente mostra o sucesso que os jogadores de cada seleção têm nas situações de confronto físico com os adversários.

Existem estatísticas de três categorias:

  • Tackle (disputa de bola pelo chão)
  • Take Ons (quando um jogador tenta ultrapassar um adversário no um contra um)
  • Aerial (disputa de bolas aéreas)


Ao nível dos Take Ons, estamos ao nível das melhores, graças sobretudo às ações individuais de Nani (que nos dois jogos conseguiu 6 ações em 8).


Ao nível dos Tackles, os números portugueses já não são tão lisonjeiros, correspondendo à 26ª posição com apenas 37% de bolas ganhas.


No jogo aéreo, os números são assustadores: somos a 2ª pior equipa do mundial.


Na soma destas três categorias, ficamos no 26º lugar.


Como é evidente, há vários fatores que são determinantes para a má prestação da seleção até agora, mas a componente física tem sido seguramente uma delas.