Mostrar mensagens com a etiqueta Benfica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Benfica. Mostrar todas as mensagens

sábado, 15 de junho de 2019

“Basta”, dizem eles...

Gorada a perspetiva de arrumar o campeonato no 4º jogo, apesar de terem estado a apenas 30 segundos de o conseguir, a estrutura benfiquista parece agora temer que a história do ano passado se repita: recuperação do Sporting de 1-2 para 3-2 em jogos, valendo, desta vez, um inédito tetracampeonato para os Leões.

Se as vitórias dos dois primeiros jogos assentam bem a uma e a outra equipa, o mesmo não se pode dizer do que aconteceu no 3º jogo: a partida ficou marcada por uma agressão de Robinho a Dieguinho que foi invertida de forma inacreditável pela equipa de arbitragem. O pivot do Sporting foi expulso, o Benfica marcou golo na sequência do respetivo penálti (lembro que o resultado final foi de 4-3 para o nosso adversário), e o Sporting ficou sem um dos seus jogadores mais importantes para o 4º e 5º jogo.

Na passada quinta-feira, no jogo 4, o Sporting voltou a ter razões de queixa da arbitragem. Conforme apontou e bem Nuno Dias no final do jogo - após ter tido conhecimento das queixas de Joel Rocha -, ficou um penálti por assinalar a favor do Sporting por pontapé na cara de João Matos na área do Benfica, e ficou um vermelho por mostrar a Roncaglio, por ter jogado a bola com o braço fora da área. Acrescento ainda a absurda 5ª falta assinalada ao Sporting na primeira parte após corte limpo de Pany Varela.

Infelizmente, é isto o habitual nos últimos anos nos jogos entre Sporting e Benfica.

Mas ontem, o team manager do Benfica, Gonçalo Alves, num notável exercício de hipocrisia, tentou fazer passar a ideia de que o seu clube é que foi prejudicado, alegando a existência de uma enorme quantidade de faltas mal assinaladas. Um absurdo completo, visto que essa afirmação não poderia ser mais falsa - e em especial na falta de André Coelho que deu origem ao livre de 10 metros que Rocha converteria no 4-3, destacada pelo dirigente benfiquista.

Disse Gonçalo Alves:
"Então o lance que deu origem ao 4-3, que virou o resultado completamente... O André Coelho ganha posição, toca na bola e segue... Falta! O árbitro que apita é o que está mal posicionado. O outro está em linha, vê o lance, percebe que não é falta... Isto é que é grave: o árbitro que está mal posicionado é que apita. Mas temos algum azar com ele, o Benfica raramente ganha com este árbitro e há sempre lances polémicos, jogadores expulsos..."

Descaramento total. Basta olhar para o lance...


... para ver como André Coelho abalroa Merlim. Falta claríssima, bem assinalada pela equipa de arbitragem.

Tentativa mais que óbvia de condicionamento da arbitragem do quinto e decisivo jogo no Pavilhão da Luz. Perante isto, apenas podemos concluir que, ao Benfica, não bastam arbitragens imparciais. Aliás, conforme vimos na quinta-feira, nem sequer bastam arbitragens que os favoreçam num par de lances críticos: as únicas arbitragens aceitáveis para o Benfica são aquelas em que há salvo conduto para os seus jogadores fazerem o que bem entenderem dentro da quadra. As regras do jogo são secundárias. Se ganharem da mesma forma que ganharam na vergonhosa final de 2011/12... está tudo bem.



terça-feira, 18 de setembro de 2018

The lone gunman

De acordo com uma hilariante "nota à comunicação social" emitida no final da tarde de ontem no site do Benfica, Paulo Gonçalves deixou de ser assessor jurídico do clube. Vale mesmo a pena ler:


O ponto alto desta nota riquíssima de conteúdo é a patética tentativa de convencer o povo de que o processo judicial em que Paulo Gonçalves está envolvido em nada está relacionado com as suas funções na SAD benfiquista: aparentemente o autor deste comunicado esqueceu-se de que a Benfica SAD é acusada nesse mesmo processo. Pelos vistos a amnésia que afligiu o presidente está a espalhar-se pela hierarquia abaixo.

Aliás, só mesmo um caso agudo de perda de memória é que pode explicar a mudança de atitude do Benfica face a Paulo Gonçalves. Há apenas pouco mais que uma semana, uma fonte oficial do clube disse ao Expresso que deixar cair Paulo Gonçalves seria uma admissão de culpa.

(via @paulamargarida_)

Depois do esforço narrativo de transformar Paulo Gonçalves num mero colaborador da SAD - apesar de falarmos de alguém que representou o Benfica variadíssimas vezes em instâncias relevantes -, o gabinete de crise passou para a fase seguinte: numa altura em que começa a ser cada vez mais evidente que as provas são avassaladoras, tentam vender ao público que o ex-assessor é uma espécie de lone gunman, que planeou e executou sozinho um plano do qual o Benfica não retirou qualquer benefício - isto apesar de estarmos a falar da estrutura que está dez anos à frente, apesar do mais que conhecido percurso profissional pré-Benfica de Paulo Gonçalves, apesar de os mails comprovarem que Vieira sempre teve perfeito conhecimento da existência dos meninos queridos e das borlas que Paulo "Rei das Borlas" Gonçalves lhes dava no "interesse exclusivo do SLB".


Não tardará muito que o surto de amnésia continue a deslizar hierarquia abaixo até se espalhar pelos adeptos benfiquistas. Da mesma forma que ninguém se lembra de ter votado em Vale e Azevedo, serão poucos aqueles que num futuro próximo se lembrarão de que Paulo Gonçalves foi um dos braços direitos de Vieira durante cerca de 11 anos. Idiossincrasias de uma massa associativa que criou petições para destituição da direção quando Jonas estava na porta de saída, mas que se tem mantido em silêncio desde que a SAD foi formalmente acusada de corrupção.

Desde que a equipa de futebol vá ganhando, está tudo bem.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Retratos de uma acusação

Não tive ainda acesso ao documento da acusação que, aparentemente, já circula publicamente, mas fui apanhando algumas imagens que contêm informação bastante sugestiva. Aqui ficam essas imagens, para terem uma melhor noção daquilo que está em causa.

1. Sobre o conhecimento de Vieira das ofertas dadas às toupeiras

(via @hugotiago_)

2. Sobre a cadeia de comunicação entre Paulo Gonçalves e José Augusto Silva, via Óscar Cruz

(via @hugotiago_)

3. Consciência pesada?

(via @hugotiago_)

4. As recompensas de José Silva e Júlio Loureiro

(via @PedroMCandeias)

5. As intenções de Paulo Gonçalves e da Benfica SAD

(via @EPlurCorruptum)

30 crimes

Segundo notícias divulgadas há pouco, a SAD do Benfica foi acusada de 30 crimes no âmbito do processo e-toupeira: 1 crime de corrupção ativa, 1 crime de oferta indevida de vantagem e 28 crimes de falsidade informática. Paulo Gonçalves foi acusado de ter cometido 79 crimes, enquanto os dois funcionários judiciais (José Augusto e Júlio Loureiro) foram acusados de cerca de 70 crimes.

O Ministério Público considera também terem existido comportamentos que colocaram em risco "os interesses da verdade e da lealdade desportiva" que justificam o pedido de aplicação de uma pena acessória que implique o afastamento da SAD das competições.

Aqui fica a peça completa que a RTP fez sobre o assunto:


Para além disso, segundo o CM, estão a ser considerados como prova os emails recolhidos nas buscas em que Paulo Gonçalves solicitava ofertas para subornar os seus informadores com conhecimento de Luís Filipe Vieira.


E-acusados

Conforme se previa após a recente constituição da SAD benfiquista como arguida do processo E-Toupeira, não tardou muito para que o Ministério Público passasse à fase seguinte, acusando formalmente Benfica e Paulo Gonçalves por um extenso rol de crimes: corrupção, recebimento indevido de vantagem, favorecimento pessoal, violação de segredo de justiça, peculato, acesso indevido, violação do dever de sigilo e falsidade informática.

Aquilo que achei mais curioso nas reações à acusação ontem conhecida foi a forma geral como os analistas e comentadores escalaram o nível de gravidade de tudo o que o E-Toupeira envolve. Na semana passada, quando a SAD passou a ser arguida, o caso foi tratado com alguma ligeireza e poucos equacionavam que pudesse haver qualquer tipo de consequência desportiva. Mas ontem, repentinamente, as análises (não cartilheiras) mudaram imenso.

De uma forma geral, há o entendimento de que as provas contra Paulo Gonçalves são concludentes e que não será complicado provar que o Benfica extraiu daí vantagens ilícitas. O processo é considerado simples e é provável que haja julgamento já no princípio de 2019, e as penas a que a SAD está sujeita poderão ser muito mais sérias do que se supunha, já que o MP está a pedir suspensão de atividade entre 6 meses a 3 anos - o que impediria as equipas de futebol do Benfica de participarem em competições desportivas. Para além disso, houve quem referisse que as penas poderão incluir a suspensão de quaisquer apoios do Estado à SAD durante um período entre 1 a 5 anos, o que, por exemplo, poderia colocar em causa a utilização do centro de estágios do Seixal, que se encontra construído em terrenos públicos.


Para além disso, a ponte para eventuais benefícios desportivos está bem explícita no comunicado divulgado pelo MP:
"Tais processos tinham por objeto investigações da área do futebol ou de pessoas relacionadas com este meio, ou de clubes adversários, seus administradores ou colaboradores.


Tais pesquisas foram efetuadas fraudulentamente com a utilização de credenciais de terceiros, sem o seu conhecimento ou consentimento, por forma a obterem acessos encobertos, não detetáveis. Tais informações foram obtidas ilicitamente tendo como contrapartida benefícios indevidos para os funcionários e vantagens ilícitas no interesse da respetiva SAD.

Tais condutas ocorreram designadamente, durante as épocas desportivas 2016/2017 e 2017/2018. Com estes comportamentos os arguidos puseram em risco a integridade do sistema informático da justiça, a probidade das funções públicas, os interesses da verdade e da lealdade desportiva e a integridade das investigações criminais."

Perante isto, queria apenas deixar mais algumas considerações:

  • O CV de Paulo Gonçalves era mais que conhecido quando Luís Filipe Vieira o contratou para o Benfica. Trabalham juntos há onze anos e não passa na cabeça de ninguém que Vieira não faça ideia do tipo de atividades praticadas pelo seu assessor jurídico.
  • Paulo Gonçalves é colaborador do Benfica, mas não é um colaborador qualquer: é alguém que pertence à cúpula de poder da SAD benfiquista, um dos homens de confiança do presidente, que, inclusivamente, representa oficialmente o Benfica em diversos tipos de atividades - como reuniões da Liga (e já o fez depois de ter sido constituído arguido) - pelo que não faz qualquer sentido o argumento utilizado pelo Benfica em como os atos de Paulo Gonçalves não podem implicar a SAD por aquele não se tratar de um administrador da sociedade.
  • Paulo Gonçalves continua em funções, apesar de tudo o que se sabe. Ninguém acredita que seja por uma questão de ingenuidade dos responsáveis máximos da SAD de acreditarem no princípio de presunção de inocência. Aliás, o facto de Paulo Gonçalves não ter sido suspenso no dia a seguir à sua detenção é bastante elucidativo sobre o comprometimento de algumas outras pessoas.
  • Perante o texto do comunicado do MP, fica claro que o Benfica espiou assuntos relacionados com Sporting e Porto de forma a obter trunfos que pudesse utilizar em seu favor. Obviamente que a utilização desses trunfos visava a obtenção de benefícios direta ou indiretamente relacionados com questões desportivas - a não ser que me digam que Sporting, Porto e Benfica se passaram a dedicar exclusivamente à arte do tratamento de bonsais. Como tal, a FPF e a Liga não poderão fechar os olhos ao que se está a passar. 
  • Tendo sido o Sporting uma das vítima do E-Toupeira, a SAD deverá acompanhar atentamente todo este processo para que, em momento oportuno, avance com um processo cível para a obtenção de uma indemnização que compense os danos causados.
  • Relembro que isto aconteceu menos de 10 dias depois de a nossa Comissão de Gestão nos ter envergonhado a todos ao aceitar o convite do Benfica para marcar presença no camarote presidencial da Luz.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Discursos sonolentos

Uma pessoa tenta não embarcar em teorias da conspiração sobre o paradeiro do Vieira e o seu conveniente estado de enfermidade (problemas de sono, segundo o que saiu na imprensa) face aos atuais problemas judiciais em que está envolvido, mas quando se vê que o próprio Seara disse em junho "não vou gostar de discursos sonolentos" com um ar... conspirativo, a situação muda um bocado de figura.

(vídeo via Baluarte Dragão)


A Tribuna da Amizade

Nuno Gonçalves é sportinguista e foi escolhido por alguém na RTP para representar o clube no programa Trio de Ataque. Já não me lembro da última vez que tinha visto este programa - suponho que terá sido há bem mais de um ano, porque foi no tempo de Rui Oliveira e Costa (e entretanto já por lá esteve Augusto Inácio) -, mas fui forçado a interromper este abençoado jejum porque ontem vi esta imagem inacreditável a correr pelo Twitter:


Tribuna da amizade. Nuno Gonçalves, adepto sportinguista, não só aprova a decisão da Comissão de Gestão de aceitar o convite benfiquista para marcar presença na tribuna presidencial do Estádio da Luz, como acha até que foi o facto mais positivo da semana. Explicou-a da seguinte forma:


"Não ir ontem à tribuna era basicamente dizer que nós ainda nos revemos no que o que estava aqui antes fazia. Eu acho que era fundamental que o Sousa Cintra fez ontem dizer que nós estamos radicalmente diferentes do que o Bruno de Carvalho estava, porque não ir ontem à tribuna era basicamente dizer que o que o outro senhor tinha feito - ia para a claque, havia aquele circo todo à volta - estava correto, e eu acho que não."


As pessoas têm direito a pensar como quiserem, mas não vejo pior argumentação do que começar a justificar uma opção polémica pela necessidade de fazer precisamente o oposto que o antigo presidente fazia. Como todos sabemos, Bruno de Carvalho cometeu muitos erros (e alguns muito graves) ao longo dos seus cinco anos de presidência, mas rejeitar qualquer relacionamento formal com o Benfica não foi definitivamente um deles.

Foi o Benfica que atacou miseravelmente o Sporting após termos contratado Jorge Jesus, com quem Vieira não quis renovar. Foi o Benfica que criou o hábito de oferecer vouchers de refeição aos árbitros - Bruno de Carvalho denunciou a situação. Foi a direção benfiquista que qualificou como folclore os protestos do Sporting pelo arremesso de petardos para uma bancada repleta de sportinguistas por parte de claques do Benfica. Foi a direção benfiquista que procurou branquear o assassinato de um adepto sportinguista às mãos de um elemento de uma claque do Benfica. Foi o presidente benfiquista que disse aos sócios numa AG que iria tentar contratar jogadores que tinham rescindido com o Sporting. O Benfica é o clube que, confirmando-se os factos que estão em investigação pela PJ, roubou o campeonato 2015/16 ao Sporting através do aliciamento de jogadores adversários. Que tem os padres e os meninos queridos. Que montou uma rede de informadores no aparelho da justiça para ter acesso a processos judiciais confidenciais, alguns dos quais diziam respeito ao Sporting.


Curiosamente, deu-se a coincidência temporal de esta atitude da Comissão de Gestão ter acontecido menos de 48 horas antes de a SAD benfiquista ter sido constituída arguida no âmbito do caso e-toupeira.

Cortar as relações com o Benfica de Vieira é a única atitude razoável perante tudo aquilo que nos fizeram nos últimos anos.

A atitude da Comissão de Gestão é incompreensível e não há nada que a possa justificar aos olhos de qualquer sportinguista com memória, e muito menos utilizando o argumento de que é o contrário do que o anterior presidente fazia. É que se essa linha de raciocínio ganhasse adeptos entre os dirigentes do Sporting, então não tardaria muito para começarmos a trabalhar para fechar modalidades, para dar prejuízos constantes ou para demolir o pavilhão e vendermos o terreno a preço de saldo...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A Comissão de Gestão na tribuna presidencial do Benfica

Infelizmente, confirmaram-se as notícias do final da semana passada que indicavam que a Comissão de Gestão iria aceitar o convite da direção benfiquista para assistir ao dérbi do último sábado na tribuna presidencial do Estádio da Luz.

Quem elogia a atitude diz que é um sinal de paz importante para o futebol português. Não concordo, mesmo não me considerando uma pessoa que prefira viver num estado de guerra permanente. Respeito a generalidade dos adeptos benfiquistas, os meus melhores amigos são benfiquistas, já vi vários dérbis junto de benfiquistas, conhecidos e desconhecidos, e não me incomoda minimamente que vibrem ao meu lado com seu clube da mesma forma que vibro com o meu. Sou capaz de discutir futebol com benfiquistas de forma civilizada em qualquer circunstância desde que haja o mesmo respeito do outro lado. 

Claro que preferiria que não existissem os problemas que existem entre o Sporting e o Benfica, mas é impossível ignorar que alguns dirigentes de topo do Benfica são um cancro para o desporto nacional e, em particular, para o futebol. Na sua demanda para estabelecerem o seu poder, atacam há anos o Sporting e os seus interesses utilizando os métodos mais rasteiros que se possam imaginar, que ultrapassam todos os limites aceitáveis de convivência desportiva. O meu problema é exclusivamente com esses dirigentes, não com os adeptos do Benfica.

Como tal, considero que Sousa Cintra, Torres Pereira, Marta Soares, Henrique Monteiro e os restantes dirigentes dos órgãos sociais do Sporting extravasaram de forma inaceitável as suas competências ao tomarem a decisão de aceitarem o convite do Benfica. A Comissão de Gestão não é um órgão sufragado pelos sócios e as suas responsabilidades devem limitar-se a decisões de gestão corrente. Ora, um reatamento de relações com o Benfica é tudo menos uma decisão de gestão corrente, face a tudo o que tem acontecido. Estamos a apenas duas semanas das eleições, pelo que a única atitude aceitável dos órgãos sociais atuais seria deixarem para a futura direção eleita a decisão sobre se devemos ou não reestabelecer as relações com o rival.

Infelizmente, a Comissão de Gestão não se limitou a aceitar o convite para marcar presença na tribuna presidencial, como ainda obrigou os sportinguistas a suportar a humilhação de os ver a darem exclusivos à BTV - falamos dos mesmos dirigentes que, desde que entraram em funções, nunca se dignaram a pôr os pés na Sporting TV.

Não me incomoda que Cintra faça aquelas conferências de imprensa castiças de apresentação de jogadores, carregadas de incorreções, calinadas e promessas desnecessárias (até acho graça), não me incomoda que Cintra desça ao relvado para dar uns toques com os craques que contrata, não me incomoda que Cintra confunda Salin com Renan e diga que o guarda-redes francês foi contratação sua de última hora, e nem sequer me incomoda particularmente que Cintra decida falar à imprensa à mesma hora que Peseiro dava a sua conferência de imprensa. Mas todas estas coisas juntas demonstram que Cintra está ávido para ter palco, e tenho quase a certeza que esta decisão de aceitar o convite do Benfica foi motivada, sobretudo, pelo desejo de aparecer e por saber que choverão elogios da comunicação social e dos comentadores que povoam os canais de informação.

Já se percebeu que Cintra, Torres Pereira e Marta Soares ADORAM o ser o centro das atenções e que a partir de dia 9 de setembro dificilmente voltarão a ter um palco desta dimensão, mas por tudo o que tem acontecido ao longo dos últimos anos, não podiam ter tomado esta decisão de ânimo leve apenas para garantirem mais umas quantas manchetes e reportagens com os seus nomes e sem pensarem na dignidade do clube e dos sócios que supostamente deveriam representar. Há caprichos pessoais que se toleram em quem exerce o poder, mas, neste caso, simplesmente não é admissível. Tenham vergonha.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Assim se fala em bom português

Neste caso não é em bom português, mas... hats off to you, Porto Canal. Ge-ni-al.

(vejam até ao fim, vale mesmo a pena)




terça-feira, 24 de julho de 2018

O caso Bruma na imprensa de hoje



Alguns jornais fizeram hoje referência aos emails do blogue Mercado do Benfica que demonstram que o Benfica participou ativamente no processo de rescisão de Bruma do Sporting com o objetivo final de contratar o jovem extremo.

Segundo os artigos dos jornais, o Benfica alega que os emails são falsos e Catió Baldé nega que o Benfica alguma vez tenha estado envolvido no processo. Sobre isto, creio que a teoria de cabala e falsificação cai por terra perante a quantidade de documentação que existem nos emails, a que se pode ainda juntar os metadados dos ficheiros. Não é propriamente verosímil que alguém se dê ao trabalho de perder centenas de horas a fabricar conversas e ficheiros elaboradíssimos para a eventualidade de algum curioso descobri-los perdidos no meio de 10 gigabytes de informação.

Creio que o Sporting se deveria também pronunciar sobre esta questão.

Deixo de seguida os artigos publicados.

Record

Correio da Manhã

O Jogo


Recordando as palavras de Bebiano Gomes a 11 de julho de 2013

A 11 de julho de 2013, o mesmo dia em que Bruma rompeu com o Sporting, Bebiano Gomes foi entrevistado na TVI, onde apresentou os argumentos que levaram a essa tomada de posição do jogador.

Como recordar é viver, vale a pena ver este pequeno vídeo e conferir o que disse Bebiano Gomes sobre o interesse de outros clubes portugueses em Bruma:

´
(via canal de YouTube Not Alone)


"Já houve algum contrato exploratório que seja com os representantes de Bruma para um outro clube em Portugal?"

"Não, neste momento não.", respondeu o advogado.

Sabemos agora que não foi bem assim, considerando que o Benfica já trabalhava com Bebiano Gomes há pelo menos quatro dias antes da data desta entrevista.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Caso Bruma: Benfica esteve por trás da tentativa de rescisão

Recapitulando o caso Bruma

No dia 11 de julho de 2013, o futebol português assistiu ao nascimento de uma novela que dominou a atualidade durante várias semanas, quando o jogador Armindo Tué Na Bangna, conhecido por Bruma, decidiu considerar inválido o contrato que o ligava ao Sporting até ao final de junho de 2014. O jogador não compareceu ao seu primeiro dia de treinos após as férias, desapareceu do país e iniciou um processo que visava a confirmação da sua libertação do clube, de forma a poder assinar de imediato por quem bem entendesse. Foi também nessa altura que foram elevados ao estatuto de figuras públicas o seu tutor e empresário, Catió Baldé, e o advogado Bebiano Gomes, que se desdobraram em declarações e acusações ao Sporting - que iam desde coação verbal até tentativa de rapto. 

Imagem retirada do blogue Mister do Café
O assunto dominou as capas de jornais, mas as aspirações do jogador e seus representantes acabaram por sofrer um duro revés no dia 23 de agosto, data em que a Comissão Arbitral Paritária decidiu, por unanimidade, que o contrato que ligava Bruma ao Sporting ainda era válido por mais um ano. Entre a reintegração no plantel e a negociação com outro clube, o Sporting e o jogador optaram pela segunda hipótese, chegando a acordo no dia 1 de setembro com os turcos do Galatasaray por 10 milhões de euros, podendo receber ainda mais 3 milhões pelo cumprimento de objetivos e 25% de uma mais-valia futura, e tendo o Sporting pago 800.000 euros de comissão pela venda. Entre o valor fixo da transferência, o cumprimento dos objetivos variáveis e a mais-valia, o jogador acabaria por render cerca de 14 milhões de euros ao Sporting.

Para a história ficou o mau aconselhamento feito ao jogador por Catió Baldé e Bebiano Gomes, que, perante a possibilidade de receberem uma maquia elevada pela colocação de um jogador livre e de enorme potencial, relegaram para segundo plano os interesses desportivos do jogador - que tinha todas as condições para ser uma peça fundamental da equipa principal do Sporting. 

O que nunca se chegou a saber foi onde tencionavam Baldé e Bebiano colocar Bruma caso lhes fosse dada razão no diferendo com o Sporting, e se houve apoio ativo de algum clube para que se concretizasse a quebra de vínculo com o Sporting. Houve notícias que falavam do interesse do Porto - que na altura estava de relações cortadas com o Sporting -, mas nada de concreto se apurou. Certezas nunca houve... até à semana passada.

O blogue Mercado de Benfica disponibilizou, no passado dia 18, o arquivo de emails de Paulo Gonçalves, onde estão incluídas mensagens que mostram, de forma inequívoca, aquilo que realmente se passou: foi o Benfica que esteve a manobrar nos bastidores de forma a roubar Bruma ao Sporting.


O que se passou nos bastidores

A rutura entre Bruma e o Sporting aconteceu a 11 de julho, mas o primeiro registo de envolvimento benfiquista no processo surge vários dias antes. A 7 de julho de 2013, ou seja, quatro dias antes, Paulo Gonçalves recebe o esboço da Notificação Judicial que Bebiano Gomes estava a preparar para formalizar a desvinculação do jogador.


Miguel Lopes Lourenço usa aqui uma conta pessoal mas era, na altura, advogado do escritório Correia, Seara, Caldas, Simões e Associados, que, como se poderá ver já a seguir, assessorou o Benfica neste processo.

Apenas dois dias depois, a 9 de julho, Célia Falé - que trabalha no gabinete jurídico do Benfica - envia um mail a Paulo Gonçalves com o primeiro esboço do contrato a apresentar a Bruma.


Minutos mais tarde, Paulo Gonçalves reencaminhou o documento para os advogados Miguel Lopes Lourenço e José Seixas, desta vez usando as contas do escritório Correia, Seara, Caldas, Simões e Associados, com um texto que não deixa dúvidas quanto ao que estava aqui em causa.


Vou deixar a análise ao conteúdo do contrato mais para a frente. 

No dia seguinte, 10 de julho, ou seja, um dia antes da rutura entre Bruma e o Sporting, Paulo Gonçalves volta a enviar um mail aos advogados que o auxiliavam neste processo. O plano, como se pode ver, passava pela celebração do contrato entre o Benfica e Bruma logo no dia seguinte.


Existem outros mails trocados durante esse mesmo dia sobre o assunto, incluindo um que continha uma versão revista do contrato a oferecer a Bruma. Ainda a 10 de julho, um mail enviado a Paulo Gonçalves permite perceber que o escritório de advogados contratado pelo Benfica participou também na redação de um documento a assinar por Bruma que, supostamente, atestaria a boa-fé do Benfica em todo este processo. Imagine-se se houvesse má-fé...


Em paralelo às questões burocráticas de desvinculação e assinatura do novo contrato, a agência de viagens parceira do Benfica preparava a saída do país de Bruma e respetiva entourage, com a marcação de uma viagem para o Dubai entre 12 e 17 de julho:



Há dois pormenores que vale a pena ressalvar relativamente a esta viagem. O primeiro é que a data de regresso prevista era 17 de julho porque...

Cláusula do esboço de contrato apresentado pelo Benfica a Bruma

... estava previsto que o contrato com o Benfica se iniciasse no dia 18.

O segundo é relativo a um dos nomes referidos na reserva: Isidoro Gimenez. Trata-se de um empresário muito chegado a Paulo Gonçalves que participaria, dois anos mais tarde, numa outra negociata que ficou conhecida pelos piores motivos: a transferência de Francisco Vera do Rubio Ñu para o Benfica, da qual houve suspeitas, da parte das autoridades paraguaias, da existência dos crimes de lavagem de dinheiro e evasão fiscal (LINK).

Tudo isto, convém relembrar, aconteceu antes da rutura definitiva entre Bruma e o Sporting.

Nos dias seguintes houve mais trocas de emails entre Paulo Gonçalves e os advogados sobre a elaboração de documentação no âmbito da desvinculação, incluindo a ação a interpor na Comissão Arbitral Paritária. Também existem registos de contactos diretos entre Bebiano Gomes e Paulo Gonçalves, a acertar pormenores relativamente ao processo.


Os indícios já são suficientemente claros, mas creio que deixa de haver quaisquer dúvidas de que havia uma colaboração assumida entre os representantes de Bruma e os representantes do Benfica quando se observa que a solicitadora contratada para notificar o Sporting... enviou a fatura pelos seus serviços para Bebiano Gomes e para os assessores do Benfica. Perante a receção da fatura, advogado do Benfica perguntou a Paulo Gonçalves quem deveria assumir o pagamento desses custos - se o Benfica ou Bruma. Uma dúvida que apenas se coloca por estarem todos a trabalhar em conjunto para o mesmo fim.



Os contornos do negócio

Os emails disponibilizados pelo blogue Mercado de Benfica também nos permitem saber exatamente quais os contornos do negócio que levaria Bruma a assinar com o clube encarnado.

Num dos mails trocados entre Paulo Gonçalves e Célia Falé, a 10 de julho, é enviado um esboço de contrato entre Bruma e o Benfica que teria a duração de 6 épocas, válido entre julho de 2013 e junho de 2019, em que o jogador auferiria um vencimento bruto crescente - começando em 1,2 milhões nas duas primeiras épocas e subindo progressivamente até aos 2 milhões na última época, com a possibilidade de receber mais 400.000 euros por objetivos em cada temporada - e uma cláusula de rescisão de 40 milhões de euros. Bruma iria receber, portanto, um total de 8,9 milhões distribuídos ao longo de 6 anos, aos quais se poderiam somar mais 2,4 milhões caso todos os objetivos fossem cumpridos. Não há referência ao pagamento de qualquer prémio de assinatura para o jogador.

Nada mau para um jogador de 18 anos mas, ainda assim, não é propriamente o contrato de uma vida. O verdadeiro jackpot estava reservado para os intermediários (carregar na imagem para ampliar):


O Benfica pagaria a Isidoro Gimenez o valor de 6 milhões de euros no prazo de 30 dias. Na eventualidade de uma transferência de Bruma para outro clube durante a vigência deste contrato, o Benfica deveria pagar mais 5 milhões a Isidoro Gimenez (perfazendo então um total de 11 milhões). Para além disso, Isidoro ficaria ainda 50% das mais-valias acima de 11 milhões.

E então Catió Baldé e Bebiano Gomes? Ficariam a chuchar no dedo?

Obviamente que não. No mesmo email em que este contrato é enviado, existem outros dois anexos:


Este contrato foi assinado por uma tal de Royal Capital (cujo endereço fiscal é o mesmo da Premier Football Advisors de Isidoro Gimenez) e Catió Baldé, e estipula que Catió Baldé teria a receber dessa empresa o valor de 5 milhões de euros no prazo de 30 dias, e mais 5 milhões na eventualidade de uma futura transferência. Quanto a Bebiano Gomes...


... teria a receber 1 milhão de euros no prazo de 30 dias após a assinatura de Bruma pelo Benfica.

Ou seja, a presença de Isidoro Gimenez parece ser a de mera ponte para evitar a associação direta de Catió Baldé e Bebiano Gomes ao Benfica. Recapitulemos: no prazo de 30 dias após a assinatura, o Benfica pagaria 6 milhões a Isidoro Gimenez, que por sua vez entregaria 5 milhões a Catió Baldé e 1 milhão a Bebiano Gomes. Os 5 milhões a receber numa futura transferência de Bruma que seriam pagos a Isidoro Gimenez, seriam depois entregues na totalidade a Catió Baldé. Não havendo outro qualquer contrato por revelar, conclui-se que Isidoro Gimenez ficaria "apenas" com 50% das mais-valias acima de 11 milhões de euros de uma futura transferência.

Nada mau para um par de meses de trabalho. Infelizmente para eles, a novela não teve o desfecho que pretendiam e os 800.000 euros que o Sporting pagou de comissões na venda ao Galatasaray devem ter servido de fraco consolo em comparação com os 10 milhões que Catió poderia ter encaixado caso o negócio com o Benfica se tivesse concretizado. 


Implicações

O arquivo de emails de Paulo Gonçalves não permite perceber se alguma vez os contratos chegaram a ser assinados pelas diferentes partes, nem a partir de que momento o Benfica desistiu de contratar Bruma.

No entanto, fica perfeitamente claro que o Benfica contactou os representantes do jogador à revelia do Sporting e participou ativamente na tentativa de desvinculação de um atleta que tinha um contrato válido, em óbvia violação do artigo 18 do regulamento de transferências da FIFA.

Como tal, o Sporting pode e deve fazer queixa do sucedido junto das entidades competentes. O Benfica tem de ser punido pelo que fez.


Uma curiosidade adicional

Para além de recorrer ao escritório Correia, Seara, Caldas, Simões e Associados, o Benfica teve também o apoio de um especialista em direito desportivo: Lúcio Correia. Não se percebe se o fez na qualidade de subcontratado ou por amor à causa, já que não é referido em momento algum o valor de honorários a pagar nem de forma explícita que é um apoio gratuito.

Parecer enviado por Lúcio Correia a Paulo Gonçalves a 9 de julho

Envio de Nótula Jurídica que foi anexada ao processo pelos representantes do jogador

Envio de informação de Paulo Gonçalves a Lúcio Correia sobre o caso Bruma

Pelos termos utilizados ("agradeço penhoradamente o teu empenho e dedicação neste assunto", "caso que pretendo acompanhar até ao fim"), diria que Lúcio Correia não agiu como prestador de serviços contratado pelo Benfica ou pelos representantes de Bruma - é apenas a minha opinião perante os dados disponíveis, não havendo nada que a corrobore inequivocamente.

De qualquer forma, não deixa de ser preocupante que uma pessoa que ajudou o Benfica de forma tão empenhada num processo de desvinculação de um jogador do Sporting seja agora a pessoa que, sozinha, está a decidir na CAP a justa causa das recentes rescisões dos sete atletas do Sporting.


Perante o "empenho" revelado por Lúcio Correia no caso Bruma, a mim parece-me que existem conflitos de interesses complicados de ignorar.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Branqueamento de capitais e fraude fiscal

As suspeitas que levaram à realização de mais uma sessão de buscas no Estádio da Luz na terça-feira  - pagamento de serviços a uma empresa do ramo informático de 1,9 milhões de euros que foram, posteriormente, levantados em numerário - podem ser explicadas de três formas possíveis, mas nenhuma delas pode ser considerada normal.

A primeira explicação é o serviço ter efetivamente existido e os pagamentos terem sido efetuados segundo o contrato assinado pelas partes. O que depois foi feito com o dinheiro dirá única e exclusivamente à empresa que recebeu esses valores. 

Neste cenário, nem o Benfica nem os seus funcionários seriam responsáveis por qualquer irregularidade. No entanto, para isto se comprovar é necessário que tenha havido, efetivamente, uma prestação de serviços informáticos no valor de quase 2 milhões de euros. Dependendo do tipo de serviço, podemos estar a falar de um esforço total que poderá variar entre 4.000 e 16.000 horas de trabalho. A existência ou não existência de uma prestação de serviços desta dimensão é facilmente demonstrável: ou falamos de uma implementação de um sistema informático, ou falamos de um contrato de algum tipo de suporte técnico, qualquer um deles implicando a produção de um grande volume de documentação de projeto ou registos de ticketing ao longo de um determinado período de tempo, incluindo trocas de ficheiros, emails e telefonemas entre técnicos, consultores e funcionários do Benfica das áreas, e tudo numa sequência cronológica coerente que é impossível falsificar.

Ou seja, para este cenário ser verdadeiro teria de haver uma prova incontestável de que tais serviços aconteceram - algo de que as autoridades duvidam, segundo o que se pôde ler no comunicado emitido ontem sobre o caso. 


Seria também necessário perceber a coincidência de todos os pagamentos efetuados pelo Benfica terem sido posteriormente levantados em numerário, algo que nenhuma empresa respeitável do ramo costuma fazer. Mas isso não seria problema do Benfica.

Sobram, portanto, duas explicações, ambas dependentes do pressuposto de que tais serviços nunca aconteceram: uma em que o Benfica é vítima de burla por parte de funcionários seus, e outra em que o Benfica está envolvido em crimes graves.

O Benfica poderia ser vítima caso um conjunto de funcionários seus tivesse conspirado para roubar dinheiro à SAD, inventando um serviço inexistente, arranjando uma empresa cúmplice, com o dinheiro transferido a ser depois dividido entre todos. Mas isto é altamente improvável, porque investimentos deste montante em serviços informáticos são aprovados pelas hierarquias de topo e a sua execução é acompanhada regularmente. Seria de uma incompetência extrema não haver ninguém a aperceber-se de que não havia qualquer projeto a decorrer, para além de que, após a descoberta, teria obrigatoriamente que haver queixa-crime contra esses indivíduos. Isso também é muito fácil de validar pelas autoridades.

Sobra então a última explicação, aquela que as autoridades investigam, e a que é mais provável considerando todas as suspeitas de irregularidades que têm surgido no último ano associadas ao Benfica: branqueamento de capitais e fraude fiscal. Do que é que estamos a falar em concreto?

Branqueamento de capitais ou lavagem de dinheiro são operações em que uma determinada pessoa ou organização tenta transformar dinheiro obtido de forma ilegal (sujo) em dinheiro legítimo (limpo). Uma das formas de se conseguir lavar dinheiro é gerar receitas inexistentes que ajudem a justificar os sinais exteriores de riqueza da tal pessoa ou organização. Um dos métodos que existe para gerar receitas inexistentes é através da emissão de faturas falsas.

Num cenário hipotético: a empresa A (neste caso concreto, segundo as suspeitas das autoridades, corresponderia à empresa de serviços informáticos) quer legalizar 2 milhões de euros obtidos através de uma atividade ilegal.

A empresa A necessita de ter um parceiro para efetuar este golpe, a empresa B (que neste caso concreto, segundo as suspeitas das autoridades, corresponderia ao Benfica). A empresa A vende um serviço fictício à empresa B, e passa uma fatura no valor de 2 milhões, para assim poder apresentar receitas de 2 milhões. Posteriormente, irá passar para o nome dos sócios uma grande parte desse valor, através da distribuição de dividendos, salários, prémios ou outro tipo de compensações. Falamos, portanto, de dinheiro que estava na economia paralela e que assim passa a estar no sistema financeiro legítimo.

Para mascarar melhor a operação, a empresa B faz uma transferência em nome da empresa A dos tais 2 milhões. Noutra altura, que tanto pode ser antes ou depois da tal transferência, a empresa A devolve os 2 milhões à empresa B (através de canais mais complexos, como off-shores, ou mais simples, como uma mala cheia de dinheiro entregue em mão). A empresa B ficará então com um saco azul de 2 milhões, que poderá usar para despesas ilícitas que não podem ficar registadas nas suas contas. No caso de um qualquer clube de futebol estamos a falar de dinheiro que poderá ser utilizado, por exemplo, para aliciar jogadores ou árbitros.

A parte da fraude fiscal é a que menos importância tem no caso, é quase como uma espécie de dano colateral ao que realmente interessa: como a empresa B está a declarar custos que nunca teve na realidade, está a reduzir os seus lucros e, consequentemente, está a pagar menos impostos do que devia ao Estado.

Isto é, como se pode facilmente perceber, uma questão gravíssima. Ninguém tira voluntariamente milhões das contas para a economia paralela com boas intenções - não será certamente para comprar rifas a escuteiros -, sendo possível que isto seja apenas mais uma ramificação de toda a podridão que tem vindo a ser revelada ao longo do último ano. É também extraordinário como grande parte da comunicação social conseguiu passar praticamente ao lado deste caso. Esperemos pelos próprios desenvolvimentos.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

As cavalas contra César

Quando a SIC entrevistou César Boaventura no âmbito da reportagem sobre os aliciamentos a jogadores do Marítimo para facilitarem na partida decisiva contra o Benfica em 2015/16, o empresário disse acreditar na existência de casos desses. Revelou que uma das forma mais eficazes para convencer os jogadores a jogarem para perder seria a promessa de futuros contratos que, de outra forma, os atletas teriam dificuldades em alcançar.


Coincidência ou não, é sabido, por exemplo, que Patrick assinaria um ano mais tarde pelo Benfica sem nunca ter pisado o relvado da Luz com a camisola do clube ou sem sequer ter sido apresentado.

Surgiram também notícias de que teriam sido apanhadas mensagens de Whatsapp entre César Boaventura e jogadores do Rio Ave antes do jogo com o Benfica, em abril de 2015/16. Como é que César Boaventura justifica essas mensagens? Com conversas sobre um futuro contrato para o jogador Marcelo.


Para além disto, devem ter andado por aí a circular outras mensagens, já que César Boaventura tomou a iniciativa de mostrar mensagens de conversas via Whatsapp com Carlos Santos, jogador do Boavista, de teor suspeito, que o próprio empresário reencaminharia de imediato para... Luís Filipe Vieira. Boaventura alega que mandou a mensagem para Vieira por engano, cujo destinatário deveria ter sido João Loureiro.

Comecem por ler a justificação de César Boaventura...


... e agora observem as mensagens trocadas com o jogador César Santos. Como se pode ver, o jogador parece apelar ao empresário para o tirar do Boavista... e a mensagem seguinte é que está tudo tratado a 100%. Renovação? Não parece. Convenhamos que um "Ve la se me tiras é daqui" não é propriamente algo que indicie grande vontade em renovar. Soa bastante mais a promessas de uma transferência futura.


Azar dos azares, calhou esta conversa ter sido reencaminhada para Luís Filipe Vieira.


Infelizmente, César Boaventura não mostrou uma imagem com o reencaminhamento da mensagem para João Loureiro. Teria dado jeito para demonstrar que foi mesmo engano.

Carlos Santos não teve a transferência que desejava, acabando por renovar contrato com o Boavista em maio de 2016, dois meses depois do jogo do Benfica. Há que dizer que Carlos Santos não jogou na receção ao Benfica em 2015/16, que a equipa de Rui Vitória venceria nos minutos finais. Quem alinhou nessa partida foi Mika, que, como se sabe, foi transferido para Inglaterra no final dessa época, precisamente através dos bons ofícios de César Boaventura, que ainda ontem fez questão de o recordar na sua conta de Facebook.


Este post foi publicado por César Boaventura como resposta às notícias que o Correio da Manhã publicou sobre uma eventual insolvência do empresário. César tem andado num corropio de publicações contra o CM, cada uma mais deliciosa do que a outra tal a dimensão da ironia - basta lembrar que, muito recentemente, César salivava em antecipação com o conhecimento das notícias que o CM iria publicar sobre o caso Cashball. Aqui ficam as publicações de César. Sugiro que comprem um balde de pipocas para acompanhar a leitura.









É caso para dizer que isto deve ser tudo uma gigantesca cavala.