sábado, 23 de junho de 2018

Capítulo final

Quem manda no Sporting são os sócios. Não são os adeptos sportinguistas que não querem ou não podem fazer parte da família, muito menos os adeptos de outros clubes, e ainda menos os profissionais da Comunicação Social que têm feito um pobre esforço para esconder as suas preferências pessoais em relação ao tema que domina a atualidade nacional como nenhum outro tema alguma vez dominou. 

O que temos visto em Portugal não tem nada a ver com o Sporting, clube. As televisões descobriram um novo filão e decidiram substituir as repetitivas novelas portuguesas e brasileiras pela guerra de poder que há no clube. Transformaram os seus jornalistas desportivos em produtores e guionistas, dando palco a um interminável elenco de heróis, vulgo notáveis, e ao ocasional capanga que ainda teima em defender o inimigo número 1 de Portugal.

As sondagens que alguns jornais têm publicado nos últimos dias estão ao nível dos resumos dos próximos capítulos das novelas, ao melhor estilo da TV Guia. Não interessa se são sócios, se vão votar, e quantos votos terão na decisão de logo. O que interessa é que se garanta ao público desta novela que o capítulo final irá ao encontro das suas pretensões: o povo português, depois de ter investido tantas horas ao longo do último mês no acompanhamento desta trama carregada de heróis grisalhos e de um vilão sem escrúpulos seguido por uma legião de groupies acéfalos, merece um final feliz. 

Resta saber esse pequeno pormenor do que pensam os sócios sportinguistas votantes. Não faço ideia de qual será o resultado da votação, mas espero que, independentemente do que for decidido, se respeite a vontade da maioria. Refiro-me aos sportinguistas, obviamente... porque aquilo que pensam os outros do resultado, pouco ou nenhum interesse tem. Isto pode ser o capítulo final para 9.830.000 portugueses, mas para os 170.000 sócios sportinguistas há ainda muito por fazer e muito por decidir. 

O Sporting é dos sócios sportinguistas e de mais ninguém, e é assim que terá que continuar a ser... doa a quem doer.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Mihajlovic

Sinisa Mihajlovic não seria, definitivamente, a minha primeira, segunda ou terceira escolha para treinador do Sporting. Quando ouvi falar do interesse do clube em contratá-lo, fiquei a desejar que fosse apenas mais um tiro ao lado da imprensa desportiva devido, sobretudo, ao facto de não ser um técnico a quem se associe de imediato uma aura de conquista de títulos. Não foi tiro ao lado da comunicação social. O interesse do Sporting era efetivamente real e ontem concretizou-se num acordo para os próximos três anos.

Na sequência da contratação de Mihajlovic, estive a pesquisar o trabalho que foi fez nos últimos anos. O cenário negro que se tinha formado na minha mente desvaneceu-se um pouco.

O clube onde teve mais sucesso foi na Sampdoria: em 2013/14 pegou na equipa à 12ª jornada quando se encontrava abaixo da linha de água, e levou-a até à 12ª posição. Fez a época seguinte completa e alcançou um 7º lugar - posição que a Sampdoria não conseguiu repetir após a sua saída (16º, 10º e 10º lugar). O 7º lugar alcançado em Génova levou a que o Milan o contratasse, mas acabou despedido à 32ª jornada, deixando a equipa em 6º lugar e qualificada para a final da Taça de Itália. Nas épocas que se sucederam entretanto, o Milan nunca conseguiu melhor do que o 6º lugar e não regressou à final da taça - mesmo na época que agora terminou, em que foram investidos quase 200 milhões de euros em contratações. Em 2016/17 foi para o Torino e conseguiu um 9º lugar (na época anterior tinha ficado em 12º). Esta época foi despedido do Torino após ser eliminado da taça pela Juventus, deixando a equipa em 10º lugar com 5 vitórias, 10 empates e 4 derrotas, a 2 pontos do 7º lugar. Não tem títulos, mas convém relembrar que a Juventus seca tudo em Itália: os crónicos campeões limparam os últimos 7 campeonatos e as últimas 4 taças.


Já vi por aí análises a destacarem a baixa percentagem de vitórias, mas convém ter em consideração duas atenuantes: nunca dirigiu um clube de 1ª linha em Itália (o Milan dos últimos anos não é mais do que um clube de 2ª linha), e é um treinador que sempre ganhou mais do que perdeu, mesmo em clubes que não tinham recursos para mais do que a luta pelo meio da tabela.

As análises que li referem-no como um treinador de mentalidade ofensiva que não tem medo de apostar em jogadores jovens. Os principais defeitos que lhe apontam são a de ser um treinador inconsistente taticamente quando as coisas não correm bem, mudando muito o esquema da equipa à procura de uma fórmula que possa ser melhor sucedida.

As questões extra-futebol, não sendo agradáveis, não são relevantes. O Sporting contratou um treinador de futebol, e não um professor de história ou de ciência política. A única coisa que devemos exigir, em relação a isso, é que o treinador respeite os jogadores e adeptos e honre o emblema que passará a representar.

Nas circunstâncias atuais, seria impossível replicar o efeito que a contratação de Jesus teve há três anos. Mihajlovic não é um nome bombástico. É um treinador de quem os adeptos poderão ter legítimas dúvidas sobre se tem o que é necessário para criar uma equipa competitiva a partir de um plantel muito desfalcado num campeonato que não conhece, mas convém termos consciência de que não estamos a falar de um incompetente incapaz de pôr equipas a jogar futebol. Tem um perfil que, tendo acesso aos meios e ao tempo necessários, poderá dar frutos no Sporting.

Que tenha o sucesso que todos desejamos.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O meu voto na AG de destituição

No passado sábado ficámos a conhecer a Comissão de Gestão que ficará em funções caso Bruno de Carvalho seja destituído. Ouvi com atenção tudo o que foi dito e a sensação com que fiquei é que a única ideia que a  Comissão de Gestão liderada por Artur Torres Pereira tem neste momento é a retirada de Bruno de Carvalho do poder. Não responderam a qualquer pergunta sobre o que tencionam fazer relativamente à liderança da SAD nem apresentaram nenhuma estratégia de como fazer face às questões que preocupam atualmente todos os sportinguistas. 

É certo que não cabe a uma CG definir e aplicar um programa bem definido - é apenas uma comissão transitória que serve para manter a frota à tona até ser nomeado o novo almirante -, mas, neste momento, existem desafios urgentes e fundamentais para o futuro imediato do clube e SAD que exigem ideias bem definidas e a tomada de ações imediatas e concretas:

  • A preparação da nova época da equipa de futebol não pode esperar por uma mudança da equipa diretiva - é absolutamente prioritário definir a equipa técnica e reforçar o plantel de forma a que tenhamos em 2018/19 uma equipa competitiva com jogadores de grande potencial de valorização;
  • Não poderá haver hesitações relativamente às rescisões dos jogadores - foi contratado provavelmente o maior especialista na matéria e é necessário dar sequência imediata a todas as linhas de ação que estejam ao nosso dispor junto das instâncias desportivas e judiciais;
  • Há que garantir a concretização dos passos necessários para fechar o novo acordo de reestruturação que prevê a recompra de todas as VMOCs, o que permitirá que o clube volte a ter a esmagadora maioria da participação na SAD.  


Para já, a nova CG não fez qualquer referência ao que tenciona fazer em relação a estas três questões, reconhecendo Artur Torres Pereira que, para já, a principal preocupação é a coordenação dos membros que a compõem para conseguirem conjugar as suas vidas profissionais com as responsabilidades que agora assumem:

"O primeiro objetivo é encontrarmos a forma ideal de trabalharmos, porque eu estou rodeado de pessoas livres, pessoas com vida profissional própria, e portanto dentro deste enquadramento a primeira coisa que vamos fazer é encontrar a forma de nos organizarmos, de dividirmos as nossas funções, de nos atribuirmos as nossas responsabilidades, tendo apenas como objetivo estratégico a maneira de sermos mais eficientes em relação à missão que nos propomos levar a cabo".

É evidente que Artur Torres Pereira não pode deixar de começar por se organizar a si e à sua equipa, mas para mim fica perfeitamente claro que os timings desta nomeação não são compatíveis com as respostas que têm de ser dadas de imediato aos desafios que o clube está a enfrentar.

Isto, para mim, é um ponto absolutamente crucial para decidir o meu sentido de voto na próxima AG. Parece-me claro que só a direção de Bruno de Carvalho está apta a lidar com todos estes problemas com a urgência que as diversas questões requerem.

Não me entendam mal: não mudei a minha opinião em relação à necessidade de aparecer uma liderança alternativa. Perdi a confiança em Bruno de Carvalho em abril, pela forma como reagiu à derrota de Madrid - criticando publicamente os jogadores de forma totalmente desadequada e por trair os sócios ao quebrar uma promessa feita na última AG quando telefonou para a CMTV nesse mesmo dia - e como geriu depois o problema que criou. Percebi que não vale a pena manter a esperança que alguma vez irá conseguir (ou estar disponível para) corrigir os mesmos defeitos que já no passado tinham causado problemas muito graves ao clube. Acredito, no entanto, nas ideias que Bruno de Carvalho para o Sporting: ambição, exigência, transparência e rigor financeiro ao serviço do desígnio eclético do clube. Infelizmente, tenho enormes dúvidas de que Bruno de Carvalho tenha condições para executar as ideias que recuperou para o Sporting.

Ora, para mim, isto só se pode resolver com eleições para todos os órgãos sociais - ainda mais porque o atual CD está fragilizado e a um par de demissões de cair -, a realizar quando os três processos acima referidos já estiverem estabilizados e devidamente orientados. Ou seja, continuo a manter que setembro/outubro é a altura ideal.

Para além disso, como não estou disposto a abdicar do essencial do programa e das ideias de Bruno de Carvalho - mesmo estando disposto a abdicar do seu criador -, não vou contribuir para a sua queda no sábado, a ele e à sua direção, sem saber que nomes e programas se apresentarão para a sua sucessão.

Como tal, a não ser que algo de verdadeiramente relevante aconteça até sábado, votarei contra a destituição de Bruno de Carvalho.

sábado, 16 de junho de 2018

A uma semana da AG...

Falta uma semana para a realização da AG convocada por Jaime Marta Soares para que os sócios decidam a destituição ou permanência de Bruno de Carvalho e dos restantes elementos do Conselho Diretivo. Sendo este um momento de importância fulcral para o futuro do clube, é imperativo que os sócios votem em plena consciência do que pode significar a sua escolha.

Quem estiver inclinado para votar contra a destituição sabe com o que pode contar. Pode fazê-lo por acreditar que Bruno de Carvalho é a pessoa certa para ter no cargo ou, simplesmente, por considerar que, depois de tudo o que fez desde 2013, seria de uma enorme ingratidão estar a afastar o presidente do clube desta forma. Mas, seja por um motivo ou por outro, quem votar contra a destituição conhece todas as qualidades e defeitos de Bruno de Carvalho e, como tal, sabe qual o rumo que o clube terá. Para o bem e para o mal. 

Mas o mesmo não se pode dizer de quem estiver inclinado para votar a favor da destituição. É uma opção legítima e perfeitamente justificável para quem pense não há cenário mais nocivo do que a permanência de Bruno de Carvalho, independentemente da pessoa ou grupo de pessoas que pegar depois no clube. No entanto, é conveniente que se tenha alguma ideia do que acontecerá no dia seguinte caso a destituição seja aprovada por maioria. 

Como tal, existem clarificações urgentes que têm de ser feitas de imediato.

Em primeiro lugar: quem ocupará o lugar de Bruno de Carvalho até à realização de eleições? Jaime Marta Soares disse, na passada quarta-feira, que estaria por horas o anúncio da composição da Comissão de Gestão. Até agora, não o fez. 

Em segundo lugar: é fundamental conhecer os nomes, mas é ainda mais fundamental saber qual o seu nível de compromisso relativamente às duas questões de curto prazo que mais preocupam os sportinguistas: a defesa dos interesses do Sporting no conflito das rescisões, e o cumprimento do novo acordo de reestruturação com a banca que permitirá ao clube recuperar as VMOCs nas condições recentemente negociadas.

São questões demasiado importantes para se estar a passar um cheque em branco a pessoas desconhecidas, e ainda mais quando são pessoas desconhecidas que serão escolhidas por um incompetente como Jaime Marta Soares.

P.S.: É importante também que todos os candidatos a candidatos se cheguem à frente ao longo desta semana, com os seus nomes fortes e ideias-chave do seu programa. O tempo de se manterem na sombra acabou, os sócios têm o direito a saber com o que podem contar.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

A proposta de alteração dos estatutos

Começo por referir que o aquilo que vou escrever sobre as propostas de alteração dos estatutos parte do pressuposto de que a AG de dia 17 é válida e irá acontecer. Ainda assim, a opinião que tenho sobre o imbróglio estatutário em que estamos metidos é que Jaime Marta Soares é ainda o legítimo PMAG - pois é referido explicitamente nos estatutos que a MAG só abandona funções após a eleição de uma nova MAG (ao contrário do CFD e do CD, que devem ser substituídos de imediato por comissões transitórias até à eleição de novos órgãos sociais) - e que a CTMAG liderada por Elsa Judas não tem qualquer fundamento estatutário e, como tal, é ilegal. Mas isto é apenas a minha opinião e admito que sou um completo leigo em matérias de direito. Como tal, tentarei estar presente em todas as AGs que forem realizadas para exercer o meu direito de voto. Depois os tribunais que decidam quais as são as AGs legais e as AGs ilegais.

O tema que quero efetivamente abordar em detalhe é a alteração de estatutos proposta pela direção que vai a votos na AG de dia 17. Resumindo, as alterações propostas pela direção são as seguintes:


1. Introdução do conceito de Comissão Transitória da Mesa da Assembleia Geral.

Atualmente, uma MAG demissionária só abandona funções quando uma nova MAG é eleita pelos sócios. O que esta alteração estatutária propõe é que a demissão da MAG tenha efeitos imediatos, uma vez oficializada, cabendo então ao presidente do CD a nomeação de uma comissão transitória que desempenhe essas funções até às eleições, que se deverão realizar num prazo máximo de 6 meses.

Só tenho a dizer duas coisas sobre isto: é uma alteração desnecessária e clarificadora. 

A alteração é desnecessária porque os estatutos atuais são funcionais em relação a esta matéria. Apenas chegámos ao ponto em que estamos porque temos o mais incompetente PMAG de que há memória e temos órgãos sociais divididos de forma irreversível. Sendo esta uma situação excecional, muito possivelmente irrepetível, não vejo por que motivo haveremos de andar a mudar estatutos.

A alteração é clarificadora porque, a meu ver, demonstra que a CTMAG liderada por Elsa Judas é uma invenção que não tem qualquer suporte nos estatutos atuais. Se os estatutos permitissem esta CTMAG, então para quê estar a introduzir o conceito com esta proposta de alteração?


2. Substituição dos membros demissionários do CD

Caso seja aprovada, esta proposta de alteração permitirá, em caso de uma demissão de um membro do CD, que o presidente do CD tenha então liberdade para preencher essa vaga com o nome que quiser, desde que assegure a manutenção da proporcionalidade da composição do CD exigida pelos estatutos relativamente à antiguidade como sócios (pelo menos 1/3 dos membros têm de ter 20 anos ininterruptos de sócio de categoria, e pelo menos 2/3 têm de ter 15 anos ininterruptos de sócio de categoria A).

Para mim, esta proposta de alteração é inaceitável porque implica perda de poder dos sócios. Atualmente temos o poder de escolha de todo e qualquer membro dos órgãos sociais: os nomes fazem parte das listas para as eleições e colocamos o nosso voto numa das listas; se houver algum elemento demissionário, é substituído por outro elemento suplente que foi eleito por essa mesma lista (ou outras listas, caso esteja em vigor o método de Hondt). Mas com esta alteração, à medida que os membros se forem demitindo, outros poderão tomar o seu lugar sem qualquer hipótese de escrutínio dos sócios.

Os órgãos sociais do clube não são funcionários da SAD ou do clube, como tal não faz sentido encarar a substituição de um membro dos órgãos sociais como se de uma medida rotineira de gestão se tratasse. É uma questão bem mais relevante: substituir alguém que os sócios escolheram para gerir o clube. 

Os suplentes que fazem parte das listas existem precisamente para dar resposta a situações normais de demissões causadas por quebra de confiança ou desacordo com o rumo tomado. Mas quando os suplentes deixam de chegar para manter o quórum, é sinal de que algo de verdadeiramente grave ou extraordinário se passou. Em circunstâncias graves ou extraordinárias, a solução não pode passar por ser o presidente a colocar no CD quem bem lhe apetecer - a única solução aceitável é a realização de eleições para que os sócios decidam o rumo que o clube deve tomar.


Considerações gerais

O timing é indiscutivelmente péssimo, mas também é preocupante assistir à forma apressada como se está a apresentar e levar estas propostas de alteração a votos - propostas que aparecem como medidas de reação imediata a uma situação excecional que nunca se viveu na história do clube. Os estatutos são uma âncora na qual o funcionamento do clube se deve suportar nos melhores e piores momentos, e, como tal, devem ser debatidos e votados num ambiente de estabilidade e tranquilidade - tudo aquilo que não existe neste momento.

O imbróglio em que estamos metidos não é uma falha dos estatutos. Acontece porque de um lado temos o PMAG mais incompetente de sempre e do outro lado um presidente que queimou todas as pontes de entendimento com a maioria dos membros dos órgãos sociais. Por mais que se tente blindar os estatutos, em situações extremas como estas os advogados de grupos com posições extremadas conseguirão sempre encontrar lacunas ou pseudo-lacunas para suportar o seu ponto de vista. 

De qualquer forma, a adequação dos estatutos atuais à situação que vivemos é um falso problema: os estatutos atuais têm resposta para resolver este imbróglio e, no limite, caberá aos tribunais decidir quem tem razão.

É por tudo isto que votarei contra as propostas de alteração aos estatutos.


Poder total ao ditador?

Não faz qualquer sentido ver-se nestas propostas uma forma ilegítima de concentrar o poder na figura do presidente. Poder total seria se o presidente do CD tivesse a possibilidade de demitir quem quisesse e substituí-lo por quem quisesse. Não é o caso. A proposta apenas confere o poder de nomeação caso haja uma demissão no CD (e não no CFD ou na MAG), capacidade essa que cabe única e exclusivamente a cada um dos elementos do Conselho Diretivo.

Querer poder total seria se tentasse conferir direitos especiais a uma casta de associados que o ajudassem a manter-se no poleiro em quaisquer eleições.

Querer poder total seria se andasse a limitar os direitos que os sócios têm de fazer parte de listas para eleições de órgãos sociais e, em particular, candidatar-se à presidência.

Mais uma vez, é preciso ter muito cuidado na avaliação das "notícias" que a comunicação social vai passando.

domingo, 10 de junho de 2018

Consagração

O Sporting recebeu ontem o troféu pela conquista do campeonato de hóquei - a conquista que, na minha opinião, foi a mais notável de uma época carregada de sucessos ao nível das modalidades de pavilhão - no final da última jornada. Parabéns a todos os que contribuíram para que a vitória no campeonato fosse possível!


Fica um docinho adicional: o golo de João Pinto com que o Sporting fechou o marcador contra a Oliveirense: 4-4 em dia de festa.



sábado, 9 de junho de 2018

Legitimidade reconhecida ou legitimidade não reconhecida, eis a questão

Na segunda-feira houve uma manifestação organizada por sportinguistas a exigirem a demissão de Bruno de Carvalho e da atual direção. Compareceram centenas de manifestantes e dezenas de jornalistas e até um drone, e tivemos direito a longos diretos da RTP, SIC, TVI e CMTV, que recolheram opiniões e discutiram o descontentamento dos sportinguistas durante horas. Todos os canais que cobrem o assunto marcaram presença e não pouparam meios. Todos os canais? Não, a Sporting TV ignorou totalmente a manifestação. No dia seguinte, a manifestação teve direito a chamada de capa no Público, O Jogo, Jornal de Notícias, A Bola e Record. 

Ontem houve uma manifestação organizada por sportinguistas para declararem o seu apoio a Bruno de Carvalho e à atual direção. Compareceram centenas de manifestantes, mais centena ou menos centena comparativamente à segunda-feira anterior, mas desta vez... diretos, nem vê-los, com exceção da Sporting TV. Hoje, a manifestação não teve direito a uma única chamada de capa dos jornais.

Duas manifestações com centenas de sportinguistas não poderiam ter tido tratamento mais diferente.  A Sporting TV não cumpriu a sua função de manter os sportinguistas informados. Percebe-se o motivo, pois não costuma ser boa ideia morder a mão a quem aprova o pagamento das faturas mensais, mas a verdade é que dar noticia de apenas um dos lados da questão é mais desinformação do que informação. 

A mesma crítica pode ser dirigida a todos os jornais e televisões supostamente independentes. É mais do que evidente que estão a tomar partido por um dos lados da barricada. Estão fazer de Bruno de Carvalho o inimigo público número um e querem-no de fora do Sporting o mais rapidamente possível. O trabalho que têm feito é uma vergonha e isso sim, deveria efetivamente preocupar a opinião pública: quem está disponível para fazer uma caça à bruxa destas quando o tema é futebol, poderá um dia estar disponível para fazer o mesmo em temas muito mais importantes.

O que é que isto tem a ver com a questão da decisão de ontem do tribunal que indeferiu o requerimento da Marta Soares? É que a forma como essa decisão foi noticiada é um bom exemplo de como não podemos confiar em nada do que a comunicação social (Sporting TV incluída) diz ou escreve sobre o tema.


Isto que aparece na capa do Record de hoje é mentira. O tribunal pronunciou-se apenas sobre os pedidos que Marta Soares fez de forma a forçar o CD a providenciar todos os meios considerados necessários para que a AG de dia 23 se realize em condições de segurança. O tribunal indeferiu o requerimento de Marta Soares por considerar que as medidas solicitadas, mesmo que implementadas, não garantem essas condições de segurança. É única e exclusivamente isto que foi decidido. O tribunal não se pronunciou sobre o direito que Marta Soares tem em convocar uma AG, nem se pronunciou sobre se Marta Soares é ou não o legítimo PMAG em funções.

Em relação à situação da legitimidade dos órgãos sociais, o tribunal referiu apenas que, em função da natureza sumária de uma providência cautelar, não há necessidade nem condições para apurar se todos os pressupostos são válidos - incluindo sobre se Marta Soares tem ou não poderes para convocar a AG em causa -, de forma a não comprometer uma decisão que teria obrigatoriamente rápida e atempada sobre o requerimento colocado para garantir as condições de segurança da AG de dia 23. Nunca, em momento algum, se pronuncia sobre o diferendo que existe sobre qual é a MAG efetivamente em funções. Essa questão continua em aberto e, muito provavelmente, acabará por ser decidida nos tribunais... num processo completamente separado daquele cujo resultado foi ontem conhecido.

Todos, na nossa qualidade de adeptos, sócios e cidadãos, temos direito a achar que a razão está de um ou de outro lado. Mas isso não confere a ninguém, e muito menos à comunicação social, o direito de tentar enganar as pessoas dando a entender que foram decididas coisa que simplesmente não foram apreciadas.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A hipótese Scolari

O último mês da vida dos sportinguistas tem sido dominada por uma sequência quase ininterrupta de acontecimentos angustiantes e depressivos. Ontem, não tendo havido nenhuma crise nova a rebentar nem nenhuma conferência de imprensa de órgãos sociais (em funções ou demissionários, transitórios ou fictícios), acabou por ser um dia menos mau. Mas não deixou de ser, pelo menos para mim, um dia complicado, por causa da possibilidade de contratação de Scolari para treinador do Sporting.

À hora que escrevo isto a possibilidade Scolari parece estar descartada, mas durante uma boa parte do dia houve notícias que indicavam negociações muito avançadas e o acordo total até chegou a ser dado como certo pelo jornal A Bola ao final da tarde. Felizmente, não tardaria a aparecer a notícia de que Scolari e o Sporting não chegaram a acordo e que as negociações tinham terminado.


A contratação de Scolari, a meu ver, seria um  grande erro. É um treinador que está à beira de completar 70 anos, que há muito não faz nada de relevante em campeonato competitivos (perdoem-me, mas sucessos no Uzbequistão e China não são indicadores de nada) e que não é propriamente conhecido por ser um guru do treino. Pode ser um bom motivador, mas não deixo de ficar com a sensação de que estaríamos a proporcionar-lhe umas épocas de pré-reforma pagas a peso de ouro, e não ficaríamos de forma alguma melhor servidos de treinador do que os nossos rivais que, convém relembrar, terão na próxima época um orçamento superior ao nosso em virtude das receitas reforçadas que obterão da Liga dos Campeões. E o facto de o Sporting oferecer a Scolari um salário tão elevado acabaria por complicar uma eventual rescisão face à eventualidade (não muito improvável) de as coisas não correrem conforme o pretendido.

Compreendo que, na situação atual e com o tempo a apertar, não seja fácil contratar um treinador com as características ideais, mas prefiro que se corra algum risco num treinador com ambição, potencial, ideias próprias e vontade de mostrar serviço do que um treinador caro, de outra geração, cujos principais sucessos aconteceram ao nível das seleções, e que há anos não tem desafios a sério.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Branqueamento de capitais e fraude fiscal

As suspeitas que levaram à realização de mais uma sessão de buscas no Estádio da Luz na terça-feira  - pagamento de serviços a uma empresa do ramo informático de 1,9 milhões de euros que foram, posteriormente, levantados em numerário - podem ser explicadas de três formas possíveis, mas nenhuma delas pode ser considerada normal.

A primeira explicação é o serviço ter efetivamente existido e os pagamentos terem sido efetuados segundo o contrato assinado pelas partes. O que depois foi feito com o dinheiro dirá única e exclusivamente à empresa que recebeu esses valores. 

Neste cenário, nem o Benfica nem os seus funcionários seriam responsáveis por qualquer irregularidade. No entanto, para isto se comprovar é necessário que tenha havido, efetivamente, uma prestação de serviços informáticos no valor de quase 2 milhões de euros. Dependendo do tipo de serviço, podemos estar a falar de um esforço total que poderá variar entre 4.000 e 16.000 horas de trabalho. A existência ou não existência de uma prestação de serviços desta dimensão é facilmente demonstrável: ou falamos de uma implementação de um sistema informático, ou falamos de um contrato de algum tipo de suporte técnico, qualquer um deles implicando a produção de um grande volume de documentação de projeto ou registos de ticketing ao longo de um determinado período de tempo, incluindo trocas de ficheiros, emails e telefonemas entre técnicos, consultores e funcionários do Benfica das áreas, e tudo numa sequência cronológica coerente que é impossível falsificar.

Ou seja, para este cenário ser verdadeiro teria de haver uma prova incontestável de que tais serviços aconteceram - algo de que as autoridades duvidam, segundo o que se pôde ler no comunicado emitido ontem sobre o caso. 


Seria também necessário perceber a coincidência de todos os pagamentos efetuados pelo Benfica terem sido posteriormente levantados em numerário, algo que nenhuma empresa respeitável do ramo costuma fazer. Mas isso não seria problema do Benfica.

Sobram, portanto, duas explicações, ambas dependentes do pressuposto de que tais serviços nunca aconteceram: uma em que o Benfica é vítima de burla por parte de funcionários seus, e outra em que o Benfica está envolvido em crimes graves.

O Benfica poderia ser vítima caso um conjunto de funcionários seus tivesse conspirado para roubar dinheiro à SAD, inventando um serviço inexistente, arranjando uma empresa cúmplice, com o dinheiro transferido a ser depois dividido entre todos. Mas isto é altamente improvável, porque investimentos deste montante em serviços informáticos são aprovados pelas hierarquias de topo e a sua execução é acompanhada regularmente. Seria de uma incompetência extrema não haver ninguém a aperceber-se de que não havia qualquer projeto a decorrer, para além de que, após a descoberta, teria obrigatoriamente que haver queixa-crime contra esses indivíduos. Isso também é muito fácil de validar pelas autoridades.

Sobra então a última explicação, aquela que as autoridades investigam, e a que é mais provável considerando todas as suspeitas de irregularidades que têm surgido no último ano associadas ao Benfica: branqueamento de capitais e fraude fiscal. Do que é que estamos a falar em concreto?

Branqueamento de capitais ou lavagem de dinheiro são operações em que uma determinada pessoa ou organização tenta transformar dinheiro obtido de forma ilegal (sujo) em dinheiro legítimo (limpo). Uma das formas de se conseguir lavar dinheiro é gerar receitas inexistentes que ajudem a justificar os sinais exteriores de riqueza da tal pessoa ou organização. Um dos métodos que existe para gerar receitas inexistentes é através da emissão de faturas falsas.

Num cenário hipotético: a empresa A (neste caso concreto, segundo as suspeitas das autoridades, corresponderia à empresa de serviços informáticos) quer legalizar 2 milhões de euros obtidos através de uma atividade ilegal.

A empresa A necessita de ter um parceiro para efetuar este golpe, a empresa B (que neste caso concreto, segundo as suspeitas das autoridades, corresponderia ao Benfica). A empresa A vende um serviço fictício à empresa B, e passa uma fatura no valor de 2 milhões, para assim poder apresentar receitas de 2 milhões. Posteriormente, irá passar para o nome dos sócios uma grande parte desse valor, através da distribuição de dividendos, salários, prémios ou outro tipo de compensações. Falamos, portanto, de dinheiro que estava na economia paralela e que assim passa a estar no sistema financeiro legítimo.

Para mascarar melhor a operação, a empresa B faz uma transferência em nome da empresa A dos tais 2 milhões. Noutra altura, que tanto pode ser antes ou depois da tal transferência, a empresa A devolve os 2 milhões à empresa B (através de canais mais complexos, como off-shores, ou mais simples, como uma mala cheia de dinheiro entregue em mão). A empresa B ficará então com um saco azul de 2 milhões, que poderá usar para despesas ilícitas que não podem ficar registadas nas suas contas. No caso de um qualquer clube de futebol estamos a falar de dinheiro que poderá ser utilizado, por exemplo, para aliciar jogadores ou árbitros.

A parte da fraude fiscal é a que menos importância tem no caso, é quase como uma espécie de dano colateral ao que realmente interessa: como a empresa B está a declarar custos que nunca teve na realidade, está a reduzir os seus lucros e, consequentemente, está a pagar menos impostos do que devia ao Estado.

Isto é, como se pode facilmente perceber, uma questão gravíssima. Ninguém tira voluntariamente milhões das contas para a economia paralela com boas intenções - não será certamente para comprar rifas a escuteiros -, sendo possível que isto seja apenas mais uma ramificação de toda a podridão que tem vindo a ser revelada ao longo do último ano. É também extraordinário como grande parte da comunicação social conseguiu passar praticamente ao lado deste caso. Esperemos pelos próprios desenvolvimentos.