sábado, 16 de março de 2019

Soporífero

Depois das justificações que Keizer foi dando entre dezembro e fevereiro - apontando a falta de frescura física como fator principal para a queda exibicional -, seria de esperar que, a partir do momento em que voltámos a jogar uma vez por semana, se fosse registando uma melhoria gradual no desempenho da equipa. O que vimos ontem, frente ao Santa Clara, foi precisamente o oposto. 

A primeira parte que o Sporting realizou é inconcebível. Foram 45 minutos de apatia generalizada, com jogadores pouco mais que plantados em campo e executando de forma previsível e angustiantemente lenta. A segunda parte valeu pelos primeiros quinze minutos. Foi o único período em que a equipa procurou a bola e o golo de forma insistente, culminando no remate de Raphinha que acabaria por determinar o resultado final. Pelo meio, os açorianos podiam ter marcado num penálti de bola corrida que, felizmente, embateu nas costas de Ristovski e saiu pela linha final. Depois do golo, o Sporting entregou a iniciativa ao Santa Clara e as oportunidades de golo rarearam de parte a parte até final. 

Do ponto de vista individual, Raphinha foi o jogador que mais se destacou pelas situações de desequilíbrio que conseguiu ir gerando - o problema é que esteve quase sempre mal acompanhado. Bruno Fernandes não sabe jogar mal e Acuña voltou a estar num nível aceitável. Doumbia cumpriu nesta chamada à titularidade, justificando novas oportunidades. No plano negativo, é impossível ignorar o momento de total falta de confiança por que passa Dost - uma sombra do enorme ponta-de-lança que é - e voltámos a ser obrigados a ver Diaby a envergar a nossa camisola. O maliano é um desastre tático, técnico e mental com duas pernas. 

Valeu exclusivamente pelos três pontos, numa noite que foi um suplício para os resistentes que ainda vão marcando presença nas bancadas e que, apesar de desiludidos com mais uma temporada fracassada, encontrariam algum conforto se se observassem sinais de melhoria que deixassem antever um 2019/20 mais promissor.

E é essa a grande questão do momento e que se arrastará até maio: é fundamental que Keizer demonstre JÁ capacidade de subir o rendimento da equipa se quiser continuar como treinador na próxima época. Compreendo que não foi o holandês que escolheu o plantel com que tem de trabalhar, mas, no contexto de um jogo disputado por semana, tem matéria-prima mais que suficiente para vencer confortavelmente 75% dos jogos. Em 2019, dos 18 jogos disputados, apenas em 3 ocasiões vencemos de forma tranquila - em todos os outros, a incerteza do resultado manteve-se até ao apito final do árbitro ou até muito perto do fim. Não havendo melhorias significativas nos 9/10 jogos que restam, entrará na próxima época imensamente pressionado e sem qualquer margem para errar.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Negócios do chinês (@3295c_)

Novo texto do 3295C.



Não há como fugir à classificação de uma das últimas pérolas de gestão do actual Conselho Directivo do Sporting. O anunciado acordo com o Wolverhampton, no seguimento do fecho de contas relativa à contratação, pelo emblema inglês, do guarda-redes Rui Patrício, envolve a módica quantia de dois milhões de euros e esta “verba” está fundamentada na premissa de uma “abertura ao Sporting do mercado chinês”, de acordo com a entrevista de Francisco Salgado Zenha à TVI a 28 de Fevereiro. Curiosamente, quatro meses depois de Frederico Varandas ter dito que “não foi fácil e não posso explicar tudo”. Não podia e até admite-se que nem todos os pormenores de uma operação financeira possam vir a público, devido à natureza de confidencialidade deste e de outros negócios. O que já não pode é esconderem-se os gastos e o objectivo dos mesmos. Um negócio é feito por determinadas exigências e cedências, de parte a parte, e a partir do momento em que há uma opção de se assinar um protocolo de “abertura de mercado”, deixa-se a esfera da negociação para o plano político e de gestão.

Gostaria de saber mesmo o que significa esta “abertura do mercado chinês”, envolvendo o pagamento de dois milhões de euros por algo que, do ponto de vista interno, não faz muito sentido.

Carlos Vieira, anterior vice-presidente e da área financeiro, passou sete dias, em Abril de 2018, em Pequim, não apenas ao abrigo das comemorações dos 40 anos da histórica viagem do Sporting Clube de Portugal, liderada pelo então Presidente João Rocha e o plantel praticamente todo de 1978. Evento relevante (mais um, de muitos, felizmente, amigos leões) não apenas para o Clube como para o país. Portugal só viria a ter embaixada em Pequim no ano seguinte.

Carlos Vieira reuniu com o ministro da Administração Geral dos Desportos da China, Gou Zhoug Wen, e com o embaixador português em Pequim, José Augusto Duarte. Assinou diversos protocolos de parcerias com clubes chineses, escolas públicas e não apenas para o futebol. Segundo noticia o site do Clube, tudo bases para se poderem vir a construir academias, vocacionadas para o futsal e para o andebol. Sempre com a marca Sporting.

Deixo de novo a pergunta simples que, creio, impõem-se: o Sporting precisa de pagar dois milhões de euros ao Wolverhampton para nos abrir o mercado chinês?

“Estagiários”, chamou-lhes Riccardi. “Operação Coração”, apelidou o último empréstimo obrigacionista, que se ficou pelos 26 dos 30 milhões de euros como meta. Com razão: o anterior teve rateio. Houve mais de 70 milhões para os mesmos 30 de objectivo.

Os tempos não estão fáceis, acredito. Já disse Frederico Varandas que ano zero [mais um motivo de ironia para Ricciardi] é na próxima época. Sublinho: próxima. O futebol fácil facilmente se transformou em alta tecnologia de ponta com recurso a inteligência artificial. O desnorte parece tão evidente que nem é preciso atribuir lógica à idiótica referência ao pagamento para a saída a custo zero do Bas Dost.

São mesmo estes negócios do chinês. Que não fazem sentido. E o problema é quando passam a fazer. Sentido.

[Só um acrescento em relação ao assunto das rescisões, da qual Rui Patrício fazia parte: outros processos de outros jogadores estão em aberto e aguardo serenamente o desfecho de cada um deles. Custou-me a passividade dos responsáveis do meu Clube não responderem, forte e vigorosamente, à recente provocação do presidente do Lille, que dizia não pagar um cêntimo ao Sporting por ter assinado com Rafael Leão. Gostaria que o Conselho Directivo do meu Clube tivesse puxado dos galões do centenário emblema que dirige e tivesse, publicamente, dito que ao Sporting Clube de Portugal pouco importa o deselegante rebate de consciência pura e cristalina do presidente do Lille. O que o Sporting Clube de Portugal pode garantir, acima de tudo aos seus Sócios, é que alguém vai pagar. E isto é evitar ser alvo de chacota. Aguardemos os restantes, com especial atenção ao Gelson Martins.]

O risco das poupanças

Têm sido insistentes, nas últimas semanas, as notícias que dão conta de que muitos jogadores do Sporting poderão sair no final da época. Os motivos são diversos: falta de qualidade, contratos que chegam ao fim, possibilidade de aparecerem propostas interessantes para os cofres do clube, e ainda outros casos em que, supostamente, o clube considerará que o rendimento desportivo não está a corresponder ao salário auferido. Dost, Coates, Mathieu, Acuña são alguns dos titulares indiscutíveis que se diz que poderão sair no verão, para além de, previsivelmente, uma série de outros jogadores cuja saída não deixará nenhum sportinguista com particular saudade, como André Pinto, Bruno Gaspar, Jefferson, Gudelj, Petrovic ou Diaby. Bruno Fernandes, a jóia da coroa do plantel, parece ser a única exceção: é desejo dos responsáveis pelo futebol que a equipa da próxima época seja construída à sua volta.

Esta "vassourada" virá na sequência de uma série de saídas a custo zero ou por baixo valor no recente mercado de inverno: Marcelo, Mané, Castaignos, Bruno César, Misic, Sturaro, Montero e Nani.

Poucos discutirão a saída da maior parte dos nomes desta lista, mas os casos de Montero e Nani são diferentes. Nenhum dos dois jogadores foi substituído por um elemento de igual utilidade para a equipa. Luiz Phellype não faz esquecer o colombiano (mesmo a mim, que não sou particular fã de Montero) e Gonzalo Plata só agora chegou a Alcochete, tendo ainda muita papa Cerelac para comer até poder atingir o nível do ex-capitão.

Nos casos de Montero e Nani, a expressão mais utilizada - oficiosamente, através dos jornais - para explicar as suas transferências foi poupança nos salários. Compreendo a decisão da direção em reduzir drasticamente a folha salarial face ao enorme desequilíbrio orçamental que a Comissão de Gestão de Sousa Cintra deixou, mas, ainda assim, as saídas de Montero e, em especial, de Nani, são difíceis de aceitar do ponto de vista desportivo.

Mas fico ainda mais preocupado perante as notícias de que Coates, Mathieu e Dost poderão não continuar na próxima temporada. Já corremos riscos grandes por estarmos obrigados, no próximo defeso, a reformular uma parte demasiado ampla do plantel para substituir o muito entulho que temos - e que exigirá uma enorme percentagem de acerto nas contratações. Mas se a isso juntarmos ainda a substituição de quatro jogadores de qualidade indiscutível - ainda que Dost, neste momento, esteja a atravessar uma grave crise de confiança -, temo que dificilmente teremos capacidade de lutar para o título na próxima época. 

Pego, por exemplo, no caso de Dost. Percebo que o holandês, auferindo um salário de 6 milhões, seja encarado um encargo elevado para as finanças da SAD. Acredito também que o departamento de scouting ache possível contratar um ponta-de-lança que valha muitos golos por valores muito inferiores... mas isso não quer dizer que o consigam fazer, pois existem muitas variáveis que determinam o sucesso de um jogador. A qualidade do atleta que o vier substituir será fundamental, mas não é tudo: falhando a adaptação ao país, ao clube, ao campeonato ou ao sistema de jogo do treinador, essa qualidade não se irá traduzir em golos - e muito menos na grande quantidade de golos que sabemos que Dost vale.

O ajuste orçamental é necessário face à perda dos prémios da Liga dos Campeões. Para piorar a situação, o aumento dos prémios monetários da Liga dos Campeões permite a Porto e Benfica investirem mais e pagar melhores salários aos seus jogadores - e, consequentemente, aumentar a sua capacidade de atrair e manter talento. Pode-se observar no gráfico seguinte que voltou a haver um fosso entre o Sporting e os rivais no que ao orçamento do futebol diz respeito.

2018/19 H1 - 1º semestre; 2018/19 PROJ - projeção para o final da época, com o pressuposto de que os custos do 1º semestre se manterão no 2º semestre

Depois de duas épocas com orçamentos equiparáveis a Porto e Benfica, o primeiro semestre de 2018/19 já permite constatar um aumento de investimento dos nossos adversários. Ao invés, o Sporting terá ainda de fazer um ajuste em baixa. Se os custos do segundo semestre se mantivessem idênticos aos do primeiro, o Benfica gastaria mais 32 milhões do que o Sporting. Isso não deverá acontecer, já que os dois clubes de Lisboa dispensaram vários jogadores caros no inverno, mas o tal fosso é uma realidade indiscutível... e que se vai agravar em 2019/20. A diferença orçamental para os rivais, só por si, faz-nos partir de uma posição de grande desvantagem, mas se a isso juntarmos um extreme makeover do plantel que não poupa nem os melhores... será preciso um milagre para termos uma equipa capaz de competir pelo campeonato.

A história dos últimos anos mostra-nos que é possível ter equipas competitivas com orçamentos inferiores - veja-se os exemplos de 2015/16 e 2013/14 -, mas a margem de erro que o Sporting terá nas decisões de mercado será quase nula. Agora temos de perceber quais as intenções da direção do ponto de vista do orçamento. Espero que não passe por ajustar os custos operacionais aos proveitos operacionais, isso seria um erro. Na minha opinião, deverá ser sempre assumido um risco calculado na definição do orçamento, contando à partida com as mais-valias de uma grande venda ou duas boas vendas.  Não assumir esse risco sujeita-nos a outro tipo de risco, de natureza desportiva. Há que limitar a redução do orçamento tanto quanto possível, de forma a aumentarmos as probabilidades de termos mais jogadores de qualidade e valorizáveis. Isso facilitará a entrada num círculo virtuoso em que o sucesso desportivo e o sucesso financeiro se alimentam mutuamente, e que só um plantel de qualidade pode iniciar.

domingo, 10 de março de 2019

Uma questão de prioridades

Ontem, no Bessa, havia três pontos para ganhar e os três pontos foram conquistados. Apesar de a "luta" pelo 3º lugar ser algo que não aquece nem arrefece, é importante ir amealhando todos os pontos em disputa de forma a não agravar a crise desportiva que atravessamos. Nesse sentido, a vitória de ontem, apesar de sofrida, foi uma missão cumprida. No entanto, ir ganhando não é suficiente. É fundamental aproveitar os jogos do campeonato que nos restam para ir lançando, na medida do possível, a próxima temporada - desenvolvendo jogadores, ambientando os reforços às particularidades do futebol português, e evitar a utilização daqueles que já se sabe que não farão parte do plantel de 2019/20.

Infelizmente, parece faltar ao futebol do Sporting uma estratégia a médio prazo face à ausência de objetivos relevantes a curto prazo. Ou - igualmente preocupante - a estrutura de futebol do Sporting poderá ter uma estratégia definida nesse sentido, mas, nesse caso, Keizer não estará a colaborar na sua implementação. Seguem-se dois exemplos.

Primeiro, Gudelj. Foi novamente titular e, para não variar, foi uma espécie de elemento neutro no coletivo: não só defende sofrivelmente como não acrescenta nada ao ataque, ao ponto de Coates e Mathieu terem sido mais úteis e incisivos na manobra ofensiva. João Pinheiro fez-nos o favor de amarelar o sérvio num lance que não justificava qualquer cartão, assegurando, assim, que ficará de fora por suspensão contra o Santa Clara. Ao invés, Doumbia - que, em teoria, veio em janeiro para reforçar o nosso meio-campo defensivo - teve uns míseros quinze minutos para mostrar serviço. Mais uma vez aproveitou-os bem, deixando-me (e seguramente a muitos outros sportinguistas, nos quais, aparentemente, não se inclui o treinador) com vontade de o ver mais tempo em campo.

Segundo, as opções de ataque para o Bessa. Dost ficou em Lisboa por lesão. Luiz Phellype foi titular à força e ficámos com Diaby como primeira opção de banco para ponta-de-lança e extremo. Esta última frase, de tão deprimente que é, demonstra bem a falta de soluções que temos na frente. Para mim, é inconcebível que Diaby - um flop caríssimo - fique no Sporting na próxima época e que Luiz Phellype seja mais do que uma terceira opção para ponta-de-lança. Em Portugal, a receita para o título obriga à existência de dois avançados titulares que valham 15 ou mais golos por época e, neste momento - considerando o fosso psicológico em que Dost está metido - o Sporting não tem nenhum. Mas não faria mais sentido ter-se levado ontem um ponta-de-lança dos sub-23 para o banco, em vez de lá termos dois centrais (André Pinto e Ilori)? 

Voltando ao jogo. Mesmo jogando com menos dois (e menos três a partir dos 75'), o Sporting fez mais do que o suficiente para ganhar ao Boavista e justificou a vitória. Depois de se ver a perder desde praticamente o início do jogo em mais um lance digno dos apanhados, a equipa de Keizer dominou a partida por completo e criou variadíssimas oportunidades para marcar. A indefinição no marcador até ao fim apenas se explica pelas tais carências no ataque: o Sporting fez 22 remates, 15 dos quais dentro da área, o que significa que chegou com muita facilidade à área de Bracalli mas que falhou redondamente no momento da finalização. Frente a um Boavista tão frágil, não deveria ter sido necessário recorrer ao tempo de descontos para consumar a reviravolta no marcador.

Em relação às exibições dos nossos jogadores, destaques positivos para Acuña (a raça pode ser uma qualidade valiosa quando a falta de confiança emperra os processos coletivos), Coates (foi capaz de desequilibrar em condução, à falta de médios que fizessem o mesmo), Raphinha (a espaços, é certo, mas foi decisivo no resultado), Mathieu (que falta nos fez a sua classe nas últimas semanas), Borja (mais um bom jogo, confirmando que é reforço) e Doumbia (no pouco tempo que esteve em campo).

O penálti que nos deu a vitória é polémico. Eu não o teria assinalado - não vi intensidade suficiente no toque de Edu Machado sobre Raphinha -, mas também não teria assinalado uns seis ou sete lances idênticos a meio-campo que João Pinheiro considerou falta. O árbitro manteve o (mau) critério que seguira até então e o VAR não tinha poder para reverter a decisão. Dispensa-se, no entanto, o rasgar de vestes dos indignados que, aparentemente, andam distraídos e não têm reparado nas inqualificáveis arbitragens que têm prejudicado o Sporting de novembro para cá.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Bilheteira - A verdade dos factos

Artigo muito interessante publicado na edição de hoje do Jornal Sporting, onde são apresentados números sobre a afluência ao estádio na época 2018/19, da autoria de Miguel Cal, administrador da SAD.

Podem aumentar o tamanho das imagens clicando sobre elas.



segunda-feira, 4 de março de 2019

As contas do 1º semestre

O Sporting divulgou no final da passada semana as contas do 1º semestre de 2018/19, apresentando um lucro de aproximadamente 6,5 milhões de euros. É um valor que, sendo positivo, obrigará a SAD a fazer pelo menos uma boa venda até junho de 2019, já que o 1º semestre tem tipicamente bastante mais receitas do que o 2º semestre.

Há três aspetos negativos nas contas. 

1º problema: a redução das receitas operacionais. 

A conjugação da crise que o clube viveu a partir do final da época passada com a não qualificação para a Liga dos Campeões representou um enorme decréscimo ao nível dos prémios da UEFA e ao nível da bilheteira - lugares de época e lugares empresariais incluídos. O único aspeto positivo é o aumento de 15% registado nos patrocínios e publicidade.


Decompondo a componente Bilheteira, observa-se uma redução a todos os níveis, sobretudo ao nível dos bilhetes jogo a jogo. Isso explica-se pela redução de cerca de 1 milhão entre os jogos da Liga dos Campeões da época passada para os jogos da Liga Europa desta época, pelo facto de não ter havido nenhum jogo caseiro com equipas do topo da tabela até 31 de dezembro e, claro, não ajuda o pouco entusiasmo que a equipa de futebol tem despertado entre os sócios e adeptos sem Gamebox. 



2º problema: a falta de ajustamento dos custos à previsível queda das receitas

Perante a queda total de 8,7 milhões das receitas operacionais - que era mais que previsível -, teria sido fundamental fazer um ajuste do orçamento da equipa de futebol para manter as contas equilibradas. Infelizmente, não foi o caso. Se excluirmos a diferença de salário de Jorge Jesus para Peseiro/Keizer e o prémio de qualificação para Liga dos Campeões que foi pago na época passada, chegamos à conclusão que o plantel atual é mais caro do que o da época passada - com a agravante de isso não se ter refletido, nem de perto nem de longe, na manutenção da qualidade que existia.


Uma herança indesejada deixada pela Comissão de Gestão à atual direção, que, tendo entrado após o fecho de mercado de verão, só em janeiro pôde fazer os ajustes que se impunham. Será previsível que os custos com pessoal desçam no 2º semestre após as movimentações do mercado de inverno.



3º problema: as necessidades de tesouraria de curto prazo

Não é complicado perceber que as obrigações de pagamento do clube a curto prazo (neste caso a 1 ano) são imensamente superiores aos valores que a SAD tem a receber.

A pagar durante os próximos 12 meses:
  • Fornecedores - 54,2M;
  • Financiamento (banca) - 53,9M;
  • Estado - 6,3M.

A receber durante os próximos 12 meses:
  • Clientes - 12,3M;
  • Estado - 0,4M.

As rubricas de outros devedores e outros credores referem-se, em grande parte, a valores a pagar entre o grupo Sporting e não alteram de forma significativa o panorama.

O valor que se deve a fornecedores é relativamente normal. O problema está no resto: até há uns anos, assumia-se que os empréstimos bancários se renovariam automaticamente, coisa que hoje já não acontece; e o valor a receber de clientes (vendas de jogadores a outros clubes) é invulgarmente baixo, consequência da rescisão em massa de vários dos atletas com mais mercado que impossibilitaram os encaixes de que o clube necessitava. Tudo isto foi agravado pelo facto de o último empréstimo obrigacionista não ter tido a adesão desejada.

Não espanta, portanto, que corram notícias de que a SAD pondera a antecipação de receitas da NOS para fazer face a estas necessidades de tesouraria, no âmbito da reestruturação financeira que se encontra a ser negociada.


O endividamento e as receitas antecipadas

Não fossem as obrigações de curto prazo, o panorama do endividamento do Sporting até poderia ser encarado como bastante positivo. A dívida voltou a baixar, em parte explicada pela "troca" do EO de 30 milhões pelo novo de cerca de 25 milhões. A antecipação de receitas manteve-se estável em relação ao último ano. Obviamente que, à luz das notícias dos últimos dias, é de prever que o valor aumente significativamente durante o 2º semestre.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Dois pontos oferecidos

Bruno Fernandes sintetizou bem no final aquilo que foi o jogo de ontem: muitas responsabilidades próprias na forma como entrámos na partida, oferecendo 45 minutos a um adversário que não tinha qualquer intenção de jogar à bola perante a complacência de um árbitro que foi inclinando o campo na medida das possibilidades.

Começo pelas culpas próprias. Depois de um jogo fisicamente exigente em Vila-real em que estivemos praticamente meia partida em desvantagem numérica, seria de esperar que Keizer fizesse algumas alterações que assegurassem o nível de intensidade de que necessitávamos para ultrapassar uma equipa de Petit ao longo dos 90 minutos. O treinador não viu assim as coisas e fez uma única alteração: colocou em campo o seu onze preferido, recuperando Acuña para o lugar que Jefferson ocupou em Espanha por castigo do argentino, mas desta vez com uma disposição de 4-2-3-1, com Diaby bem encostado à linha. A primeira parte foi de muita luta com um ritmo lento e demasiado paciente, o que se traduziu em escassas ocasiões de perigo. 

Keizer mexeu logo ao intervalo metendo Doumbia e Raphinha (que, na minha opinião, deveriam ter sido titulares) retirando os amarelados Borja e Gudelj. Decisão prudente que revela algum conhecimento de como pensam os árbitros do Sporting, mas que forçou a mais um esforço suplementar dos desgastados Wendel e Bruno Fernandes, que rebentariam fisicamente aos 60'. Ainda assim, o Sporting subiu de rendimento e criou muitas situações de golo na segunda parte, mas que, infelizmente, esbarraram no excesso de cerimónia no momento do remate e nos pinos insulares que povoavam a área. Acordámos tarde, demos razões ao Marítimo e a Tiago Martins para acreditarem que podiam sacar um pontinho, e acabámos em cima adversário a tentar recuperar o tempo que desperdiçámos na primeira parte. Deixámo-nos embalar pela ondulação marítima e assim se perderam dois pontos contra um adversário fraquíssimo.

Há depois o outro lado da questão. Mais uma vez tivemos uma arbitragem que fez os possíveis para facilitar a vida ao adversário. Renê foi distribuindo pauladas nas pernas de Bruno Fernandes e Wendel à discrição, sem que o árbitro se incomodasse a admoestá-lo. Ao invés, transformou uma queda normal de Borja numa tentativa de simulação e foi assistindo passivamente às inúmeras queixas de Charles que se agarrava à mão para depois ser assistido na perna. Perto do final, arranjou forma de expulsar Coates por este tentar despachar uma reposição de bola e mostrou o mesmo caminho a Keizer por motivos que só o próprio árbitro saberá. Perante tudo isto, teve ainda o descaramento de dar apenas 3 minutos de desconto na primeira parte e 4 na segunda, dos quais só se jogou efetivamente um minuto.

Nada que surpreenda considerando as sucessivas arbitragens que têm gozado connosco, ao ponto de o Sporting ser, neste momento, a equipa com mais cartões amarelos na Liga (!!!) a par com o Boavista. E é triste que tenha de ser o craque da equipa a vir a público mencionar o óbvio - sujeitando-se aos humores do Dr. Meirim -, em contraponto com a "gestão silenciosa" que tem poupado o team manager, o diretor desportivo ou o próprio presidente de sujar um pouco as mãos em defesa do clube.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

A conferência de imprensa

A oportunidade da CI

Considerando a antecedência com que a conferência de imprensa foi marcada e os temas que foram abordados, diria que a direção se sentiu forçada a falar face ao nível de contestação que os maus resultados da equipa de futebol foram acumulando - mesmo sem ter nada de verdadeiramente novo para dizer.

Com exceção das revelações relativas à auditoria forense, nada do que foi dito é novidade para os mais atentos. Quando muito, Frederico Varandas, Francisco Zenha e Miguel Cal deram a conhecer mais pormenores que complementam os diagnósticos que já tinham sido feitos na campanha eleitoral e em entrevistas dos vários elementos da administração da SAD de setembro para cá. As dificuldades de tesouraria eram conhecidas, o estado de descuido da Academia já tinha sido mais que discutida, tal como a falta de meios humanos e tecnológicos no backoffice da SAD, indignos de uma organização desta dimensão.

Foto: A Bola
Compreendo, no entanto, que a administração da SAD tenha vindo relembrar aquilo que não deveria ser necessário relembrar. Os sócios do Sporting estão a esquecer-se com demasiada facilidade de todas as condicionantes com que esta administração tem de lidar, e não faz sentido que se apontem determinados tipos de responsabilidades quando a preparação da época foi feita pela Comissão de Gestão e quando ainda nem há sequer seis meses estão em funções. A implementação de medidas estruturantes precisa de bastante mais tempo para produzir efeitos palpáveis. Isso, no entanto, também é sintoma de que a comunicação para os sócios está longe de funcionar como seria desejável.


A auditoria forense

A CI começou com o anúncio de alguns dos resultados da auditoria aos mandatos de Bruno de Carvalho. As revelações feitas por Frederico Varandas têm de ser devidamente explicadas porque falamos de questões graves - principalmente as despesas com a firma de advogados que integrou o ex-sogro do ex-presidente como associado. Neste caso, do ponto de vista da perceção de quem está de fora, não ajuda nada o facto de Bruno de Carvalho ter colocado Joana Ornelas como responsável de áreas tão amplas como as de Marketing, Comercial, Sócios, Museu, Merchandising, Comunicação, Fundação Sporting e Relações Públicas. Juntando uma coisa a outra, há motivos pertinentes para que se desconfie da existência de práticas de nepotismo, mas agora deve ser dada oportunidade a Bruno de Carvalho para apresentar as suas explicações sobre o tema.

De qualquer forma, não me pareceu nem o local nem o tempo apropriado para este tipo de revelações: deviam ter sido feitas em AG e apenas após a conclusão de todo o processo.


O all in

Francisco Zenha usou a expressão "all in" para descrever a forma como a época de 2017/18 foi planeada financeiramente e executada, pelo facto de a direção anterior ter recorrido à antecipação de receitas e à conta de reservas para pagar o reforço da equipa em janeiro. Efetivamente foram decisões que podem ser descritas como desnecessárias e perigosas quando avaliadas a posteriori, mas, na altura, face ao valor do plantel, ao desempenho desportivo da equipa na primeira metade da época e à perspetiva do encaixe com vendas no verão, diria que poderiam ser vistas mais como um risco calculado do que como um all in. O problema dos riscos calculados é quando surgem factos que à partida se julgariam impossíveis, como foi o caso da sucessão de desastres que atingiram o Sporting nos meses finais da época.

Houve dois all in bem mais nefastos que nos conduziram ao estado atual: o all in emocional colocado por Bruno de Carvalho na pressão ao plantel - que terminou num estado de rutura total entre atletas e clube no momento decisivo da época - e o all in de Cintra na tentativa de construção forçada de um legado que falhou na sua presidência nos anos 90, que se traduziu numa série de contratações precipitadas e na ausência de preocupação em adequar o orçamento da equipa de futebol às receitas previstas para a temporada de 2018/19.

Aliás, considerando a lavagem de roupa suja que houve nesta conferência de imprensa, faltou uma referência à incompetência demonstrada pela Comissão de Gestão nos dois meses e meio em que geriram o Sporting. Para além da questão do orçamento atrás referida, houve ainda outras decisões incompreensíveis como a contratação de Peseiro, o aumento de Battaglia, a venda de Demiral a preço de saldo, ou - esperemos que não se confirmem - as noticiadas garantias de venda de Bruno Fernandes por 35 milhões e de Acuña por 20 milhões.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O estado da nação sportinguista

O Sporting anunciou em comunicado a marcação de uma conferência de imprensa para a próxima sexta-feira para fazer um "balanço e exposição da situação do clube desde setembro de 2018". O tom do comunicado é sombrio e deixa antever uma sessão carregada de questões sensíveis que certamente levantarão muita polémica nos dias e semanas que se seguirão. Alguns dos esclarecimentos dados serão previsíveis e lógicos - começando pelo facto de esta direção pouco ter podido influenciar a época desportiva ao ter entrado com as competições em andamento, com a janela de transferências fechada e com graves problemas de tesouraria de resolução urgente -, mas, pelas referências do tipo "gestão silenciosa", "a verdade sobre o 'Estado da Nação'" ou "sentido de responsabilidade de todos", haverá muito mais para ser apresentado. Veremos até que ponto seremos surpreendidos pelo que aí vem. 

O nível de compreensão e paciência para as explicações que serão dadas variará de sócio para sócio, sendo certo que dependerá muito da avaliação que cada sportinguista faz do trabalho que tem sido feito até aqui. Esta é a minha avaliação. 


O momento desportivo 

O Sporting ganhou a Taça da Liga, a única competição que já está fechada. As derrotas frente a Benfica e Villarreal na Taça de Portugal e Liga Europa nas respetivas primeiras-mãos são comprometedoras, ainda que os resultados sejam teoricamente reversíveis. O campeonato está perdido, afundado num humilhante quarto lugar a uma distância pontual impensável em relação aos três da frente. 

Nunca achei que o Sporting tivesse condições para lutar pelo título esta época, face ao treinador e à qualidade do plantel que ficou definido no dia 31 de agosto. Peseiro foi uma escolha absurda e a construção do plantel não podia ter sido feita de forma mais caótica e desastrosa: acabámos com um plantel mais caro que o da época anterior (apesar de a CG saber que não poderíamos contar com as receitas da Liga dos Campeões) e com enormes desequilíbrios em várias posições carentes de alternativas de qualidade. Isto é responsabilidade da instabilidade que o clube viveu no final da época passada, mas também do trabalho da Comissão de Gestão liderada por Sousa Cintra, que tinha a obrigação de gerir com muito mais competência o pouco dinheiro que o clube tinha para formar uma equipa mais competitiva. 

Mas o que mais preocupa os sportinguistas neste momento é o desnorte que se tem vindo a observar na equipa de futebol de outubro para cá. O despedimento de Peseiro era inevitável e a escolha de Keizer foi surpreendente, tal como surpreendente foi o desempenho da equipa nos primeiros jogos comandados pelo técnico holandês. As ideias de jogo eram refrescantes e os jogadores pareciam ter acolhido com satisfação a filosofia de Keizer, praticando futebol espetacular, o que torna ainda mais incompreensível o fosso em que a equipa caiu de Guimarães para cá. O que terá acontecido no espaço de dois meses para transformar uma equipa confiante num conjunto de jogadores emocionalmente estilhaçados que parecem ter desaprendido de jogar? 

Diria que é absolutamente fundamental que na sexta-feira se faça uma boa apresentação do diagnóstico dos problemas atuais para que os sócios percebam aquilo com que podem contar. Neste momento ninguém é capaz de perceber a forma como a equipa tem sido gerida: não se entende a lógica de rotação do plantel, o uso pouco regular que se tem feito dos reforços e a aparente ausência de prioridades bem definidas no ataque às diversas competições. Nos últimos dias tem-se observado a saída de referências do plantel sem uma explicação lógica que não seja a poupança em salários. Tudo isto aliado à forma como (não) se comunica aos sócios, deixa-nos perante um panorama bastante negro, que não só nos foi retirando a confiança para o que ainda há para jogar esta temporada, como, pior ainda, nos deixa a pensar se a próxima época não estará já condenada à nascença. 

A vitória frente ao Braga reacendeu algumas luzes de esperança, mas ainda há muito para provar nos encontros que se seguem para podermos recuperar o otimismo em relação ao futuro. 


A estrutura do futebol 

Sempre pensei que iríamos atravessar uma época desportiva complicada. As minhas melhores expetativas, nesta primeira época da era Varandas, estavam sobretudo colocadas na promessa eleitoral da construção de uma estrutura de futebol forte e profissional. As peças têm vindo a ser gradualmente apresentadas e, até ver, parece existir um rumo bem definido na construção do edifício do futebol. É justo que haja a consciência por parte dos sócios de que o seu trabalho demorará algum tempo até começar a dar frutos. 

Ao nível do scouting já é possível ver qualquer coisa. Para já, estou otimista face às primeiras movimentações que se observaram no mercado de inverno - que parecem ter valor para serem muito úteis à equipa no imediato ou num futuro próximo.


A defesa intransigente do Sporting Clube de Portugal 

Compreendo que a estratégia da atual direção passasse, em parte, por reduzir o nível de postura de confronto e de ruído mediático gerado pelo clube. No entanto, parece-me que se levou essa ideia a um extremo que facilmente se confunde com passividade e conformismo. 

Para além da falta de reações oficiais ou das reações tardias (24 horas são uma eternidade nos dias que correm), há algumas tomadas de posição que são difíceis de compreender. Por exemplo, não haverá alguma ingenuidade nesta opção de não se criticar publicamente as péssimas arbitragens que nos têm prejudicado sistematicamente ao longo dos últimos meses? Não se deveria ter recorrido no caso e-toupeira pelo sinal que se daria, mesmo não havendo diferenças práticas por ter existido recurso do MP? Não devíamos já ter apresentado queixa na FIFA por causa do assédio do Benfica a Bruma? Não devíamos ter contestado publicamente de imediato o escândalo que foi a expulsão de Ristovski e a posterior demora na redução do castigo que nos impediu de utilizar o lateral na Luz? Ou falar da arbitragem que nos eliminou em Braga na Taça de Portugal no futebol feminino, ou dos 13 minutos que jogámos em inferioridade numérica no dérbi de hóquei em patins? Bem sei que o desporto (e o futebol em particular) precisa de menos polémicas, mas isso não nos dispensa de denunciar aquilo que tem de ser denunciado. Espero que se esteja a fazer isso nos bastidores, porque para já, avaliando apenas pelo que tem vindo a público, isto não se assemelha à defesa intransigente dos interesses do Sporting Clube de Portugal que nos garantiram que iria existir. 

Pego na recente suspensão do estádio da Luz por 4 jogos, que surgiu de uma queixa apresentada pela direção de Bruno de Carvalho. Será que esta direção o teria feito se liderasse o clube na altura? Posso estar a ser injusto, mas duvido que o fizessem. 

Se não for o Sporting a defender os seus interesses, quem o fará? Certamente que não serão os Drs. Meirins, os Proenças ou os Fernandos Gomes da vida. Num futebol que costuma ser controlado pelo maior chico-esperto (para não dizer corrupto) do grupo, dificilmente serão os anjinhos a afirmarem-se sobre os demais. 


Unir o Sporting, ou um fosso que se continua a cavar entre clube e adeptos? 

O Sporting não é um banco. É um clube desportivo cuja força depende muito da capacidade de mobilização dos seus sócios. Mas essa mobilização não acontece de forma espontânea, menos ainda se os resultados do futebol não forem os desejados. É necessário trabalhar essa ligação de dentro para fora, envolvendo os sócios na vida e nas causas do clube, e permitindo uma melhor compreensão do rumo que está a ser seguido para haver uma maior identificação com quem os lidera. 

Neste momento, um sócio do Sporting que queira perceber o que se passa no seu clube, só tem uma alternativa: esgravatar os jornais à procura de pequenos artigos que relatem as posições de "fontes oficiais" do clube sobre situações particulares e, a partir daí, tentar montar o puzzle que permita olhar para a imagem geral. Se em alguns casos até é desejável que se utilizem intermediários para informar o público, noutros não se justifica minimamente que não se comunique diretamente aos sócios usando os meios oficiais do clube. 

O boletim clínico deixou de ser publicado com regularidade, e, quando o é, raramente dá estimativas de tempos de recuperação – nenhum adepto faz ideia de quando voltará Mathieu, por exemplo. Ninguém se deu ao trabalho de explicar a lógica de algumas contratações, como o empréstimo de David Wang - que, ao fim de um mês e meio, ainda não registou um único minuto na equipa de sub-23. Não há informações de valores dos negócios feitos, por vezes nem se comunica a sua realização – como a venda de Demiral. Ninguém da estrutura tem dado uma palavra que seja aos sócios na sequência dos maus resultados da equipa de futebol. Haveria mais exemplos para dar.

Numa altura em que o clube está mais fragmentado que nunca, seria de esperar que a direção de Frederico Varandas fizesse os possíveis por aplicar o lema da sua campanha: Unir o Sporting. Depois de meses tão traumáticos, não só me parece não existir um esforço sistemático e consistente para puxar os sócios para o clube, como me parece que demasiadas decisões têm sido tomadas sem pensar na reação da generalidade dos sócios. Coisas tão básicas como se ter planeado uma homenagem a Luís Boa Morte – que frequentemente ataca o Sporting e sportinguistas nas redes sociais – no dia do Sporting - Arsenal, coisas tão arriscadas como contratar Ilori depois de ter saído do clube como saiu, coisas tão absurdas como termos o presidente a justificar a António Salvador a existência de uma avença a Pedro Henriques (boa sorte a tentar contratar bons profissionais no futuro se ganharmos a fama de não zelar pelo seu bom nome à primeira polémica, deixando ao invés pairar sobre eles as piores suspeições e, neste caso em concreto, tendo acabado por "condená-lo" ao despedimento do cargo de comentador de arbitragem da Sport TV), coisas tão desnecessárias como estar a fazer acusações (ainda que justas) a um rival dias poucos antes de um duplo confronto quando andámos calados nos meses anteriores. 

Um clube não pode ser dirigido de fora para dentro, mas quem está dentro deve, no mínimo, considerar as implicações que as suas decisões têm para o estado de espírito do universo leonino. 


Um longo e difícil caminho para percorrer 

Obviamente que é muito mais fácil criticar quando se está de fora. Convém, no entanto, que ninguém se esqueça das dificuldades que esta direção teve e terá de continuar a enfrentar. Ao cataclismo do desfecho da época passada – com o acesso à Liga dos Campeões perdido na última jornada, a invasão a Alcochete, derrota na final da Taça, rescisões de muitos dos nossos melhores e mais valiosos jogadores – juntou-se uma gestão incompetente no defeso que pouco fez para inverter a situação. Cintra teve duas excelentes intervenções em prol do clube ao recuperar Bruno Fernandes e Bas Dost, mas de resto foi um completo desastre desportivo e financeiro. Esta direção apanhou um plantel depauperado com um treinador comprovadamente incompetente, um empréstimo obrigacionista por pagar, e estava impossibilitada de fazer encaixes imediatos a curto prazo. Tudo isto numa altura em que os piores inimigos do Sporting são os próprios sportinguistas, perdidos em lutas de grupos e grupetas e incapazes de colocar o interesse do clube em primeiro lugar. 

Há que dar tempo ao tempo, esperar que o trabalho produzido comece a dar resultados. Mas também esperamos que existam planos de ação traçados para resolver os problemas que existirem, comunicados de forma transparente e honesta. Os sócios, depois de tudo por que têm passado, não merecem menos que isso.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Uma equipa de arruaceiros

45'50'': Paulinho coloca-se à frente de Gudelj e não o deixa marcar um livre junto à linha de meio-campo. A partida prosseguiu sem qualquer chamada de atenção do árbitro. 

46'50'': Wendel coloca-se à frente de Claudemir e não o deixa marcar um livre junto à linha de meio-campo. Cartão amarelo para o jogador do Sporting.




Esta duas ocorrências, separadas por apenas 60 segundos no jogo de ontem com o Braga, são um bom exemplo daquilo que é a perseguição disciplinar a que os jogadores do Sporting têm sido sujeitos esta época. É uma perseguição que se faz sentir de três maneiras:

  • Dualidade de critérios dos árbitros dentro do mesmo jogo, em que atuam disciplinarmente de forma diferente em relação aos jogadores do Sporting e aos seus adversários. 
  • Permissividade face a entradas violentas dos adversários do Sporting: ontem Raúl Silva devia ter sido expulso por Jorge Sousa quando agrediu Acuña sem bola: na semana passada Manuel Mota poupou a expulsão a três jogadores do Feirense (Soares, Vítor Bruno e Briseño); duas jornadas antes Hélder Malheiro expulsou Ristovski por contestar a sua decisão em nem sequer marcar falta na cotovelada que Mendy lhe aplicou na testa e mostrar o respetivo cartão vermelho... e podia continuar por aí fora.
  • Dualidade de critérios dos árbitros entre jogos diferentes. É perfeitamente evidente que é muito mais fácil mostrar cartões aos jogadores do Sporting do que às restantes equipas que estão no topo da tabela, seja por protestos (os jogadores do Sporting não são os únicos que protestam, e se o fazem mais é porque, na realidade, têm bons motivos para isso) ou por faltas banais (Ilori a ver um amarelo aos 2' na Luz por uma falta sobre João Felix que não foi particularmente dura nem interrompeu nenhuma jogada de perigo) ou faltas que realmente justifiquem ação disciplinar. 

O mote foi dado logo na primeira jornada: quando o Sporting se deslocou a Moreira de Cónegos em agosto para o arranque do campeonato, os seus dois capitães (Nani e Bruno Fernandes) já estavam amarelados ao fim de 12' de jogo por protestos que não foram especialmente exuberantes.

Resultado de toda esta campanha? Uma das equipas mais massacradas por entradas duras dos adversários é... a segunda equipa que mais cartões amarelos viu esta época.

Fonte: zerozero.pt

E olhando para a tabela dos jogadores com mais amarelos vemos que...

Fonte: zerozero.pt

... o Sporting tem 4 (!) dos 16 jogadores mais indisciplinados da Liga. Isto é uma anormalidade estatística aberrante que deixa perceber uma cultura de tolerância zero dada aos jogadores do Sporting por parte da maior parte das equipas de arbitragem, algo que tem sido perfeitamente percetível para quem tem acompanhado os jogos do clube.

Isto, obviamente, não desculpa a falta de competência que a equipa tem tido em campo em tantos jogos, mas é justo assinalar que este excesso de zelo disciplinar condiciona constantemente os nossos jogadores durante o jogo, para além de representar mais exclusões por suspensão ao longo da época.