terça-feira, 5 de novembro de 2019

Colapso

Estou à vontade para escrever o que vou escrever porque votei nesta direção e dei-lhe o devido tempo para porem em prática as suas ideias. Optei por esperar para ver como reagiriam às primeiras dificuldades que apareceram, tentei sempre balancear os bons sinais que iam sendo dados com os maus e vice-versa, nunca me esquecendo das complicações estruturais e conjunturais que enfrentavam nem da base boa que havia para trabalhar. Percebia a dificuldade da missão da direção eleita em setembro de 2018, apesar de nunca ter concordado com a expressão herança pesada, usada até à exaustão ao longo do último ano e picos – é verdade que a herança tinha complicações de resolução delicada, mas também incluía ferramentas que ajudavam a resolvê-las… como o chorudo contrato televisivo que foi utilizado para tapar o buraco de tesouraria. Há quem ache que isto é querer estar bem com Deus e o diabo, querer sol na eira e chuva no nabal, mas, para mim, talvez por deformação profissional, não sou capaz de ver a realidade apenas a preto e a branco. Falar é fácil, mas planear bem e executar em conformidade não é para todos... ainda mais quando se trata do Sporting.

Da parte desportiva, no que ao futebol diz respeito, creio que já ninguém anda iludido em relação à (falta de) competência de quem manda. A "estrutura altamente profissional" falhou em toda a linha: construiu um plantel de forma completamente amadora - com carências evidentes e assente na contratação de jogadores medianos -, foi incapaz de convencer um verdadeiro treinador de projeto a pegar na equipa em duas ocasiões distintas, as lesões sucedem-se sem que alguém dê explicações e estimativas para o regresso dos atletas e a preparação física da equipa é uma anedota. Estamos condenados a assistir a um ano de exibições que oscilarão entre o sofrível e o embaraçoso, a não ser que Silas faça um milagre. Do ponto de vista desportivo, a competência da equipa montada por Varandas merece ser equiparada à da de Godinho Lopes. Felizmente, ainda há uma diferença fundamental (pelo menos por enquanto) entre as duas direções: a de Varandas tem sido responsável do ponto de vista financeiro.

A competência mostra-se sobretudo nos detalhes, mas quando analisamos os detalhes - em quase todas as áreas - as conclusões são confrangedoras. Falta rigor, falta profissionalismo, falta exigência, falta noção, falta memória. A quantidade de más decisões é diretamente proporcional às banais frases “inspiradoras” que foram nascendo nas paredes da Academia, de onde se destaca um espaço dedicado à liderança por exemplo que inclui um ex-capitão cujo último exemplo dado aos colegas, nessas funções, foi dar o mote às rescisões em massa ao ser o primeiro a romper com o clube. Uma homenagem incompreensível feita pela mesma direção que decidiu ignorar oficialmente a conquista inédita do nosso judoca Jorge Fonseca por ter cometido o gravíssimo e imperdoável pecado de dar um par de entrevistas não autorizadas. 

Há que reconhecer que não tem faltado coragem a estes órgãos sociais ao nível do combate interno. Para além da mesquinha punição ao campeão do mundo de judo e dos recados mandados à oposição que se começa a organizar, observa-se que o conflito com as claques está a ser conduzido com mão de ferro - a violência contra elementos dos órgãos sociais é inaceitável e tem de ser punida severamente, mas será que não deveria haver o bom senso de separar os responsáveis por esses atos dos outros milhares de elementos que nada têm a ver com isso? - e há notícias que dão conta da abertura de processos disciplinares aos sócios que os insultaram nas AGs - vamos lá a ver o sentido de proporcionalidade que aí vem por parte do CFD. Há alguns membros dos órgãos sociais que continuam a parecer muito mais motivados em levar a cabo ajustes de contas com o que ainda resta do tempo de Bruno de Carvalho do que em cumprir as suas obrigações institucionais e fazer os possíveis para reduzir o nível de crispação existente.

Infelizmente, esta coragem demonstrada nos assuntos internos - e tão elogiada pela comunicação social - não encontra correspondência no combate externo, onde a estratégia parece ser incomodar o menos possível. Como se viu ainda nas últimas duas jornadas, as arbitragens continuam a prejudicar-nos ostensivamente e não se ouviu uma palavra que fosse de um representante do clube.

São apenas alguns de inúmeros exemplos que revelam uma desconexão demasiado evidente para aquilo que os sócios esperam da direção: competência transversal a todas as áreas, promoção efetiva da união e defesa intransigente dos interesses do clube. Os resultados do futebol são o que são, os níveis de desmobilização dos sócios são assustadores e ninguém da direção assume responsabilidade pelo que de mau se tem passado. Pior: o presidente não dá indicações de ter consciência dos erros cometidos, que seria o imprescindível primeiro passo para os poder corrigir. Pelo contrário, parece que vivemos num estado de negacionismo - o edifício está em risco de colapsar, mas a única medida concreta é mandar pintar as paredes e convidar os jornalistas para uma visita guiada para que possam fazer reportagens do quão bonitas estão. 

Não penso que a melhor maneira de resolver o problema seja necessariamente a realização de eleições imediatas - o clube não aguenta continuar a viver em campanha permanente e, pior, não há qualquer garantia de que os próximos sejam aquilo de que o clube precisa -, mas é imprescindível que Varandas e a sua equipa ganhem (e mostrem) noção do desastre que está a ser o seu trabalho e comecem a tomar ações corretivas de imediato. Ações corretivas que terão de incluir, imediata e impreterivelmente, a contratação de um diretor desportivo de créditos firmados que conheça o universo futebolístico e o mercado como a palma da sua mão para um projeto de reconstrução nunca inferior a três anos e livre de ingerências dos cientistas da bola que têm contribuído para nos meterem na atual situação. Caso contrário... estar-se-á apenas a adiar o inevitável.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Reestruturação coxa

O Sporting comunicou ontem à CMVM a formalização do acordo que permitirá a recompra de todas as VMOCs por um valor correspondente a 30% do seu valor nominal. Significa isto que os 135 milhões de VMOCs poderão ser resgatadas com um investimento de 40,5 milhões de euros, elevando a participação do clube no capital social da SAD na ordem dos 90%. Uma excelente notícia, ainda que não seja propriamente uma novidade: no essencial, falamos das mesmas condições negociadas por Bruno de Carvalho no pré-acordo anunciado há cerca de ano e meio. Foram introduzidas agora condições mais suaves de reembolso que permitirão à SAD dispor de uma maior percentagem das mais-valias de vendas de jogadores e de outras entradas de dinheiro.

Ainda assim, independentemente dos méritos de cada um, o importante é que se trata de um passo importantíssimo para a independência do clube face a outros investidores, e que afasta em definitivo o fantasma da perda de maioria da SAD. Há motivos para os sportinguistas ficarem satisfeitos com este acordo.

No entanto, convém lembrar que, ao contrário do que a comunicação social está a relatar, a recompra das VMOCs é apenas uma metade da reestruturação financeira que o clube necessita. Continua por realizar a igualmente essencial - e ainda mais urgente - reestruturação da dívida, prometida por esta direção em campanha eleitoral, e que consistirá na compra da dívida à banca com a participação de uma empresa financiadora, a troco de um haircut (ou perdão de dívida, se preferirem) substancial. Ainda há muito trabalho para fazer. Esperemos que não seja necessário aguardar mais um ano para termos novidades concretas nesta frente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sobre Silas (ou quem quer que seja o próximo treinador do Sporting)

À hora que escrevo este texto, ainda não está confirmado oficialmente quem será o novo treinador do Sporting. O nome mais mencionado é o de Silas que, dos vários que têm vindo a ser lançados como hipóteses para suceder a Keizer, é o que mais me agrada. Mas o facto de ser o nome que mais me agrada de um pequeno universo que inclui Quique Setién, Abel Ferreira, Pedro Caixinha e Pedro Martins… pouco significa por si só. 

Foto: record.pt
Gostei do trabalho de Silas no Belenenses, apesar do despedimento recente. Pôs a sua equipa a jogar de forma personalizada e positiva não tendo um plantel particularmente rico ao seu dispor, parece ter as ideias bem estruturadas e tem ainda o bónus de ser um sportinguista assumido. Mas isso não quer dizer que esteja já preparado para assumir um desafio em que o nível de exigência e pressão são incomparáveis aos que conheceu na sua curta carreira de treinador, e muito menos nas condições em que vai apanhar o clube caso se concretize a sua contratação. 

Considerando que já passaram 23 dias desde o despedimento de Keizer e 22 dias desde que Silas foi dispensado do Belenenses, é completamente evidente para os adeptos e, sobretudo, para os jogadores que terá de comandar, que o treinador não é a primeira escolha (provavelmente nem sequer será a décima escolha) de Varandas. Juntando isto ao seu curto currículo (não tendo o nível 4 de treinador, não se pode levantar do banco para dar instruções aos jogadores nem comparecer nas flash interviews) e às circunstâncias que vai encontrar – sem tempo para implementar rotinas, sem hipótese de mexer a curto prazo num plantel mal construído e desmoralizado, e com a paciência dos sócios esgotada –, significa que entrará no clube numa situação muito frágil. Demasiado frágil. 

Acresce que a direção de Frederico Varandas não deve encarar Silas como apenas mais um treinador. Depois do fracasso de Keizer enquanto treinador de projeto e da falta de competência demonstrada na construção deste plantel, ficou agora completamente exposta a incapacidade de recrutamento de um substituto com provas dadas e, consequentemente, a ausência de um plano B viável. Mais: a diversidade de nomes que surgiu na imprensa deixa entender que, mais do que andar à procura de um determinado perfil, a direção já só anda à procura de um treinador que… aceite o enorme desafio que lhe é proposto - o que não é nada bom sinal. Começam a ser fracassos a mais, e parece-me que Silas será a última oportunidade que esta estrutura de futebol terá para demonstrar que merece a responsabilidade que lhe foi atribuída. Se Varandas, Hugo Viana, Beto e departamentos de suporte não ajudarem Silas a transformar-se no treinador de que o Sporting precisa, esgotarão a tolerância dos poucos que ainda lhes dão o benefício da dúvida. 

Se contratarem Silas (ou outro treinador que seja), tratem-no desde o primeiro minuto como se fosse realmente a primeira opção. O pior que pode acontecer é parecer um treinador a prazo. No caso de Silas, falamos de um homem do futebol português, um homem de balneário, um homem com personalidade e convicções. É fulcral que a estrutura perceba exatamente as áreas em que o treinador precisa de aconselhamento e apoio, e quais as áreas em que não deve interferir – algo que, nitidamente, não correu nada bem com Keizer. 

Também ajudaria se a direção e estrutura tivessem a humildade de reconhecer publicamente alguns dos erros graves que cometeram, não só para percebermos que houve um diagnóstico do que correu mal e ações corretivas, mas também para que o novo treinador ganhe alguma folga junto dos adeptos. 

Que não haja ilusões: o futuro da estrutura (e muito provavelmente da direção) será igual ao futuro do próximo treinador. Para o melhor e para o pior.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Um ano de Varandas

Foto: Expresso
Cumpriu-se ontem um ano desde que a direção liderada por Frederico Varandas tomou posse. É justo reconhecer que a tarefa era, à partida, de uma tremenda dificuldade: encontrando um clube completamente fraturado, com graves problemas desportivos e financeiros por resolver e pouco ou nenhum tempo para o fazer, foi, provavelmente, a primeira direção que não teve direito a qualquer período de estado de graça, tendo sido fortemente e ruidosamente contestada desde o primeiro dia.

É, por isso, uma boa altura para se fazer um balanço do trabalho desenvolvido. Até que ponto as expetativas criadas e as promessa feitas foram cumpridas? Aqui fica a minha avaliação pessoal sobre o desempenho nas diferentes áreas (de 1 a 5 estrelas).


Títulos do futebol (****)

A finalidade de um clube como o Sporting é vencer e, considerando todos os constrangimentos conhecidos, é justo reconhecer que esta primeira época de Varandas superou as expetativas iniciais da maior parte dos sportinguistas no que aos títulos do futebol profissional diz respeito. 

É verdade que não jogámos de forma dominadora nos momentos decisivos da Taça de Portugal e da Taça da Liga, mas sempre ouvi dizer que as finais não são para se jogar... são para se ganhar. E mesmo tendo sido ambas conquistadas nos penáltis, convém lembrar que o percurso foi repleto de dificuldades: eliminámos o anfitrião nas meias-finais da Taça da Liga e o Porto na final, sendo obrigados a recorrer a Petrovic como central com o nariz partido; e eliminámos o Benfica nas meias-finais - com uma segunda mão de excelente nível - e o Porto na final, com erros graves de arbitragem (golo mal anulado ao Sporting na Luz e golo mal validado ao Porto) que, como é habitual, nos prejudicaram. 

A equipa foi sempre encarada como a menos favorita das quatro que chegaram às meias finais, mas prevaleceu. Contra tudo e contra todos. É, por isso, da mais elementar justiça que se reconheça mérito nas duas conquistas.


Gestão das modalidades (****) 

Apesar dos muitos rumores que circularam sobre o suposto fim do ecletismo do Sporting tal como o conhecíamos como consequência de um forte desinvestimento, a competitividade geral das equipas manteve-se. 

Houve, de facto, uma racionalização de certos gastos, mas, olhando individualmente para cada uma das equipas, não se reconhecem mais pontos fracos do que os que existiam em épocas anteriores: o futsal renovou-se (e bem) após uma época em que conquistou um título europeu inédito, Taça de Portugal e Supertaça, e ficou a milímetros de poder discutir o campeonato nos penáltis; o hóquei, depois da conquista europeia, fez ajustes pontuais e promete voltar a lutar por todas as competições; o andebol, após uma época em que apenas a participação na Liga dos Campeões se aproveitou, trouxe um treinador prestigiado a nível europeu e rejuvenesceu-se com jovens de grande potencial; o voleibol foi obrigado a mexidas ainda mais profundas do que é habitual por causa da mudança de casa para Lisboa, mas contratou um técnico brasileiro conceituado e vários jogadores de quem se espera muito; o basquetebol, regressado após um interregno de 24 anos, parece estar suficientemente equipado para dar luta aos habituais favoritos; a equipa de judo masculino sagrou-se campeã europeia. 

Ainda está por confirmar a continuidade ou término do acordo no ciclismo e existem dúvidas legítimas sobre o que se pretende para o atletismo, para algumas modalidades de combate e para o desporto adaptado. O tempo encarregar-se-á de as esclarecer, mas não me parecem fazer sentido as preocupações sobre o futuro do ecletismo no Sporting.


Filosofia na formação (****)

Ao contrário do que vinha sendo habitual, existe este ano uma preocupação em expor os jogadores da formação a contextos de maior exigência competitiva. Os sub-23 estão carregados de jogadores de 18 ou menos anos, a equipa de juniores é composta, quase na totalidade, por juniores de 1º ano e juvenis, e assim sucessivamente. Isso poderá implicar resultados iniciais menos positivos nos vários escalões, mas trará frutos importantes a longo prazo.

Importante também a preocupação com a recuperação da equipa B, a renovação das condições da Academia e a aposta no Polo EUL. São objetivos que demorarão o seu tempo a serem cumpridos, mas que são imprescindíveis para dotar o clube de condições de topo para o desenvolvimento dos seus jovens jogadores.


Contratações (***)

A necessidade de reforçar a equipa em muitas posições e as limitações de tesouraria têm levado a que o perfil das contratações seja quase exclusivamente de jogadores com potencial para serem desenvolvidos e valorizados com tempo, de montante médio ou baixo. A única exceção à regra foi Vietto (jogador feito e em que os 50% dos direitos económicos adquiridos foram avaliados em 7,5M), mas, como se sabe, veio no pacote do acordo por Gelson para abater o valor da dívida do Atlético e não correspondeu a qualquer saída real de dinheiro dos cofres de Alvalade.

Genericamente, os jogadores contratados têm sido úteis e correspondido ou superado as expetativas, mas ainda nenhum se revelou um golpe espetacular de mercado. Há, no entanto, que dar tempo ao tempo. E ajudaria se o treinador desse oportunidades a alguns deles.


Treinadores (**) 

Varandas despediu Peseiro no momento certo. E também despediu Keizer no momento certo - depois do que conquistou, não podia deixar de dar ao holandês a pré-época que lhe faltou na temporada passada. Mas, apesar de Varandas ter dito que Keizer cumpriu os objetivos, o facto é que a sua escolha só pode ser considerada um fracasso, porque na altura nos foi vendido pelo presidente como um treinador de projeto.

Keizer acabou por se transformar na antítese daquilo que prometia ao início: um treinador medroso e aborrecido, amarrado nos equívocos que foi criando e alimentando, e que ignorou (ou não compreendeu) o contexto que o rodeava tanto ao nível das expetativas internas como da forma de pensar dos adeptos.

Será desta que Varandas conseguirá contratar o treinador de que o clube precisa? Os sinais não são animadores: o facto de não ter delimitado de forma clara o prazo de Leonel Pontes - um treinador que, até agora, não tem absolutamente nada que o recomende como o homem certo para o lugar - deixa entender que tem mais dúvidas do que certezas em relação à forma como resolver esta importantíssima questão. 


Planeamento da época (**)

Sobre isto, recorro ao que escrevi recentemente aqui: LINK.


Futebol feminino (**)

Apesar de o futebol feminino estar a conhecer um período de desenvolvimento inédito de visibilidade a nível mundial, a importância dada por esta direção segue em sentido contrário. Indecisões a nível diretivo, excessiva tolerância para com o paupérrimo futebol de Nuno Cristóvão, pouca ou nenhuma reação ao fortíssimo investimento do Benfica, e zero preocupações em promover o futebol feminino junto dos sócios sportinguistas - como se pode avaliar pela ausência de qualquer jogo disputado em Alvalade.

Em vez de se desenvolver, o futebol feminino do Sporting tem definhado... e isso não parece preocupar minimamente os atuais responsáveis do clube.


Finanças (**)

Até ver, não há nada de particularmente positivo ou negativo que se possa dizer da gestão das finanças do clube: melhor ou pior, a racionalização dos custos com o plantel foi concretizada - o apertar de cinto era imperativo -, o que contribui para reduzir a necessidade de vendas futuras e normalizar a situação de tesouraria; o empréstimo obrigacionista ficou perto - mas abaixo - do objetivo mínimo, sendo certo que a detenção de Bruno de Carvalho na véspera do primeiro dia da fase de subscrição não terá ajudado em nada o cumprimento da meta estabelecida; e continua a não haver fumo branco em relação à reestruturação financeira e à recompra das VMOC's. 

O reequilíbrio da tesouraria foi alcançado, sobretudo, à custa da antecipação de receitas do contrato dos direitos televisivos e dos acordos com os clubes que contrataram os jogadores que rescindiram. Ou seja, não houve qualquer demonstração inequívoca de competência, mas também é justo dizer que se tentou evitar ao máximo ir pelos caminhos mais fáceis (e menos desejáveis) para ultrapassar as dificuldades imediatas. Por exemplo, teria sido muito mais fácil para esta direção antecipar 100 milhões em vez de 65 - evitaria muitas dores de cabeça e problemas de curto prazo, mas a médio/longo prazo a situação ficaria mais negra.


Comunicação (**)

Depois de cinco anos em que a comunicação social esteve em guerra aberta com o Sporting (o contrário também é válido), são visíveis os resultados do esforço de sedução que esta direção tem feito junto de jornais e televisões. 

É fácil perceber que agora existe uma capacidade muito superior de colocar temas, narrativas e informações na ordem do dia. No entanto, parece-me que este bom relacionamento é mais conjuntural do que estrutural - apenas existe porque os atuais donos disto tudo não veem o Sporting como uma oposição real. Não é preciso ser-se adivinho para prever que, no dia em que o Sporting começar a incomodar, os mesmos comentadores que hoje defendem Varandas com unhas e dentes se transformarão em seus detratores e não terão quaisquer problemas em escarafunchar toda e qualquer polémica com a mesma desonestidade intelectual que demonstraram no passado.

Ainda assim, é inequivocamente um progresso. Infelizmente, não se tem observado o mesmo nível de progresso na comunicação direta com os sócios e adeptos. Se é verdade que se eliminou muito do ruído que antes existia, também se pode dizer que acabámos por cair no extremo oposto. A comunicação tem sido pobre, escassa, pouco clara e com timings inadequados. 

O presidente tem feito progressos no discurso, mas continua longe de ser um comunicador eficaz. De Hugo Viana, raramente se ouve uma palavra. A Sporting TV parece-se cada vez mais um canal generalista que enfia transmissões de jogos nos espaços livres, com meios técnicos indignos do século XXI e uma qualidade de comentários a cair a pique. As redes sociais não compreendem o seu público e cometem gaffes constantes. O jornal acumula decisões editoriais incompreensíveis e brinda-nos semanalmente com um par de espaços de propaganda ainda mais descarada do que é habitual neste tipo de meios. E até na comunicação com a CMVM se cometeu a proeza de escrever mal o nome de Keizer por duas vezes seguidas - um pormenor com pouca importância mas que é sintomática do desleixo que parece existir.


O Sporting e o ambiente que o rodeia (*) 

Uma das promessas de Varandas era que os interesses do Sporting seriam defendidos de forma intransigente. Um ano depois, essa afirmação parece manifestamente exagerada.

O Sporting não impõe qualquer respeito junto dos adversários e das instituições que gerem o desporto em Portugal. Não se compreende por que razão o clube não recorreu da decisão do e-toupeira - mesmo não tendo efeitos práticos, era importante dar o sinal de que o clube não aceitava a decisão da instrução -, não se compreende por que razão não colocamos o caso Bruma na FIFA, não se compreende a forma ingénua como se abordou a questão relacionada com Pedro Henriques, não se compreende a quase completa ausência de críticas às péssimas arbitragens de que temos sido alvo, não se compreende a falta de reação aos favoritismos do Secretário de Estado do Desporto, e por aí fora.

Esta postura não é de clube civilizado, é de clube manso. Num ecossistema populado maioritariamente por mafiosos e chicos espertos, é meio caminho andado para que os outros façam de nós tudo o que quiserem.


Unir o Sporting (*)

O lema de campanha de Frederico Varandas devia ser uma bandeira desta direção. Infelizmente, não tem havido vertente menos cuidada do que esta, prejudicada, em boa parte, por ser clara a vontade de alguns elementos dos órgão sociais em dar sequência a perseguições que em nada beneficiam o clube. Une-se o Sporting trabalhando para o futuro em vez de se procurar fazer ajustes de contas com o passado.

Apesar de perceber que não se pode ignorar o passado nas análises feitas à situação atual, creio que têm sido excessivas as referências e comparações com a gestão anterior - e que são feitas apenas nas partes que convêm, claro. Também não ajudaram as tiradas populistas feitas em campanha. O candidato Varandas disse que, caso fosse presidente, Bruno de Carvalho não seria expulso de sócio. A promessa não deveria ter sido feita porque não depende do órgão que dirige, mas, se tivesse sido sincero, o presidente Varandas poderia ter feito uma declaração nesse sentido em vésperas da AG de expulsão do seu antecessor. Une-se o Sporting canalizando as energias para combater as pessoas que querem mal ao clube, e gastando apenas o tempo estritamente necessário em querelas internas. Se o anterior presidente tivesse percebido isso, provavelmente ainda estaria hoje no poder.

Sou o primeiro a reconhecer que a união depende da vontade dos diferentes lados da barricada e que existem sócios que não têm qualquer vontade de ceder no quer que seja, mas as iniciativas de reconciliação terão sempre de partir de quem dirige o clube - de forma coerente e persistente. Falo em coerência, porque seria bom que o rigor que tem havido no julgamento dos antigos dirigentes se aplicasse também à análise dos erros próprios: continuamos à espera que sejam encontrados e punidos os responsáveis pelos gravíssimos leaks das auditorias feitas à gestão de Bruno de Carvalho. Une-se o Sporting analisando-se as questões em função dos supremos interesses do clube, e não em função dos responsáveis pelas desgraças que nos acontecem.

Não é preciso ser-se um génio para perceber o que se deve ou não fazer para unir o Sporting. Infelizmente, há pessoas na atual direção que revelam imensas dificuldades em compreender o óbvio.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Balanço do fecho de mercado

Os últimos dias de mercado - e em particular as últimas horas - foram de enorme agitação em Alvalade. Dost, Raphinha e Thierry foram vendidos, Bruno Gaspar e Diaby foram emprestados, Jefferson, Wallyson e André Pinto rescindiram, fechou-se um acordo por Podence com o Olympiacos, e Jesé, Fernando e Bolasie chegaram por empréstimo. O sucesso do conjunto das movimentações só poderá ser avaliado depois de vermos o contributo que os reforços darão em oposição à falta que se sentirá dos atletas vendidos ou emprestados. No entanto, o balanço preliminar que faço é claramente negativo. Foi um mercado horrível, fruto de um planeamento rotundamente falhado e de uma completa falta de capacidade de reação da SAD para encontrar alternativas atempadas e que seguissem uma estratégia coerente.


Planeamento pelo cano

Toda a gente percebeu qual era a ideia da SAD para este mercado: reforçar determinadas posições com parte do dinheiro de uma super transferência de Bruno Fernandes. Inicialmente falava-se numa venda após o final da Taça, depois adiou-se para o final da Liga das Nações, e, semana após semana, a indefinição do futuro do médio foi-se prolongando. O que é facto é que, apesar do badalado interesse de diversos tubarões europeus, ninguém atingiu os 70 milhões pretendidos pelo Sporting. Não critico Varandas por não ter cedido nas exigências - o que não se diria caso aceitasse um valor mais baixo... -, mas devia ter havido outra capacidade na exploração de cenários alternativos antes do arranque da época oficial.

Sejam compreensíveis ou não as dificuldades na execução desse plano, o que é facto é que a SAD falhou por completo, resultando esse fracasso em semanas de intranquilidade - com destaque para a novela Dost - já com a época oficial a decorrer a todo o vapor, com vários jogadores titulares a serem dados como negociáveis até ao fim da janela de transferências. Os últimos dias, em particular, passaram a imagem de uma SAD descontrolada e desesperada.


Lacunas agravadas ou por resolver

Varandas disse que já existiam jogadores em carteira para serem contratados após as saídas previstas. Mas não foi isso que observámos: apesar de o anúncio de acordo com o Eintracht por Dost ter sido feito há mais de 15 dias, só ontem foram anunciados reforços. Mas o pior é que, dos três jogadores contratados, nenhum é ponta-de-lança de raiz. Isto significa que vamos atacar a época com UM ponta-de-lança - Luiz Phellype, que tem as limitações que se conhecem. Em caso de necessidade, Vietto poderá desenrascar, Jesé poderá desenrascar, Bolasie poderá desenrascar, mas não se conseguem épocas de sucesso com desenrascanços na posição mais importante do futebol.

No que toca a extremos, saíram Raphinha e Diaby e entraram Bolasie, Jesé e Fernando. Ou seja, a experiência média aumenta, mas à custa de dois jogadores - Bolasie e Jesé - que vêm de várias épocas em que pouco ou nada tem rendido. Ambos os jogadores são considerados flops pelos adeptos dos seus clubes, mas convém sempre esperar para perceber o que poderão valer no contexto competitivo português. Fernando não conseguiu espaço no Shakthar de Luís Castro, o que também não é propriamente um bom sinal. Fica por demonstrar, portanto, se a questão dos extremos ficou efetivamente bem resolvida. Teremos de esperar para os ver em competição.

Quanto a médios defensivos... nem vê-los.


Estratégia? Que estratégia?

Por motivos diversos, o recurso a jogadores emprestados devia ser uma exceção à regra. Não os podemos valorizar para uma futura venda e há o risco real de se sentirem acomodados face ao downgrade para uma liga periférica como a portuguesa. No entanto, só neste último dia chegaram três jogadores por empréstimo: Jesé (PSG), Fernando (Shakthar) e Bolasie (Everton). 

Pior: não consigo entender como é que Fernando, jogador de 20 anos com apenas 20 jogos disputados como sénior, vem para o Sporting sem opção de compra. Considerando a sua inexperiência, dificilmente terá um impacto positivo imediato na equipa. É mais um, à semelhança de Camacho e Plata, que terá de ser desenvolvido com paciência. No entanto, ao contrário de Camacho e Plata, estaremos a valorizar um ativo que não é nem será nosso. Fala-se que o Sporting terá assegurado o direito de preferência sobre futuras propostas de outros clubes - ou seja, terá o direito de igualar a proposta -, mas dependerá sempre da vontade do jogador. Ou seja, é uma garantia que pouco ou nada vale. Que sentido é que isto faz?

Em contrapartida, o PSG anunciou que o Sporting tem uma opção de compra sobre Jesé. Algo que dificilmente poderemos acionar porque nunca haverá capacidade para pagar por inteiro o salário que o PSG paga ao espanhol. E sim, estou a assumir que o PSG vai suportar a maior parte do salário de Jesé durante esta temporada - se não fosse assim, não valia a pena despachar Dost como se despachou. O mesmo se aplica a Bolasie, que também deverá auferir um salário elevado. Fico à espera de esclarecimentos da SAD sobre quem suporta os salários dos jogadores emprestados.


As saídas

Os 21 milhões da venda de Raphinha são uma verba bastante aceitável, considerando que o extremo brasileiro ainda não tinha conseguido atingir uma consistência exibicional satisfatória. Com Bolasie, Jesé e Fernando aumentam as alternativas em quantidade, resta saber como será em relação à sua qualidade.

Os 12 milhões da venda de Thierry são um montante... surpreendente. Quem tenha visto os jogos desta época com um mínimo de atenção, facilmente se apercebe de que Therry está muito longe do nível necessário para ser o lateral titular a curto prazo. Ou seja, perderia esse estatuto assim que Rosier ou Ristovski voltassem a estar aptos para jogar. O problema deste negócio é que é uma venda para o Valência, por verbas típicas de carrossel... pelo que o mais provável é que existam ou existirão outras contrapartidas. Não acredito que o Sporting alguma vez venha a receber a totalidade deste dinheiro.

Diaby foi transferido por empréstimo para a Turquia, ficando o Besiktas com opção de compra por 5 milhões. Como tal, o mais provável é que daqui a nove meses o maliano esteja de volta.

sábado, 31 de agosto de 2019

Ainda há quem acredite em contos de fadas

Foto: zerozero.pt
Futebol miserável. Por muitos problemas e indecisões que persistam na composição do plantel a um par de dias do fecho da janela de transferências, nada pode justificar a paupérrima qualidade do futebol apresentado pelo Sporting contra o Rio Ave. Com e sem bola. Grande parte das responsabilidades está no duplo pivot de Keizer, que pouco constrói e que anda às aranhas quando o adversário tem a bola. Wendel parece preso a uma corrente invisível que o impede de fazer o transporte de bola para o meio-campo adversário. Doumbia teve uma prestação absolutamente horrível, ao ponto de me fazer suspirar por Battaglia. Mas, verdade seja dita, o duplo pivot é só parte de um gigantesco problema coletivo. A equipa não ataca como um bloco, não pressiona nem defende em bloco, cada jogador parece estar entregue a si próprio. O foco incidirá muito sobre Coates pelos dois penáltis cometidos (o outro foi oferta dos homens do apito), mas a verdade é que os centrais são mais vítimas do que culpados, já que são demasiadas as vezes que ficam expostos a situações de um contra um na área ou lá perto.

Treinador paralisado, falta de ambição. Não são apenas problemas técnico-táticos. É inadmissível que o Sporting, vendo-se a ganhar com um golo aos repelões a 40 minutos do fim, decida defender o resultado em vez de ir para cima do adversário para tentar matar o jogo. Keizer só se lembrou de meter jogadores de características ofensivas quando se viu a perder, já nos descontos, provocando um coro de assobios totalmente justificado.

Gestão (?) de plantel. Keizer teve oportunidade de lançar Camacho ou Plata em Portimão: com 3-1 e um adversário em quebra física, estavam reunidas as condições ideais para dar 10/15 minutos a um dos miúdos. O jogo podia não precisar que os lançasse, mas fazia sentido numa perspetiva de integração gradual, já pensando em jogos futuros. Não o fez. Hoje, em desespero, lançou um desses miúdos. Plata teve a sua estreia oficial na equipa principal do Sporting em desvantagem no marcador, em desvantagem numérica, com uma equipa mentalmente e fisicamente de rastos, e com a obrigação de ter impacto imediato nos cinco minutos que restavam. Isto não é gestão de plantel, é acreditar em contos de fadas.

Encomenda. Quando um árbitro assinala um penálti como o segundo da noite, quando o VAR não lhe chama a atenção para uma repetição que demonstra sem lugar para dúvidas de que não existiu qualquer falta, não ficam quaisquer dúvidas sobre as intenções de quem dirigia a partida. Os outros dois penáltis aceitam-se, como se teria aceitado se João Pinheiro tivesse assinalado um penálti por empurrão sobre Raphinha. Infelizmente, a capacidade visual parece mudar em função da cor das camisolas, e o amigo de Nuno Cabral apenas vislumbrou as que aconteceram na nossa área. Um azar que já tinha acontecido em Portimão, convém relembrar. Se, no ano passado, em que ficámos fora da luta pelo título muito cedo, conseguiram transformar-nos na equipa mais indisciplinada da Liga, alguém teria dúvidas do que nos iriam fazer caso começássemos a incomodar? Pensar que os árbitros nos vão tratar melhor só porque somos simpáticos... é digno apenas de quem acredita em contos de fadas. Mas, hey, se a direção não se preocupa com isso - até à hora que escrevo não houve qualquer reação dos responsáveis do clube -, por que é que nós nos haveríamos de preocupar?

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

Revista 1906, #2

Já está disponível para leitura o número 2 da revista 1906, um projeto colaborativo levado a cabo por sportinguistas, para sportinguistas. São oitenta páginas recheadas de opinião, entrevistas, análises e recuperação histórica que certamente interessará a qualquer adepto do clube. 

O ouro olímpico de Carlos Lopes, as expetativas para a época 2019/20, a aposta de Maradona com Ivkovic, scouting, os números de Cristiano Ronaldo, o Museu, o regresso do basquetebol são alguns dos temas que poderão encontrar.

A revista é gratuita e o download pode ser feito aqui: LINK. Espero que gostem!


domingo, 25 de agosto de 2019

E ao quarto dia apareceu Vietto

Bom jogo. Ao quarto jogo oficial da temporada, o Sporting fez finalmente uma exibição convincente e alcançou uma vitória relativamente tranquila num terreno onde costuma passar por dificuldades. Não foi uma prestação sem mácula, houve momentos - principalmente na primeira metade da segunda parte - em que houve alguma dificuldade em manter o Portimonense longe da nossa área, mas, na generalidade dos 90 minutos, foi um desempenho sólido que permitiu ao Sporting aproveitar da melhor forma o resultado do clássico de ontem. 

A surpresa Vietto. A entrada do Sporting no jogo foi demolidora e permitiu construir uma vantagem que ajudou a tranquilizar a equipa - ainda que o Portimonense não tardasse a reduzir a partir de um penálti provocado por uma falta displicente de Mathieu. O Sporting foi claramente superior na primeira parte graças à habitual ação de Bruno Fernandes, mas, sobretudo, por causa da criatividade de Vietto. O posicionamento do argentino surpreendeu Folha, que não parecia estar preparado para esta descentralização da criação de desequilíbrios. Os recursos que Vietto mostrou são variados: capacidade de drible, mudanças de velocidade, visão perfeita das movimentações dos homens mais adiantados e superior execução no momento de colocação da bola no espaço. Na segunda parte, mais encostado à linha e mais desgastado, desapareceu um pouco do jogo. O passe a rasgar para Bruno Fernandes no segundo golo e o míssil intercontinental de 50 metros para o que deveria ter sido o terceiro golo de Raphinha foram os momentos mais altos de uma excelente exibição. Este Vietto promete dar uma nova dimensão à capacidade ofensiva do Sporting - e que tão necessária é.

Bruno e, finalmente, Raphinha. Se ficou chateado por não ter tido a transferência que ambicionava, não o demonstra. Hoje foram mais três assistências para Bruno Fernandes, passando o pecúlio para 1 golo e 4 assistências ao fim de 3 jornadas. A boa finalização de Raphinha foi outro dos fatores decisivos. Assinou um golo fantástico a abrir a contagem e foi muito oportuno no tento que fechou o resultado.

Para Keizer pensar. Não discuto que Vietto, num dia mau, pode ser tão inconsequente como Diaby. Mas o jogo de Portimão serviu para demonstrar que o melhor (?) Diaby nunca na vida será capaz de fazer um quinto do que Vietto fez neste jogo. Vietto poderá ajudar menos na defesa, é verdade, mas as carências que temos demonstrado na zona ofensiva obrigam Keizer a aproveitar o talento que tem à sua disposição. Infelizmente, o holandês parece quase paralizado pelos receios das descompensações defensivas. É incompreensível que, com 3-1 de vantagem e muitos jogadores de rastos - incluindo os do Portimonense -, não tenha dado 20 minutos a Camacho ou Plata para irem conquistando o seu espaço. Keizer limitou-se a duas substituições aos 79' e 86', o que, a meu ver, pode ser sinal de que, à semelhança da época passada, não consegue confiar em mais que 13-14 jogadores - com tudo o que de mau isso implica ao nível da gestão do plantel. Já não falta muito para chegarem 6 ou 7 meses a jogar permanentemente duas vezes por semana. É preciso mais coragem, mais audácia, alargar o tal núcleo duro. Se não o fizer, vamos sofrer muito a partir de outubro/novembro.

Vasco Santos, um habitué em decisões polémicas que nos prejudicam. O VAR corrigiu - e bem - a decisão de Xistra em assinalar um livre direto numa falta sobre Raphinha dentro da área. Mas voltaria a intervir - de forma bastante mais discutível - ao anular esse penálti por uma suposta falta de Thierry cometida uns momentos antes. Acontece que: 1) a bola foi jogada por dois jogadores do Portimonense entre o momento da suposta falta de Thierry e a indiscutível falta sobre Raphinha; 2) o adversário fez um movimento diagonal face à linha de progressão de Thierry e colocou-se, sem bola, à sua frente, impedindo-o de continuar a correr - o que poderia ser interpretado como obstrução. Veremos se o critério se irá manter daqui para a frente. O VAR é uma ferramenta fantástica, mas só poderá ser tão boa na medida da competência daqueles que a utilizam. E já sabemos que, em caso de dúvida, a norma é decidir contra o Sporting.

À frente dos rivais, mas sem quaisquer motivos para euforias. O Sporting 2018/19 de Peseiro também teve um arranque bastante positivo. Depois, foi o que se viu. Em 2019/20, os problemas para resolver até ao fecho do mercado continuam a ser muitos. Só temos um ponta-de-lança - que, no máximo, pode ser uma alternativa de banco -, falta um extremo capaz de abanar defesas fechadas - desconheço se algum dos que hoje tínhamos no banco poderá ser esse extremo a curto prazo porque mal os vi jogar -, e, porque começam a ser cada vez mais óbvias as limitações de Doumbia, precisamos de um médio defensivo a sério. Depois... é preciso que Keizer seja capaz de tirar bom partido do plantel que lhe colocarem à disposição. Para já, o pensamento só pode ser um: jogo a jogo.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Vitória, preocupações e recados

Finalmente uma vitória. Ganhar ao Braga era essencial. Não por ser o Braga, não pelos três pontos, não para não nos deixarmos atrasar mais em relação à liderança, não pela possibilidade de, ganhando em Portimão, aproveitarmos o resultado do clássico entre Benfica e Porto para recuperarmos ou ampliarmos distâncias. Era essencial ganhar porque, independentemente dos muitos problemas técnico-táticos que estão à vista de todos, o atual momento de intranquilidade potencia esses problemas e faz parecê-los ainda mais graves do que efetivamente são. Era fundamental recuperar alguma tranquilidade e confiança e, como tal, jogando bem ou mal, tínhamos de vencer ontem. Nesse sentido, a missão mais importante foi cumprida.

Os suspeitos do costume. Mais uma vez, o Sporting só existiu ofensivamente na medida do que a sua linha média foi capaz de produzir. Os desequilíbrios foram conseguidos quase exclusivamente pelos habituais Bruno Fernandes e Wendel e pelo lateral Acuña. Coates e Mathieu foram segurando as pontas como podiam (com preciosa ajuda de Neto nos últimos quinze minutos) e, mais uma vez, o patinho feio Renan salvou o dia com algumas defesas fulcrais (aquela aos 40’, após remate de Hassan na queima, foi absolutamente incrível). 

Inoperância na frente. É angustiante observar o rendimento dos homens mais adiantados. Luiz Phellype vale pelo esforço e pouco mais. Raramente tem bolas na área para finalizar, parcialmente por responsabilidades próprias no momento de decidir o que fazer quando é solicitado, mas sobretudo por não ser devidamente alimentado devido ao modelo de construção (?) que o treinador coloca em prática. Raphinha está num momento de forma terrível. Não consegue ganhar duelos, não cria desequilíbrios, não finaliza em condições. Ontem defendeu a passo, deixando várias vezes Thierry completamente exposto no nosso flanco direito. Diaby foi Diaby. Mais um jogo sem qualquer ação positiva de registo, mais um momento para os apanhados que deixou meio estádio a rir quando se atrapalhou ao tentar fazer um nó a um adversário, e não há uma alma à face da Terra para além de Keizer que consiga entender como é possível que, depois de tão consistentes demonstrações de incapacidade, o maliano continue a fazer parte das contas do onze. Ou que tenha um minuto de utilização que seja. 

Treinador às aranhas. É verdade que Keizer não tem muitas alternativas de qualidade disponíveis. Camacho e Plata estão verdes e alguma coisa está mal na construção do plantel quando Raphinha, que tem apenas 22 anos e um ano de experiência a este nível, é o extremo de referência da equipa. A 11 dias do fecho do mercado, temos apenas dois pontas-de-lança, um dos quais jogava na segunda divisão há meses, e em que o outro foi contratado para substituir Bruno Fernandes. Mas isso não justifica tão pouco futebol e o problema não está apenas nos jogadores. Keizer diz que gosta de Dost mas não foi capaz de tirar rendimento do holandês, não é capaz de dar jogo a Luiz Phellype, não vê a mobilidade e técnica de Vietto como solução, e aparentemente também acha que Slimani não é o ponta-de-lança ideal. Perante quatro tipos de avançados de características bastante diversas e nenhum serve para o treinador… então quem servirá? 

Recados à estrutura. Na conferência de imprensa, Keizer deixou soltar um desabafo sobre a forma como (não) foi consultado sobre a saída de Dost, lamentando-se da sua saída. Depois dos comentários anteriores sobre Matheus Pereira e Vietto, fica mais ou menos claro que não existe entendimento entre o treinador e a estrutura de futebol sobre as movimentações de jogadores. Se não se entendem sobre quem sai, se não se entendem sobre quem entra… então como podemos nós, os adeptos, acreditar que existe um fio condutor, consistente e lógico, na preparação da época, na construção do plantel e na globalidade do trabalho realizado? 

Se, se, se. Reencontrámos as vitórias, mas os sinais de preocupação não se dissiparam. SE Rosier trouxer mais estabilidade ao flanco direito, SE Doumbia começar a compreender melhor as compensações que tem de fazer, SE Wendel conseguir aguentar mais de 60 minutos, poderemos ter condições para atenuar o caos defensivo que temos observado. SE conseguirmos manter Acuña a lateral, SE contratarmos um extremo a sério para entrar no onze ou SE conseguirmos começar a tirar algum rendimento de Camacho e Plata, SE contratarmos um ponta-de-lança que encaixe no quer que Keizer idealiza para o nosso jogo, poderemos ter condições para sermos um conjunto verdadeiramente ameaçador em ataque continuado e em contra-ataque. SE o treinador conseguir desembrulhar a confusão que parece ter no cérebro, SE a estrutura estabelecer as prioridades certas para a época… pode ser que se consiga fazer alguma coisa desta época.

sábado, 17 de agosto de 2019

Bye Dost

O Sporting anunciou há pouco um princípio de acordo com o Eintracht Frankfurt para a venda de Bas Dost. A decisão não surpreende e, até certa medida, é compreensível, mas não deixa de ser uma movimentação de enorme risco para a direção e para o treinador. E, obviamente, para o clube.


Comparando com outros pontas-de-lança do Sporting do século XXI, falamos de alguém que ultrapassou Liedson e Slimani e apenas não conseguiu superar (o insuperável) Mário Jardel. Foi um atleta que sempre se mostrou muito acessível e que nunca escondeu o quanto gostava de cá estar. O episódio da rescisão levou a que se abrisse uma ferida difícil de sarar (pun not intended) entre jogador e adeptos, ainda que, de todos os jogadores, o holandês fosse aquele que mais razões teria para querer sair do clube.

Todos percebem que o salário de Dost era excessivo - Cintra também deixou heranças pesadas - para a atual capacidade financeira do Sporting, ainda mais considerando o fraco rendimento desportivo dos últimos meses. Mas também todos sabem que esse salário poderia não custar muito a pagar caso Dost continuasse a fazer aquilo que demonstrou saber fazer tão bem - marcar golos atrás de golos, com um grau de aproveitamento extraordinário face às poucas oportunidades de que foi dispondo. 

Esqueçam a fraca contribuição defensiva e as limitações de mobilidade: para a realidade portuguesa, Dost é um jogador excecional à volta de quem se podia (e devia) construir uma equipa. Não foi essa a opção de Keizer e, infelizmente, tarda em mostrar-se acertada. Isso faz com que a saída de Dost tenha um sabor amargo, devido à sensação que nos deixa de uma oportunidade perdida que, a partir de hoje, se torna irreversível.

Os golos do holandês deixarão saudades. Muitas ou poucas, depende de quem for agora contratado para o seu lugar - e aqui reside o risco para a direção e treinador: se o novo reforço não corresponder às expetativas, não haverá forma de justificar por que razão se abdicou de um goleador mais que testado em vez de se tentar tirar o melhor proveito dele. Não é preciso perceber-se muito de futebol que não é todos os anos que se consegue encontrar um goleador como Dost.