sexta-feira, 16 de novembro de 2018

A montanha que pariu um rato e o circo montado

A montanha que pariu um rato

A decisão do tribunal de permitir que Bruno de Carvalho aguarde o julgamento em liberdade foi um gigantesco balde de água fria despejado em cheio sobre todos aqueles que aguardavam ansiosamente pela confirmação da medida de coação de prisão preventiva, tomada como quase certa. Um plot twist arrasador para todos aqueles que se foram saciando durante os cinco dias de frenesim mediático que devassou por completo a vida de um cidadão - chegámos ao ponto de sermos informados da medicação que lhe tinha sido receitada - e da sua família. Foi perfeitamente percetível a desilusão (e indignação) na voz de vários jornalistas e comentadores quando foram conhecidas as medidas de coação.

A libertação de Bruno de Carvalho não é sinónimo de inocência, mas é compreensível que a sua família e amigos encarem esta decisão com alegria depois de tudo o que têm passado desde domingo. Foi tratado na praça pública como um criminoso julgado e condenado e, para quem assistiu de fora a este espetáculo, seria de esperar que existissem provas minimamente sustentadas que ajudassem a justificar o tratamento inadmissível a que foi submetido. Não existindo, acaba por ser um golpe na credibilidade de quem conduz o processo. E isso é preocupante, porque não nos podemos esquecer que não é só Bruno de Carvalho que está aqui em causa: o que aconteceu no dia 15 de maio é gravíssimo e os responsáveis, sejam eles quem forem, têm de ser determinados e punidos em conformidade, havendo sempre a necessidade de que haja consciência de que, no meio de dezenas de pessoas acusadas, nem todas terão o mesmo grau de culpa naquele trágico acontecimento.


O circo montado

Ontem, depois de conhecida a decisão do tribunal, as agulhas viraram-se para o circo montado pelo MP. Existe uma atenuante importante, na minha opinião: não me lembro de alguma vez ter visto o poder político em massa a fazer imediatamente declarações tão assertivas sobre uma situação do foro da justiça, e isso deve ter criado uma pressão imensa sobre quem ficou com a responsabilidade de investigar o sucedido.

Mas também convinha que se discutisse o circo montado pela própria comunicação social, para quem a pressão existente é apenas uma questão... de audiências, e que levou a que (mais uma vez) se cometessem excessos inadmissíveis. Justiça a David Borges que, no Jornal da Noite de ontem, fez uma curta mas importante reflexão sobre o mau serviço que os jornalistas prestaram ao público ao longo dos últimos dias.



quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A entrevista da SIC Notícias a Francisco Zenha

Francisco Zenha, administrador da SAD com o pelouro financeiro, foi ontem entrevistado na SIC Notícias a propósito do empréstimo obrigacionista que está neste momento em fase de subscrição, e aproveitou para prestar esclarecimentos sobre a atual situação financeira do Sporting e contextualizar alguns números que têm sido usados por alguma comunicação social em peças de teor mais negativo.

Abordou também os temas mais quentes da semana: o relacionamento do clube com as claques, as AG's recentemente marcadas e as possíveis consequências do processo judicial da invasão a Alcochete.

Vale a pena ver. Por questões de limitação de tempo dividi a entrevista em duas partes. A primeira é sobre o EO e a segunda sobre as claques, AG's e Alcochete. Se só tiverem 10 minutos, não deixem de ver o primeiro vídeo.



quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A detenção de Bruno de Carvalho

A invasão a Alcochete foi o pior momento da história do Sporting. Causou danos na vida de muitas pessoas, começando pelas dos jogadores - as vítimas do ataque -, e teve também o efeito secundário de provocar uma ferida profunda no relacionamento que muitos sportinguistas têm com o clube, ferida essa que tardará a sarar. E não podemos ignorar os danos desportivos, reputacionais e financeiros que também foram causados. Como tal, sendo eu um sportinguista que ficou enojado pelos acontecimentos que estão agora a ser investigados, desejo, como não poderia deixar de ser, que a justiça consiga para apurar o que realmente se passou e que puna todos os responsáveis, doa a quem doer. 

Desconheço os factos e provas apurados pelo Ministério Público que levaram à decisão de deter Bruno de Carvalho para interrogatório. Não vou especular sobre se havia motivos ou não para que tal acontecesse, mas parece-me claro que os direitos do cidadão não estão a ser respeitados quando este é obrigado a passar três noites numa cela antes de ser ouvido por um juiz - contribuindo assim para alimentar ainda mais o circo mediático que se sabia que iria acontecer. Ontem, para além do já habitual acampamento habitual à porta das esquadras e do tribunal e das não tão habituais perseguições de operadores de imagem a carros celulares e a outras viaturas policiais, chegou-se ao ponto de vermos uma jornalista a indignar-se em direto por as autoridades não lhe terem dado a oportunidade de filmar Bruno de Carvalho a entrar no tribunal algemado. Espero, por isso, que o sistema judicial faça por não contribuir para a transformação de um assunto muito sério num miserável reality show que faz salivar os responsáveis de muitos dos canais televisivos... e não só.

Resta-me partilhar a ideia que fui formando ao longo destes meses sobre o assunto. Tenho dificuldades em acreditar que Bruno de Carvalho tenha dado ordem para o ataque porque não vislumbro nenhum motivo racional que pudesse levar o então presidente a incentivar de alguma forma um ato violento contra os seus próprios jogadores, ainda mais estando a poucos dias de disputar uma final da Taça de Portugal que poderia ajudar a mitigar o insucesso do campeonato. As teorias que têm aparecido na imprensa oscilam entre o pouco convincente e o absurdo, como a de que a intenção de Bruno de Carvalho em ordenar o ataque passaria por forçar jogadores a sair. Aparentemente os autores desse artigo esqueceram-se que era notório que muitos dos jogadores estavam desejosos de sair do clube desde o malfadado post pós-Madrid e não precisavam dessa motivação extra. Mas lá está, é apenas a minha opinião e também aquilo que desejo. Mas como a vida nos vai mostrando que não é incomum sermos surpreendidos positiva ou negativamente pelas pessoas, neste momento não há muito mais que se possa dizer ou fazer que não seja esperar pelo decorrer do processo. Que no final se possa dizer que a justiça foi efetivamente aplicada.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A apresentação de Keizer

Marcel Keizer foi apresentado ontem ao final da manhã numa curta sessão que se iniciou com declarações de Frederico Varandas e prosseguiu com perguntas dos jornalistas ao novo treinador do Sporting.

O técnico holandês foi curto e objetivo nas respostas, prometendo uma filosofia de jogo atacante, com uma boa pressão alta e uma boa defesa. Quando questionado sobre os objetivos para a época, disse saber que o Sporting é um clube que ambiciona títulos mas que, neste momento, o seu foco está em melhorar a equipa e que a conversa sobre títulos terá de ficar mais para a frente. Esperemos que a objetividade e pragmatismo das respostas sejam transpostos para o seu trabalho ao comando da equipa.

Imagem: abola.pt
De assinalar também a presença do presidente ao lado do seu primeiro treinador. Era algo que não podia deixar de acontecer, considerando que é uma decisão que vai marcar decisivamente os próximos meses do seu mandato. Varandas explicou os critérios que utiliza para avaliar a competência de um treinador - competência técnico-tática, liderança, gestão do grupo e comunicação - e as características de Keizer que o levaram a tomar esta opção - ambição, apetência para apostar em jovens e um futebol atrativo e dominador. Varandas acrescentou ainda algumas observações sobre a reestruturação da estrutura que compõe o futebol do Sporting, referindo que até ao final de janeiro a casa estará arrumada ao nível da Academia, do departamento médico e do departamento de scouting.

Faltou, no entanto, ter o resto da equipa técnica fechada. Seria de esperar que nesta altura a composição dos adjuntos já estivesse definida.

A apresentação de Varandas e a conferência de imprensa de Keizer duraram apenas um total de 9 minutos, mas decorreu de forma sóbria e eficaz: aquilo que tinha de ser dito e feito foi dito e feito. Começa agora a parte mais complicada. Que o trabalho de Marcel Keizer tenha o sucesso que todos desejamos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Noite de surrealismo

Como se não bastasse todo o momento futebolístico que temos vivido nos últimos meses, a série de acontecimentos que antecederam a partida de ontem encarregaram-se de dar uma nota de surrealismo à noite que se viveu em Alvalade.

Começou pela chuva torrencial que caiu durante quase todo o dia e que afastou muitos sportinguistas do estádio, continuou com as buscas relacionadas com o ataque de Alcochete e que deixaram deserto um setor normalmente preenchido e ruidoso, e terminou em mais uma exibição pouco conseguida que ia comprometendo o resultado pela forma negligente como nos deixámos empatar em superioridade numérica, que foi salva, de forma não menos incrível, por um penálti caído do céu.



O resultado - se havia coisa de que o Sporting não precisava, considerando tudo o que se tem passado, era de passar as próximas três semanas a levar com o carimbo de crise também por causa dos resultados e do afastamento à liderança. Seria ainda pior se tivéssemos empatado por termos sofrido um golo em superioridade numérica. Numa altura em que entra o novo treinador, era fundamental ter a tranquilidade de um resultado positivo para esta espécie de pré-época relâmpago que acontecerá nesta pausa no campeonato.

Uma primeira parte razoável - o ritmo imposto esteve uns furos abaixo do desejável, mas ainda assim houve bons momentos de futebol durante a primeira parte. O melhor foi, obviamente, a jogada do golo: a receção orientada de Acuña é uma delícia, o cruzamento faz um arco perfeito e o cabeceamento de Dost ao canto inferior esquerdo da baliza é indefensável.

A reação do público ao golo sofrido - depois de alguns segundos de silêncio com o choque do golo (e que golo) sofrido, seguiu-se de imediato um forte apoio à equipa. Foram poucos os adeptos presentes em Alvalade, mas naquele momento foram muito bons.



Postura negligente - a segunda parte foi paupérrima. Em vez de se tentar acelerar o ritmo de forma a alcançar o golo da tranquilidade, a qualidade de jogo do Sporting voltou ao marasmo que tem sido regra ao longo desta época. Pode-se alegar que o desgaste do jogo de Londres servia de atenuante, mas esse argumento cai por terra quando vimos o adversário trocar a bola como queria quando já estava em inferioridade numérica, nomeadamente tirando partido da auto-estrada que se abriu constantemente no flanco esquerdo do Sporting. Uma postura negligente que nos poderia ter custado muito caro. Claro que seria injusto termos empatado - considerando as oportunidades de golo de que o Chaves (não) dispôs -, mas todos têm a obrigação de saber que no final apenas contam as bolas que entram na baliza.

Exibições - não me parece que Nani renda tanto estando encostado no flanco direito. Diaby entrou e foi incapaz de agitar o jogo, mostrando pormenores que me levam a estar muito pouco otimista em relação ao seu futuro no clube. Jovane continua a parecer-me muito mais útil saindo do banco do que como titular. Gudelj parece incapaz de assumir o transporte de bola e de fazer um remate em condições, mas desta vez esteve bem no passe (particularmente nos passes longos) e nos duelos defensivos. Bruno Fernandes continua muitos furos abaixo do que sabe.



MVP - Bas Dost

Nota artística - 2 

Arbitragem - há dois momentos muito polémicos. A expulsão de Bruno Gallo pareceu-me justa no estádio, mas ao ver mais tarde a repetição creio que houve rigor a mais e que, sendo uma daquelas situações alaranjadas, podia ter-se resolvido com um cartão amarelo. O penálti é polémico por causa da questão do critério, pois agarrões daqueles há muitos em cada jogo. Eu não teria marcado. A questão é que Tiago Martins tinha mandado parar a marcação do canto para avisar William que não podia usar os braços daquela coisa para envolver Dost... e depois William voltou a fazer exatamente isso sem sequer olhar para bola, mesmo nas barbas do árbitro. É muito pouco comum haver penáltis apitados nestas circunstâncias, mas o jogador não lhe deu grande alternativa.

(via @VPoursain)



Segundo lugar isolado, a dois pontos do Porto. Candidatos ao título? Dost disse tudo em relação a isto na flash interview: primeiro temos de jogar mais futebol, só depois é que se poderá falar em títulos. Tem a palavra Marcel Keizer.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Entrincheirados

Entrincheirados. Contra uns gunners de reserva, Tiago Fernandes demonstrou ambição e arrojo ao apostar em Miguel Luís em vez de Petrovic no lugar que era de Battaglia. Queria uma linha média capaz de trocar a bola e estabelecer-se no meio-campo adversário, procurando sair com a bola jogável. No entanto, a realidade sobrepôs-se às boas intenções do técnico interino: a pressão alta do Arsenal anulou facilmente as nossas iniciativas com bola, acabando a história do jogo por se resumir a um Sporting enfiado na área sem capacidade para ameaçar a baliza de Petr Cech. Valeu-nos a disciplina tática e o espírito de sacrifício dos jogadores, que nos proporcionaram um resultado indiscutivelmente positivo face às circunstâncias. Ou seja, resumindo: foi mais um jogo à Peseiro, mas sem a parte do pé-frio.


Disciplina na resistência - o jogo teve um único sentido. Mesmo sendo verdade que o Arsenal não carregou demasiado na procura do golo, dominou claramente o jogo e encostou o Sporting à sua área. Ainda assim, foram poucas as situações realmente aflitivas: a disciplina tática e concentração dos nossos jogadores permitiu-nos anular quase todas as iniciativas inglesas. Destaque para Coates e Mathieu - que mesmo na expulsão esteve bem, evitando um mal maior -, e para a tranquilidade de Renan dentro e fora dos postes.

Coragem debaixo de fogo - a aposta em Miguel Luís faz todo o sentido numa perspetiva de futuro imediato. Querer sair a jogar em vez de recorrer ao chutão para a frente, também. Não resultou porque não há tempo de treino suficiente que anule os meses de vícios peseiristas, e há que reconhecer que o nível do adversário não ajudava ao sucesso da estratégia. Tiago Fernandes preferiu arriscar em vez de perder mais tempo, e fez muito bem. Mereceu a felicidade do resultado alcançado.

Invasão de Londres - absolutamente incrível o apoio dos sportinguistas que se deslocaram ao estádio. Foram enormes!



Cessar-fogo unilateral - 0 remates à baliza em 180 minutos contra o Arsenal é uma estatística aterradora que demonstra bem o estado atual do futebol do Sporting. Contam-se pelos dedos das mãos as vezes que conseguimos fazer 5 passes no meio-campo inglês. O momento mais angustiante foi vivido no único canto que conquistámos: em vez de tentarmos aproveitar a presença de Dost, Coates e Mathieu na área, optámos por marcá-lo de maneira curta, com passes sucessivos para trás até chegar ao círculo central, de onde bombeámos para... um fora-de-jogo. Ou seja, mais uma vez fomos completamente inofensivos e o empate acaba por ser um prémio que, do ponto de vista ofensivo, nada fizemos por merecer.

Missing In Action - ninguém pode pôr em causa o esforço dos jogadores durante os 90 minutos, mas não podemos ficar satisfeitos apenas com o empenho. A verdade é que, esforço e disciplina tática defensiva à parte, houve vários jogadores que foram uma completa nulidade. O flanco direito formado por Bruno Gaspar e Diaby funcionou terrivelmente - ofensivamente não me lembro de nenhuma incursão que chegasse ao último terço adversário, e defensivamente foi o local por onde o Arsenal conseguiu encontrar mais facilidades -, Bruno Fernandes continua a léguas daquilo que sabe fazer e teve a agravante de ter feito o atraso disparatado que provocou a expulsão de Mathieu -, e Montero foi incapaz de segurar uma bola e de utilizar os (poucos, admito) apoios que iam aparecendo. Tudo junto, não admira que tenhamos passado 90 minutos enfiados na nossa área.



O empate acaba por ser um excelente resultado, não só pela conjuntura atual do Sporting, não só pela forma como a partida decorreu, mas também pelo vitória surpreendente do Qarabag na Ucrânia, que nos coloca com pé e meio na fase seguinte da Liga Europa.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A vez de Keizer

Tudo indica que estará por dias a oficialização de Marcel Keizer como novo treinador do Sporting. Sendo certo que o despedimento de Peseiro reuniu um consenso bastante alargado no universo sportinguista, o mesmo não se poderá dizer da sua substituição. A contratação do técnico holandês dividirá seguramente as opiniões: há quem aponte a ausência de títulos no currículo, há quem aponte o facto de não conhecer o futebol português, e há quem aponte a escassa experiência como treinador principal em clubes com ambições idênticas às do Sporting. São questões pertinentes, algumas mais relevantes do que outras.


Ausência de títulos

A ausência de títulos, para mim, não é um problema. O historial dos treinadores campeões em Portugal demonstra que isso não é uma condição necessária para se ter sucesso: Rui Vitória tinha uma Taça de Portugal antes de ingressar no Benfica, Jorge Jesus nunca tinha ganho nada, o mesmo aplicando-se a Vítor Pereira e André Villas Boas. Por aqui estamos conversados.


Desconhecimento do futebol português

O desconhecimento do futebol português é uma questão bem mais relevante, nomeadamente nestes primeiros meses de contacto com a realidade nacional. As dificuldades que existem em Portugal nos confrontos com equipas do meio e do fundo da tabela não têm absolutamente nada a ver com o que se passa nos outros campeonatos, nomeadamente o holandês. É um foco de risco que, no entanto, poderá ser mitigado pela presença de adjuntos portugueses (Tiago Fernandes e Rodolfo Correia deverão fazer parte da equipa técnica).


A experiência passada

Há, depois, a experiência anterior do treinador, que é indiscutivelmente escassa. O único ponto marcante da sua carreira é a curta passagem pela equipa principal do Ajax, que acabou com um despedimento a meio da época. No entanto, olhando para os resultados de Keizer no Ajax, não se pode dizer que tenha feito um trabalho terrível: na realidade, ao nível interno teve um desempenho muito na linha daquilo que têm sido as últimas épocas do Ajax, incluindo a atual. Keizer saiu à 17ª jornada com o Ajax em 2º lugar a 5 pontos do líder PSV - curiosamente, numa altura em que tinha o melhor ataque e a melhor defesa e em que a equipa estava em franca recuperação: nas jornadas anteriores ao despedimento o Ajax tinha derrotado o líder PSV por 3-0 e tinha ido a Alkmaar (que era 3º classificado) vencer por 2-1. A sua saída acabou por ser ditada pela eliminação na Taça e, sobretudo, pelo péssimo início de época - mau arranque no campeonato e eliminação nas fases de qualificação da Liga dos Campeões e da Liga Europa -, que, segundo li, foi afetado pelo grave incidente com Nouri.

O Ajax acabaria essa época em 2º lugar, a 4 pontos do PSV. Esta época, está também em 2º lugar a 5 pontos do PSV.

Só por curiosidade, Keizer deixa o Al-Jazira no 2º lugar do campeonato dos Emiratos Árabes Unidos com 5 vitórias, 4 empates e 0 derrotas, a 2 pontos do 1º lugar. Vale o que vale, mas o holandês conseguiu um claro progresso em relação à época passada, em que o Al-Jazira ficou em 7º lugar (em 12 equipas) com 7 vitórias, 7 empates e 8 derrotas, a 25 pontos do campeão.


O Perfil

Há, depois, a questão do perfil de Keizer enquanto técnico. Admito que não conheço o seu trabalho pelo que me baseio apenas no que tenho lido nos últimos dias, mas em teoria agrada-me a mentalidade ofensiva e de posse e a apetência para apostar em jogadores jovens. As declarações que tenho lido sobre Marcel Keizer vão todas no sentido de ser capaz de pôr as equipas a jogar um futebol atrativo e de olhos postos na baliza adversária. Ou seja, por aqui não me parece que haja nada a apontar à escolha da direção. Há uma filosofia de futebol positivo e com forte cunho da formação que se quer estabelecer, e o perfil de Marcel Keizer parece perfeitamente adequado a essa ideia.

Havendo capacidade para Keizer implementar as suas ideias no Sporting, seguramente que teremos grandes melhorias em relação ao que nos foi oferecido nestes primeiros meses de 2018/19. Terá, no entanto, de haver alguma tolerância para o novo técnico: é uma realidade nova que terá de enfrentar, o plantel está fechado nos próximos dois meses, entra com a época está em andamento e com pouca disponibilidade de calendário para treinar. Não critico os mais desconfiados, mas é justo que se lhe dê o benefício da dúvida nestes primeiros meses.

Que tenha a melhor das sortes neste grande desafio que vai abraçar. A sua felicidade será a nossa.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Revoltas seletivas

Jornalistas. Comentadores. Treinadores. Ex-treinadores convertidos em pilotos de rally. Dirigentes de associações de treinadores. Praticamente uma semana após o consumar do facto, continua a aumentar a lista de personalidades ligadas ao mundo de futebol que reagem de forma chocada/indignada/estupefacção ao despedimento de José Peseiro do Sporting. Aguarda-se a todo o momento o comentário do presidente Marcelo Rebelo de Sousa sobre o assunto.

Perante tamanha revolta, qualquer pessoa que desconheça os detalhes desta novela deve ficar a pensar que se está a falar de um treinador reconhecido consensualmente como uma referência internacional e que os maiores emblemas nacionais e continentais se acotovelarão para conseguir garantir os seus préstimos. Certamente que não iriam suspeitar de que se falade alguém que tem falhado rotundamente em todos os clubes por onde tem passado.

Os argumentos utilizados por estes sábios andam todos à volta do mesmo. Que Peseiro pegou no Sporting quando mais ninguém o queria fazer. Que tinha em mãos um plantel desfeito e dispôs de meios limitados para o reforçar. E que deixou o Sporting na luta por todas as competições. Nada disto corresponde inteiramente à verdade, sendo que por vezes a forma como alguns defendem Peseiro chega a ser aberrante. 

Havia outros treinadores - superiores, na minha opinião - disponíveis para assumir o cargo no verão, mas no momento da verdade a recomendação de Jorge Mendes pesou decisivamente na decisão de Sousa Cintra. O plantel é desequilibrado, é verdade - sendo que Peseiro teve responsabilidades nisso -, mas continua a ter alguns dos melhores executantes da liga como Nani, Bruno Fernandes ou Mathieu, e, mesmo dentro desses desequílibrios, há qualidade mais que suficiente para fazer melhor figura contra a maior parte dos adversários que defrontou. Quanto ao clube estar na luta por todas as competições, devemos agradecer antes de mais ao número anormal de pontos que Porto e Benfica têm perdido para o campeonato. Na época passada, à 9ª jornada, o Porto tinha mais 4 pontos e o Benfica tinha mais 3 pontos.

Podia falar dos equívocos de Peseiro na formação e utilização do plantel. Podia falar na inabilidade comunicacional. Podia falar nas incompreensíveis teimosias de dar minutos a jogadores inúteis. Mas o que é realmente fundamental na avaliação da justiça do despedimento é a mediocridade exibicional que se observou sistematicamente, sem quaisquer perspetivas de evolução. Uma pessoa que veja o Sporting 2018/19 a jogar fica a questionar-se se os jogadores alguma vez treinaram juntos, tal é a incapacidade de entendimento que revelam em campo. Peseiro conseguiu a proeza de fazer com que o coletivo seja inferior à soma das individualidades, quando a sua tarefa e obrigação era alcançar precisamente o contrário.

Sabemos bem que se trata de uma revolta bastante seletiva. Sabemos bem que muitos dos que defendem Peseiro o fazem porque lhes dá jeito que o Sporting esteja em subrendimento - e esses não defenderão Rui Vitória caso o atual treinador do Benfica venha a ser substituído por Jorge Jesus.

Ao invés, até consigo compreender os críticos que reagiram em defesa de Peseiro por estarem formatados para defender a classe dos treinadores - que em Portugal são tradicionalmente o elo mais fraco, muitas vezes vítimas da incompetência de outros. Mas deviam refletir melhor, pois isso não se aplica a este caso. Independentemente do nível sucesso que o futuro treinador tenha, a decisão de despedir José Peseiro é totalmente acertada porque seria uma questão de pouco tempo (algumas semanas, um par de meses no máximo) para ficarmos fora da luta pelo campeonato.

O que faz mais sentido? Mudar enquanto ainda se vai a tempo de salvar uma época, ou esperar comodamente pelo desastre anunciado? A resposta é tão óbvia...

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Dever cumprido

Não há muito que se possa fazer numa situação de transição entre um treinador que foi incapaz de tirar rendimento do plantel que tem para um treinador que necessitará de tempo para colocar em prática as suas ideias, que se desejam bem diferentes (para melhor, claro) daquelas que nos levaram a este ponto. Ao treinador que fica com a criança nas mãos durante este período apenas se pode exigir que não caia nos equívocos mais aberrantes e que vá conquistando os pontos em disputa, seja lá como for.

Nesse sentido, Tiago Fernandes pode dormir tranquilo com a consciência de dever cumprido. Não pôs nem podia pôr a equipa a jogar melhor apenas com um par de treinos, mas arriscou algumas alterações e fez o que pôde com aquilo que o jogo lhe deu e, com a colaboração do adversário, acabou por ser feliz e saiu dos Açores com três pontos preciosíssimos. Um desfecho que o clube agradece nesta fase tão turbulenta, pois é muito mais fácil corrigir o rumo em cima de vitórias.



Três pontos - nota artística baixa, mas o fundamental era obter os três pontos. Valeu-nos o sangue (duplamente) frio de Dost, ao ser obrigado a repetir a marcação do penálti, o hara-kiri de Patrick Vieira, e a irreverência de Jovane e o movimento anti-natura de Acuña no segundo golo. E não esquecer que foi alcançado em condições climatéricas pouco favoráveis, que contribuem para um aumento de aleatoriedade da forma como o jogo decorre.

Opções corajosas - Tiago Fernandes mexeu um pouco no esquema ao colocar Diaby no meio no apoio a Dost e lançou Lumor a lateral algo surpreendentemente, optando por colocar Acuña como extremo e recuando Bruno Fernandes para fazer a vez de um Gudelj mais adiantado. A opção de Diaby não resultou, pois raramente conseguiu fazer a ligação entre setores e nunca conseguiu explorar a profundidade. Lumor fez genericamente um bom jogo, mas teve responsabilidades repartidas no golo sofrido - sendo, ainda assim, um claro upgrade em relação a Jefferson. O treinador esteve bem ao mexer na equipa cedo: a troca ao intervalo de Jovane por Diaby melhorou o rendimento da equipa e o jovem extremo confirmou a apetência para ter impacto decisivo quando é lançado com o jogo a decorrer, com a assistência para o segundo golo. Acuña, que com as trocas posicionais feitas ao intervalo passou para a faixa direita, conseguiu uma exibição positiva da qual se destaca, obviamente, o golo da vitória.


Mais do mesmo - Peseiro saiu, mas o seu legado, para o bem e para o mal (infelizmente muito mais para o mal do que para o bem), tardará a desaparecer. Mais uma exibição desgarrada, pouco inteligente - tardou que a equipa percebesse que podia usar o forte vento a favor -, sempre muito mais em esforço do que em jeito, com muitos jogadores em subrendimento. Mais do mesmo, portanto.

A gestão dos últimos minutos - apesar de o Santa Clara estar com menos um, a equipa foi completamente incapaz de manter a bola afastada da nossa área nos minutos finais da partida. Várias situações arrepiantes que, com uma pequena dose de felicidade para o Santa Clara, poderiam ter dado o golo do empate e retirado dois pontos ao Sporting.



MVP - Acuña 

Nota artística - 2

Arbitragem - bom trabalho de Manuel Mota. Decidiu bem todos os lances de dúvida na área, incluindo o penálti sobre Dost e manteve um critério disciplinar coerente ao longo de todo o jogo. Em relação à expulsão de Patrick Vieira, os aplausos irónicos justificariam um amarelo, mas deverá ter havido algo mais que só o árbitro e o jogador saberão.



Três pontos fundamentais que nos mantém a dois pontos de Porto e Braga. Para a semana recebemos o Chaves e os dois primeiros classificados defrontam-se no Dragão. Numa fase destas, nas circunstâncias que vivemos, não faz sentido pensar de outra forma: tem de ser jogo a jogo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

"Em todas as frentes"

Ouvir e ler certos comentadores e notáveis que criticam o despedimento de José Peseiro é um exercício que desafia a sanidade mental de qualquer sportinguista que tenha acompanhado de perto o rendimento da equipa de futebol ao longo deste início de época. É um tipo de discurso que tem sido muito batido nos últimos anos, e em parte percebe-se como surgiu: o treinador é, muitas vezes, um bode expiatório da incompetência alheia, muitas vezes dos dirigentes que os contratam. Mas criticar o despedimento de Peseiro, neste contexto, apenas demonstra uma de duas coisas: ou são pessoas que se encontravam satisfeitas com o fraco rendimento do Sporting e que desejavam que o estado das coisas assim continuasse (cartilheiros, sportinguistas revoltados e afins); ou vem de pessoas que debitam invariavelmente um discurso de proteção do treinador, e que nem se deram ao trabalho de avaliar e perceber que, neste caso concreto, Peseiro é muito mais responsável do que vítima do destino que acabou por ter.

O Sporting teve um bom início de campeonato. Venceu 3 jogos e empatou na Luz nas primeiras 4 jornadas. Passou por dificuldades em Moreira de Cònegos, fez os mínimos em casa contra o V. Setúbal, foi dominado na Luz, e venceu de aflitos o Feirense. Qualidade de jogo sofrível mas, ainda assim, foi um arranque que superou as baixas expetativas que havia à partida. Havia tolerância para o mau futebol no pressuposto de que, com o tempo, se começaria a ver melhor futebol e maior capacidade de potenciar a qualidade que existe no plantel.

No entanto, nada disso aconteceu. Às más exibições começaram a juntar-se os maus resultados. As vitórias que fomos conseguindo foram, excetuando com o Boavista e Marítimo, magras e pouco convincentes. Fomos humilhados em Portimão. Sofremos mais do que devíamos para vencer o Loures e o Vorskla. Perdemos em casa com o Arsenal sem fazer um remate enquadrado, e voltámos a ser derrotados em Alvalade com o Estoril num jogo em que foi a equipa da II Liga a dispor das melhores oportunidades de golo.

Não há argumentos válidos para se defender Peseiro porque não há atenuantes que justifiquem tão pobre produção futebolística. Não se pode queixar de ter um plantel desequilibrado porque, segundo Sousa Cintra, as indecisões do treinador comprometeram vários reforços que estavam a ser negociados. Não se pode queixar de falta de qualidade do plantel num contexto de competições internas: quem tem Nani e Bruno Fernandes e não consegue montar à sua volta uma equipa que domine 80% dos adversários em Portugal não merece o cargo que ocupa. Não se pode queixar das arbitragens. Não se pode queixar do estado dos relvados em que joga. Não se pode queixar da falta de apoio dos sportinguistas, fora e em casa.

E muito menos podem os comentadores e notáveis utilizar o argumento de que o Sporting está "em todas as frentes". No campeonato tivemos a sorte de Benfica e Porto terem perdido pontos de uma forma que tem sido pouco habitual nas últimas épocas. Na Taça de Portugal, era só o que faltava se fossemos eliminados pelo Loures em campo neutro. Na Taça da Liga, tivemos dois jogos em casa e conseguimos a proeza de perder um deles contra uma equipa da II Liga - e agora, para além de termos de vencer na Feira para seguirmos para a final four, precisamos que o Estoril não vença o Marítimo por uma diferença de golos superior à nossa. E na Liga Europa, em que não nos podemos queixa de falta de sorte no sorteio, apenas estamos em boa posição porque conseguimos uma vitória que nos caiu do céu na Ucrânia num jogo miserável contra uma equipa que deveríamos ter derrotado sem dificuldades.

Peseiro falhou em toda a linha na tarefa de montar uma equipa competitiva nestes quatro meses - QUATRO MESES, não foram quatro semanas - em que treinou o Sporting. Estava mais que visto que, continuando Peseiro como treinador, seria apenas uma questão de (pouco) tempo e de pouca felicidade nos sorteios para irmos sendo afastados da luta pelas várias competições - e com isso, todas as áreas do clube seriam contaminadas pelo estigma do insucesso. Ao despedir Peseiro, Varandas fez aquilo que tinha de ser feito. Isso, por si só, não é garantia de que as coisas se corrigirão por completo de imediato - nenhum treinador terá tarefa facilitada nas atuais circunstâncias, pegando nesta equipa com as competições em andamento -, mas é uma decisão que tinha obrigatoriamente de ser tomada.