quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Brunão

Muitos temiam este dia - eu estou nesse grupo de pessoas. Mas era inevitável que acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Não foi no verão passado. Se não fosse na janela de inverno, seria certamente no próximo defeso. Acabou por consumar-se esta tarde.

O Sporting oficializou através de um comunicado à CMVM a transferência de Bruno Fernandes para o Manchester United, a troco de 55 milhões de euros fixos e 25 milhões por objetivos. Desses 25 milhões de variáveis, 5 são quase certos, 5 são prováveis e os restantes 15 são de muito difícil concretização. Na prática estaremos, portanto, a falar de uma transferência que oscilará entre os 60 e os 65 milhões, que ultrapassará em 50% (ou mais) o anterior recorde de venda do Sporting (40 milhões por João Mário). 

É sabido que, deste dinheiro, há que deduzir os habituais 10% de Jorge Mendes e, depois de descontada esta parcela, 10% da mais-valia será entregue à Sampdoria: o Sporting pagou 8,5 milhões ao clube Italiano, pelo que estaremos a falar de uma mais-valia de 41 milhões, ou seja, os 10% correspondem a 4,1 milhões. Há ainda que retirar 1,38M do mecanismo de solidariedade, já que o clube inglês suportará metade deste encargo. Sobrarão, caso não existam surpresas, 44 milhões de euros para os cofres do Sporting - já se sabendo que parte será usado para abater dívida, de acordo com o acordo estabelecido com a banca. 



O negócio 

Mesmo metendo ao barulho o Midas do futebol europeu, o Sporting ficou longe de amealhar os 80 milhões que meteu como fasquia no final da época passada. Dos 80 baixou-se para 70 em agosto e, perante o insucesso das negociações, acabámos por fechar o acordo entre os 60 e os 65 milhões. 

Não é um negócio desastroso, obviamente, mas a verdade é que, constituindo esta verba um recorde na história do clube, não deixa de ser algo desapontante, já que fica bastante aquém das expetativas iniciais - e com a agravante de não haver perspetivas de entrada de um substituto minimamente à altura. De um lado, o jogador estaria certamente a fazer força para sair já. Mas, do outro, o Manchester United também estava a ser muito pressionado para contratar o jogador. Acabou por ser o Sporting a ceder na reta final da janela de transferências, numa nova demonstração da falta de capacidade negocial que tem caracterizado a gestão de Frederico Varandas. 



O jogador 

Há quem defina a passagem de Bruno Fernandes pelo Sporting em função da rescisão, sendo a sua produção em campo um detalhe menor. Eu vejo as coisas de outra forma. Bruno rescindiu, mas, ao contrário de outros com muito mais tempo de casa, voltou ao clube e, durante o ano e meio que desde então passou, deu tudo o que tinha em campo. Tudo. Levou a equipa às costas, foi construtor de jogo, foi bombardeiro, foi goleador, foi carregador de piano, foi um segundo treinador, foi capitão, foi um líder. Foi, apesar de todas as dificuldades que o clube atravessou numa das fases mais conturbadas da sua história, um jogador de quem tudo se esperava e que sempre deixou tudo em campo para tentar corresponder a todas as expetativas que recaíam sobre os seus ombros.

Apesar de ser massacrado por adversários, árbitros e uma (pequena) parte da massa associativa que nunca lhe perdoou a rescisão, Bruno nunca se encolheu e respondeu sistematicamente com um nível de jogo notável. Os dois anos e meio de excelência colocam-no ombro a ombro com os melhores que vi jogar com a camisola do Sporting, certamente o mais produtivo. Jardel fez uma época extraordinária, mas tinha um plantel de luxo a jogar para ele. Balakov é inesquecível e Figo fez uma última época fenomenal, mas, sendo ambos jogadores mais geniais, não tiveram o mesmo rendimento global de Bruno Fernandes. Cristiano Ronaldo era um predestinado, só que não lhe deram tempo suficiente para poder ser a figura do plantel em Alvalade. 

Foi um privilégio ter Bruno Fernandes no Sporting. Vai fazer muita falta, mas merece ser feliz nesta nova etapa da sua carreira. Boa sorte, Bruno! 



E agora... a vida sem Bruno 

Consumada a saída da peça central da equipa, levantam-se questões pertinentes sobre o que nos reservará o resto da época. É certo que os objetivos da época já foram quase todos pelo cano (na Liga Europa será apenas uma questão de tempo), mas continuamos ainda a ter de disputar a metade do campeonato que falta. Se a primeira volta já foi o suplício que foi, é angustiante pensar como será daqui para a frente sem o único jogador de classe mundial do plantel. 

Segundo os jornais, o Sporting não contratará ninguém para substituir o capitão. Isto significa que Silas utilizará Vietto em funções similares, o que, por ser um jogador de características bastante diferentes, provavelmente implicará mudanças táticas consideráveis. É possível que se abra um lugar no grupo para Francisco Geraldes, mas não vale a pena esperar demasiado do jogador: as dificuldades que tem demonstrado ano após ano serão sinais fortes de que terá perdido em definitivo o comboio para se afirmar em Alvalade. 

Vai ser necessário que Vietto, Wendel, Acuña - os únicos jogadores de classe superior à média - subam as suas prestações de nível e, sobretudo, de regularidade, e precisamos que o potencial de Camacho e Plata comece a afirmar-se de forma mais consistente. Se os melhores jogadores e os jovens de maior potencial não dividirem a carga que a saída de Bruno Fernandes, o mais provável é que o clube nem sequer conseguirá ficar em 3º lugar no final do campeonato - o que seria uma humilhação difícil de suportar. 

Certo, certo, é que vendemos o único jogador do plantel com valor de mercado superlativo e não há perspetivas de que outro atleta do clube atinja um patamar equivalente num futuro próximo. O dinheiro que ficará disponível para reforçar o plantel no verão terá de ser tremendamente bem aplicado. Se assim não for, as consequências desportivas para o médio prazo serão devastadoras. Mais um motivo para que, caso esta direção se mantenha em funções, a estrutura de futebol seja reestruturada com gente bem mais competente do que aquelas que atualmente tomam as decisões. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A prioridade nº 1 do mercado

Não é preciso ser-se particularmente perspicaz para entender a importância do ponta-de-lança numa equipa de futebol, não só pelos golos que marca, mas também pelos que dá a marcar por ação direta ou indireta, seja através de passes para os colegas, abrindo espaço na frente arrastando os defesas adversários ou fixando-os pela sua mera presença em determinado ponto no campo. A importância do ponta-de-lança é particularmente relevante num campeonato como o português para uma equipa que quer lutar pelo título. As defesas adversárias baseiam-se causam dificuldades sobretudo pela quantidade de jogadores que colocam em tarefas defensivas, mas a fraca qualidade individual dos jogadores que têm ao seu dispor faz com que sejam presa fácil para qualquer ponta-de-lança de qualidade média/média-superior para os padrões europeus.

Foto: zerozero.pt
Infelizmente, aquilo que é uma evidência óbvia para qualquer indivíduo que acompanhe o futebol... não o foi para quem teve a responsabilidade de montar o plantel do Sporting. Atacar uma época com um único ponta-de-lança de raiz já de si é uma decisão incompreensível, mas a isso ainda temos de somar o facto de esse ponta-de-lança - Luiz Phellype - não ter o nível necessário para uma equipa que, supostamente, queria disputar os primeiros lugares com os rivais de sempre. A narrativa do ataque móvel de quem manda no futebol no Sporting não tardou a desmoronar-se face à insuficiente qualidade dos reforços de última hora, ao ponto de deixar os adeptos a suspirar pela alternativa que existe nos sub-23 que não pode ser utilizada nas competições internas por não ter sido inscrito.

Mas mesmo sendo Luiz Phellype o jogador que é - com as suas qualidades e defeitos -, o efeito positivo de utilizar um ponta-de-lança de raiz é indesmentível. E não me refiro apenas ao 9 golos e 2 assistências registadas em 1207 minutos de utilização (que dá uma média de um golo/assistência a cada 110 minutos). Existem outros números ainda mais elucidativos.


Quando joga com Luiz Phellype, um ponta-de-lança de raiz, o Sporting demora em média 43 minutos a marcar um golo. Sem Luiz Phellype, o tempo necessário para marcar dispara para 72 minutos. A discrepância ainda seria superior se contássemos com a prestação de Pedro Mendes. Não a coloquei aqui porque a utilização do jovem sub-23 a extremo na Áustria desvirtuaria a análise.

Essa diferença também se reflete nos resultados dos jogos. Em jogos em que Luiz Phellype participou, o Sporting conquistou 63% dos pontos em disputa (para efeitos de simplificação da análise, incluí as derrotas da Taça de Portugal e da Supertaça, apesar de não haver pontos em jogo), perto do dobro do aproveitamento que existiu em jogos em que Luiz Phellype ficou de fora. Quando Luiz Phellype foi titular, esse aproveitamento foi ainda mais alto: 69%.


Por todos e motivos e mais algum, é completamente óbvio que a prioridade número um do Sporting para o mercado de janeiro terá de ser a contratação de pelo menos mais um ponta-de-lança, de preferência para entrar no onze de caras. Não é preciso inventar a roda: daqueles que conhecem a posição como a palma da mão e sabem meter a bola na baliza. Têm a palavra Varandas e Hugo Viana.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Prendinha inesperada no tronco do Pinheiro

Foto: zerozero.pt
Mais do mesmo na primeira parte. A primeira parte foi à Sporting, no sentido em que voltámos a ver o pior do que tem sido o futebol da equipa esta época - incapacidade de controlar o adversário polvilhada com desconcentrações individuais - com mais uma performance antológica do árbitro da partida. João Pinheiro, que já tinha cometido a proeza de assinalar, sem ter de recorrer ao VAR, três grandes penalidades a favor do Rio Ave em Alvalade -, voltou hoje a demonstrar uma visão digna de ave de rapina ao vislumbrar uma falta de Camacho na área que, arrisco dizer, não assinalaria noutros estádios com certos outros protagonistas. Visão de ave de rapina que lhe falhou quando decidiu expulsar Bolasie por causa de uma suposta mão intencional na cara do adversário que, após vista a repetição, não só não teve qualquer intenção como apenas tocou de raspão no peito. Mão na cara que, mais tarde, aconteceria mesmo na área do Portimonense sobre Bruno Fernandes, e aí... nem penálti, nem cartão, nem falta. Coisas que acontecem frequentemente quando se junta o Sporting a este tronco-- perdão, a este pinheiro.

Segunda parte com alma e carácter. Obrigados a jogarem mais de 45 minutos em desvantagem numérica de 10 contra 12 e em desvantagem no marcador, e estando sempre dependente de que o Rio Ave não marcasse, jogadores e treinador foram para cima do adversário e conseguiram uma reviravolta categórica que teve como prémio uma improvável qualificação para a final four da Taça da Liga, que parecia perdida logo à 1ª jornada da fase de grupos. Tem havido muitas e merecidas críticas ao longo da época, mas hoje merecem todos os elogios possíveis pelo carácter e pela alma perante uma situação de enorme adversidade.

Silas a pôr toda a carne no assador. Com menos um, Silas colocou Luiz Phellype e Plata para os lugares de Ristovski e Doumbia. Os centrais tiveram licença para subir sempre que houvesse oportunidade para isso. Podia ter perdido o meio campo e exposto a equipa ao contra-ataque adversário, mas, não havendo nada a perder, o treinador fez aquilo que tinha que fazer e conseguiu alcançar uma vitória que poderá servir de catapulta psicológica para a dificílima fase que se segue.

A hora dos putos. Max foi o protagonista do lance mais importante do jogo, quando fez uma defesa incrível a abrir a segunda parte e evitou o terceiro golo dos algarvios que, muito provavelmente, acabaria com o jogo de uma vez por todas. A baliza é dele. Claro que está sujeito a cometer lapsos próprios da idade, mas tem demonstrado ser superior a Renan em praticamente todas as componentes de jogo de um guarda-redes. Camacho e Plata tiveram oportunidades e foram decisivos. Que seja a faísca necessária para a sua explosão. A equipa bem precisa.

A importância de um ponta-de-lança e o trabalho que se segue na janela de mercado. Luiz Phellype, mesmo limitado, foi decisivo: participou nos três golos da reviravolta durante os 25 minutos em que esteve em campo. Não é um ponta-de-lança fabuloso, mas é um ponta-de-lança. E com um ponta-de-lança, havendo uma referência na frente, as coisas ficam, não surpreendentemente, mais fáceis. O fracasso desta época explica-se muito pela ideia peregrina de construir um plantel com apenas um ponta-de-lança. A salvação possível desta época passa por um reforço da equipa nas posições mais carenciadas - ponta-de-lança à cabeça - e não pela venda em saldo dos nossos melhores jogadores. Vamos ver o que a estrutura nos reserva para janeiro.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O revisionismo do "all in"

O estado das contas do 1º trimestre que o Sporting divulgou esta semana confirma a existência dos problemas que se adivinhavam face às insistentes notícias de que os melhores jogadores poderão ser vendidos no mercado de inverno. O desequilíbrio das contas ainda é uma realidade: o nível de custos é excessivamente alto para um clube que não está na Liga dos Campeões e não houve milagres nas receitas ordinárias, cujo crescimento está longe de ser suficiente para que a direção retire a grande e chamativa placa que colocou na montra da SAD a anunciar que estamos em época de saldos.

Não sou nem nunca fui insensível às dificuldades que se deparavam, mas a verdade é que, uma época desportiva e 4 trimestres financeiros após da eleição de Frederico Varandas, o panorama é preocupante. 

A situação financeira está apenas marginalmente melhor. Os problemas têm vindo a ser tapados recorrendo à antecipação de receitas futuras ou vendendo jogadores ao desbarato e nos piores timings possíveis, com as graves consequências desportivas que estão à vista de todos. Em meados de outubro, o clube estava fora da luta pelo campeonato, fora da Taça de Portugal e com um pé fora da Taça da Liga. O plantel é o mais fraco de há muitos anos para cá. E o mais dramático é que estamos metidos numa espiral negativa desportiva e financeira que não permite vislumbrar uma saída fácil, ainda mais perante a evidente incompetência de quem manda no futebol - não há na estrutura quem saiba contratar, não há quem saiba vender, não há quem saiba montar um plantel, não há quem proteja treinadores e jogadores, não há quem defina um rumo, não há quem mobilize os sócios e adeptos. A falta de dinheiro já não pode servir de única desculpa para o descalabro em que o clube está metido, e podemos dizer, com (triste) segurança, que a situação de hoje é, no geral, pior do que há um ano. Progressos indiscutíveis só na capacidade de colocar notícias e narrativas na imprensa para dourar a pílula.

Uma dessas narrativas, que muito me incomoda, é a das repetidas referências de Frederico Varandas e Francisco Zenha a um suposto all in feito em 2017/18. Incomoda-me porque, do ponto de vista de planeamento da época, 2017/18 foi praticamente exemplar. Houve um nível de acerto de contratações inédito, a equipa rendeu ao mais alto nível na Liga dos Campeões, venceu a Taça da Liga, e preparava-se para disputar os restantes títulos internos até ao fim quando Bruno de Carvalho decidiu começar a dar tiros sucessivos nos pés que, no final da época, foram fatais para os objetivos mínimos da equipa no campeonato e que, a partir daí, culminaria rapidamente na tragédia de que todos nos lembramos e que causou um profundo rombo (desportivo, financeiro, mas sobretudo na união do clube) que demorará ainda muitos anos a ser consertado. Não havia organização, tivesse níveis de risco elevados, aceitáveis, reduzidos ou nulos, que resistisse ao que aconteceu em maio de 2018.

A divulgação das contas do 1º trimestre de 2019/20 permite varrer em definitivo com o revisionismo do all in de 2017/18. Em 2017/18 correram-se riscos, mas perfeitamente compreensíveis face à participação na Liga dos Campeões e considerando a previsível valorização de um plantel riquíssimo. Aliás, olhando para os números dessa época e comparando-os com os de 2019/20, fica perfeitamente perceptível que, segundo a imagem dos respetivos primeiros trimestres, o nível de risco... é muito superior esta época do que há dois anos.


De lá para cá, as receitas ordinárias caíram 32% (em 2017/18 houve Liga dos Campeões), mas os custos com pessoal são agora superiores - conforme explicado no R&C, os custos com pessoal subiram por causa de 5M pagos em indemnizações que permitirão controlar melhor os custos daqui para a frente (ver o meu post sobre as contas aqui: LINK). Os custos de funcionamento (FSE's) aumentaram 42%. Para reduzir o desequilibro das contas, houve necessidade de praticamente duplicar as mais-valias em vendas de jogadores.

Nessa época do "all in", o nível do plantel era incomparavelmente melhor que o do atual. Não só havia jogadores de nível superior que vinham de trás, como também o acerto das contratações foi fenomenal: Mathieu, Battaglia, Bruno Fernandes, Acuña e Coentrão fizeram pelo menos 2/3 dos minutos totais dessa época (com Piccini muito perto dessa percentagem de utilização), e com o rendimento em campo que se sabe.


Ao invés, dos jogadores contratados esta época, só Vietto se pode considerar um titular indiscutível, enquanto Rosier vai cimentando esse estatuto - sobretudo graças às lesões constantes de Ristovski. Mas a verdade é que nenhum dos jogadores contratados esta época, com exceção de Vietto, conseguiriam lutar por um lugar no onze de 2017/18.

2017/18 foi um exemplo de como planear e preparar uma época. Seria bom que a atual direção percebesse isso. Em vez de demonizar tudo o que era feito no passado, poderia esforçar-se mais por perceber o que foi bem feito para tentar a sua replicação. Talvez assim tivesse conseguido melhor que este lindo embrulho que é o plantel 2019/20...

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

As contas do 1º trimestre

O Sporting comunicou à CMVM, na noite passado do sábado, as contas referentes ao 1º trimestre de 2019/20. Foi apresentado um resultado positivo de 21,1 milhões obtidos, sobretudo, devido à às mais-valias dos passes de Raphinha e Thierry Correia nos últimos dias do mercado de transferências. Infelizmente, apesar do lucro obtido - sempre enganador quando falamos do 1º trimestre de um exercício -, o panorama geral é preocupante. A dependência da SAD das receitas extraordinárias (como vendas de jogadores e prémios de competições europeias) mantém-se demasiado elevada, o que leva a que a atual ineptidão desportiva - equipa de futebol à deriva e que dispõe de um único jogador capaz de proporcionar uma venda considerável a curto prazo - tenha efeitos duplamente nefastos: não só pelos objetivos desportivos que vão caindo prematuramente, mas também pelo cumprimento das obrigações financeiras da época. 


1. Receitas operacionais



As receitas operacionais ordinárias tiveram aumentos na casa dos 10% ao nível dos bilhetes de época (infelizmente, terá sido mais por causa do aumento significativo dos preços das Gameboxes do que pelo aumento do número de Gameboxes vendidas), patrocínios, camarotes e business seats e merchandising, tendo-se voltado, de uma forma geral, ao nível atingido há dois anos.

Os prémios da UEFA são mais reduzidos do que em 2018/19 porque na época passada houve uma correção positiva referente à participação da Liga dos Campeões de 2017/18, e também porque, até setembro de 2019, apenas foi disputado um jogo da Liga Europa que acabou em derrota - e, portanto, sem direito a prémio monetário.


2. Custos


Custos com pessoal 

Inesperadamente, registou-se um aumento de 3,2 milhões de euros relativamente a 2018/19. No R&C, a SAD deu a seguinte explicação para esse aumento:
Os gastos com pessoal cresceram cerca de 3,2 milhões de euros face ao mesmo período da época passada, no entanto, importa referir que este aumento é explicado por dois efeitos contrários: i) redução trimestral dos gastos com jogadores e colaboradores em cerca de 1,3 milhões de euros e ii) aumento das indemnizações em 4,7 milhões de euros. O valor relativo às indemnizações por rescisão de contratos de trabalho ascende a cerca de 5 milhões de euros, mas permitirá uma poupança líquida de cerca de 25 milhões de euros, parte significativa da qual irá-se refletir ainda na corrente época.
Suponho que as indemnizações por rescisão de contratos incluam Keizer e a sua equipa técnica, e jogadores como Viviano, Salin, Jefferson e Wallyson (que rescindiram) e, eventualmente, como Alan Ruiz, Petrovic ou André Pinto (como "motivação" para assinarem por outros clubes). Ainda assim, percebendo a poupança que isso implicará em comparação com o que se teria de pagar até ao final dos respetivos contratos, o balanço do trabalho de cortes está longe de ser positivo. A redução de 1,3 milhões em jogadores e colaboradores é claramente insuficiente, ainda mais olhando para a fraquíssima valia desportiva de um plantel que está mais perto das posições de despromoção do que do 1º lugar.


FSE's

Houve um aumento de 21% dos fornecimentos e serviços externos, que está distribuído por diversas componentes. No entanto, há uma delas em que o aumento dá particularmente nas vistas: 


O R&C explica que o "aumento dos gastos com organização, deslocações e estadias em jogos está relacionado com o jogo de pré-época com o Liverpool disputado em Nova Iorque e com a sazonabilidade das deslocações da Liga Europa.". A sazonabilidade da Liga Europa explica-se com a deslocação à Holanda para defrontar o PSV (na época passada o 1º jogo da Liga Europa foi em casa). Ainda assim, podemos assumir que a maior parte dos 924.000 euros a mais que se gastou se deverá à deslocação a Nova Iorque - mais prolongada e mais longa do que a de Eindhoven. No entanto, se olharmos para um detalhe ao nível das receitas, vemos que...


... a SAD só encaixou cerca de meio milhão em competições particulares. Isto dá a entender que a participação do Sporting no particular com o Liverpool terá dado prejuízo, o que seria, no mínimo, ridículo. Espero que haja algum proveito escondido noutra rubrica, porque obrigar a equipa a uma deslocação destas, com o impacto que tem na pré-época, e ainda ter de pagar por isso no final... seria absurdo.


Dependência das receitas da UEFA e venda de jogadores

Os valores das indemnizações têm algum peso no défice operacional que se registou, mas, mesmo assim, a dependência dos prémios das competições europeias e das mais-valias de jogadores continua demasiado elevada.



3. Dívida


O aumento global do endividamento relativamente a junho de 2018 não é novidade, devido à operação de antecipação das receitas do contrato da NOS realizada em março de 2019. No entanto, há um efeito secundário que ainda não era conhecido mas que é bastante desagradável: o pagamento de juros da dívida durante o 1º trimestre de 2019/20 disparou de 1,271M para 2,964M. Ou seja, teremos de contar com um aumento de juros anuais na casa dos 7 milhões de euros. O período dos juros baixos acabou em definitivo para o Sporting.


4. Outras notas

  • Curioso o acordo que o Sporting fez com Podence: dos 7 milhões, apenas vamos receber 2 milhões até setembro de 2020; o Olympiacos só terá de pagar os outros 5 milhões depois disso; e 10% do valor total da compensação foi atribuído em comissões a Jorge Mendes.
  • Até 30 de setembro de 2019, o Valência tinha pago 3 milhões relativos à transferência de Thierry Correia; o clube espanhol pagará mais 3 milhões até 30 de setembro de 2020 e 6 milhões depois dessa data.
  • O Rennes já pagou cerca de metade do valor de transferência de Raphinha.
  • Dos 53,500 milhões de vendas de jogadores, 5,9M foram pagos em intermediações, ou seja, um valor médio superior a 10% (no caso da venda de Thierry atingiu uns obscenos 16,7%).

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Colapso

Estou à vontade para escrever o que vou escrever porque votei nesta direção e dei-lhe o devido tempo para porem em prática as suas ideias. Optei por esperar para ver como reagiriam às primeiras dificuldades que apareceram, tentei sempre balancear os bons sinais que iam sendo dados com os maus e vice-versa, nunca me esquecendo das complicações estruturais e conjunturais que enfrentavam nem da base boa que havia para trabalhar. Percebia a dificuldade da missão da direção eleita em setembro de 2018, apesar de nunca ter concordado com a expressão herança pesada, usada até à exaustão ao longo do último ano e picos – é verdade que a herança tinha complicações de resolução delicada, mas também incluía ferramentas que ajudavam a resolvê-las… como o chorudo contrato televisivo que foi utilizado para tapar o buraco de tesouraria. Há quem ache que isto é querer estar bem com Deus e o diabo, querer sol na eira e chuva no nabal, mas, para mim, talvez por deformação profissional, não sou capaz de ver a realidade apenas a preto e a branco. Falar é fácil, mas planear bem e executar em conformidade não é para todos... ainda mais quando se trata do Sporting.

Da parte desportiva, no que ao futebol diz respeito, creio que já ninguém anda iludido em relação à (falta de) competência de quem manda. A "estrutura altamente profissional" falhou em toda a linha: construiu um plantel de forma completamente amadora - com carências evidentes e assente na contratação de jogadores medianos -, foi incapaz de convencer um verdadeiro treinador de projeto a pegar na equipa em duas ocasiões distintas, as lesões sucedem-se sem que alguém dê explicações e estimativas para o regresso dos atletas e a preparação física da equipa é uma anedota. Estamos condenados a assistir a um ano de exibições que oscilarão entre o sofrível e o embaraçoso, a não ser que Silas faça um milagre. Do ponto de vista desportivo, a competência da equipa montada por Varandas merece ser equiparada à da de Godinho Lopes. Felizmente, ainda há uma diferença fundamental (pelo menos por enquanto) entre as duas direções: a de Varandas tem sido responsável do ponto de vista financeiro.

A competência mostra-se sobretudo nos detalhes, mas quando analisamos os detalhes - em quase todas as áreas - as conclusões são confrangedoras. Falta rigor, falta profissionalismo, falta exigência, falta noção, falta memória. A quantidade de más decisões é diretamente proporcional às banais frases “inspiradoras” que foram nascendo nas paredes da Academia, de onde se destaca um espaço dedicado à liderança por exemplo que inclui um ex-capitão cujo último exemplo dado aos colegas, nessas funções, foi dar o mote às rescisões em massa ao ser o primeiro a romper com o clube. Uma homenagem incompreensível feita pela mesma direção que decidiu ignorar oficialmente a conquista inédita do nosso judoca Jorge Fonseca por ter cometido o gravíssimo e imperdoável pecado de dar um par de entrevistas não autorizadas. 

Há que reconhecer que não tem faltado coragem a estes órgãos sociais ao nível do combate interno. Para além da mesquinha punição ao campeão do mundo de judo e dos recados mandados à oposição que se começa a organizar, observa-se que o conflito com as claques está a ser conduzido com mão de ferro - a violência contra elementos dos órgãos sociais é inaceitável e tem de ser punida severamente, mas será que não deveria haver o bom senso de separar os responsáveis por esses atos dos outros milhares de elementos que nada têm a ver com isso? - e há notícias que dão conta da abertura de processos disciplinares aos sócios que os insultaram nas AGs - vamos lá a ver o sentido de proporcionalidade que aí vem por parte do CFD. Há alguns membros dos órgãos sociais que continuam a parecer muito mais motivados em levar a cabo ajustes de contas com o que ainda resta do tempo de Bruno de Carvalho do que em cumprir as suas obrigações institucionais e fazer os possíveis para reduzir o nível de crispação existente.

Infelizmente, esta coragem demonstrada nos assuntos internos - e tão elogiada pela comunicação social - não encontra correspondência no combate externo, onde a estratégia parece ser incomodar o menos possível. Como se viu ainda nas últimas duas jornadas, as arbitragens continuam a prejudicar-nos ostensivamente e não se ouviu uma palavra que fosse de um representante do clube.

São apenas alguns de inúmeros exemplos que revelam uma desconexão demasiado evidente para aquilo que os sócios esperam da direção: competência transversal a todas as áreas, promoção efetiva da união e defesa intransigente dos interesses do clube. Os resultados do futebol são o que são, os níveis de desmobilização dos sócios são assustadores e ninguém da direção assume responsabilidade pelo que de mau se tem passado. Pior: o presidente não dá indicações de ter consciência dos erros cometidos, que seria o imprescindível primeiro passo para os poder corrigir. Pelo contrário, parece que vivemos num estado de negacionismo - o edifício está em risco de colapsar, mas a única medida concreta é mandar pintar as paredes e convidar os jornalistas para uma visita guiada para que possam fazer reportagens do quão bonitas estão. 

Não penso que a melhor maneira de resolver o problema seja necessariamente a realização de eleições imediatas - o clube não aguenta continuar a viver em campanha permanente e, pior, não há qualquer garantia de que os próximos sejam aquilo de que o clube precisa -, mas é imprescindível que Varandas e a sua equipa ganhem (e mostrem) noção do desastre que está a ser o seu trabalho e comecem a tomar ações corretivas de imediato. Ações corretivas que terão de incluir, imediata e impreterivelmente, a contratação de um diretor desportivo de créditos firmados que conheça o universo futebolístico e o mercado como a palma da sua mão para um projeto de reconstrução nunca inferior a três anos e livre de ingerências dos cientistas da bola que têm contribuído para nos meterem na atual situação. Caso contrário... estar-se-á apenas a adiar o inevitável.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Reestruturação coxa

O Sporting comunicou ontem à CMVM a formalização do acordo que permitirá a recompra de todas as VMOCs por um valor correspondente a 30% do seu valor nominal. Significa isto que os 135 milhões de VMOCs poderão ser resgatadas com um investimento de 40,5 milhões de euros, elevando a participação do clube no capital social da SAD na ordem dos 90%. Uma excelente notícia, ainda que não seja propriamente uma novidade: no essencial, falamos das mesmas condições negociadas por Bruno de Carvalho no pré-acordo anunciado há cerca de ano e meio. Foram introduzidas agora condições mais suaves de reembolso que permitirão à SAD dispor de uma maior percentagem das mais-valias de vendas de jogadores e de outras entradas de dinheiro.

Ainda assim, independentemente dos méritos de cada um, o importante é que se trata de um passo importantíssimo para a independência do clube face a outros investidores, e que afasta em definitivo o fantasma da perda de maioria da SAD. Há motivos para os sportinguistas ficarem satisfeitos com este acordo.

No entanto, convém lembrar que, ao contrário do que a comunicação social está a relatar, a recompra das VMOCs é apenas uma metade da reestruturação financeira que o clube necessita. Continua por realizar a igualmente essencial - e ainda mais urgente - reestruturação da dívida, prometida por esta direção em campanha eleitoral, e que consistirá na compra da dívida à banca com a participação de uma empresa financiadora, a troco de um haircut (ou perdão de dívida, se preferirem) substancial. Ainda há muito trabalho para fazer. Esperemos que não seja necessário aguardar mais um ano para termos novidades concretas nesta frente.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Sobre Silas (ou quem quer que seja o próximo treinador do Sporting)

À hora que escrevo este texto, ainda não está confirmado oficialmente quem será o novo treinador do Sporting. O nome mais mencionado é o de Silas que, dos vários que têm vindo a ser lançados como hipóteses para suceder a Keizer, é o que mais me agrada. Mas o facto de ser o nome que mais me agrada de um pequeno universo que inclui Quique Setién, Abel Ferreira, Pedro Caixinha e Pedro Martins… pouco significa por si só. 

Foto: record.pt
Gostei do trabalho de Silas no Belenenses, apesar do despedimento recente. Pôs a sua equipa a jogar de forma personalizada e positiva não tendo um plantel particularmente rico ao seu dispor, parece ter as ideias bem estruturadas e tem ainda o bónus de ser um sportinguista assumido. Mas isso não quer dizer que esteja já preparado para assumir um desafio em que o nível de exigência e pressão são incomparáveis aos que conheceu na sua curta carreira de treinador, e muito menos nas condições em que vai apanhar o clube caso se concretize a sua contratação. 

Considerando que já passaram 23 dias desde o despedimento de Keizer e 22 dias desde que Silas foi dispensado do Belenenses, é completamente evidente para os adeptos e, sobretudo, para os jogadores que terá de comandar, que o treinador não é a primeira escolha (provavelmente nem sequer será a décima escolha) de Varandas. Juntando isto ao seu curto currículo (não tendo o nível 4 de treinador, não se pode levantar do banco para dar instruções aos jogadores nem comparecer nas flash interviews) e às circunstâncias que vai encontrar – sem tempo para implementar rotinas, sem hipótese de mexer a curto prazo num plantel mal construído e desmoralizado, e com a paciência dos sócios esgotada –, significa que entrará no clube numa situação muito frágil. Demasiado frágil. 

Acresce que a direção de Frederico Varandas não deve encarar Silas como apenas mais um treinador. Depois do fracasso de Keizer enquanto treinador de projeto e da falta de competência demonstrada na construção deste plantel, ficou agora completamente exposta a incapacidade de recrutamento de um substituto com provas dadas e, consequentemente, a ausência de um plano B viável. Mais: a diversidade de nomes que surgiu na imprensa deixa entender que, mais do que andar à procura de um determinado perfil, a direção já só anda à procura de um treinador que… aceite o enorme desafio que lhe é proposto - o que não é nada bom sinal. Começam a ser fracassos a mais, e parece-me que Silas será a última oportunidade que esta estrutura de futebol terá para demonstrar que merece a responsabilidade que lhe foi atribuída. Se Varandas, Hugo Viana, Beto e departamentos de suporte não ajudarem Silas a transformar-se no treinador de que o Sporting precisa, esgotarão a tolerância dos poucos que ainda lhes dão o benefício da dúvida. 

Se contratarem Silas (ou outro treinador que seja), tratem-no desde o primeiro minuto como se fosse realmente a primeira opção. O pior que pode acontecer é parecer um treinador a prazo. No caso de Silas, falamos de um homem do futebol português, um homem de balneário, um homem com personalidade e convicções. É fulcral que a estrutura perceba exatamente as áreas em que o treinador precisa de aconselhamento e apoio, e quais as áreas em que não deve interferir – algo que, nitidamente, não correu nada bem com Keizer. 

Também ajudaria se a direção e estrutura tivessem a humildade de reconhecer publicamente alguns dos erros graves que cometeram, não só para percebermos que houve um diagnóstico do que correu mal e ações corretivas, mas também para que o novo treinador ganhe alguma folga junto dos adeptos. 

Que não haja ilusões: o futuro da estrutura (e muito provavelmente da direção) será igual ao futuro do próximo treinador. Para o melhor e para o pior.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Um ano de Varandas

Foto: Expresso
Cumpriu-se ontem um ano desde que a direção liderada por Frederico Varandas tomou posse. É justo reconhecer que a tarefa era, à partida, de uma tremenda dificuldade: encontrando um clube completamente fraturado, com graves problemas desportivos e financeiros por resolver e pouco ou nenhum tempo para o fazer, foi, provavelmente, a primeira direção que não teve direito a qualquer período de estado de graça, tendo sido fortemente e ruidosamente contestada desde o primeiro dia.

É, por isso, uma boa altura para se fazer um balanço do trabalho desenvolvido. Até que ponto as expetativas criadas e as promessa feitas foram cumpridas? Aqui fica a minha avaliação pessoal sobre o desempenho nas diferentes áreas (de 1 a 5 estrelas).


Títulos do futebol (****)

A finalidade de um clube como o Sporting é vencer e, considerando todos os constrangimentos conhecidos, é justo reconhecer que esta primeira época de Varandas superou as expetativas iniciais da maior parte dos sportinguistas no que aos títulos do futebol profissional diz respeito. 

É verdade que não jogámos de forma dominadora nos momentos decisivos da Taça de Portugal e da Taça da Liga, mas sempre ouvi dizer que as finais não são para se jogar... são para se ganhar. E mesmo tendo sido ambas conquistadas nos penáltis, convém lembrar que o percurso foi repleto de dificuldades: eliminámos o anfitrião nas meias-finais da Taça da Liga e o Porto na final, sendo obrigados a recorrer a Petrovic como central com o nariz partido; e eliminámos o Benfica nas meias-finais - com uma segunda mão de excelente nível - e o Porto na final, com erros graves de arbitragem (golo mal anulado ao Sporting na Luz e golo mal validado ao Porto) que, como é habitual, nos prejudicaram. 

A equipa foi sempre encarada como a menos favorita das quatro que chegaram às meias finais, mas prevaleceu. Contra tudo e contra todos. É, por isso, da mais elementar justiça que se reconheça mérito nas duas conquistas.


Gestão das modalidades (****) 

Apesar dos muitos rumores que circularam sobre o suposto fim do ecletismo do Sporting tal como o conhecíamos como consequência de um forte desinvestimento, a competitividade geral das equipas manteve-se. 

Houve, de facto, uma racionalização de certos gastos, mas, olhando individualmente para cada uma das equipas, não se reconhecem mais pontos fracos do que os que existiam em épocas anteriores: o futsal renovou-se (e bem) após uma época em que conquistou um título europeu inédito, Taça de Portugal e Supertaça, e ficou a milímetros de poder discutir o campeonato nos penáltis; o hóquei, depois da conquista europeia, fez ajustes pontuais e promete voltar a lutar por todas as competições; o andebol, após uma época em que apenas a participação na Liga dos Campeões se aproveitou, trouxe um treinador prestigiado a nível europeu e rejuvenesceu-se com jovens de grande potencial; o voleibol foi obrigado a mexidas ainda mais profundas do que é habitual por causa da mudança de casa para Lisboa, mas contratou um técnico brasileiro conceituado e vários jogadores de quem se espera muito; o basquetebol, regressado após um interregno de 24 anos, parece estar suficientemente equipado para dar luta aos habituais favoritos; a equipa de judo masculino sagrou-se campeã europeia. 

Ainda está por confirmar a continuidade ou término do acordo no ciclismo e existem dúvidas legítimas sobre o que se pretende para o atletismo, para algumas modalidades de combate e para o desporto adaptado. O tempo encarregar-se-á de as esclarecer, mas não me parecem fazer sentido as preocupações sobre o futuro do ecletismo no Sporting.


Filosofia na formação (****)

Ao contrário do que vinha sendo habitual, existe este ano uma preocupação em expor os jogadores da formação a contextos de maior exigência competitiva. Os sub-23 estão carregados de jogadores de 18 ou menos anos, a equipa de juniores é composta, quase na totalidade, por juniores de 1º ano e juvenis, e assim sucessivamente. Isso poderá implicar resultados iniciais menos positivos nos vários escalões, mas trará frutos importantes a longo prazo.

Importante também a preocupação com a recuperação da equipa B, a renovação das condições da Academia e a aposta no Polo EUL. São objetivos que demorarão o seu tempo a serem cumpridos, mas que são imprescindíveis para dotar o clube de condições de topo para o desenvolvimento dos seus jovens jogadores.


Contratações (***)

A necessidade de reforçar a equipa em muitas posições e as limitações de tesouraria têm levado a que o perfil das contratações seja quase exclusivamente de jogadores com potencial para serem desenvolvidos e valorizados com tempo, de montante médio ou baixo. A única exceção à regra foi Vietto (jogador feito e em que os 50% dos direitos económicos adquiridos foram avaliados em 7,5M), mas, como se sabe, veio no pacote do acordo por Gelson para abater o valor da dívida do Atlético e não correspondeu a qualquer saída real de dinheiro dos cofres de Alvalade.

Genericamente, os jogadores contratados têm sido úteis e correspondido ou superado as expetativas, mas ainda nenhum se revelou um golpe espetacular de mercado. Há, no entanto, que dar tempo ao tempo. E ajudaria se o treinador desse oportunidades a alguns deles.


Treinadores (**) 

Varandas despediu Peseiro no momento certo. E também despediu Keizer no momento certo - depois do que conquistou, não podia deixar de dar ao holandês a pré-época que lhe faltou na temporada passada. Mas, apesar de Varandas ter dito que Keizer cumpriu os objetivos, o facto é que a sua escolha só pode ser considerada um fracasso, porque na altura nos foi vendido pelo presidente como um treinador de projeto.

Keizer acabou por se transformar na antítese daquilo que prometia ao início: um treinador medroso e aborrecido, amarrado nos equívocos que foi criando e alimentando, e que ignorou (ou não compreendeu) o contexto que o rodeava tanto ao nível das expetativas internas como da forma de pensar dos adeptos.

Será desta que Varandas conseguirá contratar o treinador de que o clube precisa? Os sinais não são animadores: o facto de não ter delimitado de forma clara o prazo de Leonel Pontes - um treinador que, até agora, não tem absolutamente nada que o recomende como o homem certo para o lugar - deixa entender que tem mais dúvidas do que certezas em relação à forma como resolver esta importantíssima questão. 


Planeamento da época (**)

Sobre isto, recorro ao que escrevi recentemente aqui: LINK.


Futebol feminino (**)

Apesar de o futebol feminino estar a conhecer um período de desenvolvimento inédito de visibilidade a nível mundial, a importância dada por esta direção segue em sentido contrário. Indecisões a nível diretivo, excessiva tolerância para com o paupérrimo futebol de Nuno Cristóvão, pouca ou nenhuma reação ao fortíssimo investimento do Benfica, e zero preocupações em promover o futebol feminino junto dos sócios sportinguistas - como se pode avaliar pela ausência de qualquer jogo disputado em Alvalade.

Em vez de se desenvolver, o futebol feminino do Sporting tem definhado... e isso não parece preocupar minimamente os atuais responsáveis do clube.


Finanças (**)

Até ver, não há nada de particularmente positivo ou negativo que se possa dizer da gestão das finanças do clube: melhor ou pior, a racionalização dos custos com o plantel foi concretizada - o apertar de cinto era imperativo -, o que contribui para reduzir a necessidade de vendas futuras e normalizar a situação de tesouraria; o empréstimo obrigacionista ficou perto - mas abaixo - do objetivo mínimo, sendo certo que a detenção de Bruno de Carvalho na véspera do primeiro dia da fase de subscrição não terá ajudado em nada o cumprimento da meta estabelecida; e continua a não haver fumo branco em relação à reestruturação financeira e à recompra das VMOC's. 

O reequilíbrio da tesouraria foi alcançado, sobretudo, à custa da antecipação de receitas do contrato dos direitos televisivos e dos acordos com os clubes que contrataram os jogadores que rescindiram. Ou seja, não houve qualquer demonstração inequívoca de competência, mas também é justo dizer que se tentou evitar ao máximo ir pelos caminhos mais fáceis (e menos desejáveis) para ultrapassar as dificuldades imediatas. Por exemplo, teria sido muito mais fácil para esta direção antecipar 100 milhões em vez de 65 - evitaria muitas dores de cabeça e problemas de curto prazo, mas a médio/longo prazo a situação ficaria mais negra.


Comunicação (**)

Depois de cinco anos em que a comunicação social esteve em guerra aberta com o Sporting (o contrário também é válido), são visíveis os resultados do esforço de sedução que esta direção tem feito junto de jornais e televisões. 

É fácil perceber que agora existe uma capacidade muito superior de colocar temas, narrativas e informações na ordem do dia. No entanto, parece-me que este bom relacionamento é mais conjuntural do que estrutural - apenas existe porque os atuais donos disto tudo não veem o Sporting como uma oposição real. Não é preciso ser-se adivinho para prever que, no dia em que o Sporting começar a incomodar, os mesmos comentadores que hoje defendem Varandas com unhas e dentes se transformarão em seus detratores e não terão quaisquer problemas em escarafunchar toda e qualquer polémica com a mesma desonestidade intelectual que demonstraram no passado.

Ainda assim, é inequivocamente um progresso. Infelizmente, não se tem observado o mesmo nível de progresso na comunicação direta com os sócios e adeptos. Se é verdade que se eliminou muito do ruído que antes existia, também se pode dizer que acabámos por cair no extremo oposto. A comunicação tem sido pobre, escassa, pouco clara e com timings inadequados. 

O presidente tem feito progressos no discurso, mas continua longe de ser um comunicador eficaz. De Hugo Viana, raramente se ouve uma palavra. A Sporting TV parece-se cada vez mais um canal generalista que enfia transmissões de jogos nos espaços livres, com meios técnicos indignos do século XXI e uma qualidade de comentários a cair a pique. As redes sociais não compreendem o seu público e cometem gaffes constantes. O jornal acumula decisões editoriais incompreensíveis e brinda-nos semanalmente com um par de espaços de propaganda ainda mais descarada do que é habitual neste tipo de meios. E até na comunicação com a CMVM se cometeu a proeza de escrever mal o nome de Keizer por duas vezes seguidas - um pormenor com pouca importância mas que é sintomática do desleixo que parece existir.


O Sporting e o ambiente que o rodeia (*) 

Uma das promessas de Varandas era que os interesses do Sporting seriam defendidos de forma intransigente. Um ano depois, essa afirmação parece manifestamente exagerada.

O Sporting não impõe qualquer respeito junto dos adversários e das instituições que gerem o desporto em Portugal. Não se compreende por que razão o clube não recorreu da decisão do e-toupeira - mesmo não tendo efeitos práticos, era importante dar o sinal de que o clube não aceitava a decisão da instrução -, não se compreende por que razão não colocamos o caso Bruma na FIFA, não se compreende a forma ingénua como se abordou a questão relacionada com Pedro Henriques, não se compreende a quase completa ausência de críticas às péssimas arbitragens de que temos sido alvo, não se compreende a falta de reação aos favoritismos do Secretário de Estado do Desporto, e por aí fora.

Esta postura não é de clube civilizado, é de clube manso. Num ecossistema populado maioritariamente por mafiosos e chicos espertos, é meio caminho andado para que os outros façam de nós tudo o que quiserem.


Unir o Sporting (*)

O lema de campanha de Frederico Varandas devia ser uma bandeira desta direção. Infelizmente, não tem havido vertente menos cuidada do que esta, prejudicada, em boa parte, por ser clara a vontade de alguns elementos dos órgão sociais em dar sequência a perseguições que em nada beneficiam o clube. Une-se o Sporting trabalhando para o futuro em vez de se procurar fazer ajustes de contas com o passado.

Apesar de perceber que não se pode ignorar o passado nas análises feitas à situação atual, creio que têm sido excessivas as referências e comparações com a gestão anterior - e que são feitas apenas nas partes que convêm, claro. Também não ajudaram as tiradas populistas feitas em campanha. O candidato Varandas disse que, caso fosse presidente, Bruno de Carvalho não seria expulso de sócio. A promessa não deveria ter sido feita porque não depende do órgão que dirige, mas, se tivesse sido sincero, o presidente Varandas poderia ter feito uma declaração nesse sentido em vésperas da AG de expulsão do seu antecessor. Une-se o Sporting canalizando as energias para combater as pessoas que querem mal ao clube, e gastando apenas o tempo estritamente necessário em querelas internas. Se o anterior presidente tivesse percebido isso, provavelmente ainda estaria hoje no poder.

Sou o primeiro a reconhecer que a união depende da vontade dos diferentes lados da barricada e que existem sócios que não têm qualquer vontade de ceder no quer que seja, mas as iniciativas de reconciliação terão sempre de partir de quem dirige o clube - de forma coerente e persistente. Falo em coerência, porque seria bom que o rigor que tem havido no julgamento dos antigos dirigentes se aplicasse também à análise dos erros próprios: continuamos à espera que sejam encontrados e punidos os responsáveis pelos gravíssimos leaks das auditorias feitas à gestão de Bruno de Carvalho. Une-se o Sporting analisando-se as questões em função dos supremos interesses do clube, e não em função dos responsáveis pelas desgraças que nos acontecem.

Não é preciso ser-se um génio para perceber o que se deve ou não fazer para unir o Sporting. Infelizmente, há pessoas na atual direção que revelam imensas dificuldades em compreender o óbvio.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Balanço do fecho de mercado

Os últimos dias de mercado - e em particular as últimas horas - foram de enorme agitação em Alvalade. Dost, Raphinha e Thierry foram vendidos, Bruno Gaspar e Diaby foram emprestados, Jefferson, Wallyson e André Pinto rescindiram, fechou-se um acordo por Podence com o Olympiacos, e Jesé, Fernando e Bolasie chegaram por empréstimo. O sucesso do conjunto das movimentações só poderá ser avaliado depois de vermos o contributo que os reforços darão em oposição à falta que se sentirá dos atletas vendidos ou emprestados. No entanto, o balanço preliminar que faço é claramente negativo. Foi um mercado horrível, fruto de um planeamento rotundamente falhado e de uma completa falta de capacidade de reação da SAD para encontrar alternativas atempadas e que seguissem uma estratégia coerente.


Planeamento pelo cano

Toda a gente percebeu qual era a ideia da SAD para este mercado: reforçar determinadas posições com parte do dinheiro de uma super transferência de Bruno Fernandes. Inicialmente falava-se numa venda após o final da Taça, depois adiou-se para o final da Liga das Nações, e, semana após semana, a indefinição do futuro do médio foi-se prolongando. O que é facto é que, apesar do badalado interesse de diversos tubarões europeus, ninguém atingiu os 70 milhões pretendidos pelo Sporting. Não critico Varandas por não ter cedido nas exigências - o que não se diria caso aceitasse um valor mais baixo... -, mas devia ter havido outra capacidade na exploração de cenários alternativos antes do arranque da época oficial.

Sejam compreensíveis ou não as dificuldades na execução desse plano, o que é facto é que a SAD falhou por completo, resultando esse fracasso em semanas de intranquilidade - com destaque para a novela Dost - já com a época oficial a decorrer a todo o vapor, com vários jogadores titulares a serem dados como negociáveis até ao fim da janela de transferências. Os últimos dias, em particular, passaram a imagem de uma SAD descontrolada e desesperada.


Lacunas agravadas ou por resolver

Varandas disse que já existiam jogadores em carteira para serem contratados após as saídas previstas. Mas não foi isso que observámos: apesar de o anúncio de acordo com o Eintracht por Dost ter sido feito há mais de 15 dias, só ontem foram anunciados reforços. Mas o pior é que, dos três jogadores contratados, nenhum é ponta-de-lança de raiz. Isto significa que vamos atacar a época com UM ponta-de-lança - Luiz Phellype, que tem as limitações que se conhecem. Em caso de necessidade, Vietto poderá desenrascar, Jesé poderá desenrascar, Bolasie poderá desenrascar, mas não se conseguem épocas de sucesso com desenrascanços na posição mais importante do futebol.

No que toca a extremos, saíram Raphinha e Diaby e entraram Bolasie, Jesé e Fernando. Ou seja, a experiência média aumenta, mas à custa de dois jogadores - Bolasie e Jesé - que vêm de várias épocas em que pouco ou nada tem rendido. Ambos os jogadores são considerados flops pelos adeptos dos seus clubes, mas convém sempre esperar para perceber o que poderão valer no contexto competitivo português. Fernando não conseguiu espaço no Shakthar de Luís Castro, o que também não é propriamente um bom sinal. Fica por demonstrar, portanto, se a questão dos extremos ficou efetivamente bem resolvida. Teremos de esperar para os ver em competição.

Quanto a médios defensivos... nem vê-los.


Estratégia? Que estratégia?

Por motivos diversos, o recurso a jogadores emprestados devia ser uma exceção à regra. Não os podemos valorizar para uma futura venda e há o risco real de se sentirem acomodados face ao downgrade para uma liga periférica como a portuguesa. No entanto, só neste último dia chegaram três jogadores por empréstimo: Jesé (PSG), Fernando (Shakthar) e Bolasie (Everton). 

Pior: não consigo entender como é que Fernando, jogador de 20 anos com apenas 20 jogos disputados como sénior, vem para o Sporting sem opção de compra. Considerando a sua inexperiência, dificilmente terá um impacto positivo imediato na equipa. É mais um, à semelhança de Camacho e Plata, que terá de ser desenvolvido com paciência. No entanto, ao contrário de Camacho e Plata, estaremos a valorizar um ativo que não é nem será nosso. Fala-se que o Sporting terá assegurado o direito de preferência sobre futuras propostas de outros clubes - ou seja, terá o direito de igualar a proposta -, mas dependerá sempre da vontade do jogador. Ou seja, é uma garantia que pouco ou nada vale. Que sentido é que isto faz?

Em contrapartida, o PSG anunciou que o Sporting tem uma opção de compra sobre Jesé. Algo que dificilmente poderemos acionar porque nunca haverá capacidade para pagar por inteiro o salário que o PSG paga ao espanhol. E sim, estou a assumir que o PSG vai suportar a maior parte do salário de Jesé durante esta temporada - se não fosse assim, não valia a pena despachar Dost como se despachou. O mesmo se aplica a Bolasie, que também deverá auferir um salário elevado. Fico à espera de esclarecimentos da SAD sobre quem suporta os salários dos jogadores emprestados.


As saídas

Os 21 milhões da venda de Raphinha são uma verba bastante aceitável, considerando que o extremo brasileiro ainda não tinha conseguido atingir uma consistência exibicional satisfatória. Com Bolasie, Jesé e Fernando aumentam as alternativas em quantidade, resta saber como será em relação à sua qualidade.

Os 12 milhões da venda de Thierry são um montante... surpreendente. Quem tenha visto os jogos desta época com um mínimo de atenção, facilmente se apercebe de que Therry está muito longe do nível necessário para ser o lateral titular a curto prazo. Ou seja, perderia esse estatuto assim que Rosier ou Ristovski voltassem a estar aptos para jogar. O problema deste negócio é que é uma venda para o Valência, por verbas típicas de carrossel... pelo que o mais provável é que existam ou existirão outras contrapartidas. Não acredito que o Sporting alguma vez venha a receber a totalidade deste dinheiro.

Diaby foi transferido por empréstimo para a Turquia, ficando o Besiktas com opção de compra por 5 milhões. Como tal, o mais provável é que daqui a nove meses o maliano esteja de volta.