sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

O clube democrata que impõe um especialista de arbitragem a um jornal

Quem não viu, tem de ver: o programa Verde no Branco de ontem é absolutamente imperdível. Contou com a participação de Bruno de Carvalho, Nuno Saraiva, Carlos Reis, e também de José Ribeiro, ex-jornalista do Record que foi recentemente contratado pelo Sporting. O programa foi dedicado quase exclusivamente à Comunicação Social, e foram feitas várias revelações que todos os sportinguistas devem ter conhecimento, para perceberem até que ponto é doentia a promiscuidade entre o Benfica e certos jornalistas, jornais e televisões.

Nos próximos dias hei-de dedicar mais alguns posts sobre algumas das revelações que foram feitas ontem. Para já, começo por pegar numa história que confirma mais uma daquelas teorias da conspiração de que os maluquinhos dos sportinguistas são pródigos.

Aqui fica o vídeo.


Resumindo: atualmente, as análises aos casos de arbitragem do Record são feitas por Marco Ferreira e Jorge Faustino. Jorge Faustino, que já era comentador de arbitragem da TVI, foi imposto pelo Benfica ao Record para que Marco Ferreira - que, como é sabido, deve o final de carreira ao Benfica - não analisasse os lances sozinhos. O Benfica queria ter "um dos seus" a comentar casos de arbitragem, e conseguiu mesmo ter "um dos seus". José Ribeiro disse também que Marco Ferreira tinha sido contratado para evitar que se repetissem casos de jornalistas a inventarem erros de arbitragem para que o Benfica liderasse (ou se reduzisse a diferença para o Sporting, que a liderava) na sua Liga da Verdade (uma classificação alternativa que o Record vai fazendo com as correções dos pontos a mais ou a menos que cada equipa tem por causa de erros de arbitragem).

O exemplo que José Ribeiro deu foi do Estoril - Sporting de 2015/16. Juro que, ainda antes de José Ribeiro dar o exemplo desse jogo, me tinha lembrado precisamente desse caso. Quem fez essa análise de arbitragem foi Nuno Farinha, que conseguiu ver dois penáltis não assinalados contra o Sporting que mais ninguém viu: uma mão de Aquilani (que tinha o braço imóvel e colado ao corpo) e uma falta de Coates por agarrão a um adversário, quando, na realidade, o adversário tinha o braço engachado no braço de Coates. Na altura, escrevi um post sobre isso, que podem ver aqui: LINK.


Assim, uma vitória de 2-1 do Sporting passou a valer 0 pontos na Liga da Verdade do Record. 

Surreal e nojento, por dois motivos distintos. O primeiro é mais uma demonstração do trabalho a que o Benfica se dá para manipular tudo o que direta ou indiretamente lhe diga respeito. O segundo é constatar que um jornal que nos últimos dias tem rasgado as vestes perante o apelo de Bruno de Carvalho para que os sportinguistas não comprem jornais, afinal, permite que o Benfica lhe imponha um especialista de arbitragem para os seus quadros. Mas afinal quem é que aqui anda a alimentar ditaduras?

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Hoje é dia de velório na SIC

(obrigado, Miguel Martins!)



Sporting Clube de Pyongyang e Bruno de Carvalho, o pequeno ditador




Na passada quarta-feira, o jornal Público apontou as baterias para o discurso de Bruno de Carvalho no encerramento da última assembleia geral. Como se pode ver, os termos não foram nada meigos: em dois espaços de opinião, Bruno de Carvalho e o Sporting foram comparados ao regime nortecoreano, à Alemanha nazi, à Itália de Mussolini, à Santa Inquisição e à IURD. O presidente do Sporting, em particular, foi acusado, de forma bastante colorida - com recurso a analogias que referem alguns dos piores episódios da história da humanidade -, de querer controlar o pensamento dos sportinguistas e de punir sem piedade todos aqueles que não seguirem as instruções dadas.

Estas comparações são a parte mais insultuosa para Bruno de Carvalho e para a instituição Sporting - e, por inerência, a muitos dos seus sócios e adeptos. Mas eu, sócio que esteve presente na AG e que votou a favor dos três pontos em apreciação, sinto-me também insultado pelos atestados de estupidez que me foram passados pelo diretor David Dinis e pelo colunista João Miguel Tavares. Os trechos a que me refiro são:
"O presidente de um clube que pôs 90% dos associados numa assembleia geral a aceitar dar-lhe plenos poderes de julgamento, sem que algum deles saiba sob que critério serão utilizados."
"É certo (...) que apenas seis mil sportinguistas subscreveram as suas posições em assembleia geral (falta ainda escutar a opinião de 99,82% dos adeptos)"

Mais valia terem-me chamado carneiro e ignorante. Pelo menos poupavam algumas linhas de texto.

Sou apoiante de Bruno de Carvalho, mas o meu apoio não é, nunca foi, nem nunca será incondicional. Sei avaliar a qualidade do trabalho que tem sido feito por si e pela direção - quer o bom, quer o mau -, e consigo identificar virtudes e defeitos importantes na sua personalidade. Votei a favor dos três pontos em função das expectativas que tenho do uso que será dado aos poderes que estou a dar aos órgãos sociais com o meu voto - expectativas essas que se baseiam em cinco anos de acompanhamento muito próximo do trabalho e das decisões tomadas ao longo destes cinco anos. Na realidade, expectativas bastante melhor formadas do que aquelas em que o cidadão comum se baseia quando, por exemplo, se desloca às mesas de voto para umas eleições legislativas - não só não sabe que deputado está a eleger, como sabe muito pouco do Governo que poderá ser formado com a contribuição do seu voto. Sabe quem é o candidato a primeiro-ministro e conhece, de forma relativamente vaga, os pontos principais do programa de governo que foi proposto. E também nunca vi um Governo perder ou ganhar legitimidade em função do nível de abstenção registado. Para a realidade das AG's de clubes, esta foi bastante concorrida, pelo que não faz qualquer sentido que se questione a legitimidade das decisões tomadas por não terem estado presentes 99,82% dos adeptos. Aliás, nem faz sentido que, neste contexto, se fale em adeptos. Só os sócios podem votar.

Existe sempre uma certa dose de incerteza em qualquer eleição ou processo de escolha. Neste caso, os últimos cinco anos dão-me uma segurança razoável de que não haverá abuso de poder. Apesar de já existirem meios para punir sócios, apesar de o presidente ser um homem que nunca foi poupado no momento de apontar o dedo perante críticas que lhe façam, apenas dois - Godinho Lopes e Paulo Pereira Cristóvão - foram expulsos desde que Bruno de Carvalho assumiu o cargo de presidente - e nenhum dos casos foi por delito de opinião. A meu ver, até é um número que peca por escasso. Não desejo nem acredito que algum sócio venha a ser expulso por criticar - ou até injuriar - a atual direção, pois é uma punição que deve ser reservada para quem causa grandes danos ao clube ou comete atos de traição. Portanto, os poderes existentes têm sido utilizados com bom senso, e, respondendo a David Dinis, tenho boas razões para acreditar que será isso que se continuará a verificar.

Sabem a expressão "os entendedores entenderão"? Pois bem, os entendedores - aqueles que, gostando mais ou menos do homem, percebem a perseguição de que o Sporting tem sido alvo por parte da generalidade da comunicação social desportiva - entenderam o que Bruno de Carvalho queria dizer. 

Interpretar o discurso de Bruno de Carvalho como uma espécie de manifesto fascista com o propósito final de controlar informação, opiniões e ações dos associados e adeptos é um enorme exagero que apenas denuncia, na realidade, quem faz essa acusação. Só mesmo quem se deixa cegar pelo estilo de Bruno de Carvalho é que pode afirmar de forma peremptória algo que, na realidade, é impossível de pôr em prática. Como é que Bruno de Carvalho pode monitorizar os canais de televisão que uma pessoa vê em sua casa? Ou os jornais que o adepto compra quando passa por um quiosque? Ou as estações de rádio que o sócio ouve no carro? Ou os links em que todos eles carregam quando estão em frente a um computador? Em primeira, segunda, terceira e última análise, a decisão cabe única e exclusivamente a cada um dos indivíduos, sem coações de qualquer espécie. E, acima de tudo, Bruno de Carvalho não está a fazer qualquer imposição aos órgãos de comunicação social - outra característica dos regimes ditatoriais -, que poderão continuar a escrever e dizer tudo o que quiserem em total liberdade. Sujeitam-se é que os sportinguistas, usufruindo dessa mesma liberdade, não consumam o seu produto caso persistam em manter a sua falta de isenção e total desonestidade intelectual.

Não sei se David Dinis ou João Miguel Tavares são católicos praticantes, mas deviam olhar para o apelo de Bruno de Carvalho com maior benevolência do que as imposições que a Igreja Católica faz ao, por exemplo, proibir o uso de meios anticoncecionais. Sendo católicos, como aceitam isso? Seguem à risca? Ou permitem-se tomar algumas liberdades extra-doutrinárias em função das suas crenças pessoais? Seja uma ou outra a escolha, também acusam a Igreja de ser uma instituição fascista?

Não faz qualquer sentido, pois não?

Bruno de Carvalho apelou, não ordenou. Há alguma coisa de errado em sugerir aos sportinguistas que deixem de consumir o lixo diário que as televisões e os jornais emitem, como programas de paineleiros, programas de informação pseudo-independente que contam com a participação de vários cartilheiros, colunas de opinião de jornalistas desonestos que estão a soldo dos interesses de certos clubes? Pelo contrário, fez muito bem em fazê-lo. A carteira e a sanidade mental de muitos sportinguistas agradecem. 

Perante a constatação de que nada do que foi feito até agora tem travado a perseguição da comunicação social ao clube, sugeriu que os sportinguistas os atingissem no seu ponto mais sensível - o seu bolso. Aliás, a imediata e enérgica reação corporativista da classe dos jornalistas e dos órgãos de comunicação social - que sempre se mantiveram calados perante o atropelo diário do código deontológico de muitos dos seus membros - demonstra a enorme preocupação que a sugestão de Bruno de Carvalho lhes causou. Percebe-se facilmente o motivo: o mercado encolhe ano após ano face ao aumento sistemático de opções de consumo, e não é nada conveniente que percam nova fatia significativa das vendas ou audiências.

Em última análise, a carga insultuosa que pode ser observada nos artigos de opinião de David Dinis e João Miguel Tavares ajudam a perceber que, se calhar, Bruno de Carvalho tem mesmo razão: por muito radical que tenha sido a sua proposta de boicote, fica abaixo dos níveis de radicalismo que são dirigidos contra o Sporting numa base diária.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Só para aqueles que verdadeiramente amam o futebol

Não sei como é que esta jogada não correu mundo. Que grande momento de futebol das pérolas do Seixal que foi partilhado pelas redes sociais do Benfica. Isto é material para Luís Freitas Lobo dissertar de forma poética. William, Gelson e Podence, roam-se de inveja.


Os pagamentos indiretos do Benfica via escritórios de advogados

As notícias que têm saído ao longo dos últimos meses sobre as suspeitas de corrupção que recaem sobre o Benfica têm referido que o Ministério Público desconfia que o clube recorre a escritórios de advogados para servirem de intermediários no pagamento de favores ilícitos, sob o pretexto de prestação de serviços jurídicos.



Como é que funciona este esquema na teoria? Se a entidade B quer entregar uma soma avultada ao fulano A, não o faz diretamente. A entidade B pede ao escritório de advogados E que entregue uma determinada verba ao fulano A - o método escolhido pode variar em função da atividade de pessoas de confiança de A (ex.: se A tiver um irmão que é dono de uma empresa de brindes, o escritório E faz uma compra fictícia de brindes e entrega o dinheiro a A através do irmão), e, mais tarde, o escritório de advogados E passa uma fatura de serviços jurídicos à entidade B.

Desta forma, fica tudo devidamente declarado - a entidade B pode justificar o gasto nas suas contas, e o fulano A facilmente arranja forma de justificar o dinheiro que lhe chegou às mãos -, sem que haja nenhuma ligação direta entre a entidade B e o fulano A.

Os emails divulgados demonstram que, efetivamente, o Benfica utiliza escritórios de advogados como intermediários para fazer pagamentos aos quais não quer ficar associado. O caso concreto de que vou falar não é um caso necessariamente ilícito, mas eticamente é bastante questionável.


O "assunto" delicado

A partir deste momento, vou abordar um tema que já foi referido por outros blogues, mas acrescento-lhe alguns elementos que ainda não tinham sido divulgados.

No dia 9 de setembro de 2010, Paulo Gonçalves recebeu um email do advogado José Luís Seixas, do escritório Correia, Seara, Caldas e Associados, com o assunto "No Name Boys". Esse email não é mais do que o reencaminhamento de uma mensagem de um outro advogado, chamado Nuno Areias, pertencente a um outro escritório - neste caso João Nabais e Associados.


Não é referido no email qual é o "assunto" delicado referente aos No Name Boys, mas esta notícia (LINK) pode lançar uma luz sobre o que se trata:


Alguns meses antes (a notícia é de maio de 2010), o advogado Nuno Areias representara membros dos No Name Boys num julgamento por tráfico de droga. Considerando a intenção de avançar para recurso que se pode ler no último parágrafo da notícia, é bastante possível que, à data do email enviado a Paulo Gonçalves, Nuno Areias fosse ainda advogado desses membros da claque benfiquista.


A "ponte"

No dia seguinte, ou seja, a 10 de setembro de 2010, Paulo Gonçalves envia um email a Miguel Moreira e a Domingos Soares de Oliveira, onde se fica a saber qual a natureza do pedido de Nuno Areias:


Em causa estava o pagamento do Benfica à João Nabais & Associados de um determinado valor pela defesa dos membros dos No Name Boys. Não estamos, no entanto, a falar da despesa total - pois, como se pode ver no email, o mesmo procedimento já tinha sido levado a cabo pelo menos uma vez, na primeira fase do processo judicial.

E qual o procedimento? O Benfica paga à Correia, Seara, Caldas e Associados que, por sua vez, paga à João Nabais & Associados. Conforme se pode ler, José Luís Seixas serve apenas como "ponte" entre o Benfica e a empresa de advogados que fazia a defesa dos elementos da claque.


A fatura e o serviço

Conforme tinha referido, Paulo Gonçalves envia novo email imediatamente a seguir com a tal "justificação do valor em causa".


No email está um anexo que tinha sido enviado por José Luís Seixas em julho desse ano. O anexo é um documento com duas páginas:




Isto é uma fatura de 18.600€ passada pela João Nabais & Associados à Correia, Seara, Caldas e Associados, presumivelmente referente à defesa prestada pela primeira empresa aos membros dos No Name Boys. O resto do esquema é fácil de perceber: a CSCA paga à João Nabais os 18.600€ e depois passa fatura ao Benfica para receber esses mesmos 18.600€. Desta forma, o Benfica terá - alegadamente, tudo o que está aqui é alegadamente - pago a defesa dos membros dos No Name Boys num caso de tráfico de droga - volto a referir que estes 18.600€ correspondem apenas a uma tranche - sem que fique registado qualquer envolvimento direto do clube no processo.

Mas o mais delicioso nisto tudo é a designação do serviço prestado pela João Nabais & Associados: parecer sobre o regime fiscal e penal dos pagamentos em sociedades localizadas em países terceiros relativos a transferências de jogadores de futebol.

Entre os ficheiros do Benfica colocados na internet está o SAF-T da época de 2010/11, onde se pode comprovar que a CSCA faturou os 18.600€ ao Benfica e que o Benfica procedeu ao pagamento dessa quantia.



A tranche de março

No dia 17 de março de 2010, Paulo Gonçalves recebe um email de José Luís Seixas sobre o mesmo tema.


É fácil perceber que o que está a ser combinado entre José Luís Seixas e Nuno Areias é a natureza do serviço que será espetado na fatura que, desta vez, era do valor de 12.000€ (10.000€ + IVA). O pretexto, desta vez, foi um "parecer sobre o regime jurídico de prevenção da violência no desporto e a organização do espectáculo desportivo."





Para que não restem dúvidas que também aqui se fala do julgamento dos membros dos No Name Boys...



O recurso

Dois meses mais tarde, em novembro, Paulo Gonçalves dá sequência aos emails de setembro perguntando a José Luís Seixas (a "ponte" com Nuno Areias) qual o ponto de situação do recurso.


É legítimo presumir, perante isto, que o Benfica também terá - alegadamente, once again - pago as despesas do recurso dos dois membros dos No Name Boys condenados por tráfico de droga em primeira instância.


Cronologia (inclui mails que não coloquei aqui por serem redundantes)

17 de março de 2010: é combinado o pagamento de uma tranche de 12.000€
22 de março de 2010: é emitida a primeira fatura da João Nabais & Associados à CSCA
8 de abril de 2010: Nuno Areias pergunta se rececionaram a fatura e pede o seu pagamento
29 de maio de 2010: fim do julgamento com a condenação dos três representados de Nuno Areias
1 de junho de 2010: Nuno Areias diz que necessita de um reforço de 10.000€
1 de julho de 2010: Nuno Areias diz que 10.000€ é insuficiente e aumenta o valor para 18.600€ 
18 de agosto de 2010: Nuno Areias volta a pedir o pagamento
9 de setembro de 2010: Nuno Areias reforça o pedido de pagamento
10 de setembro de 2010: Paulo Gonçalves dá ordem de pagamento
15 de novembro de 2010: Paulo Gonçalves pergunta o ponto de situação do recurso

Concluindo: o Benfica terá - alegadamente, alegadamente, alegadamente - pago pelo menos 30.600€ pela defesa dos membros dos No Name Boys por tráfico de droga utilizando um escritório de advogados como intermediário. Não é de espantar, portanto, que o Ministério Público suspeite que o esquema seja utilizado para facilitar a obtenção de outro tipo de... serviços.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Sindicato falhado

Excelente texto de José Diogo Quintela para o Correio da Manhã:


Há duas formas de um Presidente condicionar a informação que chega aos adeptos. Uma é dizer para não a lerem. Outra é pagar a jornalistas para a manipular – entre outras fraudes ainda por noticiar, já que o tal Presidente processa quem se atrever a investigar os mails, vulgo fazer jornalismo. O Sindicato dos Jornalistas insurge-se contra a primeira forma. São gostos.

O SJ diz que Bruno de Carvalho convive mal com a liberdade de imprensa. No que diz respeito à imprensa desportiva é uma suspeita impossível de provar: é como um pastor queixar-se o seu cão se dá mal com os seus unicórnios. ‘Imprensa desportiva livre’ é um oximoro ao nível de ‘sarrabulho vegan’.


Mood



Vitória hardcore

Começa a ser uma ciência: quando o Sporting ganha à tangente, pode-se aferir a importância da vitória e o nível da azia dos rivais pelo tempo que o presidente do clube adversário passa na sala de imprensa após o final da partida. Nesse sentido, considerando que defrontávamos uma espécie de Benfica C (sendo que o Braga é o Benfica B e o Benfica B é o Benfica D), o jogo de ontem não poderia ter terminado de forma mais apropriada para testar a teoria acima exposta. Golo marcado nos descontos dos descontos dos descontos que deu direito a um presidente na sala de imprensa a mostrar fotos de mazelas de jogadores em lances perfeitamente limpos e a barafustar com a compensação de tempo demasiado esticada por João Capela (aqui com alguma razão, admita-se). Sendo esse presidente um benfiquista assumido que tem o condão de contagiar esse benfiquismo aos treinadores e jogadores que lidera sempre que a sua equipa defronta um grande - principalmente quando o adversário é o Benfica - é fácil compreender a sua a frustração - não tanto pelo ponto perdido - que não lhe deverá fazer particular falta, considerando que o objetivo da manutenção está bem encaminhado -, mas sobretudo pela mala que voou e pela impossibilidade de um certo rival do seu adversário poder assumir o segundo lugar isolado na classificação. Há dias assim.

Foto: Vítor Parente / Kapta+ (zerozero.pt)



Até ao fim - as circunstâncias eram bastante desfavoráveis: havia o desgaste acumulado durante a semana com duas viagens intercontinentais e uma partida exigente, e, para piorar, um dos poucos jogadores poupados a esse esforço foi expulso, deixando a equipa em desvantagem numérica durante meia-hora. Jesus preferiu não mexer na equipa e colocou William como central improvisado. Como seria de esperar, o Sporting não foi capaz de fazer um final de partida tão esclarecido como seria desejável, mas nem por isso deixou de criar ocasiões para marcar. Foi um daqueles jogos ganhos com o coração, graças à superação de esforço de todos os que estavam em campo. Vitória hardcore, mas inteiramente merecida.

A importância de ter Dost - marcou mais um golo que foi só encostar, correspondendo a um magnífico cruzamento de Acuña, mas o holandês teve participação decisiva na construção da jogada, fazendo a ligação com Bruno Fernandes (que depois faria o passe para Acuña) com um precioso toque em habilidade. Não marcou o segundo golo, mas também teve um papel fundamental na jogada ao servir Doumbia com um toque de cabeça em esforço. Ricardo Costa antecipar-se-ia ao costamarfinense desviando a bola para o poste, e Coates faria o resto. O regresso de Dost não podia ter corrido de melhor forma.

A resposta ao golo do Tondela - boa reação da equipa, que aumentou a velocidade de execução e a pressão sobre o adversário, encostando o Tondela às cordas. O golo de Dost surgiu com naturalidade, e a equipa poderia ter perfeitamente chegado ao intervalo em vantagem.



Equipa hardcore - Pepa prometeu e a sua equipa não o desiludiu. A partir do momento em que o Sporting começou a mandar no jogo, o Tondela entrou em modo castanhada e conseguiu superar largamente a média que faz deles a equipa mais faltosa da liga. 24 faltas, algumas delas bastante duras e que não nem sempre foram punidas em conformidade, que ajudará a subir a média de 18 faltas que tinham até esta jornada. Curiosamente, Pepa ainda não explicou em que ilha deserta ficou perdida a equipa hardcore no dia do jogo contra o Benfica, partida que apenas cometeram... 8 faltas. Uma equipa pouco séria, que tem por hábito ser das mais duras do campeonato, mas que estende a passadeira quando o adversário ao Benfica. A rábula do presidente do Tondela após o final do jogo foi a cereja no topo do bolo. Se há uma equipa que merece perder desta forma hardcore, o Tondela é seguramente uma delas.

(via @paravertudo)



A arbitragem - João Capela fez uma excelente arbitragem... até ao tempo de descontos da primeira parte. Deu apenas um minuto adicional (quando houve uma assistência que, sozinha, durou quase dois minutos) e nem deixou marcar um canto conquistado antes desse minuto adicional se ter esgotado. A segunda parte foi muito fraca, com erros para os dois lados. O mais falado é, obviamente, a extensão do tempo de descontos da segunda parte, que foi exagerado (apesar de não tão exagerado como se diz por aí, pois houve imensas paragens após os 90'). Mas, por outro lado, os quatro minutos de descontos, numa segunda parte que teve muitas paragens e substituições, foram compensação demasiado curta. Mathieu foi bem expulso, mas Pedro Nuno devia ter visto também ordem de expulsão - segundos antes tinha simulado uma falta sem ver amarelo, e a varridela a Rúben Ribeiro foi alaranjada. Pareceu-me haver um penálti por assinalar sobre Coates aos 73', mas infelizmente o VAR não fez a revisão desse lance. O amarelo a Murillo por simulação não faz sentido: apesar de não ter havido penálti, o desequilíbrio é natural face à pressão que estava a sofrer de ambos os lados. Coates devia ter visto amarelo por tirar a camisola nos festejos. Arbitragem obviamente negativa, mas não tão inclinada quanto os Benfica Press's da vida quererão fazer crer.

A expulsão de Mathieu - segundo amarelo bem visto, numa asneira pouco compreensível num jogador tão experiente. Esteve muito perto de comprometer decisivamente a conquista dos três pontos.



Nota artística: 4 até à expulsão, 3 no geral.

MVP: Bas Dost



Vitória hardcore, obtida no final de um tempo de descontos hardcore, contra uma equipa que prometia ser hardcore e foi efetivamente hardcore. Curiosamente, foi uma espécie de reedição do jogo de estreia do Tondela na I Liga, em casa emprestada... contra o Sporting, que também terminou em 2-1, com o golo da vitória a surgir aos 98'. Três pontos absolutamente fundamentais.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Dez perguntas para jornalistas

1. Acham normal que o diretor de um jornal tenha três artigos publicados no espaço de pouco mais de um mês com opiniões diametralmente opostas sobre o VAR? Mais concretamente, conseguem explicar-me o texto de 29 de abril? (Retirado daqui: LINK + LINK)



2. Acham normal que o jornal A Bola aceite publicar entrevistas a Vieira em que, na realidade, as respostas já tinham sido escritas por António Galamba e entregues previamente, e em que o encontro com do diretor adjunto, José Manuel Delgado, com o presidente do Benfica se limitou a ser uma sessão fotográfica para fazer crer que as respostas foram dadas pelo próprio naquele momento? 


3. Acham normal que um assalariado do Benfica com o pelouro da propaganda sugira a Vieira que se corrompa jornalistas para obter informações e espalhar as suas "notícias"? E que, após ter feito tal proposta, se mantenha ao serviço desse clube?




4. Acham normal que existam (ou tenham existido durante anos a fio) comentadores apresentados como isentos em programas de televisão ou rádio, como Rui Pedro Braz, José Manuel Freitas ou José Nunes, que recebem propaganda de Carlos Janela numa base regular?

5. Acham normal que o Benfica se sinta no direito de definir aquilo que pode ou não ser noticiado pela Comunicação Social?


6. Acham normal que jornalistas insultem regularmente o presidente do Sporting e mintam sobre a realidade do clube?



7. Acham normal que um jornalista tenha gravado e publicado uma conversa em off com o presidente do Sporting?

8. Acham normal que jornalistas analisem acontecimentos semelhantes de forma totalmente distinta, apenas em função do clube que está em causa?


9. Acham normal a disparidade de cobertura que se dá a dossiers problemáticos para o Sporting e para o Benfica, independentemente da gravidade ou relevância dos mesmos? Alguns exemplos (e poderia arranjar muitos mais): Football Leaks sobre o Sporting vs Emails do Benfica; tentativas de agressão a jornalistas em Alvalade ou na Luz; situação de Zé Turbo vs situação de Romário Baldé; o destaque dado ao caso de associação criminosa de Paulo Pereira Cristóvão vs caso de tráfico de droga do Zé do Benfica ou à morte de Marco Ficcini em 2017; os espaços de opinião regulares dados à oposição a Bruno de Carvalho em relação à oposição de Vieira.

Reações à AG do Sporting: apenas uma das pessoas abordadas representa os 90% de sócios que votaram a favor da atual direção, contra quatro ligadas à oposição, que valeu 10%.

Há muito que não era dirigente do Sporting, o caso nada tem a ver com desporto... por que razão foi capa?


10. Acham normal que o Sindicato dos Jornalistas nunca se tenha pronunciado sobre nenhum um dos casos descritos acima?

Estes são apenas alguns de muitos exemplos da forma diferenciada (para pior) como a imprensa trata o Sporting diariamente. Se conhecerem jornalistas, peço-vos que lhes coloquem estas questões. Estou curioso para saber as respostas.


Como não compreender Bruno de Carvalho?

Novo texto do 3295C.



Já se conheceram alguns movimentos espontâneos de pequenos, médios, grandes, gigantes até, grupos de pessoas a boicotarem produtos. Pelas mais variadas razões. Bruno de Carvalho é Presidente do Sporting e, por inerência do cargo, o maior responsável pelo símbolo – que em linguagem comercial se poderá designar por marca – que todos adoramos. Que todos idolatramos. Não é por acaso que dizemos que só nos curvamos para o beijar.

No discurso final da reunião magna, o Presidente do Conselho Directivo do Clube admitiu que se poderia resguardar mais e concentrar-se em assuntos de maior relevo no dia que os Sócios deixassem de comprar jornais desportivos e parassem de ver televisão nacional. Riu-se ao ter que recordar a excepção ao canal verde e branco.

O Presidente do Sporting, em tempo algum, se referiu a jornalistas. O desafio, radical como alguns já lhe chamaram, foi um claro apelo ao boicote. Simples. Na qualidade de principal responsável da marca, considerou que em momentos de radicalismos, soluções radicais só podem ser a resposta. Deve-se conversar com as partes com as quais estamos em confronto? Sim, num futuro em que haja respeito à instituição Sporting Clube de Portugal e ao seu Presidente. E jamais se coloque em causa a expressão confronto. É disso mesmo que se trata. Seremos sempre nós contra eles e vice-versa.

Compreende-se Bruno de Carvalho, com o ‘basta’ ao seu estilo, alertando para que a situação não pode, realmente, ficar como está. Atente-se no singelo mas seguro exemplo em baixo.


Quarta jornada da Liga dos Campeões. O Sporting acabava de empatar em casa com a Juventus, somava o sétimo ponto – num grupo que já se sabe com quem – e o rival sofria a quarta derrota, com um golo marcado e 14 sofridos (já agora, os nossos leões tinham oito marcados e nove sofridos – num grupo que… ). O pormenor da diferença dos títulos.

Compreende-se Bruno de Carvalho quando se tenta ver um programa de televisão sobre futebol (não desporto, atenção) e ouve-se o que se ouve sobre o Clube e o Presidente. Que ainda deu autorização para que se publiquem todos os emails do Sporting a que, pelos vistos, tiveram acesso. Depois de se sujeitar à vontade de 25,1 por cento dos associados, um ano depois de ter 86,13 por cento dos votos para a reeleição.

Compreende-se Bruno de Carvalho. Como não compreender? O Sporting conquistou o primeiro título internacional numa modalidade paralímpica colectiva em Portugal. Quantos jornais deram, sequer a notícia? Quantos canais de televisão? No dia em que o Sporting conquistou dois títulos europeus em atletismo, o foco pareceu estranhamente estar na final do Super Bowl. Ou nos anúncios. Foram dois títulos europeus de atletismo, masculino e feminino, que em Alvalade leva-se a igualdade de género muito a sério. Modalidade que já deu medalhas de ouro olímpicas a Portugal. A primeira também foi nossa. Ainda há quem se ria quando nos apresentamos como a maior potência desportiva nacional.

As reacções de alguns associados, mais intempestivas, à saída da reunião magna são lamentáveis. Naturalmente. Agressões fazem perder a razão. Até porque não são os jornalistas – os que vão ao terreno –, são os jornais. E a televisão. É por ela ser foleira.


Não se conta o que se passou na Assembleia Geral porque o que acontece em casa, só aos que lá vivem diz respeito. Já basta quem, mesmo depois dos reiterados pedidos do Presidente da Mesa da Assembleia Geral, não consegue resistir a tirar fotos e a filmar. Diga-se em abono dos mesmos, que não se sabe por que quiseram fazê-lo. Podem não ter enviado a quem quer que fosse e tivesse sido só mesmo para ficarem com uma recordação. É o que dá ter um pavilhão giro e fotogénico, ainda por cima cheio! Mas quem lá esteve, percebeu. 90% de 5.380 sócios não é a Coreia do Norte porque só a comparação é tão estúpida como todos aqueles que a referem. Os tais "chavões" que passam um atestado de ignorância a quem exprimiu o seu desejo em voto e de falso paternalismo ao Presidente do Sporting Clube de Portugal. É tão vergonhoso para quem profere tais falhadas tentativas metafóricas como penoso para os Sportinguistas terem de as suportar. Todos pensam pela sua cabeça e ninguém está inebriado ou hipnotizado. Estão apenas satisfeitos e orgulhosos pela forma como os dirigentes defendem o Clube, algo que realmente este emblema não tem estado muito habituado na sua história recente. Como não compreender Bruno de Carvalho?