Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Serpa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vítor Serpa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Fantasy journalism

As fantasy leagues (ou ligas virtuais) são um fenómeno cada vez mais popular entre os adeptos de vários desportos. O formato mais normal neste tipo de passatempos é bastante simples: cada pessoa dirige uma equipa e tem um orçamento para a formar, escolhendo um conjunto de jogadores que, ao longo da época, lhe irão dando pontos em função do seu rendimento nos jogos reais. O critério de escolha que cada pessoa segue costuma andar à volta das suas preferências pessoais (normalmente todos fazemos questão em incluir alguns jogadores da nossa equipa preferida) e da perceção dos pontos que cada jogador poderá dar ao longo da competição. Tudo isto, sempre dentro das limitações que os orçamentos impõem - nunca ninguém fica com todos os jogadores que escolheria caso não existisse qualquer restrição.

No jornalismo desportivo, e em particular no que diz respeito aos editoriais da nossa imprensa escrita, passa-se um fenómeno semelhante: quando escrevem, muitos diretores/subdiretores/adjuntos parecem limitados por determinados critérios à boa maneira das fantasy leagues, e não abordam todos os temas que deviam merecer a sua atenção - preferindo restringir-se a um sub-universo da realidade que coincide com os assuntos que não colocam em causa as suas crenças pessoais. Tudo aquilo que for demasiado delicado, é como se não existisse. É uma espécie de fantasy journalism à portuguesa.

Vem isto a propósito dos editoriais que Vítor Serpa e Nuno Farinha escreveram ontem n' A Bola e Record, no dia seguinte ao rebentamento do caso Piriquito:



Duas abordagens diferentes. Serpa foi direto ao tema do momento, mas, de forma relativamente habilidosa, dirigiu-o para onde mais lhe interessava: que os emails poderão não servir de prova; que os emails envolvem figuras menores e figuras mais representativas da administração; e que os responsáveis pelas ações condenáveis são gente pouco recomendável com quem a administração do Benfica não devia conviver nem deixar agir em seu nome.

Tudo isto é um enorme understatement. Primeiro, os emails poderão não servir de prova... mas também podem servir. Neste momento isso é irrelevante para a análise que deveria ser feita à atualidade. Segundo, o caso não envolve apenas figuras menores (suponho que se refira a Pedro Guerra) e figuras mais representativas da administração (suponho que se refira a Paulo Gonçalves): já mete administradores, como Domingos Soares Oliveira, e o próprio presidente Luís Filipe Vieira. Terceiro, a gente pouco recomendável a que Serpa alude é, quer queira, quer não, gente colocada pelas altas patentes do Benfica, de forma inteiramente consciente, para fazer precisamente o tipo de tarefas que os emails revelaram. Isso faz com que a administração e presidente sejam tão pouco recomendáveis como os indivíduos que contrataram para agir em seu nome.

Mas olhar para o editorial de Nuno Farinha é um exercício ainda mais fantasioso. Farinha não só ignora por completo a questão Piriquito e os emails que a levantaram, como tem a distinta lata de falar na redução da suspensão de Nuno Saraiva e do juiz que é adepto do Sporting e daqueles que usa cachecol e publica fotos no Facebook. No dia seguinte à demissão de um membro do Conselho Fiscal da FPF e do anúncio da federação de que vai entregar o caso à PJ, Nuno Farinha acordou repentinamente para o fenómeno do papel dos diretores de comunicação. Para piorar, usa como exemplo benfiquista um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância da Luz - repito, no dia em que rebentou o caso Piriquito e em que houve uma exigência de demissão do Benfica de um juiz que nada fez de errado, Farinha escolheu dar como exemplo um esclarecimento sobre uma falha no sistema de videovigilância. Carlos Janela, ao ler tais argumentos, deve ter aproveitado para tirar notas para distribuir pela sua lista de contactos. Isto é o fantasy journalism elevado ao seu mais alto expoente.

A abordagem habilidosa de um e a abordagem descarada de outro têm, no entanto, uma coisa em comum: nenhum dos dois jornalistas aproveitou o seu espaço de opinião - que tanta vez é usado como local de critica cerrada ao Sporting e, em especial, a Bruno de Carvalho - para aquilo que, neste caso, seria o ponto essencial da análise ao que se passou no dia anterior: repudiar, de forma clara, as ações de Horácio Piriquito e do clube que dá guarida a Pedro Guerra. 

Para pessoas que se dizem tão preocupadas com o futebol português, é estranho que não o tenham feito. Infelizmente, já todos percebemos que as regras do fantasy journalism não são as mesmas que se usam no jornalismo sério.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Serpa, o escudeiro da santíssima trindade do futebol português

A parcialidade com que Vítor Serpa analisa os acontecimentos do futebol português não é novidade para ninguém. A linha editorial d' A Bola está muito bem definida de há bastantes anos para cá: infelizmente para o jornal, não assentam numa postura de isenção e equidistância. Os exemplos que este e outros blogues têm mostrado são mais que muitos. Pegando em exemplos recentes, basta ver a forma como A Bola ignorou o caso dos emails durante meses a fio. Se houvesse alguém que não consumisse notícias sobre futebol a partir de outras fontes, não faria ideia de que tal polémica tinha rebentado até ao dia em que a PJ finalmente bateu à porta do estádio do Benfica e da residência de alguns dos seus dirigentes, colaboradores a recibos verdes e meninos queridos.

Basicamente, A Bola limitou-se a seguir - de forma que não duvido ter sido concertada - a estratégia definida pelo Benfica para reagir aos emails: manterem-se em silêncio - estratégia, reconheça-se, mais sábia do que tentar defender o indefensável a todo o custo. Aliás, basta ver as trapalhadas em que se viu metido o único protagonista do Apito Abençoado que não se pôde remeter ao silêncio em virtude do seu biscate das segundas à noite: quando a crise rebentou, Pedro Guerra reagiu dizendo que não se lembrava de ter recebido tais emails; neste momento, não só se lembra dos emails, como até já reconheceu que até falou várias vezes ao telemóvel com Adão Mendes. Sentir de perto a respiração de inspetores da PJ deve fazer maravilhas à memória.

Numa altura em que é impossível ignorar o escândalo dos emails e as profundas implicações que isso tem para o que se passou nos últimos anos no futebol português, acho magnífico como é que nenhum dos pesos pesados do jornal A Bola ainda não encontrou tempo para se pronunciar de forma detalhada sobre todo este fenómeno. Uma atitude que não surpreende, face ao vergonhoso alinhamento que têm com o clube do atual regime, e que é indigno da profissão que exercem.

Igualmente indigna tem sido a postura do presidente da FPF, que parece viver numa realidade paralela. Fernando Gomes manteve-se calado que nem um rato perante os dois acontecimentos mais graves do futebol português nos últimos anos - o assassinato de Marco Ficini e o escândalo dos emails -, e tem preferido tentar, ao invés, colocar o centro da discussão no bate-boca dos dirigentes. Este posicionamento de Fernando Gomes é um escândalo, e é óbvio que só o Benfica pode ficar satisfeito com isso.

Daí que não surpreenda que Vítor Serpa tenha produzido mais um artigo inenarrável, desta vez a sair em defesa de Fernando Gomes e tentando colocar o Sporting e o Porto como os maus da fita do futebol português.


Ao mesmo tempo em que defende acerrimamente a agenda de Fernando Gomes, o diretor do jornal A Bola aproveita a oportunidade para fazer mais um ataque cerrado ao presidente do Sporting - que, como sabemos, é para Serpa o símbolo da geração rasca do dirigismo desportivo. 

É impossível, também, não reparar em dois pormenores no discurso serpiano:

  • a falta de huevos para fazer críticas diretas a Pinto da Costa - como se o presidente do Porto não tivesse nada a ver com o ataque que o Porto tem feito ao Benfica;
  • a patética tentativa de colar o escândalo dos emails a algumas figuras menores da arbitragem e uns quantos benfiquistas marginais, como se o círculo de poder de Vieira (Paulo Gonçalves, Domingos Soares Oliveira e o próprio presidente) não estivesse enfiado neste lamaçal até ao pescoço, e como se Ferreira Nunes e os presidente e presidente da AG da Liga não fossem personagens com cargos muito relevantes no edifício do futebol nacional.

Serpa não é mais do que um lacaio da tríade que controla o futebol português: está sempre pronto a defender o Benfica, como todos sabemos; não perde oportunidade para elogiar o presidente da FPF, por muito inundado de sonsice que esteja o seu discurso - como este texto bem demonstra; e também, se houver necessidade disso, terá postura idêntica com Jorge Mendes - há quem diga que Serpa fez um discurso emocionado, num briefing que a FPF organizou para os órgãos de comunicação social em vésperas da partida da seleção para o Euro 2016, em que apelou à contenção de notícias sobre os recém-descobertos problemas fiscais em que Mendes estava metido, como se de uma espécie de desígnio nacional se tratasse.

Benfica, FPF e Mendes são uma espécie de santíssima trindade do futebol português, que se protege mutuamente com todos os meios que tem ao seu dispor. A promiscuidade entre Benfica e Mendes é mais que evidente. O entendimento entre Mendes e a FPF é mais discreto, mas existe - ao que se diz, também a FPF fez pressão junto dos jornalistas para não darem relevo aos problemas que o empresário arranjou com a lei em Espanha. E também salta a vista a recusa da FPF em agir contra o Benfica em situações gritantes como o das claques ilegais, o caso dos emails ou dos vouchers, ou mesmo a impunidade a que assistimos nos relvados quando o Benfica está em campo.

Como se pode facilmente avaliar pelo texto acima, Serpa é apenas uma ferramenta ao serviço da única Santa Aliança do futebol português.

sábado, 26 de agosto de 2017

Há uma geração rasca no nosso futebol

Na passada quinta-feira, Nuno Saraiva revelou a existência de uma troca de mensagens entre Bruno de Carvalho e Vítor Serpa, que, segundo o diretor de comunicação do Sporting, terá estado na origem do ataque cerrado que o jornal A Bola fez ao presidente do clube.










Que não haja quaisquer dúvidas: o jornal A Bola fez um ataque cerrado a Bruno de Carvalho, usando, como pretexto, a recente suspensão do presidente leonino. Basicamente, a linha editorial do jornal iniciou uma campanha de limpeza do futebol português, apelando a penas exemplares para punir comportamentos considerados incorretos ou ofensivos - como se isso fosse um fenómeno recém-chegado ao futebol português.

Recapitulando: o jornal deu, com naturalidade, destaque de capa à suspensão de Bruno de Carvalho e Carlos Pinho no dia seguinte à suspensão:


Até aqui, tudo normal. Mas, no dia seguinte, o jornal voltou à carga, com um destaque desmesurado e embrulhado no tom mais sensacionalista possível. TODA A VERDADE.


Nesse mesmo dia, José Manuel Delgado dedicou o seu editorial a este caso, pedindo, de forma genérica, penas duras a quem caia neste tipo de comportamentos.

Delgado termina dizendo que a justiça não pode olhar a cores... Hipocrisia máxima de alguém que nunca se revolta quando os comportamentos incorretos partem de representantes de uma determinada cor. Ainda estou à espera pela sua condenação à promiscuidade existente entre dirigentes do Benfica e árbitros e delegados da Liga, por exemplo.

Mas no dia seguinte, Vítor Serpa conseguiu subir a fasquia: dedicou meia página do seu espaço de opinião de sábado à geração rasca do futebol português. O visado, como todos sabemos, era uma pessoa em particular. A fotografia escolhida não deixa margem para dúvidas.


Reparem que em ambos os espaços de opinião, os jornalistas não referem a existência de qualquer atenuante ao comportamento de Bruno de Carvalho. O presidente do Sporting estava em sua casa e foi provocado de forma totalmente inesperada e agressiva por Carlos Pinho, e, aparentemente, estava obrigado a dar a outra face enquanto o presidente do Arouca dizia e fazia o que queria.

Destaco também aquilo que Serpa escreveu na coluna mais à direita: "Haverá certamente quem defenda que a linguagem do desporto de competição (...) é uma linguagem crua, desprovida de preocupações éticas e sociais. Mas não é a mesma coisa a linguagem de cabina (...) e a linguagem em zona pública (...)". Fiquem com isto guardado na memória, porque será útil daqui a pouco.

Curiosamente, não foi preciso esperar muito para assistir a uma situação de comportamento incorreto por parte de uma figura do futebol português: Jorge Sousa, no passado domingo, abusou da sua posição para se dirigir de forma inapropriada e intimidatória a um jogador do Sporting B.

Considerando que o jornal A Bola se posicionara, apenas dois dias antes, na vanguarda da luta contra este tipo de ações - socialmente perigosas, para usar as palavras de Serpa -, seria de esperar que aproveitassem o caso de Jorge Sousa para enfatizar a sua posição sobre o assunto. Mas, olhando para as edições do jornal A Bola desta semana, Vítor Serpa, que tão enfático foi ao criticar Bruno de Carvalho no dia anterior ao momento infeliz de Jorge Sousa, conseguiu ignorar olimpicamente as palavras do árbitro nos dois editoriais que assinou esta semana.

Justiça seja feita a José Manuel Delgado, que abordou o tema no seu editorial de quarta-feita. Obviamente que, por uma questão de coerência, esperar-se-ia que o subdiretor do jornal A Bola desse continuidade à política de 'Dura lex sed lex' que defendeu para Bruno de Carvalho, e defendesse também uma pena exemplar para Jorge Sousa. No entanto, aquilo que escreveu foi isto:


Atenuantes, neste caso, parecem existir aos molhos, começando pela inovadora teoria de que Jorge Sousa também foi vítima por ter tido o azar de haver um microfone que apanhou as suas palavras em direto. Isto é magnífico: se seguirmos esta linha de raciocínio, qualquer criminoso pode alegar ser vítima se for tramado por qualquer prova obtida através de um meio inesperado, como uma filmagem de telemóvel de um traseunte ou uma câmara de controlo de trânsito. Tivesse cometido o crime noutro local e não se teria tramado, pelo que, para José Manuel Delgado, seria tanto vítima como vilão.

De notar também que, no caso de Jorge Sousa, a cultura existente no futebol é uma atenuante. Serpa, referindo-se a Bruno de Carvalho, condena a "linguagem crua" por ter sido proferida num local público. Delgado não quer saber se o "Põe-te na p**a da baliza, pá" foi dito no recato da cabine ou num local público. Neste caso, a linguagem usada já é uma coisa que deve ser encarada com naturalidade. A culpa é do microfone da Sport TV.

De relembrar que todas as opiniões colocadas atrás foram escritas pelos diretores do mesmo jornal no espaço de menos de uma semana.

Tenho que concordar com Serpa numa coisa: há uma geração rasca no nosso futebol, mas não é a de Bruno de Carvalho, que chegou, figurativamente falando, há um par de dias a esta indústria. Há uma outra geração - que já anda nisto há várias décadas - que foi, essa sim, a principal responsável pelo lodaçal em que se transformou o futebol português. A geração que criou os quinhentinhos e o café com leite, a geração que ordenou os padres e adotou meninos queridos, a geração que arrasou a credibilidade do jornalismo desportivo, reduzindo-o a pouco mais que folhetins de propaganda oficiosa de certos clubes, a geração que se recusa a investigar o que tem de ser investigado, a geração que tudo faz para manter o status quo, mesmo que esteja esse status quo esteja assente num conjunto de perversidades que deveriam fazer corar de vergonha qualquer pessoa com a espinha no lugar.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

O videoárbitro e as colunas a estalar ao ritmo da inevitabilidade


Ao longo dos últimos meses, têm sido várias as federações e ligas a anunciar a adoção do videoárbitro para as respetivas competições nacionais. Hoje, ficámos a saber que a FPF decidiu acompanhar a tendência e anunciou que a liga portuguesa terá videoárbitro em todos já a partir da próxima época.


Mesmo que inevitável, é, obviamente, uma mudança que se saúda. Não haverá muito tempo para a preparar (estamos a apenas três meses dessa meta), mas creio que é um esforço que se justifica plenamente, mesmo que, numa primeira fase, exista a típica turbulência dos sistemas recém-implementados. Há que dar tempo de corrigir e aperfeiçoar aqueles problemas que apenas a experiência no terreno acaba por expor.

É gratificante, para quem, ao longo dos últimos anos, defendeu o videoárbitro como uma forma de ajudar a reduzir o erro (e não a eliminá-lo), ver, por fim, um acordo generalizado sobre os benefícios que o novo sistema poderá trazer e a existência de vontade para o implementar.

Igualmente gratificante (in a twisted kind of way) é assistir à forma como estão a reagir a todas estas notícias aqueles que, ao longo dos últimos dois anos, foram os maiores detratores do sistema. Agora que a mudança é inevitável, parecem dispostos a dar-lhe uma oportunidade.

Veja-se o exemplo de Vítor Serpa, que no espaço de 30 dias conseguiu dizer uma coisa e o seu contrário (LINK). Há pouco mais de um mês, apelava à implementação do videoárbitro, com especial urgência nas competições portuguesas. No sábado passado, escreveu um artigo sarcástico sobre os malefícios que a implementação do videoárbitro teria nas competições portuguesas. Hoje, pelos vistos, temos o Serpa-entusiasta de volta.

(editorial cortado, coloquei apenas a parte final - o resto não é relevante para este tema)

Relembro que no sábado passado, ou seja, há apenas 5 (cinco) dias, Serpa escreveu isto:


Sinceramente, alguém chame um exorcista para ver que demónio possuiu Serpa no sábado passado e que o levou a assinar este artigo.

Outra figura do jornalismo português que parece rendida à implementação do videoárbitro é o subdiretor do Record, Nuno Farinha, que, no seu espaço de opinião de hoje, faz uma reflexão muito equilibrada (sem ironia) sobre os desafios que se apresentam e os potenciais benefícios.


Uma evolução muito positiva que se assinala em alguém que, há menos de seis meses, escrevia coisas sobre o videoárbitro como: "condenado ao fracasso", "não resolverá nenhum dos problemas que sempre existiram na arbitragem" e "o melhor é mesmo partir para outra".


P.S.: Curiosamente, nesse mesmo dia, outra ilustre figura do comentário futebolístico nacional apresentava, no site do mesmo jornal, uma opinião quase totalmente coincidente à de Nuno Farinha.


É engraçado ver como determinados pontos-chave de ambos os textos são idênticos: Fracasso, colocando a natureza/genética do jogo em causa, não resolverá nada, e a única tecnologia que pode ser aplicável é o sensor da linha de golo. Se por acaso Janela fosse o responsável pelas cartilhas do Benfica, é possível que pessoas mais maldosas viessem falar em concertações de discurso.

terça-feira, 2 de maio de 2017

As opiniões de Dr. Serpa e Mr. Vítor sobre o videoárbitro

Ao longo dos últimos meses, têm sido vários os organismos do futebol europeu e mundial a anunciar a adoção do videoárbitro pelas competições que tutelam. A FIFA já confirmou o recurso à tecnologia no mundial da Rússia, as ligas alemã, italiana e holandesa anunciaram a sua utilização a partir da próxima época, enquanto a liga inglesa planeia fazê-lo em 2018/19. Em Espanha existem desentendimentos entre a Liga e a Federação (a primeira quer implemantá-la o quanto antes, a segunda pede calma), o que dificilmente permitirá que o VAR (Video Assistant Referee) seja uma realidade já na próxima época. Em Portugal, diz-se que existe uma luta de poder entre a Liga e a FPF para ver quem consegue impor o seu modelo e as suas pessoas à gestão do videoárbitro. Como é costume por cá, o bem do futebol é colocado acima de tudo.

Independentemente disso, a implementação do VAR é uma inevitabilidade que obrigou muito boa gente a engolir sapos do tamanho das certezas que tinham em como isso seria mau para o futebol e não viria a acontecer num futuro próximo.

Ainda assim, há um conjunto de resistentes que continua a tentar encontrar no VAR tantos problemas quanto possível, num sinal evidente de dificuldades extremas em lidar com a futura realidade. Um desses resistentes parece ser o diretor do jornal A Bola, Vítor Serpa, que, no passado sábado encheu meia página com um texto carregado de sarcasmo e preocupação pelo impacto que o VAR terá no futebol tal como o conhecemos:


Vamos por partes. 


"Os clubes pequenos vão ficar totalmente desprotegidos"

A preocupação de Serpa está centrada nos clubes pequenos, que, na sua opinião, ficarão totalmente desprotegidos por existirem tantos lances a acontecer na sua grande área. Em primeiro lugar, é interessante ver que longe vão os tempos da narrativa de que os três grandes são sempre mais beneficiados do que os clubes pequenos. Se assim fosse, e partindo do princípio que o videoárbitro permitirá acabar com alguns tipos de erro, então a conclusão lógica a tirar seria que os clubes grandes deixarão de ser tão beneficiados face aos clubes mais pequenos e, por inerência, os clubes mais pequenos deixarão de ser tão prejudicados face aos grandes.

Mas Serpa prefere ignorar a imagem global e focar-se num determinado tipo de lance em específico: os agarrões na área. É uma falsa questão. Em primeiro lugar porque sendo natural que, numa primeira fase, existam algumas indefinições em relação ao tipo de contacto físico que será punido, o International Board não deixará de ir atualizando as recomendações dadas a quem tem de decidir. Em segundo lugar porque se esse tipo de contacto físico passar efetivamente a ser punido por indicações do International Board, o natural é que os jogadores das equipas pequenas (e grandes) se comecem a proteger não fazendo determinados tipos de ações na área - à imagem de outras adaptações que os defesas tiveram que fazer no passado - como colocar as mãos atrás das costas quando estão perante um cruzamento ou remate iminente.

O futebol, como em todas as mudanças profundas que aconteceram na sua história, encontrará forma de se adaptar. É tudo uma questão de tempo.


"A vitória dos comentadores encartados, contra os adeptos apaixonados"

Serpa recupera o discurso de que passará a haver um futebol menos genuíno e apaixonante por causa do videoárbitro. Mas haverá maior obstáculo à genuinidade e paixão do futebol do que situações em que os erros dos árbitros se sobrepõem à ação dos jogadores na determinação dos resultados finais?

E achar que Portugal é um caso específico só revela as vistas curtas de quem pensa que o futebol português é assim tão diferente dos restantes futebóis. Há particularidades no nosso futebol, evidentemente, mas não há quaisquer motivos lógicos para se pensar que o VAR terá um impacto negativo apenas em Portugal. Vendo bem, se calhar não é uma questão de vistas curtas: talvez seja apenas uma questão de desconforto em encarar o inevitável por parte de quem se sente tão aconchegado com a situação atual.


"Anda por aí muita gente eufórica..."

Mas a verdadeira gema desta prosa é mesmo a forma como Serpa carrega as suas palavras de sarcasmo para alvejar aqueles que defendem a implementação do videoárbitro. Expressões como "Anda para aí muita gente eufórica", "por mérito de um incorruptível videoárbitro", "a euforia de que vou dando conta, neste pagode chinês e seus derivados, pela aproximação da entrada em funções de um árbitro-robot" são tentativas óbvias de amesquinhar aqueles que, por cá, sempre viram benefícios nesta mudança. Uma demonstração de prepotência e cepticismo que não ficam bem ao diretor do jornal A Bola, quanto mais não seja porque, menos de um mês antes, o próprio Vítor Serpa escreveu isto sobre a implementação do videoárbitro...


No dia 30 de março de 2017, Vítor Serpa pedia a rápida implementação do videoárbitro, com especial urgência no caso português. Trinta dias depois, regressa ao tema dizendo que os efeitos do videoárbitro poderão ser nocivos face às particularidades do futebol português, para além de parecer invadido por uma série de questões filosóficas de segunda ordem. 

Como explicar tamanha inversão de opiniões no espaço de 30 dias? Estaremos perante uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, versão futebolito português? Gostava de saber qual terá sido o soro que o Dr. Serpa ingeriu para se transformar em Mr. Vítor... confesso que não sei se é do tipo cartilhoso ou do espirituoso.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Rescaldo das eleições, série #Bardamerda. Nº 4: José Manuel Delgado e Vìtor Serpa

Uma das mais gratificantes conclusões que podemos retirar do resultado das eleições do Sporting tem a ver com a (falta de) capacidade evidenciada por certos atores, externos ao clube, em influenciar o desfecho das votações. Não foi por falta de tentativa, no entanto. Foram vários os jornais e televisões que fizeram tudo o que estava ao seu alcance para influenciar o voto dos sportinguistas em favor da lista de Madeira Rodrigues - ou, para ser mais rigoroso, numa lista que não fosse a de Bruno de Carvalho -, fosse através de notícias cirurgicamente inexatas, de comentários tendenciosos, ou pelo anormal tempo de antena colocado à disposição de qualquer notável predisposto a criticar o presidente do Sporting.

Um desses órgãos de comunicação social foi A Bola, em particular através dos espaços de opinião dos seus principais responsáveis: Vítor Serpa e José Manuel Delgado, quais marretas sentados no alto do seu camarote - não sei se a analogia aos marretas é mais adequada pelo facto de criticarem sistematicamente Bruno de Carvalho, ou se pelo facto de serem bonecos que abrem e fecham a boca ao ritmo da mão escondida que os comanda. Deles, quando o assunto é o presidente do Sporting, só se esperam opiniões pouco abonatórias. Se Bruno Carvalho decide virar à esquerda, Delgado diz que devia ter virado à direita. Se Bruno de Carvalho decide seguir em frente, Serpa diz que devia ter virado à esquerda. E se Bruno Carvalho opta por virar à direita, Fernando Guerra diz, sarcasticamente, que apenas virou à direita porque o Deus Luís Filipe Vieira já o fizera antes.

Um bom exemplo foi a reação ao debate destes veteranos jornalistas. Onde os sportinguistas viram um Pedro Madeira Rodrigues recorrendo frequentemente a ataques pessoais e raramente puxando de ideias alternativas para o futuro do Sporting, Delgado viu um candidato com um projeto. Onde os sportinguistas viram um Bruno de Carvalho em modo de contenção, por saber que tinha mais a perder do que a ganhar em ter uma postura agressiva para com o seu opositor, Delgado viu um candidato desconfortável. Onde os sportinguistas viram um programa de Madeira Rodrigues vazio e inviável, Delgado não conseguiu encontrar ponta de populismo. Para Delgado, Madeira Rodrigues "marcou muitos pontos" no debate. Nem imagino como teria sido o resultado das eleições se não tivesse marcado...

Apesar deste belo esforço de Delgado, Vítor Serpa sentiu-se na necessidade de, um par de dias mais tarde, reforçar as ideias do seu adjunto. Classificou os argumentos de Madeira Rodrigues como "trunfos sólidos e coerentes", considerou correta a atitude de prometer o despedimento de Jorge Jesus, proclamou-o como vencedor do debate e viu nisso um sinal de inegável crescimento enquanto candidato. E concluiu a sua análise sentenciando, de forma bastante arrojada, que Bruno de Carvalho, vencendo as eleições, passará a estar "muito mais vulnerável e muito mais frágil". Perante tal certeza de Vítor Serpa, será que valerá a pena que Bruno de Carvalho compareça na tomada de posse para o segundo mandato?



Passou-se uma semana, e os resultados das eleições foram os que sabemos - algo que estas duas personagens não imaginavam. A vitória de Bruno de Carvalho foi esmagadora, reduzindo a pó a argumentação do diretor do jornal A Bola. Depois de uma afluência recorde às urnas que proporcionou um resultado tão claro, só um completo alienado pode dizer que Bruno de Carvalho inicia o seu mandato numa posição de maior fragilidade. Maior responsabilidade, sim, mas falar em fragilidade, hoje, perante o que sucedeu, é absurdo.

A reação pós-eleitoral destes dois cavalheiros foi bastante mais discreta. Serpa não conseguiu dedicar ao assunto nem um cantinho da sua página de sábado. Na Quinta da Bola da semana passada, silêncio total. Apenas Delgado acabou por se debruçar sobre o desfecho das votações no seu espaço semanal - com uma azia indisfarçável. O resultado é um autêntico tratado de como distorcer a realidade:


Definitivamente, Delgado não aproveitou os resultados eleitorais para fazer uma auto-análise ao seu nível de conhecimento da vontade dos sportinguistas.

Trouxe estes exemplos para concluir o seguinte: Madeira Rodrigues não foi o único vencido das eleições do Sporting. Delgado e Serpa são excelentes representantes de uma certa fação da comunicação social desportiva que, tendo-se empenhado visivelmente na campanha anti-Bruno de Carvalho, acabou derrotada de forma ainda mais estrondosa do que o candidato da lista A.

Em primeiro lugar, porque ficou demonstrado que esta gente não tem a mínima capacidade (ou vontade) para entender a forma como os sportinguistas sentem e entendem a atualidade do clube.

Em segundo lugar, porque ficou demonstrado que os sócios do Sporting não ligam patavina ao que esta malta diz. Ao fim de anos e anos a servirem descaradamente de marionetas da propaganda benfiquista (ou portista, no caso de outros órgãos de comunicação social), destruiram por completo a sua credibilidade. Como consequência lógica dessa falta de credibilidade, os seus esforços para influenciar o resultado das eleições foram totalmente inócuos.

E isto, meus amigos, é para mim uma constatação quase tão saborosa como a enorme prova de vitalidade que o clube deu no dia 4 de março.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Os alertas de Vítor Serpa

Vítor Serpa, diretor do jornal A Bola, decidiu usar o editorial de quinta-feira para comentar a entrevista dada por Jorge Jesus à Sporting TV, no dia anterior, e que foi assunto de capa dessa edição.

No entanto, ao contrário do que seria de esperar, Vítor Serpa não centrou os seus comentários no conteúdo da entrevista. Não fez quaisquer considerações sobre o discurso do treinador, não mencionou as acusações feitas ao setor da arbitragem, nem sequer criticou a incapacidadade de Jesus em assumir erros próprios, que estão à vista de todos.

Para Serpa, a questão mais relevante da entrevista reside no facto de Jesus... ter dado a entrevista à Sporting TV.


Compreendo parcialmente o ponto de vista de Vítor Serpa. Quando um profissional de um clube dá uma entrevista a um órgão de comunicação do próprio clube, é evidente que se reduzem significativamente as probabilidades de serem feitas perguntas realmente incómodas. A partir do momento em que existem restrições destas, é legítimo que se diga que a entrevista tem menos interesse do que teria caso fosse conduzida por jornalistas totalmente independentes.

No entanto, conforme referi no início do parágrafo anterior, Serpa apenas tem razão parcial naquilo que escreve. O que não faltam por aí são exemplos de entrevistas realizadas por órgãos de comunicação social (em teoria) independentes que, apesar desse estatuto, parecem revelar idêntica aversão a perguntas incómodas. 

Como não referir, por exemplo, as entrevistas de ano novo que o próprio jornal A Bola faz, por intermédio do seu diretor adjunto, José Manuel Delgado, a Luís Filipe Vieira? Falamos de entrevistas que mais parecem conversas amenas entre dois amigos de longa data, em que o jornalista se limita a lançar temas previamente combinados, sem qualquer contraditório, nem interesse em dar sequência a respostas que não esclarecem nada nem ninguém.

Ou então, podemos também recordar a longuíssima entrevista que a TVI fez ao mesmo Luís Filipe Vieira, dividida em duas partes: a primeira, conduzida por José Alberto Carvalho, em que foi óbvia a falta de preparação do entrevistador - com a atenuante de o futebol não ser a sua área; e a segunda, que foi conduzida por adeptos / antigos atletas do Benfica - Pedro Ribeiro, Domingos Amaral e Diamantino.

Não me recordo de ver o diretor do jornal A Bola mostrar-se incomodado por Luís Filipe Vieira escolher interlocutores tão tenrinhos quando decide sair da sua zona de conforto (BTV).

Mas as palavras de Serpa ganham contornos de hipocrisia suprema se fizermos um pequeno exercício de memória e recuarmos ao verão de 2014, para recuperar as palavras que o diretor de A Bola escreveu por ocasião de uma entrevista dada por Luís Filipe Vieira à BTV. Relembre-se que esse período foi particularmente quente para o Benfica, pois o clube estava envolvido em polémica por causa de vários assuntos, como a questão BES, a fuga de Oblak ou os empréstimos de Bernardo Silva, Cancelo e Cavaleiro. Vítor Serpa dedicou à entrevista um pequeno comentário, num canto da sua página semanal, com o título "A entrevista do presidente".


Será que se mostrou igualmente incomodado pelo facto de a entrevista ter sido feita pela BTV, e com a consequente limitação da "total liberdade de expressão e do manifesto interesse do público"? Vejamos:


Condições restritivas? Lógica comunicacional que oscila entre a informação e a propaganda? Nada disso: Neste caso, Vítor Serpa considerou que Vieira "fez bem em falar", numa entrevista que classificou de rigorosa e digna.

Não é novidade nenhuma esta falta de coerência e de princípios em Vìtor Serpa, característica que se estende também aos seus adjuntos. O próprio confirma a sua própria falta de princípios na coluna de ontem, ao escrever: "É, aliás, pelos perigos que assinalamos, que o recente congresso dos jornalistas fez aprovar uma recomendação para que, nestas condições, nenhum jornal publicasse este tipo de entrevistas. Por respeito a Jorge Jesus e aos leitores de A BOLA publicamos as declarações do treinador".

Curioso: Serpa faz questão de assinalar os perigos das entrevistas a canais de clube, mas não deixa de pactuar com elas ao dar-lhes eco. E deveria ter-se abstido de justificar essa decisão com um suposto respeito por Jorge Jesus e pelos leitores do jornal, porque isso não é verdade: Serpa publicou a entrevista por simples motivos comerciais. É evidente que não existe qualquer respeito por Jorge Jesus - desde que trocou de clube, claro está - nem qualquer respeito pelos leitores. Se respeitassem os leitores, não mudariam de opinião sobre as mesmas coisas em função dos interesses do momento, nem seriam o patético meio de propaganda benfiquista em que se transformaram.

terça-feira, 31 de maio de 2016

O Sporting e o mercado: um beco sem saída

É interessante fazer uma análise comparativa aos artigos de opinião que José Manuel Delgado e Vítor Serpa escreveram, na sexta-feira e sábado passados, sobre as decisões que Benfica e Sporting têm que tomar este defeso em relação à venda ou manutenção dos seus jogadores com mais mercado.

É um facto que os clubes portugueses têm de vender para equilibrar as suas contas. Também é um facto que o futebol português não é a meta final de carreira a que aspiram os jogadores mais talentosos. Como tal, é normal que tanto os melhores jogadores do Sporting como os do Benfica tenham a ambição de progredirem para as ligas mais competitivas da Europa.

Neste momento, no que a decisões de mercado diz respeito, existe apenas uma diferença relevante entre Sporting e Benfica: teoricamente, o Benfica já fez as vendas necessárias para equilibrar as contas (Renato Sanches e Gaitán serão suficientes, considerando as receitas da Champions obtidas esta época), enquanto o Sporting ainda terá que vender pelo menos um jogador de primeira linha (Slimani? João Mário?). Em tudo o resto, as circunstâncias são iguais. 

No entanto, não será com essa ideia que um leitor do jornal A Bola ficará, após uma leitura atenta dos textos de Serpa e Delgado. Primeiro, na sexta-feira passada, Delgado, referindo-se ao Benfica, colocou o foco no equilíbrio que deve existir entre as consequências desportivas e financeiras que mais ou menos saídas de jogadores implicam.


----- INTERLÚDIO ----- 

É preciso algum esforço para uma pessoa se conseguir alhear deste exercício de bajulação vieirista com que Delgado presenteou os seus leitores. Só com muito boa vontade se pode usar o exemplo de Guedes como um caso de sucesso, quando, na realidade, foi utilizado apenas 38 minutos em TODA a 2ª volta do campeonato. O mesmo, até certo ponto, aplica-se a Nélson Semedo, que nunca se conseguiu impor após a lesão, apesar de a concorrência no plantel não ser propriamente forte. 

O argumento utilizado por Delgado em como o sucesso de Guedes e Semedo se comprova pelas suas internacionalizações A, apenas serve para expor o ridículo de algumas convocatórias e a via aberta que os jogadores de Mendes têm para chegar à seleção.

----- FIM DO INTERLÚDIO -----


Ou seja, parece-me que, no essencial - e floreados vieiristas à parte -, Delgado tem razão sobre a necessidade que o Benfica tem de vender e sobre a importância de existir um equilíbrio nas cedências que os clubes (genericamente falando) fazem ao mercado durante as janelas de transferências.

A questão é que, 24 horas depois, Vítor Serpa decidiu escrever sobre a mesma temática, mas aplicada a outro clube: o Sporting. E, não surpreendentemente, o tom do texto é bastante mais negro:


A forma como Serpa apresenta os vários cenários é coisa para deixar qualquer sportinguista à beira da depressão. Se o Sporting não vender, isso representa "um elevado esforço financeiro, com consequências perigosas para o futuro". Se o Sporting vender um par de jogadores de referência, então o risco financeiro desaparece, mas em contrapartida abre-se a Caixa de Pandora: os jogadores que permaneçam de leão ao peito mais uma época poderão ficar (usando expressões do próprio Serpa) perturbados, frustrados, injustiçados e, até, quem sabe, enraivecidos. Impávidos e serenos? Nem pensar!

Quem leia Vítor Serpa até deve ficar a pensar que este beco sem saída de mercado é um exclusivo do novo Sporting. Mas não é. E não é uma equação tão difícil de resolver quanto o diretor do jornal A Bola quer fazer crer. A carreira de um jogador não termina aos 23 ou 24 anos. É, sobretudo, uma questão de recompensar devidamente os melhores jogadores (aumentando-lhes o salário), integrando-os numa equipa competitiva e proporcionando a montra da Champions para se mostrarem. Benfica e Porto têm trabalhado assim de forma consistente (quantos anos foi Vieira aguentando Gaitán e Luisão no clube?), e no Sporting, felizmente, começa a haver condições para fazer o mesmo - basta olhar para a quantidade de renovações que têm sido feitas e para a qualidade que se tem visto dentro das quatro linhas.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Capas que não fizeram história, nº 54: Igualdade de tratamento, segundo Vítor Serpa

No programa Quinta da Bola de ontem, o debate centrou-se exclusivamente nas polémicas da semana relacionadas com o Sporting: o desvio de Sá e Marega pelo Porto, e os três temas que foram destaque na capa do jornal do dia A Bola, que deixaram os sportinguistas verdes de raiva:


Dias Ferreira, um dos convidados, não perdeu tempo e começou de imediato a denunciar a forma parcial como a imprensa tenta alimentar as polémicas relacionadas com o Sporting. Perante as objeções de Vítor Serpa e José Manuel Delgado, Dias Ferreira foi particulamente certeiro ao apontar a ansiedade revelada por certos órgãos de comunicação social - nos quais incluiu o próprio jornal A Bola - em transformar o desvio de Sá e Marega numa tremenda derrota do Sporting.


Vale a pena ver o pequeno vídeo que se segue. Não só pela excelente intervenção de Dias Ferreira, mas também pela argumentação que Vítor Serpa usou para se defender a si e ao seu jornal:


Vítor Serpa perguntou: "Quando o Porto roubou aqueles jogadores todos ao Benfica, viu algum comportamento diferente do jornal em relação a isso? Não disse a mesma coisa que disse agora quando o Falcao vinha para o Benfica e o Porto o desviou?".

A resposta é simples: não. O jornal A Bola pode ter dado o mesmo destaque de capa quando o Porto desviou Falcao do Benfica, mas definitivamente não teve o mesmo comportamento, nem disse a mesma coisa.

É que em vez do eufórico "E VÃO QUATRO!... - Depois de Danilo e Suk, FC Porto 'rouba' Marega e José Sá ao Sporting", o que A Bola publicou foi isto:


"GANÂNCIA DE FALCAO ABRE A PORTA AO FC PORTO - Benfica recusou exigências de última hora". Aqui não houve roubos nem desvios, não houve um clube derrotado nem um clube vencedor. Houve apenas um jogador ganancioso que fez exigências de última hora, recusadas pelo Benfica. Só faltou dizer que o Benfica é que autorizou Falcao ir para o Porto.

Disse Vítor Serpa a Dias Ferreira: "Ainda bem que não é jornalista", acusando o dirigente sportinguista de ter memória seletiva. É preciso ter descaramento...

(obrigado, Tiago!)