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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Os derrotados de 2020/21

O rescaldo desta tão desejada conquista do campeonato não ficaria completo destacando apenas os responsáveis pelo sucesso: a história do título também é explicada em parte pelos responsáveis pelo não insucesso, protagonistas que, seja por natural obrigação (pelo cargo que ocupam) ou por indisfarçável desejo (apesar do cargo que ocupam), fizeram tudo o que podiam para impedir este desfecho e, ao contrário do que tem sido costume, falharam.

O futebol português tem a particularidade de estar carregada de figuras para quem não existe limites de tabuleiros onde se pode jogar. Qualquer questão, de natureza pessoal ou profissional, desportiva ou não desportiva, é utilizada desde que isso possa aproximar um centímetro que seja da sua meta. E não faltaram tabuleiros originais onde se jogou em 2020/21...

Aqui ficam os principais, por ordem crescente de relevo e/ou esforço.


7º - António Salvador

Esperneou muito quando o Sporting foi buscar Rúben Amorim, mas desconfio que, no seu íntimo, se riu da jogada de mestre que pensava ter aplicado ao único rival que existe (apenas) na sua cabeça. Nunca perdeu uma oportunidade de gozar o prato e foi metendo na comunicação social todos os detalhes da operação (IVA incluído) e - neste caso com razão - das dificuldades que o Sporting teve em cumprir o acordado.

Esperneou também na venda de Paulinho, e aí acredito que lhe tenha custado mais. O Braga estava na luta por vários objetivos e não era bom, desportivamente, prescindir de uma das suas principais figuras. Salvador fez o seu papel e espremeu o Sporting o mais que pôde, conseguindo um negócio financeiramente muito bom para o seu clube.

As vitórias na imprensa ficaram-se por aí. De resto, a época foi um pesadelo para o nosso querido trolha.

Ficou furioso quando o Braga perdeu em Alvalade. Mais furioso ficou ao ser derrotado na final da Taça da Liga. Mas o ponto mais baixo terá sido quando teve de assistir, a partir da tribuna do estádio de que é inquilino, ao momento mais determinante da conquista do campeonato. Como de costume, reagiu como uma criança frustrada - até "valeu" divulgar fotografias do lixo deixado no balneário pelo Sporting - e a sua equipa entrou em colapso a partir daí, comprovando que a motivação de presidente e restante organização provém quase exclusivamente dos confrontos com o Sporting.

A verdade é que, ao descobrir Amorim e ao aceitar negociá-lo, o presidente braguista acabou por ser, de forma indireta, um dos obreiros deste título - e o melhor de tudo é que Salvador tem plena consciência disso. Não deve estar a passar dias fáceis.


6º Jorge Jesus

Depois de uma passagem de tremendo sucesso no Brasil, voltou para Portugal pela porta grande para relançar a carreira europeia e servir as ambições eleitorais de Vieira. Esquecidos os conflitos do período quente de 2015/16, o retomar da parceria entre presidente e treinador, suportada por um investimento inédito no reforço do plantel, deixava antever um passeio a nível interno e a reafirmação do clube a nível europeu.

Jesus, no seu estilo tão próprio, não desiludiu à chegada: aterrou em Tires com uma cobertura mediática ao nível de uma visita do Papa (o de Roma), foi apresentado no Seixal com toda a pompa e circunstância ao lado das provas das suas façanhas - finais europeias perdidas incluídas - e com um discurso 50% mais ambicioso do que o que teve em Alvalade em 2015. O Benfica não ia jogar o dobro, ia jogar o triplo e arrasar a competição.

O descalabro às mãos do PAOK foi simultaneamente prenúncio e catalisador de uma realidade que ficaria distante das promessas. Vieira foi forçado a vender o esteio da defesa para compensar um orçamento totalmente dependente do apuramento para a Champions, a estrutura da equipa abanou e Jesus não foi incapaz de encontrar soluções. A equipa que ia arrasar viu-se fora das contas do campeonato quando ainda havia metade dos jogos para disputar, e não deve ter sido fácil para o ego de Jesus ver Amorim alcançar à primeira no Sporting aquilo que ele próprio não conseguiu em três tentativas.

A responsabilidade do fracasso de 2020/21 não terá sido toda de Jesus, mas isso é tema de outro âmbito que não é para aqui chamado. Ainda que, verdade seja dita, o principal objetivo aos olhos de quem o contratou tenha sido alcançado: Vieira foi reeleito para mais um mandato de quatro anos.


5º: As viúvas

Dizem-se sportinguistas, mas não são. Alguns até poderão ter cartão de sócio com quotas pagas, mas não com a intenção de ajudar o clube a ser maior: fazem-no apenas com o objetivo de serem uma força de bloqueio e de, um dia, poderem consumar a sua vingança. Até lá, vão ocupando o tempo a insultar, perseguir e ameaçar adeptos sportinguistas que se atrevem a ter opiniões diferentes das suas, e a lançar periodicamente "bombas" que, invariavelmente, ficam por detonar. Fazem exatamente aquilo que apontavam a outros há uns anos. Em caso de dúvida, podem facilmente ser identificados pela intensa azia que mostram a seguir a qualquer sucesso do Sporting e pelo sentimento de culpa que tentam colocar nos sportinguistas que não seguem o seu triste exemplo.

Querer o melhor para o Sporting e celebrar os sucessos do Sporting não implica que se goste da direção atual nem que não se reconheça o que de bom foi feito pela direção anterior. Mas há que seguir em frente porque as direções e os presidentes passam, e o clube continuará sempre o seu caminho com maiores ou menores dificuldades. Há muitos sportinguistas que votarão numa alternativa quando a altura chegar, mas que não deixam de desejar o melhor quando uma equipa nossa entra em competição - independentemente da modalidade ou de quem criou a secção, independentemente de quem contratou jogador X ou Y. É ver o exemplo das claques, que continuaram a apoiar as equipas sempre que possível, apesar de a sua situação ainda estar por resolver.

Nem imagino o cabeção com que estarão as viúvas nesta altura. Arranjem outro interesse na vida, apoiem outro clube, mas deixem o Sporting em paz. Como podem ver pelo que se passou esta época, o Sporting não precisa de vocês.


4º Pinto da Costa

Tem muitos anos disto, títulos como ninguém, mas desta vez foi devidamente castigado pelo recurso à bazófia quando afirmou, em vésperas de deslocação do Sporting a Braga, que o Porto seria campeão em condições normais. Só ele saberá realmente o que queria dizer com "normal", mas a verdade é que a interpretação mais consensual entre os sportinguistas se confirmou de imediato: seguiram-se duas arbitragens que fizeram os possíveis e os impossíveis para tirar pontos ao Sporting.

Para o Porto, foi mais uma época "contra tudo e contra todos", apesar de a quantidade de decisões de arbitragem a seu favor ter atingido proporções absurdas, apesar de terem beneficiado de um penálti a favor a cada 180 minutos, apesar da tolerância quase inesgotável para com os acessos de fúria de Conceição e outros elementos do staff após resultados negativos, apesar da rábula que criaram com a Unilabs para retirarem de campo Nuno Mendes e Sporar da meia-final da Taça da Liga, apesar dos números que Luís Godinho, Rui Costa, Fábio Veríssimo, Soares Dias, Manuel Oliveira e outros fizeram em jogos do Sporting. Noção precisa-se.

Para a história, fica também o pedido de Pinto da Costa para ter o mesmo tratamento dado ao Sporting. Considerando o historial dos últimos 40 anos no futebol português, é melhor ter cuidado com aquilo que deseja.


3º Os amigos do apito

A chegada do VAR limitou-os mas, com o tempo, foram adaptando os seus métodos.

Os mais habilidosos sabem como fazê-lo sem prejudicar a nota, decidindo para um lado ou para o outro no limite do critério. O melhor exemplo da temporada foi a decisão de Soares Dias mostrar o 2º amarelo a Gonçalo Inácio em Braga aos 18' por uma falta muito menos grave do que as que deveriam ter valido um 2º amarelo a Gilberto em Alvalade ou a Pepe na Luz. Como se explica que o mesmo árbitro tenha decidido desta forma, considerando que se tratavam de três jogos de importância capital?

Os menos habilidosos são mais descarados: Manuel Oliveira e Luís Ferreira tiveram, no Sporting - Nacional, a arbitragem mais escandalosa desde que há VAR em Portugal, fechando os olhos a 3 penáltis e 2 expulsões como o resultado ainda a zeros; Fábio Veríssimo disfarçou mal a pressa em amarelar um recém-entrado Palhinha por uma disputa de bola banal, de forma a deixá-lo de fora contra o Benfica; Luís Godinho, espoliou o Sporting de 4 pontos com múltiplas decisões aberrantes em Alvalade contra Porto e em Famalicão; e mais exemplos haveria.

Sim, também houve algumas decisões a favorecer o Sporting, mas o saldo não deixa dúvidas a ninguém. Desta vez, e ao contrário de tantas outras épocas, as arbitragens não foram determinantes para o desfecho do campeonato... mas não foi por falta de tentativa.


2ª Cláudia Santos

Criou o cambalacho da época ao tentar impor uma doutrina de aplicação de justiça que só faz sentido aos seus olhos. A forma como geriu o caso Palhinha expuseram a sua vontade e incompetência, devidamente castigadas dentro e fora de campo: Palhinha pôde ser utilizado e o Sporting venceu o dérbi. Isso sim, foi justiça poética.

Dra. Cláudia & Cª não se deram por vencidos e viraram as agulhas para Amorim, aplicando-lhe suspensões sucessivas e um processo que o ameaça deixar sem trabalho durante vários anos, criando jurisprudências e precedentes em função das falhas que apanham no Sporting. Há uns dias saiu a notícia de que o Braga será castigado com dois jogos à porta fechada por terem tido Custódio como treinador - já todos perceberam a que porta irão bater a seguir. 

Uma justiça prepotente e cega, no pior sentido do termo, que funcionou como instrumento de vendetta pessoal é tudo menos justiça. Num país a sério, esta senhora e seus pares há muito que teriam sido colocados no olho da rua.


1º José Pereira

O furriel a quem nunca deixaram comandar uma companhia deve estar com um cabeção do tamanho de um Panzer VIII Maus, ao ver o mancebo Amorim a liderar uma unidade por quem ninguém dava nada e que, sozinha, venceu a II Guerra Mundial.

Deixando as analogias militares de lado, de um lado temos um treinador que conseguiu uma das maiores proezas a nível interno da história do futebol português (o recorde de mais jogos consecutivos sem perder numa única época já ninguém lhe tira), enquanto do outro está um dirigente cuja experiência total de jogos como treinador principal cabe nos dedos de duas mãos.

Com que moral é que José Pereira, inapelavelmente desautorizado pelos factos, poderá continuar a vender os seus cursos de treinador que pouco mais são do que uma validação burocrática e inútil de qualidades que só se podem aferir realmente no campo e no balneário? Se calhar está na altura de dar lugar a alguém que faça evoluir a ANTF do lobby de televendas que é hoje para uma verdadeira classe de treinadores.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

A cláusula de confidencialidade

O Jornal Económico avançou esta manhã que Sousa Cintra terá aceitado, a pedido de Jorge Jesus, anular a cláusula de confidencialidade assinada entre o Sporting e o treinador aquando da sua rescisão.



Não vejo qual é o interesse do Sporting em anular esta cláusula. Se por acaso existiram irregularidades de qualquer tipo de que o treinador tenha conhecimento sobre a gestão de Bruno de Carvalho, não há nada que o impeça de as denunciar ao atual presidente da SAD - pois a cláusula de confidencialidade não é entre Jesus e Bruno de Carvalho, é entre Jesus e o Sporting.

Jesus pode dizer tudo o que quiser aos atuais responsáveis do Sporting, seja a denúncia de irregularidades ou de comportamentos menos corretos do anterior presidente. O que não pode é dizer tudo o que quiser à Comunicação Social, e nesse sentido isso significa que, caso Sousa Cintra aceda à anulação desta cláusula, estará apenas a incentivar a que se continue com a lavagem de roupa suja de assuntos do clube na praça pública. O que ganha o Sporting com isso, exatamente? Só será bom para o ego de Jesus que, assim, poderá sacudir as responsabilidades do fracasso desportivo que foi a sua passagem pelo Sporting - apesar de todas as condições que lhe foram proporcionadas para levar a cabo o seu trabalho com sucesso.

Só compreenderei a anulação da cláusula caso, como contrapartida, Jesus aceite contratar Petrovic e Alan Ruiz pelos mesmos 10 milhões que teria de pagar caso quebrasse o silêncio. Afinal, quem dá 4 milhões para levar Carrillo por empréstimo, não se importará de abrir um pouco mais os cordões à bolsa para levar em definitivo alguns dos craques que impingiu ao clube...

quarta-feira, 23 de maio de 2018

O regresso de Inácio

O Sporting anunciou ontem o regresso de Augusto Inácio à estrutura de futebol do Sporting. O homem que conquistou o campeonato em 2000 foi nomeado diretor desportivo, tendo o clube tido o cuidado de especificar num comunicado posterior que não se trata de uma substituição de André Geraldes - que retomará as funções de team manager quando forem levantadas as medidas de coação a que está sujeito. Foi também referido que Bruno de Carvalho deixará de assistir aos jogos do banco de suplentes.

Há duas conclusões óbvias que se podem retirar daqui.

A entrada de Inácio parece indicar que Bruno de Carvalho decidiu criar um maior distanciamento entre si e a equipa de futebol: primeiro pela criação de um cargo intermédio entre a direção e a equipa técnica; depois pelo regresso do presidente à tribuna durante os jogos. Era um passo inevitável face a tudo o que aconteceu nos últimos dois meses. O perfil parece-me adequado: Inácio é um homem do balneário, já desempenhou o cargo nos anos de Leonardo Jardim e Marco Silva, e é também um homem de confiança do presidente. Em teoria, são movimentações que fazem sentido. Veremos como correrá na prática.

Há depois a questão de Jorge Jesus. Inácio foi afastado porque Jesus quis preencher a estrutura de pessoas da sua confiança. Não sei qual é o tipo de relacionamento que os dois têm atualmente, mas isto não são sinais positivos para a manutenção do status quo da equipa técnica atual: no mínimo, significa que Jesus perderá muita da sua autonomia; no limite, pode significar que o Sporting se prepara para trocar de treinador. Seguramente que nos próximos dias a questão do treinador ficará definida, já que falta pouco mais de um mês para a nova época começar.

terça-feira, 15 de maio de 2018

A montanha pariu um rato (pelo menos para já)

A montanha pariu um rato, pelo menos para já. 

Vamos esquecer-nos por um momento do circo mediático que se gerou no final da tarde de ontem e que se prolongou pela noite dentro. Depois de um jogo vergonhoso que nos privou de um objetivo importantíssimo e em vésperas de um outro também muito importante, é normal que o presidente tenha querido falar com os jogadores e equipa técnica. A reunião decorreu no estádio, em privado, e não no Facebook ou no Instagram. É assim que deve ser. 

Em paralelo a Comunicação Social foi armando a tenda do circo, instalando as bancadas e montando as barraquinhas das pipocas e do algodão doce, enquanto ia prometendo um espetáculo inesquecível. As "notícias" que começaram a circular garantiam que a equipa técnica tinha sido suspensa e que não estaria no Jamor, e que três jogadores (Rui Patrício, William Carvalho e Bruno Fernandes) tinham ameaçado não jogar a final da Taça caso essa suspensão se efetivasse. A Comunicação Social bem pode ter anunciado o Cirque du Soleil, mas os artistas não apareceram. A estrutura acabou por desabar ruidosamente quando, à saída do estádio, Bruno de Carvalho negou a suspensão da equipa técnica e afirmou que a reunião com os jogadores decorrera de forma normal. Acredito que seja verdade, porque até ver não houve nenhuma reação antagónica do lado dos jogadores. 

A um fim de tarde pródigo em especulações sucedeu-se uma noite de discussões assentes em premissas desmentidas oficialmente, o que é uma bela imagem daquilo em que se transformou o jornalismo e o comentário desportivo em Portugal. Lá mais para o final da noite a história foi alterada: de suspensão passou-se para uma transmissão verbal a Jorge Jesus da decisão de que lhe será instaurado um processo disciplinar. Vale o que vale, pela amostra do dia o melhor é mesmo ficarmos todos de pé atrás antes de tomar por certo qualquer notícia sem confirmação de nenhuma das partes diretamente envolvidas.

Comecei o texto com "A montanha pariu um rato, pelo menos para já.". Escrevi "pelo menos para já" porque estou totalmente convencido de que Bruno de Carvalho já não vê Jorge Jesus como a pessoa certa para o banco do Sporting e, como tal, não quererá que o treinador cumpra a última época de contrato com o Sporting. Confirmando-se este cenário, tenho a certeza de que Bruno de Carvalho não terá o mínimo interesse em pagar o último ano de contrato a Jorge Jesus. São 5, 6, 7, 8 ou 9 milhões (dependendo da cartilha) que farão muita falta ao orçamento do Sporting numa época em que não haverá Champions para forrar os cofres da SAD, pelo que não tenho dúvidas de que Bruno de Carvalho usará todas as armas à sua disposição para forçar uma rescisão "amigável" - mesmo que o processo para a alcançar seja tudo menos amigável. O Bruno mais "maluco" (roubando o termo utilizado pelo próprio presidente na recente entrevista ao Expresso) é o Bruno que avança para uma negociação que não aceita perder. Perguntem à banca, perguntem a Marco Silva, perguntem ao Inter e ao Leicester. Acredito que os próximos dias/semana não vão ser bonitos, mas é bem provável que leve a sua avante. A conta bancária do Sporting agradecerá, a reputação do clube se calhar nem tanto. Tranquilidade até o assunto estar encerrado, nem pensar.

Não vou agora entrar em comentários sobre se concordo ou não com a saída do treinador. Enquanto adepto, acho que devo fazê-lo apenas após o próximo domingo. Há uma competição importante para ganhar. Mas percebo que a direção não se possa dar a esse luxo: 2018/19 já está aí ao virar da esquina e terá de ser muito bem preparada para minimizar os efeitos do catastrófico 3º lugar em que ficámos. Vai ser uma espécie de regresso a um passado nada distante: ao contrário dos últimos anos, os nossos adversários vão ter um orçamento bastante superior ao nosso. Todos os milhões vão contar.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Epílogo de um percurso europeu meritório

O Sporting nunca teve obrigação de passar esta eliminatória, e com muito menos obrigações ficou depois de ter perdido por dois golos sem resposta em Madrid. Tinha obrigação, isso sim, de disputá-la até ao limite das suas possibilidades, e foi precisamente isso que fez, tanto ontem como em Madrid. A grande diferença entre um e outro jogo esteve nos três erros crassos que cometemos - a entrada desastrada levou a que alguns jogadores abanassem em algumas situações de aperto. Mas no geral, creio que a equipa teve atitude nas duas mãos da eliminatória, ao nível do que mostrou em praticamente todos os jogos da Liga dos Campeões. 

O percurso europeu acabou mas foi meritório. Arrisco dizer que esta época defrontámos três das dez melhores equipas europeias do momento. Nessas seis partidas realizadas, apenas nas duas com o Barcelona é que vimos o adversário a superiorizar-se de forma mais ou menos clara - e mesmo num desses jogos, não deixámos de discutir o resultado até ao fim.

O crescimento europeu do Sporting tem sido visível com Jorge Jesus. É verdade que de um ponto de vista resultadista, Jesus não está a fazer nada que Paulo Bento, Sá Pinto ou José Peseiro não tenham feito nas suas passagens pelo clube. Mas do ponto de vista da personalidade com que se encara os adversários, os progressos são mais que evidentes.

Isto, na minha opinião, torna evidente uma outra questão: como é que uma equipa que soube encarar de frente alguns dos maiores da Europa, passou tão mal contra adversários internos que estão a milhas da realidade europeia?

Bem sei que os campos, em Portugal, têm andado constantemente inclinados contra uns e a favor de outros, e isso explica facilmente a diferença de pontuação em relação a quem está no topo, mas, ainda assim, parece-me óbvio que não fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Não coloco em causa que os jogadores têm dado o litro até ao fim nos jogos do campeonato quando o resultado não é o pretendido. O meu problema é que não têm dado tudo entre o primeiro minuto e o momento em que se apercebem que a vitória pode fugir. Pelo meio, vai-se acelerando o jogo em períodos curtos, o que muitas vezes chega para marcar, mas nem sempre.

É fundamental que a equipa esteja predisposta a correr até cair para o lado desde o primeiro minuto, e isso, de uma forma geral, não tem acontecido nas competições internas.

Claro que a motivação que um jogador tem quando defronta um tubarão europeu é diferente da motivação de um jogo rotineiro para o Tugão, mas se não estamos neste momento mais perto do topo da classificação é, claramente, porque essa diferença de motivação é muito mais ampla do que deveria ser.

A qualidade está lá, mais a qualidade, só por si, não é suficiente. Dentro daquilo que depende exclusivamente de nós, falta-nos conseguir reduzir a tal oscilação motivacional, perceber qual o modelo de jogo mais adequado para as competições internas, e ter prioridades bem definidas para o nosso calendário. Prioridades bem definidas, na minha opinião, que passavam por usar a Liga Europa para rodar a equipa... mas não foi isso que entenderam o presidente - que estabeleceu a vitória na competição como objetivo -, o treinador - que aprecia o palco europeu - e os jogadores - pelo menos na eliminatória com o Atlético. Foi uma competição gira enquanto durou, que melhorou o nosso ranking, trouxe prestígio assim-assim, mas, em contrapartida, deu pouco dinheiro e foi pródiga no desgaste e nas lesões que provocou. No geral, será que valeu a pena?

Em relação ao jogo de ontem, no entanto, mentiria se não reconhecesse o prazer que me deu a exibição da nossa equipa. Muito bem Jesus, mesmo com a ausência de quatro titulares indiscutíveis, a montar a estratégia que permitiu pôr os espanhois aos papéis durante a primeira parte: colocou três centrais para evitar as aflições de 2x2 (Coates e Mathieu contra Costa e Griezmann) que nos matou em Madrid; abriu os laterais a toda a largura e com permissão para explorarem a profundidade (e que enormes exibições fizeram Ristovski e Acuña); Battaglia e Bryan a fazerem um jogo de grande sacrifício e competência no miolo. Mesmo com o percalço da saída de Mathieu, Petrovic esteve impecável defensivamente - sempre muito concentrado e certo no posicionamento, sabendo quando tinha de se manter na linha defensiva ou quando tinha que sair em contenção. Chegámos ao intervalo a ganhar por 1-0 e a lamentar a estupenda defesa de Oblak a cabeceamento de Coates e a falta de pontaria de Gelson de cabeça numa situação em que apenas tinha que escolher o lado onde colocar o esférico. A segunda parte começou a ser mais complicada, principalmente quando começaram a faltar pernas. Infelizmente, falharam as outras duas substituições: Rúben e Doumbia não acrescentaram nada, mas há que reconhecer que qualquer equipa está sujeita a que isso aconteça quando se está a rapar o fundo do tacho (ou do banco - não esquecer que para além da indisponibilidade de Dost, Coentrão, Piccini e William, também não havia Podence, Leão e o talismã das noites europeias chamado Bruno César) e que também não ajudou o facto de, nessa altura, haver vários jogadores em nítidas dificuldades físicas, como Gelson ou Bruno Fernandes.

Uma última palavra para o grande ambiente que se viveu no estádio do início ao fim. Apesar de ser um jogo que merecia mais gente, os que marcaram presença tiveram nota máxima. Apesar da eliminação, foi uma noite europeia que valeu a pena presenciar ao vivo.

domingo, 1 de abril de 2018

Cumpriu-se a lei das probabilidades

Esgotaram-se as hipóteses ténues que o Sporting tinha para vencer o campeonato. As que ainda existiam implicavam uma conjugação improvável de fatores favoráveis no meio de um ciclo repleto de jogos de grau de dificuldade elevado e desgastantes. Um desses fatores passava pela obrigação de o Sporting ganhar todos os jogos. Não o fez ontem, essas hipóteses foram à vida, e com elas, as ambições do Sporting para o campeonato. Não foi ontem, no entanto, que o Sporting as deitou a perder. O Sporting comprometeu o campeonato em Moreira de Cónegos, em Setúbal, no Estoril e no Dragão, devido a uma outra conjugação de fatores – desfavoráveis – que se dividem entre arbitragens manhosas e um modelo de jogo pouco adaptado aos jogadores que temos e aos adversários que defrontamos. Se já sabemos que não temos a mesma margem para errar que outros, então temos de arranjar um modelo que minimize essas interferências.

Ontem, a arbitragem voltou a ser péssima. Perdoou um penálti escandaloso por falta duríssima de Matheus sobre Dost (noutro local do campo que não a área seria marcada por qualquer árbitro) e anulou mal um golo ao Braga numa decisão igualmente escandalosa, pois não há imagens conclusivas que suportem a reversão da decisão inicial. Bruno Viana devia ter sido expulso pela entrada violentíssima sobre Gelson. Na segunda parte a arbitragem à inglesa cedeu lugar a uma arbitragem à inglesa quando os jogadores do Sporting sofriam faltas (violentas, algum delas) e uma arbitragem à portuguesa quando os jogadores do Braga caíam no chão. Piccini foi bem expulso, vendo (bem) um segundo amarelo por uma falta tão grave como várias outras cometidas por jogadores do Braga que ficaram por assinalar. 

A expulsão de Piccini foi, tal como Jesus disse, decisiva para a derrota, mas não foi decisiva para o essencial: a não vitória. Um empate seria tão fatal para as nossas aspirações quanto a derrota, e a triste realidade é que a equipa voltou a exibir-se abaixo das necessidades. O Sporting até teve uma boa entrada em jogo, com pressão em todo o campo a impedir o Braga de construir jogo, mas a partir do meio da primeira parte deixou de conseguir mandar no jogo. Se Piccini tivesse permanecido em campo até ao final, o mais provável era que tivéssemos empatado, e não ganho. Faltou ligação entre setores - Bryan pode desenrascar como 8 em determinadas circunstâncias mas não neste tipo de jogos -, voltou a faltar gente capaz de desequilibrar, voltou a faltar presença na área - é paradigmático o gesto de Coentrão, com a bola, já nos descontos, a mandar Gelson (que estava encostado na linha oposta) ir para a área -, voltou a faltar objetividade no momento de alvejar a baliza. Na prática, nada que não se tenha visto em demasia ao longo desta época. Foi-nos valendo a capacidade de luta dos jogadores e a estrelinha dos golos ao cair do pano que nos foram permitindo adiar este desfecho durante um par de meses. Ontem, cumpriu-se a lei das probabilidades.

Sobre Jesus já disse o que penso (AQUI), e não é esta derrota que me faz mudar de opinião, mas é inegável que o treinador ficará muito mais pressionado se as eliminatórias com Atlético Madrid e Porto não correrem bem. Depois do investimento que foi feito, é muito complicado justificar apenas com fatores alheios à equipa que acabemos a disputar o terceiro lugar com o Braga na prova que era o nosso principal objetivo da época. De qualquer forma, havendo outros objetivos importantes ainda em disputa, os balanços definitivos têm de esperar. As contas devem fazer-se apenas no final.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Ainda bem que não era um técnico do INEM

No Dragão não teria havido golo: não só seria provável que os apanha-bolas estivessem Missing in Action, como até poderia haver o azar adicional de, ao sair, a bola se ter dirigido para o buraco negro que é a zona dos técnicos do INEM... já se sabe que bola que lá entra é bola que não volta a ser vista.



segunda-feira, 5 de março de 2018

Os pecados de Jesus

Coisa tão certa quanto a morte e os impostos, é aparecerem as análises monocromáticas de muitos dos nossos comentadores da bola após um desaire do Sporting. Análises monocromáticas no sentido em que são, invariavelmente, incapazes de encontrar aspetos positivos - ou sequer atenuantes - no rumo que as coisas tomaram. É o chamado totobola de segunda-feira, em que as opiniões são debitadas exclusivamente em função dos gostos pessoais e do facto de a bola, após bater no poste, se ter dirigido para dentro da baliza ou para fora de campo. Não têm capacidade (ou vontade) para perceber ou referir, em simultâneo, aspetos positivos e negativos. Ou preto, ou branco. Monocromáticas.

Está mais que visto que um dos alvos a abater será Jorge Jesus, e não tardarão a surgir os debates em que se discutirá se o treinador deverá ou não continuar à frente da equipa técnica do Sporting na próxima época. É fácil bater em Jesus num momento destes, apesar de, sinceramente, me parecer prematuro, pois ainda há muitos objetivos para atingir: a Taça de Portugal está em aberto, veremos até onde conseguiremos chegar na Liga Europa, e há um segundo lugar do campeonato - com consequente acesso à pré-qualificação da Liga dos Campeões - por disputar. Como tal, as contas definitivas devem ser feitas apenas quando a época acabar.

No entanto, isso não quer dizer que não se possam apontar críticas às opções de Jesus, da mesma forma que é conveniente recordarmo-nos dos aspetos bons do trabalho que desenvolveu esta época. Nesse sentido, aqui ficam os meus dois tostões sobre o que me parece que não tem estado a correr bem de janeiro para cá - convém relembrar que, até dezembro, era difícil exigir melhor a uma equipa que se manteve na corrida em todas as competições em que estava inserida.

Para mim, os principais pecados de Jesus têm sido os seguintes:

O reforços do plantel em janeiro
Se perguntassem à maioria dos adeptos que posições queriam ver reforçadas durante o mês de janeiro, a maior parte responderia, de caras, da seguinte forma: um defesa-esquerdo, um box-to-box, um extremo desequilibrador e um ponta-de-lança. De certa forma, todas essas posições foram reforçadas, mas a generalidade dos nomes encontrados ficaram aquém das expectativas. 
Dois vieram numa lógica de rendimento imediato: Rúben Ribeiro e Montero. Rúben Ribeiro, até ver, não tem demonstrado ter o perfil de que necessitávamos - eu via maior necessidade de um jogador mais à Gelson, capaz de acelerar o jogo e com facilidade de arranjar espaços onde eles não existem. Montero, por sua vez, não me está a desiludir porque está a fazer exatamente aquilo que eu esperava - porque me lembrava bem daquilo que era o seu rendimento antes de ter ido para a China -, ou seja, por cada jogo bom que faz, há outros dois ou três que lhe passam completamente ao lado. 
Os outros reforços, Lumor, Misic e Wendel, vieram numa perspetiva de futuro. Misic veio reforçar uma posição excedentária num plantel onde já existem William, Battaglia, Palhinha e Petrovic, e, como se tem visto, tem tido dificuldades em arranjar espaço para jogar. Está visto que Lumor só cheirará a bola quando Coentrão e Acuña não estiverem disponíveis, ou seja, nesta época não contará para o totobola. Wendel é o caso mais complicado de compreender, porque, em teoria, era o grande reforço de inverno do Sporting. Mesmo sabendo que o futebol brasileiro é, taticamente, muito mais relaxado que o português, esperava que tivesse havido muito mais oportunidades de utilização em função do seu elevado potencial. Sinceramente, não vejo que fosse um risco assim tão grande a sua utilização contra adversários de meio e fundo da tabela, e assim dar-se-ia descanso a um Bruno Fernandes que tem sido espremido até à exaustão de quatro em quatro dias.


As inscrições na Liga Europa
Numa altura em que a prioridade principal era o campeonato, parecia-me lógico que se aproveitasse a Liga Europa - pelo menos nestas eliminatórias iniciais - para dar uso à profundidade do plantel, resguardando os principais jogadores para as competições internas (campeonato, Taça de Portugal e Taça da Liga em fases decisivas). Jesus só podia fazer três alterações na lista e decidiu inscrever Bryan Ruiz, Montero e Rúben Ribeiro. Percebo Rúben, até consigo aceitar a escolha de Montero, mas a inclusão de Bryan pareceu-me totalmente despropositada, considerando só termos um lateral esquerdo. E lá está, numa ótica de preparar o futuro, pareciam-me jogos ideais para ir lançando Misic e Wendel.
Nota posterior: Misic não podia ser inscrito porque jogou na Liga Europa pelo Rijeka.

A gestão de plantel
Ao longo das últimas semanas, tenho tido muita dificuldade em compreender algumas das escolhas de Jesus na gestão do plantel. Deixo aqui um par de exemplos.  
Primeiro quando, a ganhar por 3-1 em Astana - com a eliminatória praticamente decidida -, não aproveitou para amarelar vários jogadores que estavam em risco de suspensão, como Bruno Fernandes, Gelson, Coentrão e Gelson. Espero que, se tudo correr da melhor forma na receção ao Plzen, haja espaço para corrigir esse erro. 
Depois, na segunda mão contra o Astana, ao decidir levar a jogo Dost - quando me parecia um bom jogo para Doumbia ou até Montero (nenhum dos dois foi a jogo) - e Bruno Fernandes. Aceitaria, no entanto, que colocasse Bruno Fernandes a titular caso fosse para o deixar de fora no jogo seguinte contra o Moreirense (pois estava em risco de suspensão para o Dragão), mas, como sabemos, acabou por ser titular nos dois encontros. Ainda assim, é justo referir que Jesus rodou bastante a equipa nessa partida, deixando de fora Piccini, Coates, Acuña e Gelson.
Apesar disso, não acho que Jesus tenha tido responsabilidade na lesão de Dost - não parece que tenha sido uma lesão ligada a uma carga excessiva de jogos, e que poderia perfeitamente ter acontecido num treino.

Refém das suas próprias ideias de jogo
O Sporting atual está muito longe da versão rolo compressor de há duas épocas. A explicação para isto está, a meu ver, intimamente ligada ao fracasso rotundo de 2016/17: Jesus tomou como prioridade para 2017/18 não ter os mesmos problemas defensivos, que ditaram o afastamento prematuro do Sporting da luta por todas as competições na época passada. Justiça seja feita, o Sporting está muito mais sólido defensivamente, mas a que custo? Olhando para o onze, temos dois laterais pouco ofensivos (mesmo Coentrão - que tem feito uma excelente época - sobe muito menos do que quando estava no seu auge), dois alas/extremos com um enorme índice de trabalho defensivo (o que acaba, de uma forma ou de outra, por condicionar a disponibilidade para gerar desequilíbrios na frente) e dois médios centro que, neste sistema de jogo, não têm qualquer margem para facilitar quando não temos a bola em nosso poder.
Quase que parece que os nossos jogadores de cariz ofensivo são escolhidos, em primeiro lugar, em função do que podem oferecer no momento defensivo. Os reflexos disso são óbvios: o Sporting costuma dominar os jogos, mas em grande parte do tempo os adversários parecem demasiado confortáveis defendendo na expectativa, porque falta repentismo ao nosso futebol. Por outras palavras, o Sporting é uma equipa demasiado previsível quando tem a bola.
Perante isto, Jesus não tem conseguido estabelecer um nível de dinamismo superior na equipa. Parece colocar sempre uma importância superior no potencial desequilíbrio defensivo da equipa do que na potencial capacidade adicional de desequilibrar na frente. Parece estar refém das suas próprias ideias de jogo, mesmo que estas não estejam a ser suficientemente adequadas para o tipo de oposição que a equipa encontra.

Os pecados de Jesus que referi atrás devem, no entanto, serem enquadrados no panorama global das coisas. Em primeiro lugar, as condicionantes
  • O desgaste. De entre os grandes, o Sporting é a equipa que tem mais jogos oficiais disputados: 45, contra 41 de Porto e 38 de Benfica. Ou seja, o fator desgaste tem tido, nos últimos dois meses, um peso que não se pode ser negligenciado.
  • O Sporting não tem a mesma margem de erros que os rivais. O Benfica tem os seus Tondelas, o Porto tem os seus Portimonenses, o Sporting tem constantemente adversários dispostos a morrer em campo. Há quem parta para o início da época sabendo que tem, pelo menos, 18 pontos garantidos. E depois ainda há os Césares da vida, que, mesmo sem jogarem, conseguem forçar uma série de lapsos não forçados nos setores mais recuados de algumas equipas em certos jogos. É a podridão do futebol português no seu máximo esplendor.
  • As arbitragens. Desde janeiro que não temos uma única arbitragem que não tenha inclinado o campo contra nós. O VAR vai inibindo os árbitros de fazerem a sua magia habitual em lances demasiado óbvios - quer dizer, nem isso, basta lembrar o golo anulado a Doumbia frente ao Feirense -, mas os homens do apito não nos dão uma abébia quando lhes cheira a vulnerabilidade. Mathieu foi expulso por fazer o mesmo que Filipe e Rúben Dias fazem repetidamente sem punição. A expulsão de Petrovic foi uma vergonha. Ao invés, os adversários podem bater o que quiserem nos nossos jogadores, já sabem que o cartão custa mais a sair. É muito mais complicado jogar contra 14 do que contra 11.

Depois, só um cego é que não consegue ver que Jesus trouxe um nível de maturidade ao nosso futebol que há muito não se via. Para mim, a forma mais fácil de explicar a diferença pré-Jesus e pós-Jesus é a forma como encarava e encaro os desafios europeus. Há três anos, temia que qualquer jogo com uma equipa europeia de topo acabasse em goleada (ainda consequência do desastre com o Bayern). Agora, essa ideia nem me passa pela cabeça porque sei que o Sporting será capaz de discutir o jogo com qualquer adversário.

O Sporting de Jesus está construído para ser uma equipa capaz de disputar jogos contra qualquer adversário, e tem demonstrado constantemente que o consegue fazer: em toda a época, houve apenas dois jogos em que estávamos "derrotados" a 10 minutos do fim: nas deslocações a Barcelona e ao Estoril. Claro que está sujeito a que nem sempre consiga vencer, quer na Europa, quer internamente. O título nacional está perdido, mas até à jornada passada estávamos apenas com dois pontos a menos do que em 2015/16, uma época em que apenas não nos sagrámos campeões porque houve o desvirtuamento mais escandaloso de um campeonato de que há memória. Em relação a esta época, não me parece anormal que tenhamos empatado cinco jogos e perdido dois, em 25 jornadas. O que me parece anormal é como é que os nossos rivais empatam e perdem tão pouco. As condicionantes acima listadas explicam o porquê de tamanha eficácia pontual. E, num dos casos, também se pode olhar para a diferença de rendimento interno para o nulo rendimento contra adversários europeus. 

Em função de tudo aquilo que referi anteriormente, parece-me absurdo que se equacione a saída de Jesus agora ou na próxima época, assim como também acho prematuro que se fale já em renovação de contrato. Independentemente do que aconteça daqui para a frente, Jesus deve cumprir a sua quarta época ao serviço do Sporting. Isto para mim é uma evidência, mas também não deve ser interpretado como um Jorge Jesus forever, porque todos os ciclos têm o seu fim. Simplesmente, neste momento, e neste ecossistema viciado que é o futebol português, não me parece que exista outro treinador (daqueles que estão ao nosso alcance) que ofereça melhores garantias de sucesso.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Good vibrations

Do ponto de vista técnico-tático, a goleada imposta ontem ao União da Madeira pouco significa, considerando as fragilidades naturais de um adversário do escalão interior que passa por uma crise bastante complicada - que já vai em rescisões por justa causa por salários em atraso -, mas há outro tipo de sinais positivos que se podem retirar desta partida.

A ideia de Jesus em levar a jogo uma equipa bastante aproximada da titular - apenas Salin e Doumbia não fazem parte do grupo de 13 jogadores que têm composto o núcleo duro do treinador - é facilmente compreensível, apesar de não estarmos a falar de uma competição prioritária: mantém a equipa com algum ritmo competitivo num período de paragem do campeonato de duas semanas e meia, não corre grandes riscos do ponto de vista físico (a equipa levou o jogo a sério, mas nunca necessitou de impor uma intensidade elevada) ou disciplinar (uma eventual expulsão limparia no jogo com o Belenenses), ao mesmo que tempo que, goleando, colocaria o Sporting numa posição privilegiada para garantir as meias-finais da Taça da Liga na terceira e última jornada desta fase de grupos.

Nesse sentido, parece-me que o investimento na partida de ontem deu o retorno de que Jesus estaria à espera. Analisando do ponto de vista individual, foi importante ver Doumbia a colocar novamente o seu nome na lista de marcadores: apesar de revelar ainda alguma ferrugem - o que é natural face à sua curta e irregular utilização - é fundamental que o costamarfinense comece a ganhar embalagem para dar o contributo que dele se espera na ultra-intensiva fase de jogos que (desejavelmente) teremos no primeiro trimestre de 2018. E Iuri deu finalmente um ar de sua graça, veremos se terá oportunidade de lhe dar continuidade frente ao Belenenses e mostrar ao treinador que pode contar com ele até ao final da época.

O resto do retorno mede-se na forma séria como a equipa encarou a partida, que denota compromisso com os objetivos do clube. Todos tiveram vontade de contribuir para o avolumar do resultado - basta ver como os centrais, à falta de desafios defensivos, faziam questão de se integrar ofensivamente, ou como, após os golos, Dost ia buscar a bola à baliza para a levar para o círculo central para acelerar o reatamento da partida -, e é visível o bom ambiente pela forma como se congratulavam mutuamente nos festejos e por outras pequenas interações que foram acontecendo.

Boa gestão e bom aproveitamento de um jogo que, à partida, nem teria muito para oferecer.





terça-feira, 5 de dezembro de 2017

"Não vou jogar com os meus Messis todos"

Na conferência de imprensa de lançamento do Barcelona - Sporting, Jorge Jesus deixou em aberto a possibilidade de fazer algumas poupanças para o jogo de sábado no Bessa:
"Não, não vou jogar com os meus Messis todos, vou jogar com alguns. Achamos que o jogo tem uma estratégia diferente e também porque o encontro à frente é igualmente muito importante, para o campeonato. Exatamente como o treinador do Barcelona vai fazer, de certeza. Mas jogue quem jogar, dá-nos segurança e garantias para fazermos um grande encontro"

É uma decisão muito complicada: fará sentido rodar jogadores num jogo de tudo ou nada, que pode determinar a continuidade na Liga dos Campeões? Na minha opinião, faz sentido. Para todos os efeitos, não estamos dependentes de nós próprios para seguir em frente, e é pouco provável que a noite de logo nos brinde com uma derrota do Barcelona e uma derrota ou empate da Juventus. Como tal, Jorge Jesus pode e deve poupar os elementos mais desgastados, se isso permitir utilizá-los sem restrições na próxima jornada da Liga. Obviamente que não falo numa mudança geral no onze, mas numa verdadeira rotatividade, mexendo num conjunto reduzido de peças.

A alteração que me parece mais evidente é a introdução de Bruno César na equipa titular. O brasileiro parece verdadeiramente talhado para este tipo de jogos, e não vamos querer impedi-lo de deixar novamente a sua marca no Camp Nou. A sua entrada permitirá a Jesus poupar um de dois dos jogadores mais desgastados da equipa: Acuña ou Bruno Fernandes. Se Jesus decidir poupar os dois, então Podence poderá também ir a jogo. Seria também um bom jogo para poupar Coentrão, mas não havendo alternativa, é esperar na continuidade das boas indicações físicas que tem dado nas últimas partidas. 

A meu ver, Rui Patrício, Piccini, Coates, Mathieu, William, Battaglia, Gelson e Dost só não jogarão se tiverem algum problema físico.

Aguardemos pela decisão de Jesus.

sábado, 19 de agosto de 2017

Jogo de vida ou de morte?

E ao 3º fim-de-semana de agosto, altura em que muitos portugueses ainda vão iniciar as suas férias, e é possível que já haja quem faça do desafio de logo como um jogo de vida ou morte para o Sporting. Para que fique claro, penso que é obrigatório que o Sporting vença os dois próximos jogos: depois de três jogos relativamente pobres no que toca a nota artística, é muito importante, animicamente, que o Sporting passe no terreno de dois adversários que serão complicados; e no caso particular do Steaua, por uma questão do prestígio europeu e do dinheiro que uma qualificação para a fase de grupos da Liga dos Campeões. 

Mas daí estar-se já a fazer o enterro da equipa caso não se vença em Guimarães, parece-me um disparate que só se pode justificar pelos nervos causados pela ausência de bom futebol e por alguns sinais que apontam que esta época seja uma repetição da anterior. Em primeiro lugar, convém haver a consciência de que o Sporting não vence em Guimarães para o campeonato desde a época de Leonardo Jardim. De então para cá, as nossas deslocações à cidade-berço têm sido um desastre, pelos resultados, ou pela forma que os resultados foram obtidos. Depois, não faz qualquer sentido medir uma época inteira pelos resultados dos três primeiros jogos do campeonato - sendo que, até agora, a equipa tem 6 pontos em 6 possíveis.

Não acho que as justificações que Jesus deu na conferência de imprensa de ontem façam sentido - carregadas de incorreções e de desculpabilização própria -, mas tem razão quando diz que é preciso tempo para afinar processos. Se o conseguirá fazer ou não, isso é outra questão: curiosamente, na sua melhor época (2015/16), o Sporting entrou com uma vitória de aflitos frente ao estreante Tondela e empatou em casa com o Paços, enquanto na sua pior época (2016/17) entrou a ganhar de forma categórica contra Marítimo, Paços e Porto. Um início tremido deu origem ao melhor futebol que vi o Sporting praticar nos últimos 20 anos, um início pujante deu origem a uma época deprimente. 

Há muitas coisas a corrigir e a aperfeiçoar, sem dúvida, mas não faz sentido cair no desânimo caso o Sporting obtenha um mau resultado logo, tal como não faz sentido ficarmos eufóricos se a equipa vença em Guimarães e em Bucareste com nota artística elevada. Para o bem e para o mal, a época é longa, demasiado longa para estarmos a fazer juízos definitivos numa altura em que o mercado de transferências ainda nem sequer fechou...

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Copo meio cheio vs copo vazio

Não deve haver sportinguista que não tenha ficado tremendamente desiludido com a prestação da equipa no princípio de noite de ontem. Foi quase tudo mau, e não se consegue entender como é que a equipa produz tão pouco no ataque ao fim de 8 semanas de trabalho. Na pré-época, todos evidenciavam o problema na defesa e ninguém parecia preocupado com a capacidade ofensiva na equipa. Jesus mexeu no onze e parece ter encontrado uma solução para a questão da defesa, mas, infelizmente, resolveu-o à custa da criatividade. Se ainda havia dúvidas depois do que se viu contra o V. Setúbal, o jogo de ontem encarregou-se de as esclarecer em definitivo: no momento de forma atual ao nível individual, iniciar jogos com este onze é dar 60 minutos de avanço ao adversário.




As hipóteses de qualificação - estaríamos todos à espera que o Sporting tivesse dado um passo importante no sentido de assegurar a qualificação. Isso não aconteceu, mas, apesar de tudo, a eliminatória não ficou comprometida. 0-0 é um resultado ingrato para a equipa que faz a 2ª mão em casa, pois fica com metade da margem de erro da equipa visitante. De qualquer forma, o Sporting terá sempre que marcar se quiser passar. Darão os romenos mais espaços pelo facto de jogarem perante o seu público? Provavelmente, sim. O mais importante é saber se será o Sporting capaz de aproveitar esses espaços, face ao que se tem visto ao nível da produção ofensiva.

"Muita fortes a defender" - Jesus, no brilhante exercício de copo meio-cheio que efetuou na flash interview após o final do jogo, destacou o facto de o Sporting ter feito o seu 3º jogo oficial e continuar sem sofrer golos. Concordo que, na primeira parte, o Sporting esteve muito bem defensivamente. O Steaua praticamente que nem cheirou a área de Rui Patrício, com exceção de uma oportunidade criada através do nosso flanco direito que o guarda-redes salvou junto ao poste. Na 2ª parte, a história foi diferente: o Steaua teve duas excelentes oportunidades para marcar quando as pernas começaram a faltar a alguns jogadores. Ainda assim, é justo assinalar as melhorias neste departamento face ao que foi o nosso principal problema na época passada.



Persistência no erro - o Steaua veio jogar com uma estratégia idêntica à do V. Setúbal, e Jorge Jesus apostou na mesma estratégia que utilizou frente ao V. Setúbal. Estranho seria se a combinação desses dois fatores desse um resultado diferente. A solidez defensiva que Jesus elogia deve-se muito ao facto de utilizarmos dois laterais e dois médios centro cuja principal preocupação é assegurar equilíbrios defensivos e que, como tal, pouco ou nada contribuem ofensivamente. Mas se, contra o V. Setúbal, Jesus não foi particularmente lento a perceber que tinha que arriscar mais - colocando Doumbia e Bruno Fernandes à passagem dos 60' -, ontem foi bastante mais conservador. Lançar Doumbia quando a bola não chegava lá à frente em condições dificilmente poderia dar bom resultado. Bruno Fernandes entraria perto dos 70', quando a equipa já se mostrava demasiado ansiosa e cansada para poder passar a atacar com a velocidade e discernimento necessários.

Problemas nas laterais - Coentrão, não arriscando, continua a ser um lateral competente. O problema é que ficou sem pernas demasiado cedo. Aos 70' já andava a passo e não conseguia dominar bolas fáceis. A expulsão do jogador romeno acabou por lhe poupar a humilhação de ser substituído por Jonathan Silva - Jesus voltou atrás na substituição e preferiu lançar Iuri Medeiros quando viu que ia jogar em superioridade numérica no resto do tempo. Piccini, defensivamente também é competente, mas com a bola nos pés parece que fica paralisado sem saber o que fazer a seguir. Não havendo laterais que subam bem e com frequência, o aproveitamento das faixas laterais para criar desequilíbrios fica demasiado dependente daquilo que os extremos conseguirem fazer no 1 contra 1... ou no 1 contra 2. Para além disso, não temos jogadores que saibam centrar.

Ausência de jogo interior - nada que surpreenda, considerando os jogadores que estão em campo. Adrien, que não é propriamente um fora-de-série a criar espaços pelo meio, está num mau momento de forma. Battaglia, quando ataca, fá-lo em condução, e não em trocas de bola. Podence está num mau momento. Dost pode ajudar, mas não é ali que deve desequilibrar. Acuña e Gelson tentam movimentos interiores, mas têm pouquíssimas opções com que trabalhar. Resumindo, neste momento, estes jogadores não chegam para desmontar nenhuma defesa minimamente organizada.

Desorientação - perdi a conta aos passes, cruzamentos e domínios de bola mal efetuados sem haver qualquer pressão ou oposição. Na segunda parte, num livre no meio campo do Steaua, os centrais sobem para a área, mas Adrien bate para trás, e a construção segue como se fosse um lance em que a equipa estivesse organizada. Perto do fim, houve um lance em que o Sporting tinha muitos jogadores perto da área, e foi Doumbia que desceu para receber a bola - ou seja, tivemos o ponta-de-lança a funcionar como 4º ou 5º elemento mais recuado. Demasiados pormenores a falhar que denotam alguma desorientação na equipa quando as pernas, a confiança e o discernimento começam a falhar.



Infelizmente, Jesus tem razão: o Steaua foi um adversário do nosso nível, mas a responsabilidade de isso ter acontecido é inteiramente sua. Não quer dizer que as coisas não melhorem com mais tempo de trabalho e com a subida de forma de certos elementos, mas, neste momento, contra adversários teoricamente mais fracos que não vêm discutir o resultado, este onze não é solução.

É obrigatório vencer os próximos dois jogos, pelo que esperemos que o treinador se consiga desfazer imediatamente dos equívocos em que parece envolvido.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

BOMBA: imagens exclusivas do choque entre BdC e JJ sobre Ié



Imagens chocantes, que demonstram até alguma violência naquilo a que o Correio da Manhã designou, algo eufemisticamente, de "choque". Os rostos não se percebem claramente, mas as palavras que se conseguem ouvir não enganam.

Aqui fica o vídeo:







quarta-feira, 31 de maio de 2017

Balanço de 2016/17: Jorge Jesus

Um desastre: não há outra forma de descrever o trabalho de Jorge Jesus nesta época. Depois de um ano em que o treinador conseguiu subir significativamente a competitividade da equipa, ninguém esperava que esta época se registasse uma quebra de rendimento tão significativa, ainda para mais quando o investimento em jogadores foi tão elevado. 

Jesus pode ter razão quando disse que as arbitragens ajudaram a afastar o Sporting do primeiro lugar do campeonato em momentos cirúrgicos, mas, infelizmente, o campeonato não foi a única competição em que ficámos prematuramente fora da luta. Saímos da Taça de Portugal após um jogo muito pobre em Chaves, tínhamos a obrigação de passar a fase de grupos na Taça da Liga - independentemente das circunstâncias -. e a campanha europeia acabou por ter contornos humilhantes quando nem conseguimos assegurar o 3º lugar no grupo.

Muito pouco para um plantel tão caro e desequilibrado. Jorge Jesus pediu e recebeu muitos jogadores, alguns bastante caros e quase todos eles a auferirem salários elevados, mas não conseguiu extrair deles a qualidade exibicional exigível, como André, Petrovic, Elias, Douglas, Markovic ou Campbell. Insistiu teimosamente num Bryan Ruiz em nítido subrendimento, deu inúmeras oportunidades a um Alan Ruiz que tardava em mostrar serviço, perdeu-se em equívocos na lateral esquerda, e não foi capaz de criar de inventar as alternativas de que a equipa necessitava.

Igualmente lamentável foi a forma - bem típica nele - como foi sacudindo as responsabilidades pelo que de mau ia acontecendo. Em Madrid, disse que o Sporting não teria perdido o jogo caso estivesse no banco, mas não fez o mea culpa pelos excessos que o levaram a ser expulso e suspenso por dois jogos. No final da época, ao fazer uma espécie de balanço, queixou-se de não ter jogadores suficientes de 10 milhões, mas esqueceu-se que faz parte do seu trabalho desenvolver e valorizar jogadores de valor inferior - principalmente quando recebe um salário principesco.

O único aspeto verdadeiramente positivo foi a explosão de Gelson Martins, um jogador que Jesus tinha lançado na época anterior.

Em dois anos de Sporting, Jorge Jesus realizou uma excelente época e uma época paupérrima. Justifica, obviamente, uma terceira época. Para o bem ou para o mal, servirá de tira-teimas para a quarta.


quarta-feira, 10 de maio de 2017

O futuro de Jesus


Olhando em retrospetiva para o que foram as principais notícias do dia de ontem, creio que todos já perceberam que está aberta a época de discussão do futuro de Jorge Jesus. O tema fez o pleno nos desportivos e tabloides, havendo, no entanto, versões para todos os gostos. 

O Record fala na existência de sintonia entre Bruno de Carvalho e treinador em relação aos principais vetores de abordagem à nova época. A Bola e O Jogo falam num atual estado de indefinição que não se resolverá antes da realização de uma reunião entre ambos, a decorrer algures durante esta semana, estando todos os cenários em equação - com o pormenor de que Jorge Jesus aceitará sair sem fazer grandes exigências. O Correio da Manhã, ao seu melhor estilo, já está a fazer o velório ao treinador, dizendo que Jorge Mendes está a trabalhar numa colocação para Jesus - no entanto, ao contrário da versão anterior, este não aceitará sair perdendo dinheiro na troca. E, finalmente, temos Rui Santos, figura com acesso privilegiado a Jorge Jesus, a dizer que estamos no fim de ciclo do treinador no Sporting.

Na verdade, estranho seria que se chegasse a maio sem que começassem os rumores sobre o futuro de Jorge Jesus. Já é um clássico do futebol português. Foi uma constante enquanto esteve no Benfica, e aconteceu também no final da época passada: relembro os rumores que davam uma muito possível rescisão do treinador para rumar até ao Porto. Bruno de Carvalho terminou com as especulações renovando o contrato a Jesus com um aumento do salário.

Neste momento, JJ tem mais dois anos de contrato. Não tem cláusula de rescisão, pelo que a parte que decidir quebrar o vínculo terá que indemnizar a outra pelo valor remanescente do contrato. Ou seja, ganhando Jesus 6 milhões ao ano (há quem diga que recebe 8), estamos a falar de cerca de 12 milhões de euros que poderão ser exigidos a quem decidir avançar para a rescisão unilateral.

Apesar do fracasso da época em curso, continuo a achar que Jorge Jesus é o melhor treinador que o Sporting pode ter. Obviamente que, ao fazer esta afirmação, refiro-me a um Jorge Jesus liberto de preconceitos e teimosias injustificadas em relação aos jogadores com quem quer trabalhar, compreendendo a identidade do Sporting e as suas limitações orçamentais.

A época passada foi fenomenal. Jorge Jesus exponenciou o rendimento de jogadores como João Mário, Adrien e Slimani, lançou Gelson, Matheus e Rúben Semedo, recuperou Coates e Bryan Ruiz para um patamar que há muito não atingiam, e pôs a equipa a praticar o melhor futebol desde os tempos de Balakov, Figo e Sousa. O Sporting só não foi campeão porque a liga portuguesa foi uma farsa. Definitivamente não foi por Jorge Jesus que não fomos campeões na época passada. E o clube conseguiu realizar as duas maiores vendas da sua história.

Ou seja, como balanço, temos um ano muito bom e um ano muito mau. Na minha opinião, Jesus tem condições para continuar se, obviamente, estiver comprometido com o projeto do Sporting e se aceitar que tem de partilhar o poder com uma estrutura profissional que complemente as suas competências técnicas, nomeadamente ao nível do dossier das contratações. Por outro lado, se Bruno de Carvalho quiser puxar essa responsabilidade para si, tem obrigatoriamente de se rodear muito melhor: convém não esquecer que o sucesso médio das contratações pré-Jorge Jesus foi bastante reduzido.

O que peço neste momento é que os dois se entendam rapidamente em relação ao que precisa de ser feito, que tomem medidas que fortaleçam as competências necessárias nas várias áreas do futebol profissional (com a óbvia exceção do excelente departamento médico que temos) e que ponham mãos à obra, de forma a chegarmos ao princípio de julho com a casa e o plantel tão arrumado quanto possível.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

A cartilha pré-dérbi

O Correio da Manhã divulgou ontem, na sua edição escrita, alguns pormenores sobre a cartilha que Carlos Janela disponibilizou para os minions benfiquistas para preparar o dérbi de passado dezembro. À noite, a CMTV entrou em maior pormenor na questão, divulgando passagens completas do documento.

Como seria de esperar, é mais uma demonstração de propaganda doentia e incendiária, assente no insulto e difamação, a que nem o filho do presidente do Conselho de Arbitragem - um rapaz de quinze anos - escapou. Curiosamente, esta cartilha parece ter contagiado certos órgãos de comunicação social, que não tiveram pudor em dar um destaque desmesurado a um mero tweet de um menor, expondo-o perante o seu público.

Divido o que a CMTV divulgou em três partes. Em primeiro lugar, um resumo de tudo o que foi escrito:


Depois, o texto detalhado sobre o filho de Fontelas Gomes. É absolutamente degradante a forma como a máquina de comunicação tenta arrasar um miúdo de 15 anos.


Finalmente, o detalhe sobre a parte dedicada a Jesus.



É curioso registar que a quantidade de ataques e insultos das cartilhas divulgadas é enorme - parecem quase intermináveis -, mas a verdade é que ainda só conhecemos 3 cartilhas... imaginem o que não terá sido escrito nas outras 33...

quarta-feira, 22 de março de 2017

Boa visão de jogo

Boa visão de jogo revelada pelo treinador sportinguista e pelo presidente benfiquista, ontem, na Assembleia da República, ao evitarem habilmente - o mister com uma finta de corpo e o estadista com um arranque em velocidade - um encontro imediato à frente das câmaras que seria, no mínimo, embaraçoso. 

terça-feira, 21 de março de 2017

A ladainha de Bernardo Silva

A saída de Bernardo Silva é um assunto mal resolvido entre os benfiquistas. Custa-lhes que um jogador, indiscutivelmente talentoso, que sempre mostrou ser um adepto fervoroso no seu clube não tenha tido oportunidade de se impor na equipa principal do Benfica. E como lhes custa, manda a sua consciência que encontrem um responsável pelo sucedido. E quem melhor do que Jorge Jesus para levar com as culpas?

Sim, Jorge Jesus, na sua qualidade de treinador, podia ter aberto caminho a uma maior utilização de Bernardo Silva... mas haveria realmente condições para o fazer perante a concorrência que existia? É que falamos de um plantel que tinha jogadores como Gaitán, Salvio, Markovic, Rodrigo, Djuricic ou Sulejmani, que ganhou tudo o que podia ganhar internamente (Liga, Taça de Portugal e Taça da Liga) e atingiu a final da Liga Europa. É óbvio, perante a riqueza do plantel e a exigência do calendário, que Jesus não tinha grande margem para lançar jogadores da equipa B. E convém relembrar que, nessa época (2013/14), Bernardo Silva tinha 19 anos e estava longe de ser o produto acabado que é hoje.

Em 2014/15, Bernardo Silva integrou os trabalhos do plantel na pré-temporada. Foi suplente utilizado nos dois jogos da Taça de Honra da A.F. Lisboa. Três dias depois, foi suplente utilizado contra o Marselha. Não foi utilizado na Eusébio Cup. Voltou a não ser utilizado contra o Sion mas, no dia seguinte, foi suplente utilizado contra o Athletic. Depois seguiu-se a participação na Emirates Cup, também disputada em dias consecutivos: Bernardo Silva não jogou contra o Arsenal, mas foi suplente utilizado contra o Valência. O jogador não teve uma grande utilização ao longo da pré-época, é certo, mas não foi propriamente um vazio de oportunidades.

Pelo meio, rebentou uma polémica causada pelo pai do jogador, que não gostou de ver o filho a treinar a defesa esquerdo. Uns dias mais tarde, antes do início oficial da época, Bernardo Silva foi emprestado ao Mónaco.

Para evitar discussões desnecessárias, partamos do princípio de que Jesus não gosta do jogador, e que não colocou entraves ao empréstimo do jogador. Terá a sua quota parte de responsabilidade pela não afirmação de Bernardo no Benfica? Sim, certamente. Mas então e a estrutura? Se a estrutura benfiquista confiava assim tanto no jogador, por que razão não o emprestou a outro clube sem cláusula de opção de compra? Ainda por cima, vale a pena recordar que isto aconteceu apenas 10 meses antes de o contrato de Jesus terminar - e certamente que, nessa altura, Vieira já estaria a ponderar não renovar com o treinador, como se veio a verificar. Se era apenas uma questão de o treinador não gostar de Bernardo Silva, no final da época o problema ficaria definitivamente resolvido.

Se tiver que haver uma distribuição das responsabilidades, diria que Jesus não terá mais do que 25%. A maior parte das culpas deveria ser atribuída à estrutura, que precipitou a saída de um jogador que ainda tinha vários anos de contrato - ao contrário de Jesus.

E, já agora, Bernardo Silva poderia sempre ter recusado assinar com o Monaco. Certamente que ninguém o obrigou a pôr a sua assinatura no papel. Suponho que tenha sido uma decisão difícil, seguramente ajudada por conselhos importantes que terá recebido nesse sentido - e que não terão sido dados por Jorge Jesus.

Daí que não faça qualquer sentido que o jogador aponte unicamente na direção do treinador para justificar a sua não afirmação no Benfica, como voltou a fazer ontem:


Será que seria mesmo assim? É que Rui Vitória também já demonstrou ter as suas obsessões por determinados jogadores que não demonstram um rendimento convincente... como Salvio ou Luisão. Rui Vitória também tem as suas prioridades, e não perder a mão do balneário é uma delas.

É fácil perceber o objetivo destas declarações. Bernardo Silva é uma pessoa inteligente, e sabe que ao fazer declarações destas está a ir ao encontro daquilo que os adeptos do seu ex-clube querem ouvir, mesmo que isso não faça grande sentido.

Mas, mesmo que tivessem sido palavras sinceras, bastaria que Bernardo Silva perdesse um minuto da sua vida a ouvir estas palavras do homem que o vendeu...


... para perceber que a sua estadia no Benfica estava destinada a não ser muito prolongada, mesmo que a titularidade lhe aterrasse no colo. É ver o tempo que Renato Sanches ou Gonçalo Guedes ficaram a partir do momento em que começaram a ser titulares com regularidade. Se Bernardo Silva não ficou o tempo que desejava no Benfica, não foi por causa de Jorge Jesus: o seu destino já estava traçado por Luís Filipe Vieira e por Jorge Mendes.