Mostrar mensagens com a etiqueta Bas Dost. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Bas Dost. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de agosto de 2019

Bye Dost

O Sporting anunciou há pouco um princípio de acordo com o Eintracht Frankfurt para a venda de Bas Dost. A decisão não surpreende e, até certa medida, é compreensível, mas não deixa de ser uma movimentação de enorme risco para a direção e para o treinador. E, obviamente, para o clube.


Comparando com outros pontas-de-lança do Sporting do século XXI, falamos de alguém que ultrapassou Liedson e Slimani e apenas não conseguiu superar (o insuperável) Mário Jardel. Foi um atleta que sempre se mostrou muito acessível e que nunca escondeu o quanto gostava de cá estar. O episódio da rescisão levou a que se abrisse uma ferida difícil de sarar (pun not intended) entre jogador e adeptos, ainda que, de todos os jogadores, o holandês fosse aquele que mais razões teria para querer sair do clube.

Todos percebem que o salário de Dost era excessivo - Cintra também deixou heranças pesadas - para a atual capacidade financeira do Sporting, ainda mais considerando o fraco rendimento desportivo dos últimos meses. Mas também todos sabem que esse salário poderia não custar muito a pagar caso Dost continuasse a fazer aquilo que demonstrou saber fazer tão bem - marcar golos atrás de golos, com um grau de aproveitamento extraordinário face às poucas oportunidades de que foi dispondo. 

Esqueçam a fraca contribuição defensiva e as limitações de mobilidade: para a realidade portuguesa, Dost é um jogador excecional à volta de quem se podia (e devia) construir uma equipa. Não foi essa a opção de Keizer e, infelizmente, tarda em mostrar-se acertada. Isso faz com que a saída de Dost tenha um sabor amargo, devido à sensação que nos deixa de uma oportunidade perdida que, a partir de hoje, se torna irreversível.

Os golos do holandês deixarão saudades. Muitas ou poucas, depende de quem for agora contratado para o seu lugar - e aqui reside o risco para a direção e treinador: se o novo reforço não corresponder às expetativas, não haverá forma de justificar por que razão se abdicou de um goleador mais que testado em vez de se tentar tirar o melhor proveito dele. Não é preciso perceber-se muito de futebol que não é todos os anos que se consegue encontrar um goleador como Dost.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Balanço da época, nº 5: Avançados



Bas Dost: ** 
2017/18: *** 

Iniciou a época a um excelente nível, chegando aos 10 golos apontados nas primeiras 13 jornadas (sendo que apenas foi titular em apenas 7 desses jogos devido a uma lesão no joelho). No entanto, caiu bruscamente de rendimento a partir de janeiro, sem qualquer confiança no momento de finalizar, ao ponto de parecer por completo um jogador inapto para alinhar numa equipa de primeira divisão. A lesão contraída acabou por ser uma benesse – para o jogador, que se arrastava nos relvados de forma deprimente, e para o clube, que encontraria em Luiz Phellype um goleador inesperado – que deu tempo ao holandês para se recompor psicologicamente. Ainda alinhou nas últimas quatro partidas – sempre como suplente usado -, mas foi o suficiente para voltar a colocar o seu nome na lista dos marcadores por duas ocasiões, ambas no Jamor, contra Belenenses e Porto, parecendo-se muito mais com o Dost que nos habituámos a admirar. 

É pouco provável que continue devido ao incomportável salário que Cintra lhe ofereceu quando voltou da rescisão. O Sporting não se pode dar ao luxo de pagar 6 milhões de euros brutos a um único jogador. 


Luiz Phellype: ** 

Analisando estritamente do ponto de vista do custo/rendimento, a contratação de Luiz Phellype foi um completo sucesso - nos últimos anos, apenas um jogador ficou acima nesta escala: Islam Slimani. O brasileiro não se integrou de imediato e precisou de tempo para apurar a forma física. A lesão de Dost deu-lhe o tempo e o espaço que precisava para se impor. Nos últimos 10 jogos da temporada, assinou 8 golos, incluindo um golo no Dragão e o penálti decisivo na final da Taça. 

Ainda é difícil avaliar se Luiz Phellype tem o que é necessário para ser o ponta-de-lança do Sporting. A forma como o Sporting se apresentou nos últimos meses não era propício a um volume de jogo ofensivo propício para alimentar goleadores, mas o brasileiro conseguiu uma taxa considerável de concretização das oportunidades flagrantes de que dispôs. Independentemente disso, é um jogador com quem se poderá contar para 2019/20. 


Fredy Montero: * 
2017/18: **
2015/16: *
2014/15: ** 
2013/14: **

Montero foi em 2019/20 exatamente aquilo que dele se poderia esperar: talentoso tecnicamente, mas sem a consistência competitiva necessária, podendo, no máximo, ser considerado um jogador útil para se ter no plantel. No entanto, os 3 milhões de euros anuais que recebia obrigavam a que fosse mais do que um jogador útil e pouco fiável, pelo que a decisão de o deixar sair para a MLS se compreende perfeitamente. 


Pedro Marques: - 

31 minutos na Liga Europa para se mostrar aos sportinguistas. Precisa de se impor nos sub-23 antes de poder ambicionar fazer parte do plantel principal. 


Raphinha: ** 

Não teve um começo de época complicado, com exibições abaixo do esperado – como tantos outros colegas – com Peseiro, ao que se juntou uma lesão contraída dias antes da entrada de Keizer que o deixou de fora dos relvados até ao final de dezembro. Progressivamente foi ganhando o seu espaço na equipa e terminou a época em bom nível como titular. 7 golos e 5 assistências são números abaixo do que pode fazer, mas, agora que está plenamente adaptado ao clube e ao treinador, tem todas as condições para explodir em 2019/20. 


Abdoulay Diaby: * 

Um caso oposto ao de Raphinha. Diaby tem números (7 golos e 8 assistências) que dão uma imagem errada (pela positiva) daquilo que rendeu em campo. Cintra apresentou-o como o jogador mais rápido do futebol português (Rafa deve ter-se rido às gargalhadas), e, de facto, Diaby assemelhou-se mais a um atleta do que a um futebolista – mas não na velocidade, mais na sua (falta de) relação com a bola, tantos foram os momentos constrangedores que proporcionou. Um flop de 5,5 milhões que não tem lugar no plantel da próxima época. 


Jovane Cabral: * 

Teve um impacto inesperadamente positivo na fase inicial da época. Soube fazer uso da sua capacidade física quando lançado a meio da segunda parte para abanar o jogo. É, efetivamente, um jogador útil para ter no banco, como atestam os números: 4 golos e 8 assistências em 1.193 minutos de utilização, que dá uma média inferior a 1 golo/assistência por cada 100 minutos. No entanto, não tem capacidade neste momento (nem sei se alguma vez terá) para mais do que isso. Jogando como titular, raramente conseguiu justificar a aposta. Jovane marcou 4 golos e fez 5 assistência entrando como suplente; como titular apenas registou 3 assistências. 

Suponho que em 2019/20, o melhor para Jovane seja o empréstimo a outra equipa da I Liga. 


Nani: ** 
2014/15: ** 

Foi provavelmente a grande contratação da época e foi um dos jogadores em destaque com José Peseiro – numa altura em que Bruno Fernandes estava a render muito abaixo do que pode. Esteve ao nível das expetativas criadas, jogando e fazendo jogar, ainda que – mais uma vez -, grande parte das bancadas não conseguisse compreender as suas contemporizações à espera de uma boa opção para dar sequência à jogada. 

A sua saída em janeiro foi, por isso, inesperada e mal compreendida entre os adeptos. A componente salarial terá tido um peso fulcral nessa decisão, mas, ao que se diz, não seria fonte de bom ambiente no balneário. A verdade é que a equipa não se ressentiu da sua saída - nem desportivamente, nem, sobretudo, ao nível da liderança dentro de campo.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Retratos e momentos de uma tarde inesquecivel



A festa antes do jogo



Campo inclinado

Fonte: zerozero.pt


Nas bancadas



Um voo inesquecível

(via @ultras6p)



O desempate por penáltis (com som ambiente)




O momento em que te apercebes que ganhaste a Taça

Fonte: zerozero.pt


Ristovski invade o campo




Montero




Nani



Festejos em holandês

Fonte: zerozero.pt


Lágrimas de um gigante

(via @sporting_cp)


A caminhada de Renan até à tribuna



Mar verde e branco

(via @ultras6p)


O sabor da vitória

(via @ultras6p)


Gudelj




Ristovski e a possível saída de Bruno Fernandes

domingo, 26 de maio de 2019

Uma viagem louca de exploração aos limites do sofrimento

Não havia necessidade. Era escusado sermos submetidos novamente a mais um violento teste de stress ao sistema cardíaco, mas, à boa maneira das últimas conquistas do Sporting no futebol, a final da Taça de Portugal reservava aos sportinguistas mais uma montanha russa de sentimentos que nos levou da iminente euforia à depressão e da depressão à euforia final no espaço de poucos minutos.

As dificuldades enfrentadas foram mais que muitas. As ausências e lesões obrigaram Keizer a rapar o fundo ao tacho do plantel, indo a jogo com Bruno Gaspar e Diaby - que fez uma primeira parte surpreendentemente boa - e acabando com Ilori a lateral e Jefferson a médio centro. Há que reconhecer que o Porto dominou grande parte do jogo pela intensidade colocada na pressão e nos duelos a meio-campo, criando frequentemente perigo nas bolas paradas e quando esticava o jogo à procura de Soares e, principalmente, Marega. 

Mas há que dizer que esse domínio também aconteceu com a prestimosa colaboração da equipa de arbitragem. Jorge Sousa demonstrou que para se ser o melhor árbitro em Portugal não é necessário ser o que mais decisões acerta: basta saber como inclinar um campo sem afetar a nota que receberá. Essa habilidosa condução de jogo refletiu-se numa óbvia e constante dualidade de critérios na marcação de faltas e na punição disciplinar - incluindo uma expulsão perdoada a Manafá por agressão a Bruno Fernandes -, ou, por exemplo, na interrupção de uma jogada de contra-ataque do Sporting para mostrar um amarelo a Danilo por pisão (curiosamente, igual ao que valeu vermelho a Ristovski e o deixou de fora desta final). Mas não foi apenas isso: é um escândalo que o primeiro golo do Porto não tenha sido anulado por braço de Herrera na bola (jogar a bola com aquela área do ombro é ilegal). Foi uma infração clara cometida mesmo à minha frente e não é aceitável que nem fiscal-de-linha nem VAR tenham assinalado a falta. O mesmo fiscal-de-linha que conseguiu não ver um fora-de-jogo de um metro de Marega no golo que o VAR anulou.

Dificuldades que, juntando-se à forma como o Porto chegou ao empate nos descontos da segunda parte de prolongamento, quando já cheirávamos a Taça, e à grande penalidade falhada por Dost na abertura da nossa série, nos levaram-mais uma vez a explorar os limites do sofrimento que um adepto pode suportar. 

Um sofrimento que, no final, se transformaria na mais saborosa das emoções e numa conquista que ficará na nossa memória durante muitos anos: a dança de Renan entre os postes e a fa-bu-lo-sa estirada para sacudir o remate de Fernando Andrade, a frieza do improvável Luiz Phellype a garantir um troféu que todos desejávamos (e precisávamos) intensamente - tão bem ilustrado pelas lágrimas do gigante Mathieu no final -, e ainda a épica subida à tribuna dos jogadores (e em particular de Renan) num fantástico momento de comunhão com os adeptos que os ladeavam. E foi a linda festa em Alvalade.

Nós merecemos muito isto. Agora é tempo de desfrutar.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Oito

UM. A forma como o jogo decorreu acabou por apontar os holofotes noutras direções, mas deve ser sublinhada a importância de dois momentos de Raphinha para que a tarde fosse tão tranquila: o golo inaugural após interceção oportuna e finalização de classe; e a desmarcação e drible sobre Muriel que, para evitar o iminente segundo golo do brasileiro, fez falta para cartão vermelho - praticamente sentenciando o destino dos três pontos. Pode não ter tido tanto a ver com a goleada como outros colegas, mas nenhum outro jogador esteve tanto na génese desta vitória como Raphinha.

DOIS. Mais um jogo, mais um golo de Luiz Phellype. Com alguma colaboração de Guilherme Oliveira, é certo, mas mais um golo. Depois de algumas dificuldades iniciais - a utilização esporádica não ajudou, certamente -, o brasileiro contratado ao Paços teve o mérito de aproveitar da melhor forma a lesão de Dost e já leva sete golos nos últimos seis jogos para o campeonato. Desde que veio para o Sporting, leva uma interessante média de um golo marcado a cada 97 minutos. Se lhe acrescentarmos as 3 assistências que já soma, então temos uma ação decisiva a cada 68 minutos. Nada mau para uma contratação de 500.000 euros. Ontem, para além do golo já referido, teve influência direta em dois dos golos de Bruno Fernandes: foi sobre Luiz Phellype que foi cometido o penálti do 1-4, e foi autor de delicioso trabalho pela direita que culminou num passe altruista para o capitão fazer o 1-5.  

TRÊS. Os três golos marcados fazem de Bruno Fernandes a figura do jogo, que elevam para 31 (trinta e um) os tentos apontados na época colocam-no como o médio mais concretizador da história do futebol europeu numa só época. Mas não foi apenas isso: fez também o passe de régua e esquadro que desmarcou Raphinha no lance da expulsão de Muriel, o passe para o golo de Dost (não conta como assistência porque o holandês apenas marcou na recarga), e ainda uma assistência no golo de Luiz Phellype. Ou seja, mais uma exibição superlativa a preencher uma época de antologia.

QUATRO. Foi o cenário ideal para o regresso de Bas Dost, cerca de dois meses após o seu último jogo, considerando que o fosso psicológico em que o ponta-de-lança estava metido. Muito aplaudido no momento em que foi para o aquecimento e muito aplaudido quando entrou, precisou apenas de dois minutos para faturar e foi visível a alegria do holandês e de todos os seus colegas pelo regresso aos golos. Teve ainda uma ação decisiva no último golo, com uma simulação em que deixou a bola à mercê de Doumbia.

CINCO. Estreias a marcar de Gudelj e Doumbia, e de Borja a assistir. Mais uma assistência para Acuña e Diaby.

SEIS. Não foi preciso ao Sporting acelerar muito para ir para o intervalo com uma vantagem de dois golos. A segunda parte prosseguiu num ritmo médio e foi baixando gradualmente ao ponto de permitir ao Belenenses subir de forma mais insistente e chegar ao golo - mau passe de Mathieu e má abordagem de Borja, Ljujic passa com facilidade por Coates e remata cruzado para defesa incompleta de Renan (podia ter feito melhor) que Licá aproveitou da melhor forma. O golo da equipa da casa teve o condão de despertar o Sporting, que daí para a frente aumentou de forma drástica os níveis de agressividade e velocidade - que se traduziram em mais 6 golos no espaço de 25 minutos. 

SETE. Bela tarde de primavera, que, para além da goleada, serviu de adaptação ao relvado e à iluminação natural do Jamor com vista à final da Taça de Portugal. Foi pena que não houvesse mais sportinguistas nas bancadas.

OITO. Para além do registo histórico do número oito (Bruno Fernandes), os oito golos marcados são também assinaláveis. É preciso recuar 52 anos para encontrarmos outro jogo em que uma equipa marcou pelo menos oito golos num jogo do campeonato português na condição de visitante (Beira Mar 0-9 Benfica). O Sporting, em particular, não marcava tanto para o campeonato na condição de desde 1940 (Leixões 2-9 Sporting) (dados @playmaker_PT). Goleada histórica.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Segunda vida de Keizer?

Marcel Keizer arriscou e foi bem sucedido. O técnico holandês realizou uma revolução tática na equipa, formando um trio defensivo mais fixo - com Ilori descaído para a direita, Coates no meio e deslocando Borja para um posicionamento mais interior -, entregando a profundidade e largura dos flancos a Ristovski e Acuña quando o Sporting tinha a bola e puxando-os para uma linha de 5 defesas quando o Braga atacava. Simultaneamente, recuou Wendel para o lado de Gudelj e deu maior liberdade territorial a Diaby e Bruno Fernandes no apoio a Dost. 

No duplo pivot do meio-campo, Wendel fazia as despesas da ligação com o ataque e Gudelj assumia uma ação mais posicional, assegurando, em conjunto com o trio mais recuado, uma segurança defensiva mais sólida face ao adiantamento quer de Ristovski quer de Acuña. O trio de centrais complementou-se muito bem: Ilori e Borja estiveram muito bem na marcação e foram competentes na saída com bola, enquanto Coates esteve impecável (e implacável) nas dobras.

Estas alterações tiveram o efeito de reduzir o ataque do Braga a uma única oportunidade de golo no total dos 90 minutos - o que é particularmente surpreendente numa equipa que tantas dificuldades tem revelado no processo defensivo - e de permitir um ascendente exibicional durante praticamente toda a partida. Wendel fez um jogo tremendo e Bruno Fernandes voltou a encantar as bancadas com mais uma tremenda execução num livre direto - o 3º marcado nos últimos 4 jogos. Dost, depois de desperdiçar dois cruzamentos adocicados de Ristovski lá faria o gosto ao pé por duas vezes - que, esperemos, lhe devolva a confiança perdida. Diaby pareceu mais confortável não ficando amarrado a um flanco e foi decisivo na brilhante jogada - em que passou por 2 adversários antes de ser abalroado por outros 2 na área - que deu origem ao penálti convertido por Dost. Ainda deu para ver (mais) bons indicadores de Doumbia. Luiz Phellype foi batalhador no tempo em que esteve em campo, mas voltou a não ter oportunidades para demonstrar qualidades na finalização.

No geral, foi uma exibição muito consistente e convincente que abre novos horizontes para o que esta equipa será capaz de fazer daqui para a frente. Este sistema de três centrais parece ter pernas para andar mesmo com adversários mais recuados - variará a liberdade dada aos laterais/alas de serviço em função do que o jogo pedir - porque permite, em simultâneo um apoio mais próximo a Dost e manter um maior número de peças em terrenos mais recuados para controlar eventuais contra-ataques adversários, para além de potenciar as qualidades de jogadores como Ilori, Coates, Gudelj ou Diaby.

Uma boa vitória que nos coloca a quatro pontos do Braga e que nos dá a vantagem no confronto direto. Veremos se esta fórmula será para repetir na visita ao Villarreal. Esta primeira experiência trouxe sinais muito prometedores para o que poderá ser uma segunda vida de Keizer ao comando do Sporting. Os sportinguistas bem precisavam deste vislumbre de esperança para o que resta da temporada.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Remontada à holandesa

Dizia Marcel Keizer, há uns dias, que na sua opinião é melhor ganhar 3-2 do que ganhar 1-0. O início de jogo de ontem acabou por transformar esta frase numa espécie de profecia para o que a noite reservava ao Sporting, que se viu bem cedo numa situação de desvantagem de dois golos e passou a ter como objetivo mínimo o tal resultado de 3-2. Felizmente esse objetivo acabaria por ser alcançado e até ultrapassado, mas mais assente no esforço e genialidade individual (e alguma felicidade) do que em discernimento coletivo.

Há que dizer que o Nacional não merecia perder por uma diferença tão grande. A equipa de Costinha fez uma excelente 1ª parte, posicionando-se em regiões adiantadas, pressionando alto, colocando 4, 5 ou 6 jogadores em movimentos ofensivos e nunca recorrendo ao antijogo, mesmo em vantagem no marcador. O 1-2 ao intervalo justificava-se plenamente. Creio, no entanto, que esse esforço acabaria por ter consequências: o Nacional quebrou fisicamente e o Sporting foi, progressivamente, tomando conta das operações e terminou o jogo dominando por completo os últimos 30 minutos - período em que obteve quatro golos sem resposta.

Uma vitória expressiva que justificou o entusiasmo nas bancadas e no relvado pela remontada alcançada, mas que também deixou alguns pontos de preocupação pelas fragilidades demonstradas durante a primeira meia-hora - à semelhança do que já tinha acontecido com o Aves.



Remontada à holandesa - não é todos os dias que se marca 5 golos e, sobretudo, não é todos os dias que se marca 5 golos recuperando de uma desvantagem de 0-2. 5 golos que prolongam uma série de elevada produção ofensiva na era Keizer: nestes seis jogos, o Sporting marcou 4, 6, 3, 4, 3 e 5 golos. Ontem, não tendo sido uma noite de nota artística muito elevada, foi pelo menos uma noite em que a equipa demonstrou carácter, personalidade e paciência para virar e resolver uma partida que começou da pior forma possível.

Postal da Borgonha - o magistral livre executado por Mathieu foi o grande momento do jogo. Não só pela beleza do golo, mas também por ter colocado o Sporting pela primeira vez em vantagem no marcador. A distância para a baliza e o local pouco central obrigavam a colocação e potência, e foi colocação e potência que aquele pé esquerdo deu à bola. Totalmente merecedor dos efusivos festejos no relvado, banco e nas bancadas.

Os suspeitos do costume - Bas Dost e Bruno Fernandes, com dois golos cada, foram mais uma vez fundamentais na conquista dos três pontos e confirmaram o excelente momento de forma que atravessam. O holandês mostrou novamente que é um excelente marcador de penáltis (não pela força e colocação dos remates, mas por ser quase sempre capaz de antecipar para que lado o guarda-redes se vai atirar). Ontem marcou 3 em 3, ainda que só 2 tenham contado. Bruno Fernandes, nestes 6 jogos com Keizer, leva uns impressionantes 6 golos e 5 assistências.

Os miúdos que vieram do banco - Miguel Luís entrou ao intervalo para o lugar de Bruno César e Jovane substituiu Nani a 25 minutos do fim. Ambos os jogadores entraram bem e foram importantes para impor o domínio registado na 2ª parte, e tiveram participação direta em dois golos: Jovane fez um grande passe para a desmarcação de Dost no lance do 2-2, e Miguel Luís fez o cruzamento para Bruno Fernandes no 5º golo.



Problemas defensivos - houve remontada porque sofremos dois golos a abrir, e quando se sofre dois golos a abrir é sinal de que existem problemas defensivos que é necessário resolver ou, no mínimo, mitigar. É indiscutível que temos uma questão delicada na lateral esquerda, pois a ausência de Acuña implica a utilização de um Jefferson que comete erros atrás de erros, ainda mais quando não existe um meio-campo suficientemente oleado que seja capaz de compensar os buracos que se vão abrindo - não termos um 6 puro acaba por se notar em algumas circunstâncias. E ontem, para piorar, tivemos também um Mathieu numa noite pouco feliz no controlo do espaço defensivo, o que acabou por tornar mais visíveis esses problemas.

Aposta falhada - não correu bem a aposta em Bruno César para o lugar de Wendel. O brasileiro pareceu sempre um elemento deslocado do coletivo e, não sendo propriamente conhecido por ser um jogador rápido, evidenciou uma completa falta de ritmo que contribuiu para as dificuldades reveladas pelo Sporting para controlar o meio-campo na 1ª parte. Bem substituído ao intervalo. 

Impaciência - é normal que os sportinguistas presentes nas bancadas se tenham sentido intranquilos, mas não vejo o que se pode ganhar em demonstrar essa intranquilidade de forma tão ruidosa em determinados tipos de situação. Os assobios para Renan na marcação dos pontapés de baliza ou nas reposições tiveram consequências: inicialmente procurava opções para sair a jogar sem correr demasiados riscos, mas a partir de determinada altura, após ter sido assobiado por diversas vezes, passou a optar por despejar bolas para a frente. Não faz sentido que o público de Alvalade contribua para a intranquilidade da equipa, ainda por cima em situações em que um jogador está a tentar cumprir as indicações dadas pelo treinador.



Nota artística - 3

MVP - Bruno Fernandes

Arbitragem - muitos lances polémicos, mas Fábio Veríssimo esteve bem na maior parte das decisões. Bem no golo anulado a Dost, pois Diaby estava adiantado no momento em que o passe é feito. O 1º penálti é bem assinalado, pois Vítor Gonçalves desequilibra Dost com um toque com o seu joelho esquerdo. Parece-me boa a decisão no choque de cabeças no remate de Diaby, já que o contacto é provocado pelos dois jogadores em simultâneo - o jogador do Nacional foi contra Diaby, mas o maliano também saltou deslocando-se para trás na direção do adversário. O lance do 2º penálti que deu o 4-2 é o que me deixa mais dúvidas: há uma mão nas costas de Dost e outra a prender-lhe o ombro, mas não sei até que ponto isso foi suficiente para o desequilibrar.



6 jogos, 6 vitórias, 25 golos marcados, 6 golos sofridos. Os números continuam avassaladores, mas as dificuldades que a equipa atravessou nestas duas receções aconselham alguma prudência na equipa e adeptos. Seguem-se um novo jogo com o Rio Ave para a Taça de Portugal e uma deslocação a Guimarães para o campeonato - curiosamente, mais duas partidas contra equipas que quererão jogar de olhos nos olhos.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Pés no chão e fé em Dost

Depois de três jogos com nota artística elevada, a equipa não foi capaz de dar sequência às boas exibições na estreia de Keizer em Alvalade. O resultado pode ter sido folgado, a segunda parte pode ter sido (inesperadamente) tranquila face à inferioridade numérica, mas os números alcançados não traduzem as dificuldades que o Aves nos causou na primeira parte, em que, durante largos períodos de tempo, dominou a partida e impediu que o Sporting conseguisse ligar o seu jogo.

Um bom e oportuno aviso para todos mantermos os pés no chão: não fosse um erro do adversário a provocar um penálti desnecessário que acabou por virar o rumo dos acontecimentos, e a história do jogo poderia ter sido bem diferente... para pior. Valeu-nos o suspeito do costume.



Os números - 4 jogos, 4 vitórias, 17 golos marcados e 4 sofridos. Hoje sem nota artística, mas os 4-1 representam a vitória mais volumosa do Sporting nesta edição da Liga, mantendo a equipa no segundo lugar no campeonato e passando a ter o segundo melhor ataque da prova. Ah, e Dost já é o melhor marcador do campeonato com 8 golos marcados em apenas 7 jogos.

Os golos e a eficácia - o Sporting apenas saiu para o intervalo em vantagem porque foi muito mais eficaz no aproveitamento das suas oportunidades do que o Aves. A eficácia manteve-se na segunda parte, e em dois momentos críticos: o golo de Dost logo a abrir, que trouxe outra tranquilidade à equipa, e o golo de Diaby que surgiu pouco depois da expulsão de Acuña, que matou o jogo. E, claro, há que fazer justiça à qualidade desses golos, que só por si justificam o preço do bilhete: o remate explosivo e inesperado de Nani; o cruzamento tirado com régua e esquadro que foi desviado por Dost com igual precisão matemática; e o remate em arco de Diaby após um passe em profundidade que rasgou a defesa do Aves.

As assistências de Bruno Fernandes - mais três para a sua conta pessoal. O passe para Nani conta apenas para a estatística porque não teve grande relevância para o golo, mas o cruzamento para Dost e o passe a rasgar para Diaby foram deliciosos. Números que se vão acumulando e que impressionam: Bruno Fernandes soma 4 golos e 4 assistências nos 4 jogos com Keizer.

A gestão da inferioridade numérica - o golo de Diaby foi fundamental para acabar com as dúvidas que a expulsão de Acuña pudesse trazer, e a partir daí o Sporting controlou bem o jogo, a ponto de fazer esquecer a situação de inferioridade numérica. Foi uma segunda parte totalmente tranquila.

Renan a marcar pontos - um punhado de boas intervenções, incluindo uma defesa fundamental na primeira parte, e teve várias ocasiões para demonstrar o seu excelente jogo de pés. A questão da baliza do Sporting não é pacífica - sobretudo devido ao mistério que envolve o afastamento de Viviano -, mas Renan tem vindo a justificar gradualmente a aposta que tanto Peseiro como Keizer têm feito em si.



A primeira parte - a incapacidade de o Sporting dominar o jogo deveu-se, a meu ver, a dois fatores: o mérito do Aves, que estudou bem os últimos jogos do Sporting e soube pressionar Wendel, Bruno Fernandes e Nani com rapidez - e muitas vezes em antecipação dos seus movimentos seguintes, que lhes valeu várias recuperações de bola -, e por algum comodismo dos jogadores do Sporting na entrada em jogo, que não pareciam com grande vontade em dar a aceleração e dinâmica necessárias para abrir linhas de passe que contrariassem o pouco espaço disponível em dois terços do terreno. Depois de sofrido o golo, houve vontade imediata dos jogadores do Sporting em dar maior velocidade ao jogo, mas fizeram-no com pouca precisão. Foi muito mais o acaso do que a qualidade do nosso jogo a ditar a reviravolta ainda na primeira parte. 

A expulsão de Acuña - não o crítico pelo segundo amarelo, mas tem de ser responsabilizado pelo primeiro cartão - que viu por se envolver numa escaramuça com adversários por causa de uma falta que nem sequer foi cometida sobre si. Mais uma vez, o seu temperamento deixou-o condicionado demasiado cedo e acabou por prejudicar a equipa ao deixá-la com menos um jogador durante mais de meia-hora. E não consigo concordar com os aplausos que recebeu de muitos adeptos enquanto abandonava o relvado: sendo recorrente nestas situações, não pode haver lugar para pancadinhas nas costas.



Nota artística - 3

MVP - Bas Dost

Arbitragem - Vítor Ferreira teve uma arbitragem algo irregular. Esteve bem nos lances capitais (os amarelos a Acuña e o penálti sobre Diaby), mas teve um critério irregular do ponto de vista técnico e disciplinar - podia, por exemplo, ter mostrado o segundo amarelo a Vìtor Costa no lance do penálti. Os 4 minutos de descontos na primeira parte foram demasiado escassos - só o penálti implicou esse tempo de paragem.



Com esta vitória já vamos com uma série de cinco triunfos consecutivos. Que venha a sexta contra o Vorskla já na próxima quinta-feira.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

"Every game is a test", mas há games que são testes mais exigentes do que outros

"Every game is a test": foi desta forma sóbria que Marcel Keizer respondeu na flash interview à questão sobre se considerava o jogo de ontem o primeiro teste a sério à sua equipa. É verdade que cada jogo é um teste e muitas vezes os dissabores surgem quando menos se espera, mas não se pode colocar em causa que esta deslocação a Vila do Conde era visto por muita gente - yours truly incluído - como um desafio muito sério à adaptação das ideias de jogo de Keizer ao cinismo do futebol português.

E o veredicto final em relação a este teste não deixa dúvidas: foi superado, de forma muito satisfatória. Não só voltámos a ver a equipa criativa e veloz na procura do golo que passeou em Baku, mas também nos foi apresentado um Sporting inteligente e pragmático na altura de gerir o resultado e o esforço - algo inevitável apenas quatro dias depois de um jogo europeu que nos obrigou a uma deslocação aos confins do continente.




Primeira parte com nota artística - foi uma bela forma de dar continuidade à excelente exibição contra o Qarabag. A primeira parte contra o Rio Ave apresentou novamente um Sporting a jogar simples, rápido e de forma objetiva, com uma circulação de bola dinâmica capaz de gerar espaços e de chegar com facilidade à área adversária. Bruno Fernandes foi o homem do jogo, mas há também que dar o devido destaque ao excelente supporting cast que o rodeou: o entendimento entre si e Gudelj, Wendel, Acuña, Nani e Dost parece cada vez melhor. Vantagem no marcador logo a abrir, excelente reação ao golo do empate com um domínio que nos colocou de nov na frente e que só afrouxaria aos 40', com bastantes ocasiões para marcar pelo meio.

Segunda parte pragmática - tendo o Rio Ave a obrigação de assumir maior despesa na procura do golo do empate e havendo o desgaste acumulado pós-Qarabag, o Sporting soube adaptar-se às circunstâncias e teve capacidade para gerir o resultado. Houve alguns arrepios, é certo - com Renan a mostrar serviço -, mas até acabou por dar direito à ampliação da vantagem. Com o 3-1 feito, houve capacidade para congelar o jogo nos minutos finais.

O golo de Jovane - foi de bola corrida, mas mais pareceu uma bola parada sem barreira. Com o esférico imobilizado, saiu um remate espontâneo ao ângulo, tão imprevisível quanto indefensável, que fechou o resultado da melhor forma possível. Um golaço de um jogador que continua a corresponder da melhor forma sempre que sai do banco.

100 - o jogo de 100 de Dost foi assinalado com uma referência nas costas da camisola do holandês... e com mais um golo. Nem podia ser de outra forma.

As substituições - Keizer esteve bem em tirar Acuña, já que tudo indicava que a tolerância de Xistra estava esgotada e o segundo amarelo estava apenas a uma falta de distância. Esteve bem também ao tirar Diaby, que estava a passar ao lado do jogo, para lançar o joker Jovane. E esteve bem ao tirar o desgastado Wendel para colocar Bruno César, de forma a procurar manter o controlo do meio-campo. Considerando o pouco tempo de trabalho com estes jogadores e a falta de contacto com as particularidades do futebol português, é animador ver o treinador a fazer uma leitura tão acertada do que o jogo estava a dar e dos riscos que se apresentavam.



Sustos - houve na primeira parte um par de sustos evitáveis em que Renan facilitou a jogar com os pés, que seriam compensados por três intervenções preciosas do guarda-redes na segunda parte que evitaram golos do Rio Ave que pareciam certos.

Ineficácia - foram imensas as oportunidades de golo criadas durante a primeira parte, suficientes para deixar o jogo resolvido ao intervalo: Mathieu, Coates, Dost e Diaby tiveram condições para finalizar melhor, e Bruno Fernandes obrigou Leo Jardim a grande intervenção. Felizmente esses golos falhados acabaram por não fazer falta.



MVP - Bruno Fernandes

Nota artística - 4

Arbitragem - Não se justificam os protestos dos jogadores do Rio Ave no primeiro golo, pois houve Gudelj sofreu uma carga e a falta foi marcada a uma distância aceitável. O lance de Mathieu com Vinicius era de avaliação muito complicada, e compreende-se que árbitro e VAR tenham deixado seguir. Xistra mostrou muitos cartões mas foi coerente na exibição de cartões, ainda que se possa dizer que Acuña teve sorte por não ter visto o segundo amarelo no final da primeira parte.



Estreia auspiciosa de Keizer no campeonato, com mais uma vitória convincente a fechar uma sequência de três jogos disputados fora de Alvalade. Seguem-se agora, previsivelmente, duas estreias num jogo só: a primeira partida em casa, e o primeiro adversário da I Liga (Aves) que estacionará o autocarro e apostará ofensivamente apenas no aproveitamento de eventuais erros dos nossos jogadores. Uma coisa é certa: com este arranque, este treinador e o futebol que trouxe merecem um estádio cheio para o receber.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Noite de surrealismo

Como se não bastasse todo o momento futebolístico que temos vivido nos últimos meses, a série de acontecimentos que antecederam a partida de ontem encarregaram-se de dar uma nota de surrealismo à noite que se viveu em Alvalade.

Começou pela chuva torrencial que caiu durante quase todo o dia e que afastou muitos sportinguistas do estádio, continuou com as buscas relacionadas com o ataque de Alcochete e que deixaram deserto um setor normalmente preenchido e ruidoso, e terminou em mais uma exibição pouco conseguida que ia comprometendo o resultado pela forma negligente como nos deixámos empatar em superioridade numérica, que foi salva, de forma não menos incrível, por um penálti caído do céu.



O resultado - se havia coisa de que o Sporting não precisava, considerando tudo o que se tem passado, era de passar as próximas três semanas a levar com o carimbo de crise também por causa dos resultados e do afastamento à liderança. Seria ainda pior se tivéssemos empatado por termos sofrido um golo em superioridade numérica. Numa altura em que entra o novo treinador, era fundamental ter a tranquilidade de um resultado positivo para esta espécie de pré-época relâmpago que acontecerá nesta pausa no campeonato.

Uma primeira parte razoável - o ritmo imposto esteve uns furos abaixo do desejável, mas ainda assim houve bons momentos de futebol durante a primeira parte. O melhor foi, obviamente, a jogada do golo: a receção orientada de Acuña é uma delícia, o cruzamento faz um arco perfeito e o cabeceamento de Dost ao canto inferior esquerdo da baliza é indefensável.

A reação do público ao golo sofrido - depois de alguns segundos de silêncio com o choque do golo (e que golo) sofrido, seguiu-se de imediato um forte apoio à equipa. Foram poucos os adeptos presentes em Alvalade, mas naquele momento foram muito bons.



Postura negligente - a segunda parte foi paupérrima. Em vez de se tentar acelerar o ritmo de forma a alcançar o golo da tranquilidade, a qualidade de jogo do Sporting voltou ao marasmo que tem sido regra ao longo desta época. Pode-se alegar que o desgaste do jogo de Londres servia de atenuante, mas esse argumento cai por terra quando vimos o adversário trocar a bola como queria quando já estava em inferioridade numérica, nomeadamente tirando partido da auto-estrada que se abriu constantemente no flanco esquerdo do Sporting. Uma postura negligente que nos poderia ter custado muito caro. Claro que seria injusto termos empatado - considerando as oportunidades de golo de que o Chaves (não) dispôs -, mas todos têm a obrigação de saber que no final apenas contam as bolas que entram na baliza.

Exibições - não me parece que Nani renda tanto estando encostado no flanco direito. Diaby entrou e foi incapaz de agitar o jogo, mostrando pormenores que me levam a estar muito pouco otimista em relação ao seu futuro no clube. Jovane continua a parecer-me muito mais útil saindo do banco do que como titular. Gudelj parece incapaz de assumir o transporte de bola e de fazer um remate em condições, mas desta vez esteve bem no passe (particularmente nos passes longos) e nos duelos defensivos. Bruno Fernandes continua muitos furos abaixo do que sabe.



MVP - Bas Dost

Nota artística - 2 

Arbitragem - há dois momentos muito polémicos. A expulsão de Bruno Gallo pareceu-me justa no estádio, mas ao ver mais tarde a repetição creio que houve rigor a mais e que, sendo uma daquelas situações alaranjadas, podia ter-se resolvido com um cartão amarelo. O penálti é polémico por causa da questão do critério, pois agarrões daqueles há muitos em cada jogo. Eu não teria marcado. A questão é que Tiago Martins tinha mandado parar a marcação do canto para avisar William que não podia usar os braços daquela coisa para envolver Dost... e depois William voltou a fazer exatamente isso sem sequer olhar para bola, mesmo nas barbas do árbitro. É muito pouco comum haver penáltis apitados nestas circunstâncias, mas o jogador não lhe deu grande alternativa.

(via @VPoursain)



Segundo lugar isolado, a dois pontos do Porto. Candidatos ao título? Dost disse tudo em relação a isto na flash interview: primeiro temos de jogar mais futebol, só depois é que se poderá falar em títulos. Tem a palavra Marcel Keizer.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Dever cumprido

Não há muito que se possa fazer numa situação de transição entre um treinador que foi incapaz de tirar rendimento do plantel que tem para um treinador que necessitará de tempo para colocar em prática as suas ideias, que se desejam bem diferentes (para melhor, claro) daquelas que nos levaram a este ponto. Ao treinador que fica com a criança nas mãos durante este período apenas se pode exigir que não caia nos equívocos mais aberrantes e que vá conquistando os pontos em disputa, seja lá como for.

Nesse sentido, Tiago Fernandes pode dormir tranquilo com a consciência de dever cumprido. Não pôs nem podia pôr a equipa a jogar melhor apenas com um par de treinos, mas arriscou algumas alterações e fez o que pôde com aquilo que o jogo lhe deu e, com a colaboração do adversário, acabou por ser feliz e saiu dos Açores com três pontos preciosíssimos. Um desfecho que o clube agradece nesta fase tão turbulenta, pois é muito mais fácil corrigir o rumo em cima de vitórias.



Três pontos - nota artística baixa, mas o fundamental era obter os três pontos. Valeu-nos o sangue (duplamente) frio de Dost, ao ser obrigado a repetir a marcação do penálti, o hara-kiri de Patrick Vieira, e a irreverência de Jovane e o movimento anti-natura de Acuña no segundo golo. E não esquecer que foi alcançado em condições climatéricas pouco favoráveis, que contribuem para um aumento de aleatoriedade da forma como o jogo decorre.

Opções corajosas - Tiago Fernandes mexeu um pouco no esquema ao colocar Diaby no meio no apoio a Dost e lançou Lumor a lateral algo surpreendentemente, optando por colocar Acuña como extremo e recuando Bruno Fernandes para fazer a vez de um Gudelj mais adiantado. A opção de Diaby não resultou, pois raramente conseguiu fazer a ligação entre setores e nunca conseguiu explorar a profundidade. Lumor fez genericamente um bom jogo, mas teve responsabilidades repartidas no golo sofrido - sendo, ainda assim, um claro upgrade em relação a Jefferson. O treinador esteve bem ao mexer na equipa cedo: a troca ao intervalo de Jovane por Diaby melhorou o rendimento da equipa e o jovem extremo confirmou a apetência para ter impacto decisivo quando é lançado com o jogo a decorrer, com a assistência para o segundo golo. Acuña, que com as trocas posicionais feitas ao intervalo passou para a faixa direita, conseguiu uma exibição positiva da qual se destaca, obviamente, o golo da vitória.


Mais do mesmo - Peseiro saiu, mas o seu legado, para o bem e para o mal (infelizmente muito mais para o mal do que para o bem), tardará a desaparecer. Mais uma exibição desgarrada, pouco inteligente - tardou que a equipa percebesse que podia usar o forte vento a favor -, sempre muito mais em esforço do que em jeito, com muitos jogadores em subrendimento. Mais do mesmo, portanto.

A gestão dos últimos minutos - apesar de o Santa Clara estar com menos um, a equipa foi completamente incapaz de manter a bola afastada da nossa área nos minutos finais da partida. Várias situações arrepiantes que, com uma pequena dose de felicidade para o Santa Clara, poderiam ter dado o golo do empate e retirado dois pontos ao Sporting.



MVP - Acuña 

Nota artística - 2

Arbitragem - bom trabalho de Manuel Mota. Decidiu bem todos os lances de dúvida na área, incluindo o penálti sobre Dost e manteve um critério disciplinar coerente ao longo de todo o jogo. Em relação à expulsão de Patrick Vieira, os aplausos irónicos justificariam um amarelo, mas deverá ter havido algo mais que só o árbitro e o jogador saberão.



Três pontos fundamentais que nos mantém a dois pontos de Porto e Braga. Para a semana recebemos o Chaves e os dois primeiros classificados defrontam-se no Dragão. Numa fase destas, nas circunstâncias que vivemos, não faz sentido pensar de outra forma: tem de ser jogo a jogo.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Raio de luz

Pode não ter sido uma grande exibição do princípio ao fim, pode não ter havido um domínio constante, mas a vitória de ontem do Sporting sobre o Boavista foi incontestável e não terá deixado nenhum adepto insatisfeito. Um ténue raio de luz a rasgar a penumbra exibicional a que temos sido sujeitos. A primeira parte foi mastigada e na linha do que tem sido as exibições recentes, mas na segunda parte houve uma melhoria significativa ao ponto de podermos dizer que foi agradável de seguir. Pode não parecer muito, ainda mais tendo sido contra um adversário cujo objetivo será a manutenção, mas é um upgrade ao que foi o futebol do Sporting contra Poltavas, Loures e Qarabags, que também não são propriamente colossos europeus. Junte-se a isto os muito aguardados regressos de Mathieu e Dost, os primeiros bons pormenores de Diaby, uma nova bomba de Bruno Fernandes e um Nani ao melhor nível, e temos finalmente alguma coisa a que nos agarrarmos. Pelo menos até à próxima quarta-feira.



Os golos - o magnífico trabalho de Montero no primeiro golo de Nani, que devolveu os mortais a Alvalade; a combinação entre Montero e Diaby com o passe atrasado para o estouro de Bruno Fernandes; e o remate picado de primeira de Nani. Três golos bem trabalhados e de belo efeito que valeram a vitória mais folgada da época, uma noite tranquila e três pontos totalmente merecidos. Nota positiva para as exibições de Nani, Montero, Mathieu e Acuña, com alguns bons momentos de Diaby e Bruno Fernandes na segunda parte.

Os regressos - Mathieu voltou e realizou uma exibição muito sólida, tendo sido obrigado a um par de intervenções importantes na primeira parte. Dost teve a ovação da noite ao entrar após mais dois meses de ausência. Não teve tempo para muito, conseguindo apenas um remate sob pressão e duas ou três intervenções na ligação entre setores. Bruno César estreou-se na temporada e foi colocado no apoio a Dost. Três reforços que, cada qual da sua maneira, poderão acrescentar qualidade nos preenchidos meses de competição que vamos atravessar.



Corpos estranhos - Diaby demorou a entrar o jogo, mas a assistência para o golo de Bruno Fernandes pareceu-lhe dar confiança. Nota-se que Bruno Gaspar ainda não está na mesma página dos jogadores que ocupam terrenos mais próximos, como Coates, Diaby ou Bruno Fernandes. Gudelj raramente acrescenta algo com bola, alternando o alheamento na construção com passes disparatados.

Assobios - 8 minutos de jogo. O-i-t-o. Um passe em profundidade mal medido do Boavista morre nos pés de Renan. O Sporting tenta sair a jogar perante a pressão boavisteira. A bola vai para Mathieu, na esquerda, volta para Renan, que toca para a frente para Battaglia, que deixa em Mathieu, que vira para Coates que, pressionado, volta a dar a Renan, que devolve a Coates, que permite um corte e ganha lançamento. Ouvem-se assobios no estádio porque, aparentemente, há quem ache que a melhor maneira de se sair a jogar perante uma pressão adversária moderada é mandando um chutão para a frente. Junte-se a isso os vários assobios para as temporizações de Nani, que tem demonstrado frequentemente ser o jogador mais esclarecido em campo, os vários assobios para os cantos mal marcados (OK, aqui até compreendo), e os assobios no final porque os jogadores não se aproximaram da curva sul como de costume (depois de lhes terem devolvido as camisolas em Alverca, esperavam o quê?), e percebe-se bem que não é fácil ser-se jogador do Sporting nesta altura. Nunca é, verdade seja dita, mas agora ainda menos.



MVP - Nani

Nota artística - 3

Arbitragem - Carlos Xistra não teve um jogo difícil e soube geri-lo de forma competente.



Exibição e vitória sobre as quais talvez se possa iniciar uma série positiva de jogos. Segue-se a receção ao Estoril para a Taça da Liga na quarta-feira à noite (véspera de feriado) e uma viagem aos Açores para defrontar o surpreendente Santa Clara. É obrigatório ganhar os dois jogos, mas seria importante conseguir as vitórias de forma convincente. É fundamental que os (bons) jogadores que temos recuperem a confiança para voltarem a fazer aquilo de que são capazes. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Entrada com três pés direitos

Depois de uma pré-época pouco entusiasmante, a estreia em jogos a sério era uma excelente oportunidade para termos alguns sinais positivos que nos dessem ânimo para a época que estava a começar. Mas como a vida de um sportinguista nunca é fácil, os deuses decidiram colocar um obstáculo adicional quando os jogadores estavam no aquecimento... com uma lesão de Viviano que o deixou de fora da partida. Entrou Salin no onze, o árbitro deu o apito inicial... e aos dois minutos tínhamos o capitão amarelado por protestos de forma absurda, aos seis minutos já estávamos a perder e aos doze minutos era a vez de Bruno Fernandes também ver cartão por protestos. 

Dispensava-se um teste sério à estabilidade emocional da equipa tão cedo, mas aí estava ele. Felizmente, mesmo sem jogar bem (muito longe disso), a equipa foi capaz de virar o rumo dos acontecimentos e entrar no campeonato com o pé direito (ou, para ser mais rigoroso, com três pés direitos que colocaram a bola na baliza adversária).




O patrão Bruno - foi o único jogador que pareceu sempre esclarecido a atacar e a defender. Pouco acompanhado nos momentos de construção, conseguiu, ainda assim, tirar dois coelhos da cartola que foram decisivos para a conquista dos três pontos: excelente trabalho no golo do empate, recebendo o bom cruzamento de Ristovski, a tirar da frente o marcador direto e pontapeando para a baliza de forma indefensável, e um passe de régua e esquadro a deixar Dost na cara de Jhonatan para o golo da tranquilidade.

Bis Dost - falhou incrivelmente um golo em cima da linha, mas redimiu-se na segunda parte com um penálti marcado com enorme frieza e um chapéu de classe que fechou o resultado. É bom vê-lo novamente a distribuir abraços pelos companheiros.

Um mal que veio por bem - Salin foi um titular improvável, mas acabou por ser uma das figuras da partida. Muito seguro sempre que chamado a intervir, bem no jogo de pés e a controlar a profundidade, e ainda sacou uma excelente defesa que impediu o 2-1 para o Moreirense. Agarrou com as duas mãos a oportunidade que lhe apareceu no caminho.

As substituições - tardaram a ser feitas, mas resultaram e tiveram um impacto imediato na partida. Peseiro optou por refrescar os extremos - tentando aproveitar as circunstâncias de um jogo que estava cada vez mais partido - e não tardou que Jovane e Raphinha conseguissem mostrar serviço. Jovane acabou mesmo por ser decisivo ao ganhar o penálti que nos deu a vantagem no resultado.

A gestão de jogo nos minutos finais - com uma vantagem tangencial, a equipa soube ir congelando o jogo e foi capaz de controlar o adversário mantendo-o longe da nossa área. E ainda deu para marcar o golo da tranquilidade.



Muito para melhorar - apesar da vitória, a exibição da equipa levanta mais pontos de preocupação do que de confiança. O Sporting nunca dominou o jogo até se ver em vantagem no marcador e, pior, não conseguiu sequer controlar o adversário em períodos alargados da partida. A organização ofensiva da equipa é constrangedora - o que não admira pois jogámos com demasiados médios que pouco contribuem nessa fase - e depende exclusivamente do que Bruno Fernandes e Nani conseguem desencantar. No momento defensivo não foi complicado ao Moreirense abrir espaços a aproveitar a falta de ligação entre os nossos setores e a falta de qualidade de alguns dos nossos jogadores. Ganhámos porque temos melhores individualidades, não por sermos melhor coletivo.

Amarelos por protestos - já se sabia que os amarelos saem de forma muito mais rápida para os jogadores do Sporting, mas aquilo que aconteceu ontem em Moreira de Cónegos foi ridículo. Tiago Martins decidiu mostrar um amarelo a Nani, o capitão, por protestos que nada tiveram de espalhafatosos... logo aos 2 minutos de jogo. Dez minutos depois, foi a vez de mostrar a Bruno Fernandes, e mais tarde faria o mesmo a Jefferson. Os locutores da Sport TV disseram que os árbitros têm instruções para serem mais duros com situações de protesto... mas tenho muitas dúvidas de que o critério seja idêntico quando outras equipas estiverem em campo.

O desabafo de Matheus Pereira - não pode vir para as redes sociais demonstrar o desagrado por ter ficado de fora. Esteve muito bem José Peseiro a referir-se ao caso na conferência de imprensa.



MVP - Bruno Fernandes

Nota artística - 2

Arbitragem - Tiago Martins esteve bem no lance decisivo do jogo, já que Heriberto derruba Jovane com o joelho. Esteve mal ao nível disciplinar, pelos motivos referidos mais acima.



Vitória importante para dar alguma tranquilidade ao grupo de trabalho e para entusiasmar os adeptos. Espero que seja uma semana boa ao nível das vendas de Gameboxes.