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quinta-feira, 5 de abril de 2018

A conferência sobre a violência no desporto

A Assembleia da República organizou uma conferência sobre a violência no desporto. Foram convidados os diretores dos desportivos para moderarem os vários painéis, que contaram com oradores divesos, como responsáveis de várias instituições e associações (entre os quais incluem-se os presidentes da FPF, da Liga, do Sindicato de Jogadores e da APAF), o Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, representantes das forças policiais, e ainda elementos da comunicação social, como diretores e editores das equipas de informação/desporto da RTP, SIC e TVI, um vogal da ERC e a presidente do Sindicato de Jornalistas. Várias outras pessoas assistiram ou participaram das bancadas, com o destaque óbvio para os presidentes de Sporting e Benfica.

É um debate importante que tinha (e continuará a ter) de ser feito, mas que, ou muito me engano, nada de novo trará ao futebol. Aliás, a ideia principal que ficou no final... foi a hipocrisia de muitos dos intervenientes. 

Começo por Fernando Gomes, cuja principal ideia lançada foi a criação de uma entidade autónoma que se foque exclusivamente neste problema. Não consigo deixar de perguntar em que realidade paralela tem o presidente da FPF vivido nos últimos anos. Fernando Gomes, devido à sua inação, é um dos principais responsáveis - se não o principal - pelo assobiar para o lado que tem acontecido na Federação. O CD e o CJ têm meios para punir muitos dos tristes acontecimentos que têm ocorrido nos últimos anos, mas têm optado por aplicar sistematicamente medidas punitivas leves: por exemplo, quando um adepto entrou no Dragão no Porto-Benfica para tentar agredir intervenientes do jogo, nas muitas ocaisões em que adeptos benfiquistas lançam objetos pirotécnicos para zonas onde estão jogadores adversários, elementos das equipas de arbitragem ou adeptos da equipa adversária - sendo que o caso mais grave deste género até foi causado por adeptos do Braga, que atiraram um petardo que acertou num jogador do Moreirense que festejava um golo na final da Taça da Liga da época passada -, ainda no sábado passado o árbitro Luís Godinho foi atingido por um objeto no Braga - Sporting... e nunca houve coragem para interditar os respetivos estádios. Estão à espera de quê? Que aconteça mais uma tragédia?

Convém também não esquecer que é o mesmo Fernando Gomes que patrocinou a ideia peregrina de formar e patrocinar uma claque da seleção, formada com elementos dos grupos de adeptos que são uma parte dos problemas que estiveram em debate - ainda que a milhas dos problemas criados por outras claques ilegais. Ou seja, quando lhe dá jeito, não deixa de alimentar os mesmos grupos que agora quer, supostamente, controlar de forma mais rígida.

Também falou o presidente da Liga, o líder do organismo que achou boa ideia que se realizasse o Sporting - Benfica no dia seguinte ao assassinato de Marco Ficcini. A propósito, alguém se lembra da punição que o Benfica sofreu por causa dos cânticos ofensivos que os adeptos benfiquistas fizeram durante o minuto de silêncio? Pois...

Parece-me que, no geral, ninguém deu grande relevância ao que foi dito na conferência - basta ver como a maior fatia de atenção acabou por ser dedicada à presença dos presidentes de Sporting e Benfica, que ocupou um espaço mediático muito superior a tudo o resto. O que nos leva a outra questão importante que acredito que terá sido ignorada pelos elementos da comunicação social que participaram na conferência: o seu papel em tudo isto.

Não concordo com Bruno de Carvalho quando este disse que o discurso dos presidentes não contribuem para a existência de animosidade e comportamentos violentos por parte dos adeptos, pois parece-me óbvio que as palavras inflamadas e as acusações de parte a parte são um potente combustível para o estado de crispação que se vive. No entanto, concordo inteiramente nas acusações que Bruno de Carvalho fez à comunicação social, que, como muito bem sabemos, faz questão de alimentar as polémicas recorrendo a pirómanos comunicacionais profissionais. Há muito que a esmagadora maioria dos espaços noticiosos e de debate sobre futebol deixaram de ter qualquer valor informativo, dando lugar a entretenimento rasteiro, já que os jornalistas/comentadores/notáveis, em vez de serem escolhidos pelo seu profissionalismo e competência, são, na sua maioria, "colocados" por cunhas de clubes e pela apetência que têm para criar momentos televisivos virais. Ou seja, são espaços que passaram a ser dominados por cartilheiros e palhaços, que vendem fake news e dizem as maiores barbaridades que se possam imaginar sobre os adversários. Há muito que deixou de haver limites para estes indivíduos, que são, sem sombra de dúvida, os maiores promotores da crispação existente.

Basta ver, aliás, a forma como a TVI abriu o jornal da noite de quarta-feira: o tema escolhido foi a conferência sobre a violência, mas abordaram exclusivamente a acusação feita por Bruno de Carvalho à comunicação social... e terminando com um resumo das frases mais polémicas do presidente do Sporting desde que assumiu funções. 


Como puderam ver, sobre a conferência propriamente dita, nem mais uma palavra. Isto é jornalismo sério? Obviamente que não. Sentiram-se ofendidos e decidiram, em vez de informar, alimentar ainda mais a polémica.

Este comportamento da TVI não deixa de ser sintomático do estado das coisas. Apenas demonstraram que, efetivamente, estão-se a borrifar para o que se passa no futebol, desde que isso dê audiências e o seu orgulho permaneça intacto. Entrento, nessa mesma noite, o canal de "informação" da TVI emitiria um especial sobre o Benfica. Participantes: Pedro Guerra e João Malheiro, acabando prematuramente devido à saída deste último em direto por se sentir ofendido pelo primeiro. Isto é que é serviço público, TVI!


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Em que país vivem estes cavalheiros?



Primeiro Fernando Gomes, agora Rui Vitória. É triste ver duas das principais figuras do futebol português a fazerem de conta que algo de muito grave não aconteceu já. Há apenas seis meses, um adepto morreu em confrontos com adeptos de outro clube. E se não morreram mais, não foi por falta de tentativa do assassino. A morte deu-se em vésperas de um dérbi, e as reações de algumas das partes envolvidas não poderiam ter sido mais infelizes: enquanto o Benfica tentava colocar o ónus nos adeptos sportinguistas - como se estarem num determinado local a determinada hora servisse de justificação para outra pessoa decidir tirar a vida a alguém -, a FPF fez aquilo que costuma fazer melhor, ou seja, fingir-se de morta. O jogo manteve-se marcado, e a claque responsável pela morte teve oportunidade de gozar ainda mais o prato durante o minuto de silêncio à vítima.

No último fim-de-semana, adeptos do mesmo clube - ainda não percebi se eram ou não organizados - causaram distúrbios nas imediações do estádio do Aves. Há dois meses, em Vila do Conde, adeptos do Rio Ave foram agredidos por adeptos benfiquistas. Na época passada, uma claque do Porto fez uma visita de cortesia ao centro de estágios dos árbitros - e consta que não terá sido para lhes cantarem as janeiras. Há dois anos, em Alvalade, as claques do Benfica atiraram petardos para uma bancada repleta de adeptos sportinguistas, e só por milagre não houve feridos. Há cerca de três anos, dois adeptos do Sporting foram esfaqueados em Guimarães. Há cerca de seis anos, adeptos do Sporting incendiaram uma bancada do Estádio da Luz. Há mais tempo ainda, Pedro Proença foi agredido por adeptos benfiquistas. Como tal, é favor não fazerem de conta que isto se trata de um fenómeno novo, e, já agora, é favor não fazerem de conta que tomaram medidas para evitar que essas situações se repetissem no futuro. E, claro, não esquecendo o assassinato de Rui Mendes no Jamor. Quantos estádios foram interditados por causa destes acontecimentos? Pois...

Não cabe à FPF garantir a segurança pública, mas devia, dentro dos seus limites de atuação, penalizar os clubes cujos adeptos protagonizam episódios de violência. Garantidamente, se os clubes começarem a jogar à porta fechada por causa de atos violentos dos seus adeptos, farão um esforço efetivo para controlá-los bastante melhor. A FPF devia também fazer pressão para que o IPDJ faça cumprir a lei no que diz respeito às claques ilegais - que, não surpreendentemente, são as que mais problemas causam. Fernando Gomes só terá moral para dar sermões sobre violência quando começar efetivamente a fazer algo para punir os responsáveis pelo que tem acontecido.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Carta aberta ao presidente da FPF

Novo texto do 3295C.



Caro dr. Fernando Gomes:

O trabalho que cada um desenvolve à frente das instituições que dirige acaba por ser o legado que se deixa, não apenas para as gerações vindouras mas também honrando a história que nos precede. A sua passagem pela Federação Portuguesa de Futebol ficará, certamente, marcada pela conquista do título europeu. Um momento de imensa alegria para o país. No entanto, nem seis meses depois, no mesmo ano que agora acaba, mandou colocar (ou pelo menos não se opôs) os vencedores do Campeonato de Portugal na lista de vencedores da Taça de Portugal.

Com uma “decisão informática” provavelmente baseada numa acta mal interpretada da organização que dirige, pura e simplesmente apagou da história do futebol português 12 títulos de campeão, reconhecidos por toda a imprensa da época. Aliás, nem se percebe muito bem a decisão já que no mesmo site em que foi feita a ‘mudança’ dos Campeonatos de Portugal, continua a estar reconhecido ao FC Porto o título de primeiro campeão nacional na época 1921/22. Reconhece-o, mas retira-lhe o título, incluindo a competição como Taça de Portugal.

Num só ano consegue o melhor e o pior do que deixará para a história o avaliar como presidente da organização que superintende o futebol nacional, desde o tempo em que se chamava União Portuguesa de Futebol (UPF). Apesar da mudança do nome para Federação Portuguesa de Futebol ter apenas acontecido em 1926, por certo não quererá manchar a tradição e continuar a considerar Sá e Oliveira como o primeiro presidente da instituição que dirige.

Poderá parecer-lhe rebuscada esta analogia, mas creio que entende o alcance da razão.

Não são apenas os clubes campeões nacionais entre 1922 e 1939 que saem prejudicados desta contabilidade tão enganosa quanto fraudulenta. É, igualmente, a própria FPF. Como explica à FIFA que os Campeonatos que atribuíam o título de campeão nacional entre esses anos tenham sido martelados na Taça de Portugal? Só porque ambas as competições se disputavam nos mesmos moldes? Não creio que se escude nesse argumento.

Revisionismos da história dão sempre mau resultado e só na propaganda nazi é que se acreditava que uma mentira dita mil vezes se tornava numa verdade. Considerar que se andou a disputar a Taça de Portugal nos primeiros 16 Campeonatos organizados em Portugal é humilhante para a FPF e, especialmente, para si por dar cobro, ainda que com o seu silêncio e manobras informáticas, a uma mentira contada muitas vezes na vã tentativa de que se torne verdade. Humilhante por ser, acima de tudo, uma falta de respeito por todos aqueles que se esforçaram e foram consagrados, reconhecidos e homenageados até por Presidentes da República no seu tempo. Não por ganharem a Taça de Portugal e sim por serem campeões nacionais.

Se defende intransigentemente os interesses do futebol português, comece por respeitar a sua história e não embarque em teorias pseudo-iluminadas que lhe possam garantir que liga a título experimental não é a mesma coisa que liga experimental. Isso não é um problema semântico. É apenas ridículo.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O programa de Fernando Gomes

Foi com alguma pompa e circunstância que Fernando Gomes, atual presidente da FPF e candidato único às próximas eleições, divulgou ontem o programa para o seu 2º mandato. Numa cerimónia realizada para esse efeito, anunciou 100 medidas a cumprir durante os próximos 4 anos, onde se incluem a utilização de vídeo-árbitro na Supertaça e nas eliminatórias finais da Taça de Portugal já em 2016/17, a publicação dos relatórios dos árbitros e um combate duro à corrupção.

Não há como discordar deste tipo de medidas / intenções, mas não deixo de ficar com a sensação que isto é pouco mais que fachada. Digo-o por dois motivos:

Em primeiro lugar, por causa do timing da apresentação do programa. Foi feita a 25 de maio, apenas 10 dias antes (!) da data das eleições. Supostamente, uma candidatura deveria ser avaliada em função do programa, pelo que (a meu ver) esta apresentação já deveria ter sido realizada há meses. Considerando que Fernando Gomes está em modo de pré-campanha há algum tempo, isto significa que:
  • Andou a recolher apoios para a sua candidatura sem um programa definido.
  • Houve quem lhe prometesse apoio sem saber que programa estava a apoiar.
  • É possível (conhecendo o futebol português, é uma possibilidade muito próxima da certeza) que o programa tenha sido parcialmente definido ou influenciado em função de compromissos assumidos pelo candidato de forma a garantir determinados apoios.

Em segundo lugar, porque dá a ideia que os pontos de destaque deste programa (a adoção das novas tecnologias, o combate anti-corrupção e a defesa da transparência) são motivados sobretudo por uma questão de imagem, e não pelas convicções do candidato. Será que Fernando Gomes tocaria no assunto corrupção se o Jogo Duplo não tivesse explodido há um par de semanas? Será que se mostraria tão entusiasta com as novas tecnologias se não fossem uma evolução inevitável por iniciativa do International Board?

Não me lembro de nenhuma frase forte de Fernando Gomes sobre o problema da corrupção no futebol antes do escândalo do Jogo Duplo. Assim como não me lembro de nenhuma proposta concreta (ou sequer uma declaração clara de apoio) que tenha feito em favor do aumento da transparência ou da utilização das novas tecnologias no futebol antes de o International Board se ter decidido pela sua aplicação. Em mais de quatro anos como presidente da FPF não lhe faltaram ocasiões para o fazer.

É, portanto, um programa de candidatura à imagem de Fernando Gomes: que se deixa ir com a corrente, reagindo aos acontecimentos e abraçando o inevitável. É aquilo que é possível quando a pessoa que está à frente de uma organização tem perfil de administrativo (mesmo que seja um administrativo competente) e não de líder.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O compromisso de Fernando Gomes com o jogador nacional

                                                                                                                                                         
A forma brilhante como a seleção sub-21 garantiu o apuramento para a fase final do europeu levanta, mais uma vez, a questão das oportunidades dadas aos jovens jogadores portugueses ao nível dos clubes.

Não vale a pena andar com rodeios em relação a este assunto: em Portugal, apenas Sporting, Benfica e Porto podem proporcionar a rodagem competitiva necessária para que os melhores desta fornada possam concretizar todo o seu potencial. A alternativa a isto é assinarem por uma equipa de uma liga estrangeira mais competitiva que a nossa. 

Os clubes portugueses que não os grandes podem servir como rampa de lançamento, mas apenas por um tempo limitado. Quem permanecer demasiado tempo em Portugal, num clube com poucas ambições, numa liga fraca como a nossa, acabará eventualmente prejudicar o seu processo de desenvolvimento.

Como é mais que sabido, nem Benfica nem Porto estão muito preocupados em aproveitar os jogadores que andaram a desenvolver durante anos. Apesar de saberem (e bem) desenvolver jovens provenientes de outras paragens, estigmatizam os próprios produtos da sua formação. 

É uma política que se lamenta do ponto de vista do interesse da seleção nacional, mas que tem que se aceitar. Se há alguém que tem que se preocupar com os interesses da seleção não são os clubes, mas sim a FPF, e mais concretamente o seu presidente Fernando Gomes.

Fernando Gomes teve um papel importante, enquanto presidente da Liga, na criação de condições para a criação das equipas B - que é uma ferramenta importantíssima para facilitar a adaptação dos jovens ao futebol sénior. No entanto, será sempre apenas parte da solução e, para piorar a situação, está a ser subaproveitada:

  • O quadro competitivo atual da II Liga é tenebroso, com 24 equipas e 46 jornadas, contribuindo para um nível de qualidade ainda inferior ao que é tradicional;
  • As equipas B não podem ser mais que um degrau de curta duração para os miúdos que ascendem dos juniores, tendo pouca utilidade para o seu desenvolvimento ao fim de um ou dois anos;
  • A ascensão dos melhores jogadores às equipas principais está seriamente condicionada.

Se a FPF vai ficar à espera que Benfica e Porto (e o Sporting também pode fazer melhor) tomem a iniciativa de integrar os seus jovens na equipa principal de uma forma efetiva, dificilmente o estado das coisas melhorará. No entanto, basta olhar para o primeiro ponto do programa eleitoral de Fernando Gomes para a presidência da FPF para encontrarmos uma proposta que faz todo o sentido:

(obrigado @nunovalinhas)

É incompreensível que Fernando Gomes não tenha feito absolutamente nada até ao momento para cumprir esta medida do seu programa. Do ponto de vista regulamentar não vejo quaisquer problemas: a UEFA já o implementou, ao limitar a inscrição de jogadores não formados no clube ou no país de origem na Liga dos Campeões e Liga Europa (num plantel de 25, 4 têm que ser formados nos clubes e outros 4 têm que ser formados no país do clube), e os clubes portugueses tiveram que se adaptar. 

O argumento de uma inevitável perda de competitividade das equipas portuguesas simplesmente não pega. Se as equipas portuguesas já têm estas limitações lá fora, não conseguiriam sobreviver cá dentro com estas restrições?

É óbvio para todos que o único entrave à implementação desta medida são os modelos desportivos seguidos por Benfica e Porto. Por um lado compreende-se: Fernando Gomes não quer entrar em guerras com Vieira e Pinto da Costa, certamente já a pensar na sua reeleição. Por outro lamenta-se: é uma pena que os interesses pessoais do presidente da FPF se sobreponham a uma política ativa que promova a evolução do jogador português.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Estamos entregues aos bichos

                                                                                                                                     
Fernando Gomes, presidente da FPF, participou na semana passada no evento "Formação, o futuro e a sustentabilidade do futebol português" como orador, onde fez alguns comentários relativamente ao fim dos fundos de investimento no futebol e a uma certa evolução que se tem registado ao nível da formação em Portugal.

in record.pt

Uma pessoa que leia isto, só pode concluir que o futebol português está autenticamente entregue aos bichos. 

Na minha inocência, nunca imaginei que a primeira reação pública do presidente da Federação Portuguesa de Futebol ao fim dos fundos de investimento fosse... de preocupação. Para além de todas as questões da falta de transparência que têm sido amplamente debatidas e da hipoteca de receitas futuras dos clubes a que a eles recorrem, a aposta nos fundos tem, como efeito mais visível, o investimento em jogadores estrangeiros que vêm tapar parte do espaço que os jovens portugueses têm para se afirmar. Tudo isto, e em particular os dois últimos aspetos, é que deveriam estar a preocupar Fernando Gomes.

Atendendo que uma das principais funções do presidente da Federação é planear o futuro do futebol PORTUGUÊS, nomeadamente ao nível das seleções, seria de imaginar que tirasse partido da ocasião para apelar aos clubes para aproveitarem a oportunidade para fazerem um esforço superior de integração dos jovens da suas formações nos plantéis principais, não só porque as seleções teriam muito a ganhar com esse trabalho, mas também porque seria uma parte importante da solução para ajudar ao saneamento financeiro dos próprios clubes.

O grande problema de hoje das seleções é muito fácil de identificar. Existem três clubes em Portugal que açambarcam praticamente todo o talento jovem que existe no país, e que são em simultâneo os únicos que podem oferecer um nível competitivo desejável para a formação em massa de jogadores de classe de nível internacional. Desses três clubes, apenas um investe convictamente na etapa mais complicada da evolução de um jogador: a transição do futebol júnior para o sénior. Os outros dois, nos últimos anos, têm contribuído perto de zero para o aumento da qualidade da nossa seleção principal.

Em vez de se preocupar com o facto de dois dos grandes clubes portugueses privilegiarem quase exclusivamente a utilização de futebolistas estrangeiros, Fernando Gomes opta por mencionar números pouco significativos, como a redução de estrangeiros nas camadas jovens (desde 2009 os três grandes passaram de 34 para 11 estrangeiros). É uma evolução positiva, não tenho dúvidas, mas no panorama geral não interessa grande coisa, pois o destino desses jogadores quando chegam a séniores, sejam portugueses ou estrangeiros, é invariavelmente o mesmo: são colocados na prateleira para dar lugar às contratações milionárias (ou nem isso) que chegam todos os anos a Portugal.

Não estou a dizer que Fernando Gomes deve atacar Benfica e Porto por optarem por formar equipas compostas quase exclusivamente por jogadores estrangeiros - isso trata-se de uma decisão estratégica que compete às direções desses clubes. Mas pode alertar, orientar, sugerir, encorajar, em vez de se prestar ao ridículo papel de assumir dores que não deveriam ser suas (apenas do Porto), ou tentar impingir ao público números que não traduzem a realidade da falta de sucesso da formação de jogadores em Portugal.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O cerco

O Porto iniciou, com os seus aliados do costume, o processo para tentar destituir Mário Figueiredo da presidência da Liga. Mário Figueiredo, que é também vice-presidente da FPF (por inerência do cargo de presidente da Liga), deslocou-se ontem à sede da federação, em Lisboa. Quando ia começar a falar com os jornalistas na sala de imprensa, foi impedido por alguém do staff da FPF.

in record.pt

Ora, quer-me parecer que por uma questão de hierarquia, para se impedir um vice-presidente da FPF de usar as instalações da própria FPF, terá que ter sido o presidente ou alguém em seu nome a dar a ordem. Aliás, este tipo de atitude é típica da escola do F.C.Porto, das quais Fernando Gomes é um indiscutível connoisseur. Se não gostam de alguém que os visita, fazem de tudo para tornar a vida do seu alvo o mais desconfortável possível.

Portanto, os tentáculos do polvo não só chegaram a outros 13 clubes, como aos próprios dirigentes federativos. Se havia dúvidas que a suposta zanga entre Pinto da Costa e Fernando Gomes não passava de uma encenação, penso que agora fica tudo clarinho como água perante esta atitude.