sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Porto: all in?

                                                                                                                                             
Ao longo da última semana tem sido debatido quem, de entre Porto e Benfica, tem feito um maior esforço financeiro no reforço do plantel nesta época. O indicador mais utilizado tem a ver com o valor despendido nas contratações, para já com ligeiro ascendente encarnado (€30M contra €29M do clube nortenho).

No entanto, o dinheiro gasto em contratações é uma abordagem muito relativa, atendendo ao facto de a estratégia portista estar-se a basear em grande parte em jogadores emprestados e aquisições subsidiadas por fundos de investimento.

Está aqui, na minha opinião, o grande risco que o Porto está a correr. Não no facto de ter gasto €29M em contratações (valor que não entra para custos de uma só vez, visto que é amortizado ao longo da duração dos contratos dos jogadores - tipicamente 4 ou 5 anos), mas no facto de estar a inverter uma política que tantos proveitos lhes rendeu ao longo da última década.

O Porto conseguiu encaixes absolutamente fenomenais à custa da estratégia comprar barato --> desenvolver jogador --> vender caro. Progressivamente começou a comprar mais caro, e nas últimas 2 ou 3 temporadas foram muitos os jogadores que chegaram por montantes bastante superiores ao tradicional, nomeadamente Danilo e Alex Sandro, mas também Jackson, Reyes e Herrera, e mais recentemente Bruno Martins Indi, notando-se também uma crescente participação de fundos nas aquisições.

Melhor ou pior, as mais-valias gigantescas que o Porto tem conseguido com esta estratégia tem ajudado a maquilhar um grande défice estrutural nas suas contas. 

Em 2011/12, o Porto apresentou um prejuízo de €33,5M, mesmo tendo conseguido realizar mais de €28M em mais-valias de jogadores:


Se excluíssemos estas mais-valias, falaríamos de um prejuízo que superaria os €62M.

Em 2012/13, o Porto apresentou lucros de €20M, muito por causa dos quase €70M de mais-valias alcançadas em vendas:


Não fossem essas vendas, e os prejuízos andariam à volta dos €50M.

Em relação a 2013/14, ainda não foram divulgados os números finais da época. Os últimos dados são referentes ao 3º trimestre, em que foram apresentados prejuízos de €9,5M e mais-valias de €10,5M.


Normalmente, os resultados do último trimestre têm tendência para agravar significativamente o panorama em relação aos primeiros três trimestres, pelo que é de esperar que o prejuízo apresentado seja bastante superior aos €9,5M de finais de março.

Vemos, portanto, que o Porto está muito dependente dos encaixes que vai fazendo com jogadores que valoriza e de cujos passes é o principal proprietário.

Do plantel portista atual, ainda há 3 jogadores cujo percentagem do Porto é elevada e que poderão render um encaixe considerável no curto prazo: Danilo (100%), Alex Sandro (100%) e Jackson (95%). Martins Indi e Maicon também são detidos em 100%, sendo que no caso do primeiro é possível que seja valorizado a médio prazo. Desconheço se Rúben Neves é 100% do Porto, apesar de ser ainda muito cedo para perceber se irá ou não pegar de estaca.

Depois disto, o panorama começa a não ser tão brilhante: Herrera (80%), Quintero (50%), Reyes (47,5%), Aboubakar (30%), Brahimi (20%), Casemiro (emprestado), Óliver (emprestado) e Tello (emprestado). No caso de Óliver não há opção de compra, e nos outros dois os clubes que os emprestaram têm a possibilidade de os reaver em condições muito favoráveis.

Some-se a tudo isto o previsível aumento da massa salarial do Porto, que já era alta. Com o aumento dado a Jackson, e a chegada de jogadores vindos de algumas das principais equipas europeias, é previsível que o défice operacional seja superior em 2014/15 - para todos os efeitos, continuamos num país em crise e em que o esforço financeiro feito pelo Porto no reforço do plantel está em total contra-ciclo com o resto da economia.

A ideia que passa é que, não havendo uma mudança significativa de vida, o clube acabará em breve por ficar com uma carteira de jogadores cuja propriedade será detida maioritariamente por terceiros, o que será um problema para realizar as tais mais-valias que mantém os resultados à tona de água.

A não ser, claro, que se continuem a fazer milagres financeiros como o de Mangala, em que um fundo abdica voluntariamente de uma enorme parcela do quinhão a que teria direito graças ao charme hipnotizador de Pinto da Costa. Se for assim, até podem mandar vir os craques todos de que precisam ficando apenas com 20% do passe, que continuam a ter um modelo de negócio perfeitamente viável.

11 comentários :

  1. Deixem-me adivinhar, o fundo que abdicou da sua parcela do mangala chama-se......doi-doien?
    ainda bem que o nosso presidente tem 2 dedos de testa.

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  2. "charme hipnotizador de Pinto da Costa"

    São as tais garantias extra-contratuais, como a relação de confiança que o FCPORTO SAD estabelece com os seus parceiros, a vasta experiência dos dirigentes, a capacidade de promover, valorizar e vender jogadores, a capacidade de cumprir contratos, a capacidade de cumprir pagamentos nas datas acordadas, etc.

    Com parceiros como a Doyen Sports, Olivedesportos, BMG, etc., o enquadramento no fair-play financeiro, torna-se mais acessível sem perda de competitividade.

    Destaco a lista de jogadores da Doyen Sports:

    http://www.doyensports.com/pt/players.html

    Alguns poderão estar nas fileiras do FCPORTO dentro de pouco tempo.

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    1. Ainda não percebi o que ganha a Doyen ao abdicar de €11M no imediato, Luís Miguel. Um abraço.

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    2. Enganei-me, não foram 11, devem ter sido €7M.

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    3. E por acaso não tens a lista de administradores da Doyen em Portugal?
      Isso é que eu gostava de saber. Suspeito que sejam todos futuros dragões de ouro.

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  3. Apenas um reparo em relação às percentagens.
    O facto de ter uma percentagem de um jogador pode não ser necessariamente mau, mais vale ter 50 % de um jogador que vale 30 milhões do que 100 % de um jogador que vale 10 milhões.

    Abraço

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    1. Claro que sim, Leão no Porto. Estou a comparar o que o Porto faz agora com o que fez no passado (em que contratava na mesma excelentes jogadores mas ficando com a maioria do passe). Um abraço.

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  4. Enternecedora a vossa preocupação com o FCP...

    E por falar em 'dói-não-doem'... O Rojo está convocado para o arranque da Premier League ?

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    1. E o que é que nós temos a ver com isso... já foi vendido... a massa já cá está....

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  5. Por mais voltas que vocês tentem dar o FCP é o clube mais equilibrado financeiramente, com menor passivo, longe da falência técnica do sporting, não dependente do BES como os clubes de Lisboa, com a melhor imagem de marca internacional (mesmo num ano mau foi o clube que melhor vendeu, ex Mangala e Fernando), por isso não se preocupem com as contas do FCP que estão equilibradas, preocupem-se com as vossas, com a necessidade que têm de rasgar contratos de parceria livremente estabelecidos para pagarem dívidas, preocupem-se com a "operação pavilhão" e com o facto de estarem há 12 anos de jejum em matéria de campeonatos. Preocupem-se também com o vosso presidente trauliteiro que mais parece um líder de uma claque travestido de dirigente.

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    1. É indiscutível que o Porto é o clube que tem as contas mais equilibradas. Mas isso não quer dizer que sejam boas e, para além disso, que não possam cair num buraco semelhante ao que o Sporting caiu. Com Filipe Soares Franco as contas andaram sempre equilibradas. Depois com Bettencourt começaram a resvalar e com Godinho Lopes foi o descalabro. Não foi preciso muito tempo para se passar do equilibrado para a pré-falência - essa proeza foi conseguida no espaço de 3/4 anos.

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