Está a acontecer. O futebol feminino tem tido, nos últimos dias, um nível de destaque inédito e inteiramente merecido, face à proeza alcançada com o primeiro apuramento para a fase final de um europeu. Algo que acontece na sequência - mas não como consequência - de um significativo crescimento da visibilidade da renovada Liga Allianz, que, esta época, abriu portas aos clubes da Liga NOS que se mostraram interessados em abraçar o desafio: Sporting, Braga, Belenenses e Estoril (o Boavista já estava na competição).
Este despertar da profissionalização é um fator que, seguramente, contribuirá decisivamente para o aumento da competitividade do futebol feminino em Portugal ao longo dos próximos anos. Mas existe ainda um grande caminho a percorrer, até estarem estabelecidas as bases de trabalho ideais para atletas e equipa técnica.
Vale a pena ver a entrevista feita ontem por telefone pela Sport TV+ a Mariana Cabral, coordenadora de formação e treinadora dos sub-19 femininos do Sporting, onde se fala de forma breve, mas bastante interessante, da história recente e do panorama atual do futebol feminino em Portugal - e que ajuda a perceber tudo aquilo que representa a qualificação alcançada na última terça-feira.
Este feito é, em primeiro lugar, um prémio que deverá encher de orgulho todos os técnicos, jogadoras e dirigentes que mantiveram o futebol feminino vivo durante os anos e anos em que não havia sequer uma fração da atenção que começa hoje a existir. Milhares de pessoas que jogando, treinando, organizando, informando e formando, sem quaisquer expetativas de mediatismo ou de recompensas que não fossem a evolução e afirmação da modalidade que praticavam ou acompanhavam.
Esta qualificação, só por si, não é garantia de que o futebol feminino tenha subido para um patamar superior de meios e mediatismo. Relembro a qualificação da seleção de Râguebi, em 2007, disputado em França, que gerou um enorme entusiasmo à volta da modalidade. Infelizmente, passados quase dez anos, conclui-se facilmente que isso acabou por não representar o salto desejado para a modalidade em Portugal. No caso do futebol feminino, tão ou mais fundamental que a qualificação para o Euro, é que continue a haver um empenho sistemático da FPF e dos clubes, nomeadamente aqueles que têm uma massa de apoio mais considerável. Obviamente que o Sporting, neste contexto, terá um papel importantíssimo a desempenhar.
Para além do forte investimento realizado na equipa sénior, contratando um naipe de jogadoras portuguesas de qualidade e de grande futuro, o Sporting também está a fazer uma aposta inequívoca na formação, com os escalões de sub-19 e sub-17, tendo recrutado algumas das maiores promessas nacionais que, no futuro, poderão formar uma espécie de núcleo da seleção nacional - no fundo, aquilo que é o ADN deste clube.
Têm sido meses muito positivos para o futebol feminino. As audiências televisivas do duplo confronto com a Roménia foram uma surpresa agradável, e o Braga - Sporting, uma partida importante entre os dois favoritos ao título, será transmitido em direto pela TVI24. Que o ritmo de crescimento se mantenha, e que estes meses positivos se convertam em anos. Quem sabe se, daqui a uma década, as qualificações para europeus e mundiais não serão algo tão rotineiro quanto as do futebol masculino? Seria muito bom sinal.
