sexta-feira, 13 de abril de 2018

Epílogo de um percurso europeu meritório

O Sporting nunca teve obrigação de passar esta eliminatória, e com muito menos obrigações ficou depois de ter perdido por dois golos sem resposta em Madrid. Tinha obrigação, isso sim, de disputá-la até ao limite das suas possibilidades, e foi precisamente isso que fez, tanto ontem como em Madrid. A grande diferença entre um e outro jogo esteve nos três erros crassos que cometemos - a entrada desastrada levou a que alguns jogadores abanassem em algumas situações de aperto. Mas no geral, creio que a equipa teve atitude nas duas mãos da eliminatória, ao nível do que mostrou em praticamente todos os jogos da Liga dos Campeões. 

O percurso europeu acabou mas foi meritório. Arrisco dizer que esta época defrontámos três das dez melhores equipas europeias do momento. Nessas seis partidas realizadas, apenas nas duas com o Barcelona é que vimos o adversário a superiorizar-se de forma mais ou menos clara - e mesmo num desses jogos, não deixámos de discutir o resultado até ao fim.

O crescimento europeu do Sporting tem sido visível com Jorge Jesus. É verdade que de um ponto de vista resultadista, Jesus não está a fazer nada que Paulo Bento, Sá Pinto ou José Peseiro não tenham feito nas suas passagens pelo clube. Mas do ponto de vista da personalidade com que se encara os adversários, os progressos são mais que evidentes.

Isto, na minha opinião, torna evidente uma outra questão: como é que uma equipa que soube encarar de frente alguns dos maiores da Europa, passou tão mal contra adversários internos que estão a milhas da realidade europeia?

Bem sei que os campos, em Portugal, têm andado constantemente inclinados contra uns e a favor de outros, e isso explica facilmente a diferença de pontuação em relação a quem está no topo, mas, ainda assim, parece-me óbvio que não fizemos tudo o que estava ao nosso alcance. Não coloco em causa que os jogadores têm dado o litro até ao fim nos jogos do campeonato quando o resultado não é o pretendido. O meu problema é que não têm dado tudo entre o primeiro minuto e o momento em que se apercebem que a vitória pode fugir. Pelo meio, vai-se acelerando o jogo em períodos curtos, o que muitas vezes chega para marcar, mas nem sempre.

É fundamental que a equipa esteja predisposta a correr até cair para o lado desde o primeiro minuto, e isso, de uma forma geral, não tem acontecido nas competições internas.

Claro que a motivação que um jogador tem quando defronta um tubarão europeu é diferente da motivação de um jogo rotineiro para o Tugão, mas se não estamos neste momento mais perto do topo da classificação é, claramente, porque essa diferença de motivação é muito mais ampla do que deveria ser.

A qualidade está lá, mais a qualidade, só por si, não é suficiente. Dentro daquilo que depende exclusivamente de nós, falta-nos conseguir reduzir a tal oscilação motivacional, perceber qual o modelo de jogo mais adequado para as competições internas, e ter prioridades bem definidas para o nosso calendário. Prioridades bem definidas, na minha opinião, que passavam por usar a Liga Europa para rodar a equipa... mas não foi isso que entenderam o presidente - que estabeleceu a vitória na competição como objetivo -, o treinador - que aprecia o palco europeu - e os jogadores - pelo menos na eliminatória com o Atlético. Foi uma competição gira enquanto durou, que melhorou o nosso ranking, trouxe prestígio assim-assim, mas, em contrapartida, deu pouco dinheiro e foi pródiga no desgaste e nas lesões que provocou. No geral, será que valeu a pena?

Em relação ao jogo de ontem, no entanto, mentiria se não reconhecesse o prazer que me deu a exibição da nossa equipa. Muito bem Jesus, mesmo com a ausência de quatro titulares indiscutíveis, a montar a estratégia que permitiu pôr os espanhois aos papéis durante a primeira parte: colocou três centrais para evitar as aflições de 2x2 (Coates e Mathieu contra Costa e Griezmann) que nos matou em Madrid; abriu os laterais a toda a largura e com permissão para explorarem a profundidade (e que enormes exibições fizeram Ristovski e Acuña); Battaglia e Bryan a fazerem um jogo de grande sacrifício e competência no miolo. Mesmo com o percalço da saída de Mathieu, Petrovic esteve impecável defensivamente - sempre muito concentrado e certo no posicionamento, sabendo quando tinha de se manter na linha defensiva ou quando tinha que sair em contenção. Chegámos ao intervalo a ganhar por 1-0 e a lamentar a estupenda defesa de Oblak a cabeceamento de Coates e a falta de pontaria de Gelson de cabeça numa situação em que apenas tinha que escolher o lado onde colocar o esférico. A segunda parte começou a ser mais complicada, principalmente quando começaram a faltar pernas. Infelizmente, falharam as outras duas substituições: Rúben e Doumbia não acrescentaram nada, mas há que reconhecer que qualquer equipa está sujeita a que isso aconteça quando se está a rapar o fundo do tacho (ou do banco - não esquecer que para além da indisponibilidade de Dost, Coentrão, Piccini e William, também não havia Podence, Leão e o talismã das noites europeias chamado Bruno César) e que também não ajudou o facto de, nessa altura, haver vários jogadores em nítidas dificuldades físicas, como Gelson ou Bruno Fernandes.

Uma última palavra para o grande ambiente que se viveu no estádio do início ao fim. Apesar de ser um jogo que merecia mais gente, os que marcaram presença tiveram nota máxima. Apesar da eliminação, foi uma noite europeia que valeu a pena presenciar ao vivo.

16 comentários:

  1. Mestre,

    Se esta equipa motivada se apresentar novamente em campo na próxima quarta-feira, então estaremos bem mais perto do Jamor.

    Se está mesma equipa marcar presença nos últimos 5 jogos de Liga, então o acesso à Champions ainda poderá ser uma realidade.

    E verdade é que, nos últimos 4 meses, apenas me apercebi da qualidade desta equipa em 2 ou 3 jogos e ontem foi um desses jogos.

    É preciso que se lembrem de jogar à bola mais vezes, muitas mais.

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  2. A equipa jogou bem e mereceu ganhar, mas não vamos ser como os lampiões.
    Estivemos a jogar com uma equipa que nem 50% deu.... tivemos sorte em nos ter saido uma equipa cansada e sem grande garra. Quando nos calhou o Bayern veio uma super equipa, quando calhou ao carnide veio uma equipa mediana sem grande genica, e isso é que fez a diferenca.

    Tivessem os nossos jogadores um pouco mais de garra em Madrid e teriamos passado, ou pelo menos empatado a eliminatória. Mas agora já está e terminámos como a equipa tuga com mais pontos, para aqueles que ainda ligam a isso (afinal houve uma equipa do pote 1 que saiu da Europa sem um unico ponto....).

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  3. ."..como é que uma equipa que soube encarar de frente alguns dos maiores da Europa, passou tão mal contra adversários internos que estão a milhas da realidade europeia?"

    Os grandes europeus, a maioria das vezes, encaram os clubes menos dotados financeiramente como o Sporting encara os pequenos cá. Infelizmente. E isto sempre foi para lá de evidente na história do futebol. Daí as surpresas. O jogo é sempre muito psicológico e com a eliminatória praticamente assegurada entraram demasiado relaxados. Quem viu o Atlético de Madrid vs Real Madrid ainda no último fim de semana viu as diferenças.

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    1. Não tem nada a ver com as diferenças financeiras.Tem a ver com o resultado feito em Madrid porque o Sporting precisava de marcar 3 golos à equipa espanhola com menos golos sofridos.Repito MENOS GOLOS SOFRIDOS.
      Em 31 jogos tem 15 golos sofridos.

      O falhanço do Montero pode ter marcado decisivamente a eliminatória pois com o resultado de 2-1 este jogo seria quase de certeza diferente.

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    2. Isso é o Mestre a fazer-se de vítima como de costume. A Roma também espetou 3 ao Barça e está em terceiro lugar em Itália.

      Tal como diz o Vítor e muito bem, quando as equipas não são humildes o suficiente ou tem uma liderança fraca a coisa costuma correr mal.

      Quando é algo pontual, muito bem, acontece. Agora, quando é algo recorrente, como no caso do Sporting, já deveria ser motivo de reflexão. Mas com essa despreocupação posso eu bem. heheh

      Cumprimentos

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  4. Eu estive lá, e valeu a pena mesmo sendo a meio da semana, com frio e um dilúvio biblíco. Foi uma vitória, o 3º da liga portuguesa venceu, e venceu bem, ao 2º da liga espanhola. Batemo-nos sem medo, sem 4 titulares, olhos nos olhos. Podíamos perder por 5 frente ao Basileia, mas não era a mesma coisa, e com BdC e JJ não corremos o risco de uma humilhação europeia, como acontecia amiúde há apenas 5 ou 6 anos.

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  5. A tristeza com que saí do estádio sabendo que podíamos ser nós a ter passado esta eliminatória. Foi dos melhores, se não o melhor, jogo do Sporting que vi. Que garra!! Que raça!!! Não consigo apontar 1 jogador que não tivesse dado tudo!! Realmente temos mesmo esta sina....

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  6. Totalmente de acordo. O que retiro da exibição de ontem (e da última jornada) é que JJ não deveria hesitar tanto em fazer rotações, em mudar de sistema, em apostar em jogadores menos rodados. Saiu-se bem, muito bem até, assim como a maioria dos jogadores lançados. Seria uma grande conquista deste grupo adoptar uma mentalidade de next man up.

    A ausência de um titular nunca pode ser vista como um problema, mas como uma oportunidade para outro talento brilhar. Tal como a "sobrecarga" de jogos que, como JJ muito bem disse, é na verdade um privilégio próprio de quem se bate em todas as competições. E, como vimos, é a bater-nos com os maiores da Europa que este clube está bem.

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  7. Se calhar esta polémica toda do Bruno até foi boa para a equipa. Parece que acordaram.

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  8. Não concordei com o comunicado o NDC


    Mas passei de achar que o não devia ter feito, a achar que o devia ter feito não só mais cedo como mais vezes....

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  9. “O crescimento europeu do Sporting tem sido visível com Jorge Jesus.”...e...“Claro que a motivação que um jogador tem quando defronta um tubarão europeu é diferente da motivação de um jogo rotineiro para o Tugão, mas se não estamos neste momento mais perto do topo da classificação é, claramente, porque essa diferença de motivação é muito mais ampla do que deveria ser."....

    Estas duas frases, retiradas do seu texto, reforçam a crença de que algo vai mal no comando técnico do Sporting e tem de ser corrigido. Jorge Jesus tem a obrigação prioritária de consolidar o crescimento do Sporting no panorama nacional, pois estas “vitórias morais” de nada servem se não houver sucesso interno (e não é com taças). Porque jogaram tanto ontem (adorei ter ido ao estádio ver um equipa de leões) e nos jogos com equipas da segunda metade da tabela na Liga portuguesa nesta temporada e na anterior têm sido uma desgraça ?

    Jorge Jesus tem o dever de incutir na equipa que o mais importante e vital é o campeonato e que o esforço sem limites dos jogadores tem de ser aí, nos palcos secundários de Portugal. Se não o consegue, só prova que os jogadores agem mais para interesse próprio e nas suas carreiras do que no clube que representam.

    Discordo ainda do tom de destino irremediável de que os “jogadores tem motivação diferente quanto defrontam colossos europeus”. Poderão sentir, sim, essa motivação extra, mas só depois de consolidarem o sucesso do seu Sporting nas competições internas, por que senão o timoneiro não está a passar a mensagem correcta aos jogadores.

    O maior problema é que o técnico Jesus parece ter como postura o gostar mais de brilhar nos grandes palcos com "vitórias morais" ao invés de triunfar no campeonato, o que para um treinador titulado como ele é secundário e, já agora o mais importante, contrário a uma estratégia correcta de um grande clube que se quer reerguer no âmbito dos triunfos domésticos.

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    1. Agree.Mais relevante se torna esse objectivo só com a entrada directa de uma equipa na champions e com a possíbilidade de outra através uma eliminatória.

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  10. Afinal, não que agora isso interesse, mas, BdC tinha razão!! Mais uma vez, não na forma mas sim no conteudo!! É a ilação que eu tiro do jogo de ontem...se jogássemos sempre assim, mesmo nos calhando em sorte o Arsenal como aconteceu ao At. Madrid, tinhamos TUDO para estar na final!! Critiquem BdC na forma como ele comunica, mas no conteudo ele acerta 99% das vezes no alvo!!

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  11. É muita cegueira continuar a insistir que errar na forma é menos importanto que no conteúdo. A FORMA TEM O SEU CONTEÚDO PRÓPRIO. Corrigir sob minha liderança um funcionário que errou dando-lhe 10 chibatas, ou humilhando-o em público, ou até indo para o facebook questionar o seu empenho em vez de falar pessoalmente com ele, não é errar na forma é errar como líder.

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  12. Tudo muito bem, muito bonito, mas nenhuma equipa consegue jogar sempre com aquela intensidade. Aliás, viu-se como foi quando começaram a perder gás. Há jogos e jogos, é pena que não sejam sempre como com o Atlético, mas pedir isso também não é realista.

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