sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Sporting que eu quero

A AG de hoje deveria ser sobre estatutos e regulamento disciplinar, mas não vai ser. Vai ser sobre a continuidade da direção e, em particular, do atual presidente. Mas se a AG de hoje vai ser sobre o presidente que queremos (ou não), então não é apenas assim que deve ser colocada a questão. Convém que cada sócio presente coloque a si próprio uma outra pergunta antes de exercer o seu direito de voto:

Que clube quero que seja o Sporting?

Isto porque o clube acaba inevitavelmente por refletir a imagem do seu líder, que, por sua vez, terá a tendência de se fazer rodear maioritariamente por pessoas que partilhem determinadas características. Falo de características, não de personalidade. Um líder incompetente terá tendência para se rodear de gente incompetente e construir um clube que será presa fácil para os clubes competentes e/ou aldrabões. Um líder competente terá tendência para se rodear de gente competente e construir um clube leal e competitivo. Um líder aldrabão terá tendência para se rodear de aldraboes e construir um clube cuja competitividade assenta na aldrabice. As últimas décadas do futebol português estão carregadas de exemplos destes.

Como eu quero um clube leal e competitivo, não estou disposto a abdicar do trabalho deste presidente e desta direção, com todos os defeitos que possam ter. Estamos perante uma situação em que temos de optar entre Bruno de Carvalho ou o abismo? Não necessariamente, até poderá acontecer que o seu sucessor seja igualmente competente. Mas quais serão as reais probabilidades de surgir uma alternativa igualmente competente e dedicada? Será assim tão provável que surja um presidente igualmente competente? Olhando para o historial dos nossos presidentes e dirigentes das últimas décadas, a resposta à última pergunta é tão óbvia como desanimadora: não.

Bruno de Carvalho tem, obviamente, defeitos. Defeitos esses que são bastante mais visíveis a olho nu do que as suas qualidades, e que acabam por minar, aos olhos de muitos, o excelente trabalho que tem feito. Mas, a meu ver, os principais defeitos que lhe apontam acabam por estar intimamente ligados a outras qualidades suas.

A forma como comunica. Bruno de Carvalho é frontal e direto. Para mim, são duas qualidades importantes neste futebol podre que existe em Portugal, porque é impossível um clube ser respeitado se o seu presidente comer e calar em todas as sacanices que façam a si e à instituição que dirige. Nessa sua frontalidade, usa muitas vezes termos e expressões vulgares que não gosto de ler ou ouvir - por uma questão de civilidade e, sobretudo, de eficácia: infelizmente, o presidente continua não perceber que a forma como costuma manifestar a sua frontalidade acaba por colocar a maior parte das pessoas a discutir o acessório em vez do essencial.

A quantidade de vezes que alimenta guerras desnecessariamente, seja por dar palco a gente insignificante, seja por dar mediatismo a assuntos irrelevantes. Dificilmente voltaremos a ter um presidente tão dedicado ao clube como Bruno de Carvalho. Ao contrário de muitos dirigentes que o antecederam, é perfeitamente claro que este presidente vive o Sporting e para o Sporting 24 horas por dia. Perante esse nível de imersão, consigo compreender a necessidade que sente em ir pessoalmente a todas as frentes de batalha... mas seria melhor para si (e para o Sporting) que ignorasse muitas delas, que delegasse o combate de outras, e que se reservasse para as questões verdadeiramente fundamentais. Até porque quando compra ou alimenta guerras com sportinguistas que discordam de si, acaba por ajudar a alimentar a narrativa de que é um ditador coreano que não tolera visões diferentes e é capaz de tudo para se perpetuar no poder - o que é absurdo, pois nunca esta direção desencadeou qualquer ação nesse sentido, bem pelo contrário. A marcação desta AG, em que coloca a sua permanência nas mãos dos sportinguistas em circunstâncias bastante desfavoráveis (bastam 25,01% dos votos para o retirarem do cargo) assim o demonstra.

Não quero com isto estar a encontrar justificações ou desculpas para os defeitos do homem. O que quero dizer é que, para o bem e para o mal - felizmente muito mais para o bem do que para o mal -, Bruno de Carvalho é como é - e, como em qualquer indivíduo, não podemos nem devemos esperar que seja possível compartimentar as partes boas e as partes más, de forma a ser fácil ficar apenas com o que nos agrada e descartar aquilo de que não gostamos. Seria bom que aprendesse neste capítulo como tem aprendido noutros, claro, mas ninguém é perfeito.

Para quem tenciona votar contra por não gostar dos defeitos que referi acima, ignorando tudo o resto que foi alcançado e todos os compromissos que têm sido cumpridos, não será difícil encontrar um futuro presidente cordial e recatado: existem dezenas de milhares de sportinguistas que cumprem esse requisito. O resto é que já não será tão fácil.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube competitivo, não só no futebol, como também nas modalidades.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube de princípios, independentemente da podridão que o rodeia, nos quais os sócios e adeptos se podem rever orgulhosamente.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube cheio de vitalidade, que atraia os seus sócios e adeptos para a participação ativa na sua vida, seja em dia de jogo, seja em eleições ou AG's, seja em quaisquer outros tipos de eventos.

Porque o Sporting que eu quero tem de ser um clube responsável e transparente, ambicionando um crescimento sustentado constante, que não dependa da bola que bate ou não no poste. Nunca mais quero voltar a sentir a mesma angústia que nos asfixiou há apenas cinco anos. Repito, há apenas cinco anos.

Competitividade, princípios, vitalidade, responsabilidade e transparência. Lembram-se de como estava o clube quando esta direção tomou posse? 

Competitividade? Só no futsal e pouco mais. Princípios? Abalados pelo caso Paulo Pereira Cristóvão. Vitalidade? Estádio com lotações em mínimos históricos e uma enorme percentagem de sócios com meses e meses de quotas em atraso. Responsabilidade? À beira da falência, um passivo galopante e sem ativos. Transparência? Pois...

Hoje, o Sporting é campeão no futsal, andebol, futebol feminino, ténis de mesa e atletismo, e está competitivo no futebol, hóquei e voleibol - com vários títulos europeus conquistados em diversas modalidades. O Sporting empenhou-se, com sucesso, na luta contra os fundos e pela implementação do VAR - completamente isolado, contra tudo e contra todos neste país. O Sporting tem tido um crescimento ímpar na sua história de novos associados e nas assistências no atual estádio. O Sporting tem apresentado resultados positivos de forma sistemática, recuperou a maior parte dos passes dos jogadores cedidos a troco de dinheiro para pagar despesas correntes, e fornece regularmente aos sócios detalhes da sua gestão que mais ninguém dá - arrisco a dizer no mundo inteiro -, como, por exemplo, todos os números relativos às transferências de jogadores. O Sporting, pela primeira vez em muito tempo, ganhou património, com a construção do Pavilhão João Rocha.

O nível de exigência aumentou imenso e os obstáculos no caminho de quem liderar este clube mais imensos serão. Desengane-se quem pensar que será fácil encontrar um substituto que dê a devida sequência ao trabalho que tem vindo a ser feito.

Se acho necessária toda esta novela para relegitimar o presidente e a direção? Não. Continuo a não ver nada nesta mudança de estatutos e no novo regulamento disciplinar que justifique todo este drama - de um lado e doutro da barricada. Por mim, a atual direção tem toda a legitimidade para concluir o atual mandato. Mas se o presidente - que é o homem mais odiado deste país por defender intransigentemente os interesses do Sporting, e saco de pancada preferido de uma comunicação social podre - sente necessidade de uma prova de apoio inequívoco por parte daqueles que apreciam tudo aquilo que tem feito, era só o que me faltava não lhe dar um voto de confiança total. Não incondicional, mas total, porque confio que saberá honrá-lo. Depois de tudo o que alcançou - e, mais importante, de tudo aquilo que acredito que ainda irá alcançar -, é o mínimo que posso fazer.

Bruno de Carvalho, com todas as suas virtudes e defeitos, é o presidente que eu quero para o nosso Sporting. Se é o presidente que querem também, já sabem o que têm de fazer esta tarde.

6 comentários:

  1. Infelizmente não posso ir, vou estar a sofrer a muitos km de Lisboa. Não há muito mais a dizer, do que foi escrito pelo Mestre. Por favor, não deixem de ir hoje votar na AG. Vamos SPORTING.

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  2. Estarei lá para dizer SIM ao Presidente Bruno de Carvalho.
    Espero que os sócios entendam que só uma forte mobilização poderá impedir que os ratos de esgoto vencam e, portanto, esgotar o Pavilhão João Rocha é fundamental.
    Viva o Sporting Clube de Portugal

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  3. Bom dia. Não estou a conseguir encontrar na internet a proposta de regulamento disciplinar. É possível indicar um link?

    SL
    Tearjerker

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  4. Força SCP, força BdC! Sou sócio e quero a continuidade dos dois só pelo simples prazer de ver os rabolhos a espumar de desgosto. AMO-TE SPORTING

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  5. Acho que devias pensar não no "Sporting que quero", mas "Presidente que quero". Porque o drama de hoje tem ZERO a ver com o Sporting, até porque são coisas tão urgentes que só entram em efeito no próximo mandato.

    O drama é sobre - e gerado por - o presidente do SCP.

    E o problema está na atitude que aqui tanto repetes: "o presidente terá os seus defeitos, mas fez e faz tanta coisa bem!". O problema que ele gera, e vocês repetem é esse. Se alguém faz mil coisas bem, mas dez mal... tem que se falar dessas dez. Pra que as corrija. Especialmente alguém que define o seu cargo - e bem - como estando ao serviço dos adeptos (ou só os sócios?) do seu clube.

    Elogie-se as mil que estão bem, mas não se fuja nunca das dez que estão mal!

    E é pena. Porque o SCP é a ultima esperança que tenho na salvação do futebol português. E estão a estragar isso. É pena.

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  6. Parabéns Mestre pelo seu artigo que é perfeitamente esclarecedor! E agora que já sabemos da monstruosa Vitória, finalmente podemos dizer que é um orgulho ser Sporting Clube de Portugal.

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