quarta-feira, 15 de maio de 2019

O acordo por Gelson

O Sporting comunicou ontem à CMVM os contornos do acordo com o Atlético Madrid para a resolução do diferendo que envolve o clube e Gelson Martins: 

  • O clube espanhol paga 22,5 milhões de euros ao Sporting por Gelson, fechando a questão da rescisão;
  • O Sporting contrata ao Atlético o avançado Luciano Vietto, pagando 7,5 mihões de euros por 50% dos direitos económicos.

Feito o encontro de contas de ambas as transações, o Sporting está a aceitar ser compensado pela rescisão de Gelson em 15 milhões de euros + 50% de Vietto.


Compensação

Gelson foi avaliado em 22,5 milhões, um montante inferior ao que era o seu valor de mercado na altura em que rescindiu. Em contrapartida, Vietto foi avaliado em 15 milhões, um montante bastante superior ao seu atual valor de mercado. Nunca o Sporting contratou um jogador cuja totalidade do passe tivesse uma avaliação tão elevada. A sensação que este acordo deixa é que, mais que uma compensação, o Atlético encontrou uma forma de eliminar o risco para a iminente venda (com lucro) de Gelson ao Mónaco, ao mesmo tempo que resolve a situação de um excedentário - ficando ainda com perspetivas de recuperar uma parte considerável do investimento que fez em 2015 (pagou 20 milhões ao Villarreal por 100% do passe). 

Enquanto sócio e adepto, sinto-me muito pouco compensado por este acordo. À semelhança do que aconteceu com Rui Patrício e William Carvalho, é um desfecho dececionante após tudo o que aconteceu e considerando o valor desportivo que os atletas efetivamente têm. E se na altura em que se fecharam os casos de Patrício e William havia a atenuante da grave situação de tesouraria que o clube vivia, a situação mudou com a realização do empréstimo obrigacionista e da operação de antecipação de receitas dos contratos televisivos. Os constrangimentos financeiros não podem servir de justificação para o acordo formalizado ontem.

O ponto fulcral é este: terão sido os interesses do Sporting devidamente defendidos com este desfecho? Só a decisão do tribunal o esclarecerá: se a razão for dada aos jogadores, então este acordo será bom, dentro do que era possível; se a razão for dada ao Sporting, como todos esperamos... quantas dezenas de milhões de euros irá a SAD a perder nos três acordos que foram fechados? Admito que este racional é um exercício de totobola preenchido à segunda-feira, mas é mesmo isto que passará pela cabeça de todos os sportinguistas quando a decisão do tribunal for conhecida.


Carrossel

Se os valores do negócio já são de si pouco entusiasmantes, o contexto mendesiano torna-o ainda mais duvidoso. A chapa-15 e o abatimento do valor metendo metade de um passe de um excedentário deixam todo um desagradável odor a transação do carrossel Mendes - onde toda a gente costuma sair a ganhar... menos os clubes. 

Faz lembrar a venda de Gaitán do Benfica para o Atlético (LINK): o valor acordado era de 25 milhões, mas mais tarde descobriu-se que foram abatidos 12 milhões por 50% dos direito económicos de Jimenez e ainda 4 milhões pelas opções de compra de dois jogadores que nunca foram exercidas. Ou seja, o Benfica só recebeu 9 milhões nessa venda de Gaitán.

Não estou a dizer com isto que o negócio de Gelson e Vietto conterá ainda mais cláusulas ou contratos paralelos para já desconhecidos. Espero sinceramente que não, mas é um risco real a partir do momento em que a direção decidiu aproximar-se de Jorge Mendes. É um relacionamento que nunca trouxe nada de bom para o clube - basta lembrar a recente e preciosa ajuda que o empresário deu ao colaborar com Cintra para a contratação de José Peseiro e no papel que se diz que teve no consumar das rescisões de há um ano.


Vietto

O facto de ser muito discutível que os interesses do Sporting tenham sido adequadamente defendidos não deve lançar qualquer tipo de estigma ou dúvida sobre a qualidade de Vietto. Apesar de as últimas épocas não terem corrido bem ao argentino, parece-me um jogador que tem todas as condições para fazer a diferença na liga portuguesa. 

Os números desta época não são animadores, mas convém recordar que jogou no Fulham - uma das equipas mais fracas de Inglaterra - onde foi utilizado sobretudo como extremo, que não é a sua posição natural. Se o Sporting conseguir recuperar o jogador que se destacou no Villarreal, poderemos ter aqui o segundo avançado que procuramos desde que Teo Gutierrez saiu. A competitividade das ligas em que Vietto tem jogado é incomparavelmente superior à realidade portuguesa. Bem servido e bem rodeado, acredito que poderemos ter aqui um excelente reforço para 2019/20.

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