segunda-feira, 20 de maio de 2019

Uma equipa de arruaceiros - edição 2018/19

No final do jogo do Dragão, Frederico Varandas falou aos jornalistas referindo, de forma sarcástica, a facilidade com que os árbitros exibem cartões aos jogadores do Sporting. Não se pode dizer que seja uma novidade os critérios serem mais apertados quando são os jogadores do Sporting a cometer faltas, mas esta época foi particularmente pródiga em situações absurdas a penalizar os nossos atletas - ainda mais quando, noutros estádios, vemos sistematicamente equipas a escaparem a sanções disciplinares por situações de jogo idênticas ou mesmo mais graves.

Há alguns episódicos bem sintomáticos que vale a pena recordar e comparar. Ristovski foi expulso por três vezes: a primeira vez, em Setúbal, por ter protestado após uma cotovelada que sofreu - uma das agressões mais brutais da época - ter passado impune; a segunda, em Chaves, por ter feito uma falta banal que se deveria ter resolvido no máximo com um amarelo; a terceira, em Alvalade frente ao Tondela, por um pisão que se costuma punir com um cartão amarelo. No seu conjunto, custou-nos quatro pontos (Setúbal e Tondela) e poupou uma expulsão a um jogador do Chaves numa altura em que o resultado estava em aberto. Em contrapartida tivemos, no passado sábado, uma entrada de pitons de Felipe no tendão de aquiles de Diaby - muito pior que a falta de Ristovski frente ao Tondela - que escapou apenas com um amarelo. Aos 12’ da jornada inaugural, Tiago Martins já tinha amarelado Nani e Bruno Fernandes por protestos, o que contrasta, por exemplo, com as várias situações em que João Félix deu sermões a árbitros de dedo em riste sem qualquer punição.

Critérios completamente disformes que protegem uns de cenários potencialmente complicados e que empurram outros, neste caso o Sporting, para situações de dificuldade acrescida.

Nada de particularmente novo, mas, este ano, pode dizer-se que os árbitros capricharam. O Sporting chega ao fim do campeonato como a equipa mais indisciplinada da liga. Foi a equipa que viu mais cartões amarelos (95 contra 90 da segunda equipa mais amarelada), sendo o cenário composto com 7 expulsões.

Fonte: Transfermarkt

É um anacronismo aberrante que o Sporting, uma das melhores equipas da liga, cujos jogadores estão regularmente sujeitos a entradas bem mais violentas (lembrar, por exemplo, a nossa deslocação a Vila da Feira em que valeu tudo menos arrancar olhos), seja a equipa mais indisciplinada do campeonato. Mais indisciplinada que os "pés na chapa" que pululam nesta liga recheada de especialistas em pôr ferrolhos na porta.

Benfica, Porto, Braga, V. Guimarães e Moreirense, as outras equipas que se posicionaram de forma destacada no top-6 do campeonato, estão todas no grupo das 8 equipas mais disciplinadas. Esta é a regra. Por que razão o Sporting foi (e costuma ser) exceção?

Para além do condicionamento a que os nossos jogadores ficam sujeitos após verem cartões - quantas vezes Keizer, que já percebeu como funcionam as coisas por cá, foi forçado a substituir defesas e médios prematuramente? -, para além das suspensões quando se acumulam 5, 9 e 12 amarelos, há ainda o tempo de jogo que disputámos em inferioridade numérica. Só há quatro equipas no campeonato que jogaram mais tempo em desvantagem numérica do que o Sporting.

Gráfico feito com base em dados do site whoscored.com; equipas com valores negativos significa que jogaram mais tempo em superioridade numérica do que em inferioridade numérica; os minutos sem um determinado jogador acumulam-se em situações em que equipas tiveram dois ou três jogadores expulsos no mesmo jogo

Há ainda a questão do momento em que os jogadores são expulsos: uma coisa é uma equipa ver-se privada de um jogador perto do minuto 90; outra é ficar com menos um jogador durante a primeira parte.


Também aqui o Sporting é das equipas que mais penalizada foi: nas partidas em que nos vimos em desvantagem numérica estivemos, em média, a jogar 45 minutos nessa condição - fruto de várias expulsões na primeira parte e no início da segunda. Só o Marítimo tem média pior, ainda que, no caso da equipa insular, tenha tido apenas quatro expulsões durante a época. Braga, Benfica e, especialmente, Porto, sentiram muito menos (ou nada) na pele as dificuldades de jogar com menos jogadores do que o adversário.

2018/19 foi mais uma época em que saímos com muito mais razões de queixa do que os nossos rivais. E a questão disciplinar é apenas uma de várias áreas relacionadas com a arbitragem em que somos tratados de forma muito diferenciada, para pior, do que as equipas com quem tentamos disputar o título.

EDIT 12h30: apercebi-me agora que a tabela do Transfermarkt ainda não estava atualizada na noite de ontem - altura em que extraí o quadro que coloquei acima - com os cartões dos jogos disputados durante o dia. Aqui ficam os dados atuais, em que o Tondela passa a ser a equipa mais indisciplinada, "relegando" o Sporting para o segundo lugar desta tabela. Esta alteração não afeta a análise global e as conclusões que retirei. Os dados retirados do whoscored.com que coloquei já continham os últimos jogos.


7 comentários:

  1. Desafio-te a fazer uma análise comparativa com outras épocas. Acho que iria assentuar esta perseguição ao Sporting

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  2. Basta apontar dois casos paradigmáticos do futebol português:

    Felipe, do FC Porto, tem 114 jogos em competições nacionais, e 2 vermelhos, ambos por acumulação. Média de 1 vermelho a cada 57 jogos. Tem 27 jogos em competições europeias, e um vermelho, directo. Média de 1 vermelho a cada 27 jogos.
    Rúben Dias, do Benfica, tem 69 jogos em competições nacionais na Equipa principal, e 0 cartões vermelhos. Zero. Tem 17 jogos em competições europeias, e um cartão vermelho, por acumulação. Média de 1 Vermelho a cada 17 jogos.

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  3. Mestre,

    Permita-me apontar mais uma curiosidade, que não creio ter tido o merecido destaque. O Sporting fez apenas mais uma falta que o fcp... Notável!

    Z

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  4. Parabéns pelo post. Quanto a mim seria importante juntar um quadro mais. O período da época em que os 3 grandes foram castigados nos cartões. No último terço da prova e em momentos cruciais fomos vítimas de excesso de zelo por parte das arbitragens e excesso de tolerância para com os rivais. Tivemos jogadores nossos privados de jogar jogos decisivos como Acuña e Ristovki e nenhum dos outros rivais teve jogadores em risco de exclusão na véspera de um jogo grande a ficarem de fora. Isso é um hábito que acontece todos os anos

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  5. E o presidente do Sporting depois de estar calado perante tanta roubalheira que tem beneficiado o Fifica, gastou os creditos acumulados por este silencio, com uma intervenção banal, pedindo coragem aos árbitros?. Devia gritar em alta voz que não existe verdade desportiva, que tudo isto é uma aldrabice. Lástima de clube, sem estrategia comunicacional, prefiro mil vezes o porto canal, ao canal memoria e tibio da Sporting TV. !!! É a unica coisa pela qual sinto saudades do BDC, sendo trapalhão e muito básico, mas ao menos gritava em alta voz pelas injuisticas cometidas contra o Sporting ....

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  6. Ah, e grande resposta do Francisco Marques, ao Frederico varandas. Esta comunicação tíbia do Sporting enevergonha não só os sportinguistas como qualquer amante do desporto....

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  7. O que espera a direção para pegar nestes dados e os apresentar ao conselho de arbitragem. Ou de os expor em conferência de imprensa

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