segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Um ano de Varandas

Foto: Expresso
Cumpriu-se ontem um ano desde que a direção liderada por Frederico Varandas tomou posse. É justo reconhecer que a tarefa era, à partida, de uma tremenda dificuldade: encontrando um clube completamente fraturado, com graves problemas desportivos e financeiros por resolver e pouco ou nenhum tempo para o fazer, foi, provavelmente, a primeira direção que não teve direito a qualquer período de estado de graça, tendo sido fortemente e ruidosamente contestada desde o primeiro dia.

É, por isso, uma boa altura para se fazer um balanço do trabalho desenvolvido. Até que ponto as expetativas criadas e as promessa feitas foram cumpridas? Aqui fica a minha avaliação pessoal sobre o desempenho nas diferentes áreas (de 1 a 5 estrelas).


Títulos do futebol (****)

A finalidade de um clube como o Sporting é vencer e, considerando todos os constrangimentos conhecidos, é justo reconhecer que esta primeira época de Varandas superou as expetativas iniciais da maior parte dos sportinguistas no que aos títulos do futebol profissional diz respeito. 

É verdade que não jogámos de forma dominadora nos momentos decisivos da Taça de Portugal e da Taça da Liga, mas sempre ouvi dizer que as finais não são para se jogar... são para se ganhar. E mesmo tendo sido ambas conquistadas nos penáltis, convém lembrar que o percurso foi repleto de dificuldades: eliminámos o anfitrião nas meias-finais da Taça da Liga e o Porto na final, sendo obrigados a recorrer a Petrovic como central com o nariz partido; e eliminámos o Benfica nas meias-finais - com uma segunda mão de excelente nível - e o Porto na final, com erros graves de arbitragem (golo mal anulado ao Sporting na Luz e golo mal validado ao Porto) que, como é habitual, nos prejudicaram. 

A equipa foi sempre encarada como a menos favorita das quatro que chegaram às meias finais, mas prevaleceu. Contra tudo e contra todos. É, por isso, da mais elementar justiça que se reconheça mérito nas duas conquistas.


Gestão das modalidades (****) 

Apesar dos muitos rumores que circularam sobre o suposto fim do ecletismo do Sporting tal como o conhecíamos como consequência de um forte desinvestimento, a competitividade geral das equipas manteve-se. 

Houve, de facto, uma racionalização de certos gastos, mas, olhando individualmente para cada uma das equipas, não se reconhecem mais pontos fracos do que os que existiam em épocas anteriores: o futsal renovou-se (e bem) após uma época em que conquistou um título europeu inédito, Taça de Portugal e Supertaça, e ficou a milímetros de poder discutir o campeonato nos penáltis; o hóquei, depois da conquista europeia, fez ajustes pontuais e promete voltar a lutar por todas as competições; o andebol, após uma época em que apenas a participação na Liga dos Campeões se aproveitou, trouxe um treinador prestigiado a nível europeu e rejuvenesceu-se com jovens de grande potencial; o voleibol foi obrigado a mexidas ainda mais profundas do que é habitual por causa da mudança de casa para Lisboa, mas contratou um técnico brasileiro conceituado e vários jogadores de quem se espera muito; o basquetebol, regressado após um interregno de 24 anos, parece estar suficientemente equipado para dar luta aos habituais favoritos; a equipa de judo masculino sagrou-se campeã europeia. 

Ainda está por confirmar a continuidade ou término do acordo no ciclismo e existem dúvidas legítimas sobre o que se pretende para o atletismo, para algumas modalidades de combate e para o desporto adaptado. O tempo encarregar-se-á de as esclarecer, mas não me parecem fazer sentido as preocupações sobre o futuro do ecletismo no Sporting.


Filosofia na formação (****)

Ao contrário do que vinha sendo habitual, existe este ano uma preocupação em expor os jogadores da formação a contextos de maior exigência competitiva. Os sub-23 estão carregados de jogadores de 18 ou menos anos, a equipa de juniores é composta, quase na totalidade, por juniores de 1º ano e juvenis, e assim sucessivamente. Isso poderá implicar resultados iniciais menos positivos nos vários escalões, mas trará frutos importantes a longo prazo.

Importante também a preocupação com a recuperação da equipa B, a renovação das condições da Academia e a aposta no Polo EUL. São objetivos que demorarão o seu tempo a serem cumpridos, mas que são imprescindíveis para dotar o clube de condições de topo para o desenvolvimento dos seus jovens jogadores.


Contratações (***)

A necessidade de reforçar a equipa em muitas posições e as limitações de tesouraria têm levado a que o perfil das contratações seja quase exclusivamente de jogadores com potencial para serem desenvolvidos e valorizados com tempo, de montante médio ou baixo. A única exceção à regra foi Vietto (jogador feito e em que os 50% dos direitos económicos adquiridos foram avaliados em 7,5M), mas, como se sabe, veio no pacote do acordo por Gelson para abater o valor da dívida do Atlético e não correspondeu a qualquer saída real de dinheiro dos cofres de Alvalade.

Genericamente, os jogadores contratados têm sido úteis e correspondido ou superado as expetativas, mas ainda nenhum se revelou um golpe espetacular de mercado. Há, no entanto, que dar tempo ao tempo. E ajudaria se o treinador desse oportunidades a alguns deles.


Treinadores (**) 

Varandas despediu Peseiro no momento certo. E também despediu Keizer no momento certo - depois do que conquistou, não podia deixar de dar ao holandês a pré-época que lhe faltou na temporada passada. Mas, apesar de Varandas ter dito que Keizer cumpriu os objetivos, o facto é que a sua escolha só pode ser considerada um fracasso, porque na altura nos foi vendido pelo presidente como um treinador de projeto.

Keizer acabou por se transformar na antítese daquilo que prometia ao início: um treinador medroso e aborrecido, amarrado nos equívocos que foi criando e alimentando, e que ignorou (ou não compreendeu) o contexto que o rodeava tanto ao nível das expetativas internas como da forma de pensar dos adeptos.

Será desta que Varandas conseguirá contratar o treinador de que o clube precisa? Os sinais não são animadores: o facto de não ter delimitado de forma clara o prazo de Leonel Pontes - um treinador que, até agora, não tem absolutamente nada que o recomende como o homem certo para o lugar - deixa entender que tem mais dúvidas do que certezas em relação à forma como resolver esta importantíssima questão. 


Planeamento da época (**)

Sobre isto, recorro ao que escrevi recentemente aqui: LINK.


Futebol feminino (**)

Apesar de o futebol feminino estar a conhecer um período de desenvolvimento inédito de visibilidade a nível mundial, a importância dada por esta direção segue em sentido contrário. Indecisões a nível diretivo, excessiva tolerância para com o paupérrimo futebol de Nuno Cristóvão, pouca ou nenhuma reação ao fortíssimo investimento do Benfica, e zero preocupações em promover o futebol feminino junto dos sócios sportinguistas - como se pode avaliar pela ausência de qualquer jogo disputado em Alvalade.

Em vez de se desenvolver, o futebol feminino do Sporting tem definhado... e isso não parece preocupar minimamente os atuais responsáveis do clube.


Finanças (**)

Até ver, não há nada de particularmente positivo ou negativo que se possa dizer da gestão das finanças do clube: melhor ou pior, a racionalização dos custos com o plantel foi concretizada - o apertar de cinto era imperativo -, o que contribui para reduzir a necessidade de vendas futuras e normalizar a situação de tesouraria; o empréstimo obrigacionista ficou perto - mas abaixo - do objetivo mínimo, sendo certo que a detenção de Bruno de Carvalho na véspera do primeiro dia da fase de subscrição não terá ajudado em nada o cumprimento da meta estabelecida; e continua a não haver fumo branco em relação à reestruturação financeira e à recompra das VMOC's. 

O reequilíbrio da tesouraria foi alcançado, sobretudo, à custa da antecipação de receitas do contrato dos direitos televisivos e dos acordos com os clubes que contrataram os jogadores que rescindiram. Ou seja, não houve qualquer demonstração inequívoca de competência, mas também é justo dizer que se tentou evitar ao máximo ir pelos caminhos mais fáceis (e menos desejáveis) para ultrapassar as dificuldades imediatas. Por exemplo, teria sido muito mais fácil para esta direção antecipar 100 milhões em vez de 65 - evitaria muitas dores de cabeça e problemas de curto prazo, mas a médio/longo prazo a situação ficaria mais negra.


Comunicação (**)

Depois de cinco anos em que a comunicação social esteve em guerra aberta com o Sporting (o contrário também é válido), são visíveis os resultados do esforço de sedução que esta direção tem feito junto de jornais e televisões. 

É fácil perceber que agora existe uma capacidade muito superior de colocar temas, narrativas e informações na ordem do dia. No entanto, parece-me que este bom relacionamento é mais conjuntural do que estrutural - apenas existe porque os atuais donos disto tudo não veem o Sporting como uma oposição real. Não é preciso ser-se adivinho para prever que, no dia em que o Sporting começar a incomodar, os mesmos comentadores que hoje defendem Varandas com unhas e dentes se transformarão em seus detratores e não terão quaisquer problemas em escarafunchar toda e qualquer polémica com a mesma desonestidade intelectual que demonstraram no passado.

Ainda assim, é inequivocamente um progresso. Infelizmente, não se tem observado o mesmo nível de progresso na comunicação direta com os sócios e adeptos. Se é verdade que se eliminou muito do ruído que antes existia, também se pode dizer que acabámos por cair no extremo oposto. A comunicação tem sido pobre, escassa, pouco clara e com timings inadequados. 

O presidente tem feito progressos no discurso, mas continua longe de ser um comunicador eficaz. De Hugo Viana, raramente se ouve uma palavra. A Sporting TV parece-se cada vez mais um canal generalista que enfia transmissões de jogos nos espaços livres, com meios técnicos indignos do século XXI e uma qualidade de comentários a cair a pique. As redes sociais não compreendem o seu público e cometem gaffes constantes. O jornal acumula decisões editoriais incompreensíveis e brinda-nos semanalmente com um par de espaços de propaganda ainda mais descarada do que é habitual neste tipo de meios. E até na comunicação com a CMVM se cometeu a proeza de escrever mal o nome de Keizer por duas vezes seguidas - um pormenor com pouca importância mas que é sintomática do desleixo que parece existir.


O Sporting e o ambiente que o rodeia (*) 

Uma das promessas de Varandas era que os interesses do Sporting seriam defendidos de forma intransigente. Um ano depois, essa afirmação parece manifestamente exagerada.

O Sporting não impõe qualquer respeito junto dos adversários e das instituições que gerem o desporto em Portugal. Não se compreende por que razão o clube não recorreu da decisão do e-toupeira - mesmo não tendo efeitos práticos, era importante dar o sinal de que o clube não aceitava a decisão da instrução -, não se compreende por que razão não colocamos o caso Bruma na FIFA, não se compreende a forma ingénua como se abordou a questão relacionada com Pedro Henriques, não se compreende a quase completa ausência de críticas às péssimas arbitragens de que temos sido alvo, não se compreende a falta de reação aos favoritismos do Secretário de Estado do Desporto, e por aí fora.

Esta postura não é de clube civilizado, é de clube manso. Num ecossistema populado maioritariamente por mafiosos e chicos espertos, é meio caminho andado para que os outros façam de nós tudo o que quiserem.


Unir o Sporting (*)

O lema de campanha de Frederico Varandas devia ser uma bandeira desta direção. Infelizmente, não tem havido vertente menos cuidada do que esta, prejudicada, em boa parte, por ser clara a vontade de alguns elementos dos órgão sociais em dar sequência a perseguições que em nada beneficiam o clube. Une-se o Sporting trabalhando para o futuro em vez de se procurar fazer ajustes de contas com o passado.

Apesar de perceber que não se pode ignorar o passado nas análises feitas à situação atual, creio que têm sido excessivas as referências e comparações com a gestão anterior - e que são feitas apenas nas partes que convêm, claro. Também não ajudaram as tiradas populistas feitas em campanha. O candidato Varandas disse que, caso fosse presidente, Bruno de Carvalho não seria expulso de sócio. A promessa não deveria ter sido feita porque não depende do órgão que dirige, mas, se tivesse sido sincero, o presidente Varandas poderia ter feito uma declaração nesse sentido em vésperas da AG de expulsão do seu antecessor. Une-se o Sporting canalizando as energias para combater as pessoas que querem mal ao clube, e gastando apenas o tempo estritamente necessário em querelas internas. Se o anterior presidente tivesse percebido isso, provavelmente ainda estaria hoje no poder.

Sou o primeiro a reconhecer que a união depende da vontade dos diferentes lados da barricada e que existem sócios que não têm qualquer vontade de ceder no quer que seja, mas as iniciativas de reconciliação terão sempre de partir de quem dirige o clube - de forma coerente e persistente. Falo em coerência, porque seria bom que o rigor que tem havido no julgamento dos antigos dirigentes se aplicasse também à análise dos erros próprios: continuamos à espera que sejam encontrados e punidos os responsáveis pelos gravíssimos leaks das auditorias feitas à gestão de Bruno de Carvalho. Une-se o Sporting analisando-se as questões em função dos supremos interesses do clube, e não em função dos responsáveis pelas desgraças que nos acontecem.

Não é preciso ser-se um génio para perceber o que se deve ou não fazer para unir o Sporting. Infelizmente, há pessoas na atual direção que revelam imensas dificuldades em compreender o óbvio.

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