quinta-feira, 13 de maio de 2021

Cinco jogos que definiram a época

A época 20/21 proporcionou-nos muitos momentos memoráveis, mas escolheria estes jogos se tivesse de escolher os cinco principais:


5º Um mal que veio por bem

Sporting 1 - LASK 4 (Liga Europa, play-off de qualificação)


Foi uma derrota europeia que, tenho a certeza, valeu muitos pontos no campeonato. O Sporting que iniciou a época era uma equipa pouco rotinada - do onze habitual, sete jogadores tinham chegado na pré-temporada - e com muito menos soluções prontas a contribuir do que agora - Inácio, Bragança, Matheus Nunes, Tiago Tomás cresceram muito ao longo da época, enquanto Paulinho, Matheus Reis e João Pereira ainda não tinham chegado.

Obrigar a equipa a realizar mais seis partidas em mês e meio entre finais de outubro e meados de dezembro tornaria muito mais complicada o treino e desenvolvimento de rotinas e, sobretudo, a gestão física de um plantel demasiado curto para atacar tantas frentes. A frescura seria fundamental para a série de 10 jogos em 38 dias entre 2 de janeiro e 9 de fevereiro, período em que defrontou o Porto, Benfica e duas vezes o Braga, alargando a vantagem para o 2º classificado de 2 para 8 pontos e conquistando pelo meio uma Taça da Liga.


4º - Caçador de tempestades

Nacional 0 - Sporting 2 (13ª jornada)


Viagem sob uma tempestade que impediu que o avião aterrasse no aeroporto do Funchal, desviando a comitiva para o Porto Santo. Pressões da Liga denunciadas pelo Sporting para que se forçasse a aterragem, sem aparentes preocupações pela segurança de tripulantes e passageiros. Equipa presente à hora do jogo, sob chuva impiedosa e um vento que arrastava qualquer objeto que não estivesse bem seguro. Ainda assim, Rui Alves insistia em que se jogasse. Felizmente o árbitro teve bom senso e adiou a partida para o dia seguinte.

As condições não eram muito melhores, mas lá se jogou. Menos vento, mas muita chuva e muita lama. Uma batalha que mostrou que não só a equipa era capaz de ignorar a pressão montada à sua volta, como também se tratava de um Leão todo-o-terreno, adaptando-se muito bem às difíceis condições e marcando dois golos sem resposta. Os três pontos viajaram na mala de regresso a Lisboa numa viagem bem menos atribulada.


3º - Até ao último minuto

Gil Vicente 1 - Sporting 2 (18ª jornada)


Depois de meio campeonato quase imaculado, a 2ª volta abriu com outro jogo com condições climatéricas complicadas. São Pedro abriu a barragem, mas, ao contrário da Choupana, o relvado de grande qualidade de Barcelos permitiu que se jogasse. Não que o Sporting conseguisse tirar partido disso: a exibição foi pobre e raramente chegou à baliza de um Gil Vicente que foi a melhor equipa na 1ª parte e que chegou à vantagem com justiça.

Mas os campeões também se fazem com noites em que vencem sem convencer, em que de uma forma ou de outra lá arranjam maneiras de meter a bola na baliza. Neste caso, a maneira foi só uma. Estava reservado para os 10 minutos finais um bis de Coates, o ponta-de-lança de improviso menos improvisado de sempre, que permitiu ampliar a vantagem para o Porto para 8 pontos, crítica para um clássico do Dragão que já aparecia ao virar da esquina.


2º - Demonstração de força

Sporting 1 - Benfica 0 (16ª jornada)


Um dérbi que começou uma semana antes, à conta de um 5º amarelo a Palhinha que tresandou a encomenda. De tal óbvio foi, que o próprio árbitro não teve alternativa se não reconhecer o erro, mas não o suficiente para o Conselho de Disciplina, que confirmou o castigo e recusou ouvir o jogador.

Amorim manteve o grupo à margem da polémica, preparou o jogo sem o seu médio defensivo titular e depositando publicamente toda a confiança em Matheus Nunes. Uma providência cautelar acabaria por suspender a sanção a poucas horas da partida e Palhinha voltou a estar disponível, mas nem assim Amorim mudou de ideias. O treinador passou o maior atestado de confiança possível que se pode dar a um jogador e foi com Matheus para a guerra. Quis o destino que o golo da vitória fosse marcado nos descontos precisamente por Matheus, resultando numa esmagadora tripla vitória - em campo, no balneário e na secretaria - que teria um impacto tremendo no resto da temporada.


1º - Via Verde para o título

Braga 0 - Sporting 1 (29ª jornada)


No Dragão, dirigentes e adeptos já sentiam o cheiro a bicampeonato e a reedição da recuperação de 7 pontos na época anterior para o Benfica de Bruno Lage. Acabado de consentir 3 empates nas 4 jornadas anteriores e permitindo a aproximação do Porto de 10 para 4 pontos, o líder parecia em quebra e visitava a Pedreira num jogo de altíssimo risco.

A margem para erro era quase nula e desapareceu por completo quando Artur Soares Dias decidiu mostrar um 2º amarelo forçado a Gonçalo Inácio aos 18', dando um pontapé no seu próprio critério (Gilberto contra o Sporting e Pepe contra o Benfica não tiveram o mesmo azar por faltas bem mais grosseiras). Leão colocado fora, sobraram 10 leões que cerraram os dentes, souberam sofrer e aproveitar para resolver o jogo de forma absolutamente clínica.

O título não ficou fechado, mas a vitória em Braga inverteu em definitivo o estado psicológico dos dois candidatos e abriu caminho direto para o título.

quarta-feira, 12 de maio de 2021

O 13º trabalho de Hércules

Não é fácil colocar em palavras, de um dia para o outro, o significado da conquista do campeonato, de explicar todo um conjunto de sentimentos demasiado bem guardados e reprimidos durante dezanove longuíssimos anos que, ontem, puderam finalmente subir à superfície. Fruto da prática acumulada, foi-se tornando bem mais simples descrever os sentimentos que nos dominaram a alma durante o tal jejum: frustração pelos desaires e desespero pelas oportunidades que vimos escaparem-nos por entre os dedos, muitas vezes acompanhados pela revolta de sabermos de que não estávamos a participar numa competição justa. De alguma maneira, lá fomos descobrindo fontes renováveis de fé e persistência que nos permitiram sobreviver a episódios inimagináveis até chegarmos a este maravilhoso ponto da história, que cada um de nós pode agora viver e experienciar de uma forma que mais ninguém conseguirá entender por completo.

Neste momento, e como tenho de começar por algum lado, o principal sentimento que identifico é gratidão. Gratidão por ter assistido à proeza extraordinária que é chegar a um título ao fim de 32 jornadas sem ter conhecido adversário que nos superasse em competência e força de vontade, enfrentando e estilhaçando todos os "mas" e todos os "ses", as tradições e os fatalismos, os orçamentos e os currículos, e ainda os Pereiras e as Cláudias e os Arturitos e os profetas da normalidade. Um autêntico 13º trabalho de Hércules dos tempos modernos, ultrapassado de forma imaculada por um grupo fortíssimo onde todos, sem exceção, do roupeiro ao presidente, sem vedetismos, souberam desempenhar o seu papel em prol do coletivo.

A sensação de triunfo é sempre maravilhosa, mas mais especial fica quando alcançada respeitando os melhores pergaminhos e valores do emblema que veneramos - aquela mistura perfeita da irreverência da juventude e da solidez da veterania, com uma fortíssima marca da formação que sempre nos orgulhou -, planeada e executada de forma sublime por um treinador que, não sendo um dos "nossos", conseguiu compreender-nos, adaptar-se ao clube e às expetativas que veio encontrar, e também moldar o clube às qualidades que trouxe e de que tanto precisávamos. Amorim merece esse destaque porque mudou tudo, disfarçou fragilidades e potenciou qualidades dentro e fora de campo, desmontou paradigmas, fabricando um desfecho que ninguém imaginava possível.

É sempre arriscado fazer juízos históricos em cima dos acontecimentos. No entanto, pela forma como alcançou o título e pelas circunstâncias em que o conseguiu - apanhando um clube dividido, dispondo de recursos financeiros muito abaixo dos de ambos os rivais, enfrentando a desconfiança e inevitável cobrança que a fatura dos 10 milhões provocou, e ainda sendo alvo de uma perseguição sem paralelo por parte de dirigentes supostamente imparciais -, diria que Amorim conseguiu o maior feito de um treinador de futebol na história do clube, eventualmente ao qual apenas a conquista da Taça das Taças se pode equiparar. E pode-se discutir, também, se não será um dos maiores feitos da história de todo o futebol português a nível interno.

"E se correr bem?", Rúben? Foi tão, mas tão acima disso...

terça-feira, 28 de julho de 2020

"It's not me, it's you", parte 2: O plantel e o mercado

No post anterior debrucei-me sobre a dança de treinadores e total ausência de um fio condutor lógico e consistente nas sucessivas escolhas feitas neste mandato. Hoje vou escrever sobre o plantel e o mercado. Aqui, o panorama consegue ser ainda mais negro.

Varandas teve todo um ano 0 para preparar a época que agora terminou. Sou sensível ao argumento das dificuldades de tesouraria e da necessidade que havia em vender, mas não há desculpa que justifique a razia de qualidade que o plantel do Sporting sofreu nos três mercados que passaram desde que Varandas e Viana pegaram nas rédeas do futebol. 

No dia em que tomou posse, o presidente tinha Coates, Mathieu, Gudelj, Wendel, Bruno Fernandes, Nani, Raphinha, Acuña e Dost. O plantel era desequilibrado, caro, mas tinha uma base de qualidade que permitiu, mesmo sem uma liderança técnica forte, conquistar duas taças. Hoje, essa equipa parece um luxo em comparação com o que temos agora: sobram apenas Coates, Wendel e Acuña (sendo que o argentino parece estar de saída), o plantel continua com um nível salarial demasiado elevado (escandalosamente elevado se considerarmos a sua qualidade) e, de todas as contratações feitas por esta direção, apenas Sporar cumpriu os mínimos para ser considerado titular indiscutível (o facto de não ter concorrência a sério acaba por ajudar). Na categoria de boas contratações podemos ainda incluir Matheus Nunes e Plata, pela relação custo/potencial. Nenhum dos outros jogadores adquiridos ou cedidos por empréstimo, tenham jogado mais ou menos minutos, alcançou um nível de rendimento desportivo que justificasse o valor que foi pago ou o salário que lhes foi oferecido. Foram dezenas de milhões de euros esbanjados, parte dos quais de forma escandalosamente incompetente.

Os primeiros sinais do mercado que agora inicia não são bons, por dois motivos. Primeiro, porque as pessoas que gerem o mercado são as mesmas e, a não ser que Rúben Amorim e Paulo Noga consigam pôr um pouco de ordem à mesa, o mais provável é os resultados sejam idênticos. Houve tempo para contratar um diretor desportivo a sério, mas aparentemente o presidente não viu necessidade de correções a este nível. Depois, porque o ataque ao mercado parece estar a ser pouco focado e propenso a repetir erros do passado. Faz sentido contratar um guarda-redes com um salário elevado quando estamos a desenvolver Max? Ou afinal já não é para apostar em Max? Que sentido faz contratar Antunes, em final de carreira e vindo de uma lesão grave que o limitou a 180 minutos de competição em 19/20? Vamos mesmo trazer Porro sem uma opção de compra acessível? As notícias sobre o interesse num tal de Jason, do Valência, é uma piada de mau gosto dos jornais ou temos de dar mais uma voltinha no carrossel? Falta muito para começarem a despachar jogadores que não justificam o salário que ganham? Vamos deixar outra vez para o fim o reforço de posições que necessitam de reforços urgentes? 

Com tantas carências identificadas, não é aceitável que se ande a desperdiçar mais milhões em jogadores que não sejam um upgrade claro em relação ao que já temos. Jogadores para o banco já existem em número suficiente: casos como Matheus Nunes, Plata ou Tiago Tomás, demasiado verdes; casos como Vietto, Jovane ou Ristovski, pouco regulares; casos como Borja, polivalente que pode ser útil; ou ainda jogadores que andaram emprestados como Ivanildo, Dala, Palhinha ou Bragança. É fundamental colocar o foco em jogadores que subam o patamar competitivo da equipa. Numa época em que se qualificarão para a Liga dos Campeões 2+1 equipas, o fracasso no mercado poderá ter consequências arrasadoras para o futuro do clube.

Presidente: it's not me, it's you. Chega de brincar com o Sporting.



segunda-feira, 27 de julho de 2020

"It's not me, it's you" (*), parte 1: Os treinadores de Varandas

A contratação de Keizer foi a primeira grande decisão desportiva do mandato de Frederico Varandas. Face à desconfiança com que o fraco currículo do holandês foi recebido, Varandas revelou ao mundo sportinguista o seu critério de quatro parâmetros para seleção de técnicos: competência técnica e tática, liderança, gestão de grupo e comunicação. No entanto, a alegada proficiência de Keizer nesses quatro parâmetros não foram suficientes para o aguentar por muito tempo no clube. Mesmo depois de ter conduzido o Sporting à melhor temporada dos últimos 18 anos (palavras do presidente com que não concordo), o técnico holandês foi despedido poucos dias após o fecho do mercado de verão da época que agora terminou. O treinador do projeto de Varandas, cuja contratação não teve nenhum risco (palavras do presidente), não chegou aos 10 meses no cargo.

Seguiu-se Leonel Pontes, que à data liderava uma equipa de sub-23 que passeava na Liga Revelação. O facto de ninguém assumir de forma clara que Pontes era uma solução provisória, aliada à falta de pressa na contratação do sucessor de Keizer, davam a entender de que a direção estava na expetativa para ver se Pontes desenrascaria como técnico principal. Um empate e três derrotas em quatro jogos demonstraram que não só não desenrascou, como foi suficiente para enterrar de vez quaisquer hipóteses que o clube ainda tivesse no campeonato e deixar a continuidade na Taça da Liga presa por um fio.

Então, Varandas apresentou Jorge Silas, desta vez sem qualquer referência aos quatro parâmetros de seleção referidos na contratação de Keizer - agora o importante era ter um técnico que conhecesse bem o futebol português e fosse ambicioso. Nas entrelinhas, todos perceberam que Silas era a solução possível após negas de uma longa lista de treinadores. A desculpa saída da boca do presidente que ficou a ressoar nos ouvidos dos sportinguistas foi a de que os treinadores com currículo não estão para "aturar um clube de malucos", na tristemente célebre entrevista dada à Teresa, Teresa, Teresa, Teresa. É preciso recuar muitos anos (provavelmente até Carvalhal) para encontrar um técnico que tenha entrado tão fragilizado no clube.

Fragilidade que, sem surpresa, matou Silas à nascença. Sem capacidade para galvanizar o grupo de trabalho e impor mudanças fundamentais para se conseguir sacar o quer que fosse da época, o técnico português foi definhando à medida que os meses foram passando, sem qualquer sinal de apoio da direção e da estrutura profissional de que o presidente tão orgulhosamente fala. O único aspeto notável pela passagem de Silas no Sporting foi a forma como anunciou semi-oficialmente, em conferência de imprensa de jogo, o nome do seu sucessor.

E assim chegamos a Rúben Amorim, técnico que um ano antes andava pelo Campeonato de Portugal e que começou a época no Braga B. Foi promovido por Salvador a técnico da equipa principal e, sob o seu comando, o Braga arrasou tudo e todos. Um par de meses fulgurantes que, para o visionário Varandas, foram suficientes para perceber que estava ali o seu treinador. Mais uma vez, os quatro parâmetros de Keizer ficaram na gaveta: agora, o importante era ter coragem para apostar na formação. Varandas pegou no dinheiro da venda de Matheus Pereira - dinheiro que ainda não tinha - e bateu a cláusula de 10 milhões perante o choque de todos os que conheciam o currículo do treinador e as (tão faladas) dificuldades financeiras que, nos meses anteriores, tinham servido de justificação para todos os fracassos desportivos. O problema é que, quando se pega em dinheiro que não se tem, as coisas não costumam correr bem: a interrupção das competições acabou por adiar a transferência definitiva de Matheus e o Braga continua sem ver um tostão da cláusula.

Rúben Amorim tem muito para aprender enquanto treinador, mas, na minha opinião, tem mostrado qualidades que poderão fazer dele o treinador de que o Sporting precisa. Se vai conseguir ter sucesso no Sporting, é outra conversa: infelizmente, está dependente da qualidade dos jogadores que o duo formado por Varandas e Viana lhe conseguir arranjar. Mas falarei dos jogadores e do mercado na segunda parte desta série de posts.

No que a treinadores diz respeito, a única conclusão possível é que Varandas vai decidindo em função de fezadas, embrulhadas cuidadosamente nas justificações mais convenientes que houver no momento para tentar passar a ideia de que existe algum tipo de estratégia na génese das escolhas. Já não engana ninguém. É apenas navegação à vista. 

Presidente: it's not me, it's you.


(*) Adaptação de uma das mais famosas frases da mítica série Seinfeld, utilizada frequentemente por George Costanza para acabar com relacionamentos da forma menos incómoda possível.

sexta-feira, 15 de maio de 2020

A venda da maioria da SAD

A venda da SAD voltou a ser tema diário. Se nas últimas semanas a discussão se tem vindo a fazer sobretudo nas colunas de opinião dos jornais e sites que acompanham a vida do Sporting, nesta sexta-feira foi a vez de André Bernardo, vogal do Conselho Diretivo do clube e administrador da SAD se pronunciar sobre o assunto em entrevista dada ao Record. Num curto comentário, reconheceu que é "um modelo que existe em muitos clubes europeus" e concluiu dizendo que "o Sporting é dos sócios e como tal essa é uma decisão dos sócios do clube". 

Nada que tenha sido dito por André Bernardo está errado. É, efetivamente, um assunto que terá sempre de passar pela aprovação dos sócios segundo o que está estipulado no Artigo 43º dos estatutos do clube. No entanto, perdeu uma boa oportunidade para ir mais além na sua resposta. 

André Bernardo deveria ter respondido que a venda da SAD não faz parte do plano estratégico para a segunda metade do mandato que foi apresentado nesta semana porque o programa eleitoral da atual direção é contrário à venda da maioria da SAD. Essa decisão pode não passar pela direção, mas a direção deve ter uma opinião firme nesse sentido, até porque, na minha opinião, a venda da maioria da SAD é um tema que não deve ser alimentado em demasia - pois é mais um contributo para a imagem de fragilidade que se tem vindo a fortalecer com o clima de permanente instabilidade vivido nos últimos anos. Pronunciando-se algum elemento da direção sobre o tema, só poderia ser para o matar até ao final do mandato e não para o manter em suspenso.


Seria preciso um milagre para que a venda da maioria da SAD resolvesse o quer que fosse. A liga portuguesa é irrelevante, o mercado português é pouco apelativo do ponto de vista financeiro, e seria um prego no caixão do ecletismo e da capacidade de mobilização única que este clube tem. A identidade do clube seria ferida de morte. Será preciso um milagre para conseguir atrair um investidor sério, endinheirado e com know-how. Os sócios passariam a ser clientes com um poder de compra médio sofrível, o dinheiro da entrada de capital rapidamente se esvairia sem hipóteses de se renovar, e não tardaria a que se voltasse a discutir os problemas financeiros e de competitividade do clube. Se bem que, nessa altura, qualquer discussão sobre os problemas do Sporting seria totalmente estéril porque os seus donos não teriam de passar cartão à opinião de ninguém.

Diria que esta discussão se tem prolongado apenas porque o futebol está a atravessar uma silly season sem precedentes - à ausência de jogos já habitual nos defesos, junta-se a falta de especulações sobre transferências de jogadores - e sempre ajuda a ocupar páginas de jornais e horas de emissão televisiva. O debate de ideias é saudável e não traz nenhum mal ao mundo, mas aquilo que o clube menos precisa agora é de mais um ponto de stress do qual não se poderá tirar qualquer proveito prático. 

terça-feira, 3 de março de 2020

A contratação de Rúben Amorim

Não sei o que Rúben Amorim vale como treinador. Os resultados iniciais no Braga são bastante positivos, mas a amostra ainda é muito pequena para se saber ao certo se são fruto das circunstâncias ou da capacidade do treinador. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para nos recordarmos dos primeiros dois meses de Keizer ao serviço do Sporting: o holandês arrasou quando chegou, deixou Varandas babado com a sua própria capacidade para detetar talento onde mais ninguém via - fácil, fácil -, mas não tardou muito para que o clube caísse de novo na realidade.

Da mesma forma que não sei o que vale Rúben Amorim como treinador, tenho a certeza que Varandas e a sua entourage também não sabem. Já o viram treinar alguma vez? Sabem que ideias tem como treinador? Como reagirá em momentos de dificuldade, em períodos de maus resultados prolongados? Se tem a capacidade para lidar com a pressão de um clube como o Sporting? Se conseguirá agarrar um balneário com jogadores que já viveram de tudo na sua carreira? Se encaixará num projeto sustentado e adequado à nossa realidade? Obviamente que não sabem o suficiente. Andam a jogar à lotaria com treinadores na esperança que lhes saia o prémio grande. A ânsia que existe no futebol português em encontrar o novo Mourinho raramente funcionou no passado, e as probabilidades de sucesso encolhem ainda mais num clube como o Sporting - em que à habitual falta de tempo derivada dos longos anos sem conquistar o campeonato, se junta a incompetência de uma estrutura de futebol incapaz de montar um plantel competitivo, de proteger as costas ao seu treinador (a estrutura defendeu Keizer timidamente mas deixou Silas a cozer em lume brando desde a eliminação com o Alverca), de defender o clube contra quem o procura prejudicar e de mobilizar os adeptos.

A esta incapacidade crónica, acresce a irresponsabilidade do investimento que a contratação de Rúben Amorim implicará. O Sporting vendeu recentemente o único jogador do plantel de nível internacional, e não se pode dar ao luxo de estourar num treinador grande parte do dinheiro que é a última tábua de salvação para construir um plantel minimamente competitivo a curto prazo. Da mesma forma que não é solução tentar reduzir o valor em dinheiro através da cedência de jogadores que poderiam perfeitamente fazer parte do nosso plantel. Num treinador que há três meses estava no Braga B e que na época passada treinava o Casa Pia.

Tudo isto que escrevi tem muito pouco a ver com Rúben Amorim. Tem a ver sobretudo com o discernimento de quem o quer contratar. Varandas falhou com Viana, falhou com Beto, falhou com Vidigal, falhou com Keizer, falhou com Leonel Pontes e falhou com Silas. Falhou em demasiadas contratações e falhou em várias dispensas. Falhou estrondosamente a união do clube. Prepara-se agora para fazer um all in no seu 4º projeto de treinador. A única coisa que o separa de ser o pior presidente da história é a responsabilidade financeira que Godinho Lopes não teve. Mas por este caminho, é uma discussão que poderemos começar a ter em breve...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Brunão

Muitos temiam este dia - eu estou nesse grupo de pessoas. Mas era inevitável que acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Não foi no verão passado. Se não fosse na janela de inverno, seria certamente no próximo defeso. Acabou por consumar-se esta tarde.

O Sporting oficializou através de um comunicado à CMVM a transferência de Bruno Fernandes para o Manchester United, a troco de 55 milhões de euros fixos e 25 milhões por objetivos. Desses 25 milhões de variáveis, 5 são quase certos, 5 são prováveis e os restantes 15 são de muito difícil concretização. Na prática estaremos, portanto, a falar de uma transferência que oscilará entre os 60 e os 65 milhões, que ultrapassará em 50% (ou mais) o anterior recorde de venda do Sporting (40 milhões por João Mário). 

É sabido que, deste dinheiro, há que deduzir os habituais 10% de Jorge Mendes e, depois de descontada esta parcela, 10% da mais-valia será entregue à Sampdoria: o Sporting pagou 8,5 milhões ao clube Italiano, pelo que estaremos a falar de uma mais-valia de 41 milhões, ou seja, os 10% correspondem a 4,1 milhões. Há ainda que retirar 1,38M do mecanismo de solidariedade, já que o clube inglês suportará metade deste encargo. Sobrarão, caso não existam surpresas, 44 milhões de euros para os cofres do Sporting - já se sabendo que parte será usado para abater dívida, de acordo com o acordo estabelecido com a banca. 



O negócio 

Mesmo metendo ao barulho o Midas do futebol europeu, o Sporting ficou longe de amealhar os 80 milhões que meteu como fasquia no final da época passada. Dos 80 baixou-se para 70 em agosto e, perante o insucesso das negociações, acabámos por fechar o acordo entre os 60 e os 65 milhões. 

Não é um negócio desastroso, obviamente, mas a verdade é que, constituindo esta verba um recorde na história do clube, não deixa de ser algo desapontante, já que fica bastante aquém das expetativas iniciais - e com a agravante de não haver perspetivas de entrada de um substituto minimamente à altura. De um lado, o jogador estaria certamente a fazer força para sair já. Mas, do outro, o Manchester United também estava a ser muito pressionado para contratar o jogador. Acabou por ser o Sporting a ceder na reta final da janela de transferências, numa nova demonstração da falta de capacidade negocial que tem caracterizado a gestão de Frederico Varandas. 



O jogador 

Há quem defina a passagem de Bruno Fernandes pelo Sporting em função da rescisão, sendo a sua produção em campo um detalhe menor. Eu vejo as coisas de outra forma. Bruno rescindiu, mas, ao contrário de outros com muito mais tempo de casa, voltou ao clube e, durante o ano e meio que desde então passou, deu tudo o que tinha em campo. Tudo. Levou a equipa às costas, foi construtor de jogo, foi bombardeiro, foi goleador, foi carregador de piano, foi um segundo treinador, foi capitão, foi um líder. Foi, apesar de todas as dificuldades que o clube atravessou numa das fases mais conturbadas da sua história, um jogador de quem tudo se esperava e que sempre deixou tudo em campo para tentar corresponder a todas as expetativas que recaíam sobre os seus ombros.

Apesar de ser massacrado por adversários, árbitros e uma (pequena) parte da massa associativa que nunca lhe perdoou a rescisão, Bruno nunca se encolheu e respondeu sistematicamente com um nível de jogo notável. Os dois anos e meio de excelência colocam-no ombro a ombro com os melhores que vi jogar com a camisola do Sporting, certamente o mais produtivo. Jardel fez uma época extraordinária, mas tinha um plantel de luxo a jogar para ele. Balakov é inesquecível e Figo fez uma última época fenomenal, mas, sendo ambos jogadores mais geniais, não tiveram o mesmo rendimento global de Bruno Fernandes. Cristiano Ronaldo era um predestinado, só que não lhe deram tempo suficiente para poder ser a figura do plantel em Alvalade. 

Foi um privilégio ter Bruno Fernandes no Sporting. Vai fazer muita falta, mas merece ser feliz nesta nova etapa da sua carreira. Boa sorte, Bruno! 



E agora... a vida sem Bruno 

Consumada a saída da peça central da equipa, levantam-se questões pertinentes sobre o que nos reservará o resto da época. É certo que os objetivos da época já foram quase todos pelo cano (na Liga Europa será apenas uma questão de tempo), mas continuamos ainda a ter de disputar a metade do campeonato que falta. Se a primeira volta já foi o suplício que foi, é angustiante pensar como será daqui para a frente sem o único jogador de classe mundial do plantel. 

Segundo os jornais, o Sporting não contratará ninguém para substituir o capitão. Isto significa que Silas utilizará Vietto em funções similares, o que, por ser um jogador de características bastante diferentes, provavelmente implicará mudanças táticas consideráveis. É possível que se abra um lugar no grupo para Francisco Geraldes, mas não vale a pena esperar demasiado do jogador: as dificuldades que tem demonstrado ano após ano serão sinais fortes de que terá perdido em definitivo o comboio para se afirmar em Alvalade. 

Vai ser necessário que Vietto, Wendel, Acuña - os únicos jogadores de classe superior à média - subam as suas prestações de nível e, sobretudo, de regularidade, e precisamos que o potencial de Camacho e Plata comece a afirmar-se de forma mais consistente. Se os melhores jogadores e os jovens de maior potencial não dividirem a carga que a saída de Bruno Fernandes, o mais provável é que o clube nem sequer conseguirá ficar em 3º lugar no final do campeonato - o que seria uma humilhação difícil de suportar. 

Certo, certo, é que vendemos o único jogador do plantel com valor de mercado superlativo e não há perspetivas de que outro atleta do clube atinja um patamar equivalente num futuro próximo. O dinheiro que ficará disponível para reforçar o plantel no verão terá de ser tremendamente bem aplicado. Se assim não for, as consequências desportivas para o médio prazo serão devastadoras. Mais um motivo para que, caso esta direção se mantenha em funções, a estrutura de futebol seja reestruturada com gente bem mais competente do que aquelas que atualmente tomam as decisões. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A prioridade nº 1 do mercado

Não é preciso ser-se particularmente perspicaz para entender a importância do ponta-de-lança numa equipa de futebol, não só pelos golos que marca, mas também pelos que dá a marcar por ação direta ou indireta, seja através de passes para os colegas, abrindo espaço na frente arrastando os defesas adversários ou fixando-os pela sua mera presença em determinado ponto no campo. A importância do ponta-de-lança é particularmente relevante num campeonato como o português para uma equipa que quer lutar pelo título. As defesas adversárias baseiam-se causam dificuldades sobretudo pela quantidade de jogadores que colocam em tarefas defensivas, mas a fraca qualidade individual dos jogadores que têm ao seu dispor faz com que sejam presa fácil para qualquer ponta-de-lança de qualidade média/média-superior para os padrões europeus.

Foto: zerozero.pt
Infelizmente, aquilo que é uma evidência óbvia para qualquer indivíduo que acompanhe o futebol... não o foi para quem teve a responsabilidade de montar o plantel do Sporting. Atacar uma época com um único ponta-de-lança de raiz já de si é uma decisão incompreensível, mas a isso ainda temos de somar o facto de esse ponta-de-lança - Luiz Phellype - não ter o nível necessário para uma equipa que, supostamente, queria disputar os primeiros lugares com os rivais de sempre. A narrativa do ataque móvel de quem manda no futebol no Sporting não tardou a desmoronar-se face à insuficiente qualidade dos reforços de última hora, ao ponto de deixar os adeptos a suspirar pela alternativa que existe nos sub-23 que não pode ser utilizada nas competições internas por não ter sido inscrito.

Mas mesmo sendo Luiz Phellype o jogador que é - com as suas qualidades e defeitos -, o efeito positivo de utilizar um ponta-de-lança de raiz é indesmentível. E não me refiro apenas ao 9 golos e 2 assistências registadas em 1207 minutos de utilização (que dá uma média de um golo/assistência a cada 110 minutos). Existem outros números ainda mais elucidativos.


Quando joga com Luiz Phellype, um ponta-de-lança de raiz, o Sporting demora em média 43 minutos a marcar um golo. Sem Luiz Phellype, o tempo necessário para marcar dispara para 72 minutos. A discrepância ainda seria superior se contássemos com a prestação de Pedro Mendes. Não a coloquei aqui porque a utilização do jovem sub-23 a extremo na Áustria desvirtuaria a análise.

Essa diferença também se reflete nos resultados dos jogos. Em jogos em que Luiz Phellype participou, o Sporting conquistou 63% dos pontos em disputa (para efeitos de simplificação da análise, incluí as derrotas da Taça de Portugal e da Supertaça, apesar de não haver pontos em jogo), perto do dobro do aproveitamento que existiu em jogos em que Luiz Phellype ficou de fora. Quando Luiz Phellype foi titular, esse aproveitamento foi ainda mais alto: 69%.


Por todos e motivos e mais algum, é completamente óbvio que a prioridade número um do Sporting para o mercado de janeiro terá de ser a contratação de pelo menos mais um ponta-de-lança, de preferência para entrar no onze de caras. Não é preciso inventar a roda: daqueles que conhecem a posição como a palma da mão e sabem meter a bola na baliza. Têm a palavra Varandas e Hugo Viana.

sábado, 21 de dezembro de 2019

Prendinha inesperada no tronco do Pinheiro

Foto: zerozero.pt
Mais do mesmo na primeira parte. A primeira parte foi à Sporting, no sentido em que voltámos a ver o pior do que tem sido o futebol da equipa esta época - incapacidade de controlar o adversário polvilhada com desconcentrações individuais - com mais uma performance antológica do árbitro da partida. João Pinheiro, que já tinha cometido a proeza de assinalar, sem ter de recorrer ao VAR, três grandes penalidades a favor do Rio Ave em Alvalade -, voltou hoje a demonstrar uma visão digna de ave de rapina ao vislumbrar uma falta de Camacho na área que, arrisco dizer, não assinalaria noutros estádios com certos outros protagonistas. Visão de ave de rapina que lhe falhou quando decidiu expulsar Bolasie por causa de uma suposta mão intencional na cara do adversário que, após vista a repetição, não só não teve qualquer intenção como apenas tocou de raspão no peito. Mão na cara que, mais tarde, aconteceria mesmo na área do Portimonense sobre Bruno Fernandes, e aí... nem penálti, nem cartão, nem falta. Coisas que acontecem frequentemente quando se junta o Sporting a este tronco-- perdão, a este pinheiro.

Segunda parte com alma e carácter. Obrigados a jogarem mais de 45 minutos em desvantagem numérica de 10 contra 12 e em desvantagem no marcador, e estando sempre dependente de que o Rio Ave não marcasse, jogadores e treinador foram para cima do adversário e conseguiram uma reviravolta categórica que teve como prémio uma improvável qualificação para a final four da Taça da Liga, que parecia perdida logo à 1ª jornada da fase de grupos. Tem havido muitas e merecidas críticas ao longo da época, mas hoje merecem todos os elogios possíveis pelo carácter e pela alma perante uma situação de enorme adversidade.

Silas a pôr toda a carne no assador. Com menos um, Silas colocou Luiz Phellype e Plata para os lugares de Ristovski e Doumbia. Os centrais tiveram licença para subir sempre que houvesse oportunidade para isso. Podia ter perdido o meio campo e exposto a equipa ao contra-ataque adversário, mas, não havendo nada a perder, o treinador fez aquilo que tinha que fazer e conseguiu alcançar uma vitória que poderá servir de catapulta psicológica para a dificílima fase que se segue.

A hora dos putos. Max foi o protagonista do lance mais importante do jogo, quando fez uma defesa incrível a abrir a segunda parte e evitou o terceiro golo dos algarvios que, muito provavelmente, acabaria com o jogo de uma vez por todas. A baliza é dele. Claro que está sujeito a cometer lapsos próprios da idade, mas tem demonstrado ser superior a Renan em praticamente todas as componentes de jogo de um guarda-redes. Camacho e Plata tiveram oportunidades e foram decisivos. Que seja a faísca necessária para a sua explosão. A equipa bem precisa.

A importância de um ponta-de-lança e o trabalho que se segue na janela de mercado. Luiz Phellype, mesmo limitado, foi decisivo: participou nos três golos da reviravolta durante os 25 minutos em que esteve em campo. Não é um ponta-de-lança fabuloso, mas é um ponta-de-lança. E com um ponta-de-lança, havendo uma referência na frente, as coisas ficam, não surpreendentemente, mais fáceis. O fracasso desta época explica-se muito pela ideia peregrina de construir um plantel com apenas um ponta-de-lança. A salvação possível desta época passa por um reforço da equipa nas posições mais carenciadas - ponta-de-lança à cabeça - e não pela venda em saldo dos nossos melhores jogadores. Vamos ver o que a estrutura nos reserva para janeiro.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

O revisionismo do "all in"

O estado das contas do 1º trimestre que o Sporting divulgou esta semana confirma a existência dos problemas que se adivinhavam face às insistentes notícias de que os melhores jogadores poderão ser vendidos no mercado de inverno. O desequilíbrio das contas ainda é uma realidade: o nível de custos é excessivamente alto para um clube que não está na Liga dos Campeões e não houve milagres nas receitas ordinárias, cujo crescimento está longe de ser suficiente para que a direção retire a grande e chamativa placa que colocou na montra da SAD a anunciar que estamos em época de saldos.

Não sou nem nunca fui insensível às dificuldades que se deparavam, mas a verdade é que, uma época desportiva e 4 trimestres financeiros após da eleição de Frederico Varandas, o panorama é preocupante. 

A situação financeira está apenas marginalmente melhor. Os problemas têm vindo a ser tapados recorrendo à antecipação de receitas futuras ou vendendo jogadores ao desbarato e nos piores timings possíveis, com as graves consequências desportivas que estão à vista de todos. Em meados de outubro, o clube estava fora da luta pelo campeonato, fora da Taça de Portugal e com um pé fora da Taça da Liga. O plantel é o mais fraco de há muitos anos para cá. E o mais dramático é que estamos metidos numa espiral negativa desportiva e financeira que não permite vislumbrar uma saída fácil, ainda mais perante a evidente incompetência de quem manda no futebol - não há na estrutura quem saiba contratar, não há quem saiba vender, não há quem saiba montar um plantel, não há quem proteja treinadores e jogadores, não há quem defina um rumo, não há quem mobilize os sócios e adeptos. A falta de dinheiro já não pode servir de única desculpa para o descalabro em que o clube está metido, e podemos dizer, com (triste) segurança, que a situação de hoje é, no geral, pior do que há um ano. Progressos indiscutíveis só na capacidade de colocar notícias e narrativas na imprensa para dourar a pílula.

Uma dessas narrativas, que muito me incomoda, é a das repetidas referências de Frederico Varandas e Francisco Zenha a um suposto all in feito em 2017/18. Incomoda-me porque, do ponto de vista de planeamento da época, 2017/18 foi praticamente exemplar. Houve um nível de acerto de contratações inédito, a equipa rendeu ao mais alto nível na Liga dos Campeões, venceu a Taça da Liga, e preparava-se para disputar os restantes títulos internos até ao fim quando Bruno de Carvalho decidiu começar a dar tiros sucessivos nos pés que, no final da época, foram fatais para os objetivos mínimos da equipa no campeonato e que, a partir daí, culminaria rapidamente na tragédia de que todos nos lembramos e que causou um profundo rombo (desportivo, financeiro, mas sobretudo na união do clube) que demorará ainda muitos anos a ser consertado. Não havia organização, tivesse níveis de risco elevados, aceitáveis, reduzidos ou nulos, que resistisse ao que aconteceu em maio de 2018.

A divulgação das contas do 1º trimestre de 2019/20 permite varrer em definitivo com o revisionismo do all in de 2017/18. Em 2017/18 correram-se riscos, mas perfeitamente compreensíveis face à participação na Liga dos Campeões e considerando a previsível valorização de um plantel riquíssimo. Aliás, olhando para os números dessa época e comparando-os com os de 2019/20, fica perfeitamente perceptível que, segundo a imagem dos respetivos primeiros trimestres, o nível de risco... é muito superior esta época do que há dois anos.


De lá para cá, as receitas ordinárias caíram 32% (em 2017/18 houve Liga dos Campeões), mas os custos com pessoal são agora superiores - conforme explicado no R&C, os custos com pessoal subiram por causa de 5M pagos em indemnizações que permitirão controlar melhor os custos daqui para a frente (ver o meu post sobre as contas aqui: LINK). Os custos de funcionamento (FSE's) aumentaram 42%. Para reduzir o desequilibro das contas, houve necessidade de praticamente duplicar as mais-valias em vendas de jogadores.

Nessa época do "all in", o nível do plantel era incomparavelmente melhor que o do atual. Não só havia jogadores de nível superior que vinham de trás, como também o acerto das contratações foi fenomenal: Mathieu, Battaglia, Bruno Fernandes, Acuña e Coentrão fizeram pelo menos 2/3 dos minutos totais dessa época (com Piccini muito perto dessa percentagem de utilização), e com o rendimento em campo que se sabe.


Ao invés, dos jogadores contratados esta época, só Vietto se pode considerar um titular indiscutível, enquanto Rosier vai cimentando esse estatuto - sobretudo graças às lesões constantes de Ristovski. Mas a verdade é que nenhum dos jogadores contratados esta época, com exceção de Vietto, conseguiriam lutar por um lugar no onze de 2017/18.

2017/18 foi um exemplo de como planear e preparar uma época. Seria bom que a atual direção percebesse isso. Em vez de demonizar tudo o que era feito no passado, poderia esforçar-se mais por perceber o que foi bem feito para tentar a sua replicação. Talvez assim tivesse conseguido melhor que este lindo embrulho que é o plantel 2019/20...